A DITADURA DO CLEAN E O MEDO DO FIM ( SOBRE CIGARROS E PIERCINGS )

   Uma amiga escreveu que essa onda de perseguições contra os fumantes significa uma invasão aos direitos do indivíduo. Se eu fosse fumante me sentiria incomodado, claro, e acho que estamos entrando no exagero, sim. Mas ao mesmo tempo em que se fecha o cerco contra o fumante, se tolera o garoto com dúzias de piercings, centenas de tatoos ou um casal homo de mãos dadas na rua. Então o problema não é de direito. Direitos justos, que não eram dados, hoje, felizmente, são concedidos. O que acontece então?
  Penso que o problema, óbvio, é que a fumaça do cigarro incomoda. Esse é o grande motivo. Mas, um cara ouvindo funk no ônibus também incomoda e mesmo o casal gay na rua pode incomodar alguém. No rosto com vinte piercings há incômodo a quem o vê ( minha mãe se sente agredida ). Porque tanto ódio ao cigarro?
  Vivemos numa época que nega tudo aquilo que não pode ser explicado ou suavizado pela ciência. As religiões que crescem são aquelas que estupidamente "explicam" tudo. Falamos sobre sofrimentos que podem ser "domesticados" pela medicina ( depressão, TOC, fobias ), o que não é explicado não existe. Nesse mundo infantil, mágico, onde aquilo que temo "não existe", a morte torna-se convidado indesejado. Quem já enterrou pessoa querida sabe o que falo: nada em nossa sociedade ritualiza esse momento. O luto, a oração, os símbolos da morte nos foram roubados. Sobre a morte nada pode ser falado.
  A coisa é óbvia. Em civilização predominantemente atéia ( mesmo os que vão a cultos têm dúvidas ), a morte se torna um pensamento a ser negado. Insuportável. Ao negar o direito de se matar "de seu modo" a todos, estamos na verdade tentando esquecer o nosso próprio fim. Pois se aquele cara fuma sem parar, ele sem saber está jogando em nossa cara que comemos carne cheia de hormônios e bebemos produtos suspeitos. Não estamos nem aí para a morte de um fumante, o que não podemos suportar é ser lembrados da nossa morte futura.
  Tenho amigos que não suportam museus, filmes "velhos", músicas "antigas". Já vi várias vezes pessoas desprezarem e desrespeitarem velhos em filas e em ônibus. Tudo o que é lembrança do fim, do antigo, do que já se foi, deve lhes ser odioso. Tudo o que cheira a cemitério lhes dá pavor.
  Mas voce pode dizer: mas esses jovens se matam em motos, se enchem de drogas e não ligam motos e drogas à morte.
  Sim, é verdade. Mas não se esqueça que motos zumbindo pelas ruas, cocaína e crack estão associados a coisas "jovens". Mais que a escolha de modo de morrer, andar de moto é ser "valente", mais que suicidio, se drogar é ser "do contra". Cigarro tem uma imagem bem outra. E não vamos nos esquecer, sempre que se lembra do "passado" o que se imagina é uma multidão de fumantes. O cigarro é retrô, antigo, old fashion, velho portanto. Não é a morte rápida e jovem do acidente na rua. Não é a morte inconsciente da droga. É a morte em casa, gota a gota, lenta, doída, real. A morte que hoje todos tentam esquecer.
  Mundo de higiene absoluta. Ditadura das dietas, das academias, dos regramentos. Tudo isso criado para vencermos a morte. O que nos assusta é que ela é imbatível. O futuro será como o interior de uma geladeira: branco, frio e limpo. Tão limpo que parecerá... morto.