Adam's Apple - Aerosmith - By DLSS84



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VOCÊ É AQUILO QUE VOCÊ LÊ, OU PORQUÊ EM 1975 A MELHOR COISA DO ROCK NÃO ERA PATTI SMITH MAS FAZIA DE CONTA QUE ERA.

   Ana Maria Bahiana. José Emilio Rondeau. Pepe Escobar. E Zeca Jagger ( Ezequiel Neves ). Zeca era o melhor. E eu amava o cara. Mas, Jeca que eu era, algo em mim, inseguro pra caramba, queria ser alta classe-intelectual. Então os outros críticos me diziam: O rock tá um lixo e só Patti Smith conta. Patti e Bruce. Mas muito mais Patti. Nos anos seguintes eles diriam que o Clash era a maior banda da história do rock e que Stones, Led, Dylan estava mortos e esquecidos. Bem....eu acreditei neles. Eu queria ser chique. Então me obrigava a escutar o que eles achavam relevante: Talking Heads. Gang of Four. Elvis Costello. Clash Clash e Clash.
 Zeca elogiava esses caras. Mas ele dizia, só ele, que os Stones estavam vivos e bem. Lendo os críticos cabeça, eu achava que o Led vendia uns 2000 discos e olhe lá. E que as paradas eram dominadas pelo Joy Division e Bow Wow Wow. Minha cabeça tava feita. Muito bem formatada.
 Bem mais tarde eu me informei melhor e vi que entre 1975 e 1980 o que mais vendia na Inglaterra era Queen e Iron Maiden, Dire Straits e bandas de ska. Elton John e das mais novas, The Police. Tudo o que eles mais desprezavam. E diziam, forçando a barra, que estavam no gelo, esquecidas. Estranhei quando em 1981 fui no Morumbi e vi 100 mil pessoas delirando com Freddie Mercury. Mas, eles tinha a resposta pronta: só no Brasil atrasado o Queen enchia estádio. Deus, quanta mentira! No Rock in Rio falaram que só aqui Iron e AC DC existiam. É 2020 e eles ainda lotam arenas. Já Nina Hagen e B 52s...por onde andarão?
 Fui enganado. Muita gente foi. Nos tempos pré internet, um jornalista era a lei. E se ele queria nos fazer crer que Bob Dylan já era ( em 1978 ), a gente engolia como fato. Elton John tava esquecido pelos fãs e relevante era Boy George. Pois é...
 Escrevo isso após ouvir de novo Toys in The Attic e dizer aqui e agora, sem vergonha nenhuma, que em 1975 o Aerosmith tinha lançado um disco perfeito. Toys não tem uma só faixa menos que ótima e em 2020 continua a ser um sincero convite à alegria, ao sexo e a sacanagem geral. Como diria Zeca, é descaralhante. Os críticos metidos nem se deram ao trabalho de ouvir. Estavam desvendando Van der Graaf Generator e Warren Zevon. Enquanto isso Joe Perry detonava riffs perfeitos e Tyler esburacava mentes e cinturas. E vendiam toneladas. Em 1975 era Aerosmith nos USA e Queen nos UK. Mas fazia de conta que não.
 O tempo mostra a verdade. 45 anos depois você sabe de quem o mundo lembra.
 PS: a melhor banda de 1975 era o Roxy Music. Os tais críticos nunca falaram do Roxy. Zeca sim. Uma crítica dele no Jornal da Tarde mudou minha vida.

HURRICANE, JOHN FORD. QUEM É O MELHOR DIRETOR DA HISTÓRIA DO CINEMA AMERICANO?

   A cada ano que o século XXI ganha, menos John Ford é lembrado. Politicamente correto, feminismo e anti-individualismo não casam bem com o cinema de Ford. Seu cinema é masculino. E elogia o indivíduo dentro da comunidade. Sim, a coisa é complexa. Ford ama o herói como ser à parte do mundo comum. Mas ao mesmo tempo, ele elogia a família, a pequena comunidade, e neste filme, a tribo.
  Produzido por Samuel Goldwyn em 1937, este imenso sucesso, tem efeitos especiais que ainda hoje não passam vergonha. Quando o furacão chega ele ainda nos emociona. Mas antes há uma história, e como o filme é de Ford, a narrativa é o centro e o motivo do filme existir.
  Há uma ilhota nos mares do sul. Nela vive uma tribo de nativos. E a França é a força colonizadora da ilha. Vemos a alegria da vida lá. Mas logo acontece um erro. Esse erro repercute em mais erros. E tudo sai de controle. O filme, que parecia ser apenas um agradável passeio turístico, vira uma tragédia sobre a injustiça e por fim uma aventura típica dos anos 30 : ação pacas.
  Jon Hall é o herói. O bom selvagem. Corta o coração ver o quanto ele é vítima da civilização. Dorothy Lamour é sua esposa. O vilão é Raymond Massey, ou seja, um vilão odiável. E temos ainda Thomas Mitchell fazendo um médico bêbado e desiludido e Mary Astor como a esposa do vilão. Não é preciso dizer que todos estão ótimos. Hollywood em seu sistema de estúdios errava pouco em casting. Cada ator fazia seus 3 ou 4 filmes por ano e se especializava em um tipo de personagem. Virava dono do tipo. Ver esse filme hoje é uma experiência invulgar. Começa devagar, mas em 10 minutos voce já está dentro da fantasia.
  Quanto ao melhor diretor americano...Creio que hoje Orson Welles ganharia se a eleição fosse entre críticos e cineastas. Talvez até mesmo Hawks ficaria à frente de Ford. Entre o público, os mais informados talvez votassem em Scorsese. Ou Copolla. Já o resto elegeria Fincher ou Tarantino. Ford não.
  Não me arrisco a votar. Ao contrário da Inglaterra ou da França, onde as escolhas são mais fáceis, os EUA têm tantos cineastas que viveram dez ou vinte grandes anos, que fica duro escolher.

UM FILME RELEMBRANDO UM PASSADO QUE NUNCA HOUVE

   Pra muita gente nos EUA, o melhor filme de Richard Linklater é ainda o primeiro que ele dirigiu, este DAZED AND CONFUSED. Eu o vi pela primeira vez em 1998, na TV. Me causou espanto um filme tão despojado conseguir me seduzir. O tema é simples ao extremo, fala do último dia de aula de um grupo de alunos em 1976. Mas, ao contrário do que se espera, não é mais um filme piada, sobre jovens tarados ou nerds azarados. Ele procura ser "vida real". Não é engraçado, mas também não é drama.
  Revi este filme mais duas vezes já neste século. Sempre gostei. Muito. E ontem, mais uma vez, visitei aquele grupo de jovens. Estranho eu nunca ter notado o que notei ontem...
  O filme se passa no dia 28 de maio de 1976. A trilha sonora, excelente, tem Foghat, Alice Cooper, War, Dr. John, Kiss, Aerosmith ( era a nova banda do momento ) e um soberbo etc. As roupas são corretas: jeans muito justos com bocas muito largas, camisetas curtas, cabelos sem corte. Os carros estão lá: Fords e Chevys imensos. Mas...NÃO É UM FILME SOBRE 1976. É UM FILME SOBRE OS ANOS 90. Assim como o último filme de Tarantino se passa em 1968, mas fala sobre 2019, este filme de Linklater, visto hoje, nos dá saudade de 1995 e nos transporta ao dia 26 de maio de....1996.
  Quando ele começa eu logo penso: Não estou gostando mais deste filme...1976 não era assim...não havia tanta maconha...as pessoas não eram tão politicamente corretas....as gírias eram outras...e esses atores são velhos demais para esses papeis!!!
  Sinto um certo desconforto. Tudo parece fake. Isso dura cerca de 15 minutos, mas então a poesia seca do filme reaparece, e eu volto a gostar do que vejo. O filme é tão banal, tão simples, tão sincero, que não há como não se deixar pegar. Mas um novo ponto de vista se instaura: Por mais que Linklater queira falar sobre 1976, ele está nos anos 90. Não há como situar-se lá outra vez. E se vemos filmes realmente feitos em 76 vemos que nada se parece com Dazed and Confused. Há aqui a consciência de se estar em 90. Olha-se para 76 com um carinho que em 1976 não havia. Peter Frampton era brega. Era odiado. Hoje ele é cool.
  O filme é bom. É ótimo. É o American Graffitti da sua época. Os caras bebem cerveja. Beijam. Andam de carro. E fumam maconha. Ben Affleck, Mila Jovovich, Parker Posey aparecem no filme. Mas quem o rouba é Mathew McConaughey. Voce ouve ele falar "All Right", é basicamente sua única fala, e sente que uma estrela nasce ali. Ele faz o papel do cara que largou a escola pra trabalhar. Mega cool, é um texano que jamais fica nervoso e nunca tem pressa. Vence no bilhar e ganha as meninas. Mas parece não estar nem aí pra nada.
  Os anos 90 foram uma tentativa, feita por uma geração nascida entre 1962-1972, de reviver a década de 70. Tanto o rock de Seattle, como as bandas inglesas tipo Supergrass ou Blur, procuravam recuperar aquilo que eles imaginavam ter sido a década do hedonismo. Filmes de caras como Soderberg ou Tarantino bebiam na fonte do cinema B de 1971. Revisto ou escutado hoje, nada dos anos 90 lembra os anos 70. Nem mesmo o Aerosmith de 1998 se parece com o Aerosmith de 1978.
  Dazed and Confused é uma das mais bonitas tentativas de dar vida a um tempo que só existiu na imaginação saudosista. Os anos 70 são Tony Manero entrando numa disco. E se esse personagem de John Travolta for visto como cômico ou heroico...bem...é sinal de que a coisa se perdeu.

JACK WHITE E SEU LAZARETTO

   O disco é ótimo. Rock cheio de garra etc etc etc. Criativo. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Espero conseguir falar com clareza. Vamos lá.
  Jack sofre a mesma influência que eu sofri: um cara branco que cresceu ouvindo rock tradicional e ao mesmo tempo punk e tudo que foi criado nos anos 80 em diante. É um caldeirão imenso que se inicia com o blues rural e chega ao eletrônico. Um cara com uma cabeça boa recebe toda essa influência, não há como ser diferente. Isso é ótimo, mas há um lado perverso nessa história. O medo de ser comum.
  O disco, Lazaretto, tem composições excelentes, é rock pesado, é blues, é country. E em todas essas faixas, Jack White dá um jeito de as destruir. É como se ele lembrasse dos milhares de discos ouvidos e pensasse: Opa! Esta canção tá muito comum! Vamos inventar! ...Então o que ele faz? Quebra a melodia com barulho, dá um break e insere ruídos estranhos, destrói a harmonia, desfaz o refrão. Há um motivo para isso. O desejo de usar tudo aquilo que se ouviu, todas as influências, todo o ambiente.
  Fazer rock, hoje, é uma luta perdida contra o plágio. É quase impossível compor rock sem que se perceba de onde aquilo foi chupado. Geralmente de forma inconsciente. Quando o autor é ambicioso, ele tenta bravamente obter alguma originalidade. Então insere elementos de funk, jazz ou rap. Mas mesmo essas misturas já são datadas. Então que se faça ruído. Que se quebre a linda canção country ou o blues rural. Mixagem torta. Corte absurdo.
  O disco é lindo.

On Her Majesty's Secret Service (1969) - Official Trailer - George Lazen...



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JAMES, JAMES BOND: UMA QUESTÃO DE MÚSICA

   Andei revendo os 10 primeiros filmes de James Bond. Todos são pelo menos divertidos, alguns se tornaram icônicos, outros são ridículos. Mas como disse, sempre divertidos.
  O primeiro, DR NO, é apenas uma aventura de espionagem inglesa feita na Jamaica. Um monte de coisas que se tornaram "trademark" da série ainda não existiam. Mas já está lá o nome de John Barry na trilha sonora, e creia, muito do sucesso de Bond se deve a sua música. Este primeiro filme é basicamente um filme cheio de perseguições de carros e os cenários, outra marca da série, também já possuem a assinatura de Ken Adam. O super macho Alfa, Sean Connery, diz presente. Todas as mulheres caem aos pés dele. TODAS. Em 1962 ele é o sonho assumido de todo homem. O mega seguro. O ultra poderoso. O invulnerável. Bond é peludo, bebe, fuma e pensa em transar 24 horas por dia. No segundo filme, MOSCOU CONTRA 007, from russia with love, algumas marcas nascem. A canção de abertura feita para ser um hit, as armas originais, o carro, e principalmente o hiper vilão. Talvez seja este o mais hitchcockiano da série inteira. Tem clima. E possui um clima de perversão. Pra quem não sabe, dizem que a ideia da série surgiu quando Ian Fleming viu INTRIGA INTERNACIONAL de Hitch, no cinema, em 1958. E que o sonho de Ian era ver Cary Grant como Bond. ( Penso que seria perfeito. Assim como o Bond ideal de 2000 seria George Clooney ).
  GOLFINGER é considerado o ápice da série inteira. Austin Powers bebe quase tudo aqui. É um filme perfeito mas não é meu favorito. Depois temos THUNDERBALL e aquele que se passa no Japão, SÓ SE VIVE DUAS VEZES, que tem a maravilhosa canção de abertura com Nancy Sinatra. Este é o mais machista de todos, e também é onde começa a auto-gozação que quase matou a série. De todo modo, Sean Connery quis dar voos mais artísticos e saiu da série. Ele era então, 1967, o ator mais famoso e mais bem pago do mundo.
  A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE traz um ator desconhecido, o australiano George Lazenby. Ele é tudo que Sean não era, desajeitado, inseguro, parece um garoto caipira brincando de 007. Mas o filme, que foi malhado na sua época, é hoje considerado um dos melhores. Foi o que mais gostei de rever. As cenas de ação são ótimas e Bond se torna humano. Ele até mesmo chora. Sean Connery retorna mais uma vez e temos a era de Roger Moore. Bond deixa de ser Bond. Ele se torna Roger Moore. E Roger é sempre irônico. O primeiro Bond de Roger, LIVE AND LET DIE tem trilha não de John Barry, mas sim de George Martin, ele mesmo, e é um desastre. Se voce quer saber o quanto uma trilha sonora ruim pode destruir um filme, veja este. Mas ainda pior foi em 1983, quando Sean Connery voltou ao personagem numa produção americana. NUNCA DIGA NUNCA DE NOVO. Sem poder contar com a equipe inglesa, deram a música para Michel Legrand!!!! Deus! Quem teve essa ideia? James Bond em ritmo de romance francês, em clima disco, em ritmo de boate...tudo menos o apropriado. Uma piada sem graça.
  Foi ouvindo essas duas trilhas que me toquei da imensa importância da música em 007.

MASSIVE ATTACK MEZZANINE, E CERTOS CLIMAS ANGÉLICOS

   Prove ouvir Mezzanine vendo na tela de sua TV o filme de Victor Sjostrom, A Carruagem Fantasma. O filme é silencioso, de 1920, sim, cem anos. Observe como voce terá a impressão de que o som dos Massive Attack foi escrito e pensado pra esse filme. Isso porque é a mesma sensibilidade que orquestra as duas obras:
  O inefável, pequenos ruídos que nascem e desaparecem, sombras que escondem algo que não pode ser visto. Não será. O disco, de fins do século XX, dialoga com o filme, do começo do mesmo século.
  Foi o século que cumpriu obediente tudo o que o século XIX queria: o espírito e suas coisas foram tiradas da luz e conduzidos à sombra. Lá ficaram, produzindo ecos e sombras.
  Todo o album bebe em Low, o famoso lado B de Bowie. Mas também é Kraftwerk. Trans Europe Express. E se mira em NEU! e mais algumas luzes obscuras e que pirilampam por aí. Foi um ápice soturno e que, para surpresa de todos, deu em nada. No século XXI, tempo histérico e que abomina o vazio e o silêncio, o Massive Attack não tem vez. Este século é iluminado, colorido, estridente, veloz, e absolutamente tolo. O som de Mezzanine flerta com o silêncio, o vazio e o vácuo. Tudo o que um cara de 2020 mais teme.
  Há uma profunda elegância neste album. O menos que é mais e um mais que sempre parece menos. Cada toque de percussão faz nossa cabeça tremer, mas essa cadência é incompleta. Cada uma de suas canções é vazia de conclusão. É um som que fica suspenso em suspense. Não é gótico, pois o gótico pesa como pedra, é antes uma sombra, ou a luz na tela de um filme silencioso. Leve como a alma de um inseto.
  Inertia Creeps sintetiza o disco.
  

TOM JONES - HENRY FIELDING, O PAI DO ROMANCE

   Antes houve Robinson Crusoe, mas Defoe escreveu uma reportagem romanceada. É quase um manual de sobrevivência. E tem o estilo do jornal. Depois veio Richardson, mas a forma é ainda a da troca de cartas, da confidência sentimental, e creia, ele é hoje ilegível. Nesse ponto, na Inglaterra de 1740, um escritor já podia viver da pena. Incrível. Já existia um público leitor grande o bastante para enriquecer editores e livreiros. E para sustentar um autor. Henry Fielding surge como o primeiro verdadeiro romancista moderno. Ele cria histórias fictícias, e usa o formato que conhecemos até hoje como romance. Mais importante ainda, ele se vê e fala com o leitor como um escritor. Fielding nunca esquece e nos deixa esquecer deste fato: isto é ficção e eu sou o dono do que estou inventando.
  O livro é uma sátira aos costumes ingleses, à moral e ao próprio modo britânico de ser. E Fielding conversa conosco todo o tempo. Como depois faria Machado de Assis, que adorava este livro, Fielding comenta, explica, divaga, dá opiniões. Ler Tom Jones é como ouvir um amigo contar uma história enquanto se bebe um Porto e se fuma um cachimbo. É um desses raros livros amigo, companheiro. Sentimos o autor na sala. Ele vive ao nosso lado enquanto lemos.
  Há quem diga ser este o grande livro inglês da história. Penso que não. Ao contrário da França ou da Alemanha, literaturas que cresceram ao redor de duas ou três forças centrais, a escrita inglesa sempre negou o centro, sempre quis ser multifacetada, variada, desfocada. Talvez o surgimento de um grande mercado logo em seu começo tenha produzido essa variedade de produtos. De todo modo, se Tom Jones não pode ser a obra central numa cultura que nega ter uma obra central, é ele um dos pilares da história preciosa dessa literatura que é sempre realista mesmo quando pensa ser fantasiosa.
  Perfeitamente legível após 3 séculos.

ROGER SCRUTTON

   Roger Scrutton morreu ontem e este texto é escrito sob a influência de um artigo lido ontem. Enviado por um amigo, ele me fez perceber uma contradição no pensamento de Scrutton: ele é conservador, mas possui ao mesmo tempo o ressentimento típico da esquerda. Explico para voce...
  No pensamento da esquerda, como dito pelo próprio Scrutton, há a dor de não se sentir confortável dentro do mundo como ele é. Daí o desejo de o destruir. O ressentimento é aquele de quem vive imerso numa cultura vista como repressora, tola e profundamente enganosa. Scrutton tinha esse sentimento dentro de si, e por isso era um conservador ilegítimo. Várias vezes ele fala do desencanto da vida, da derrota do mundo ideal, do sentimento de fim de época. Ora, nada mais romântico e portanto menos conservador que se sentir ausente da realidade, derrotado, fora de lugar. Roger Scrutton era então um conservador pessimista, algo que nunca existiu.
  Isso se dava por dois motivos: Scrutton duvidava da existência de Deus. E pior, não conseguia crer na eternidade da alma. Um conservador sem Deus e sem alma imortal perde toda sua confiança. O mundo o ameaça e ele se vê preso dentro do mundo inseguro da esquerda. 
  Nada irrita mais um socialista que a confiança risonha do conservador. Para o conservador, o mundo é o que é e deve ser como é. Isso porque ele foi feito por Deus e Deus faz o que deve ser feito. Pobres serão socorridos, o mal será combatido, mas tudo dentro da fé. O conservador não quer destruir o mundo, não deseja reescrever a história, ele pensa em conservar e terminar a obra de Deus. Sua confiança vem de acreditar ser imortal e jamais duvida de que seu pensamento é, portanto, eterno. Chesterton e Burke possuíam essa risonha confiança. Scrutton nunca. Incapaz de crer, ele baseia toda sua fé no amor ao lar inglês, aos costumes antigos, às velhas comunidades. É pouco. E ele sabe disso.
  De todo modo, ler Scrutton, foi e é, para mim, um imenso prazer. Sua escrita é sedutora, e se ele não é um conservador autêntico, ele abre nossos olhos colonizados, para a existência de todo um universo intelectual não explorado. Crescemos neste trópico crendo que a única verdade vivia na esquerda e que o pensamento da direita seria sempre raso, tolo, pouco relevante. Scrutton me fez perceber que na realidade o pensamento da esquerda se tornou automático, preguiçoso, ultrapassado. A esquerda não pensa mais, ela apenas repete slogans.
  Meu sentimento de coração sempre foi conservador porque eu sempre vi a história como a saga de grandes homens e não um movimento exato e constante. Assim como prefiro consertar e reparar que destruir e recomeçar. A tara latino americana pelo eterno recomeço é o que nos faz pobres e vazios de história. Mas, como Scrutton, tenho imensa dificuldades com Deus e a eternidade. Não consigo ter a tranquila fé do bom conservador. A certeza. O sentimento de que tudo é para sempre e tudo é como deve ser.
  Espero que Chesterton esteja certo. E que Scrutton tenha encontrado a eternidade. E esteja dando gargalhadas vendo, afinal, que Marx e Foucault eram apenas dois invejosos.
  Eles eram. Eles são.

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD...QUENTIN TARANTINO

   1968 teve 2001 de Kubrick. Teorema de Pasolini. Planeta dos Macacos de Schaffner. E O Bebê de Rosemary de Polanski. O polonês era o diretor mais quente entre os bacanas. E sua esposa, Sharon Tate, era vista como sex symbol certo para os anos 70. Sharon havia feito apenas uns 4 filmes. Polanski e Hollywood eram totalmente apaixonados por ela. E então, grávida, ela é morta em casa, num ritual satânico feito por Charles Mason e sua família. ( A família era um bando de teens hippies ). O filme não é sobre isso.
  O filme é sobre o fim de uma era. Um tempo que nasceu mais ou menos em 1956 e durou até 1968. São os anos 60 inocentes. Batman na TV. Séries de faroeste ( chegou a ter 42 em produção ao mesmo tempo ). Tempo de Monkees. Beatles sem brigas. James Bond de Sean Connery. Tarantino ama esse tempo. Onde ainda se produziam os últimos filmes de Hawks. Onde havia dinheiro para aventuras de John Sturges, John Frankenheimer, ou policiais classudos com Steve McQueen.
  Em 1968 tudo mudou. Os hippies e as drogas em porções elefantinas vieram com tudo e a inocência se foi. As roupas também ficaram mais feias. As pessoas ficaram mais feias. Sharon Tate é a inocência que se vai. Trucidada com um filho que nunca vai nascer.
  Tem mais. Leo di Caprio é o ator feito no fim dos anos 50 e que em 68, provavelmente ainda na fase dos 35 anos, já é tratado como um vovô. Ele não entende os novos tempos, não quer entender e sabe que está acabado. Brad Pitt, magnífico, é o cara que anuncia os anos 70: ele se vira. Ele é violento. Ele é só ego. Brad sobreviverá como aquele que se move à margem de 68, fora do palco central. Nem decadente e longe de estar em casa. Ele é o cara de 1977 em 1968.
  Leo é a TV de 1966. Jamais dará o salto para 68. Uma legião de atores não deu. Bandas também.
  O filme não me agradou. Cheguei a sentir um profundo tédio. Adorei a gozação com Bruce Lee. Ele era daquele jeito mesmo, Hiper ego. Adorei a breve cena com Steve McQueen. O ator lembra ele e a fala é soberba. Steve era como o personagem de Brad Pitt, Estava lá em 68, famoso, o maior astro de então, mas ele nada tinha a ver com aquele mundo. Steve era também um cara de 1977.
  O que me entediou foram as longas cenas com filmes dentro de filmes. Não importa como é o western de Leo. Não importa. Queremos a vida deles no agora do filme. Em compensação, há uma cena magistral no reduto hippie da família Mason. Suspense de Hitchcock, Tarantino prova que poderia ir nessa toada em seu próximo filme. Suspense. Clima. Sem sangue. Nada gore.
  Hippies do mal. Tolos e ruins. Vemos seus descendentes pelas ruas até hoje. São aqueles adolescentes enfezados e sempre com ódio. Prontos para atear fogo em algum nazista ou porco. A cena á assustadora.
  Charles Mason tinha uma medíocre banda hippie. Foi recusado por Terry Melcher, produtor dos Byrds. Terry morava numa mansão em Hollywood. Terry alugou a casa para Polanski. A família de Mason trucidou todos na casa achando que eram Terry e seus amigos. Tarantino vai por outro caminho. Ele dá uma modificada. Mas o filme perturba em seu fim aberto...Leo vai para a casa e sabemos o que vai ocorrer lá....Leo vai morrer. Sharon vai morrer.
  Margot Robbie está maravilhosa quando vai ver seu filme no cinema. Sharon era aquilo: a garota pré hippie. A menina de 1966. Apenas alegria, cor e fé na vida.
  Disse que senti tédio. Mas essa é a magia do cinema. No dia seguinte lembro do filme como algo bom, forte, diferente.
  Há filmes que durante duas horas nos empolgam. E depois de poucas horas os esquecemos. E existem filmes que não nos empolgam. Até nos decepcionam. Mas que deixam alguma coisa dentro de nós que dura.
  Este é um desses.

Jeff Bridges and Clint Eastwood's Wild and Crazy Ride



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O ÚLTIMO GOLPE - UM FILME DE MICHAEL CIMINO COM CLINT EASTWOOD E JEFF BRIDGES.

   Em 1978 Michael Cimino se tornou o diretor mais importante dos EUA. Graças ao sucesso total de The Deer Hunter. Em 1980 ele era um falido. Obra de Heavens Gate, o filme que é ainda o maior fracasso financeiro da história do cinema. Esse filme faliu a United Artists, a produtora fundada por Chaplin nos anos 20. Thunderbolt and Lightfoot, aqui chamado "O Ultimo Golpe", foi o primeiro filme de Cimino, feito em 1974. Clint produziu e estrelou. É um grande filme.
  O cinema dos anos 70 tem como diferencial o fato de não focar a história. O foco do filme típico da época é na personalidade dos personagens. Filmes como The Godfather, Cabaret ou mesmo Tubarão, são observações sobre pessoas, o que as motiva e o que as amedronta. A ação é toda construída para mostrar mais uma fatia da alma do personagem. Hoje a ação é construída para produzir emoção. A personalidade do personagem é somente aquilo que nós imaginamos que ele seja. Isso pouco importa, o filme é o movimento do corpo e a fala do diálogo. Tudo é explícito e se não for é porque não existe.
  Este filme tem muita ação física. É um daqueles maravilhosos filmes de estrada da época. Jeff, soberbo, é um caipira ingênuo e sem rumo. Clint um ladrão veterano. Os dois se conhecem numa carona e se conhecem enquanto executam golpes. Depois há o retorno do passado de Clint, e o que era uma comèdia vira drama.
  Carros batem, tiros zumbem, estradas passam, garotas peladas, brigas de socos. Mas não é isso que importa. O roteiro, de Cimino, nos dá os detalhes da amizade entre Jeff e Clint. Consegue nos colocar dentro de cada carro que eles roubam, mas mais ainda dentro do coração de cada um deles.
  Mas há mais. Geoffrey Lewis deixa imensa impressão num personagem secundário, tolo, que morre de forma patética. George Kennedy nos assusta com seu vilão sádico, ruim, cruel. E até mesmo o louco dos coelhos, personagem que aparece por 3 ou 4 minutos, causa forte impressão. Nada parece gratuito, tudo tem um porque.
  Aconselho muito a que voce veja este filme. O melhor do cinema de hoje, o pouco que insiste em existir, bebe nesta fonte.

ANO NOVO - DESLUMBRAMENTO

   Uma coisa é ter vivido 15 anos novos, réveillon. Outra é ter passado por mais de 50. Se voce não usa sua criatividade, tudo ficam entediante. Deus criou o tédio para que pudesse haver criação. Então eu penso ( pensar é criar ).
   Não há graça na vida sem a capacidade de se deslumbrar, e lembro que aos 12 anos eu me deslumbrava com o fato de um ano terminar e começar outro. Não era apenas uma piada boba, eu realmente sentia a magia de se acordar num ano e ir dormir em outro. Eu vivenciava na alma a distância, imensa, entre ter acordado em 1977 e ir dormir em 78. Era deslumbrante. Como era deslumbrante ver aqueles caras correndo por  São Paulo enquanto o ano morria. Pois ele morria, e eu sentia até mesmo pena do ano que se ia. Dentro do deslumbramento, um novo ano era um vazio onde tudo podia acontecer.
  É cliché artistas dizerem que fazer arte é manter viva a chama da infância. Poder ainda se deslumbrar com coisas cotidianas. Acho que Renoir foi o primeiro a dizer isso. Não sei. Mas penso agora o seguinte: Esse deslumbramento artístico é a capacidade de se deslumbrar com a simples mudança no calendário. Não vale o deslumbramento forçado e caro de ir ver o Taj Mahal ou o mar de coral. Mas, eu agora te pergunto, no mundo hiper exposto de 2020, ainda alguém se deslumbra com o Taj Mahal? Chegaremos à um tempo em que ir à Lua não causará mais espanto, muito menos deslumbramento. Já vivemos uma época em que a visão do primeiro corpo nú, ou a primeira noite fora de casa, não causa deslumbramento algum. Existe um tédio antes mesmo da primeira experiência. Culpa do quê? Talvez por sermos cobrados a não ser ingênuos. Talvez por termos de planejar a vida desde cedo. Eu não sei.
  Tenho sorte. Ainda me deslumbro com a Serra. Com um Sabiá levando minhoca no bico. Com o céu quando se tinge de roxo. A chuva violenta de verão. Penso que coisas humanas me deslumbram cada vez menos. Mas a natureza...ela é o deslumbramento absoluto.
  Portanto espero que 2020 seja deslumbrante. Que seu queixo caia e que as coisas façam voce parar e admirar. Olhar. Olhar sem pensar.