HERÓI

As pessoas amam os herois. E em sua maioria, gostariam de ser um deles. Mas poucas, muito poucas, têm a coragem e podem pagar o preço que o heroísmo pede. Pessoas espertas perceberam então que pessoas que não tentam o heroísmo estão dispostas a ser comandadas. Precisam de comando e de dogmas que as livrem de responsabilidade.
O herói é o homem/mulher que saiu da "vila". Seja fisicamente, seja metaforicamente, todo herói rasga o véu da ilusão, obtèm a imagem da verdade e sai/entra em busca de uma missão. Para obter essa visão é necessário o descompromisso com o comum. O herói não segue um padrão, seja comportamental, religioso, cientifico ou politico. E aquele que não segue um dogma paga o preço, a solidão, condição do herói, de todo herói, mesmo daquele que vive em grupo. É fácil perceber que nada é mais nocivo à sociedade que um herói. Ele lembra ao homem comum aquilo que ele poderia ter sido. Traz em si a ideia de que existe vida fora da banalidade. Irritará o materialista por seu desapego, o cientista por sua irracionalidade, o religioso por sua insatisfação, o lider por sua insubmissão.
Nós, que não somos heróis, não suportamos a vida sem regras estabelecidas. Amamos a ideia do heroísmo, mas temos pavor do que significa sê-lo. Queremos segurança e anonimato, ser como todo mundo, não carregar o peso de nossa individualidade.
Segundo Jung, sem o encontro com esse individualismo que existe em cada um de nós, não há como viver uma vida com sentido. O  não-herói aplaca sua angústia, mas paga o preço de só poder viver sob o jugo de um lider, uma lei ou uma regra. Busca o esquecimento de si-mesmo, não suporta se olhar. Corre numa sucessão de distrações, de viagens sem fim, de êxtases vazios. Vive na esperança louca de não precisar viver. A vida é história, a vida é alma, a vida é futuro. E história, alma e futuro pertencem individualmente a cada um que vive. O covarde procura viver a história de outro, sonhar o futuro comum e negar a alma como coisa sua e ao mesmo tempo sem dono.
A arte nos faz ter contato com a história interna de todos nós. E abre a possibilidade de encontrarmos nossa história pessoal. A linguagem da poesia é a linguagem do inconsciente, ela é lúdica, criativa, volátil, sábia. A religião não dogmática nos dá contato com a alma, pois religião não é superstição ( resposta fácil, covarde e tola, que nada responde na verdade ), religião é uma necessidade de todo humano, a necessidade de sentido, de transcendencia e de tomar contato com aquilo que está além do que sabemos e podemos saber. Impulso tão forte quanto a própria vida, impulso que é sublimado em alguns ateus radicais pela politica, sexo ou filosofia racional. Não percebem que essas são suas religiões sublimadas e empobrecidas.
O futuro é uma construção permanente que depende da realização da história e da alma. Futuro que não é um alvo, não é um destino, não é premeditado. Ele é conhecimento. Da vida e de si-mesmo.
Existe em voce a potência de se ser aquilo que voce pode vir a ser. Essa imagem mora dentro de voce desde sempre. E se voce tiver algum poder de introspecção poderá vê-la. Isso nada tem de mistico ou de louco, ela está lá, é um tipo de "homem que eu poderia ser e talvez um dia seja". Não é melhor ou mais bonita que aquilo que voce vê no espelho e que seus amigos vêem. É tão somente mais verdadeira. Estranhamente calma e definida. Como se fosse um fim de história. Um eu que não mais se move. Esse é o futuro seu e só seu. Mas não é o futuro que necessáriamente vai acontecer. Para vir a ser ele precisa de seu esforço, de sua responsabilidade com voce mesmo, e de conhecimento. Principalmente de conhecimento.
O herói é o homem que foi ao encontro desse "ele definido".
A industria cultural sabe usar essa nossa fé com soberba simplicidade. Peter Parker encontrando dentro de si o Homem Aranha. Marinheiros partindo e retornando como Lobos do Mar.  Cowboys que se lançam ao deserto para se encontrar e voltam á cidade para a salvar. Reis do rock que se martirizam em individualismo e que retornam e nos passam sua mensagem.  É sempre o caminho do mergulhar dentro de si e o sair transformado no homem que se nasceu para ser. À parte do meio social, com ideias experimentadas e experimentais e pleno em sabedoria dolorosa. E sempre haverá o incômodo que causam/causaram herois reais como Muhammad Ali, Leon Tolstoi, Thoreau ou Oscar Wilde. Amados e repelidos, anti-dogmáticos e criadores de seguidores que os seguem sem nada para ser seguido, a não ser o exemplo da vida do herói que a viveu. Porque o herói de verdade nos convida a criar nossa sina, nossa vida, nossa dor. A saber que o compromisso é com voce-mesmo e com a vida.
Ninguém pode viver sua vida. E ninguém pode te salvar daquilo que voce faz de voce mesmo. Essa é a lição do herói. Esse é o começo do sentido da vida.

JACK WHITE, DUANE, INGLATERRA, XIMENES E CANNES

   Roy Rogers toca em SP. Slide guitar. Slide guitar é o som de Paris-Texas. Ry Cooder. Slide é som de homem. Apesar de Bonnie Raitt. É estrada e botas e carro velho com fedor de óleo. Se eu pudesse eu tocava slide mas eu sou uma múmia para todo instrumento musical. Sou incapaz de tirar um acorde em piano, violão ou pistão. Mas até que batuco bem. John Lee Hooker e Elmore James são slide. Mas o maior solo de slide que já ouvi é o de Duane Allman em Layla and Other Assorted Love Songs. Ele acontece na faixa Key To The Highway. Raios e trovões em vinil.
   E por falar em guitarra....Uma das coisas mais ridiculas dos anos 80 foram as guitarras. Elas se transformaram em piadas sem graça. De um lado viviam os clones de Eddie Van Halen, com seus solos sem sentido e sem sentimento algum. Uma disputa chata pra ver quem tocava mais rápido. E de outro lado um povinho fofo que amava guitarras "soft". Cheguei a ler, eu juro, que Johnny Marr era o maior guitarrista da história do rock. Arre!!!! Slash lembrou ao mundo que guitarra era Joe Perry e Marc Bolan. Riff e ritmo. E Jack White nos recorda que a guitarra é o rock. Jimi Page revive em seu modo de abordar o instrumento, mas ele vai mais fundo e nos devolve Robert Johnson. Seu disco solo é do balacobaco.
   Modigliani....eu já gostei. Ele é romantico e pega os adolescentes sedentos. As mulheres nuas que ele pintou prometem muito e sua vida foi um poema de dor e de ilusão. Mas hoje ele não me comove. E o MASP montou uma expo miserável... Prefiro esperar Caravaggio.
   Todas as publicações falam ( bem ) de Downtown Abbey. A série inglesa cult que foi escrita por Julian Fellowes. Ele escreveu um Altman legal, aquele do casarão inglês cheio de empregados. Como dizia Paulo Francis, amaericano adora ver a alta classe inglesa em ação. Por isso dão sempre um Oscar para ator britãnico ( menos Peter O'Toole...que pena! ). Eles amam o sotaque da BBC e ficam se sentindo mais classudos ao admirar aqueles casarões cheios de cortinas, veludos e chá com sanduiches de pepino. É um mundo que foi destruído na primeira guerra, mundo sólido onde o pobre era muito pobre e o rico sabia que morreria rico. Casas com trinta empregados e terras sem cobrança de impostos. Brideshead Revisited é citada como série que influenciou Downtown... Já quero ver. Brideshead é o máximo.
   O festival de Cannes ainda importa? Em 1976 deu Taxi Driver e em 1971 O Mensageiro. Alguém lembra quem venceu ano passado?
   Mariana Ximenes escreveu um belo texto sobre Douglas Sirk no Estadão. Mariana é o máximo!
   A revista da livraria Cultura tem belo texto sobre Bergman. Domingos de Oliveira fala do diretor sueco e Sergio Rizzo também. Leia que vale a pena.
   Pra terminar, os dez filmes que Ruy Castro mais assistiu nos últimos dois anos:
   Caligari de Wiene ( o filme que mais me deu medo na vida inteira ), Ladrão de Alcova de Lubistch, Ladrão de Bagdá de Powell, Contrastes Humanos de Sturges, Entre a Loura e a Morena de Bekerley, Milagre em Milão de De Sica, Monstro da Lagoa Negra de Arnold, Bob le Flambeur de Melville, Mabuse de Lang e Se Meu Apto Falasse de Wilder.

AL GREEN-TAKE ME TO THE RIVER. LIVE 1975...o segredo está no soul



leia e escreva já!

THE BELLE ALBUM- AL GREEN

   Ao olhar a obra de Al Green, normalmente as pessoas escolhem Let's Stay Together, Green is Blue ou Call Me. Gosto de todos, mas The Belle Album é meu disco favorito. Gravado já na decadência de Green, este é o disco em que ele se apresenta mais livre, solto, perto do erro. Seu extremo profissionalismo dá uma cochilada. O som é quase o de uma jam.
   Al Green estourou em 1971 com seu soul sexy. Sua voz não tinha a fragilidade de Marvin Gaye e nem o alcance de Stevie Wonder. Ele também era menos ambicioso que os dois. Jamais tentou gravar uma obra-prima, ou ser um tipo de guru da causa black. Fazia belos discos, cheios de groove, intercalados com baladas que nunca eram de rasgar o coração. Sua banda, exuberante, tinha uma dupla de baixo e batera que beirava o inenarrável. Sacudiam tudo, botavam tudo pra ferver, ebulição absoluta. Na época da super-black-music, Al Green era um dos deuses. Entre 71/74 mandou e desmandou, um cantor sexy, macho e muito vaidoso. Mas aí veio o tiro...
   Num hotel, em 74, Green foi atacado por uma fã. Fã que acabou por atirar em si-mesma, na frente de Al Green. Em crise, Al Green acabou por voltar à igreja e se fez pastor. The Belle Album, em que pese seu som com influências de Sly Stone e seu sacolejo funk, é um disco do Al Green espiritual. Recolhido.
   O som é menos rico que nos outros albuns. Metais e cordas comparecem menos. O que se destaca é o teclado estilingado, um par de guitarras discretas e um baixo que assume o centro do som. Enfeitando e tascando fogo na melodia vem a bateria suingada e coruscante. O disco é uma delicia de ritmo e de leveza.
   Al Green continua na ativa. Grava e faz shows, é reverenciado por cantores de r and b. Mas perdeu a vontade de ser o rei. O tiro dado pela fã paralisou sua carreira. The Belle Album é como um rastilho de pólvora que sobrara da arrancada inicial. E que poderoso rastilho.

O DOGMA É UMA DROGA

   Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que o fim da repressão sexual faria da vida uma coisa simples e feliz. Que todas as depressões e melancolias iriam embora e que os impulsos de violência sumiriam. Não é o que acontece.
   Mas voce pode se aferrar ao dogma e falar que o sexo é livre, mas que a maldita religião nos deu tanta culpa que não conseguimos nos livrar dela. Não somos felizes porque nos sentimos culpados.
   Infantilidade absoluta. Uma das caracteíristicas da mente infantil é jogar a culpa sempre no mais velho. Eu sou assim por culpa de meu pai. Somos infelizes por culpa da velha tradição religiosa. Esse é o tal raciocinio infantil reducionista. Voce cria duas certezas ( que dependem da fé em as aceitar ) e as repete como um mantra mágico. Para voce será uma solução. Não é uma solução, é uma cegueira.
   A infelicidade de um homem independe de vida sexual ou religiosa. O homem é feliz quando ele consegue viver a vida para a qual foi formado para viver. Quanto mais longe ele estiver dessa vida mais infeliz ele será. A repressão do século XIX que tanto fazia mal, não era apenas a repressão sexual. A dor que sentimos hoje não é mera culpa ou vazio. É muito simplório falar de culpa ou de vazio e fingir que alguma coisa foi respondida. A dor, seja no século XIX ou agora, sempre nasce da falta de liberdade, e essa liberdade não é a de se fazer sexo ou a de poder ir e vir. Essa liberdade é a liberdade de ser.
   Ser aquilo que voce é. Nada é mais dificil e proibido. Os costumes sociais, a familia, a moda, a falta de tempo, o trabalho, a politica, tudo contribui para o não-ser. Para voce se achar é primordial a solidão absoluta. É necessária a luta com o meio e o mergulho em seu universo. Diálogo entre voce e voce sem a intermediação de nada que não seja voce. Em nosso mundo hiper-comunicativo ( e portanto solitário ), mergulhar em si-mesmo parece coisa de egoista ou de esquizofrenico. Mas é apenas nesse mergulho que o crescimento ocorre e que a solidão diminui. Antes de se relacionar com alguém voce deve se relacionar com voce-mesmo. Sem isso, tudo fica num encontro de máscara com máscara.
   Não há modo mais garantido de NÂO conseguir se encontrar que sendo membro de uma igreja. Ou de um partido. Ou de uma associação de filosofia ou psicologia. A partir do momento em que voce diz "Amém" para algum dogma voce se perde daquilo que voce poderia ser. O menos religioso dos homens é o que segue uma religião. A busca fica reduzida a soluções simples que dependem de se aceitar uma verdade estabelecida pelo costume. E o mesmo vale para dogmas politicos, existenciais ou o que for. Aceitar uma verdade não vivida dentro de quem a aceita, mas apenas porque deve ser assim, ou o costume diz isso, ou meu meio social é assim, ou é bacana pensar desse jeito, é sempre uma mordaça para a fala. Pior, é um modo de não-ser.
   A vida é muito complicada. Não creia em quem divulga explicações. E creia, às vezes a coisa é tão simples que se torna inaceitável.
   Nada do que escrevo aqui é por "ter sido ensinado". Tudo o que falo foi profundamente vivido e visto por mim. Se pareço confuso é porque eu sou confuso. Se às vezes falo como ateu e às vezes como o mais carola dos franciscanos é porque eu sou essa contradição. Não por  moda ou por ter me convencido intelectualmente de uma verdade. Mas sim por ter vivido as duas condições. Sei da facilidade cômoda e produtiva da crença ateia, e conheço a terrível profundidade da experiência religiosa significativa. Conheço o prazer do sexo e conheço a euforia da descoberta de uma fé. Sei o que é transcendência e até mesmo epifania. Não por ter lido, mas por ter tido a experiência.
   Se creio no Daimon interior não é por amar a Grécia clássica como a amo. É o contrário: por ter o Daimon é que amo a Grécia. Nada pode entrar em mim que já não viva lá.

BERLINER ENSEMBLE, NEYMAR, BERGMAN, SHOPPING CENTER E CSN

   A BERLINER ENSEMBLE é uma das melhores instituições da Alemanha. Ela vem ao Brasil e é muito muito muito primordial que voce a veja. Com Bob Wilson na direção, eles irão apresentar A ÓPERA DOS 3 VINTÉNS e LULU. Mesmo que voce não entenda alemão, veja. E ouça também. Em A Ópera a música é de Kurt Weill. Música de Weill significa beleza e humor no mais alto grau de perfeição possível. Lulu, o texto enigmático-expressionista de Frank Wedekind, tem trilha de Lou Reed. Lulu fala de sexo como morte e de noite como sexo. Seria bom rever o filme de Pabst antes do espetáculo. Voce sabe, o filme com a feiticeira das telas, a felina Louise Brooks. A experiência deverá ser vitalmente arquetipica.
   Cee Lo Green esteve no Sónar. Se aquilo é uma amostra da atual música negra estamos muito mal. Ele canta pobremente, não tem sex-appeal e tem repertório sem sal. Um mundo negro que nos deu Al Green e Jackie Wilson viver agora de Cee Lo é mais frustrante que a literatura francesa depender de Houllebecq.
   Mais um monstrengo nasce em SP. O Shopping JK está pronto. No futuro haverá uma via elevada que unirá todos os shoppings de "gente bonita". Voce entrará num tubo de cristal e será levado por esteiras à todos eles, Iguatemi, Higienópolis e etc. Arquitetonicamente o tal complexo é aquilo de sempre, um caixotão com vidrinhos. Nossos arquitetos não pensam mais. Usam um programa que repete soluções.
   CARAVAGGIO virá ao Masp. Entre de joelhos no caixotão mediocre que não enfeita a Paulista. Caravaggio não é o melhor pintor da história. Esse posto é disputado por Rembrandt, Velazquez e Cézanne. Mas é o mais "instigante". Seus quadros são como flagrantes de feitiçaria. Ele foi um homem "do mal". Do submundo. Mas sua obra é elevada, explosiva em luz e sombra. Ninguém pintou sombras como ele. A obra-prima "São Francisco Meditando" virá ao caixotão. Como disse, se ajoelhe diante dela. Mas não ore. Olhe. Caravaggio em SP é honra que não sei se merecemos.
   Crosby, Stills and Nash passaram por aqui. O tempo é ironico. Em 1982 nada era mais passado e esquecido que os três menestréis. Seu som acústico, suave, gracinha, era a coisa menos Roxy e Bowie possível. Em 2012 eles são hiper-cult. O som que eles faziam em 1970 é o que 90% dos moços sensiveis sonha em fazer agora. A diferença é que Crosby tomava umas coisinhas que esses moços nem sabem o que é. E Stephen Stills é genial. Roxy e Bowie caem, James Taylor e Cat Stevens sobem. C'est la vie...
   Quem mora em SP deve estar vendo os filmes de Douglas Sirk no CCBB. Sirk é o idolo de Almodovar e Todd Haynes. Dramas deslavados, exagerados, quase ridiculos e maravilhosamente deliciosos. Ele nunca tem medo. Vai lá na ferida e a cutuca com vidro. Ou melhor, com cristal. Seus filmes são arrumados, engomados, bonitos como geladeiras brancas. Com postas de carne podre dentro.
   Mas quem mora no Rio pode soltar fogos. Ingmar Bergman tem 46 filmes sendo exibidos. E mais 5 documentários sobre o gênio da Suécia. Deram um jeito de trazer até mesmo os cinco comerciais de sabonetes que ele fez nos anos 50. Vai ser hilário ver Bergmaníacos como eu tentando achar nos comerciais um sinal do gênio do gênio. O mundo de hoje não merece Bergman. Ele ia ao fundo das coisas e hoje nós conseguimos ir só até onde os dogmas permitem. Mas eles estarão lá, 46 chances de crescimento espiritual.
   Dou a dica. Se voce já viu Morangos Silvestres e O Sétimo Selo, espero que sim, voce não é um analfabeto, não vá perder O ROSTO, NOITES DE CIRCO, FANNY E ALEXANDER e JUVENTUDE. Esses são imperdíveis. PERSONA, MONIKA E O DESEJO e A FONTE DA DONZELA vêm a seguir. Depois chegam em SP. Já estou no aguardo. Se voces perceberem algum careca histérico na sessão, esse sou eu.
   Neymar dá a toda uma geração, ou duas, acostumadas a ver futebol de verdade só pela TV, a chance de entender porque os quarentões falam com saudade de Zico, Sócrates e Falcão. Um jogador de gênio jogando em seu apogeu no Brasil é fato que não ocorria desde os tempos de Junior e Zico. Vimos os 4 erres brilharem na Europa, aqui, só um brilhareco. Ver Neymar no estádio é perceber o talento em ebulição plena, a mente pronta para o não-óbvio e a ambição sem limite nenhum. O ridiculo ou o sublime no fio de um cabelo. Coragem em jogar e em tentar. Um ego do tamanho do mundo. Aproveitem que logo acaba...

Irene Papas - Electra - Ηλέκτρα (1962) (08/12)



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XINGU/ GEORGE STEVENS/ KON ICHIKAWA/ CAMERON CROWE/ ELECTRA EURIPIDES/ GARY COOPER/ ZÉ TRINDADE

   COMPRAMOS UM ZOOLÓGICO de Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson
Há algo de errado com a gente. Simplesmente somos incapazes de levar "o bem" a sério. O século XX entupiu nossa cabeça com a ideia ( absurda ), de que apenas aquilo que é "do mal" pode ser verdadeiro. Quem viu este filme? Fala do luto, da morte, da reconstrução. Mas tudo sob a ótica de gente do bem. Pessoas que são como eu ou como as que eu conheço. Mas o doentio em nosso mundo é que essas pessoas que conheço só se interessariam por este filme se ele fosse do mal. Se o pai fosse um viciado em heroína e pedófilo talvez eles o assistissem. Se o papel de Scarlett fosse o de uma maníaca tarada e ladra, eles fizessem fila para ver. O estilo Jornal Nacional é o que predomina. Para as massas, prédios explodindo e viagens fabulosas, para os pseudo-cultos, a exposição de podridão e de personagens "do mundo real". Mundo real de quem, cara pálida? O meu não é. Este filme é melancólico pra caramba, não foge de assuntos dark, mas tudo sob a ótica da bondade, do ser legal. Senti aversão em 3/4 dele, tudo me parecia fofo, bobo, mas só no fim percebi que aquilo tudo era muito mais eu-mesmo que baboseiras metidas a artesinha-para-principiantes que abundam por aí. Em um mundo mais saudável este filme seria um hit. E meus amigos teriam corrido para vê-lo e depois o discutido comigo. Mas ele não tem auto-punição, sangue, sexo doentio, drogas pesadas, necrofilia...Tem apenas um cara tentando sobreviver e uma familia com problemas sérios de uma familia banal. Como a minha. E provávelmente como a sua. Damon está ótimo e Scarlett, desglamurizada, tenta atuar. É sua melhor interpretação. Crowe não desiste. Desde Singles ele tem um interesse: gente legal em mundo errado. O final deste filme é lindo de chorar. Mas alguém ainda procura a beleza na arte? Nota 7.
   UM LUGAR AO SOL de George Stevens com Montgomery Clift, Elizabeth Taylor e Shelley Winters
Monty faz um desajustado. Em seu rosto vemos que ele não tem lugar, mal sabe o que é. Mas para seu azar ele sabe o que quer. E desajeitadamente tenta obter esse objeto. E paga pelo erro. O filme não faz nenhuma concessão. É duro. E maravilhosamente bonito. Stevens sempre buscava a perfeição. Cena a cena ele trabalhava duro para ser perfeito. Conseguia. Tudo aqui é superlativo: atores, fotografia e roteiro. Jovens diretores costumam estudar este filme nas escolas de cinema. O que conseguem aprender? Ou melhor, o que a Sony e a Viacom deixam ser tentado? Filme de crime sem vilão e sem mocinho. Tragédia que beira a magnitude. E composta de gente comum, normal, o que o torna mais forte ainda. Nota DEZ!!!!!!!
   ARROWSMITH de John Ford com Ronald Colman, Helen Hayes e Myrna Loy
Um dos primeiros filmes sonoros de Ford, tem um visual cheio de sombras e belos cenários expressionistas. Começa devagar, mas vai crescendo até seu final dramático. Fala de um médico que exita entre ser um pesquisador ou um sanitarista. No final vai para o Caribe enfrentar epidemia. Apesar do Caribe ser um país de fantasia, é lá que o filme atinge seu melhor ponto. Há clima, magia e suspense. Colman parece artificial demais, um Melvyn Douglas cairia melhor. Myrna Loy infelizmente aparece pouco, seu charme e sofisticação parecem de outro universo. É um filme bom, mas longe da gigantesca estatura de Ford. Se parece muito com as bios que a Warner faria em seguida. Nota 6.
   FOGO NA PLANÍCIE de Kon Ichikawa
É o mais próximo do inferno que podemos chegar. Nas Filipinas em 1945, soldados japoneses, cercados por soldados americanos, não têm o que comer. Acompanhamos um soldado tuberculoso vagando pela floresta. No caminho ele encontra desesperados como ele. O homem em seu limite. Canibalismo. Alguns começam a comer os feridos e um deles chega a comer a si-mesmo. O cinema japonês é rico em filmes que vão ao limite. E aqui Ichikawa filma sem sensacionalismo. Tudo é como é. Eles não são do mal ou do bem, são organismos que tentam viver. O objetivo da vida seria a própria vida. É um dos filmes mais desagradáveis já feitos. Mas atenção, Ichikawa nunca busca o sensacional ou a chantagem emocional, não faz escãndalo, o filme é elegante. Chocantemente elegante, ele prova que isso pode ser feito. Nota 8.
   ELECTRA de Michael Cacoyannis com Irene Papas
Impressionante. Numa vasta planicie, Cacoyannis filma a tragédia de Euripides do modo como tudo deveria ser 2500 anos atrás. Cabanas, roupas de lã grossa, gente feia. Irene está assustadora. Sua Electra é infelicidade completa. Ela precisa e deve se vingar. O irmão, Oreste, exita, mas acaba por cometer o crime. A trilha sonora de Mikis Theodorakis é uma obra-prima. A fotografia de Walter Lassally também. Se eu fosse freudiano diria que todo nosso inconsciente mora aqui. Se eu fosse jungiano, diria que este filme mostra nossos arquétipos. E se eu acreditasse em pura biologia, diria que nossos gens foram poluídos por essas experiências. Como sou apenas eu-mesmo, digo que é um filme digno de um texto chave de nossa cultura e de nosso senso do que seja o trágico. Jamais se farão filmes como este novamente. Nota 9.
   THE PRIDE OF THE YANKEES de Sam Wood com Gary Cooper e Teresa Wright
Eis o que seria um filme pop antigo. A biografia do jogador de beisebol Lou Gehrig, seu sucesso e sua aposentadoria ao se descobrir com doença fatal. Sinal dos tempos, o filme mostra sua infancia pobre, sua escalada e seu estouro. Os primeiros sinais da doença também, e NÃO mostra a doença. A cena final, linda, mostra Lou entrando no túnel dos vestiários, sumindo no escuro, e fim. Tempo em que havia o pudor de se poupar a crua exposição de intimidades intimidantes. Quem teria prazer em assistir a dor de um câncer? Gary Cooper é um monstro de carisma. A gente o segue com os olhos, gosta de olhar pra ele e de o escutar. Sam Wood era o diretor dos grandes hits ds MGM. Este foi um dos maiores. Absolutamente ultrapassado, totalmente familia, e uma deliciosa nostalgia. Nota 7.
   ENTREI DE GAIATO de JB Tanko com Zé Trindade, Dercy Gonçalves, Costinha e Chico Anísio
Brasil dinossauro. Zé Trindade é meu humorista brasileiro mais querido. Passei a infancia repetindo seus bordões ( "O que é a natureza...."), um malandro simpático. Ainda se pode crer em malandros simpáticos? Dercy é outra malandra. Os dois tentam enganar um ao outro, e depois resolvem roubar um hotel. Ingênuo e bobinho, quando termina deixa uma sensação de "quero mais". Cauby Peixoto aparece cantando e tem Moacyr Franco com "Me dá um dinheiro aí!". Nota 5.
   MINHAS TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker com Depardieu
Já falei deste filme alguns meses atrás. Mas ele voltou a cartaz e devo dizer que é o melhor filme para se ver em SP. Tudo o que falei do filme de Crowe vale para este com uma diferença, este é melhor. Simples, triste, solar ao mesmo tempo, é cinema sobre gente e não sobre bailarinas de cartoon dark ou viciados em sexo de manual de arte-para-iniciantes. Tomo radical posição ao lado de O Artista e de Hugo contra a moda emo. E sei que esse cinema que hoje combato é culpa do meu heroi Bergman. O gênio da Suécia criou o cinema como arte-da-crise existencial, e um bando de pseudo-artistas tenta a 50 anos repetir seus passos. Acabam por fazer uma versão teen dos dramas bergmanianos. Fazem um tipo de PERSONA para iletrados. Aqui não. Becker faz um filme longe desse mundo de baboseiras. Depardieu é apenas um bronco que descobre a cultura. É lindo, é real e é profundamente humano. Imperdível!!!!! Nota 8.
   XINGU de Cao Hamburger com Felipe Camargo e João Miguel
O que deu errado? O tema é o melhor. Os cenários de sonho. Mas não emociona jamais. Voce vai ver um filme como este para sentir frisson, adrenalina e até lágrimas. Nada disso ocorre. Voce se interessa e não se entedia, mas nunca seu coração dispara. Uma entrevista com os heróicos irmãos funciona muito mais. Creio que somos um país de documentários. Não entendemos o espetáculo. Um doc com este tema funciona como show mais que este filme. O que é uma contradição. Mas merece ser visto pela beleza plástica e a nobreza de seu tema. E a coragem de Cao ao empreender uma obra tão dificil. Mas devo dizer, é frustrante. Nota 6.

POEMAS DE RAINER MARIA RILKE

   Nascido em Praga, Rilke foi durante os anos 40 e 50 o mais amado poeta do mundo. Mas na radicalização politica da década de 60 ele não só perdeu seu posto como se tornou um tipo de simbolo do "poeta hiper-valorizado". Rilke nunca foi o maior poeta do século, mas está longe de ser hiper-valorizado. Sua obra tem beleza que é só dela e melhor ainda, tem uma filosofia musical, uma espiritualidade vaga que lhe dá permanência. Rilke sobreviveu aos anos 60 e 70. O século XXI sabe o compreender.
   Criado pela mãe como se fosse uma filha, ele tinha tudo para ser um poço de complexos. Não foi. Rilke passou pela vida sendo muito amado, mimado, valorizado. Claro que ele via a vida com olhos de poeta, beleza e melancolia se casavam em sua vida, mas foi uma vida plena, realizada e curta. Rilke morreu aos 51 anos vitimado por uma leucemia.
   Viveu como um poeta "antigo". Escrevia sob forte inspiração e era sustentado por ricos mecenas. Cercado de mulheres que o amavam, em tudo ele confirma a imagem chavão do Poeta. Escrevia cartas aos milhares e se isolava em castelos para escrever. Viajou, amou, escreveu... Escreveu o que?
   Rilke criou algumas das mais belas imagens da poesia moderna. Sim, foi um moderno. Pois mesmo vivendo como um romântico e odiando profundamente tudo o que fosse "ciêntifico", Rilke escreve sem metro, solto, ao sabor do desejo. Escreve sobre a alma, anjos, morte e a fugacidade das coisas.
   "Todo anjo é terrível"
   Sua poesia é gnóstica. Ele busca conhecer as coisas e topa constantemente com uma imagem: o anjo. O anjo como ser tão imenso que aterroriza. O coração deixa de bater, assustado, ao vê-lo. Para Rilke, um dia pudemos ver os anjos porque suportávamos sua imagem e até mesmo ríamos com ela. Perdemos essa possibilidade, hoje tudo o que sentimos é medo.
   "Oh! Quer a transformação!"
   Gnose. Ele tem a consciência de que tudo é transformação e ao mesmo tempo é um ponto vazio. A alma, como a pantera de seu mais famoso poema, anda aprisionada em sua jaula e ansia pela liberdade que virá.
   Rilke fala de coisa interessante: o homem deve merecer a sua morte. Cada um deve ter sua morte, construída em sua vida. Ele tinha horror a morte anônima dos hospitais, dos súbitos acidentes. O homem deve morrer a morte criativa, a morte que lhe cabe de acordo com o que viveu. Jamais pense ser isso convite a suicidio; é a morte em casa, em ação cotidiana, a morte que se insere naquilo que foi sua vida.
   Para um homem que amou e foi amado da forma como ele foi, há em sua poesia uma surpreendente ausência de sexo e de musas. E falo isso como um elogio. Rilke não usava sua vida como objeto de exposição, ele a usava como suporte a sua obra. Escrevia sobre o espirito e somente sobre o espirito. Tudo me sua obra é ritmo em busca do absoluto. Caça à epifania.
   Termino citando três filmes que sempre me vêem a lembrança ao ler Rilke.
   Asas do Desejo, Morangos Silvestres e Viver!
   Wenders, Bergman e Kurosawa. Todo o idealismo alemão, idealismo tão forte em Rilke se faz explicito na obra-prima de Wenders. Não são anjos terríveis os do filme, mas a vida desses anjos é. No filme de Bergman, o filme que mais cresce em meu conceito a cada vez que o revejo, há a busca por sentido e o encontro com a morte merecida. E temos Viver!, o mais doído dos filmes, de uma tristeza insuportável e ao mesmo tempo de terrível beleza. O velho que parte da vida, vivendo numa intensidade como jamais antes teve a coragem de tentar, é toda a demonstração do objetivo da poesia de Rilke. O velho que canta e se balança na neve é imagem de terrível e quase assassina beleza.
   Meus poetas favoritos tomam conta de lados daquilo que sou.
   Keats é meu sonho. Stevens meu intelecto. Pessoa meu exterior e Yeats minha alma. Rilke é meu medo.
   O livro é traduzido por José Paulo Paes. Perfeito.

UM LUGAR AO SOL - GEORGE STEVENS, DEMASIADO HUMANO, DEMASIADO HUMANO...

   George Stevens já era um diretor famoso quando em 1941 foi para a Segunda Guerra. Até então ele era basicamente um diretor de comédias, um excelente diretor de comédias, que começara fotografando filmes de Laurel e Hardy e evoluíra para as produções A. Na guerra ele comandava um grupo que era encarregado de filmar e fotografar batalhas e tomadas de cidades. Stevens esteve no dia D e mais importante, foi seu grupo o primeiro a entrar em Dachau. George Stevens foi o primeiro a ver e registrar câmaras de gás, pilhas de ossos e corpos jogados como lixo. De volta a seu país, ele nunca mais dirigiu uma comédia. Este filme, considerado por muitos um dos melhores filmes já feitos na América, é uma sinfonia sobre compaixão, sobre desamparo e sobre o azar.
   Montgomery Clift é um rapaz pobre que cruza o país para encontrar um tio rico. Lhe pede um emprego e passa a trabalhar na fábrica do tio. Se envolve com colega de trabalho e a engravida. Mas ao mesmo tempo começa a ser surpreendido pelo interesse que desperta numa rica herdeira belíssima. Tudo, que poderia ser sorte e alegria, se faz desencanto, erro e crime. O filme é de uma melancolia absoluta.
   Baseado em clássico de Theodore Dreiser, o roteiro não faz concessões. Clift é um rapaz triste. Em seus olhos e nos seus modos vive um tipo de "estrangeiro", de homem que nada sente por inteiro, de alienado. Marlon Brando levou a fama, mas o ator que criou o modo moderno de atuar é Clift. Torturado, complicado, profundamente infeliz, Clift morreria aos 45 anos de alcoolismo. Seu trabalho aqui é impressionante. Jamais sentimos raiva ou pena dele, sentimos proximidade, compaixão.
   Incrível pensar que Elizabeth Taylor tinha 17 anos aqui. Foi seu primeiro filme sério e ela está lindíssima. Faz com leveza e coquetismo a milionária que cai de paixão por Clift. As cenas de beijo dos dois são plasticamente imbatíveis. O filme fez dos dois, amigos para toda a vida. Shelley Winters faz a proletária engravidada. Há uma cena, em que ela vai ao médico para tentar aborto. A cena lentamente se transforma  numa luta surda, cruel, tristíssima entre Shelley e a verdade.
   George Stevens se fez famoso pelo seu capricho. Filmava muito, gastava meses em montagem, era um perfeccionista. Nos extras Roubem Mamoulian diz que ele tinha o mais corajoso dos estilos: cenas longas, sem movimento de câmera, sem cortes e enfeites. E são cenas maravilhosas! A beleza do filme está ligada ao tema. Nunca é uma beleza gratuita. Como diz Warren Beaty em outra entrevista nos extras, Stevens dirige sem se exibir. Como faziam Renoir, Wyler e Zinnemann, é a direção invisível, não intrusiva, que conta e mostra, que nos faz esquecer que aquilo é um filme.
   As cena se fundem em outras cenas. É um efeito encantatório. O rosto de Liz Taylor se apaga lentamente enquanto um carro passa correndo numa estrada. Ou o lago brilha ao luar e desaparece dando lugar aos rostos de Clift e Liz. As cenas se embaralham, se torcem, fluem como brilho de sonho. Aliás, todo o filme tem um aspecto maravilhoso de sonho ( ou melhor, pesadelo ). Mas não é só na forma ou em seus atores que reside a grandiosidade de A Place in The Sun. É na humanidade do todo que ele nos toca mais fundo. Aqui não há um vilão. Não há um herói. Os milionários são apenas homens, assim como os operários. As duas mulheres se comportam como amorosas e assustadas apaixonadas. Nenhuma delas é ruim ou boa. E Clift, numa atuação mágica, faz um assassino que nunca parece ruim ou esperto, e um herói que é todo mentira, tristeza e distancia.
   Vencedor de 6 Oscar, sucesso de bilheteria, feito antes de SHANE, este é um filme inesquecível.

TRANSFORMER, FUTEBOL, SEXO E AL GREEN

   Parece que afinal foi descoberto o óbvio, 1972 foi o melhor ano do rock. Uma série de shows, inclusive no Brasil, comemoram os 40 anos do ano que enterrou o passado e definiu o futuro do futuro. 1972 acabou de vez com as ilusões hippies mostrando ao universo a cara cínica, hiper-profissional e metida a besta do rock. Foi ano que deu aos tempos vindouros o caminho em estilo e produção.
   Harold Bloom, que não gosta de rock mas entende de mundo, diz que durante quinze anos o rock foi uma experiência mistica-transcendental. Seus amigos e alunos iam a shows de Grateful Dead ou Jefferson Airplane como quem ia a um momento decisivo em termos de existência. Procuravam uma reviravolta, um renascer. Em 1972 esse povo botou as botas na Terra. A experiência passa a ser carnal: sexo, drogas e ação.
   Exile on Main Street dos Stones, Harvest de Neil Young, Transformer de Lou Reed, Roxy Music 1, Let's Get It On de Marvin Gaye, Music of My Mind de Stevie Wonder, Catch a Fire de Bob Marley, Ziggy de Bowie, Slider de T.Rex, Superfly de Curtis Mayfield, Gram Parsons, o primeiro do Kraftwerk, Honky Chateau de Elton John, Funkadelic.... uma multidão de discos que ecoam sem parar nessas quatro décadas. Não há nada feito nos últimos milênios que não beba dessa fonte.
   Os Vingadores batem o recorde de bilheteria....em 1972 esse recorde foi batido pelo Poderoso Chefão....alguma coisa ruiu desde então. Falar de cinema hoje é falar de saudade ou de futilidade.
   O Bandido da Luz Vermelha é o maior filme já feito neste Brasil. Hoje estréia sua tardia continuação. Não vi ainda mas já adorei. Tem o sublime Ney Matogrosso fazendo o Luz Vermelha. Segundo Ney, o bandido passou 40 anos na prisão lendo Baudelaire, Nietzsche e Kant. O filho do Luz segue os passos do pai. Faz tudo o que ele fez...em 2012. Não conheço melhor definição do mundo de hoje. Fazemos tudo aquilo que em 68/72 foi feito. As mesmas passeatas, as mesmas rebeldias, as mesmas caretices, as mesmas bandas, as mesmas atitudes. Mas com rostos sem rugas e sem marcas de história. Vazio portanto. Apenas cópias.
   No youtube tem uma cena em que George Best solta gargalhadas enquanto joga bola pelo United em 1968. Ele vai bater uma falta e um amigo do mesmo clube lhe rouba a bola e o dribla. Entendeu porque descrevo esta cena aqui?
   Dylan veio ao Brasil e fez o melhor show da década. Pouca gente viu. Em 1965 ele dizia que o mundo estava empenhado em morrer e que ele estava empenhado em viver. Em 2012 ele continua vivo. Recria suas músicas em cada show, percorre a estrada e renasce a todo dia. Dylan é a prova viva de que viver é possível.
   Ando com um amigo por ruas escuras. Um insight: Dylan repete Rimbaud e Whitman. Renascimento. Morte em vida, mortes em vida e a ressurreição antes da morte. Dylan é um exemplo de gnose.
   Neymar nos recorda que o futebol é uma brincadeira. Ele chega ao limite do jogar por jogar, onde a vitória é um detalhe e o gol uma celebração. Neymar não é um turista. É um peregrino.
   Quando aquela menina anda com seus jeans esfarrapados grudados nos quadris eu sinto que o sexo é uma chance para se deixar de ser bobo. Eu me afundo nela, me esqueço de mim nela, me engulo nela e me perco de mim nela. E depois volto pra mim-mesmo mais eu do que nunca. Quero que ela faça o mesmo. Ela faz. O sexo existe pra gente morrer nele. E aprender a reviver nele. Carne e suor também é religião.
   1972 teve Al Green. E quando se tem Al Green não se precisa de mais nada.

EXILIO

"Tudo já foi dito, tudo já foi escrito, tudo já foi feito"- Foi o que Deus ouviu. E ainda não tinha criado o mundo, nem existia coisa alguma. "Também isso eu ouvi", Ele respondeu, do separado velho Nada. E pôs-se a obra.
Uma romena certa vez me cantou uma melodia popular que mais tarde reconheci incontáveis vezes, em várias obras de vários autores dos últimos quatrocentos anos. As coisas não começam, ninguém contesta isso. Ou pelo menos não começam no momento em que foram inventadas. O mundo foi inventado velho desde o começo.
Jorge Luis Borges.

Um mundo feito por um deus que não era deus. Um mundo onde estamos exilados. Essa é a crença profunda de todo artista. O exílio. O deus que cria Adão não é Deus. A criação do homem e deste universo já é uma queda, uma catástrofe. E todas as igrejas são ilusões. Perpetuação do erro. Jesus não ressuscitou. E os anjos existem apenas para nos confundir.
Se eu escrevesse isto em 1600 seria morto. Hoje, parece uma banal verdade. Um simples pessimismo. Mas para colocar as coisas em seus devidos lugares, devo completar o que escrevi.
Exilados na saudade do Deus que foi afastado de nós. Nostálgicos da união. Jesus era um viajante. Ressuscitou "antes" de morrer. São Paulo não nos fala de Jesus, fala de Paulo. A sensação que temos de termos sido enganados. A certeza de que já fomos melhores, maiores, livres. As tentativas de se estabelecer contato com a verdade. Somos eternos mas a morte existe. Renascer antes de morrer. Ninguém renasce após a morte, a coisa se decide agora. Encontrar a voce-mesmo e salvar Deus de seu exilio. Whitman, Rimbaud, Emerson, Huxley, Rilke, Melville, Shelley, Yeats, Lawrence, Borges. Os grandes "buscadores".
Eu não me impressionaria tanto com essas ideias se não as pensasse desde sempre. E sei que muito pensam e não falam. Ou não conseguem as expressar em pensamento coerente. Então fica mais fácil dizer: Bláh!!!
A ideia de Deus exilado é a mais dolorosa que se pode ter. Mas deve-se saber que uma fagulha da criação primeira ( antes da queda-criação ) ficou em nós. E é essa fagulha que nos faz procurar, indagar, estudar, viajar, penetrar na vida. Procuramos até percebermos que aquilo que procuramos sempre foi nosso. Mas não é dado ver a todos.
É por isso que amo os trovadores. E vi em cada amor a chance de transformação. É por isso que sofro da nostalgia dos homens grandes e do mundo grande. É por isso que sempre senti a urgência de salvar alguma coisa em mim e fora de mim.
Nascemos antes.
E se voce não sabe não cabe a mim dizê-lo.

A FÉ DOS ATEUS

"O homem está numa armadilha...e a bondade de nada lhe vale na nova ordem. Ninguém mais liga para isso. Bem e mal, pessimismo e otimismo- são uma questão de grupo sanguineo, não de disposição angélica. Quem algum dia se interessava e cuidava de nós, quem se preocupava com nosso destino e o do mundo, foi substituido por outro que se regozija com nossa servidão á matéria e às mais baixas partes de nossa natureza."
Lawrence Durrell.
Durrell foi um escritor terrível. Se voce não o conhece, não pense que se trata de um autor bonzinho. Ao contrário. Ele escrevia livros sobre o seco desespero, sobre sexo, sobre o absoluto vazio. Se quiser o conhecer leia "O Quarteto de Alexandria", saga composta de 4 livros. Foram escritos nos anos 40/50. Nesta nossa época de absoluta covardia, em que nossos escritores se conformaram com suas "questões miúdas", Durrell, como Bernanos e Camus, se dava questões espinhosas. Viajante incansável, ele procurava respostas. E tinha a grande consciência de que procurar essas respostas era a própria resposta.
Valentino foi um cristão herege do século III. Perseguido pela igreja, seus passos foram apagados da história no século VII. O dogma cristão não pode conviver com a tradição que Valentino revivia. Uma tradição que é a alma da religião do mundo de hoje. Mesmo os ateus a seguem sem o saber. Louca contradição, na época da tecnologia, tudo o que fazemos, sem saber, é nos aproximar da mais antiga das religiões do ocidente. O trágico é que por não ter consciência desse movimento, nossa aproximação é pobre. superficial, oca. Mas real, verdadeira e ansiosa. Vejamos.
Valentino falava de uma tradição que vinha de Zarathustra, figura histórica do Irã de cerca de 2000 a/c. O que Valentino disse que fez dele um herege foi que Deus não é anterior ao homem. Temos uma centelha divina que é eterna tanto como Deus. Ele não a criou, existe com ela. Em nós há uma alma que é tola como a carne, e esse "eu interior", eterno e personalisado, habitante do mais profundo centro de nosso ser, fagulha que justifica nossa existência.
Se voce é só um pouquinho esperto já notou onde está o pensamento que faz com que essa seja a fé desta nossa época. Tudo em nosso mundo é a procura dessa fagulha. E essa é uma particularidade que nasce na renascença e atinge seu apogeu agora. O homem olhando para dentro de si-mesmo, se fazendo cada vez mais solitário, entretido nessa busca por sentido, por razão, por luz. Empreendendo viagens de conhecimento, experimentos mentais, análises psiquicas, meditações, tentativas de se encontrar. Gente que não segue uma igreja, um dogma, um programa, mas que intuitivamente tateia a procura de algo dentro de si. É a religião dos intelectuais, dos insatisfeitos, e que existe até mesmo nos ateus. A vontade obssessiva de conhecimento, de um conhecimento que vive dentro e não fora daquele que procura. Nada de novo, esse desejo mistico sempre existiu, sempre foi arduamente combatido por todo dogma, e sempre sobreviveu oculto. Sim, desejo mistico, pois o que se procura é a verdade, o ser voce-mesmo, a paz final, o sentido das coisas e da vida. Em 2012, qual o pensador, seja filósofo, poeta, físico, médico ou vagabundo boêmio, que não ansia por isso? Que não passa a vida tentando chegar ao centro de seu interior e ver o que há nesse centro?
Mas não confunda as coisas. Se para encontrar esse centro voce usa os passos de algum outro caminhante, voce segue um dogma e na verdade não está saindo do lugar. O que Valentino dizia que mais irritou a igreja é que ninguém pode fazer o trajeto por ninguém. Cada um é único, ninguém faz parte de um rebanho ou de uma corrente. Cada descoberta é feita a seu modo, de seu estilo, com sua conduta. Individual. Fé de caráter elitista e individualista, ela tinha de ser perseguida pelas religiões que pregam o comum e o coletivo.
Bobamente então, viajamos ao Perú, a Indonésia ou viajamos em LSD, sem saber qual o sentido dessas viagens. Estudamos poesia, psicologia, religião, sem saber o porque desse estudo. Ficamos abstraídos em pensamentos confusos, sonhamos imagens simbólicas, nos fechamos em doida busca digital, sem saber o porque desses atos, desses sonhos, dessas ansias. E lemos tolices que prometem dar um caminho, vemos filmes que parecem dizer algo ( e nada falam porque temem se perder ), tentamos mergulhar em música, em sexo, em sentimentos "profundos"... tudo isso com um só objetivo: nos encontrar. Há algum outro objetivo na vida dos pensadores no último século e meio? Na arte moderna ou nas vidas dos homens privilegiados que não precisam pensar apenas em sobreviver?
Pois saiba que desde antes do judaísmo já havia esse sentimento. A busca do eu-verdadeiro, do eu que não pode morrer porque jamais foi criado.
Escrevo agora alguns pensamentos de Henry Corbin, o mais renomado estudioso dessa fé ( Sim, não tema a palavra fé. Sem ela voce não consegue nem mesmo atravessar a rua ).
A divisão mental entre abstração e razão tirou toda a possibilidade de se entender a vida. Já fomos capazes de ler tudo o que há na existência. Hoje só podemos ver aquilo a que fomos ensinados a perceber.
Se buscamos a nós-mesmos fora de nós-mesmos, encontramos a catástrofe. Catástrofe erótica, na forma de amores-paixóes fadados a insatisfação; e ideologias, onde tentamos nos ver naquilo que foi criado por outro.
A linguagem poética faz com que conheçamos aquilo que está dentro de nós. Cada grande poeta nos dá a possibilidade de um nascimento interior.
Religião individualista, fé daqueles que passam a vida atrás de conhecimento, crença em eu-interior que não pode deixar de ser, o caráter mais terrível dessa corrente mistica é a certeza de que toda a verdade existe desde sempre dentro daquele que a procura. Dessa forma, padres, guias, lideres, passam a ser supérfluos. Viver a vida que vale a pena é andar só e confiar apenas no seu interior.
Existe religião que seja mais a cara dos dias que agora vivemos?

A AUTO-AJUDA DAS SOMBRAS ( PONDÉ, O VAMPIRO FUNKY )

  Está escrito no rosto de Pondé o deslumbre pela fama. Quando ele fala tudo tem um acento de "veja como falo as verdades". E pior, por várias vezes ele cai na tentação da piadinha fácil. Seria delicioso se fosse um cara tipo CQC, mas é um filósofo. Pondé não sabe, mas em seu reducionismo tolo, faz o papel de auto-ajuda dark, um tipo de new-age para quem se vê como muito superior à new-age.
   Uma hora falando o óbvio: "Gente! O ódio é real e existe em todos nós!" Caramba! Ninguém sabia disso! Ele conseguiu ser mais primário que o mais banal dos consultores-psicólogos de programa feminino. O triste é que eu sei que de banal Pondé não tem nada. O problema é seu deslumbre.
   Ele simplificou tanto algumas coisas que me dá a sensação de que ele pensava estar falando para um bando de crianças. Dizer que irmãos têm como laço apenas a trepada acidental dos pais é reduzir algo de hiper-complexo a uma piadinha imbecil.  Um irmão, no mínimo, é alguém que interfiriu poderosamente no destino de uma criança. Alguém que compartilhou uma casa, um afeto, um estado emocional familiar. Foi testemunha participante de um drama. Muito mais que mera trepada acidental.
  Quando ele falou de cristianismo, aí a coisa degringolou para a pura tolice. A base do cristianismo não é e nunca foi o "ame a todos". A frase é "Amar o próximo como a si mesmo", e o centro da proposta é o terrível "Como a si mesmo". Amar a si mesmo é a grande dificuldade. Esse amor NÂO é uma imposição, é um alvo inatingível, mas que deve ser tentado. A virtude está na tentativa. Culpa por não conseguir amar? Aprenda a conviver com ela baby.... É isso que nos dá o livre-arbítrio.
   Pondé quase se trai quando fala da inveja. Dá pra ver em sua cara uma coisa tipo : "EPA!"  Ele fala das invejas e cita o dinheiro, o sucesso, as mulheres...mas esquece, para mim de propósito, a principal: a inveja da bondade. Temos um ódio invejoso terrível de quem é bom, de quem parece inocente. Invejamos aquele que parece ter pouco ódio e nos consolamos o imaginando reprimido, fraco ou simplesmente estúpido.
   A marca da auto-ajuda é o reducionismo. Transformar o complexo em simples. Todo livro desse estilo fala de coisas muito importantes de um modo retardado. Pondé se faz um tipo de auto-ajuda das trevas. Seu show de humor cansa.
   Invejo seu sucesso. Deploro sua babaquice.