On Her Majesty's Secret Service (1969) - Official Trailer - George Lazen...



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JAMES, JAMES BOND: UMA QUESTÃO DE MÚSICA

   Andei revendo os 10 primeiros filmes de James Bond. Todos são pelo menos divertidos, alguns se tornaram icônicos, outros são ridículos. Mas como disse, sempre divertidos.
  O primeiro, DR NO, é apenas uma aventura de espionagem inglesa feita na Jamaica. Um monte de coisas que se tornaram "trademark" da série ainda não existiam. Mas já está lá o nome de John Barry na trilha sonora, e creia, muito do sucesso de Bond se deve a sua música. Este primeiro filme é basicamente um filme cheio de perseguições de carros e os cenários, outra marca da série, também já possuem a assinatura de Ken Adam. O super macho Alfa, Sean Connery, diz presente. Todas as mulheres caem aos pés dele. TODAS. Em 1962 ele é o sonho assumido de todo homem. O mega seguro. O ultra poderoso. O invulnerável. Bond é peludo, bebe, fuma e pensa em transar 24 horas por dia. No segundo filme, MOSCOU CONTRA 007, from russia with love, algumas marcas nascem. A canção de abertura feita para ser um hit, as armas originais, o carro, e principalmente o hiper vilão. Talvez seja este o mais hitchcockiano da série inteira. Tem clima. E possui um clima de perversão. Pra quem não sabe, dizem que a ideia da série surgiu quando Ian Fleming viu INTRIGA INTERNACIONAL de Hitch, no cinema, em 1958. E que o sonho de Ian era ver Cary Grant como Bond. ( Penso que seria perfeito. Assim como o Bond ideal de 2000 seria George Clooney ).
  GOLFINGER é considerado o ápice da série inteira. Austin Powers bebe quase tudo aqui. É um filme perfeito mas não é meu favorito. Depois temos THUNDERBALL e aquele que se passa no Japão, SÓ SE VIVE DUAS VEZES, que tem a maravilhosa canção de abertura com Nancy Sinatra. Este é o mais machista de todos, e também é onde começa a auto-gozação que quase matou a série. De todo modo, Sean Connery quis dar voos mais artísticos e saiu da série. Ele era então, 1967, o ator mais famoso e mais bem pago do mundo.
  A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE traz um ator desconhecido, o australiano George Lazenby. Ele é tudo que Sean não era, desajeitado, inseguro, parece um garoto caipira brincando de 007. Mas o filme, que foi malhado na sua época, é hoje considerado um dos melhores. Foi o que mais gostei de rever. As cenas de ação são ótimas e Bond se torna humano. Ele até mesmo chora. Sean Connery retorna mais uma vez e temos a era de Roger Moore. Bond deixa de ser Bond. Ele se torna Roger Moore. E Roger é sempre irônico. O primeiro Bond de Roger, LIVE AND LET DIE tem trilha não de John Barry, mas sim de George Martin, ele mesmo, e é um desastre. Se voce quer saber o quanto uma trilha sonora ruim pode destruir um filme, veja este. Mas ainda pior foi em 1983, quando Sean Connery voltou ao personagem numa produção americana. NUNCA DIGA NUNCA DE NOVO. Sem poder contar com a equipe inglesa, deram a música para Michel Legrand!!!! Deus! Quem teve essa ideia? James Bond em ritmo de romance francês, em clima disco, em ritmo de boate...tudo menos o apropriado. Uma piada sem graça.
  Foi ouvindo essas duas trilhas que me toquei da imensa importância da música em 007.

MASSIVE ATTACK MEZZANINE, E CERTOS CLIMAS ANGÉLICOS

   Prove ouvir Mezzanine vendo na tela de sua TV o filme de Victor Sjostrom, A Carruagem Fantasma. O filme é silencioso, de 1920, sim, cem anos. Observe como voce terá a impressão de que o som dos Massive Attack foi escrito e pensado pra esse filme. Isso porque é a mesma sensibilidade que orquestra as duas obras:
  O inefável, pequenos ruídos que nascem e desaparecem, sombras que escondem algo que não pode ser visto. Não será. O disco, de fins do século XX, dialoga com o filme, do começo do mesmo século.
  Foi o século que cumpriu obediente tudo o que o século XIX queria: o espírito e suas coisas foram tiradas da luz e conduzidos à sombra. Lá ficaram, produzindo ecos e sombras.
  Todo o album bebe em Low, o famoso lado B de Bowie. Mas também é Kraftwerk. Trans Europe Express. E se mira em NEU! e mais algumas luzes obscuras e que pirilampam por aí. Foi um ápice soturno e que, para surpresa de todos, deu em nada. No século XXI, tempo histérico e que abomina o vazio e o silêncio, o Massive Attack não tem vez. Este século é iluminado, colorido, estridente, veloz, e absolutamente tolo. O som de Mezzanine flerta com o silêncio, o vazio e o vácuo. Tudo o que um cara de 2020 mais teme.
  Há uma profunda elegância neste album. O menos que é mais e um mais que sempre parece menos. Cada toque de percussão faz nossa cabeça tremer, mas essa cadência é incompleta. Cada uma de suas canções é vazia de conclusão. É um som que fica suspenso em suspense. Não é gótico, pois o gótico pesa como pedra, é antes uma sombra, ou a luz na tela de um filme silencioso. Leve como a alma de um inseto.
  Inertia Creeps sintetiza o disco.
  

TOM JONES - HENRY FIELDING, O PAI DO ROMANCE

   Antes houve Robinson Crusoe, mas Defoe escreveu uma reportagem romanceada. É quase um manual de sobrevivência. E tem o estilo do jornal. Depois veio Richardson, mas a forma é ainda a da troca de cartas, da confidência sentimental, e creia, ele é hoje ilegível. Nesse ponto, na Inglaterra de 1740, um escritor já podia viver da pena. Incrível. Já existia um público leitor grande o bastante para enriquecer editores e livreiros. E para sustentar um autor. Henry Fielding surge como o primeiro verdadeiro romancista moderno. Ele cria histórias fictícias, e usa o formato que conhecemos até hoje como romance. Mais importante ainda, ele se vê e fala com o leitor como um escritor. Fielding nunca esquece e nos deixa esquecer deste fato: isto é ficção e eu sou o dono do que estou inventando.
  O livro é uma sátira aos costumes ingleses, à moral e ao próprio modo britânico de ser. E Fielding conversa conosco todo o tempo. Como depois faria Machado de Assis, que adorava este livro, Fielding comenta, explica, divaga, dá opiniões. Ler Tom Jones é como ouvir um amigo contar uma história enquanto se bebe um Porto e se fuma um cachimbo. É um desses raros livros amigo, companheiro. Sentimos o autor na sala. Ele vive ao nosso lado enquanto lemos.
  Há quem diga ser este o grande livro inglês da história. Penso que não. Ao contrário da França ou da Alemanha, literaturas que cresceram ao redor de duas ou três forças centrais, a escrita inglesa sempre negou o centro, sempre quis ser multifacetada, variada, desfocada. Talvez o surgimento de um grande mercado logo em seu começo tenha produzido essa variedade de produtos. De todo modo, se Tom Jones não pode ser a obra central numa cultura que nega ter uma obra central, é ele um dos pilares da história preciosa dessa literatura que é sempre realista mesmo quando pensa ser fantasiosa.
  Perfeitamente legível após 3 séculos.

ROGER SCRUTTON

   Roger Scrutton morreu ontem e este texto é escrito sob a influência de um artigo lido ontem. Enviado por um amigo, ele me fez perceber uma contradição no pensamento de Scrutton: ele é conservador, mas possui ao mesmo tempo o ressentimento típico da esquerda. Explico para voce...
  No pensamento da esquerda, como dito pelo próprio Scrutton, há a dor de não se sentir confortável dentro do mundo como ele é. Daí o desejo de o destruir. O ressentimento é aquele de quem vive imerso numa cultura vista como repressora, tola e profundamente enganosa. Scrutton tinha esse sentimento dentro de si, e por isso era um conservador ilegítimo. Várias vezes ele fala do desencanto da vida, da derrota do mundo ideal, do sentimento de fim de época. Ora, nada mais romântico e portanto menos conservador que se sentir ausente da realidade, derrotado, fora de lugar. Roger Scrutton era então um conservador pessimista, algo que nunca existiu.
  Isso se dava por dois motivos: Scrutton duvidava da existência de Deus. E pior, não conseguia crer na eternidade da alma. Um conservador sem Deus e sem alma imortal perde toda sua confiança. O mundo o ameaça e ele se vê preso dentro do mundo inseguro da esquerda. 
  Nada irrita mais um socialista que a confiança risonha do conservador. Para o conservador, o mundo é o que é e deve ser como é. Isso porque ele foi feito por Deus e Deus faz o que deve ser feito. Pobres serão socorridos, o mal será combatido, mas tudo dentro da fé. O conservador não quer destruir o mundo, não deseja reescrever a história, ele pensa em conservar e terminar a obra de Deus. Sua confiança vem de acreditar ser imortal e jamais duvida de que seu pensamento é, portanto, eterno. Chesterton e Burke possuíam essa risonha confiança. Scrutton nunca. Incapaz de crer, ele baseia toda sua fé no amor ao lar inglês, aos costumes antigos, às velhas comunidades. É pouco. E ele sabe disso.
  De todo modo, ler Scrutton, foi e é, para mim, um imenso prazer. Sua escrita é sedutora, e se ele não é um conservador autêntico, ele abre nossos olhos colonizados, para a existência de todo um universo intelectual não explorado. Crescemos neste trópico crendo que a única verdade vivia na esquerda e que o pensamento da direita seria sempre raso, tolo, pouco relevante. Scrutton me fez perceber que na realidade o pensamento da esquerda se tornou automático, preguiçoso, ultrapassado. A esquerda não pensa mais, ela apenas repete slogans.
  Meu sentimento de coração sempre foi conservador porque eu sempre vi a história como a saga de grandes homens e não um movimento exato e constante. Assim como prefiro consertar e reparar que destruir e recomeçar. A tara latino americana pelo eterno recomeço é o que nos faz pobres e vazios de história. Mas, como Scrutton, tenho imensa dificuldades com Deus e a eternidade. Não consigo ter a tranquila fé do bom conservador. A certeza. O sentimento de que tudo é para sempre e tudo é como deve ser.
  Espero que Chesterton esteja certo. E que Scrutton tenha encontrado a eternidade. E esteja dando gargalhadas vendo, afinal, que Marx e Foucault eram apenas dois invejosos.
  Eles eram. Eles são.

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD...QUENTIN TARANTINO

   1968 teve 2001 de Kubrick. Teorema de Pasolini. Planeta dos Macacos de Schaffner. E O Bebê de Rosemary de Polanski. O polonês era o diretor mais quente entre os bacanas. E sua esposa, Sharon Tate, era vista como sex symbol certo para os anos 70. Sharon havia feito apenas uns 4 filmes. Polanski e Hollywood eram totalmente apaixonados por ela. E então, grávida, ela é morta em casa, num ritual satânico feito por Charles Mason e sua família. ( A família era um bando de teens hippies ). O filme não é sobre isso.
  O filme é sobre o fim de uma era. Um tempo que nasceu mais ou menos em 1956 e durou até 1968. São os anos 60 inocentes. Batman na TV. Séries de faroeste ( chegou a ter 42 em produção ao mesmo tempo ). Tempo de Monkees. Beatles sem brigas. James Bond de Sean Connery. Tarantino ama esse tempo. Onde ainda se produziam os últimos filmes de Hawks. Onde havia dinheiro para aventuras de John Sturges, John Frankenheimer, ou policiais classudos com Steve McQueen.
  Em 1968 tudo mudou. Os hippies e as drogas em porções elefantinas vieram com tudo e a inocência se foi. As roupas também ficaram mais feias. As pessoas ficaram mais feias. Sharon Tate é a inocência que se vai. Trucidada com um filho que nunca vai nascer.
  Tem mais. Leo di Caprio é o ator feito no fim dos anos 50 e que em 68, provavelmente ainda na fase dos 35 anos, já é tratado como um vovô. Ele não entende os novos tempos, não quer entender e sabe que está acabado. Brad Pitt, magnífico, é o cara que anuncia os anos 70: ele se vira. Ele é violento. Ele é só ego. Brad sobreviverá como aquele que se move à margem de 68, fora do palco central. Nem decadente e longe de estar em casa. Ele é o cara de 1977 em 1968.
  Leo é a TV de 1966. Jamais dará o salto para 68. Uma legião de atores não deu. Bandas também.
  O filme não me agradou. Cheguei a sentir um profundo tédio. Adorei a gozação com Bruce Lee. Ele era daquele jeito mesmo, Hiper ego. Adorei a breve cena com Steve McQueen. O ator lembra ele e a fala é soberba. Steve era como o personagem de Brad Pitt, Estava lá em 68, famoso, o maior astro de então, mas ele nada tinha a ver com aquele mundo. Steve era também um cara de 1977.
  O que me entediou foram as longas cenas com filmes dentro de filmes. Não importa como é o western de Leo. Não importa. Queremos a vida deles no agora do filme. Em compensação, há uma cena magistral no reduto hippie da família Mason. Suspense de Hitchcock, Tarantino prova que poderia ir nessa toada em seu próximo filme. Suspense. Clima. Sem sangue. Nada gore.
  Hippies do mal. Tolos e ruins. Vemos seus descendentes pelas ruas até hoje. São aqueles adolescentes enfezados e sempre com ódio. Prontos para atear fogo em algum nazista ou porco. A cena á assustadora.
  Charles Mason tinha uma medíocre banda hippie. Foi recusado por Terry Melcher, produtor dos Byrds. Terry morava numa mansão em Hollywood. Terry alugou a casa para Polanski. A família de Mason trucidou todos na casa achando que eram Terry e seus amigos. Tarantino vai por outro caminho. Ele dá uma modificada. Mas o filme perturba em seu fim aberto...Leo vai para a casa e sabemos o que vai ocorrer lá....Leo vai morrer. Sharon vai morrer.
  Margot Robbie está maravilhosa quando vai ver seu filme no cinema. Sharon era aquilo: a garota pré hippie. A menina de 1966. Apenas alegria, cor e fé na vida.
  Disse que senti tédio. Mas essa é a magia do cinema. No dia seguinte lembro do filme como algo bom, forte, diferente.
  Há filmes que durante duas horas nos empolgam. E depois de poucas horas os esquecemos. E existem filmes que não nos empolgam. Até nos decepcionam. Mas que deixam alguma coisa dentro de nós que dura.
  Este é um desses.

Jeff Bridges and Clint Eastwood's Wild and Crazy Ride



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O ÚLTIMO GOLPE - UM FILME DE MICHAEL CIMINO COM CLINT EASTWOOD E JEFF BRIDGES.

   Em 1978 Michael Cimino se tornou o diretor mais importante dos EUA. Graças ao sucesso total de The Deer Hunter. Em 1980 ele era um falido. Obra de Heavens Gate, o filme que é ainda o maior fracasso financeiro da história do cinema. Esse filme faliu a United Artists, a produtora fundada por Chaplin nos anos 20. Thunderbolt and Lightfoot, aqui chamado "O Ultimo Golpe", foi o primeiro filme de Cimino, feito em 1974. Clint produziu e estrelou. É um grande filme.
  O cinema dos anos 70 tem como diferencial o fato de não focar a história. O foco do filme típico da época é na personalidade dos personagens. Filmes como The Godfather, Cabaret ou mesmo Tubarão, são observações sobre pessoas, o que as motiva e o que as amedronta. A ação é toda construída para mostrar mais uma fatia da alma do personagem. Hoje a ação é construída para produzir emoção. A personalidade do personagem é somente aquilo que nós imaginamos que ele seja. Isso pouco importa, o filme é o movimento do corpo e a fala do diálogo. Tudo é explícito e se não for é porque não existe.
  Este filme tem muita ação física. É um daqueles maravilhosos filmes de estrada da época. Jeff, soberbo, é um caipira ingênuo e sem rumo. Clint um ladrão veterano. Os dois se conhecem numa carona e se conhecem enquanto executam golpes. Depois há o retorno do passado de Clint, e o que era uma comèdia vira drama.
  Carros batem, tiros zumbem, estradas passam, garotas peladas, brigas de socos. Mas não é isso que importa. O roteiro, de Cimino, nos dá os detalhes da amizade entre Jeff e Clint. Consegue nos colocar dentro de cada carro que eles roubam, mas mais ainda dentro do coração de cada um deles.
  Mas há mais. Geoffrey Lewis deixa imensa impressão num personagem secundário, tolo, que morre de forma patética. George Kennedy nos assusta com seu vilão sádico, ruim, cruel. E até mesmo o louco dos coelhos, personagem que aparece por 3 ou 4 minutos, causa forte impressão. Nada parece gratuito, tudo tem um porque.
  Aconselho muito a que voce veja este filme. O melhor do cinema de hoje, o pouco que insiste em existir, bebe nesta fonte.

ANO NOVO - DESLUMBRAMENTO

   Uma coisa é ter vivido 15 anos novos, réveillon. Outra é ter passado por mais de 50. Se voce não usa sua criatividade, tudo ficam entediante. Deus criou o tédio para que pudesse haver criação. Então eu penso ( pensar é criar ).
   Não há graça na vida sem a capacidade de se deslumbrar, e lembro que aos 12 anos eu me deslumbrava com o fato de um ano terminar e começar outro. Não era apenas uma piada boba, eu realmente sentia a magia de se acordar num ano e ir dormir em outro. Eu vivenciava na alma a distância, imensa, entre ter acordado em 1977 e ir dormir em 78. Era deslumbrante. Como era deslumbrante ver aqueles caras correndo por  São Paulo enquanto o ano morria. Pois ele morria, e eu sentia até mesmo pena do ano que se ia. Dentro do deslumbramento, um novo ano era um vazio onde tudo podia acontecer.
  É cliché artistas dizerem que fazer arte é manter viva a chama da infância. Poder ainda se deslumbrar com coisas cotidianas. Acho que Renoir foi o primeiro a dizer isso. Não sei. Mas penso agora o seguinte: Esse deslumbramento artístico é a capacidade de se deslumbrar com a simples mudança no calendário. Não vale o deslumbramento forçado e caro de ir ver o Taj Mahal ou o mar de coral. Mas, eu agora te pergunto, no mundo hiper exposto de 2020, ainda alguém se deslumbra com o Taj Mahal? Chegaremos à um tempo em que ir à Lua não causará mais espanto, muito menos deslumbramento. Já vivemos uma época em que a visão do primeiro corpo nú, ou a primeira noite fora de casa, não causa deslumbramento algum. Existe um tédio antes mesmo da primeira experiência. Culpa do quê? Talvez por sermos cobrados a não ser ingênuos. Talvez por termos de planejar a vida desde cedo. Eu não sei.
  Tenho sorte. Ainda me deslumbro com a Serra. Com um Sabiá levando minhoca no bico. Com o céu quando se tinge de roxo. A chuva violenta de verão. Penso que coisas humanas me deslumbram cada vez menos. Mas a natureza...ela é o deslumbramento absoluto.
  Portanto espero que 2020 seja deslumbrante. Que seu queixo caia e que as coisas façam voce parar e admirar. Olhar. Olhar sem pensar.

THE LIMEY - Trailer - HQ



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O MELHOR FILME DE STEVEN SODERBERGH...O ESTRANHO.

   Ele começa com o som de The Seeker by The Who. E voce sabe, é um dos melhores rocks da história do mundo. Na letra Roger Daltrey diz: Perguntei à Bob Dylan, Perguntei aos Beatles, Perguntei à Timothy Leary, mas ninguém me responder, eles me chamam The Seeker.
 Vemos TERENCE STAMP num avião, no aeroporto, e quando há Stamp, há maldade no ar. ( O irmão de Stamp foi empresário do WHO nos anos 60 ).
 Primeiro fato: Este filme é uma aula de ritmo. Ele é lento, nunca chato, ele tem cortes atemporais, mas jamais é confuso. Este filme nos hipnotiza. Completamente.
 Vamos a algumas informações:
 Terence Stamp foi, nos anos entre 1964-1969, o ator mais quente da Inglaterra. Em um tempo que tinha Sean Connery, Michael Caine, Alan Bates, Peter O'Toole, John Hurt, Richard Burton, era Stamp o mais fascinante, o mais sexy, o mais perigoso, o mais querido pelas meninas mais doidas. Mas ele deu uma bela pirada no fim da década e sumiu na India. Retornou oito anos depois, já bem esquecido. Com fama de doidão, sua carreira não engrenou mais, e para quem não sabe, ele é conhecido apenas como um ator mal humorado e esquisito. Um coadjuvante. Não sabem que ele já foi uma big estrela. Pois bem, Steven o escolhe como ator central. Mais que isso, o filme inteiro é uma homenagem à ele. Logo a gente saca que aqui, em plenos anos 2000, vemos uma amarga lembrança dos anos 60. Stamp é o lado podre do tempo hippie, é um ladrão, é violento, é mal. E ele vem à California em busca de vingança.
 O filme tem Peter Fonda. E aqui ele é o outro lado do tempo hippie. É o cara de boas, o ex hippie sempre sorrindo, saudável, da paz, rico, que se deu bem com a onda paz e amor. Mas Peter cometeu um erro: é um covarde. Na vida real Peter também se deu mal e também pirou.
 O filme ainda tem Barry Newman, o ator de Vanishing Point, Joe Dalessandro, o ator dos filmes de Andy Warhol e Lesley Ann Warren, a atriz da serie Missão Impossível. Mas...nada há de saudosista aqui. O filme é uma crítica aos anos 60. E passado hoje, ele é moderno, muito moderno.
 É o melhor filme de Soderbergh. O mais enxuto. O mais sincero. O mais emocionante. O final é absolutamente perfeito. Soberbo.
 ( PS: Soderbergh intercala algumas cenas com outro filme, um original de 1966 com o jovem Terence Stamp. Sacada ótima e homenagem carinhosa ).

LIVRARIA, LIVRO E UM CARA CHAMADO FRANCO.

   Estive esses dias em duas livrarias Cultura. O dono errou feio. Não sei onde ele estava com a cabeça.  Criar aqueles dois monstros no começo do século XXI foi de uma ingenuidade estúpida. Um amigo me afirma que é culpa do "liberalismo bolsonarista"...oh God...esse amigo é usuário de Amazon.com e tem um aparelhinho que baixa livros. Zomba de mim porque eu ainda compro livros. E a culpa é do liberalismo...
   Na unidade do shopping Iguatemi o aspecto de pobreza é pior. As prateleiras estão com espaços vazios. Os lançamentos são relançamentos. Nada atrai, não sinto vontade nenhuma de gastar dinheiro. Na Paulista o ar é de fim de feira. Hora da Xepa. DVDs ridículos ocupando espaços vagos. Meia dúzia de CDs. E livros que não causam nenhuma impressão.
   Acabou. O mundo mudou. Já é 2020.
   O fim do DVD pode ser pior para o cinema que o fim do DVD foi para a música. Isso porque o colecionador sobrevive no meio musical, com sua coleção de LPs e seus CDs de luxo. É esse cara que anima o ouvinte não fissurado a valorizar gente como Chet Baker ou Arthur Lee. Já o cinema, sem o DVD, perde a figura do colecionador. Não há como ter um acervo de filmes da Netflix ou de obras baixadas na net. Sem o colecionador apaixonado, morre a divulgação entre amigos das obras raras. E assim o cinema fica cada vez mais dependente, financeiramente e amorosamente, das grandes corporações. Disney. E ainda a Warner.
   O livro ainda sobreviverá. Mas em pequenas livrarias, sebos, casas de editoras. Acho isso ótimo. O modelo FNAC sempre foi uma farsa. Voce irá na livraria que vende best sellers ou na que vende edições pequenas. Supermercados de livros nunca foi boa ideia.
  Sinto mais que isso. O cara tipo "Franco" está no fim. Franco foi um amigo que tive. Estudava sociologia na PUC e vendia blusas na Vila Madalena. Nunca foi empregado de ninguém, nunca passou dificuldades, mas posava de proletário. Tinha, em 2009, uma bandeira da Venezuela na sala. Aos 21 anos, não escutava nada gravado após 1980. E não via filmes com menos de 30 anos. Sempre sorridente, namorava meninas maconheiras de Pinheiros. Lia apenas coisas latinas e achava esquisito um ex estudante de publicidade falar de política. Não era minha area.
  Esse tipo de pessoa ainda existe. Mas hoje ela é mais radical, mais feroz, mais mal humorada e, felizmente, muito mais restrita. Franco era como um hippie de 1967. Hoje esse tipo de militante parece um bicho grilo irritado de 1975. Somem na poeira dos anos. Cada vez mais deprimidos. Cada vez mais sem público que os escute.
  Cinco anos atrás eu achava que seria triste ver a Cultura fechar. Hoje penso que seria a melhor coisa para os livros. Saio de seu espaço vazio com alívio. Sem olhar para trás. Dentro dela um grupo vocal canta Chico em ritmo de velório. Ex alunas da PUC, média de 65 anos, aplaudem. Maggie mudou a Inglaterra para sempre. Até hoje há quem chore a velha nação falida. O mesmo rola no Brasil hoje. Não sei se vai dar certo como deu lá. Mas a mudança é irreversível.
  Feliz 2020.

NATAL

   O fato de ser escolhido um homem como Jesus Cristo já é por si só um tipo de milagre.
   Não vou escrever nada sobre fé, escrevo apenas sobre aquilo que um ateu pode saber se assim o quiser. Há mais ou menos 2000 anos, no lugar mais pobre do mundo conhecido pelo que seria o Ocidente, um filho de carpinteiro nasce. E é Ele o escolhido para simbolizar e dar significado aos novos tempos.
   Não era filho de nobres. Não era rico. Não foi discípulo de nenhum filósofo influente. Esteve sempre caminhando longe de Roma e longe de Atenas. Não era forte e não manejava espada ou flecha. Percorria o deserto e tinha meia dúzia de seguidores. Era, visto em seu tempo, insignificante.
   Então porque ele? Mesmo não sendo filho de Deus, mesmo não sendo um profeta original, se assim voce preferir pensar, por que ele? Se os evangelhos forem ficção, quem criou uma personagem tão radicalmente original?
   Voce, ateu, pode dizer que Buda já pregara a paz. Mas o Buda falara que o mundo era sonho, ilusão, e este Cristo dizia o contrário, que o mundo era a realidade. O pacifismo de Jesus é oposto ao de Buda. O de Cristo é atuante e vive dentro do mundo. O budismo nega a realidade da vida. Tudo é o que é. Em Cristo tudo é aquilo que fazemos.
  Mais radical ainda, esse é um Deus que morre. Sim, muitos morreram antes, houve deuses despedaçados ou desaparecidos em combate. Mas este Cristo morre como gente. E morre voluntariamente. Mas isso é a Paixão e hoje é dia de Nascimento, da Natalidade.
  Nesse nascimento nasce um mundo onde a bondade é viril, onde a caridade é ativa e onde perder pode ser uma vitória. É a primeira religião que coloca o Amor como centro. Se pensa hoje que toda religião é Amor, mas falar de amor no zoroastrismo, na religião do Olimpo ou nos deuses vikings é absurdo. Nessas religiões, e em todas as outras, o centro da crença é a coragem, a força e o erotismo. Não há sinal de amor. Zeus não ama seu povo. Ele exige respeito e homenagens. Por ser vaidoso e só por isso. O mesmo vale para os deuses astecas ou celtas. São ciumentos. São possessivos. São vaidosos.
  A imagem desta noite é uma estrela no deserto. E uma manjedoura iluminada. Um burrinho, uma vaca e um casal. E uma criança. Todo nosso futuro está aí representado. A criança, a pobreza, os animais. A estrela no deserto. E o casal.
  Então mais uma vez eu te digo: Em meio aos presentes ou a dor de não ter presentes. Em meio aos amigos ou a dor de ter perdido pai e mãe, olhe para o céu e veja a estrela. E nasça mais uma vez.
  Pouco importa se 25 de dezembro era data pagã. O que vale é sua herança cultural. E para nós, todos nós, 25 de dezembro é uma data invulgar.
  Nasça. E deixe-se guiar pela estrela.

O MUNDO DE HOJE TEM HANNAH?

   Revi quatro filmes de Woody Allen. CELEBRIDADES me surpreendeu por sua confusão. É um filme que tenta revisitar A Doce Vida de Fellini, mas jamais alcança sua grandeza. Já O DORMINHOCO, que eu tanto gostava, revisto hoje me pareceu apenas confuso. Porém, e esse é o motivo de eu escrever isto, HANNAH E SUAS IRMÃS e MANHATTAN pareceram ainda melhores do que eu lembrava.
  Nada há de sensacional na vida das duas irmãs de Hannah. A mais nova tem um caso com Max Von Sydow e se apaixona pelo marido de Hannah. Michael Caine é um marido de meia idade patético. Não há charme algum em seu personagem e seu caso não nos causa simpatia. Sabemos que Hannah não merece aquilo. Mia Farrow ganha de presente um dos mais belos personagens da vasta galeria feminina de Allen, Hannah, ao descobrir que seu casamento naufraga, espelha uma dor muda que nos toca fundo. Desejamos salvar aquela mulher. Escrever um roteiro que nos leva a tanta empatia é trabalho de mestre.
  Mas há mais. Dianne Wiest levou seu Oscar aqui. Um caco de personalidade hiper frágil, vejo nela várias mulheres dos anos 80, cheias de cocaína, fracassos afetivos, artistas sem arte. O rosto dessa imensa atriz fala um milhão de coisas em cada frame. E temos Woody, naquele que pode ser seu segundo melhor personagem. Sua crise hipocondríaca que se torna uma crise existencial é maravilhosa. Não se engane: o filme é um drama. Nada aqui do tipo caricato do judeu intelectual frágil. É um homem sem Deus. Que deseja crer em algo. Que precisa acreditar.
  Manhattan não é tão agradável. E talvez seja ainda mais duro.
  Ele namora uma menina de 17 anos e vemos que eles são felizes. Mas por ela ter apenas 17, ele não consegue leva-la a sério. Ele pede para que ela conheça outros caras, ele não quer que a coisa dure. Várias vezes ele usa a palavra ridículo.
  Então ele se envolve com Diane Keaton, a ex de seu amigo. Ela é seu número: neurótica, adulta, um tanto esnobe, indecisa. O caso não dá certo. Ela volta ao ex namorado. É só isso o filme. Ah...Meryl Streep é a ex esposa que virou lésbica. Ela lança um livro sobre a vida dos dois quando casados.
  A história é de uma simplicidade absoluta, enxuta. Mas o filme vai fundo no vazio de um homem que começa a perceber que não há lugar para ele no mundo. Isso porque ele não confia nos outros. Ele pensa demais e pensa muito mal. Com prazer estético, acompanhamos sua pequena saga. No final ele descobre que era feliz com a menina, que eles riam juntos, mas é tarde, ela vai para Londres.
  Destaco a cena na lanchonete, quando ele termina com ela. Um momento absolutamente verdadeiro, muito mais raro em cinema do que nos damos conta. A menina desmonta e ele simplesmente é incapaz de empatia por ela.
  Em 1979 Manhattan foi saudado como uma obra prima completa. Lembro de críticas eufóricas, falando da fotografia, da música de Gershwin, da maturidade de Woody Allen. E hoje?
  Temo que em 2020 as pessoas parem no fato de ser um homem de 42 com uma menina de 17. Parem por aí e simplesmente bloqueiem todo o resto. Pior, temo que a megera feita, logo por quem, Meryl Streep, se torne a heroína e Woody o vilão. Se isso acontece é sintoma de uma burrice absoluta, da completa incapacidade de ver a complexidade de tudo. Woody escreve maravilhosamente bem para mulheres. Não ver isso é cegueira intelectual.
  Por fim digo que tanto Hannah como Manhattan seriam impossíveis hoje. Em Hannah o personagem de Caine teria de ser mais ridículo e grotesco, haveriam cenas de drogas e Hannah fugiria de casa. Já Manhattan seria um fiasco de bilheteria, perseguido por lésbicas e por defensores de menores. Mais que isso, um ator e diretor como Woody Allen não existiria se fosse 40 anos mais novo. Ele colocaria faixas de rock em seus filmes, aumentaria o humor pastelão e em vez de citar Bergman e Fitzgerald, citaria Batman e Stan Lee. Manhattan se chamaria New Jersey e Hannah seria algo como Daphne e suas Sisters do Barulho. Pior ainda, em moldes alternativos, Hannah seria catatônica, o marido viciado em heroína e o personagem de Woody encontraria Deus em um filme de Almodóvar.