THE BREEZE, AN APPRECIATION OF J.J. CALE...ERIC CLAPTON AND FRIENDS.

   Na classificação de Ezra Pound, Eric Clapton seria um mestre e não um criador. Ao contrário de Jeff Beck e Jimmy Page, Eric nunca se preocupou em criar, seu negócio foi aprender, superar e divulgar seus ídolos. Aqui ele paga tributo a um dos maiores, o certeiro JJ Cale, um rei da guitarra econômica.
   Eric veio de toda aquela coisa blue. Ele, Peter Green, Mick Taylor, Jeff e Jimmy, Keith, Pete. Todos branquelos sonhando com o Mississipi e New Orleans. O Cream era a amplificação dessa vertente. Robbie Robertson desviou o rumo de Eric. Quando ele ouviu The Band sua vida mudou. A guitarra passou a ser mais refinada, sutil. Numa entrevista ele conta: Meu objetivo não é ser o mais rápido. É conseguir tocar uma só nota. A nota perfeita. A segunda mudança de Eric foi a descoberta da voz e da canção, isso via Stevie Wonder. Foi então que a presença de JJ Cale se tornou mais forte. Stevie Wonder trouxe voz e inspiração, JJ trouxe estilo, solos, climas. Essa sopa deu em Eric solo. 
   JJ Cale morreu em 2013. Pouco antes ele e Eric haviam gravado seu primeiro disco em dupla. Uma obra-prima de amizade, de troca, de rock`n`roll. Agora em 2014 Eric lança este cd só com músicas de Cale. São 16 faixas curtas com a participação de Tom Petty, Mark Knopfler, John Mayer e Willie Nelson. Nada disso, não é um desses impessoais discos de homenagens. A coisa aqui é intimista, discreta, como foi JJ Cale. O cd é obrigatório. 
  Raras vezes Clapton tocou tão bem. E impressiona o modo como todos cantam com a voz à JJ Cale. Até a voz de Tom Petty fica rouca como a do grande músico da Flórida. Guitarras dialogam com brilho, naquele estilo agudo, cigano que JJ popularizou. Disco feliz, disco que comprei hoje e que escutarei pelo verão afora. 
  Para quem não conhece, JJ Cale foi um cara influente que jamais estourou. De 1967 a 2013 foi uma longa e discreta carreira. Gravou bastante e esse seu estilo é discreto, simples, sinuoso, sofisticado e delicado. Sem jamais deixar de parecer viril. JJ Cale fazia música de homem, e sempre com ternura. Voz rouca e grave, seus discos exalam calor. O som de Cale é tropical, chuvoso. Ele combina com praia, estrada, carros grandes e camisas havaianas. E com uma noite de mojitos, de varanda com charuto, com lembranças. É sexy sem jamais ser exibido. Discreto sempre.
  Acho que ele teve uma boa vida. Encontrou um estilo único e o desenvolveu ao limite. Não procure nele a inquietação de Kevin Ayers por exemplo. JJ é o mestre que trabalha sobre seu molde. Perfeccionista. 
  Pena que nunca mais haverá um novo disco dele. 

The Last Time & Bitter Sweet Symphony



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MOFO ROQUEIRO

   O rock morreu quando deixou de ser futuro e virou saudade. Não existe rock onde gente com mais de 35 anos é cultuada. Entenda, Leonard Cohen ainda é relevante. Assim como Dylan ou Bowie. Mas isso que eles fazem não é mais rock. Pode ser arte, mas rock não é. Porque rock nunca foi música. Era revolta, era moda, era frescor e era juventude. E tinha de se inventar toda hora como futuro. Surpreender. 
 Em 1999 deixei de tentar ouvir bandas novas. The Verve simboliza uma das últimas tentativas. Mas na verdade era um morto revivido por um Dr Frankenstein. Dava até pra se divertir ( foi uma boa safra de covers recém compostos ). Ainda havia Blur e Oasis e mais uma porção de coisas que iam de Red Hot à Fatboy Slim. Na verdade nada de rock, era festa, uma festa que ainda me enganava. Logo o cheiro de bolor voltou, e eu tenho alergia a bolor. O fedor aumentou e passei a procurar novidades nas velharias que eu não conhecia. Se era pra ouvir bolor, melhor colher o melhor bolor. Love, The Band, Steely Dan, Kevin Ayers, Can, Gram Parsons, Nicolette Larson, Flying Burrito Brothers...Descobri tudo isso desde então. 
 The Verve era lindo. Lucky Man ainda me faz chorar. É bonita. Mas é antiguinha. De qualquer modo, os Gallagher ainda pareciam reais. Maloqueiros. Como real parecia Thom Yorke. Ou Flea. Eles sabiam das coisas. E sabiam acima de tudo que eram mortos-vivos. Vampiros. Cantavam canções que vieram tarde. Era rock? Só na forma. Era bonito? Claro que sim. Mas era mofo. Mofo e teias de aranha.
 Não desvalorizo sua obra. Digo apenas que sua obra é uma coisa triste. Repete como réquiem aquilo que se foi a muito tempo. Cantar os mortos é uma forma nobre de arte. Mas não é rock. Que canta a vida, mesmo que trágica. E não é potente, pois um zumbi não reproduz. Se voce notar, o que reproduz, o que fertiliza e inspira continua sendo o rock vivo de sempre, o rock feito quando vivo e confiante. Aquele que se foi no começo da década vazia. 
 Ouça o que postei e fique bem.
 Valeu.

BLAKE EDWARDS/ JULIE ANDREWS/ WYLER/ CUKOR/ CLIVE OWEN/ BINOCHE/ AUDREY/ WC FIELDS

   FRONTERA com Ed Harris e Eva Longoria
Fujam! Um lixo sobre imigrantes ilegais.
   POR FALAR DE AMOR de Fred Schepisi com Clive Owen e Juliette Binoche
O nome nada tem a ver com o filme. Ainda inédito aqui, fala de um professor de inglês com a corda no pescoço. Bebendo muito, corre o risco de perder o emprego. Uma nova professora de artes chega, amarga e com doença degenerativa. Os dois se odeiam e depois se amam. Parece uma tolice? Juro que não é! Tem bons diálogos, nunca desce a apelação, nada melado. Owen está excelente, faz um professor cínico, antipático e maníaco por palavras. Esse o centro do filme: a palavra ou a imagem, o que vale mais? Juliette, uma atriz por quem não morro de amores, está muito radiante.Nota 6.
   OS 39 DEGRAUS de Alfred Hitchcock com Robert Donat, Madeleine Carroll e Peggy Ashcroft
Talvez seja o melhor filme inglês de Hitch. O roteiro é totalmente inverossímil, mas who cares? Hitch era sempre assumidamente inverossímil. O que ele queria era poder criar grandes cenas e este filme tem várias. A cena inicial, no show de variedades, com seu sabor expressionista. Depois as cenas na casa do casal que dá abrigo ao fugitivo. Cenas no trem, na estrada, no hotel e por aí vai. O tema é caro a Hitch, um homem foge acusado falsamente de crime. Ação sem parar, humor, e muito, muito clima. A fotografia de Bernard Knowles é brilhante. Observe logo no começo a luz sendo acesa no quarto, o canto da tela iluminado e todo o resto escuro...Ótimo! Hitch faz aqui uma das mais perfeitas diversões. Nota DEZ!
   O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de William Wyler com Laurence Olivier, Merle Oberon, David Niven, Flora Robson e Donald Crisp
Wyler foi o melhor diretor do cinema americano? Nada de surpreendente nessa pergunta! Ele tem 4 Oscars e dominou a arte de filmar comédias, westerns, dramas, peças filmadas e policiais. O livro de Bronte já foi filmado até por Bunuel e se aqui ele nunca atinge a magia do texto inglês, é de longe a melhor versão para a tela. E devo dizer, os primeiros 40 minutos são dignos do mais alto cinema. Heathcliff é adotado, se enamora da meia irmã, é banido e se vinga. O filme é tristíssimo. Olivier, jovem e belo, faz um Heathcliff vulnerável, sofrido. A cena na janela, em que ele acha ter visto o fantasma de Cathy, é soberba. Faça o teste do olho, veja como os olhos de Olivier mudam com o desenvolver da fala. Merle Oberon enfraquece o filme. Ela é bela e exótica, mas não tem a força selvagem de Cathy. A fotografia é soberba. Um belo filme do mesmo ano de ...E O Vento Levou. Nota DEZ.
   DAVID COPPERFIELD de George Cukor com Freddie Bartholomew, W.C.Fields, Lionel Barrymore, Edna May Oliver, Roland Young
Tão bom voltar a ver meus filmes dos anos 30!!!!! Aqui temos Cukor, um dos mais consagrados dos diretores clássicos e a adaptação, luminosa, do clássico de Dickens. Esqueça a pavorosa atriz que faz a mãe de David Copperfield e relaxe, o filme é uma deliciosa e encantadora viagem. David sofre pacas, mas logo encontra quem o ajude. WC Fields dá um show! Sua voz enrolada e pomposa e seu tipo falso nobre picareta casam perfeitamente com o filme. Mas quem rouba o show é Edna May Oliver, aterradora e encantadora como a tia de David. Uma grande produção de David Selznick. Nota 9.
   OS 3 MOSQUETEIROS de George Sidney com Gene Kelly, Lana Turner, June Allyson
Gene Kelly fazendo Dartagnan! Só em Hollywood! Esta versão, leve e colorida, alegre e boba, de Dumas, é um grande hit de seu tempo. E ainda diverte! Sidney foi um grande diretor de musicais, e apesar de ninguém cantar, o filme é levado no clima de um grande musical. Jogue fora seu senso de realidade e deixe-se apreciar tanta tolice bem feita. Vale muito a pena! Nota 7.
   DESTINO TOKYO de Delmer Daves com Cary Grant e John Garfield
O patriotismo deste filme envelheceu mal. Acompanhamos a missão de um submarino rumo ao Japão. Cary é o capitão, Garfield um marujo meio tonto e mulherengo. Filmes da segunda guerra costumam envelhecer mal. Não é excessão. Delmer foi um bom diretor de filmes noir e de westerns. Aqui ele se perde. Cary Grant está elegante como sempre, mas pouco tem a fazer. Nota 4.
   BREAKFAST AT TIFFANY`S ( BONEQUINHA DE LUXO ) de Blake Edwards com Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal e Martin Balsam
Nunca gostei muito deste filme. Acho-o superestimado. OK, Audrey esbanja chic, mas em qual filme ela não o faz? Então o reassisto pela segunda vez e nada espero dele, e talvez por causa disso o acho agora bacaninha. Incrível como toda coisa chic se mantém! Tudo em Audrey é chic, os óculos, as roupas, o gato, o modo desleixado de se portar, a loucurinha bobinha e até o jeitinho de falar. E acontece uma coisa engraçada, começo a achar que a personagem Holly é um travesti ! Pois é incrível como os travestís pegaram TUDO desta personagem!!!! O filme se torna então um tipo de farsa chic, um catálogo da Bazaar clássica, uma Vogue vintage, um luxo! Truman Capote escreveu e a trilha de Henry Mancini é tudo de bom! Um cocktail, um bibelô, uma mesinha de laca. Um mundo perdido que a gente insiste em amar. Nota 7.
   THE SOUND OF MUSIC ( A NOVIÇA REBELDE ) de Robert Wise com Julie Andrews, Christopher Plummer e Eleanor Parker
Após Mary Poppins eis que Julie surge como a noviça que vai cuidar de crianças na Suiça e as ensina a ser crianças. E o mundo se rende a ela. Este é o filme que tirou ...E O Vento Levou do alto das paradas. Um fenômeno! NUNCA eu vira o filme. Tinha preguiça e confesso, apesar de amar musicais achava que ele fosse bobo. Bobo? Ele é uma aula de otimismo, de beleza e de ritmo. As músicas, de Richard Rodgers são obras-primas, a direção, do mestre Wise, um cara que fez clássicos de boxe, sci-fi, comédia e drama, e Julie, uma figura esfuziante, enfeitiçante, com malícia inocente e uma liberdade fantasiosa irresistível. O mundo em 1965 se apaixonou por ela. Ainda percebemos porque. É um grande, grande filme! São 3 horas de completo prazer! Viva! Nota DEZ!

ECLIPSE- JOHN BANVILLE. EM 2014 A LITERATURA VAI BEM, OBRIGADO.

Um ator tem um branco no palco. Casado, pai de uma menina esquizo, ele vai passar um tempo na velha casa onde cresceu. Lá ele vê fantasmas, discute com a esposa que o visita e trava contatos, indesejados, com pai e filha do lugar. Esse o enredo deste livro do irlandês John Banville, ganhador do Booker Prize com O Mar e um dos melhores autores vivos. Ele tem um dom raro nos autores atuais, a escrita plástica. Como um Henry James mais quente e menos detalhista, ele sabe como descrever uma cor, um brilho, uma variação de clima. Esses os principais personagens, a praia, a praça, a casa, imensa, e as cores cambiantes do mundo. Repare quantas vezes ele fala de brilhos, de vento, de cor. O livro assim se torna colorido, vivo, uma fotografia animada, sentimos gostos, cheiros e mergulhamos dentro de Alex, o ator perdido. 
Alex é um pavão. Ele tem uma vaidade que chega a beira do repulsivo. O tempo todo, e ele sabe disso, ele se observa. Tudo é palco e todos são seus coadjuvantes. E mesmo assim Alex é um personagem cativante. O leitor gosta dele, se interessa pelo que ele pensa e sente. Sem jamais tentar ser simpático, e sem fazer nada de interessante, a não ser ver dois ou três fantasmas, Alex segura e ergue o livro com galhardia de herói e visões de poeta. É um romance profundamente poético, aberto a vida. sensível sem ser meloso ou pomposo. Banville tem vocabulário. Tem ritmo. Tem olho e ouvido. Sua escrita é um banquete de simplicidade sofisticada. 
Alguns trechos são de tristeza perigosa. Pantanosa. E de repente Alex pensa algo que ilumina o porão, seca o pântano e sorrimos. Deprimido? Sim, Alex está deprimido, mas essa melancolia não lhe tira a inteligência. Ele ainda vê a vida em cor e cheiro. A surpresa que o final lhe reserva, surpresa não surpreendente, antes indecente em sua crueldade, o derruba completamente, mas não o destrói. Alex vê coisas. Isso o salvará.
Há livros que intuimos serem para nós. Os lemos, sem ninguém nos indicar, no exato momento em que devemos lê-los. É o caso. Me pego muito identificado com Alex. Em seu passado de criança e em seu modo de ver o mundo. Conheço sua tristeza, seu medo, mas nunca vi um fantasma. Sei até o que é desabar num palco, sentir que se está nú na frente de estranhos. Uma mãe que é viciada em sofrimento e um pai que se esconde. Eu sei o que é tudo isso. E o livro cai em minhas mãos num momento desses, em que sentimos que algo vai acontecer. Nascer. Mudar. Irromper.
Bom poder dizer que se o cinema acabou, a pintura morreu e o rock virou uma farsa, a literatura está firme e forte, inteira, pronta para mais um século de espetáculo e de intimismo. Vale!

Carl Jung: Face to Face [FULL INTERVIEW]



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A LUTA BRASILEIRA À LUZ DE UM CLÁSSICO DE EMILY BRONTE.

   Um resumo: Heathcliff é trazido por um proprietário de terras para o Yorkshire. Menino escuro, sujo, cigano, ele é um mestiço. O homem diz tê-lo encontrado vagando por Liverpool, mas é mentira. Óbvio que é filho ilegítimo, bastardo. Assim, o herói desta obra-prima é maldito. Mas mesmo assim passa algum tempo feliz, crescendo ao lado de Cathy, sua meia irmã. E naturalmente os dois se apaixonam. Livres, selvagens, sujos, os dois são puro instinto e também muita fantasia. 
  Tudo muda quando morre o pai. Orfão novamente, Heathcliff é jogado ao papel de servo. Sua alegria vira ressentimento. Cathy permanece fiel, mas um dia os olhos dela se abrem para uma outra vida e ela se encanta pelo vizinho da propriedade. Esse vizinho, belo, rico, educado, hiper-civilizado, representa a nova Inglaterra, o país nascido a força na esteira da industrialização. Cathy se casa com o vizinho e Heathcliff imigra para a América, país jovem, onde se pode ser tudo menos delicado. Voltará rico e doido por vingança. O final será terrível...
  Como todo grande livro, este se presta a várias leituras. Quando o li aos 15 anos, tanto tempo atrás, o que sabia eu da vida? Ele foi como uma antecipação do futuro, do amor fou-maldito que eu queria viver e padecer. Mais que tudo, o livro então me pareceu gótico, tenebroso e muito assustador. Seduziu meu coração. Li novamente aos 30 anos, na angústia de um amor dolorido e perdido. Foi um consolo e li então uma história mística, uma ode ao amor como força maior que a morte. Percebi o romantismo real, o romantismo rústico, sádico, satânico do livro. Byron ri em suas páginas. 
  Então li pela terceira vez, aos 41 anos. Entediado, procurei nele a febre dos 15 anos e não a encontrei. Em vez disso, achei uma belíssima história, a saga de um rebelde. E aterrado, constatei que o personagem de Heathcliff ficara marcado em mim como chaga. Eu antecipava as falas, o livro parecia ser parte de mim. Ele é.
  Agora, aos 50, e espero poder ler este livro aos 70, aos 90...Percebo mais uma versão. Cathy e Heathcliff representam a velha nação, aquela morta pelo progresso. Quando ela se casa com o vizinho, símbolo dos novos tempos, época do inglês como o conhecemos, reservado, distante, educado, pragmático, Heathcliff fica só. A velha Inglaterra dos tempos de Chaucer, suja, impetuosa, violenta e falastrona se isola. Vai para a América. Cathy fica rica e bonita, mas sem alma, morta em vida. 
  Sim, isso é Byron, mas agora vejo que é Shelley também. O livro prega a igualdade, a volta do impulso, do instinto, da Merry England de Shakespeare e de Marlowe. Sem Heathcliff nada parece vivo. Quando ele volta a vida não volta com ele, Bronte sabia que nada retorna como foi, retorna como contrário. Heathcliff é agora a morte. Ele destrói, ele corrompe, ele suja e conspurca. Como um hooligan, um punk, um black-block, sua ira é apenas força cega, sem alvo. Em meio aos perfumados e pálidos novos ingleses, ele é uma lembrança daquilo que eles deixaram de ser. 
  Toda nação mata sua alma ao se enriquecer. A Alemanha assassinou sua alma mística e visionária. Ela voltou como nazismo. A França destruiu a nação dos alegres camponeses, os glutões bebedores à Rabelais. O Japão fez o mesmo com o mundo dos samurais e a Escandinávia engoliu seu universo viking. Os EUA fizeram isso numa guerra civil. Mataram nas baionetas o mundo de senhores de escravos e de aventureiros individualistas. O Brasil nunca. Se um dia fizermos aquilo que a Inglaterra fez em 50 anos ( entre 1750-1800 ), nosso Heathcliff será um tipo de baiano preguiçoso, macumbeiro, lutador de capoeira e muito sexuado. Esse será nosso ser reprimido. O tal brasileiro primitivo, arcaico, nossa alma, o carioca aberto, gozador, curtidor, o paulista caipira, contador de casos, fofoqueiro...Todos terão de ser trocados pelo novo brasileiro, um frequentador da avenida Paulista apressado, um viajante com hora marcado, um homem objetivo e de pés no chão. Pouco me importa se esse novo brasileiro rico será melhor ou pior. Ele será outro. Nosso país se faz na irreconciliável luta entre os dois, luta longe de ser aplacada. Luta que como provam os outros países, jamais é completamente resolvida.
  A mais bela cena é aquela em que Cathy percebe ser Heathcliff "" ela mesma"", o famoso: - Heathcliff sou eu! O mais antigo país moderno do mundo ainda é Heathcliff. Vemos isso na obra de vários artistas atuais e nos inexplicáveis surtos de ""barbárie"" que irrompem do nada. É a emergência da sombra, como sabiamente diria Jung. É a força que nos motiva.
  Como lerei este livro depois?

CINE FIAMMETTA E A MASTURBAÇÃO EM PINHEIROS

Lendo um livro de John Banville, Eclipse, um livro trágico, belo, de uma sensibilidade úmida, com um caráter pegajoso, me recordo do cine Fiammetta. ( No livro ele fala também de suas experiências, patéticas, em salas de cinema ). O Fiammetta ficava na rua Fradique Coutinho. Fradique...nome estranho que sempre me lembra um pássaro desajeitado. Mistura de Frade  com Dique. Fiammetta viria de Boccaccio? No Decameron tem um personagem com esse nome. Eu ia nas sessões da tarde, matando aula. Os filmes eram horrorosos. Causaria surpresa e muita estranheza se um garoto de 2014 tivesse a experiência estética de um cinema de bairro de 1980. Ele nos acharia idiotas. Ou masoquistas. 
Logo na entrada havia a bilheteria. O preço do bilhete era menor que uma passagem de ônibus. Sempre havia algum velho zanzando pela calçada e dois ou quatro adolescentes comprando balas. O tapete era fedido. Um cheiro de mofo, de suor misturado a pipocas. A sala, enorme e muito escura. Eu me sentava sempre no fundo. O coração disparado. Mais um filme com mulheres peladas. Quinze, vinte pessoas perdidas naquele cinema enorme. Silêncio absoluto, eu tentava sumir em minha tímida condição. Vinha a campainha e o documentário. Uma coisa deprimente, ruidosa, sobre o governo. Depois alguns trailers sem interesse. O Fiammetta tinha um projecionista que não sabia mexer nas lentes do projetor. O filme era sempre desfocado e muito escuro. Recordo de um filme italiano sobre freiras lésbicas. Todo picotado pela censura. escuro, incompreensível, mal se podia ver um peito, uma bunda. O filme, que já era uma tristeza, ficava como um pesadelo, uma mistura de escuridão, freiras, corpos pelados e o cheiro abafado da sala. E claro, pulgas. 
Eu realmente nunca entendi porque insistia em ir naquele inferno. Era sempre uma experiência desmoralizante. De volta à rua, anoitecendo, eu me sentia um pária. Parte daquele mundinho espinhento de masturbadores envergonhados. Sim meu amigo de 2014, a procura por imagens excitantes era um ato público. Não havia a limpa e anônima procura pela internet. Nós, jovens perdidos, andávamos pelas ruas, vagando por salas de cinemas sujos, disfarçando em frente a bancas de jornais, bancas que sempre tinham, vestido com paletó azul com furos de traça, um velho seboso como dono. Passávamos engolindo em seco em frente de um bordel. Masturbadores de rua, adolescentes vermelhos, suados, caspentos, éramos sujos, feios, asquerosos. Nas bancas comprávamos jornais para disfarçar a revista de mulher pelada que ia dobrada no meio do caderno de esportes. Nos cinemas entrávamos correndo para que ninguém nos visse comprando o ingresso e entrando na sala. E mesmo com todo meu saudosismo, não posso dizer que sinto algo de bom nessas lembranças. Era muito sofrido. Era um martírio. E sim, eu tremia de ansiedade ao abrir a revista, ao entrar no cinema. Calafrios, deliciosos, subiam pelo meu corpo. A visão das curvas e sombras femininas, a doce voz da mulher, a presença daquele mistério, um ser que era humano como eu mas que parecia em tudo meu oposto, me dava vertigens, pavor e uma sensação ao mesmo tempo de liberação, de poder começar a ser. 
Quem me dera ser um adolescente hoje. Poder assistir pornografia na segurança do lar, no meu quarto, só e limpo. sem risco e sem embaraço. Dividir esse videos com os amigos e comentar, reassistir no pátio da escola, no recreio. Quantas vezes eu desejasse. A distância de uma teclada. Longe dos velhos encolhidos, dos office-boys cansados, das pulgas e da imagem escura. Longe de 1980.

ELEIÇÕES E O CARÁTER DE UM PAÍS ( NÃO DE UMA NATUREZA )

Brasileiros são profundamente conservadores. Conservadores não por convicção, por medo. Dependesse de nós todo presidente seria reeleito vinte vezes. Às vezes queremos alguma mudança. Nossa tragédia é esperar que uma mudança possa acontecer sem que se mude nenhuma peça. Ao contrário do ditado, doamos os dedos e nunca o anel. Temos uma vocação para a monarquia. Pedro II é nossa saudade. Um tio benevolente. Essa coisa chamada democracia não nos interessa e alternância de poder nos apavora. 
É tudo tão feio neste país. É tudo tão lindo nesta natureza brasileira. Temos batalhado arduamente para destruir todo traço de beleza. Nós não damos grande valor a estética. Em tudo o que fazemos a beleza ocupa um espaço minúsculo. Não há no mundo país mais ao contrário de nós que o Japão. Somos o inverso radical de tudo o que os japoneses são.
Dilma terá mais 4 anos e depois mais 8 de Lula. E assim iremos nos conformar a nosso destino. Súditos. Tédio tropical vira indiferença. Dilma ou Marina, Aécio ou Luciana, que muda?
Vejo meus alunos. Eles não querem mudar. Têm 13 anos e moram em favelas. E mesmo assim nada querem de diferente. Sonhos? Sim, sonham em ter mais dinheiro. Mas nunca em mudar de vida. Para eles o mundo se resume a churrasco e baile funk. O dinheiro que desejam é para mais do mesmo. Mudar o que?
O rei deles é o rei do tráfico. O rei do futebol. A rainha da bunda grande. 
Talvez eles sejam sábios. Tenham descoberto, como os seguidores de Brahma, que a vida é uma ilusão e que nada muda a não ser mais ilusões.
Isso tudo se confirma com a vitória de Geraldo também. O estado está um lixo mas o medo é maior. Então, como sempre, vamos reeleger o bacana e esperar sentados que ele mude. Presos na lógica covarde do súdito e do rei.
Longe da Inglaterra.
Ontem no Estadão. Linda matéria dos Reali sobre a região da Cornualha. É o lugar do mundo que eu mais queria ir. Região isolada, oeste, verde e pedras, neblina e frio, mar e penhasco. Conan Doyle, Virginia Wolff, Tolkien, Agatha Christie, todos se inspiraram pelo lugar. Restos do castelo de Arthur. Cova de Merlin. 
Geografia é destino? Os restos de nossas senzalas, as casas grandes, os pelourinhos, as trilhas dos bandeirantes...mosquitos, barulho de macacos, mata cerrada, umidade. Cidades sujas, nervosas, mal desenhadas, feias, feias, feias, feias...
E a praia, linda, longa, sem fim. Praia a nos convidar, a dizer sedutora: Deixa pra lá...deixa estar...deixa ficar...
A Inglaterra é um convite a introspecção. Portugal chama preguiça. A Itália exala vaidade. Os EUA clamam o grito e o eco do poder. E o Brasil canta malemolente: deixa pra lá...deixa estar...deixa ficar...

THE GUARDIAN, AS 100 MELHORES NOVELAS DA LÍNGUA INGLESA

Só pra constar.
O jornal The Guardian fez uma lista com os 100 maiores romances da história. Nada de muito surpreendente. Ah sim, valem apenas aqueles escritos em inglês. Venceu John Bunyan com seu A Balada do Peregrino. Eu tenho uma tradução mas ainda não o li. Sua importância reside no fato de ter sido ele o livro que deu aos ingleses o hábito da leitura. Toda pessoa alfabetizada tinha uma cópia. O resenhista o chama de o Dom Quixote do mundo anglo-saxão. Justo?
Em segundo está Robinson Crusoe de Defoe. Esse eu li duas vezes. É uma aventura maravilhosa. E sei agora, graças as aulas de Marcelo Pen, que ele não apenas foi o primeiro best seller em termos modernos, como ajudou a moldar a mente dos ingleses. É o romance do empreendedor. Depois temos Tom Jones de Henry Fielding, Tristam Shandy de Sterne e Jane Austen com Emma. Muito antiga essa lista? Well, ele foi na raiz, naquilo que deu às letras inglesas sua particularidade. Livros que não poderiam ser escritos na França ou na Alemanha. Depois temos Poe, Heminguay, Fitzgerald, Wodehouse, temos ainda o Frankenstein de Mary Shelley, Dickens, Wells...
Adoro listas. Quando ler o livro de John Bunyan comento.

FOGO PÁLIDO- VLADIMIR NABOKOV

   Após o imenso sucesso de Lolita, Nabokov lança em 1962 este original, intrigante e muito irritante romance. Um enigma, eu termino sua leitura e ainda não consigo entender do que se trata. Talvez seja uma brincadeira de literato para literatos. Ou um grito de raiva de um exilado. Um tabuleiro de um novo tipo de jogo lógico. Uma barafunda de intenções que deram em nada. 
   Um exilado do reino de Zambla apresenta, na introdução, os poemas de John Shade. Shade é um grande poeta americano que acaba de morrer. O exilado-narrador, conseguiu fazer amizade com o poeta, conseguiu dar um baile nos herdeiros, e agora edita o último poema de Shade, o livro que temos em mãos. Antes de ler o poema, somos convidados a ler todas as notas de rodapé, que vêm numeradas ao fim do livro. Lemos. E começamos a nos incomodar. 
   O narrador se revela vaidoso, um homossexual erudito e um quase maluco. Ou talvez um completo lunático. Cada palavra, cada imagem do poema remete a Zembla. É assim que o exilado o entende e é assim que ele quer que o compreendamos, um poema sobre sua nação e sobre ele mesmo. Ele edita o livro e distorce todo o sentido em seus comentários inflados. As notas são muito mais longas que o poema. E segundo esse editor-zembliano-exilado, contam de forma cifrada a história da revolução em Zambla, a fuga do rei e sua odisséia pessoal. 
  Isso incomoda o leitor porque todo o romance passa a parecer uma grande farsa. Estaremos lendo uma piada? Estaremos lendo uma alucinação? Como levar a sério uma obra que parece ter sido escrita por um Nabokov futil e mal intencionado? E então vem a parte final. O começo renasce no final da saga. Não conto. O livro é fácil de achar. Compre se puder. Mas aviso, é leitura cansativa. Sofisticada ao extremo, um jogo de escritor.
  Nabokov foi complicando cada vez mais sua escrita. Seus textos dos anos 30 e 40 são jóias de estilo, e mesmo assim fáceis de ler. A partir dos anos 60 ele foi se complicando. E é simples entender o porque: Ele se entediou com sua arte. Escrever bem lhe era pouco desafiador. Como aconteceu com Joyce, ele se deu tarefas cada vez mais duras. Marca de um autor grande e de um homem ambicioso.
  Lolita foi seu passaporte. Essa comédia ácida, cruel, certeira foi o sucesso que lhe deu a liberdade para ousar. O filme lhe deu uma casa na Suiça.
  Este livro é o começo de sua livre diversão.

BREAKING BAD

Estou vendo a caixa de BREAKING BAD. Diversão em dose cavalar. Vocês percebem que é uma comédia? Dou sonoras gargalhadas! O personagem de Cranston é pura chanchada. Adoro!
Sempre leio que esta quarta ERA de Ouro da TV  ( as outras foram em 55/58,  71/75 e 94/98 ), tem por característica o inusitado de seus temas. Que o cinema ficou careta e a TV ficou ousada. Well....mais ou menos.... Os temas podem ser diferentes, originais, mas a forma, o formato é o mais conservador possível. Vejam esta série: Fosse um longa para o cinema o roteiro seria tratado de duas maneiras, ou como filme metido à besta, ou como blockbuster.
Fosse arte, a narrativa seria não linear, os movimentos de câmera esquisitos, a trilha sonora invasiva, e as cenas teriam uma lentidão cruel. Fosse blockbuster teria mais mortes, mais produção e atores mais bonitos. Na TV, Breaking Bad é filmado como era filmado o cinema de antigamente, simplesmente se conta uma história da melhor forma possível. Sem manias de autor e sem exageros de produção. Pega-se o roteiro e se conta o que lá foi escrito. Só isso.
Daí a alegria de roteiristas. Daí a alegria dos espectadores. As ótimas séries de TV são fáceis de entender, boas de se olhar, simples e diretas, narram histórias, criam tipos, nos levam pela mão. Coisas que cineastas de hoje, pseudo-artistas em sua maioria, se recusam a fazer. Eles inventam. E erram muito.
A TV de agora é o cinema de ontem. Breaking Bad é um bom filme dos anos 70. Como são todos os outros. Cinema sem frescura. 
 

O NASCIMENTO DO PARAÍSO ( UM TEXTO PARA 1974 )

Eu me mudara a dois anos. O bairro do Caxingui, mundo dos espaços sem fim, fora trocado pela Vila Sônia, terra de ruas asfaltadas, de casas sombrias e de vielas misteriosas. Agora, em 1974, o Eden se descortinava para mim. Vivi alguns bons anos até agora, 2014, mas 1974 foi um ano muito especial. O ano em que eu descobri quem eu era e quem eu seria.
E tudo se liga à vaidade. Eu havia descoberto ser um menino bonito. Mais que tudo, eu pensava ser já um adolescente. Não era. Continuava uma criança. Foi em 74 que eu começara a andar com o peito estufado. Finalmente a bronquite se fora e agora meu peito, inimigo desde sempre, se tornara meu aliado. Eu me sentia forte. 
Minha mãe resolver reformar o jardim de casa e contratara um jardineiro. Foi na casa desse homem, ao ir com ela tratar do trabalho, casa enorme, cheia de cantos úmidos e plantas esquisitas, que eu vira uma pilha de gibis antigos. Nasceu aí a primeira flor desse Eden. A cor das capas, o formato grande, os títulos chamativos, tudo nessas capas me seduziu. E por uma dessas coincidências descobri que meu amigo José Juscelino tinha uma enorme coleção de gibis. Fizemos uma troca, meus gibis da Abril por esses gibis da Ebal. A troca foi feita em casa. Pronto, eu começava minha coleção de Superman, Tarzan, Batman e Homem Aranha. Por todo esse ano, nas segundas de manhã, haveria o ritual de ir à banca do Negrito, onde cheio de ansiedade feliz, eu compraria meus gibis semanais. Nunca mais, até hoje, eu sentiria tanta alegria ao gastar dinheiro. Nenhuma compra me traria tanta euforia. Ao voltar pra casa, as novas revistas na mão, sentindo o cheiro da tinta e do papel, eu iria ler duas, três vezes todas as 64 páginas. 
O paraíso não pode ser feito só de uma flor. Nesse ano eu descobri o rock também. Certo que desde sempre eu amava os Monkees. Certo que fora ninado ao som dos Beatles e dos Stones. Mas foi em 1974 que eu entendera que havia uma coisa chamada rock e que esse tipo de som me deixava estranhamente excitado. 
Meu pai tinha um restaurante em Pinheiros e aos sábados eu ia até lá, com meu irmão e minha mãe. Meu pai nos comprava carrinhos da Matchbox, umas maravilhas de ferro pesado e rodinhas macias de borracha. Mas meu interesse havia mudado e eu queria discos. O primeiro foi um single do Elton John. Goodbye Yellow Brick Road. Eu já era um romântico sonhador. Meu irmão, um moleque de 9 anos, comprou Alice Cooper. Nosso caminhos se definiam aí. 
Uma coisa muito legal desse tempo é que se ouvia rádio. E ao ouvir rádio, AM, voce era exposto a muita informação. Não existia a segmentação, então voce era obrigado a escutar um pouco de tudo. Sábados de manhã ouvíamos a rádio Difusora. E nela tocava soul, funk, mpb e rock. O que a gente queria era ouvir Bowie, Elton, Paul e Bad Company, mas esperando que tocasse tudo isso éramos obrigados a ouvir Harold Melvin, War, Barry White ou Jackson Five. Isso aumentou nossos limites. Com a segmentação de hoje um cara que goste de Death Metal vai ouvir só isso e um outro que goste de Dance ouvirá só Dance. Chato e pobre...
Na Excelsior tocava outro play list. Slade, Suzi Quatro, Wings e  Shariff Dean. E os bregas de então, Steve MacLean, Roberto Carlos, Benito di Paula e Martinho da Vila. A gente ouvia tudo. Sorrow de Bowie à Onde a Vaca Vai. Odair José e Ronnie Von. Ganhamos um gravador Aiko. Era uma festa! Ainda lembro da primeira música que gravei do rádio: You Won`t See Me, versão com Anne Murray. Houve uma gloriosa manhã em que acordei com Flores Astrais dos Secos e Molhados tocando alto em toda a casa. Era minha mãe. Ela gostava muito dessa canção.
Feira livre, lojas de departamentos, mercado municipal, Ceasa, nada de Shopping Center. 
A TV tinha só cinco canais. Era o bastante. Na Record tinha um monte de desenhos toda a tarde. Kimba, Super Dínamo, Fantomas, Samurai Kid. Na Bandeirantes tinha um cara chamado Titio Molina. Josie e as Gatinhas, Herculóides, Moby Dick e Shazam. Archies. Na Globo, claro, minha mãe via novelas. O mundo parecia ver novelas. Eu via as 5 horas Os Mozzarelas, Os Caretas, Push Cassidy e O Poderoso Cachorrão. Eram modernetes e prafrentex. Mary Tyler Moore estranhamente eu já amava. Porque? Eu nada entendia mas gostava de ver. A voz da dubladora era linda! Hoje sei que Mary foi um marco na TV americana, mas naquele tempo que sabia eu? 
Tinha muito enlatado na TV. Meu pai adorava Cannon e San Francisco Urgente. Foi a época de Columbo, Kojak, MacCloud. Grande era da TV ( uma das várias eras de ouro ). Estranho que as duas melhores nunca passaram aqui: All In The Family e Monty Python. Ainda tinha Os Waltons, Vila Sésamo e Persuaders. E umas esquisitas séries inglesas de sci-fi.  O Mundo do Amanhã, Espaço 2020...E longas novelas da BBC, lembro de Jane Austen na Globo as quatro da tarde.
A Copa da Alemanha foi nesse ano. E eu e meu irmão jogávamos bola no quintal. Alguém falou que aquele que não teve um quintal nunca foi feliz. Além da bola a gente fazia guerras memoráveis. Era um mundo completo. Como completa era a escola. Minha velha escola de corredores escuros, salas com chão de madeira que rangia, carteiras pesadas e professores sérios. As meninas de saias curtas, os meninos cheios de caspa e cheiros ruins. Handball era dado todo dia. Tinha fanfarra. E amigos. Amigos que eu adorava, brigava e fazia as pazes. Cabeludos como eu, sujos como eu, desleixados como eu, sem noção, burros, vadios, andarilhos, como eu. O mundo era uma enorme rua. Com cães no cio, restos de feira, vendedores de livros, bikes enfeitadas e moças de bunda grande. Os caras com seus imensos sapatos de salto alto, calças cor de rosa, boca larga e camisa listrada justa. O peito nú com correntes de ouro.  E as moças de saia curta, sandálias ou botas enormes, blusas de costas nuas e cabelos longos, ondulados, soltos. Cheiros fortes de perfume doce, de shampoo, de sabonete. E muito cigarro, muito whisky, feijoadas, dobradinhas, virados, bife a cavalo, frango a passarinho. Risoto a Catarina. 
Eu via tudo. Não sabia que o cinema tinha O Poderoso Chefão 2, Chinatown e American Graffitti. Não sabia que o Oscar fora disputado por Jack Nicholson, Al Pacino, Robert Redford e Jack Lemmon. Mas queria ver Terremoto, Inferno na Torre e Banzé no Oeste. Nada sabia de Roxy Music, Kraftwerk ou de Lou Reed, mas já ouvia Rebel Rebel. 1974 terminou na praia, onde me apaixonei pela primeira vez. Emerson ganhou o campeonato, Zico era a promessa e o governo de Geisel nos fazia crer que o Brasil era o melhor país do mundo. Não era. 
Mas a rua Dr. Silvio Dante Bertachi era a melhor das ruas.  Recordo tudo isso, 40 anos depois, e sei que o que me resta de melhor está vivo e vindo daí. 1974 nunca morreu. E se tenho saudade, que bom, é porque foi o que foi. Uma afirmação, um abrir de olhos, um aceitar e um grande coração.