PRÉDIOS DE VIDRO E UM CÓDIGO FLORESTAL

Em Nova Iorque existe um novo tipo de profissão. É o cara que fica na calçada, em frente a um prédio, com pá e vassoura na mão. Sua função é recolher os pássaros mortos que desabam após trombar nas janelas espelhadas dos edificios. Uma mancha de sangue é logo removida também, e a vida continua. Pássaros batem nas janelas pensando que o reflexo do céu significa mais céu, liberdade. Se esborracham. Uma amiga me conta que já viu 3 maritacas morrerem num prédio da Paulista. E dái???? Voce pode dizer. É o preço de um lindo edificio. Te respondo baby: Esse prédio lindo é uma porcaria. Lixo descartável que não vai sobreviver a seu neto. E que quando for implodido não despertará o protesto de ninguém. Construções como eles existem aos milhares, são incapazes de criar HISTÓRIA. Voce os olha e não vê qualquer sinal de personalidade. E digo mais baby: Mesmo que voce possua desprezo pela vida, mesmo que voce diga "é só uma centena de pássaros....existem tantos por aí....", eu te digo, há uma mensagem nisso, basta saber ler.
O homem consegue fazer alguma coisa sem literalmente foder alguma coisa? O simples ato de se abir uma rua, fazer uma casa ou fabricar um copo, pode ser feito sem arruinar o equilibrio? Se pode, que assim seja! Se não é possível que se deixe de fazer.
O mundo vive uma grande ditadura. A do progresso. Foi fixado na cabeça de todos que o progresso tem um preço e que é impossível não pagar esse preço. Isso é tão repetido que abaixamos a cabeça e murmuramos amém. E se alguém ousar dizer que não, que esse tipo de evolução é ilusória, será tratado como herege, tonto ou pior: um reles perdedor. O nome dessa situação é ditadura.
Um pássaro vale muito mais que todos os prédios. Pelo fato de que podemos fazer um milhão de novos prédios, mas somos incapazes de dar vida a qualquer ser. Por mais que voce sofisme, esse argumento é claro e limpo.
O problema é que nada no homem, hoje, pode ser claro e limpo. Foi um dia, mas nos embrenhamos no obscuro e sujo. E tudo o que fazemos sempre tende a sujeira e a escuridão. Prédios se farão ruinas e ruas serão imundas. O progresso se mede pela construção de lixões.
Se voce ainda não viveu o bastante não saberá, talvez, do que falo agora, mas quem tem por volta de 40 anos já sentiu na pele a decadência inexorável das coisas. Das coisas feitas pelo homem. As naturais se renovam. Uma praia deserta se revista trinta anos depois estará como sempre. Um condomino nessa praia após trinta anos é velho e ultrapassado. Tudo que o homem faz tende ao obsoleto. Com duas únicas excessões. A arte verdadeira e a religião. Que na verdade nascem do mesmo impulso, a transcendência espiritual. Daí posso dizer que aquilo que é feito com a alma vence o tempo. O resto é lixo.
Entenda por alma o que desejar crer. Mas por religião não entenda igreja.
Na pulverização do mundo da infiormação todos falam de ecologia, de bichos fofos e de arte. Mas ninguém sabe do que fala. A experiência espiritual se transforma em informação e essa informação vira uma fofoca. Como Nietzsche sabia, se voce quer matar um sentimento fale dele.
Tudo no mundo tende a fofoca e a fofoca é a conversa feita em forma de lixo. Se fala de como Thomas Pynchon é esquisito mas não se fala de seus livros. A vida pessoal de Sarkozy é dissecada, mas ninguém quer saber de suas propostas ( que não existem na verdade ). É a cultura da biografia. Não da inteligência.
Para ser artista hoje é preciso produzir fofoca. Von Trier é mestre nisso. Até o nome de seus filmes chama uma fofoquinha. Mas pior que isso, os filmes são fofocas em si. Vamos espiar, dar uma espiadinha na vida doentia e louca daquele cara que faz coisas tão esquisitas. O cinema de arte, arte que não passa de um tipo de jornal sensacionalista com pretensões a seriedade, nada mais faz que nos convidar a espionar. Nada mais.
A grande mensagem de hoje seria a da vitória sobre o lixo. Modos de vida sem destruição, coisas que não se fizessem obsoletas, arte que não fosse esquecível. Triste constatação, no vazio absoluto de propostas revolucionárias que há no mundo, nada irá mudar. Podemos optar pelo liberalismo total ( que é o equivalente a se jogar o lixo debaixo do tapete ), um esquerdismo nostálgico ( que é como tentar reviver o que não deu certo ) e o obscuro caminho dos fanatismos do oriente e seus equivalentes ocidentais ( nazismo, stalinismo etc ). Todos esses pensamentos se equivalem, pensam na produção, no objetivo e nunca no caminho enquanto é vivido. Pensam no que virá.  Fazem lixo, deixam dejetos, enferrujam.
O dia em que China, India e Brasil passarem a consumir tanto quanto um europeu, o mundo entrará em colapso. Uma conta à lápis prova isso. Se a Africa começar a comer será o fim de tudo. Nosso sistema, seja esquerda ou direita, precisa de uma casta de consumidores e vastas regiões pobres para explorar. Quando todas forem consumidas e seus moradores passarem a poder consumir, precisaremos de outros planetas para pilhar. É uma lógica do século XVIII, criada quando apenas a Europa comia e o resto do Globo podia ser comido. Tantos séculos depois a nossa cabeça continua pensando igual.
Tudo isso é simbolizado na maritaca caída na calçada.

A VIRGEM E O CIGANO- D.H. LAWRENCE

   O problema de Lawrence sempre foi as paredes. Ele as odeia. O espaço livre, sem muros, sem portas e sem paredes, esse seria seu paraíso. Todo livro seu é em síntese a tentativa de se destruir uma parede. E Lawrence sabia que as piores paredes eram aquelas feitas de carne e de alma. O sexo era para ele uma tentativa de derrubar a parede do corpo. O sexo uniria duas esferas ao destruir uma inibição: a corporal. Tradição, politica, igreja, costume, educação, contra tudo que significasse "muro" Lawrence se insurgia.
  Neste livro, sufocante, há uma familia. O pai foi abandonado pela esposa que fugiu com jovem amante. Deixou as filhas para trás. O pai cria as duas meninas com tias e avós. A velha avó, cega, domina a casa. Casa onde tudo é ressentimento, máscara, convenção e inveja. Surge então uma carroça cigana, e a irmã mais jovem irá sonhar com a liberdade. O sexo espreita.
  D.H. Lawrence nasceu em meio pobre. Casou-se com alemã ebuliente e seus livros sempre provocaram escândalo. A tuberculose marcou sua vida. Ele morreria com 45 anos, em 1930. Lutando pela vida, Lawrence viajou por México, EUA, India, Marrocos. Criou uma religião pessoal, um tipo de irmandade de almas onde Deus era a união das vidas da Terra. Glorificava tudo o que era livre, primitivo, não-civilizado. Sabendo de seu pouco tempo de vida, escreveu muito, com pressa. Mais de 50 livros.
  Lawrence não teve a calma para desenvolver a arte que sua ambição pedia. Mas nos deu de presente algumas páginas vitais, exageradas, coloridas, cheirosas, arriscadas. É hoje um dos autores "fora de moda". Ele ficou no limbo dos artistas que colocavam o idealismo acima de tudo. Nosso tempo abomina todo ideal. Harold Bloom pensa que Lawrence um dia voltará a ser "da moda". Penso que não. Nosso caminho será cada vez mais fragmentado, diminuto e sofista, o mundo dos grandes arroubos de coragem e de sonhos livres será código estranho e com o tempo indecifrável.
  Lawrence, se lido aos 15,16 anos pode dar um belo impulso a vida de seu jovem leitor. E se lido mais tarde pode recordar algo de precioso que há na vida. A vontade de ser voce-mesmo. Para Lawrence, o mais certo dos bens. E o único modo de justificar uma vida.

WYLER/ EASTWOOD/ CRONENBERG/ STURGES/ CAPRA/ SODERBERGH/ PINA/ CARY GRANT

   SUBLIME TENTAÇÃO de William Wyler com Gary Cooper, Teresa Wright e Anthony Perkins
Concorreu  a seis Oscars em 1956 e perdeu todos. Mas é um muito bom filme realizado pelo mais profissional dos diretores da América. Wyler tem uma impressionante lista de filmes, de sucessos e de prêmios. Aqui ele fala de uma familia de Quacres, que nos EUA da época da guerra civil, se recusam a lutar. O filme é lindo de se ver, cor e cenários são imagens ideais de um passado bucólico. Mas esse bucolismo é manchado pelo mundo. Perkins, muito jovem, está comovente como o filho que parte para a guerra. Ainda sem os tiques de Norman Bates, ele realmente prometia ser um novo tipo de ator, frágil, hesitante. Cooper prova mais uma vez ser um grande ator. Vemos em seus olhos a confusão de um pai que não sabe mais como agir. Cinema grande, vasto e muito satisfatório. Nota 8.
   OS ABUTRES TÊM FOME de Don Siegel com Shirley MacLaine e Clint Eastwood
No México, Clint encontra uma freira e a salva de ser violentada. Juntos, eles cruzam um deserto e lutam contra as tropas de Maximiliano. A trilha sonora é de Ennio Morricone e a foto de Gabriel Figueroa. Tem um jeitão de western italiano, um ar de não seriedade, de pastiche. Uma diversão apenas ok, feito em tempo em que tanto Clint como Shirley não eram levados a sério. Nota 6.
   UM MÉTODO PERIGOSO de David Cronenberg com Michael Fassbender, Keira Knightley e Viggo Mortensen
O elenco é bom, mas o roteiro de Hampton é banal. Caretésimo, se parece muito com aquelas séries solenes que a BBC fazia nos anos 70. No fundo, se a gente trocar os nomes dos personagens, é a velha história do filho que quer ser independente do pai. E do pai que, com sua autoridade ameaçada, passa a exigir obediência do filho. Tudo recheado por sofrido caso de amor. A criatividade passou muito longe daqui. Enfadonho. Nota 4 dada ao belo trabalho dos 3 atores.
   MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA de Peter Webber com Scarlet Johansson e Colin Firth
Revisto agora se revela uma quase ridicula recriação de um momento crucial na história da arte: a gênese da mais famosa pintura de Vermeer, o mais valorisado dos pintores. Firth, que como provou em O DISCURSO DO REI, é um dos melhores atores em atividade, nada tem a fazer aqui. O pintor é tão real quanto o é o Jung de Fassbender. Tem a profundidade de um boneco de palha. Scarlet nunca esteve tão bonita, na verdade o filme é dela. Lento, sem emoção, monótono. Nota 1.
   CONTRASTES HUMANOS de Preston Sturges com Joel McCrea e Veronica Lake
Recém lançado em DVD, mostra o talento esfuziante de Sturges.  Um diretor de filmes escapistas, resolve fazer uma obra relevante. Parte então à estrada, para conhecer e viver a vida dos pobres. Mas seus empregados seguem sua estrada e ele não consegue ser um pobre. Acaba conhecendo uma aspirante a atriz e é preso quando sem documentos é confundido com assassino. Na prisão é que ele dará valor a seu trabalho, em uma cena simples e inesquecível. Este filme foi homenageado pelos Coen em E AÍ MEU IRMÃO...Preston Sturges vive hoje um momento especial, sua obra é finalmente reavaliada. Nota 9.
   ESSE MUNDO É UM HOSPÍCIO de Frank Capra com Cary Grant
Uma dupla de adoráveis velhinhas mata seus hóspedes com veneno. Grant é o sobrinho delas que não sabe o que fazer. Relançado agora, a Veja elogiou muito, assim como o Estado. Apesar de eu ser fã de Cary Grant, eu não gosto deste filme. É exagerado, nervoso demais, passa do tom. Capra voltara da segunda guerra mudado. Se antes seus filmes eram odes otimistas ao homem comum, aqui ele se mostra confuso. Cary parece estar em filme de Hawks, sua atuação maluca não se casa com a dos outros atores. Nota 3.
   SAN FRANCISCO de WS Van Dyke com Clarck Gable, Jeannette MacDonald e Spencer Tracy
Imenso sucesso dos anos 30, é um filme quase insuportável. Uma baboseira sobre dono de bar que se apaixona por moça "certinha" que quer ser cantora. Gable faz seu papel padrão, um machão sorridente e levemente mal caráter. Jeannette canta demais. E Tracy faz um padre que a aconselha. O filme se redime em seu final, a cidade de SF é destruída pelo terremoto de 1906. Os efeitos, por incrivel que pareça, ainda impressionam. O terremoto é mostrado com cortes espertos, paredes que caem e multidões em pânico. Funciona e muito bem. Mas até chegar a esse final emocionante o filme é um nada. Nota 3.
   IRRESISTÍVEL PAIXÃO de Steven Soderbergh com George Clooney, Jennifer Lopez, Don Cheadle e Luiz Gusman
A trilha sonora de David Holmes é um show em si mesma. Uma recriação das trilhas cool dos anos 70, ela mistura Schiffrin com Hayes e funk tipo Clinton. Estupenda! O roteiro é sobre um ladrão de bancos que se envolve com policial feminina. Clooney está excelente. Ainda em sua fase galã, ele dá uma aula de estilo. Adoro esse tipo de filme que Soderbergh sabe tão bem fazer. O filme tipo "espertinho", uma recriação de Steve McQueen com Peter Yates e Norman Jewison. Foi com este filme que a carreira de Steven foi salva. Revisto agora, ele ainda diverte, Nota 7.
   PINA de Wim Wenders
Quando Wenders acerta ele faz filosofia ( ASAS DO DESEJO ), ou poemas visuais ( PARIS TEXAS ). Aqui ele faz uma filosofia poética em movimento. O cinema de agora pode ser salvo se assumir seu caráter de pesquisa visual. Os ótimos HUGO e O ARTISTA enfatizaram esse fato. O futuro está na imagem e não em dramaturgia.  Este filme nos convence do futuro possível. O deslumbre de imagens que se movem. O cinema jamais poderá se renovar ao repetir os passos de tanta gente que já esgotou a linguagem dos dramas e dos simbolos. Ele sobreviverá em seu aspecto de espetáculo plástico. Seja o movimento sem palavras ( eis a modernidade corajosa e radical de O ARTISTA ), seja em sonho de beleza ( o jogo de Scorsese em HUGO ). Wenders lança a opção do movimento puro. Poesia possível. Nota 9.

Mitsuko Uchida in Piano Concerto No 20 in D minor KV 466 Allegro by W.A...



leia e escreva já!

OTTO MARIA CARPEAUX, PAULO FRANCIS, MOZART, NELSON FREIRE, COWARD E BEBÊS

   Alvíssaras! Hallellujas!!!! O maior dos pianistas toca em São Paulo a melhor das músicas! O inigualável Nelson Freire toca o concerto número vinte para piano e orquestra, de Mozart. Na sala São Paulo. Ouvir o concerto 20 de Mozart justifica toda uma vida. O gênio da Austria antecipa o gênio de Bonn. É música absoluta, existencial. Tudo o que se pode expressar de belo e de terrível em arte é dito nesse concerto. Que se inicia com os mais soberbos acordes. Já escrevi sobre esse concerto anos atrás. Digite Mozart aí ao lado e leia. Mas preciso dizer:  ninguém que diga amar a música pode ser levado a sério se não houver vivenciado a honra de escutar esta peça. Se minha vida fosse mais elevada ela seria digna de um acorde desse concerto. Recordo que ao o escutar pela primeira vez, em 1979, pensei: "Deus existe!" Pois essa música nos dá a certeza de que um punhado de neurônios e de proteína não poderia criar tanta emoção. Se Deus não existe, então Mozart criou aqui a Sua melodia. Justifique a sua vida, vá ver e ouvir.
   Sairam dois volumes com textos de Otto Maria Carpeaux. O famoso OMC. Carpeaux civilizou esta taba. Escrevendo em jornal e revista, ele formou o gosto de três gerações. Otto dá a sensação de ter lido tudo, visto tudo e escutado o que vale a pena escutar. Seu "História da Música Ocidental" é tudo aquilo que se deve ler para se iniciar nos segredos da grande música. Nestes volumes ele fala de escritores, filósofos, pintores, amigos, e outras coisas mais. Se voce quer dar um salto de qualidade em sua vida leia os dois. Foi OMC quem, com seus verbetes na velha Barsa, me abriu ouvidos para compositores e olhos para certos autores. O que me leva a pensar o seguinte: as pessoas ainda entram em enciclopédias, mesmo virtuais, para conhecer aquilo que não conhecem? Procurar quem são os maiores autores ou os grandes pintores? Ou precisa um professor, um amigo, ou pior, uma noticia de jornal, para que o garoto ouça o nome de alguém que ele já deveria ter conhecido por iniciativa própria. OMC vai ajudar muito esse garoto. Mas acho que quem irá lê-lo é aquele que já conhece aquilo sobre o que ele fala. Pena.
   Publicaram um volume com colunas de Paulo Francis. Aconselhável para aqueles que entenderam a frase de Scott Fitzgerald que Pondé citou: "Inteligência é a capacidade de ter duas ideias divergentes ao mesmo tempo. E mantê-las." Francis era o máximo da inteligência. Já falei e repito, sem ele eu jamais teria sabido apreciar os atores ingleses ( Rex Harrison, Gielgud, Redgrave e Olivier ), ou autores como Waugh e Huxley. A única coisa que me irritava nele era sua idolatria a Wagner. Fora isso ele era perfeito.
   Escrevi por aí que SP tinha a alegria de ter peça de Noel Coward em cartaz. Esqueça. Transformaram o mais fino dos ingleses em um tipo de "Sai de Baixo" de segunda. Harold Pinter não teve melhor destino. Seu beco sem saída, sua acidez, se transformaram em teatrinho de raivinha. Um saco.
   Mas "Pina" de Wim Wenders ainda está em cartaz. Espero que voce mereça ter esse deslumbramento.
   Leio na Veja que as pessoas viverão até os 100.
   O que me irrita na esquerda é sua cegueira, e o que me irrita na direita é seu otimismo cor de rosa. Vamos viver até os 100? Quem vai pagar a conta? Os jovens irão ter menores salários? Ou as aposentadorias começarão aos 85? God!!! Um mundo cheio de velhos de 90 se comportando como adolescentes!!!! Pior, uma adolescência que irá dos 10 aos 90 !!!!! Bandas de rock com 100 anos de estrada e "Se Beber não Case" parte 38.... Socorro!!!!!
   Meu professor fala que o feto é marcado para toda a vida por tudo aquilo que a mãe lhe fala e pelo som ambiente. Não tenho culpa de ter sido um feto vivendo no paraíso. Cantos de pássaros, galos de noite e Sinatra que meu pai ouvia de manhã. A depressão que sinto às vezes decorre de ter conhecido o paraíso e de hoje ter de me conformar com o apenas "legalzinho". Se hoje nossos bebês estão conhecendo a vida via Funk, carros que buzinam e anúncios barulhentos na TV; eu recebi as boas vindas ao som de conversas na sala, vozes de crianças na rua e Beatles mais Roberto Carlos no rádio de minha mãe.
   Não consigo imaginar paraíso melhor.

POLTRONAS MACIAS E IDAS À COPENHAGUEN

   Isto deveria ser lido após o texto daí de baixo: Yves de La Taille.
   Se o mundo de hoje é constituído em sua quase totalidade de "turistas", e como sabemos, com certeza, que todo turista tem pressa, não quer perder tempo ( para poder se "divertir" ), então onde ele quer chegar?
   É provável que ele saiba, mais do que qualquer pessoa comum em qualquer outro tempo, que o que o aguarda no fim de tanta pressa e de tantas realizações seja a morte. Nosso tempo tem asco de tudo que signifique antiguidade ou permanência por ter a certeza, sorrateira, de que a morte sempre vence e então tudo se faz inútil, inclusive sua própria vida. Para que se ocupar com "eternidades"? Para que pensar no bom e no bonito?
  Essa redução que a morte produz, essa humilhação, faz com que cada momento de reflexão seja momento de horror. Porque? Sim, o homem se diverte incessantemente ( ou tenta ), para se distrair do vazio, do nada, da futilidade da vida. Mas porque a vida se fez esse vazio sem sentido?
  A fixação no objetivo fez com que o percurso fosse visto como um empecilho. Tudo então passa a ser um tipo de inimigo. A montanha que obstrui o trem, a chuva que alaga a estrada, a mata que traz doenças, o próprio tempo que passa devagar demais. Na ânsia pelo objetivo o homem se torna um inimigo do tempo e da fruição natural desse tempo. Nessa forma de vida é IMPOSSÍVEL a comunhão com o tempo e com o lugar. O meio deve ser destruído e o tempo acelerado: diversão.
  O momento vazio, que seria a hora do ócio, passa a ser a hora do tédio. E tudo se torna cada vez mais entediante. E para fugir desse tédio vale tudo.
  O peregrino não sente tédio. Ele pode sentir tristeza, cansaço, melancolia, mas inexiste o tédio. Isso porque ele olha as coisas como coisas INTERESSANTES. No momento do vazio ele vê a chance de apreciar, de olhar e de compreender o que o cerca. Ele sente gosto pela hora que não passa e se encanta com a paisagem vista outra e outra vez. Ainda possui o ócio. Sabe da morte, mas entende que ela faz parte da peregrinação e não a percebe como fim. Para o peregrino o valor maior não é o prazer efêmero da diversão. Ele valoriza sobretudo aquilo que tem narratividade, que conta uma história, que ensina e que dá sentido. Coisas que são "para sempre".
   Roger Cohen, no Times de ontem, fala da covardia das novas gerações. Num texto que será visto por quem tem 15 anos como ressentido, ele conta que dá graças pela sorte de ter nascido quando nasceu. Após as guerras e antes do fim do Ocidente ( que é o que acontece agora baby ). A geração dele descobriu a liberdade, que tinha gosto de coisa nova. Era uma geração cheia de dinheiro e com a confiança em valores como cultura e crescimento ainda intactas.
   Roger Cohen exclui de suas considerações o Brasil, a India e a China. Ele diz que nesses países ainda há alguma coragem. Mas o que faz Cohen escrever tal texto?
   Um fato que tem passado despercebido. Gregos, espanhóis, irlandeses sequer tentam sair de onde estão. Eles reclamam, choram, balbuciam, mas não têm a necessária coragem para correr o risco de imigrar. Se seus avôs correram o risco de procurar o futuro na América, na Austrália ou na África, esses jovens medrosos não conseguem sair da letargia e nem à Ucrânia ou Noruega têm ânimo de ir. Vão como turistas, mas jamais ambicionam uma nova vida.
   É uma geração incapaz de abrir mão da segurança.
   Roger Cohen ainda fala do tal mundo mais aberto. Fala-se muito que o mundo está mais aberto, sem fronteiras.
   Quando Roger tinha 17 anos ele e 4 amigos foram de carro da Inglaterra até Cabul. Cruzaram pela Turquia, Irã e Afeganistão. Neste mundo aberto, isso é possível? ( Aliás isso me lembra que eu andava de carona por SP. Ir à Ubatuba de carona, é possível ? ).
   Os jovens postam mensagens de protesto sentados em poltronas macias. E acham que isso é participar. Será?
   Me parece que esse texto é um belo complemento ao texto do turista e do peregrino.

VIVER É NÃO FAZER COISA NENHUMA ( UM CAFÉ COM YVES DE LA TAILLE )

   Amo tanto a vida que chega a dar tristeza. Porque sei que não estarei aqui para sempre. Mas não amo a vida pelas coisas que faço. De tudo o que fiz de nada sentirei falta. Amo o que há na vida. Por exemplo.
   Enquanto escrevo um galo canta longe. Isso me dói de saudade antecipada. Morrer e não ter mais galos. Sei também que a Lua viaja lá em cima. E sei que vou vê-la daqui a pouco. E da Lua sentirei uma falta que vai doer. É dessas coisas que sentirei falta e são essas coisas que eu amo. Uma poça de água, as nuvens rosadas do fim da tarde, o olhar de um cão, o bando de maritacas gritando nas árvores, cemitérios de manhã cedo e gente saindo da igreja. O barulho da chuva, o cheiro de terra molhada, as árvores numa tarde de frio, neblina e abelhas voando. O mar e o cheiro de um corpo de mulher... A vida.
   Mas há quem ame a vida por aquilo que fez nela. Vai sentir falta de certas festas, certas viagens, certas noites. OK. Mas essa não é minha praia. A vida não é o que voce faz dela ou com ela, a vida é saber apreciar sua passagem.
   Finalmente um Café Filosófico que valeu alguma coisa. O psicólogo Yves de La Taille fala sobre a vida. E para isso ele aborda a educação. Mais ainda, ele levanta a teoria de Bauman. Qual teoria? A que nos pergunta: Voce e a vida de agora, ela é um ato de turismo ou um ato de peregrinação ?
   Não se fala de viagem. Mais que isso, o que se diz é de postura na vida, modo de estar na existência. Então reformulo, voce vive dia a dia como um turista ou como um peregrino?
   Ambos estão de passagem e em movimento. Pois a vida é passagem e é mover-se. Mas as semelhanças são apenas essas. Senão vejamos...
   O turista não se interessa pelo caminho. Ele quer chegar rápido. Tem um objetivo, o lugar onde ele vai se divertir. Ou descançar. Ou se educar. Não importa, o caminho é um obstáculo a ser vencido.
   O turista não tem tempo a perder. E ele tem objetivos. Mesmo que esse objetivo seja apenas o descanço. Há algo de concreto a ser ganho, um plano, um itinerário.
   O lugar onde o turista vai é "charmoso". E ele ansia por contar aos outros o que lá fez. Há uma "informação" para ser dividida.
   O peregrino valoriza o caminho. E esse caminho deve ser longo. A estrada é observada, saboreada, vivida. Ela é a rota. Mas essa rota pode ser mudada ao sabor do acaso. Ou melhor, pela intuição. A peregrinação nada tem de racional, ela desperdiça tempo, ela se guia por motivos vagos, e nada tem de divertida.
   O peregrino mal sabe o que significa diversão. O que o move é a "fé". Ele tem a esperança de se encontar no caminho, de crescer, de ter uma iluminação. O objetivo é mero pretexto, o que ele quer é um caminho sem final.
   Esse peregrino nada tem a informar. Os amigos pensarão que ele jogou tempo fora. O lugar não é charmoso. Se ele puder falar dirá uma narração e não uma informação. 
   O turista viaja para continuar sendo e ganhar, o peregrino quer deixar de ser e vislumbrar.
   O mundo moderno é dos turistas. Todos temos a certeza de estar de passagem. E nessa passagem nos divertimos sem parar um minuto. Contradição: Nunca fomos tão pessimistas, encaramos a vida como mero acidente, um caminho árduo e sem graça, e então, assustados,  tentamos nos distrair, nos divertir.
   A diversão como bem maior só é prioridade em sociedades que perderam a fé na vida.  Onde nada faz sentido tudo é tédio e onde tudo é tédio só existem duas opções: se divertir ou morrer. E nesse mundo se voce não se diverte, voce só pode estar morto.
   Ócio.
   O ócio é uma arte  e era ensinado na Grécia. Saber nada fazer. Ficar dias, semanas sem fazer coisa alguma e ser feliz assim. Apenas observar, mais que isso, aprender a contemplar.
   Existem religiões que dizem que toda a sabedoria está na contemplação.
   Isso ainda existe?
   Meu conflito nunca foi de mim com eu-mesmo. Sempre foi de eu e o meio/tempo.
   Sou um contemplativo, mas vivo em tempo que martela em minha mente que isso é errado. Tempo em que até o descanço deve servir para algum bem.
   Mas e se eu falar que a vida melhor vivida é aquela que é contemplada? Que só essa vale a pena? Fazer é perda de tempo, viver é não fazer. Olhar o tempo se escoar em contemplação de pensamentos e de coisas "imperecíveis". Porque nada é mais futil, perecível e enganoso que a diversão, o prazer que se esvai, a ação pela ação. Isso é viver de fato? Agir e agir e agir e agir....
   Eu amo o galo que canta. Não amaria criar galos ou comer galos ou estudar galos. Quero ouvir e ver o galo que canta.
   Yves fala de um belo sintoma que exemplifica a falência de nossa sociedade:
   Quando seu pai ( e posso dizer que eu mesmo cheguei a viver isso onde nasci ), quando seu pai andava de noite sózinho, numa rua escura, ele sentia medo. Daí quando ele ouvia passos de alguém vindo em sua direção ele sentia alegria e alivio. Alguém vem vindo, que bom!
    Hoje se voce estiver só numa rua deserta, de noite, e ouvir os passos de um estranho vindo em sua direção, o que vai sentir? Medo. O que isso quer dizer? Que antes a vinda de um homem era uma boa nova. Havia a confiança na moral desse homem, em sua virtude. Agora, o que sentimos é a desconfiança desse homem, a certeza de que todo homem é imoral e nada virtuoso.  Eis a falência do mundo.
    Precisamos de mais peregrinos, de gente que saiba olhar o caminho. De gente que consiga ser ociosa.
    Eu sou um peregrino que vive em mundo de hotéis, spas e informações vazias. E sinto pena por ter perdido o maravilhoso dom ocioso que eu tinha.
    Como era bom saber não fazer nada e se sentir feliz por isso!!!

O LEILÃO DO LOTE 49- THOMAS PYNCHON

   O tema é: Ou o mundo é um delírio paranóico, onde todos somos loucos, TODOS; ou tudo faz sentido. São duas opções radicais. Se voce escolhe o não-sentido, então voce tem de assumir a vida sem nenhum sentido. E não procure encontrar um porque em voce, na história do mundo ou em teorias de intelctuais que são tão loucos quanto voce e o mundo.
   E se voce escolhe o sentido, então tenha a humildade de saber que se ás vezes voce não percebe o sentido das coisas o problema está em sua percepção e não nas coisas. ( Eu sempre pensei fazer parte do primeiro grupo. Mas mesmo a falta de sentido pra mim faz sentido ).
   Outro tema: Teria havido uma chance de diversidade na humanidade. Mas ela se perdeu. Hoje somos todos o mesmo. Todos seremos idênticos, padronizados.
   Se o mundo se dirige a uma comunhão de circuitos minúsculos de IBM ( e ele escreveu isso em 1964!!! ), nós nos tornaremos minúsculos circuitos integrados e ligados um com o outro.
   Mais um tema: Bastava apenas ter olhado...O sentido está no olhar que atenta. A vida nos manda milhões de cartas, mas ignoramos a todas. Na verdade não todas, em uma vida percebemos duas ou três. Só nos ligamos nessas mensagens quando estamos doentes, daí lemos a doença em tudo. Saudáveis nos distraímos.
   Tema: Saber ler a vida é um ato religioso. E religião é a fé na espera. ( Saber ler a coincidência: especial com Fellini na TV onde ele diz que ter fé é esperar, saber esperar, ter a paciência da espera ). Não correr, não fugir, não fazer, esperar e esperar. E então receber a mensagem. E ler os sinais.
   Tema ( mais um ): os zeros e os uns do código binário caem sobre nós. Alguns serão o um, outros serão o zero, e é tudo. O resto é paranóia. Nosso destino está feito para nós pela história e pela evolução. Ou não???
   Fazemos força para não ver. E então fazemos força para crer em qualquer coisa que nos faça deixar de esperar calados. Não percebemos os furos e erros em nossos gurús, sejam eles Marx, Freud ou Hegel. Nos cegamos e aceitamos a visão já pronta "deles".
  Édipa Maas é casada com Mucho Maas. Um ex-namorado morre, milionário, e deixa para ela o cargo de inventariante de sua fortuna. Mas ela se envolve em nóia. Símbolos de uma confraria que sabota o correio desde 1650. E tudo se preicpita, as coisas mudam. O marido se torna zen, o analista se vicia em LSD e é preso. Uma odisséia pela noite gay de San Francisco. Bandas de rock com maconha e letras tolas. Um diretor de teatro que se mata. Um autor do século XVII que deixa pistas. Uma multidão de personagens esquisitos, repugnantes, hilários.
  Édipa se desespera. Pra que saber o que tudo aquilo significa? Será tudo uma brincadeira? Será verdade?
  O livro pesa na cabeça de quem o lê. Faz sentido ou é pura loucura? O que ele tenta nos dizer, ou será que o sentido é apenas o que está escrito?
  Thomas Pynchon é odiado por muitos e torna-se obssessão de outros. Não dá pra ficar indiferente. O livro não termina.

CONTRASTES HUMANOS ( SULLIVAN'S TRAVELS ), UM ESBANJAMENTO DE INTELIGÊNCIA

   Preston Sturges é hoje objeto de culto mundial ( exceto no Brasil ). Mas durante os anos 50/60/70 e 80, ele esteve esquecido. Com os dvds foi reabilitado. Toda uma nova geração assiste seus filmes e fica surpreso: quem era esse cara???
   Sturges fez muito sucesso. De bilheteria e de crítica. Mas só durante oito anos ( 1940-1948 ). Antes disso ele foi roteirista. E antes de Billy Wilder ou John Huston, foi o primeiro escritor a virar diretor. Por ter dado certo, o sinal ficou verde para todos os que vieram depois. Incluindo Orson Welles, Joseph L. Mankiewicz e Richard Brooks.
   Uma figura excêntrica. Mais que isso, uma figuraça!
   Sturges amava as comédias sofisticadas de Ernst Lubistch, mas unia aos diálogos inteligentes e cheios de leveza, o pastelão. E uma ousadia criativa que era só dele. Veja os temas de seus sucessos:
   Num deles uma mulher sai com um bando de fuzileiros. Ao acordar da bebedeira descobre que se casou com um deles. E depois que está grávida. E não consegue lembrar com quem. Ao final dá a luz à sextuplos.
   Em outro filme, um caipira finge ter ido a guerra e se torna prefeito.  Há um outro sobre uma moça que não consegue se casar por ser uma vendedora de canos de esgoto. E tem a história do maestro que sente tanto ciúmes da mulher que acaba por obrigá-la a achar um amante. Aliás, nos filme de Sturges mentir é sempre um bom negócio.
   Preston Sturges nasceu nos EUA, mas foi criado na Europa. Sua mãe foi uma aventureira que se casou 8 vezes.  Uma das amigas da mãe de Preston se chamava Isadora Duncan e um dos amigos era o bruxo e ídolo de Raul Seixas e Paulo Coelho, Alistair Crowley. O jovem Struges cresceu entre gente muito rica, muito famosa e muito esquisita. Quando voltou a seu país, Sturges se fez escritor, ganhou um Oscar de roteiro e passou a dirigir.
   Seus sets eram o oposto de todos os outros sets. Servia bebidas, abria tudo para jornalistas, fãs e até para excursões de turistas. Fazia piadas todo o tempo, ia trabalhar montado num pula-pula. Era interessado por ciência e por comida. Inventava engenhocas e abriu um restaurante. Perdeu fortunas nos dois hobbys. E se tornou alcoólatra.
   CONTRASTES HUMANOS trata-se de um tipo de defesa da comédia. Filosoficamente ele é impecável.
   Um diretor de cinema, milionário, se sente incomodado por fazer filmes escapistas. Resolve então escrever um grande filme para os tempos miseráveis e duros em que todos vivem. O que ele faz? Se veste de mendigo e cai na estrada "para conhecer a vida real".  Mas é seguido por uma trupe de empregados e jornalistas. Tenta fugir deles, mas sempre acaba por voltar a seus cuidados. No caminho conhece uma aspirante a atriz e com ela pega trens como carona, mora em albergues, enfrenta a fila da sopa grátis. Percebe então que é impossível ser o que não se é, e desiste de sua ilusão. Mas algo inesperado acontece, ele é roubado na rua, fica sem documentos e acaba por ser preso. Torturado numa colônia penal, aprende então o que é ser realmente pobre. Vem dái o grande momento do filme: uma sessão de cinema numa igreja, onde os miseráveis assistem um cartoon do Pluto e riem. O diretor que queria fazer filmes "relevantes" percebe o valor da comédia.
   De volta a Hollywood ele dirigirá comédias, agora sabendo que são elas o máximo de "relevancia" que o cinema pode dar.
   Os irmãos Coen fizeram uma homenagem a este filme com "E AÍ MEU IRMÃO, ONDE ESTÁ VOCE?" O filme relevante, dramático, que o diretor do filme pensava em filmar se chamava "O BROTHER, WHERE ARE THOU?" O filme dos Coen é a filmagem desse filme que não foi feito pelo diretor do filme de Preston Sturges. Coisa de gente moderna né?
    Este filme é fascinante. Não conheço maior defesa da comédia, e raros diretores são tão criativos. Sturges filma como quem sabe mais do que mostra. Tudo nele tem ironia, há inteligência em cada fotograma. E ao mesmo tempo existe amor a seus atores e a seu público. Ele não sobe na cadeira e grita: - Sou um gênio!", ele apenas faz as coisas e sabe que somos nós quem iremos subir na cadeira e gritar.
   Joel McCrea tem aqui o papel de sua vida. Ator galã, ele tem o rosto do homem mimado e ingênuo, transpira boas intenções, é na verdade um tolo. Veronica Lake, sex-symbol dos filmes noir, atriz cult de hoje, tem uma presença sublime. Seu rosto duro, ácido, sério, funciona como o oposto de Joel McCrea. E ela tinha a voz mais sexy de Hollywood. Preston, sabido como era, ignora o que eles eram e os usa como seus contrários, Joel como um intelectual inocente e Veronica quase assexuada.
   Clássico do cinema, comédia incluída entre as maiores, é um filme para se reverenciar.
  

DEPOIS QUE FIQUEI ADULTO ( E FOI UMA LONGA ESTRADA ), ESTA É MINHA BANDA

Roxy Music aos 30 anos.
Stones aos 20.
Mas depois dos 40 e até o dia em que me for, The Band.
Porque?
O som. É como andar um longo caminho e de repente chegar em casa. Rock feito de esperança, de verdade e de um estranho dom de amizade. Banda amiga.
Foram grupo de apoio de Dylan. Canadenses. Eram eles que estavam com Dylan na excursão à Inglaterra em 65, que mostrou a Lennon e Jagger o quanto eles eram bobos. Em 69, quando Bob deu um tempo, eles foram pro rancho dele e gravaram uma obra-prima: The Big Pink. Eric Clapton diz que esse disco salvou a vida de muito maluco perdido. Inclusive a dele. Desde de então, Clapton tenta soar como The Band.
Robbie Robertson era o guitar. Suave, delicado, sutil. É meu guitarrista favorito de todos os tempos.
Rick Danko tinha um baixo suingante.
Richard Manuel tocava teclado. E tinha voz de dor pura. Se enforcou nos anos 80. Heroína.
Garth Hudson parecia um lenhador. Tocava tudo: tuba, piano, acordeon, sax.
E havia Levon Helm, na batera e vocal. Mestre de ritmo e uma voz maravilhosa. Morreu ontem, aos 71. Este texto é pra ele.
De 2000 pra cá, eles são de longe a coisa que mais escutei. São perfeitos para quem está Middle of Road. Poesia de volta pra casa, de achar algo pra se amar, de virilidade discreta.
Em 1976 Scorsese fez o melhor filme de rock com eles. The Last Waltz. É o paradigma das gravações de show. Martin pegou os cinco melhores diretores de fotografia, deu uma câmera pra cada um e mandou bala. O show durou cinco horas! Editado, são duas horas de encanto. The best. A série de acústicos da MTV bebeu aqui.
Levon foi ator em alguns filmes muito bons. Filmes de Scorsese, Tommy Lee Jones e Kauffman. Dentre outros. Um cara que voce simpatiza de primeira vista.
Ficam os discos, tesouros, preciosidades.
É tudo.

The Band - Night They Drove Old Dixie Down



leia e escreva já!

The Band - Don't Do It....do famoso filme de Scorsese, THE LAST WALTZ



leia e escreva já!

A SOCIEDADE DE LUNÁTICOS POR THOMAS PYNCHON

Xi! A síndrome de Thomas Pynchon me pegou....
Existe uma rede mundial que fica destrinchando os livros dele. Eles, que são milhares, já editaram centenas de livros sobre cada capítulo de cada livro do cara. Chegam a ficar meses analizando uma frase. E discutindo porque ele citou aquele politico, porque aquele personagem tem aquele nome, porque aquela cidade...
Pynchon existe? Não se sabe. Só se conhecem duas fotos dele. E as duas têm mais de 50 anos. Dizem que ele tem filhos. E faz Salinger parecer sociável. Mas ao contrário de J.D., Pynchon escreve muito. ( E não é por acaso que tanto a sociedade de fanáticos , como o tipo de ermitão que ele é, são coisas típicas de seus livros ).
O estilo de Pynchon é delirante-paranóico. Ele exibe a loucura de todos nós. Em lente grande angular. Pega um monte de fatos e os conecta. No livro que leio tem uma mistura de new-age californiano com marxismo, bandas de rock inglesas, Pernalonga, motéis, cientistas do século XIX, magia negra, agentes secretos, cinema infantil, teatro do século XVII, indios, e sobre tudo isso Os Correios. Absurdo? Convincente.
Os personagens têm nomes como Edipa Maas, Baby Igor, Mucho Maas, Os Paranóicos ( é o nome da banda ), há um analista que dá LSD para suas clientes, velhinhos tarados, um advogado que virou ator, a máfia da Sicilia.... Se voce pensou em filmes dos irmãos Coen acertou na mosca. Pynchon criou o mundo do Grande Lebowski.
Voce lê e não sabe se aquele cara da Escócia, que criou a tese da energia sem custo, existiu ou não. Porque Pynchon mistura gente inventada com gente real, a saga da familia Thurn und Taxis ( que é fato histórico ), com a história de jovens gênios da California e tipos excêntricos da classe média.
Criatividade abundante. É um prazer ler um escritor que cria, que feriliza e não fica naquela lenga-lenga moderninha de medinhos e sexozinhos no escurinho tristinho de sua vidinha desinteressantinha. Se voce vive nesse mundinho estéril, fuja de Pynchon. Ele tem um pênis gigante que vai te assustar.
Mas se voce, como eu, adora tudo o que seja solar, prometeico, mefistotélico, viril, forte e ribombante, corra a qualquer canto e pegue seu Pynchon.
É pra gozar.
A sacada dele é pegar todo o mundo pop e tratá-lo em formato joyciano. É nosso Sterne. Gargalhei com algumas páginas e senti que ficava louco com outras.
Ajoelho-me perante um talento.

PARANÓIA, NARCISO ET RELAXADÃO & BUUUUM!

Coincidências não existem. Estou relendo Thomas Pynchon e sai uma resenha sobre um novo livro dele. Então, o que escrevo aqui vai em estilo Pynchoniano ( menos complexo, claro ).
Pynchon escreve no estilo EUA-1967. Paranóia. Um monte de gente e de coisas e de vozes e de tempos e de pontos de vista e de cenários. As páginas têm um excesso de vidas e de personagens e de coisas que acontecem. & então voce ri & ao mesmo tempo sente medo and irritação. Fica meio louco com aquilo tudo. ENERVADO. Saul Bellow e Philip Roth ( só naquele tempo ), também escreviam assim. Acho que começou com Thomas Wolfe em 1930. É uma escrita tipo BOOOOOOOOOOOOM!
Hoje/agora/2012 o que define a escrita é o oposto dessa nóia esquizóide: depressão e desencanto. Nada acontece de relevante e tudo parece o mesmo. Tipo hmmmmmmmmmmmmm..................
O Nobel não ter ido às mãos de Pynchon até agora é uma humilhação para os suécos. hmmmmmmmm......
Paulo, eu, tem saudades de coisas da pré-adolescência por que na pré-adolescência ele ainda podia ficar o dia todo de pijama. E comer chocolate sem parar SEM pensar em barriga ou diabetes ou dentes. ( E aos quase 50 Paulo não tem barriga nem diabetes e tem todos os dentes ). Pondé escreve para trouxas como eu. E ninguém tem humor para notar que quando ele chama seus leitores de tolos ele está os diferenciando dos inteligentinhos? De qualquer modo, Pondé, que tem uma figura hilária, fala do narcisismo como mal maior do Facebook.
Na India de 200A/C, budistas imaginaram o inferno como um lugar onde todos sentem um desejo que se renova indefinidamente. Voce quer, obtém, e continua querendo. Para sempre. E nesse querer voce deseja ser reconhecido como o grande obtedor. Eis nosso mundo em SP ano de 2012.
Tenho um amigo, Ribovaldo de Camarinha. Ele recebeu 239 parabéns em seu aniversário. Ficou feliz pacas com isso. No fim de semana ficou triste, não tinha ninguém on line. Não dá mais pra viver de pijamas. A gente fica todo o tempo tentando seduzir alguém. Na rua, no trabalho, e agora em casa, aqui em frente a esta tela. Tentamos ser bonitos ou engraçados ou inteligentes ou bem loucos. Queremos atenção de 239 pessoas TODO O TEMPO.
Paulo, eu, pensava que aos 50 iria relaxar. Finalmente poder deixar a barba crescer, comer de tudo, beber, esquecer a vontade de ter uma "boa imagem" e então só ter relaxo. Paulo, eu, começa a perceber que aos 90 irá morrer arrumando a camisa e vendo se a pele está bronzeada. Pior: nossas crianças desde sempre já estão nessa: belas fotos para seu álbum no Face e dietas para evitar problemas aos 40 anos. Pelo menos Paulo, eu, soube ainda o que era ir á escola com cabeleira suja e jaqueta qualquer coisa. Cabelo sujo não por compor um tipo, cabelo sujo por falta de cuidado. Relaxadão.
Todos os meus professores tem cara de Johann Sebastian Bach. Os invejo por isso.
Inácio Araújo desabafa, enfim. Diz que num espectro de dezenas de canais a cabo, a oferta de filmes é paupérrima. Sempre do mesmo. Ou seja, deu tudo errado. A diversidade de meios não diversificou a oferta. Criou um rebanho. Nunca o cinema foi tão uniforme. Daí Inácio lembra da Sessão da Tarde dos anos 70. E conta que qualquer garoto da época tinha na Sessão da Tarde uma oferta muito mais rica de filmes que existe em todos o cabos de hoje. E eu lembro que minha cinefilia começou na Sessão da Tarde. Creia, eu assisti Fritz Lang, Hawks, Huston, Nicholas Ray, Billy Wilder e Otto Preminger nas tardes da Globo. Hoje eles passam o que?
Jack Endino gosta da sonoridade dos lps gravados em 1971, 1972... Trnasformer de Lou Reed tem a melhor sonoridade da história do som. Só ouvindo. E tem de ser no vinyl, não adianta voce baixar, vai soar como soa tudo. Aliás, tudo tem um som igual. Seja uma banda pesada de Chicago, seja uma banda suja de New York, um cantor pop de Londres ou um metido de Birmingham, todos têm aquele som cheio, compacto, brilhante, que deixa tudo como o mesmo. Se voce ainda tem um tocador de bolacha, bota qualquer coisa gravada entre 71/ 77 e toca. É outro universo. bateria que tem personalidade, baixo lá e voz acolá. Tudo tem um som definido, limpo, distante. Tem ar entre os sons. Treina seus ouvidos.
Aula de Fono: tem gente que não consegue perceber a diferença entre duas vozes que soam juntas. Tem gente que não escuta mais. Só identifica timbres e mais nada. O ouvido pode ficar analfabeto.
Fato: Sabia que não há um só orgão feito para a fala em nosso corpo? Nada no ser-humano foi genéticamente criado para a fala. Assim como as mãos não foram criadas para escrever ou tocar piano, as cordas vocais ( que não são cordas e nem vocais ) não existem para a fala. Existem para ajudar a engolir e respirar. Só. Isso prova a imprevisibilidade da vida. O improviso que a vida é. Por que usamos algo que é pra engolir para a fala? Nunca ninguém vai saber. Então se chuta.
Tentei ser meio Pynchon. Mas ele, gênio, já teria neste espaço criado uns 20 personagens e soltado cinco frases originais. Eu, Paulo, apenas papagaeio.
BUM!