SINCRONIA E ANARQUIA

   Li um artigo bem legal ontem. Quando digo Universo, como voce o imagina? Provável que seja um lugar imenso, sem fim, sem começo e velho pra caramba. Ok? Só que não é assim. No texto que li, sim, física quântica, o Universo não é uma só coisa. Ele é um conjunto de pequenos Universos. Estranho? Não é mais estranho que tentar imaginar uma coisa sem começo e sem um fim.
  Tudo seria formado por hiper mega ultra minúsculas partículas. Até aí nada demais. Mas são coisas menores que um elétron. Menores que um bóson. E cada uma dessas coisas é em si um Universo. Bem...qual a diferença de chamar essas coisinhas de partículas ou de Universos?
 Um Universo tem suas próprias leis físicas. Então, fica claro, que cada fragmento obedece suas próprias leis. Parece absurdo pensar que logicamente tudo seria então uma anarquia onde cada coisa seguiria sua lei própria. Mas, é exatamente isso que essa teoria propõe. A ordem de tempo e espaço é apenas uma ilusão criada por nossa mente. Na verdade, o universo é um amálgama de mundos. Melhor explicando, para um pedaço de cortiça, tempo e espaço nada significam. Assim como para um coelho, nada vale naquilo que o relógio diz. Um ET que chegasse aqui teria imensas dificuldades em se adaptar, ou mesmo começar a entender o que significa tempo e espaço. Na multiplicidade de universos, tempo não existe e espaço é ilusório.
 Escrevo isso por um motivo. Há uns três meses estava andando na rua quando de súbito veio à minha mente a lembrança de uma menina. Nada tão especial ela. Nada me fizeram lembrar de seu rosto. Não a via a mais ou menos cinco ou seis anos. Eu andava e pensei nela. Pois bem...dois minutos depois a vejo parada na calçada, prestes a cruzar a rua, e topo com ela. Digo olá etc etc etc.
  Hoje, na academia, lembro do nada de um amigo que não vejo a mais de dez anos. Não era um grande amigo, apenas um colega. Então, ando até uma padaria, depois compro coisas num mercado e na avenida o vejo vindo em minha direção. Olá etc etc etc
  O que esses dois fatos têm a ver com o que escrevi sobre física? Tudo. Minha mente, universo próprio, já havia encontrado com eles em outro tempo. Ou, numa realidade paralela eu os vejo todo dia e tive um pequeno acesso à isso.
  Parece loucura? Mas é exatamente isso que a física anda estudando. A cada escolha nossa criamos mais uma realidade. Nossa mente não reconhece tempo e vive em passado e futuro como coisa normal.
  Escrevo mais outro dia.
  Ou já escrevi?

SHAMPOO - HAL ASHBY

   Deve ser engraçado um cara com menos de 40 anos ler o livro sobre drogas e a Hollywood dos anos 70, e depois ver este filme. Porque se fala muito dele no dito volume. Feito em 1975, ele foi uma hiper bilheteria. E tinha Robert Towne no roteiro, Ashby na direção e Warren Beatty como ator e produtor. Towne é colocado no Olimpo no livro por causa do roteiro de Chinatown, feito um ano antes. E Ashby era o diretor mais top depois de Altman. Ok? Mas aí o cara pega e vê este filme e deve ter um tremendo choque. Que diabos! É apenas um filme POP.
  Sim e não. É POP por ter uma direção correta, sem grandes lances, e é mais que aparenta ser, bem mais.
  O filme, que é todo Warren, no auge de sua fama de garanhão, é sobre a melancolia de um cabeleireiro que transa com todas as suas clientes ricas. Ele faz sexo 4 ou 5 vezes ao dia e começa a sentir que sua vida é um fracasso. Há um paralelo com o tempo em que o filme se passa, 1968...os jovens têm sexo e drogas, mas a eleição é ganha por Nixon.
  Beatty dá um show. Confuso, ruim de fala, ansioso, seu personagem é comovente. Inocente, um objeto bonito que todas usam. Julie Christie é seu grande amor, a namorada de um velho rico casado. Carrie Fisher é a teen que ele pega. E Goldie Hawn o caso atual. É um filme simples, mas também cheio de camadas. Vale por Warren correndo em sua moto de casa em casa tentando achar um modo de crescer.
  O fim é perfeito.

PORQUE SOME LIKE IT HOT NÃO É A MELHOR COMÉDIA DA HISTÓRIA

   QUANTO MAIS QUENTE MELHOR costuma ser sempre chamado de a melhor comédia já feita. É uma escolha automática, como dizer que Sgt Peppers é o melhor disco ou que Bob Dylan é o melhor letrista. Revejo o filme de Billy Wilder e não dou uma só risada. OK. Há comédias maravilhosas, como Levada Da Breca que não nos fazem rir. Melhor que isso, elas nos deixam felizes. E as assistimos com um sorriso na boca. Então confesso, sorri vendo Some Like It Hot. Mas não foi um grande sorriso. Há algo de errado no filme. O que?
  Jack Lemmon é provavelmente o melhor ator que Hollywood viu. Vencedor de 3 Oscars, ele era genial em drama e em comédia. E aqui ele tem mais um de seus hiper grandes momentos. Se voce olhar para ele durante todo o filme voce vai ficar estarrecido. As caras e trejeitos que ele faz travestido, o modo como ele começa a gostar de ser mulher, são de uma sedução de gênio. Jack Lemmon se delicia fazendo seu papel e nos delicia generosamente. Voz e corpo em absoluto domínio, ele chega ao pico dos atores. Até mesmo o dedão do pé está atuando. Não há um microssegundo de folga. Jack é um ator total.
  Tony Curtis não faz feio. Mais que isso, está bem. O simples fato de não ser engolido por Jack é já um mérito. Os dois casam bem. Tony é bonito e Jack é sem graça. Tony é sério e Jack é doido. Tony imita Cary Grant. Jack é Billy Wilder como ator. Falemos de Billy.
  A direção é veloz, os coadjuvantes são brilhantes e o roteiro é rico em reviravoltas. As falas são ótimas. Então onde o erro que me incomoda?
  Marilyn, claro. Billy odiava trabalhar com ela. MM era irresponsável e Billy amava o profissionalismo. Mas Wilder a aceitava pois dizia que o resultado compensava. Hummm....pois eu digo que MM estraga o filme. Ela não tem a verve para segurar o papel. Está ausente, aérea, e passa todo o filme me dando pena. Fica obvio que Billy a usa como espantalho. Ela é exposta em vestidos justos e transparentes que ressaltam sua falta de forma física. Sinto-a quase humilhada. Entenda, o filme não é machista. Tem até uma fala feminista de Jack Lemmon ao ser assediado no elevador. Mas MM é como um peso. Tony e Jack estão leves e felizes, então surge MM...e a comédia trava.
  Após a morte de MM tornou-se moda dizer que ela era boa atriz e mulher inteligente. Sinto, não era. SOME LIKE IT HOT é a prova de que MM era apenas uma estrela perdida. O filme precisava de uma comediante a altura de Jack. Os produtores escalaram uma loira em crise eterna. DUCK SOUP é a maior comédia da história.
  Sorry Jack.

OSCAR OLHO

  Uns 4 anos que o Oscar pouco me importa. Até hoje não sei quem ganhou o prêmio em 2019 ou 2018. Não é esnobismo. Apenas a constatação de que aquela não é mais a minha turma.
  Envelheci. Graças a Deus sobrevivi. E aquela gente me parece tão distante de meu mundo quanto um aborígene é distante de um inglês de 1900. Olho para seus rostos e sinto que eles são de uma outra galáxia. Nada neles me agrada. Vejo-os como bebês de foca. E eu sou um leão marinho.
  Se vestem mal. São fofos, bonzinhos, e completamente assexuados. Engraçado quase ninguém ter notado que a liberação absoluta do sexo fez com que o erotismo morresse. Eros vive na diferença e sem a aceitação da diferença ele se desfaz. Mas estou divagando...O Oscarolho não tem mais estrelas que nos fascinam. Apenas caras legais. Legais ao ponto de serem comuns. Vivemos a era do cara comum. Ser uma estrela cheira a fascismo, não é?
  Olho para aquela plateia e vejo todos iguais. Não há individualidade. Todos comem tofu. Todos lutam pelos índios. Todos fazem filmes com belas lições de moral e de humanidade. Brad Pitt nada tem de bonzinho. Mas lá, no Oscarolho, vigiado, faz de conta que ele é tão fofo como todos os outros.
  Se agradece a papai e mamãe. Se fala correndo. Se ajoelha diante de Meryl. Ninguém perde. É um mundo onde ninguém vence, apenas o Oscar vai para alguém. Como se fosse por acaso.
  Sem Jack. Sem Warren. Não importa mais.
  O Oscar é um prêmio da MTV para gente cinco anos mais velha. Tou fora.

Beat the Devil Trailer



leia e escreva já!

EU QUERO SER AMIGO DESSE CARA! BEAT THE DEVIL.

   Uma das coisas mais chatas de 2020 é que, apesar de ainda admirarmos alguns artistas, são poucos, ou quase nenhum, que adoraríamos passar ao lado três meses de férias bancadas por eles mesmos. Admiro Tarantino, mas não teria saco pra ficar 12 semanas vendo filmes dos anos 70 e conversando sobre artes marciais. Scorsese não me parece muito divertido e Wes Anderson é do tipo que me proporia brincar com trenzinhos. Muitos passariam esses meses de férias drogados e outros em clínicas de repouso. Talvez fosse divertido passar esses meses com Coppola na sua vinícola. Ou com Clint Eastwood. Posando de cowboy em Carmel. Mas não me parecem boas companhias. Os filhos chatos de Francis Ford logo iriam encher o saco e Clint deve estar cercado de enfermeiras.
   Três meses com John Huston seriam um sonho. Como era moda em seu tempo, artistas faziam coisas. Tinham a tal da "ansiedade por viver". Hoje há a tal "depressão por ter de estar vivo". John Huston criava atividades. Uma viagem ao Japão, caçar raposas na Irlanda, pescar no Pacífico, beber em Roma. Jogar em Cannes, andar pela França, ver toureiros na Espanha, nadar no Canadá. Ir em festas em Londres. E falir mais uma vez. Não importa, a vida é curta e só nos resta viver bem.
   Huston pegou uma grana de seu amigo, Bogart, e foi pra Itália em 1953 fazer Beat The Devil. Chamou Humphrey e ainda a big star Jennifer Jones. Mais Peter Lorre, Gina Lollobrigida, Robert Morley e botou atrás das câmeras Oswald Morris. Chegam todos na Itália prontos pra filmar. E descobrem que não há roteiro. A grana foi gasta com bebida, comida, hotel, jogo e mulheres. Huston chama um garoto de nome Truman Capote e juntos escrevem no hotel aquilo que será filmado no dia seguinte. O trabalho começa sem roteiro. Huston e Capote dão gargalhadas enquanto imaginam um bando de mentirosos tentando dar um golpe na Africa. Algo a ver com uranio. Bogart logo percebe que sua grana foi pro ralo. Briga com Huston e a amizade se desfaz. Os outros atores, sem terem posto dinheiro na coisa, aproveitam o sol italiano. O filme é lançado, a crítica odeia e o chama de lixo mal acabado e o público foge. Nos anos 80, três décadas depois, vira cult. É um dos meus 50 filmes favoritos.
   Demorou pra que eu gostasse dele. Só na quarta vez eu o aceitei. Na primeira achei-o chato. Na segunda incompreensível. Na terceira vi que era interessante. Na quarta me apaixonei. Ontem o revi. É uma  festa!
  Nada no filme é sério. Todos os personagens mentem uns para os outros. E Capote mais Huston mentem para os atores. A gente sente os dois rindo enquanto enrolam seus astros. É o mais malandro dos filmes. É sobre a mentira engraçada. É a alma de John Huston na tela.
  Três ladrões, Morley, Lorre e Ivor Barnard. Nunca no cinema houve um trio tão lamentável. Você ri olhando para eles. Lorre finge ser irlandês. Morley finge ser esperto. Ivor finge ser humano. Bogart é empregado deles. Finge ser Bogey. Jennifer mente o tempo todo. E finge para si mesma estar apaixonada por Bogey. Gina é a mulher de Bogey. Finge ser inglesa. E Jennifer tem um marido que finge ser rico. Pegue esses tipos e faça um roteiro. Minta para os atores. Minta para o produtor. Minta para o público que for ao cinema. E se divirta muito fazendo este carnaval em preto e branco.
  John Huston não foi o melhor diretor de cinema. Mas caramba! Não houve nenhum mais legal que ele.

HAJA EGO ORSON WELLES!!!!

   Lá vem o EGO gigantesco usando um ridículo sotaque irlandês. Orson Welles tinha uma vaidade tão imensa que ele só funciona quando sua personagem é tão ególatra quanto ele mesmo foi. Othelo, Macbeth, Kane. Aqui ele é apenas um marinheiro da Irlanda. Mas, claro, um marujo que dispensa grana e lutou na guerra civil da Espanha. E lá vai Orson com um sotaque irlandês grotesco se exibindo como rei da ética em um roteiro, dele mesmo, onde nada faz sentido algum.
  Casado na vida real com Rita Hayworth, que em 1948 era a maior estrela do cinema global, ele a coloca no filme apenas para poder ganhar dinheiro da Columbia, estúdio onde sua mulher era rainha. E faz este fiasco. Rita, mal utilizada, é uma vamp sem eira nem beira. Suas falas são banais e não cola a conclusão de sua personagem. Sem surpresas, tudo no filme é forçado.
  Ah! Mas o "pobre" Orson pode culpar o estúdio maldoso. Dá sempre pra chorar e dizer que a Columbia não deixou ele fazer o que queria. É por isso que admiro tanto Hawks e Huston. Fizeram o que queriam dentro dos estúdios e sem chorar nunca. Mas Orson...coitadinho! Tantos filmes ruins por culpa do meio que o massacrou...Bah! Não cola! Ele foi e é ídolo de quem se vê como "artista vítima do meio hostil", ou seja, 99% dos artistas medíocres e dos críticos que são cineastas frustrados. Orson era um ego inflado que só fazia coisas boas, Macbeth, quando o material era tão imenso quanto aquilo que ele imaginava ser.
  Lady from Shanghai poderia ser divertido se tivesse uma gota de humor. Mas Orson sempre se leva a sério. Então, essa sopa muito cheia de cebola, uma confusão de ricos neuróticos e um marujo que se vê dentro da vida deles, é uma chatice sem fim. De bom só a fotografia de Stanley Cortez. Aliás, Orson sempre soube que um bom fotógrafo salva metade de um filme. A outra metade um roteiro mal escrito e um ator egocêntrico se encarregam de aniquilar.

KIRK DOUGLAS

   Não havia ator melhor para expressar raiva. Raiva contida, raiva que explode. Seja fazendo um lutador de box, um escravo ou um cowboy, Kirk nos fazia admirar a raiva. Foi além de tudo, na vida pessoal, um inconformado. Além de desafiar proibições, comprou os direitos de UM ESTRANHO NO NINHO ainda nos anos 60, e se viu depois velho demais para o protagonizar. Seu filho Michael o produziu então. E foi o que foi.
  Kirk era bonito sem parecer delicado, fazia humor e jamais perdia a elegância e foi uma estrela sem perder a dignidade. Uma estrela...para quem chama atores como Benedict ou Adam de estrelas, chega a ser humilhação pensar em Kirk. Ele é uma estrela de 8 décadas! De um tempo em que uma estrela lotava salas independente de que filme fizesse. O nome no cartaz arrastava multidões. Estrelas de hoje não são assim. Mesmo Brad ou Leo dependem do tipo de filme que fazem. Seus nomes não garantem lucro.
  Meu pai adorava Kirk. E via qualquer filme que tivesse seu nome. Wayne, Kirk e Mitchum, esses eram seus favoritos. Douglas está no meu top dez. Seu filho Michael carrega um pouco de seu carisma. Mas só um pouco. Foi uma longa vida. Agora ele se une aqueles de seu tamanho: Bogey, John, Gary Cooper, Stewart. Burt Lancaster, com quem ele fazia uma dupla perfeita.
  Caramba! Eles eram gigantes...

Adam's Apple - Aerosmith - By DLSS84



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VOCÊ É AQUILO QUE VOCÊ LÊ, OU PORQUÊ EM 1975 A MELHOR COISA DO ROCK NÃO ERA PATTI SMITH MAS FAZIA DE CONTA QUE ERA.

   Ana Maria Bahiana. José Emilio Rondeau. Pepe Escobar. E Zeca Jagger ( Ezequiel Neves ). Zeca era o melhor. E eu amava o cara. Mas, Jeca que eu era, algo em mim, inseguro pra caramba, queria ser alta classe-intelectual. Então os outros críticos me diziam: O rock tá um lixo e só Patti Smith conta. Patti e Bruce. Mas muito mais Patti. Nos anos seguintes eles diriam que o Clash era a maior banda da história do rock e que Stones, Led, Dylan estava mortos e esquecidos. Bem....eu acreditei neles. Eu queria ser chique. Então me obrigava a escutar o que eles achavam relevante: Talking Heads. Gang of Four. Elvis Costello. Clash Clash e Clash.
 Zeca elogiava esses caras. Mas ele dizia, só ele, que os Stones estavam vivos e bem. Lendo os críticos cabeça, eu achava que o Led vendia uns 2000 discos e olhe lá. E que as paradas eram dominadas pelo Joy Division e Bow Wow Wow. Minha cabeça tava feita. Muito bem formatada.
 Bem mais tarde eu me informei melhor e vi que entre 1975 e 1980 o que mais vendia na Inglaterra era Queen e Iron Maiden, Dire Straits e bandas de ska. Elton John e das mais novas, The Police. Tudo o que eles mais desprezavam. E diziam, forçando a barra, que estavam no gelo, esquecidas. Estranhei quando em 1981 fui no Morumbi e vi 100 mil pessoas delirando com Freddie Mercury. Mas, eles tinha a resposta pronta: só no Brasil atrasado o Queen enchia estádio. Deus, quanta mentira! No Rock in Rio falaram que só aqui Iron e AC DC existiam. É 2020 e eles ainda lotam arenas. Já Nina Hagen e B 52s...por onde andarão?
 Fui enganado. Muita gente foi. Nos tempos pré internet, um jornalista era a lei. E se ele queria nos fazer crer que Bob Dylan já era ( em 1978 ), a gente engolia como fato. Elton John tava esquecido pelos fãs e relevante era Boy George. Pois é...
 Escrevo isso após ouvir de novo Toys in The Attic e dizer aqui e agora, sem vergonha nenhuma, que em 1975 o Aerosmith tinha lançado um disco perfeito. Toys não tem uma só faixa menos que ótima e em 2020 continua a ser um sincero convite à alegria, ao sexo e a sacanagem geral. Como diria Zeca, é descaralhante. Os críticos metidos nem se deram ao trabalho de ouvir. Estavam desvendando Van der Graaf Generator e Warren Zevon. Enquanto isso Joe Perry detonava riffs perfeitos e Tyler esburacava mentes e cinturas. E vendiam toneladas. Em 1975 era Aerosmith nos USA e Queen nos UK. Mas fazia de conta que não.
 O tempo mostra a verdade. 45 anos depois você sabe de quem o mundo lembra.
 PS: a melhor banda de 1975 era o Roxy Music. Os tais críticos nunca falaram do Roxy. Zeca sim. Uma crítica dele no Jornal da Tarde mudou minha vida.

HURRICANE, JOHN FORD. QUEM É O MELHOR DIRETOR DA HISTÓRIA DO CINEMA AMERICANO?

   A cada ano que o século XXI ganha, menos John Ford é lembrado. Politicamente correto, feminismo e anti-individualismo não casam bem com o cinema de Ford. Seu cinema é masculino. E elogia o indivíduo dentro da comunidade. Sim, a coisa é complexa. Ford ama o herói como ser à parte do mundo comum. Mas ao mesmo tempo, ele elogia a família, a pequena comunidade, e neste filme, a tribo.
  Produzido por Samuel Goldwyn em 1937, este imenso sucesso, tem efeitos especiais que ainda hoje não passam vergonha. Quando o furacão chega ele ainda nos emociona. Mas antes há uma história, e como o filme é de Ford, a narrativa é o centro e o motivo do filme existir.
  Há uma ilhota nos mares do sul. Nela vive uma tribo de nativos. E a França é a força colonizadora da ilha. Vemos a alegria da vida lá. Mas logo acontece um erro. Esse erro repercute em mais erros. E tudo sai de controle. O filme, que parecia ser apenas um agradável passeio turístico, vira uma tragédia sobre a injustiça e por fim uma aventura típica dos anos 30 : ação pacas.
  Jon Hall é o herói. O bom selvagem. Corta o coração ver o quanto ele é vítima da civilização. Dorothy Lamour é sua esposa. O vilão é Raymond Massey, ou seja, um vilão odiável. E temos ainda Thomas Mitchell fazendo um médico bêbado e desiludido e Mary Astor como a esposa do vilão. Não é preciso dizer que todos estão ótimos. Hollywood em seu sistema de estúdios errava pouco em casting. Cada ator fazia seus 3 ou 4 filmes por ano e se especializava em um tipo de personagem. Virava dono do tipo. Ver esse filme hoje é uma experiência invulgar. Começa devagar, mas em 10 minutos voce já está dentro da fantasia.
  Quanto ao melhor diretor americano...Creio que hoje Orson Welles ganharia se a eleição fosse entre críticos e cineastas. Talvez até mesmo Hawks ficaria à frente de Ford. Entre o público, os mais informados talvez votassem em Scorsese. Ou Copolla. Já o resto elegeria Fincher ou Tarantino. Ford não.
  Não me arrisco a votar. Ao contrário da Inglaterra ou da França, onde as escolhas são mais fáceis, os EUA têm tantos cineastas que viveram dez ou vinte grandes anos, que fica duro escolher.

UM FILME RELEMBRANDO UM PASSADO QUE NUNCA HOUVE

   Pra muita gente nos EUA, o melhor filme de Richard Linklater é ainda o primeiro que ele dirigiu, este DAZED AND CONFUSED. Eu o vi pela primeira vez em 1998, na TV. Me causou espanto um filme tão despojado conseguir me seduzir. O tema é simples ao extremo, fala do último dia de aula de um grupo de alunos em 1976. Mas, ao contrário do que se espera, não é mais um filme piada, sobre jovens tarados ou nerds azarados. Ele procura ser "vida real". Não é engraçado, mas também não é drama.
  Revi este filme mais duas vezes já neste século. Sempre gostei. Muito. E ontem, mais uma vez, visitei aquele grupo de jovens. Estranho eu nunca ter notado o que notei ontem...
  O filme se passa no dia 28 de maio de 1976. A trilha sonora, excelente, tem Foghat, Alice Cooper, War, Dr. John, Kiss, Aerosmith ( era a nova banda do momento ) e um soberbo etc. As roupas são corretas: jeans muito justos com bocas muito largas, camisetas curtas, cabelos sem corte. Os carros estão lá: Fords e Chevys imensos. Mas...NÃO É UM FILME SOBRE 1976. É UM FILME SOBRE OS ANOS 90. Assim como o último filme de Tarantino se passa em 1968, mas fala sobre 2019, este filme de Linklater, visto hoje, nos dá saudade de 1995 e nos transporta ao dia 26 de maio de....1996.
  Quando ele começa eu logo penso: Não estou gostando mais deste filme...1976 não era assim...não havia tanta maconha...as pessoas não eram tão politicamente corretas....as gírias eram outras...e esses atores são velhos demais para esses papeis!!!
  Sinto um certo desconforto. Tudo parece fake. Isso dura cerca de 15 minutos, mas então a poesia seca do filme reaparece, e eu volto a gostar do que vejo. O filme é tão banal, tão simples, tão sincero, que não há como não se deixar pegar. Mas um novo ponto de vista se instaura: Por mais que Linklater queira falar sobre 1976, ele está nos anos 90. Não há como situar-se lá outra vez. E se vemos filmes realmente feitos em 76 vemos que nada se parece com Dazed and Confused. Há aqui a consciência de se estar em 90. Olha-se para 76 com um carinho que em 1976 não havia. Peter Frampton era brega. Era odiado. Hoje ele é cool.
  O filme é bom. É ótimo. É o American Graffitti da sua época. Os caras bebem cerveja. Beijam. Andam de carro. E fumam maconha. Ben Affleck, Mila Jovovich, Parker Posey aparecem no filme. Mas quem o rouba é Mathew McConaughey. Voce ouve ele falar "All Right", é basicamente sua única fala, e sente que uma estrela nasce ali. Ele faz o papel do cara que largou a escola pra trabalhar. Mega cool, é um texano que jamais fica nervoso e nunca tem pressa. Vence no bilhar e ganha as meninas. Mas parece não estar nem aí pra nada.
  Os anos 90 foram uma tentativa, feita por uma geração nascida entre 1962-1972, de reviver a década de 70. Tanto o rock de Seattle, como as bandas inglesas tipo Supergrass ou Blur, procuravam recuperar aquilo que eles imaginavam ter sido a década do hedonismo. Filmes de caras como Soderberg ou Tarantino bebiam na fonte do cinema B de 1971. Revisto ou escutado hoje, nada dos anos 90 lembra os anos 70. Nem mesmo o Aerosmith de 1998 se parece com o Aerosmith de 1978.
  Dazed and Confused é uma das mais bonitas tentativas de dar vida a um tempo que só existiu na imaginação saudosista. Os anos 70 são Tony Manero entrando numa disco. E se esse personagem de John Travolta for visto como cômico ou heroico...bem...é sinal de que a coisa se perdeu.

JACK WHITE E SEU LAZARETTO

   O disco é ótimo. Rock cheio de garra etc etc etc. Criativo. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Espero conseguir falar com clareza. Vamos lá.
  Jack sofre a mesma influência que eu sofri: um cara branco que cresceu ouvindo rock tradicional e ao mesmo tempo punk e tudo que foi criado nos anos 80 em diante. É um caldeirão imenso que se inicia com o blues rural e chega ao eletrônico. Um cara com uma cabeça boa recebe toda essa influência, não há como ser diferente. Isso é ótimo, mas há um lado perverso nessa história. O medo de ser comum.
  O disco, Lazaretto, tem composições excelentes, é rock pesado, é blues, é country. E em todas essas faixas, Jack White dá um jeito de as destruir. É como se ele lembrasse dos milhares de discos ouvidos e pensasse: Opa! Esta canção tá muito comum! Vamos inventar! ...Então o que ele faz? Quebra a melodia com barulho, dá um break e insere ruídos estranhos, destrói a harmonia, desfaz o refrão. Há um motivo para isso. O desejo de usar tudo aquilo que se ouviu, todas as influências, todo o ambiente.
  Fazer rock, hoje, é uma luta perdida contra o plágio. É quase impossível compor rock sem que se perceba de onde aquilo foi chupado. Geralmente de forma inconsciente. Quando o autor é ambicioso, ele tenta bravamente obter alguma originalidade. Então insere elementos de funk, jazz ou rap. Mas mesmo essas misturas já são datadas. Então que se faça ruído. Que se quebre a linda canção country ou o blues rural. Mixagem torta. Corte absurdo.
  O disco é lindo.