T Rex Children of the revolution



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E TODO MUNDO OUVIA O T.REX ( MENOS OS INTELIGENTINHOS )

   Marc Bolan ( que nome ótimo para um rock star ), não teve sorte. Em fins de 1970 ele ( e o produtor Tony Visconti ), criaram o glitter rock, mas em 1972 o ladrão David Bowie lançou Ziggy Stardust e ficou com a fama. David Bowie É um ladrão, isso todo mundo sabe. Ele roubou o som e o visual de Bolan. Porém, Bowie, gênio que é, melhorou a coisa, amplificou, enriqueceu. Mas o papo agora é sobre T.Rex...
   Entre 1971/1974, apesar de Floyd, Led, Elton, Wings e Rod, entre a molecada inglesa, o que vendia era T.Rex. Tanto que na época se falava da T.Rexmania, se dizia que Bolan poderia bater os Beatles...sózinho. Mas era um sucesso ( ele botou seis singles em primeiro lugar nesses anos ), local. Ao contrário dos nomes citados acima, que vendiam bem no mundo todo e vendiam MUITO na América, o T.Rex vendia apenas na Grã-Bretanha, o que deixava Marc Bolan cada vez mais frustrado. Ele não entendia o porque... ( Hoje sabemos o motivo. Nada de sexualmente dúbio vendia nos EUA da época. Tanto que Bowie só virou POP por lá depois da fase Ziggy ).
   A crítica foi cruel com Bolan. Todo o tempo. Atacavam suas letras, seus riffs, seu visual, sua alienação. A molecada de 12 anos o adorava. E é legal constatar, de Duran Duran a Jesus and Mary Chain, de Human League a Blur, todos foram fâs de Marc Bolan. Toda essa galera, que hoje tem entre 35/50 anos cresceu ao som de seus discos e odiando aquilo que a crítica da época endeusava ( King Crimsom, Gentle Giant e Yes ). O que fascinava a molecada é o fato de que Bolan não parecia real, ele lembrava um cartoon, uma brincadeira, um ET. E seu som, simples e complexo ao mesmo tempo, se comunicava com a ansiedade pré-adolescente, era um som redondo, convidativo, sensual.
   Em sua origem o T.Rex se chamava Tyranossaurus Rex e fazia folk-psicodélico. Quando Marc Bolan conheceu Tony Visconti, um muito afetado e muito ambicioso produtor de discos obscuros, a coisa pegou. Visconti colocou eletricidade no som, percussão e vocais de fundo "glamurosos". Nascia a febre made in England.
   Interessante observar que o timbre da guitarra de Bolan é um dos segredos do som. Ela é cheia, sinfônica, cada acorde simples repercutindo e ocupando todo o espaço. Na engenharia de som de Tony Visconti trabalhavam dois futuros produtores de sucesso: Roy Thomas Baker que criaria o som do Queen, e Martin Rushent, que seria o rei do techno-pop anos 80. Ah sim....em 1974 Bowie roubaria Tony Visconti, que seria seu produtor entre 74/80, sua melhor fase...
   Vamos ao disco. THE SLIDER, meu disco favorito da banda.
   A capa tem foto de Marc Bolan tirada pelo fotógrafo...Ringo Starr...Sim, na época Marc, Ringo e Elton John eram inseparáveis. Vai saber...
   Ele abre com Metal Guru, faixa que literalmente arromba o barraco. Tem clima de anos 50 e logo se percebe a beleza original dos backing vocals. Esses vocais de fundo, marca registrada do som T.Rex, são feitos pelos ex-componentes da banda Turtles e também pelos próprios Visconti, Baker e Rushent. Eles gemem, gritam, cantam, sibilam e harmonizam, sempre "glamurosamente"...
   Mystic Lady é uma faixa linda e estranhamente "silenciosa". O baixo decola e tem um arranjo de cordas pensativo. Marc divaga sobre seu tema favorito, o misticismo espacial ( era isso o que mais irritava os inteligentinhos da época ).
   Rock On exibe o riff perfeito. Riff da guitarra de Marc Bolan. Ele criou em toda a vida dois riffs, e tudo o que compunha era variação sobre esses dois. Mas e daí? Esse riff justifica toda uma carreira. Rock On é pop perfeito.
   Chega a hora de The Slider, faixa que dá nome ao album. E eu penso: -Qual é o mistério da tensão que há nessa canção? Tensão que vicia, música perfeita. O riff quase se desfaz, quase nada de voz,  e ela se esparrama no ar, cristalina, diáfana, sedutora. É um dos mais sublimes momentos de todo o pop inglês.
   Baby Boomerang ( os nomes das faixas são deliciosos ), é totalmente milk-shake, vocais festivos e dança discreta. Alegre.
   Spaceball Ricochet é outra meditação de Bolan. Ele divaga e canta com sua voz mínima.
   Entra então Buick MacKane, um kaos. Uma sinfonia de rocknroll. Gritos, muita percussão e um riff absoluto. Impossível não ser tocado na alma por essa celebração ao rock mais genuíno. Sanguinea.
   Telegram Sam, eis o riff que Marc criou em sua mais completa simplicidade. Os ooooooohs de fundo são o supra-sumo da afetação gay. Lindo.
   Rabbit Fighter é insinuante, sensual. O timbre da guitarra é trabalhado até a saturação.
   Baby Strange tem cordas exatas. O riff é insistente. A colisão das cordas e da eletricidade da guitarra faz da canção um doce envenenado.
   Ballrooms of Mars. Clima de fim de festa, pensamentos soltos, dispersão.
   Chariots Choogle tem backing vocals muito agudos, um riff sublime e cordas graves, urgentes. É um dos pontos mais altos do disco.
   Por fim, Main Man, uma absurda canção triste. Ah sim...em 1974 quando Bowie lançou sua editora musical a batizou de Main Man....
   Em 1974, dois anos após este disco, Marc Bolan destruiu sua carreira. Primeiro se casou com Gloria Jones, uma cantora americana...negra. Seu público estranhou, não exatamente por ela ser negra, mas por ela NÃO ser glamurosa. Logo em seguida ele muda seu som. Bolan passa a fazer canções dançantes, soul music, negras. E se muda para a América, em busca do sucesso que por lá nunca veio. Em 1977 ele morreria em acidente de carro.
   Ah sim...em 1975 David Bowie lança seu disco dançante, Young Americans e se muda para New York...mas aí é maldade dizer que essa guinada de Bowie foi roubo sobre Bolan. Na verdade nessa altura Bowie seguia os discos solo de Bryan Ferry, soul de plástico bem produzido. Logo depois David iria para Berlin, roubar ideias de Eno e do Kraut Rock.
  Marc Bolan foi um rei durante apenas três anos. Mas foram grandes anos. Num momento de pop brilhante, de fortíssima concorrência, ele conseguiu se destacar fazendo tudo da forma mais simples. Mas o tempo mostrou que era um simples sofisticado, polido, sábio. Quando a fórmula se esgotou, ele tentou outro caminho. Seus discos dançantes são ruins. Bolan não tinha o talento da reinvenção ( talento que sobrava em seus rivais, Bowie e Ferry ).
  Odiado pelos hippies, vaiado pelos cabeças, ele foi idolatrado pelos moleques que se tornariam no futuro punks e new waves. Marc Bolan é um dos belos segredos do pop.
  PS: foi a partir de 1972 que o rock inglês começou a se distanciar dos EUA. Se nos anos 60 quase tudo que estourava na Inglaterra vendia nos EUA ( as excessões foram Kinks e Small Faces ), a partir de 72 bandas como Slade, Status Quo e Roxy Music, grandes vendedores na GB, eram desconhecidas na América. Os campeões americanos continuaram e continuam a vender na Inglaterra, mas o contrário deixou de ser verdadeiro.

Funny Face - trailer (1956) AUDREY HEPBURN



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CINDERELA EM PARIS ( FUNNY FACE ), UM FILME QUE É UMA AULA DE ESTÉTICA ( E UMA FESTA DE PRAZER )

   Ruy Castro em seu texto sobre Fred Astaire, dizia que na saída dos cinemas que exibiam seus filmes, era cômico ver as pessoas, ao voltar para casa, arriscarem passos de dança na rua. Infelizmente jamais terei a chance de ver isso, mas ao reassistir pela nona vez este filme, sinto aquilo que todos os filme de Astaire me dão: euforia. O número de horas de prazer que Fred Astaire me deu em toda minha vida, são incontáveis. FUNNY FACE é um dos seus ápices. ( Saudades da página inteira que a Folha ainda podia publicar quando de sua exibição na Globo, em 1989 ).
   Existem filmes que reverenciamos, amamos como se ama um fenômeno da natureza. Mas exsitem aqueles que amamos como a uma mulher. Amamos com carinho, amamos pelo prazer que nos dá, amamos e aprendemos a o conhecer, a lhe desvendar. Filmes que são festas de prazer inesgotáveis. E eles são infalíveis, basta que eu comece a vê-los para me sentir de novo nessa festa. CHARADA, UM TIRO NO ESCURO, HATARI, A CEIA DOS ACUSADOS, A RODA DA FORTUNA...e este filme.
   Mas ele não é só Astaire. Aliás o filme é mais de Audrey Hepburn que dele. E aí salta a vista o carinho que a Paramount sempre teve por ela. A carreira de Audrey no estúdio é irretocável. Eles souberam o que oferecer para ela, tiveram gosto, percepção. Assim como a RKO teve com Cary Grant ou a MGM com Clark Gable. Penso na tragédia que são as carreiras de gente como Halle Berry, Helen Hunt ou Jim Carrey, totalmente sem rumo, desperdiçados. Weeeellll...
    Este filme trata do mundo da moda. A fantástica Kay Thompson faz uma editora/dona de revista tipo Vogue ( na verdade o personagem é baseado em Diana Vreeland, O Diabo que Vestia Prada ). Pois bem, essa editora resolve lançar uma nova modelo, uma modelo com cara inteligente. Astaire é o fotógrafo Dick Ayers ( que é baseado no MAIOR fotógrafo de moda da história, Richard Avedon, que fez na verdade todas as fotos que aparecem no filme ). Num sebo de livros, eles irão topar com a intelectual Audrey, e o resto é música.
   Muitos críticos vestiram a carapuça, e se irritaram com a gozação que o filme faz em cima dos filósofos em moda na época. Audrey vai para Paris, pois seu sonho é conhecer um rei da filosofia, um tipo de Sartre. O que esses críticos não perceberam é que o filme também ri do mundo histérico da moda. A única coisa que Stanley Donen e seu roteirista defendem é nosso prazer. E nisso eles são de rara competência.
   O filme abre com letreiros, fotos de Avedon, que já são geniais. Poses de modelos, letras tipo Vogue, cores fortes. O filme inteiro é considerado uma aula no uso da cor. Repare na sequencia dentro da sala de revelação, ou na cena com os balões, o contraste do fundo cinza com as cores dos balões. E toda a magnífica sequencia em que Astaire fotografa Audrey nas ruas de Paris. Aliás, jamais Paris foi tão bonita. Todo o mito da cidade brilha no filme como em nenhum outro.
   As músicas são de George e Ira Gershwin. Uma coleção de hits e de hábil genialidade. Eu jamais vou me decidir sobre quem era melhor, se Cole Porter ou se Gershwin. Aqui temos S'Wonderful, uma das mais belas canções sobre o amor feliz, Funny Face, que grudou em mim fazem duas décadas e nunca mais saiu, Let's Kiss and Make Up! e talvez no melhor momento cantado do filme, a divina How Long Has This Been Going On ?... cantada com a voz pequena de Audrey. Apaixonante.
   Fred não dança muito aqui. Mas o pouco que faz dá ao filme o velho charme de seu estilo cool. Ele canta, e é impressionante como seu canto é moderno, elegante, atemporal. O filme tem ainda uma cena em clube exsitencialista francês, Audrey dança com dois bailarinos modernos. É uma cena para guardar: jazzy, cool, sensual.
   Stanley Donen era um mestre em nos dar prazer. CANTANDO NA CHUVA, SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS e CHARADA são alguns de seus filmes. Ele tinha ritmo, gosto, humor fino e principalmente elegãncia. Seus filmes são compêndios de savoir faire.
   Se eu tivesse de ir para a tal ilha deserta, com apenas cinco filmes, eu escolheria filmes que me consolassem da solidão. Que fossem fontes de prazer, de leveza e de gosto. FUNNY FACE seria um deles.

MANKIEWICZ/ REX HARRISON/ BRUCE WILLIS/ BING CROSBY/ HUSTON/ SINATRA/ OKLAHOMA!

   CHARADA EM VENEZA de Joseph L. Mankiewicz com Rex Harrison, Susan Hayward e Cliff Robertson
Um velho milionário em Veneza se finge de doente terminal para avaliar a reação de suas três ex-mulheres. Mankiewicz, o grande diretor de A Malvada, famoso por seus roteiros exemplares, não consegue criar aqui o interesse para manter o filme de pé. Sua intenção é a de fazer uma sofisticada comédia levemente cínica. Cínica ela é. De qualquer modo, Rex Harrison é sempre um mestre nesse tipo de personagem. Vê-lo atuar salva o filme do meramente ruim. Nota 5.
   CATCH.44 de Aaron Harvey com Bruce Willis, Forest Whitaker e Malin Akerman
É um compêndio de cenas roubadas de filmes de Tarantino e Rodriguez. Será que esse Aaron é um pseudônimo de um dos dois? Este filme não tem história, são apenas cenas de diálogos pseudo-espertos e tiros sanguinolentos. Forest faz seu tipo "sou um pobre diabo" e Bruce Willis faz Bruce Willis. Mas... que diabos, é divertido! E dura apenas oitenta minutos. Nada de tentativa de fazer arte, nada de tristezinhos sensíveis, nada de denúncias para festivais. É apenas um filme adolescente-macho, cheio de rocknroll ( tem Bowie cantando Queen Bitch ). E eu adoro Bruce Willis!!!! Nota sei lá....cinco tá bom.
   O BOM PASTOR de Leo McCarey com Bing Crosby e Barry Fitzgerald
É um dos filmes mais detestados pelos críticos moderninhos. Isso acontece por ele ter, no Oscar de 1944, "roubado" os prêmios de PACTO DE SANGUE, a obra-prima de Billy Wilder. Que culpa este filme tem? É um bom filme otimista e tolo. Bing, muito bem, faz um padre moderno e sempre de bom humor, que é enviado a paróquia decadente para a salvar. Fitzgerald, ator irlandês que chegou a trabalhar no Abbey Theatre, é o velho padre veterano e antiquado. Acontece um milagre no filme: ele não é meloso e nem chato. Tem uma leveza, uma falta de pretensão maravilhosa. Mérito de Leo MacCarey, diretor formado em filmes de Harold Lloyd, e diretor dos irmãos Marx em Duck Soup. Bing Crosby canta Swimming on a Star...é divino!!! A perfeita canção pop. Delicioso passatempo. Nota 8.
   A BÍBLIA, NO INÍCIO de John Huston com George C.Scott, Ava Gardner, Peter O'Toole...
Um dos grandes desastres de Huston. Mas este não é um soberbo desastre, é apenas um filme muito ruim. O antigo testamento é infilmável. Ele é poesia, feito de imagens simbólicas e prosa intrincada, nada menos filmável. Mas Huston amava textos não-filmáveis. Aqui quebrou a cara. O filme é chato, longo, tolo, infantil e feio de se ver. Um caos. Nota Zero.
   JACK, O MATADOR DE GIGANTES de Nathan Juran
Na época em que este filme foi feito ( 1962 ), Ray Harryhausen era o rei dos efeitos especiais ( Ray é o ídolo de Tim Burton ). George Pal vinha logo em seguida. Pois bem, este filme tem efeitos que Não são de Ray ou de George. Portanto são efeitos muito ruins. Não possuem a perfeição de Ray e nem a poesia de George. Isso derruba esta aventura cheia de bruxos, monstros e que tais. Tudo tem jeito de carnaval e nunca de magia. Nota 2.
   ROBIN HOOD DE CHICAGO de Gordon Douglas com Frank Sinatra, Peter Falk, Dean Martin
Chicago dos anos 30. Falk e Sinatra estão em gangues rivais. Sinatra acaba por se tornar um tipo de Robin Hood da máfia. E o roteiro é só isso. Não fossem duas coisas geniais: Peter Falk faz um mafioso "italiano" hilário!!! Tudo que De Niro faria depois está aqui. A voz enrolada e as palavras saindo como cascata, os trejeitos das mãos, o modo debochado de sorrir, é uma criação maravilhosa de um grande ator. E há Bing Crosby, que faz um almofadinha nerd, que acaba por se unir ao grupo. A cena em que Sinatra e Dean ensinam a Bing como se vestir para sair é ótima. O filme, fora isso, é bastante assistível. E ainda vemos os Rat Packs fazerem seus tipos espertinhos de sempre. Nota 6.
   OKLAHOMA! de Fred Zinnemann com Gordon McRae, Shirley Jones e Gloria Grahame
Agnes de Mille fez as coreografias e isso é muito bom. As cenas de dança, infelizmente poucas, são fascinantes. Este filme mostra o porque dos musicais começarem a ruir em cinema. Deixou-se de criar musicais para cinema, e apostando no certo, se começou a transpor para a tela sucessos da Broadway. O que funciona no palco pode ser um fiasco na tela. Este filme, imenso, caríssimo, não foi um fiasco, mas foi pensado como um clássico, e nem sequer é um bom filme. Como cinema, as cenas melhores são aquelas com Gloria Grahame, que faz uma moça incapaz de dizer não a um moço. Gloria foi uma atriz original, meia feinha e muito sexy. Sua vida pessoal foi mais interessante ainda... Zinnemann que é um grande diretor, não sabe fazer um musical. Percebemos seu desconforto, ele não corta quando devia, não estica o que merece ser apreciado. Tudo isso faz deste filme uma coisa esquizo, sem rumo, artificial. Nota 4.
   MILAGRE NA RUA 34 de George Seaton com Maureen O'Hara, Edmund Gwenn e Natalie Wood
É a história do velhinho que pensa ser Papai Noel. Ele passa a trabalhar na Macy's, onde conhece mãe solteira que tem um filha sem ilusões sobre a vida. Este filme, simples e bonito, ganhou um Oscar de roteiro. Mereceu. Embora pareça apenas um filme bacaninha de natal, ele é na verdade um muito sério debate sobre o que é real e o que parece ser a verdade. Seaton, que escreveu a história, dirige tudo como um quase documentário, cenas cruas, sem muita produção. Para quem quiser ver um filme de natal sem nada de piegas ou de bobo, este é o filme. Encantador. PS: Natalie Wood, ainda criança, dá um show como a menina "realista". Gwenn faz um Santa Claus próximo do perfeito. Nota 8.

DIÁRIO DE UMA VIAGEM DA BAÍA DE BOTAFOGO À CIDADE DE SÃO PAULO ( 1810 )- WILLIAM HENRY MAY

   José Mindlin na introdução a este pequeno livrinho, fala da sua dificuldade em obter a única cópia ( estava em Londres ), deste relato. Não existem narrativas sobre São Paulo até então. Tudo o que há, relatos franceses e espanhóis, são descrições de "ouvir dizer", nada escrito por quem lá esteve. Portugal, até 1808 não permitia a entrada de estrangeiros no Brasil, se pego, um francês ou um espanhol seria morto.
   Mas o que se falava de São Paulo até 1808? Que era a cidade "da República". Uma cidade que pagava seus tributos à coroa em dia, mas que tinha leis próprias, costumes seus, que não admitia ser governada. Diziam que seu povo era composto por bandidos. Lenda....
   W. Henry May não era um aventureiro. Era um burocrata da coroa inglesa. Saindo do Rio, ele, em navio inglês, vai até a Ilha Grande, de lá à Santos, então São Paulo e na volta São Sebastião. É um relato simples, didático e muito verdadeiro. O que esse inglês, vivendo no apogeu do poderio real britânico, diz sobre nossa terra?
  Nada sobre o Rio, de onde ele vem. Mas dá pra perceber que ele não gostou do Rio. A Ilha Grande tem elogios por sua beleza, as montanhas, a luz sobre o mar. Ele elogia o governador da Ilha, um português afetuoso, aberto, generoso. Um comentário: " Portugueses não sabem arrumar suas casas ", ele repara nas ruas limpas, mas fala das casas bagunçadas, mal decoradas.
  Surgem dificuldades para entrar em Santos. O estreito de Bertioga os assusta. A cidade é vista como pantanosa, confusa, suja. Vão para São Paulo. Navegam por rio até Cubatão, cidade cheia de cana de açúcar, de lavoura. Se impressionam com a beleza da Serra do Mar, suas imensas montanhas, seu verde. Sobem pela estrada pavimentada em zigue e zague. Lombo de burros. Admiram e elogiam os tropeiros que descem levando café. Gente limpa, educada, forte.
   No alto da Serra. Se impressionam. Campos de capim, caça, clima ameno. Diz que às vezes a paisagem lhe recorda a Inglaterra, montes e rios, sol e árvores grandes. Chegam a São Paulo.
   Na primeira visão da cidade se lembram da Itália. Para onde se olha se vêem belas montanhas e riachos claros e frescos. O clima é saudável e as ruas são asseadas. Estranham o povo. Nas igrejas os paulistas se comportam como se estivessem em peça de teatro francês. Fazem gestos amplos, conversam, se penitenciam. Para os inlgeses, os paulistas não levam a religião a sério. Dizem que o povo dorme toda a manhã e no resto do dia só pensam em namoros, flertes, traições. As mulheres lhes parecem pouco sérias.
   Mas adoram a paisagem, a luz do sol, caçam pássaros, caçam veados, topam com cobras. E voltam.
   Descem a Serra e em Santos tomam o navio rumo ao Rio. Mas antes páram na Ilha de São Sebastião ( Ilha Bela ). Se apaixonam pelo lugar. É um povo que trabalha muito, as mulheres não páram de fazer renda, os homens cuidam da lavoura. As casas são pobres, humildes, mas o entorno tem ares de paraíso. A Ilha lhes deixa uma imagem de sonho.
   O relato, curto demais, se lê em uma hora. Mas quanta coisa pra pensar.
   Mudamos tanto assim? Cadê a paisagem italiana? Que tipo de cidades construímos? Me parece que jogamos no lixo a tal paisagem toscana e no lugar nada fizemos digno de louvor.
   PS: Perguntei a minha mãe se era real ou fantasiosa uma lembrança que tenho de minha infância. Nasci no Morumbi, perto de onde é agora a Tv Bandeirantes. Da porta da cozinha de casa eu podia ver, com nitidez, como se fosse logo na esquina, o pico do Jaguaré. Esse pico, pra quem não sabe, fica a cerca de 15 quilômetros em linha reta, de onde eu o via. Toda manhã eu admirava o sol sobre o verde de suas encostas e no inverno o admirava cercado pela neblina fria. Isso era mesmo assim ou foi fantasia minha? Pergunto e minha mãe o confirma. Da cozinha se avistava o pico do Jaguaré e da rua, à esquerda, se olhava o alto da avendia Paulista. Não sei se a Itália é assim. Mas era uma visão sem preço.

Bing Crosby & Frank Sinatra - Well, Did You Evah (High Society)



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A DITADURA DO CLEAN E O MEDO DO FIM ( SOBRE CIGARROS E PIERCINGS )

   Uma amiga escreveu que essa onda de perseguições contra os fumantes significa uma invasão aos direitos do indivíduo. Se eu fosse fumante me sentiria incomodado, claro, e acho que estamos entrando no exagero, sim. Mas ao mesmo tempo em que se fecha o cerco contra o fumante, se tolera o garoto com dúzias de piercings, centenas de tatoos ou um casal homo de mãos dadas na rua. Então o problema não é de direito. Direitos justos, que não eram dados, hoje, felizmente, são concedidos. O que acontece então?
  Penso que o problema, óbvio, é que a fumaça do cigarro incomoda. Esse é o grande motivo. Mas, um cara ouvindo funk no ônibus também incomoda e mesmo o casal gay na rua pode incomodar alguém. No rosto com vinte piercings há incômodo a quem o vê ( minha mãe se sente agredida ). Porque tanto ódio ao cigarro?
  Vivemos numa época que nega tudo aquilo que não pode ser explicado ou suavizado pela ciência. As religiões que crescem são aquelas que estupidamente "explicam" tudo. Falamos sobre sofrimentos que podem ser "domesticados" pela medicina ( depressão, TOC, fobias ), o que não é explicado não existe. Nesse mundo infantil, mágico, onde aquilo que temo "não existe", a morte torna-se convidado indesejado. Quem já enterrou pessoa querida sabe o que falo: nada em nossa sociedade ritualiza esse momento. O luto, a oração, os símbolos da morte nos foram roubados. Sobre a morte nada pode ser falado.
  A coisa é óbvia. Em civilização predominantemente atéia ( mesmo os que vão a cultos têm dúvidas ), a morte se torna um pensamento a ser negado. Insuportável. Ao negar o direito de se matar "de seu modo" a todos, estamos na verdade tentando esquecer o nosso próprio fim. Pois se aquele cara fuma sem parar, ele sem saber está jogando em nossa cara que comemos carne cheia de hormônios e bebemos produtos suspeitos. Não estamos nem aí para a morte de um fumante, o que não podemos suportar é ser lembrados da nossa morte futura.
  Tenho amigos que não suportam museus, filmes "velhos", músicas "antigas". Já vi várias vezes pessoas desprezarem e desrespeitarem velhos em filas e em ônibus. Tudo o que é lembrança do fim, do antigo, do que já se foi, deve lhes ser odioso. Tudo o que cheira a cemitério lhes dá pavor.
  Mas voce pode dizer: mas esses jovens se matam em motos, se enchem de drogas e não ligam motos e drogas à morte.
  Sim, é verdade. Mas não se esqueça que motos zumbindo pelas ruas, cocaína e crack estão associados a coisas "jovens". Mais que a escolha de modo de morrer, andar de moto é ser "valente", mais que suicidio, se drogar é ser "do contra". Cigarro tem uma imagem bem outra. E não vamos nos esquecer, sempre que se lembra do "passado" o que se imagina é uma multidão de fumantes. O cigarro é retrô, antigo, old fashion, velho portanto. Não é a morte rápida e jovem do acidente na rua. Não é a morte inconsciente da droga. É a morte em casa, gota a gota, lenta, doída, real. A morte que hoje todos tentam esquecer.
  Mundo de higiene absoluta. Ditadura das dietas, das academias, dos regramentos. Tudo isso criado para vencermos a morte. O que nos assusta é que ela é imbatível. O futuro será como o interior de uma geladeira: branco, frio e limpo. Tão limpo que parecerá... morto.

FRANK SINATRA E A ARTE DE VIVER- BILL ZEHME ( NÃO INDICADO A MENINOS SENSÍVEIS, MENINAS MODERNETTES E MOÇOS INTELIGENTINHOS )

   Não é uma biografia. Apesar que até pode servir como uma. Na verdade é exatamente aquilo que o título diz, Frank Sinatra dá conselhos sobre a arte de viver bem. E Frank pode se dar esse direito, ele viveu, ele amou muito, brigou muito, errou demais e deu sempre a volta por cima. Frank dando conselhos é muito melhor que a maioria dos filósofos e psicólogos, ele fez, não leu e decorou.
   Amizades, festas, bebidas, roupas, casamentos, mulheres, familia; esses os assuntos sobre os quais ele mais se detém. Fala de forma direta, sem enrolação. Muita gíria, muita malandragem.
   Fidelidade absoluta aos amigos. Sinatra era famoso por ajudar amigos, com dinheiro, com trabalho, com apoio moral. As melhores histórias e as melhores frases do livro estão nesses capítulos. Dean Martin, Sammy Davis Jr, Bogart, Shirley MacLaine, Joey Bishop. Há ótimas histórias sobre todos eles. Engraçadas, algumas bem tristes. Zehme conta que em 1949, na época de azar, os amigos viravam a cara para ele. Isso o marcou tanto que ele nunca mais pediu ajuda a ninguém e passou a oferecer ajuda a quem o merecesse. Frank Sinatra nunca perdeu seu jeito siciliano, seu modo de falar dos amigos é o modo caloroso, familiar, honroso dos sicilianos, modo que também tem ares de máfia. E daí?
   Jack Daniels, muito Jack Daniels. Sinatra diz beber uma garrafa por dia. Todo mundo sabe que é mentira. Na verdade ele "usava" uma garrafa por dia, enchia seu copo, dava dois goles e o deixava num canto. Enchia outro, dois goles, abandono. Isso lhe dava a fama de bom bebedor, que é o que ele queria. Cigarros ele nunca tragava. Eram parte do show. Sempre a mão, mas nunca tragados. Mas mesmo assim, Sinatra sabe o que fala, entende de Jack Daniels, ensina drinks, adora vodka, e principalmente ele sabe acender o cigarro de uma dama. Um gesto fluido, leve, rápido, sem afobação.
   Sinatra é um homem a moda antiga. Para ele nenhuma mulher deve ser tratada como uma qualquer. Todas eram "mamas" em potencial. deviam ser bem alisadas, elogiadas, protegidas e nunca jamais agredidas. Dean Martin diz que para Frank até as prostitutas não eram putas. Sinatra lhes dava presentes, conselhos, ouvidos, ombros e sexo. Mas não se vangloriava de suas proesas. Era um cavalheiro.
   A vaidade era imensa. Foi filho único e com 14 anos já tinha oito ternos. Frank Sinatra adora a limpeza, a roupa certa, o lenço no bolso, a calça bem passada, a elegância discreta, correta, perfeita. Ele foi guru de moda para milhões de homens ( hoje é.... Jay Z ? ), homens que copiavam o chapéu que ele usava, a gravata, o sapato. Homens que sonhavam em achar sua Ava Gardner.
   Ava Gardner destruiu Sinatra. Foi a mulher que o humilhou, que fugia, que não baixava a guarda nunca. Ele, quando a perdeu de vez, pirou. Perdeu o rumo, afundou, quase morreu. Quando retorna a vida, lança uma montanha de lps que são a educação sentimental de todo homem que merece ter culhões. Lançando até quatro por ano ( sim, 48 faixas todo ano ), ele teve a esperteza de variar. Um Lp alegre, um triste; ou seja, um para dançar com a dama, outro para chorar a falta dessa dama. Eu conheço todos. Os discos tristes são a coisa mais deprimente que já ouvi. Quem pensa que Nick Drake ou Leonard Cohen é o máximo em tristeza nunca escutou " I'm A Fool for Love You". Por outro lado, os discos pra cima são a coisa mais alegre, chic, viril e sexy que já ouvi. O homem era foda!
   As festas são do tipo que começam sexta-feira em Los Angeles e terminam na segunda em Londres. Frank era dono de 3 jatos e era comum que ao escutar de uma dama que ela adorava lagostas de um certo restaurante em Paris, mandar um avião buscá-las e as oferecer um dia depois. Assim como oferecia advogados, guarda-costas, casa, para quem precisasse.
   Ele era intenso. Se era amigo, era um irmão, se era irmão, era Frank Sinatra. Não dormia, tinha medo de perder alguma ação. Logo enjoava das coisas, então partia para alguma nova coisa. Sempre cercado por amigos, odiava ficar só. Tinha de falar, de se mover, de se exibir. Era o que hoje chamamos de "O Cara".
   Mas não há nada parecido com Sinatra hoje. Não falo como artista, falo como homem. O tipo de homem-Sinatra foi morto pelo feminismo, pelos hippies, pelo excesso de drogas, pelo relativismo. Ele não chorava em público, não se lamentava quando devia rir, nunca baixava a guarda. Suas lágrimas, suas lamentações, suas loucuras eram exibidas em casa, para dois ou três amigos, e só. Ele servia seus fãs, respeitava-os, tinha de ser Frank Sinatra. Jamais faria coisas como os astros do rock fazem ou fizeram. No mundo de Frank, "sofrer" por ser famoso era hipocrisia de fracos. E um homem é forte. Ou não tem culhões.
   Nada do que está no livro teria valor não fosse Sinatra quem foi. O Cara, o chefe, o grande boss, o cara que sabe se divertir, que sabe onde ir e quem encontar. O que vestir, o que botar no som, o que comer e beber. Ele sabia viver, e melhor, fazia seus amigos viverem esse "saber" com ele. O cara era foda.
   Uma infinidade de homens tentou ser Frank Sinatra em alguma coisa, em algum momento. Ninguém chegou perto ( quem chegou perto foram aqueles que Sinatra seguiu: Bogart e Dean Martin ), mas tentar já é um mérito.
   Recomendo o livro como excelente leitura de ano-novo. Se voce não for um caso perdido, vai te botar lá em cima. Como deve ser.

O MAR, O MAR - IRIS MURDOCH, É POSSÍVEL SABER ALGUMA VERDADE?

   Fizeram um filme sobre Iris Murdoch alguns anos atrás. Acho que Richard Eyre dirigiu... sei que era com Kate Winslet e Judi Dench. Bom filme, que mostrava a importância de Iris para a cultura inglesa no período 1960/2000. Ela fazia palestras, divulgava sua filosofia, tinha fãs apaixonados. Leio em Harold Bloom que ela era profissionalmente uma filósofa. E Bloom diz que considera Iris Murdoch autora genial, mas que estranhamente, ela nada escreveu de plenamente satisfatório. Para ele, Iris nunca escreveu um romance, ela escrevia textos romanescos.
   Texto romanesco é aquilo que Stevenson ou Kipling escreveram. Livros em que a ação e a ambientação são o mais absorvente. Os personagens são secundários. Nunca parecem seres reais. Weeell.... Murdoch adorava Henry James e Shakespeare, dois mestres em criar gente de verdade. Mas, nos livros de Iris, o que nos seduz é seu enredo, os momentos de mistério e de leve absurdo que ela cria. Quanto aos persoangens, nos são quase indiferentes.
  Aqui, um diretor de teatro, aos 60 anos, resolve se aposentar. Ele é famoso, de um modo pop e quase vulgar. Compra um velho e esquisito casarão numa praia inglesa e passa a viver lá, só. O inicio desse longo livro é delicioso. Murdoch nos leva pela mão à esse mundo meio doido, meio mágico que ela cria. Nos sentimos em meio ao sol, a espuma do mar, as pedras, as salas da casa. O ex-diretor começa a ter a sensação de que coisas estranhas acontecem na casa. E chega a ver um monstro no mar. Logo sabemos que as coisas estranhas eram seus amigos, que se infiltravam na casa sem que ele o soubesse. E que o monstro pode ser um flash-back de uma antiga viagem de LSD. 
   Mulherengo, esse velho homem recebe visitas das atrizes e vedetes que amou. E dos atores que conheceu. Ele começa a escrever suas memórias, que é o livro que lemos. Na infância foi menino retraído, com inveja do primo mais rico. E é escrevendo esse livro que ele mergulha no inferno: recorda sua primeira namorada, e ao surpreendentemente encontrá-la na praia, passa a viver um delirio de ciúmes, de medo e de paranóia. E mais do enredo eu não conto.
   Murdoch era adepta de um tipo de platonismo do bem. Ela acreditava que o que vemos é ilusório, e que a vida verdadeira só pode nos ser conhecida de forma indireta.  Charles, o diretor aposentado, é quem nos conta a história, nos revela seus pensamentos, seus sentimentos. Mas algo nos perturba. Começamos a perceber que Charles está completamente enganado. Que sua primeira namorada é uma senhora feia, desinteressante, e pior, que ela não o quer. Charles vê em tudo aquilo que ela faz um sinal de amor, planeja coisas impossíveis, tem total fé naquilo que quer crer. Ao mesmo tempo, ele nos descreve seu primo como um arrogante e sem sal militar reformado. Mas ficamos confusos, porque tudo o que esse primo diz nos parece interessante, profundo, do bem. Por mais que Charles fale mal desse primo, o que desejamos é ouvi-lo falar.
   A paixão de Charles termina em morte. Ele se enganara. E ao fim do livro, em belas páginas, descobre que seu primo era muito mais do que ele imaginara. James, o primo, fora sempre um estudioso de misticismo budista, um colecionador de obras do Tibet, um mistério. E fora também o homem que sempre lhe ajudara. Quanto ao primeiro amor... que amor?
   Como leitores somos manipulados pela arte de Murdoch. Acreditamos em Charles, depois percebemos seu erro e sua doideira e ao fim, quando ele cai na real, quando ele renega seu amor "louco", sua paranóia, vem o pensamento fatal: E se ele estivesse certo? E se aquele fosse mesmo seu grande amor? E se ela realmente o amasse? E se a "febre" de Charles fosse na verdade "o bem" ?
   Iris Murdoch dizia que o mundo de Shakespeare, Homero, Dante e Tolstoi é o verdadeiro mundo. É o mundo real, que não conseguimos e não suportamos perceber. Que o drama mágico de Shakespeare, que as paixões simbólicas de Homero, que a poesia de Dante ou o imenso universo de Tolstoi são a verdade. Que o cotidiano de jornais, tvs, carros e telefone é apenas A Ilusão.
   Iris Murdoch estava certa. E quanto mais o mundo avançar século xxi adentro, mais razão lhe daremos. Não esquecer o mundo de Shakespeare, de Dante, Homero, Tolstoi é recordar sempre o que somos DE VERDADE. É não perder contato com o que desejamos, o que sofremos, o que podemos ser e aquilo que acreditamos.
   O resto é pó...

APRENDENDO A PENSAR

   É dificil pensar, requer muita atenção e algum tempo. Coragem também.
   A vida toda eu pensei que pensava. O que eu fazia, na verdade, era reagir à vida e repetir certos conceitos decorados. Dialogava comigo mesmo aquilo que outros haviam me ensinado. Isso não invalidava o mérito de conhecer os pensamentos de Tolstoi ou de Nietzsche. O problema é que eu não sabia pensar por mim mesmo.
   Certas experiências de vida, e alguns poucos momentos de arte, começaram a me colocar em dúvida. E creia, não existe pensamento se voce não duvidar da certeza. Para mim, muitas coisas eram certezas absolutas. Lembro que eu adorava posar de conselheiro. Dava opiniões definitivas sobre o que era o amor ( desejo sexual sublimado ), sobre as mulheres ( tudo o que desejam é um herói ), sobre a religião ( ideologia dos fracos ) e sobre a vida em si ( um aprendizado ). Era cômodo crer nessas certezas, e mais esquisito, eu achava que eram pensamentos meus. Quanto mais triste minha vida se fazia, mais eu me agarrava na vaidade de ser "um pensador consciente". O consolo de minha vida era "saber pensar".
   Não sei quando exatamente as coisas começaram a ruir. Mas houve um momento em que percebi a fragilidade de tudo aquilo que eu gostava de pensar como óbvio. Talvez tenha sido a morte de meu pai, que me fez perceber que eu, que tinha tantas certezas sobre quem ele era, simplesmente não o conhecera. Talvez o contato com gente de classe social que eu desconhecia. Perceber que essas pessoas são diferentes dos chavões sobre elas propagados. Ou tudo isso mais a massa imensa de filmes, livros, teses, conversas, memórias, imagens, que o tempo livre e a disposição a aprender me fizeram penetrar. Eu adentrei aquilo que não conhecia. Deixei de amar apenas o que ia de encontro ao que já sabia. Viajei para o outro lado. Comecei a tentar pensar. Ver o óbvio que fazemos força para não ver.
   Pensar coisas como:
   Talvez meu pai estivesse certo e eu errado, talvez as pessoas mais simples estejam próximas da vida, e talvez arte, poesia e psicologia não tenham qualquer importância. Quem sabe o sexo não seja, na verdade, uma forma mais fácil de amar, e portanto o amor não é sublimação de nada, mas sim o sexo seja consolo de quem não sabe ou consegue, amar. As mulheres talvez não desejem um herói, talvez os heróis é que tenham um desejo imenso por elas. Talvez a religião seja coragem, a coragem de se submeter a algo fora de seus poderes. Talvez ela esteja acima da arte e da razão. E quem sabe a vida não seja um aprendizado, ela seja apenas um vazio cujo sentido nos é negado saber. Ou não. Pensar seria ver o lado oposto, mais que isso, seria inverter a questão.
   Dessa forma, se Nietzsche diz que os judeus eram escravos que aprenderam a valorizar a escravidão, eu penso, o que isso pode ter originado de bom? Os senhores do Egito eram melhores que eles? O que é melhor ou pior? O que é bom? Qual o mal em se ter uma ideologia escrava? O que há de belo no SuperHomem?
   Se a religião é o ópio do povo, eu penso: que ópio é esse? Que efeitos positivos essa droga traz? Quais seus efeitos negativos? Mais que isso eu penso, ópio em relação a que? A arte é ópio, o marxismo é ópio, Freud é ópio, poesia é ópio, maconha e prostitutas são ópios. Qual a droga menos ruim? O que é ser ruim?
   Pensar não é apenas questionar tudo, é intuir certas coisas. A única que agora tenho certeza é que nossa razão é tão limitada quanto nossa visão ou nossa audição. Não percebemos a totalidade, não conseguimos sequer imaginar o todo. Míopes, só vemos a fração, o pequeno, o quase insignificante. A vida nos é incompreensível.
   Aprendi a desconfiar de religiosos que se travestem de politicos, que se embrenham nas questões da matéria, e de ateus que se dão a missão de catequizar, de se unir em igrejas materialistas, que opinam sobre a fé. Os dois pensam pensamentos mortos, pensamentos que não resistem a duas ou três perguntas. Um responderá a tudo: "porque assim é".  O outro sempre dirá: "não existe prova concreta". Para um eu direi: pode não ser assim. E para outro eu responderei: me prove a verdade concreta de um só pensamento.
   Me lembro de uma tarde, após bela hora de amor, voltando a pé pra casa, de repente eu imaginar São Pedro e São Marcos no céu, sobre nuvens, exatamente como numa pintura de Rafael. E um pensamento me ocorrer: Não seria hilário se nós tivéssemos dado tantas voltas, e descobríssemos ao final que as coisas eram tão claras assim? Que um Deus existisse e os Santos e tudo mais? Seria humilhante para todos nós, homens que pensam. Pois é... esse cômico pensamento me fez perceber que novos modos de ver e de duvidar estavam ao meu lado todo o tempo. E que eles eram tão válidos e possíveis como a existência da partícula fundamental ou a evolução do pato e do marreco. O mistério vive dentro do próprio ato de pensar o abstrato. A matéria é sua consequencia.
   Depois, voltando a estudar, comecei a perceber que esses pensamentos me ajudavam a compreender aquilo que era dado. Literatura, filosofia, linguística, se tornaram conchas abertas. Eu saí da linha reta do pensamento aprendido, entrei na roda sem eixo do pensamento criativo.
   Posso estar longe da verdade ( estou ), posso estar girando a toa, sem rumo ( com certeza ), mas penso do meu modo, portanto, estou vivo.

CATCH.44 - AARON HARVEY, UMA DAS 3 VERTENTES DO CINEMA ATUAL

   O filme é assim:
   Em cores fortes, verdes, amarelos e azuis berrantes, assistimos a um papo furado entre três garotas "interessantes". Cigarros ( se fuma muito no filme ) e de repente música, Fox On The Run, do Sweet. Tiroteio, sangue e detalhes de perfurações de bala. A história tem vários flash-backs, e uma balconista grita e inicia mais um tiroteio. O filme tem também várias cenas de carros ( todos dos anos 70 ) e a exibição de enormes armas platinadas. David Bowie com Queen Bitch, um clipe de ação dentro do filme, ao som dessa obra-prima do rock glitter. Voce sente em todo o filme um clima de anos 70. De vez em quando a imagem parece se estragar, o filme tem efeitos digitais que o fazem parecer feito de película gasta, estourada. Estranhamente, apesar do filme ser de 2011 e se passar em 2011, nos carros só se usa toca-fitas k7 e nos bares só tem juke-box. Já lá pro final, tem uma cena com armas que apontam para armas e onde ninguém sabe quando ou em quem atirar. Sacou?
   O filme é uma cola, uma homenagem ou um roubo ( depende de seu ponto de vista ), de tudo o que Tarantino fez. Só que sem seu humor, sem sua leveza, sem seu porquê. Por ser fã de Tarantino, eu me diverti, mas se voce não for fã, esqueça. Escrevo isto pra falar de uma coisa diferente. ( Mas vamos admitir, PULP FICTION é o filme mais importante dos últimos vinte anos. Mais importante, não o melhor. )
   O cinema da América tem hoje três vertentes, três turmas dominantes.
   Tem a turma nerd, cujo representante maior é agora Peter Jackson. Filmes de efeitos, dirigidos a bilheteria e com tons de papo científico sério. Seus antecedentes são Spielberg e Cameron. Usam óculos e barba. Sempre conectados.
   A turma sensível bonzinho. Esses adoram filmes baratos, de cores pastéis, geralmente sobre adolescentes tristes ou drogados suicidas. Gus Van Sant é seu guru, mas tem toneladas de gente nessa turma. Costumam ganhar festivais. Vestem camisetas gracinhas e tênis de lona.
  E a turma deste filme. Fumam, bebem e adoram se considerar "on the road". Têm um caso sério com a época do rock de garagem. Tarantino é seu deus e amam cinema lixo, filmes de terror barato, porradaria, kung-fu. Usam camisas havaianas e óculos escuros.
  Salvo maravilhosas excessões, o grosso do cinema de agora é filho legítimo ou bastardo dessas correntes. Espero que um dia surja alguém com o talento para unir as três. A comunicação fácil do cinema de JJ Abrams, o coração de Sofia Coppolla e a virilidade adolescente de Robert Rodriguez.
  Catch.44 não é esse filme. Mas para alguém que como eu,achou Machete do cacete, dá pra tirar uma fácil.

It's So Audrey! A Style Icon



leia e escreva já!

AUDREY HEPBURN, UMA BIOGRAFIA- WARREN G. HARRIS

   Quando estreou no cinema americano em 1953, com A PRINCESA E O PLEBEU, Audrey havia feito apenas pontas em filmes europeus e uma peça de teatro. Nessa estréia, subitamente ela se torna a estrela mais amada da América e leva o Oscar de melhor atriz. Começo melhor que esse, até hoje, ninguém conseguiu ter. Mas foi fácil?
   A origem de Audrey Hepburn é nobre. Nascida na Bélgica, criada na Holanda, por parte de pai e de mãe, Audrey tem sangue azul e uma linhagem que chega até 1530. Foi criada em palácio de 50 quartos e desde sempre teve como característica a educação esmerada e gestos de quem sempre dormiu em dosséis de seda. Estudou ballet, e de repente as coisas começaram a ficar muito esquisitas. Os pais se filiaram a partidos fascistas, a mãe principalmente, tinha orgulho de suas ligações com Hitler. Mudaram-se na década de 30 para a Inglaterra, o pai era grande executivo de empresa mercantil, e lá se uniram ao odiado partido fascista inglês. Audrey era então uma criança, mas o mundo em que ela vivia lhe cobraria um preço. A guerra começa, e num erro de cálculo, a mãe resolve que a Holanda seria mais segura. Voltam e vêem a miséria da guerra de perto. Perdem propriedades, passam fome ( como toda a Holanda de então ), sentem frio, ficam doentes. É então, aos 11, 12 anos que Audrey adquire a silhueta que a faria famosa e que mudaria o conceito feminino de beleza. Ela se torna muito magra, por fome, não por opção.
   O pai ficara na Inglaterra, e Audrey ficaria 25 anos sem saber dele. Ele é preso por suas ligações com o fascismo, e depois da guerra passa a viver na Irlanda, em condições ruins. Na Holanda Audrey vê trens levando judeus e sua mãe começa a cair na real. Talvez Hitler não fosse a melhor escolha para nobres com medo do comunismo.
   A guerra acaba e a adolescnte Audrey ainda estuda ballet. A familia volta a ter conforto, mas nunca mais o exagero de antes da guerra. Nessa Europa devastada, a mãe, uma baronesa, trabalha em loja, e Audrey vende flores em floricultura. Recebe convites para desfiles e pequenas participações em peças e filmes. Daí os deuses da sorte interferem. A grande escritora Colette estava a dois anos procurando uma atriz para ser a Gigi de sua peça. Ao olhar Audrey pela primeira vez exclamou: -Eis minha Gigi!!!
   Audrey fugia de todo o conceito de glamour da época. Não usava peles, cabelões, piteiras ou decotes. Por ser muito magra e alta, ela se apresentava em entrevistas de sandálias sem salto, saia simples, e blusa comum. Cabelo curto e sem jóias ou adereços. Mas segundo Colette, o efeito era o de se estar diante de uma princesa. Veio Hollywood, e o mito nascia.
   Depois de A Princesa e o Plebeu, vieram Sabrina, Cinderela em Paris, Charada, My Fair Lady...eu nunca havia notado, mas Audrey tem apenas 5 filmes que eu realmente adoro. E para a história do cinema, se incluem apenas mais uns três. São oito filmes. Oito que são chamados de clássicos de Audrey Hepburn. Na carreira inteira são 20. O cinema tem apenas vinte filmes com Audrey...um quase nada em quinze anos de carreira. Uma pena.
   O livro expõe o longo casamento com o medíocre ator Mel Ferrer, ator que se pensava um novo Orson Welles, e que se ressentia do sucesso de sua esposa ( Audrey era a atriz mais bem paga de então ). Ela viveu casos em sets de filmagem, com William Holden, Peter O'Toole, Albert Finney. E são revelados os bastidores de My Fair Lady, o filme mais luxuoso já feito, onde Cecil Beaton e o diretor George Cukor brigavam sem parar. A ligação de Audrey com Givenchy é mostrada em tons nobres de amizade sem interesse, e temos bastidores de Oscar e de estréias. E na parte final de sua vida, o trabalho com a Unicef, na África. Para quem como eu, aprendeu a amar Audrey em filmes como o soberbo Charada e o encantador Cinderela em Paris, o livro é obrigatório. Harris não inventa, escreve simples, correto e corrido. Tem alguma elegância, é sóbrio e nada maldoso. Digno de seu tema.
   Livro da Nova Fronteira. Procure que é bom presente de Natal.