E o livro de André Comte-Sponville termina com a virtude amor. É o capítulo mais longo ( 40 páginas ) e um belo final para um livro viciante. Senti uma grande tristeza quando o terminei. Me acostumei com as lições virtuosas, com o modo claro e muito instigante de Sponville. E compreendi tudo o que ele diz. Livro virtuoso. Para falar de amor, Comte-Sponville usa a ajuda de Platão, de Aristóteles e de Spinoza ( nomes constantes em todo o livro ), mas aqui ele acrescenta Stendhal, Freud e Simone Weill. E é essa mulher, Simone Weill, quem escreve a mais bela página sobre o amor que já li. Mas vamos pelo começo.
Primeiro fato: a moral só existe onde não existe o amor. Mais: as virtudes são necessárias por sermos pouco amorosos. Se o amor fosse mais comum, tanto moral como virtude seriam dispensáveis. Problema: Não amamos o que queremos amar. Amamos o amor e o inferno é viver sem esse dom de amar o amor ( e não o de não ser amado ). Então André passa a analisar o mais conhecido e influente texto ocidental sobre o amor. O Banquete de Platão e a imagem que Aristófanes propõe: a dos hermafroditas. Amamos a metade que perdemos e o amor verdadeiro é encontrar a outra metade. André logo a destrói citando o final do mesmo livro, onde Sócrates diz que amar é uma falta, um vazio. E é então que começa a exibição de verdadeira filosofia de André Comte-Sponville.
Ele demonstra a validade plena desse pensamento. Nos convence de que o amor é sim um desejo de preenchimento, uma vontade de encontro. Ele é esse desejo, e não o encontro. Ao sermos unidos perdemos esse desejo e imediatamente sentimos que o amor foi traido. Para a sobrevivencia desse amor é preciso a não-satisfação, a ponte que não une, a distância. É a paixão exigente, o sempre querer mais e mais, a vontade de posse absoluta. O amor é então esse não ter, esse não conseguir, essa derrota. Citando De Rougemont, ele logo percebe que é um amor mesclado a morte, que só pode sobreviver nela e que procura-a como ponto mais elevado e final. Esse é o amor que domina o ocidente, o amor louco, o amor ansiedade, o amor dolorido. Mas, eis que o autor resolve falar do amor como potência, o amor do qual fala Spinoza.
Indo contra Platão, Spinoza chega a idéia de que o amor não é uma falta, um vazio, mas que ele é antes uma potência. Ele é uma força que nos empurra a ação, uma energia que não é imortal mas que é a vida em sua plenitude. A tristeza que há em casais rotineiros, em sexo mecânico, não é o vazio do amor mas sim a potência exigindo sua ação. Ora, se o amor é uma potência, se ele é a vida, o amor é uma alegria. Esse é o ponto oposto a Platão que vê no amor uma tristeza. Para Spinoza não é o amor que deve ser culpado, mas sim nossa falta de coragem e de talento para o viver. A vida pode ser triste e disso o amor não é culpado, muito ao contrário.
Comte-Sponville demonstra essa verdade com vários exemplos, e diz que além de vivermos numa cultura platônica, não percebemos que amor não é fuga, pois amamos coisas que não mudam, não fogem e que são simples. Amamos uma praia, um animal, uma música, um amigo, um filho. Esse amor jamais arrefece e o amado não muda, não desaparece, e nada tem de misterioso. Então porque existem tantas pessoas incapazes de amar em paz? Que só amam o que não possuem? A resposta está no próprio amor. O amor incompleto, possessivo, é um amor não-virtuoso, ainda sendo amor, mas nada tendo de virtude. É amor que exige, que proibe, que não espera. Amor que não possui doçura, humildade, compaixão, justiça, generosidade e principalmente gratidão. É amor que é apenas desejo erótico e mais nada. Amor centrado no ego de quem ama, amor que quer se amar através do outro. Amor egocentrico então.
O amor em paz e alegria é o amor phillia. Amor amigo ( e todas as adolescentes odeiam sequer imaginar que possa haver um amor amigo ). Amor que dá e que agradece. Amor que acaricia, que suaviza, que escuta. Onde há o desejo erótico, mas não a posse absoluta. Justo, humilde ( ele sabe não ser merecedor ), doce. Nesse amor o objetivo não é ter, é conhecer, não é possuir e sim dividir. Nada de união de metades e sim a formação de vários seres. Companheiros.
Seria lindo se tudo fosse só isso, mas não é. E é então que Comte-Sponville nos arrasa. Mostra que amar é eros sim, que é vazio sim, e que amar também é potência e alegria, amizade e paz. Mas que mesmo assim ainda o achamos incompleto, temos a sensação de que deveria e poderia ser mais. Mais o que? E por que?
Vem a parte final, parte que me fez chorar ( e é muito raro eu chorar com um livro ), parte que tem o texto de Simone Weill, e onde o ateu André Comte-Sponville fala basicamente de Deus ( para depois o negar ).
Começa falando do leite materno. E cita,para então complicar, Freud. Sim, nasce aí nossa referencia de amor. Mas é mais que eros, mais que incesto, mais que tabú. É sacrificio. O amor de mãe e de pai é um amor que se sacrifica. Se amando o objeto que desejamos nós nos homenageamos através dele, se com o amor amigo nos aconchegamos nele, no amor de familia tudo é amor sem esperança. É amor que sabe que será abandonado, mais que isso, deverá ser abandonado. É o amor em sua mais profunda expressão humana. O amor que vai além do dar, o amor que se sacrifica. Continuemos.... André Comte-Sponville cita então o texto de Simone Weill, texto maravilhoso que fala do amor de Deus ( pois André começa a indagar como Deus poderia amar o homem e deixar que tanto mal acontecesse a seus amados filhos ). Para Simone, Deus amou tanto que se ausentou. Ele se sacrifica e se distancia para ver seus filhos crescerem, para vê-los sobreviver e amadurecer sem Ele. Cristo na cruz seria explicado então. A beleza do texto e engenhosidade é tamanha que meus olhos se encheram de dor ao imaginar tamanho amor da forma como ela descreve ( forma que aqui não há como reproduzir ). André diz então: como Deus não existe, o que nos importa esse amor sobre-humano, divino? Importa porque ele nos mostra que o amor só pode ser completo se formos além do próprio amor. Como? Amando não o desejado, não o amor amigo e nem mesmo o filho. Amando o inimigo. O autor é ateu mas passa todo o livro, como justo e virtuoso que tenta ser, citando e elogiando o que existe nos evangelhos e em filósofos cristãos ( e para ser ateu é preciso conhecer e entender o porque da fé ). O amor se realiza completamente se ele for amor incondicional, amor a tudo, principalmente a quem lhe é estranho. Pois o amor não é vazio, não é ego ou desejo de posse, amor é transcendencia, é aumento, é anular a si e expalhar-se pela vida. Voce pode e deve amar sua mulher, seu amigo, seus objetos, mas não pode tolher o amor a apenas isso. Essa a lição de Deus, de Cristo, de Buda. O amor está além de nós, ao redor de nós. Platão acertou, Spinoza acertou, Stendhal acertou, mas erraram também por não perceber que ele não é eu e voce, ele não é nós, ele é tudo. Dirigir esse amor a uma pessoa, seja ela amante ou esposa, a vinte amigos ou a uma profissão é não saber viver esse amor vivo.
Como toda virtude, só sábios e santos podem atingi-la, mas o que devemos fazer é reconhecê-la e tentar, humildemente, honrá-la. Em outra postagem irei transcrever o texto de Simone Weill.
HUMOR, DO PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE
Seriedade em relação a nós mesmos é egoismo, seriedade em relação aos outros é altruísmo. O humor nos salva da primeira e nos ajuda a despertar para a segunda. Nesta virtude de número 17, Comte-Sponville nos surpreende e executa a verdadeira missão do filósofo: faz com que vejamos o humor por outro ponto de vista, subverte o nosso pensamento. Quem quiser saber mais sobre o autor e sobre esse magnífico livro, leia o texto que postei anteriormente.
O humor impede nosso excesso de satisfação, diminui nossa vaidade, tira de nós a seriedade do compromisso conosco. Tudo o que não é trágico é irrisório. Montaigne preferia o riso a lágrima porque sabia que mais sábio é o que percebe o ridiculo da vida: "Vaidade e tolice em excesso. As lágrimas levam a sério demais nossa condição, o riso percebe mais profundamente nossa falsidade, nossa maldade, nossa falta de nobreza."
Mas Comte-Sponville faz uma certeira distinção ( e que explica minha aversão pelo humor que mais se faz hoje, seja em cinema, tv ou principalmente a tal stand up ), é que o humor não é a ironia. Ambas são engraçadas, mas a ironia é uma arma apontada aos inimigos ( reais ou não ), a ironia é zombaria, é maldade, é destruição, jamais virtuoso. Útil? Desde que usado para o inimigo certo toda arma pode ser útil, mas jamais uma virtude. Por que não é virtude? Porque se leva sempre a sério, é o riso daquele que se põe acima de seu alvo, que se vê como mensageiro, do que não se mistura. O ironista está sempre à parte, ele zomba dos outros, ri do mundo, mas não de si mesmo. O ego comanda a ironia, o ego é preservado. O humorista irônico é sempre aquele que se faz mais inteligente que seu alvo, que se coloca muito acima de seu meio. Nada tem de doce, de compassivo, de virtuoso.
Já o humor quebra o orgulho através da humildade. O humorista autêntico é parte do grotesco e do ridiculo, ele é generoso por exibir nossa tolice, nosso medo, nossa mediocridade, e ser, virtuosamente, parte dessa desilusão, dessa dor risonha. Isso é virtuoso, pois conjuga coragem, bondade, doçura, humildade, amor.
André Comte-Sponville dá então exemplos do que é humor virtuoso ( e é triste ver o quanto Woody Allen já foi gênio e o quanto ele se tornou um simples ironista ). Frase perfeita de Woody Allen: A única coisa que lamento é não ser outra pessoa.
O humor é um luto que se vence, a ironia é um assassinato. O humor desarma o ódio, vence o desespero e aguça a inteligencia. Frase de Pierre Desproges ao saber estar com cancer e dizendo isso aos amigos: Mais canceroso que eu voce morre. Não rir contra, rir com. O humor aceita o mundo como é, e diz: Veja! È uma brincadeira de crianças! É como o condenado a morte que levam a forca na segunda-feira e que diz: A semana começa bem! Frase de Freud: O humor não tem algo apenas de libertador, ele também é coragem, é sublime, elevado. Tela de Litchenberg: Faca sem Lâmina onde falta o Cabo. Woody Allen aprendendo leitura dinamica: Li toda Guerra e Paz em vinte minutos! Fala da Rússia!
O humor exorcisa o medo. Woody de novo: Embora não tema a morte prefiro estar longe quando ela chegar. Numa frase assim onde a ironia? Onde o ego de Allen? Outra de Woody, esta genial: A eternidade é longa principalmente quando vai chegando ao fim.
A frase humorística favorita de Freud ( que adorava o humor ) foi lida por ele num anúncio americano de uma casa funerária: Para que viver se voce pode ser enterrado por dez dólares?
O humor é então uma desilusão alegre, uma forma sábia de sair da questão "Quem sou?" sem se deixar enredar por ela, mas sim dando um salto e rindo dessa absurda seriedade. O humor então não é o absurdo, a vida, nós o somos. É o Coelho Pernalonga dando um beijo no bandido no ápice do duelo, Groucho Marx apostando nos cavalos em meio a ópera. O humor desnuda, revela, rebaixa as falsas seriedades, destrói a vaidade. Como não chamá-lo de virtude?
O humor impede nosso excesso de satisfação, diminui nossa vaidade, tira de nós a seriedade do compromisso conosco. Tudo o que não é trágico é irrisório. Montaigne preferia o riso a lágrima porque sabia que mais sábio é o que percebe o ridiculo da vida: "Vaidade e tolice em excesso. As lágrimas levam a sério demais nossa condição, o riso percebe mais profundamente nossa falsidade, nossa maldade, nossa falta de nobreza."
Mas Comte-Sponville faz uma certeira distinção ( e que explica minha aversão pelo humor que mais se faz hoje, seja em cinema, tv ou principalmente a tal stand up ), é que o humor não é a ironia. Ambas são engraçadas, mas a ironia é uma arma apontada aos inimigos ( reais ou não ), a ironia é zombaria, é maldade, é destruição, jamais virtuoso. Útil? Desde que usado para o inimigo certo toda arma pode ser útil, mas jamais uma virtude. Por que não é virtude? Porque se leva sempre a sério, é o riso daquele que se põe acima de seu alvo, que se vê como mensageiro, do que não se mistura. O ironista está sempre à parte, ele zomba dos outros, ri do mundo, mas não de si mesmo. O ego comanda a ironia, o ego é preservado. O humorista irônico é sempre aquele que se faz mais inteligente que seu alvo, que se coloca muito acima de seu meio. Nada tem de doce, de compassivo, de virtuoso.
Já o humor quebra o orgulho através da humildade. O humorista autêntico é parte do grotesco e do ridiculo, ele é generoso por exibir nossa tolice, nosso medo, nossa mediocridade, e ser, virtuosamente, parte dessa desilusão, dessa dor risonha. Isso é virtuoso, pois conjuga coragem, bondade, doçura, humildade, amor.
André Comte-Sponville dá então exemplos do que é humor virtuoso ( e é triste ver o quanto Woody Allen já foi gênio e o quanto ele se tornou um simples ironista ). Frase perfeita de Woody Allen: A única coisa que lamento é não ser outra pessoa.
O humor é um luto que se vence, a ironia é um assassinato. O humor desarma o ódio, vence o desespero e aguça a inteligencia. Frase de Pierre Desproges ao saber estar com cancer e dizendo isso aos amigos: Mais canceroso que eu voce morre. Não rir contra, rir com. O humor aceita o mundo como é, e diz: Veja! È uma brincadeira de crianças! É como o condenado a morte que levam a forca na segunda-feira e que diz: A semana começa bem! Frase de Freud: O humor não tem algo apenas de libertador, ele também é coragem, é sublime, elevado. Tela de Litchenberg: Faca sem Lâmina onde falta o Cabo. Woody Allen aprendendo leitura dinamica: Li toda Guerra e Paz em vinte minutos! Fala da Rússia!
O humor exorcisa o medo. Woody de novo: Embora não tema a morte prefiro estar longe quando ela chegar. Numa frase assim onde a ironia? Onde o ego de Allen? Outra de Woody, esta genial: A eternidade é longa principalmente quando vai chegando ao fim.
A frase humorística favorita de Freud ( que adorava o humor ) foi lida por ele num anúncio americano de uma casa funerária: Para que viver se voce pode ser enterrado por dez dólares?
O humor é então uma desilusão alegre, uma forma sábia de sair da questão "Quem sou?" sem se deixar enredar por ela, mas sim dando um salto e rindo dessa absurda seriedade. O humor então não é o absurdo, a vida, nós o somos. É o Coelho Pernalonga dando um beijo no bandido no ápice do duelo, Groucho Marx apostando nos cavalos em meio a ópera. O humor desnuda, revela, rebaixa as falsas seriedades, destrói a vaidade. Como não chamá-lo de virtude?
QUEM AMA A VIDA DEVE LER: PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE, OBRIGATÓRIO!
Sponville é um filósofo francês, que se define como um metafísico materialista e um espiritualista sem Deus. Este livro, reeditado agora e absolutamente obrigatório, é uma aula, um texto claro, límpido, mas não pop, sobre o que sejam as tais virtudes, essa coisa hoje tão fora de moda, e portanto, tão necessária. Aqueles que gostam dos textos de Pondé ou de Calligaris irão descobrir aqui todo o prazer que seus melhores textos tem, porém, multiplicados por mil. Este livro é uma obra-prima.
Tudo o que transcreverei aqui é totalmente tirado daquilo que André Comte-Sponville escreve, apenas com a condensação de que me acho capaz. Como todo bom autor francês, ele adora desenvolver jogos de palavras, tem um estilo que vasculha tudo, que conduz o leitor aos recantos do assunto e melhor, surpreende sempre. Mostra que tudo é mais do que parece, mas, como amante de Montaigne, tudo é mais simples, em seu fim, do que nossa cega razão tenta crer. Montaigne, Aristóteles, e principalmente Spinoza, esses são os guias de Sponville. Ele sabe que de Kant em diante a filosofia se perde em construções feitas para turvar o que é claro e enganar com poeira aquilo que nada tem a demonstrar.
Virtude é aquilo que faz a vida valer a pena. É uma superação do instinto, uma melhoria do que somos. Ela nunca é natural ( talvez só o amor o seja ), é ensinada, jamais pelos livros, sim pelo exemplo. Toda virtude é o bem, sua ausência é o mal. Mais que isso, sem as virtudes a felicidade se torna impossível. Sponville escreve então 18 capítulos, cada um sobre uma virtude, e pasmem, me convence plenamente. Sua abordagem é sempre racional, lógica, objetiva.
Transcrevo aqui uma modesta fração de seus textos. Procure o livro, dê esse prazer a voce mesmo e aprenda a valorizar as virtudes.
1- A POLIDEZ
A menor das virtudes, é a base de todas as outras. Não existe virtude sem polidez, e a criança começa a ser virtuosa ao aprender a ser polida. Polidez é disciplina e não é moral. Um nazista pode ser polido, um assassino pode ser polido. Mas sem ela não há educação. Sacada de Sponville: os certinhos, polidos ao extremo, são crianças para sempre, crianças grandes e patéticas; a polidez deve ser quebrada na adolescência, quando ela dá lugar a autenticidade. E adolescencia prolongada é preferível a infancia adulta. A polidez é portanto a base de toda a virtude, mas uma base que deve ser violada ( às vezes ) e questionada ( sempre ).
2- A FIDELIDADE
O espírito é memória, pensar é sempre lembrar. O corpo é um presente constante, o corpo conhece o tempo, o espírito lembra. E se ele lembra, se ele vive na lembrança ( entenda, Sponville é ateu, espírito aqui sempre terá o sentido de vida interior ), ele será fiel ou perecerá.
Ser feliz é esquecer, mas é esse o objetivo? Ora, a dignidade do homem reside na memória, é ela que dá valor ao que fomos, ao que suportamos. Em mundo de ciência, a memória perde seu valor, pois a ciência não pode ter memória, ela pensa apenas o futuro e descarta o passado ( assim como o mercado faz ). Mas o homem é espírito pela memória e humano pela fidelidade.
Justiça é fidelidade dos justos, a paz é fidelidade dos pacíficos, liberdade é a fidelidade de espíritos livres. Esquecer é uma higiene, lembrar é uma moral. Memória do que? Memória do mesmo, um não a versatilidade e ao excesso. O ser se mantém na fidelidade a sí-mesmo. O eu, como tudo, é mudança, mas a fidelidade procura manter a identidade, o compromisso com aquilo que fui. Ela vence sempre provisoriamente, mas se recusa a desistir.
Gratidão pelo passado, piedade pelo passado, justiça ao passado. Fidelidade ao amor, esse é o sentido. Ser fiel é amar. Vontade, desejo de ser fiel. A filosofia é fiel, todo filósofo lê Aristóteles, Platão, se não o ler não pode ser filósofo. Fidelidade na arte. A ciência não pode ser fiel, nenhum cientista deve ou precisa ler Newton. Ciência é esquecer, tornar obsoleto.
A fidelidade é a vitória do espirito judaico sobre a razão nazista. O nazista encerrava todo o passado, criava o futuro biológico, cientifico; o judeu é a fidelidade ao passado, o amor ao passado, a crença na origem. Geometria jamais salvou alguém, nenhum remédio alegra.
Fidelidade parece conformismo. Será? Vejamos: se revoltar e esquecer o passado. Esquecer quem? Sócrates? Jesus? Buda? Montaigne? Spinoza? Ora, toda moral e toda cultura é passado, ela morre sem fidelidade.
Amor infiel é amor que nega o amor que um dia viveu. Amor infiel não é amor livre. É amor renegado, que detesta o que amou, que se esquece, que se detesta. "Ama-me enquanto desejares, amor, mas não nos esqueça."
3- A PRUDÊNCIA.
É a virtude mais esquecida. Pensa-se nela como um tipo de covardia. Não. Prudência é o fazer inteligente. Respeitar seu tempo, não se precipitar. Ser prudente é ser responsável.
4- A TEMPERANÇA.
Ter prazer sem se tornar escravo desse prazer, saber usar as coisas sem se enfastiar delas. Não é desfrutar menos, é desfrutar melhor. O destemperado é escravo de seu corpo e carrega seu amo consigo. O melhor, não o mais. Pão e água que não faltam ( quase sempre ), ouro e luxo que faltam sempre ( por mais que se tenha ). Poder da alma sobre o impulso, afirmação sadia do poder de se existir.
5- A CORAGEM.
Não há virtude mais admirada. Mas, ao contrário da temperança ou da doçura, que são admiradas apenas por aqueles que desejam ser virtuosos, os imbecis e os maus também admiram a coragem. Pois ela pode servir ao bem e ao mal. A coragem não é uma virtude em sí, ela pode se tornar e potencializar as outras virtudes. A coragem só é virtuosa quando desprovida de egoismo, quando não visa o aplauso, quando é sentida como um dever ao outro. O medo é egoista, a covardia é egoismo, são presos ao ego. A coragem virtuosa transcende esse ego, é a coragem de ser virtuoso.
Coragem é um ato, não um saber. Não se aprende, e não se é corajoso amanhã. Toda razão é universal, toda coragem singular, a razão é anonima, a coragem pessoal. Coragem é uma vontade, quem é corajoso deseja ser corajoso, paga o preço de sua coragem.
6- A JUSTIÇA.
Como a justiça seria a igualdade e a igualdade é impossível, a justiça é sempre aquilo pelo que lutamos. Ela existe no ideal, na fidelidade a esse ideal. A justiça é sempre virtuosa.
7- A GENEROSIDADE.
Ser generoso é um dom. Ninguém se torna generoso. Ser generoso não é ser solidário, voce pode ser solidário ao mal. A generosidade é mais que isso, é simplesmente dar, e dar é sempre ser livre, pois só damos aquilo que temos e não nos possui. A generosidade, se unida a coragem resulta em heroísmo, se unida a doçura dá em bondade. Todo generoso é feliz, pois ele é livre.
8- A COMPAIXÃO.
Compaixão é partilhar uma dor. Não é piedade, pois piedade é estar acima da dor do outro, a compaixão é horizontal. Compaixão é simpatia desinteressada, simpatia mesmo aos animais, simpatia àquilo com que temos deveres ( e temos sim deveres para com os animais ). Diferença entre ocidente ( masculino ) e oriente ( feminino ): no ocidente é "ama e faz o que queres", no oriente é "compadece-te e faz o que deves". A compaixão, como toda virtude, nos faz feliz, mesmo que as vezes pareça o contrário. Elas nos livram do medo, da raiva, da inveja, do ódio, do poder absoluto do ego. A compaixão, que é a mais dolorosa das virtudes, acaba por nos libertar.
9- A MISERICÓRDIA.
Perdoar não é esquecer, pois seria infidelidade ao passado. Perdoar é cessar de odiar, sem esquecer. A misericórdia nega um desejo ( vingança ) e vence um impulso ( o ódio ). Vencemos o ódio em nós, já que não se pode vencer o ódio no mundo. Misericórdia não é desculpar, desculpa-se o ignorante, o que se perdoa é sempre um mal. O perdão é então a liberdade. Livra-se do ódio aprisionador. O homem tem livre ação, mas não possui livre vontade, o perdão é uma vontade livre. Spinoza:" Os homens se detestam mais quando se imaginam livres, e tanto menos quando se sabem determinados". Malraux:" Julgar é não compreender. Se compreendemos não podemos julgar." Spinoza:" Nunca zombar, nunca chorar, não detestar, isso é compreender."
Aplacar o ódio possibilita a justiça e o castigo sereno. O mal passa a ser compreendido, mas jamais ignorado.
Dizem que o nazismo é incompreensivel. Isso é lhes dar crédito demais! Mozart é incompreensivel, Vermeer o é, mas as S.S.? Pois a vida seria racional e o ódio não? O nazismo não é razoável mas é real, portanto ele é racional. Podemos deixar de odiar os nazistas, mas jamais esquecer. Combater, mas combater sem ódio. Toda a virtude é esforçar-se nesse sentido.
10- A GRATIDÃO.
Só agradece quem não é egoista. Agradecer é prolongar um prazer. Gratidão é generosidade, desprendimento, é a música de Mozart: agradecimento a vida por se viver.
O egoista agradece para fazer invejosos. Guarda seu prazer em si, quem agradece espalha esse prazer. O egoista jamais reconhece o que deve. O grato dá o prazer de receber, reflete aquilo que lhe é dado. O egoista absorve sovinamente tudo, ele mata a alegria.
Voce agradece a alguém, virtude que confirma o outro, que une. Bach agradece, dá graças a seu dom, Mozart é a graça, graça de quem se sabe efeito e não causa, de quem é arrebatado e não senhor. A graça de existir sem o merecer, de ter o dom sem o pedir. A Ètica de Spinoza é isso. A graça de amar, a maior das alegrias.
11- A HUMILDADE.
Virtude invisivel, pois quem se gaba dela não o é. Filósofos não são humildes ( fora Montaigne ), pois se levam a sério demais. Ser humilde á amar a verdade sabendo que toda verdade é falha. Humildade é saber que essa falha existe e é nossa. Freud é um mestre dessa humildade. Conhecer-se como pequeno e reconhecer algo maior não é pequenez, que é se humilhar, se fazer baixo. O humilde reconhece sua fraqueza, sua tristeza, mas se afirma nela, a usa como força.
Mais vale uma verdadeira tristeza que uma falsa alegria. Orgulhosos vêm a humildade como humilhação.
Kant dizia que se ajoelhar na igreja é se humilhar. Será? Mendigar seria se humilhar. Será? Há algo para se condenar em São Francisco ou em Buda? Seria humilhação se ajoelhar diante de Mozart ou de Spinoza? O erro ( mais um ) de Nietzsche que confunde a falsa humildade do perverso com a verdadeira humildade. Descartes:" Os mais generosos são os mais humildes." Nietzsche:" A humildade é virtude de escravo, para os amos a humildade é desprezível". Mas o desprezo não é mais desprezível que a humildade? O que é mais ridiculo que a glorificação do eu-mesmo, o super-homem? Para que deixar de crer em Deus se é para se enganar a esse ponto? Por que quebrar todos os ídolos se é para se glorificar o eu?
Humildade é sinceridade, ou se ama a verdade ou se ama a si. A humildade leva ao amor, pois sem ela o eu ocupa todo o espaço. A humildade dissolve a prisão do eu. Somos tão pouca coisa, a humanidade é tão irrisória, como imaginar que Deus tenha desejado isso? A humildade, nascida da religião, conduz assim ao ateísmo: crer em Deus seria um orgulho.
Adendo meu: No Budismo, Deus é um vazio que não criou o mundo. Deus e mundo foram criados juntos. É a única religião em que se pode crer sem cair nessa armadilha do orgulho.
12- A SIMPLICIDADE.
O real se basta. O animal se basta. Ser simples é viver o hoje sem pensar sobre o pensamento. É o olhar, olhar as coisas e vê-las em sua simplicidade. Uma flor floresce porque floresce, nada há de oculto aí. Simples é o ser portanto. O contrário da vaidade, que é sempre presunção e toda presunção é sempre complexa.
A maior prova de inteligencia é simplificar ao máximo aquilo que é complexo. Como a má-fé é complicar uma idéia simplória. ( O que muitos artistas falsos fazem sempre e que impressiona os ingênuos ). A filosofia atual, que tudo complica, na verdade cria sistemas complexos para não poder ser refutada. Cria labirintos que nada explicam. Água rasa que é suja para não se ver sua falta de profundidade. Pois toda verdade é sempre simples. E simplicidade é o esvaziar do si. E o esvaziar do si é a base de toda virtude ( não há nenhuma virtude possível no egoismo ).
A simplicidade é o resgate da infancia que deveria ter sido e que nunca é. É a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.
13- A TOLERÂNCIA
É a mais perigosa das virtudes. Tolerar o que? Ser tolerante e não discriminar?
É este o capítulo mais espinhoso do livro. Mas André Comte-Sponville se sai muito bem. A tolerância deve ser ilimitada quando ela não coloca a liberdade em perigo. Voce pode discordar de um racista, mas ele pode ser tolerado enquanto não ameaçar a existência da própria tolerância. Um dado muito interessante: toda tirania começa pelo relativismo. Quando uma sociedade pensa que tudo tanto faz, que isso ou aquilo dá no mesmo, é aberto o campo para a verdade do mais forte, a tirania.
14- A PUREZA.
Eis a mais dificil virtude de ser apreendida. Porque a pureza não existe. Viver é ser impuro. Mas então que pureza virtuosa é essa? A pureza é uma luz. Sponville se recorda das meninas puras que amou na escola. Elas não eram assexuadas, eram luminosas, eram passíveis de serem maculadas.
A pureza hoje se confunde com higiene, profilaxia. Mas o limpo não é puro e o sujo não é impuro. Pureza é inocencia, do corpo e do espirito. Dado: Toda mulher que tem a coragem de relatar um estupro se queixa principalmente da sujeira do ato. Sexo impuro, casamentos impuros. Impureza seria então o fazer sem desejar. Vem daí: O coração é puro, só ele é puro e só ele purifica ( E eu digo: -Parabéns André!!!!!!!! Que belo pensamento, digno de Montaigne!!!! ). A saliva que é cuspida ao passar pelo coração é a mesma do beijo. O desejo que pode ser violencia se faz amor. Luz. Aquelas meninas seriam então coração.
Pureza é desejo sem violencia, desejo aceito e partilhado, desejo que sorri e que celebra. Mais: o impuro vê o mal em tudo, a sujeira em tudo, o puro vê o mal apenas no mal e a ele resiste. E impuro é tudo que se faz de má vontade. Amar com pureza é não possuir, aceitar a distancia, alegria desinteressada. O amor impuro toma, o amor puro dá. Toda pureza é pobre, pois ela vê a falta, a não-suficiencia, a não-posse. O puro nada possui, nada ganha, nada lucra, mas ele dá e nisso é feliz.
O egoismo pode ser amor, mas é amor impuro. Amar o próximo como a si mesmo é impossível para o ego. Mal não é amar a si, é amar apenas a si mesmo. O sexo é o império da impureza pois é onde mora a preocupação com o próprio gozo, com a submissão, com a posse, com amar o outro para o bem de si. Ser dono, procurar o que lhe é útil, amor que se faz objeto.
Amor Eros, amor que exige. Amor Agapé: amor que defende o outro, que é amizade, que goza no gozo do outro. Amor livre de nós, amor feliz.
Esse amor, essa pureza pode ser encontrada na arte. Arte sem cobiça, desinteressada, não egoista, humilde: arte pura. Tudo o que pode ser possuido é impuro ( dinheiro ), pois o coração não pode ser possuido. Nele o ego nunca manda. Simone Weil: "O amor casto é o amor que agradece: ele existe, que mais posso querer? É o amor do presente. O impuro se situa no futuro: eu o quero."
Desejar que esse corpo exista, e ele existe: eis a pureza!
15- A DOÇURA.
Força sem cólera. Ação sem agitação, sem impaciência: doçura. Recusa a fazer sofrer, a destruir. A doçura é parte de toda virtude, ela torna a coragem virtuosa.
Doçura na guerra? Simone Weil:" Digamos que o soldado x está na guerra. Ele mira o soldado y. Digamos que ele só poderá matar o soldado y se ele aceitar morrer ao mesmo tempo que ele. Se o soldado x mesmo assim desejar matá-lo ele poderá o matar."
Somente os doces podem exercer a violencia inocentemente. Os outros ( todos nós? ) não.
16- A BOA-FÉ
É o amor a verdade. Contrário do narcisismo, amar a verdade acima de sua opinião. Pois a verdade é livre, não pertence ao eu.
Transcrevo um trecho do capítulo sobre a gratidão ( cada capítulo tem em média 15 páginas e são deliciosos )....
A vida de quem se volta todo para o futuro é insensata. Nunca se saciam pois esperam por viver e quando lá chegam se decepcionam. O passado, como o futuro, lhes falta. O sábio regozija-se com viver e com o vivido. A gratidão é essa alegria da memória, esse amor ao vivido, tempo reencontrado, gratidão ao que foi. A morte, como bem o sabia Proust, é vencida então, pois ela não poderá nos tomar essa alegria, essa gratidão, esse amor ao cumprido. A morte rouba nosso futuro, e quem vive só para ele por ela é derrotado.
Considero esse trecho uma definição perfeita do valor do passado. Outro trecho:
O homem ideal para o reino da opressão não é nem o nazista convicto e nem o stalinista convicto, mas o homem para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso não existem mais. Esse homem se colocará a margem de todo movimento abrindo caminho para aqueles que estão no real.
Deixo os dois mais belos e longos capitulos para outra postagem: O humor e O amor.
Neste mundo cientifico o que se valoriza são as qualidades da máquina: rapidez, eficiencia, modernidade, funcionalidade e reciclagem. Todas são qualidades que nada acrescentam ao ser, seja ele espiritual, seja ele corpo. Abrem espaço para o oposto das virtudes, que são os antigos pecados capitais: orgulho, cobiça, avareza, luxúria, vaidade... todas, não por acaso, ligadas ao egoismo. Lembrar que existem as virtudes e que elas serão sempre válidas é o objetivo deste livro. Mais que válidas, são o caminho para o coração, única via segura de alguma felicidade.
Tudo o que transcreverei aqui é totalmente tirado daquilo que André Comte-Sponville escreve, apenas com a condensação de que me acho capaz. Como todo bom autor francês, ele adora desenvolver jogos de palavras, tem um estilo que vasculha tudo, que conduz o leitor aos recantos do assunto e melhor, surpreende sempre. Mostra que tudo é mais do que parece, mas, como amante de Montaigne, tudo é mais simples, em seu fim, do que nossa cega razão tenta crer. Montaigne, Aristóteles, e principalmente Spinoza, esses são os guias de Sponville. Ele sabe que de Kant em diante a filosofia se perde em construções feitas para turvar o que é claro e enganar com poeira aquilo que nada tem a demonstrar.
Virtude é aquilo que faz a vida valer a pena. É uma superação do instinto, uma melhoria do que somos. Ela nunca é natural ( talvez só o amor o seja ), é ensinada, jamais pelos livros, sim pelo exemplo. Toda virtude é o bem, sua ausência é o mal. Mais que isso, sem as virtudes a felicidade se torna impossível. Sponville escreve então 18 capítulos, cada um sobre uma virtude, e pasmem, me convence plenamente. Sua abordagem é sempre racional, lógica, objetiva.
Transcrevo aqui uma modesta fração de seus textos. Procure o livro, dê esse prazer a voce mesmo e aprenda a valorizar as virtudes.
1- A POLIDEZ
A menor das virtudes, é a base de todas as outras. Não existe virtude sem polidez, e a criança começa a ser virtuosa ao aprender a ser polida. Polidez é disciplina e não é moral. Um nazista pode ser polido, um assassino pode ser polido. Mas sem ela não há educação. Sacada de Sponville: os certinhos, polidos ao extremo, são crianças para sempre, crianças grandes e patéticas; a polidez deve ser quebrada na adolescência, quando ela dá lugar a autenticidade. E adolescencia prolongada é preferível a infancia adulta. A polidez é portanto a base de toda a virtude, mas uma base que deve ser violada ( às vezes ) e questionada ( sempre ).
2- A FIDELIDADE
O espírito é memória, pensar é sempre lembrar. O corpo é um presente constante, o corpo conhece o tempo, o espírito lembra. E se ele lembra, se ele vive na lembrança ( entenda, Sponville é ateu, espírito aqui sempre terá o sentido de vida interior ), ele será fiel ou perecerá.
Ser feliz é esquecer, mas é esse o objetivo? Ora, a dignidade do homem reside na memória, é ela que dá valor ao que fomos, ao que suportamos. Em mundo de ciência, a memória perde seu valor, pois a ciência não pode ter memória, ela pensa apenas o futuro e descarta o passado ( assim como o mercado faz ). Mas o homem é espírito pela memória e humano pela fidelidade.
Justiça é fidelidade dos justos, a paz é fidelidade dos pacíficos, liberdade é a fidelidade de espíritos livres. Esquecer é uma higiene, lembrar é uma moral. Memória do que? Memória do mesmo, um não a versatilidade e ao excesso. O ser se mantém na fidelidade a sí-mesmo. O eu, como tudo, é mudança, mas a fidelidade procura manter a identidade, o compromisso com aquilo que fui. Ela vence sempre provisoriamente, mas se recusa a desistir.
Gratidão pelo passado, piedade pelo passado, justiça ao passado. Fidelidade ao amor, esse é o sentido. Ser fiel é amar. Vontade, desejo de ser fiel. A filosofia é fiel, todo filósofo lê Aristóteles, Platão, se não o ler não pode ser filósofo. Fidelidade na arte. A ciência não pode ser fiel, nenhum cientista deve ou precisa ler Newton. Ciência é esquecer, tornar obsoleto.
A fidelidade é a vitória do espirito judaico sobre a razão nazista. O nazista encerrava todo o passado, criava o futuro biológico, cientifico; o judeu é a fidelidade ao passado, o amor ao passado, a crença na origem. Geometria jamais salvou alguém, nenhum remédio alegra.
Fidelidade parece conformismo. Será? Vejamos: se revoltar e esquecer o passado. Esquecer quem? Sócrates? Jesus? Buda? Montaigne? Spinoza? Ora, toda moral e toda cultura é passado, ela morre sem fidelidade.
Amor infiel é amor que nega o amor que um dia viveu. Amor infiel não é amor livre. É amor renegado, que detesta o que amou, que se esquece, que se detesta. "Ama-me enquanto desejares, amor, mas não nos esqueça."
3- A PRUDÊNCIA.
É a virtude mais esquecida. Pensa-se nela como um tipo de covardia. Não. Prudência é o fazer inteligente. Respeitar seu tempo, não se precipitar. Ser prudente é ser responsável.
4- A TEMPERANÇA.
Ter prazer sem se tornar escravo desse prazer, saber usar as coisas sem se enfastiar delas. Não é desfrutar menos, é desfrutar melhor. O destemperado é escravo de seu corpo e carrega seu amo consigo. O melhor, não o mais. Pão e água que não faltam ( quase sempre ), ouro e luxo que faltam sempre ( por mais que se tenha ). Poder da alma sobre o impulso, afirmação sadia do poder de se existir.
5- A CORAGEM.
Não há virtude mais admirada. Mas, ao contrário da temperança ou da doçura, que são admiradas apenas por aqueles que desejam ser virtuosos, os imbecis e os maus também admiram a coragem. Pois ela pode servir ao bem e ao mal. A coragem não é uma virtude em sí, ela pode se tornar e potencializar as outras virtudes. A coragem só é virtuosa quando desprovida de egoismo, quando não visa o aplauso, quando é sentida como um dever ao outro. O medo é egoista, a covardia é egoismo, são presos ao ego. A coragem virtuosa transcende esse ego, é a coragem de ser virtuoso.
Coragem é um ato, não um saber. Não se aprende, e não se é corajoso amanhã. Toda razão é universal, toda coragem singular, a razão é anonima, a coragem pessoal. Coragem é uma vontade, quem é corajoso deseja ser corajoso, paga o preço de sua coragem.
6- A JUSTIÇA.
Como a justiça seria a igualdade e a igualdade é impossível, a justiça é sempre aquilo pelo que lutamos. Ela existe no ideal, na fidelidade a esse ideal. A justiça é sempre virtuosa.
7- A GENEROSIDADE.
Ser generoso é um dom. Ninguém se torna generoso. Ser generoso não é ser solidário, voce pode ser solidário ao mal. A generosidade é mais que isso, é simplesmente dar, e dar é sempre ser livre, pois só damos aquilo que temos e não nos possui. A generosidade, se unida a coragem resulta em heroísmo, se unida a doçura dá em bondade. Todo generoso é feliz, pois ele é livre.
8- A COMPAIXÃO.
Compaixão é partilhar uma dor. Não é piedade, pois piedade é estar acima da dor do outro, a compaixão é horizontal. Compaixão é simpatia desinteressada, simpatia mesmo aos animais, simpatia àquilo com que temos deveres ( e temos sim deveres para com os animais ). Diferença entre ocidente ( masculino ) e oriente ( feminino ): no ocidente é "ama e faz o que queres", no oriente é "compadece-te e faz o que deves". A compaixão, como toda virtude, nos faz feliz, mesmo que as vezes pareça o contrário. Elas nos livram do medo, da raiva, da inveja, do ódio, do poder absoluto do ego. A compaixão, que é a mais dolorosa das virtudes, acaba por nos libertar.
9- A MISERICÓRDIA.
Perdoar não é esquecer, pois seria infidelidade ao passado. Perdoar é cessar de odiar, sem esquecer. A misericórdia nega um desejo ( vingança ) e vence um impulso ( o ódio ). Vencemos o ódio em nós, já que não se pode vencer o ódio no mundo. Misericórdia não é desculpar, desculpa-se o ignorante, o que se perdoa é sempre um mal. O perdão é então a liberdade. Livra-se do ódio aprisionador. O homem tem livre ação, mas não possui livre vontade, o perdão é uma vontade livre. Spinoza:" Os homens se detestam mais quando se imaginam livres, e tanto menos quando se sabem determinados". Malraux:" Julgar é não compreender. Se compreendemos não podemos julgar." Spinoza:" Nunca zombar, nunca chorar, não detestar, isso é compreender."
Aplacar o ódio possibilita a justiça e o castigo sereno. O mal passa a ser compreendido, mas jamais ignorado.
Dizem que o nazismo é incompreensivel. Isso é lhes dar crédito demais! Mozart é incompreensivel, Vermeer o é, mas as S.S.? Pois a vida seria racional e o ódio não? O nazismo não é razoável mas é real, portanto ele é racional. Podemos deixar de odiar os nazistas, mas jamais esquecer. Combater, mas combater sem ódio. Toda a virtude é esforçar-se nesse sentido.
10- A GRATIDÃO.
Só agradece quem não é egoista. Agradecer é prolongar um prazer. Gratidão é generosidade, desprendimento, é a música de Mozart: agradecimento a vida por se viver.
O egoista agradece para fazer invejosos. Guarda seu prazer em si, quem agradece espalha esse prazer. O egoista jamais reconhece o que deve. O grato dá o prazer de receber, reflete aquilo que lhe é dado. O egoista absorve sovinamente tudo, ele mata a alegria.
Voce agradece a alguém, virtude que confirma o outro, que une. Bach agradece, dá graças a seu dom, Mozart é a graça, graça de quem se sabe efeito e não causa, de quem é arrebatado e não senhor. A graça de existir sem o merecer, de ter o dom sem o pedir. A Ètica de Spinoza é isso. A graça de amar, a maior das alegrias.
11- A HUMILDADE.
Virtude invisivel, pois quem se gaba dela não o é. Filósofos não são humildes ( fora Montaigne ), pois se levam a sério demais. Ser humilde á amar a verdade sabendo que toda verdade é falha. Humildade é saber que essa falha existe e é nossa. Freud é um mestre dessa humildade. Conhecer-se como pequeno e reconhecer algo maior não é pequenez, que é se humilhar, se fazer baixo. O humilde reconhece sua fraqueza, sua tristeza, mas se afirma nela, a usa como força.
Mais vale uma verdadeira tristeza que uma falsa alegria. Orgulhosos vêm a humildade como humilhação.
Kant dizia que se ajoelhar na igreja é se humilhar. Será? Mendigar seria se humilhar. Será? Há algo para se condenar em São Francisco ou em Buda? Seria humilhação se ajoelhar diante de Mozart ou de Spinoza? O erro ( mais um ) de Nietzsche que confunde a falsa humildade do perverso com a verdadeira humildade. Descartes:" Os mais generosos são os mais humildes." Nietzsche:" A humildade é virtude de escravo, para os amos a humildade é desprezível". Mas o desprezo não é mais desprezível que a humildade? O que é mais ridiculo que a glorificação do eu-mesmo, o super-homem? Para que deixar de crer em Deus se é para se enganar a esse ponto? Por que quebrar todos os ídolos se é para se glorificar o eu?
Humildade é sinceridade, ou se ama a verdade ou se ama a si. A humildade leva ao amor, pois sem ela o eu ocupa todo o espaço. A humildade dissolve a prisão do eu. Somos tão pouca coisa, a humanidade é tão irrisória, como imaginar que Deus tenha desejado isso? A humildade, nascida da religião, conduz assim ao ateísmo: crer em Deus seria um orgulho.
Adendo meu: No Budismo, Deus é um vazio que não criou o mundo. Deus e mundo foram criados juntos. É a única religião em que se pode crer sem cair nessa armadilha do orgulho.
12- A SIMPLICIDADE.
O real se basta. O animal se basta. Ser simples é viver o hoje sem pensar sobre o pensamento. É o olhar, olhar as coisas e vê-las em sua simplicidade. Uma flor floresce porque floresce, nada há de oculto aí. Simples é o ser portanto. O contrário da vaidade, que é sempre presunção e toda presunção é sempre complexa.
A maior prova de inteligencia é simplificar ao máximo aquilo que é complexo. Como a má-fé é complicar uma idéia simplória. ( O que muitos artistas falsos fazem sempre e que impressiona os ingênuos ). A filosofia atual, que tudo complica, na verdade cria sistemas complexos para não poder ser refutada. Cria labirintos que nada explicam. Água rasa que é suja para não se ver sua falta de profundidade. Pois toda verdade é sempre simples. E simplicidade é o esvaziar do si. E o esvaziar do si é a base de toda virtude ( não há nenhuma virtude possível no egoismo ).
A simplicidade é o resgate da infancia que deveria ter sido e que nunca é. É a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.
13- A TOLERÂNCIA
É a mais perigosa das virtudes. Tolerar o que? Ser tolerante e não discriminar?
É este o capítulo mais espinhoso do livro. Mas André Comte-Sponville se sai muito bem. A tolerância deve ser ilimitada quando ela não coloca a liberdade em perigo. Voce pode discordar de um racista, mas ele pode ser tolerado enquanto não ameaçar a existência da própria tolerância. Um dado muito interessante: toda tirania começa pelo relativismo. Quando uma sociedade pensa que tudo tanto faz, que isso ou aquilo dá no mesmo, é aberto o campo para a verdade do mais forte, a tirania.
14- A PUREZA.
Eis a mais dificil virtude de ser apreendida. Porque a pureza não existe. Viver é ser impuro. Mas então que pureza virtuosa é essa? A pureza é uma luz. Sponville se recorda das meninas puras que amou na escola. Elas não eram assexuadas, eram luminosas, eram passíveis de serem maculadas.
A pureza hoje se confunde com higiene, profilaxia. Mas o limpo não é puro e o sujo não é impuro. Pureza é inocencia, do corpo e do espirito. Dado: Toda mulher que tem a coragem de relatar um estupro se queixa principalmente da sujeira do ato. Sexo impuro, casamentos impuros. Impureza seria então o fazer sem desejar. Vem daí: O coração é puro, só ele é puro e só ele purifica ( E eu digo: -Parabéns André!!!!!!!! Que belo pensamento, digno de Montaigne!!!! ). A saliva que é cuspida ao passar pelo coração é a mesma do beijo. O desejo que pode ser violencia se faz amor. Luz. Aquelas meninas seriam então coração.
Pureza é desejo sem violencia, desejo aceito e partilhado, desejo que sorri e que celebra. Mais: o impuro vê o mal em tudo, a sujeira em tudo, o puro vê o mal apenas no mal e a ele resiste. E impuro é tudo que se faz de má vontade. Amar com pureza é não possuir, aceitar a distancia, alegria desinteressada. O amor impuro toma, o amor puro dá. Toda pureza é pobre, pois ela vê a falta, a não-suficiencia, a não-posse. O puro nada possui, nada ganha, nada lucra, mas ele dá e nisso é feliz.
O egoismo pode ser amor, mas é amor impuro. Amar o próximo como a si mesmo é impossível para o ego. Mal não é amar a si, é amar apenas a si mesmo. O sexo é o império da impureza pois é onde mora a preocupação com o próprio gozo, com a submissão, com a posse, com amar o outro para o bem de si. Ser dono, procurar o que lhe é útil, amor que se faz objeto.
Amor Eros, amor que exige. Amor Agapé: amor que defende o outro, que é amizade, que goza no gozo do outro. Amor livre de nós, amor feliz.
Esse amor, essa pureza pode ser encontrada na arte. Arte sem cobiça, desinteressada, não egoista, humilde: arte pura. Tudo o que pode ser possuido é impuro ( dinheiro ), pois o coração não pode ser possuido. Nele o ego nunca manda. Simone Weil: "O amor casto é o amor que agradece: ele existe, que mais posso querer? É o amor do presente. O impuro se situa no futuro: eu o quero."
Desejar que esse corpo exista, e ele existe: eis a pureza!
15- A DOÇURA.
Força sem cólera. Ação sem agitação, sem impaciência: doçura. Recusa a fazer sofrer, a destruir. A doçura é parte de toda virtude, ela torna a coragem virtuosa.
Doçura na guerra? Simone Weil:" Digamos que o soldado x está na guerra. Ele mira o soldado y. Digamos que ele só poderá matar o soldado y se ele aceitar morrer ao mesmo tempo que ele. Se o soldado x mesmo assim desejar matá-lo ele poderá o matar."
Somente os doces podem exercer a violencia inocentemente. Os outros ( todos nós? ) não.
16- A BOA-FÉ
É o amor a verdade. Contrário do narcisismo, amar a verdade acima de sua opinião. Pois a verdade é livre, não pertence ao eu.
Transcrevo um trecho do capítulo sobre a gratidão ( cada capítulo tem em média 15 páginas e são deliciosos )....
A vida de quem se volta todo para o futuro é insensata. Nunca se saciam pois esperam por viver e quando lá chegam se decepcionam. O passado, como o futuro, lhes falta. O sábio regozija-se com viver e com o vivido. A gratidão é essa alegria da memória, esse amor ao vivido, tempo reencontrado, gratidão ao que foi. A morte, como bem o sabia Proust, é vencida então, pois ela não poderá nos tomar essa alegria, essa gratidão, esse amor ao cumprido. A morte rouba nosso futuro, e quem vive só para ele por ela é derrotado.
Considero esse trecho uma definição perfeita do valor do passado. Outro trecho:
O homem ideal para o reino da opressão não é nem o nazista convicto e nem o stalinista convicto, mas o homem para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso não existem mais. Esse homem se colocará a margem de todo movimento abrindo caminho para aqueles que estão no real.
Deixo os dois mais belos e longos capitulos para outra postagem: O humor e O amor.
Neste mundo cientifico o que se valoriza são as qualidades da máquina: rapidez, eficiencia, modernidade, funcionalidade e reciclagem. Todas são qualidades que nada acrescentam ao ser, seja ele espiritual, seja ele corpo. Abrem espaço para o oposto das virtudes, que são os antigos pecados capitais: orgulho, cobiça, avareza, luxúria, vaidade... todas, não por acaso, ligadas ao egoismo. Lembrar que existem as virtudes e que elas serão sempre válidas é o objetivo deste livro. Mais que válidas, são o caminho para o coração, única via segura de alguma felicidade.
BARDO THODOL, O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS
Uma amiga minha acaba de me ligar e falar de seu curso de psicologia. Ela está estudando biologia e neurociência. O que posso dizer? Não há algo de errado nisso? Quando procurei meu terapeuta, heróica fase narcisista de 20 anos atrás, o que eu procurava era um sentido para minhas visões, uma luz para minha dor e principalmente o encontro com uma mente MAIOR QUE A MINHA. Eu queria um pai, um gurú, um mestre, uma revelação. Essa foi minha experiência, outros podem querer apenas um tipo de cientista-médico, mas em mundo onde TUDO é funcionamento, venda, produção e preto no branco, onde a DITADURA da razão é a única fé presente, não seriam os psicólogos os únicos com os quais poderíamos, nós, neuróticos inconformados, contar? Não deveriam ser eles nossos padres ateus? Os versados em segredos inconfessos, os depositários dos caminhos à liberdade, os guias das trevas? Mas o que as escolas formam? Vomitadores de freudianismos que Freud, se vivo, renegaria, ou ainda pior, pseudo-cientistas do cérebro, quando na verdade deveriam ser estudiosos da alma.
Volto a dizer: Alma e Deus são imagens que existem desde que o Homem é Homem e crer nelas não é crer em igreja, ou sequer crer na existência de um Ser criador ou de uma alma imortal. Crer em Deus e Alma é crer no papel central que esses dois mistérios exercem na vida do indivíduo e da humanidade. Mistérios que vivem dentro de mim e de voce, símbolos que atemorizam e exasperam todo aquele que deixa de ter contato com aquilo que o alimenta: transcendencia. Só creio em psicólogos que possuem a coragem e a bagagem para adentrar esse reino submerso a meu lado. Jamais entregaria meu cérebro a quem vê nele apenas carne e sangue. ( Mesmo que ele seja apenas carne e sangue. )
Quando uma pessoa morria no Tibete, os parentes chamavam um Lama que lia o Bardo Thodol para o morto. Esse livro ensina o morto a adentrar o reino da morte e a se preparar para o retorno ao nosso mundo ( nosso ? ).
Quem já teve a experiência de enterrar um ser querido sabe que nossa sociedade se faz nua nessa hora. É quando percebemos que ao ganhar casas e coisas "modernas", ao abraçarmos a ciência e a razão, perdemos completamente o modo de lidar com a dor da morte. ( Assim como perdemos o modo de lidar com os filhos, o modo de se tornar adulto, como envelhecer, o modo de amar, e modos de ver e pensar a vida. ) O mundo atual simplesmente se cala quando o tema é morte, velhice, família, amor. Não se engane: se fala muito de amor e familia, mas não é sobre amor e familia que se fala na verdade. O amor se torna sexo e a família uma idéia de funcionalidade. Amor como comunhão e familia como continuidade são conceitos ignorados. Do mesmo modo como a igreja se tornou algo que nada tem de religioso, esses temas foram travestidos. Voltando ao livro....
"Quando vires que este vazio de teu próprio sentido é a natureza de Buda, e considerares como tua própria consciencia, então estarás no espírito de Buda."
O ser morre e sente por um breve instante ( breve? ) a maravilhosa despersonalização. Percebe o que é o Buda: O Vazio. A mente como guerra de opostos se torna então o vazio, onde cessa o conflito. A razão se esvai e o eu se dissolve com ela. O ser sente o Buda ao perceber que ele sempre fora o Buda. Deus dentro de nós mesmos. Revela-se a diferença central entre ocidente e oriente. Para nós Deus está no alto, reina sobre nós; para eles Deus vive dentro deles, nas profundesas de sua mente. O ser morre e desaparece, o Deus que sempre viveu permanece.
Mas esse momento de luz logo desaparece. O ser é então sorvido pelas imagens de dor e de horror. Surgem imagens de monstros diabólicos, de torturas sem fim e de DESEJOS INSACIÁVEIS. A fantasia assume o controle e o ser se perde em imagens e delirios. O lama, ao lado do morto, narra essa fase elucidando o ser sobre aquilo que ele irá vivenciar.
Vem então uma fase de reconhecimento do corpo e por fim o desejo sexual, desejo que faz com que o ser volte a reencarnar. A visão do sexo entre os pais seria a última visão antes do retorno. Pois bem... A sucessão dessas fases, que aqui descrevi muito pobremente, é uma surpreendente versão milenar do PROCESSO DE TERAPIA! Ao ler o livro de trás para a frente, invertendo a ordem das fases, percebemos que é narrado todo o caminho que o ser faz para encontrar sua individuação e poder unir suas oposições. Da vida de desejos sexuais puros, passando pela crise de medo e de sentido, pela quase psicose, e encontrando afinal a verdade transcendente. Verdade que estaria na constatação de que todos temos Buda e que a vida nos é dada.
Nesse processo a razão é negada, a segurança abandonada e a visão se faz do todo e não do detalhe. A tênue máscara, o véu que nos cega, é despedaçada. Tudo aquilo que pensamos ser "eu" se mostra ilusão. O eu é inexistente e a vida desse eu não pode ser preservada, pois ele jamais foi vida. Vida é o todo, vida incriada, vida sem regra e sem objeto. Trajeto de nascimento, de entrada nas entranhas do inconsciente, do pavor frente aos abismos do símbolo.
Intuitivamente, os tibetanos descreveram nesse livro milenar, tudo que é comum a todo processo de individuação, todas as etapas do enfrentamento, a descoberta de que tudo está dentro de nós e de que a realidade é criada por nossa mente inconsciente ( jamais pela razão que cria apenas ilusões ). Inconscientemente procuramos esse confronto, irracionalmente nossa vida é feita e decidida.
O mundo tecnicista tem negado e ignorado toda essa vida interior e decisiva que habita em todos nós. Sedentos de transcendencia, procuramos no amor/sexo, ou na arte/donisio aquilo que só pode se encontrar, com muita dificuldade e sem garantia alguma, dentro de nós mesmos. Não há espaço para as manifestações do inconsciente em mundo de explicações rasteiras e fórmulas infantis ( onde a igreja é a primeira a negar a interioridade com seus cultos e cerimonias espetaculosas ). Nosso ser mais íntimo é a ÚNICA verdade e a única via para a felicidade.
Negar isso é a ilusão.
Volto a dizer: Alma e Deus são imagens que existem desde que o Homem é Homem e crer nelas não é crer em igreja, ou sequer crer na existência de um Ser criador ou de uma alma imortal. Crer em Deus e Alma é crer no papel central que esses dois mistérios exercem na vida do indivíduo e da humanidade. Mistérios que vivem dentro de mim e de voce, símbolos que atemorizam e exasperam todo aquele que deixa de ter contato com aquilo que o alimenta: transcendencia. Só creio em psicólogos que possuem a coragem e a bagagem para adentrar esse reino submerso a meu lado. Jamais entregaria meu cérebro a quem vê nele apenas carne e sangue. ( Mesmo que ele seja apenas carne e sangue. )
Quando uma pessoa morria no Tibete, os parentes chamavam um Lama que lia o Bardo Thodol para o morto. Esse livro ensina o morto a adentrar o reino da morte e a se preparar para o retorno ao nosso mundo ( nosso ? ).
Quem já teve a experiência de enterrar um ser querido sabe que nossa sociedade se faz nua nessa hora. É quando percebemos que ao ganhar casas e coisas "modernas", ao abraçarmos a ciência e a razão, perdemos completamente o modo de lidar com a dor da morte. ( Assim como perdemos o modo de lidar com os filhos, o modo de se tornar adulto, como envelhecer, o modo de amar, e modos de ver e pensar a vida. ) O mundo atual simplesmente se cala quando o tema é morte, velhice, família, amor. Não se engane: se fala muito de amor e familia, mas não é sobre amor e familia que se fala na verdade. O amor se torna sexo e a família uma idéia de funcionalidade. Amor como comunhão e familia como continuidade são conceitos ignorados. Do mesmo modo como a igreja se tornou algo que nada tem de religioso, esses temas foram travestidos. Voltando ao livro....
"Quando vires que este vazio de teu próprio sentido é a natureza de Buda, e considerares como tua própria consciencia, então estarás no espírito de Buda."
O ser morre e sente por um breve instante ( breve? ) a maravilhosa despersonalização. Percebe o que é o Buda: O Vazio. A mente como guerra de opostos se torna então o vazio, onde cessa o conflito. A razão se esvai e o eu se dissolve com ela. O ser sente o Buda ao perceber que ele sempre fora o Buda. Deus dentro de nós mesmos. Revela-se a diferença central entre ocidente e oriente. Para nós Deus está no alto, reina sobre nós; para eles Deus vive dentro deles, nas profundesas de sua mente. O ser morre e desaparece, o Deus que sempre viveu permanece.
Mas esse momento de luz logo desaparece. O ser é então sorvido pelas imagens de dor e de horror. Surgem imagens de monstros diabólicos, de torturas sem fim e de DESEJOS INSACIÁVEIS. A fantasia assume o controle e o ser se perde em imagens e delirios. O lama, ao lado do morto, narra essa fase elucidando o ser sobre aquilo que ele irá vivenciar.
Vem então uma fase de reconhecimento do corpo e por fim o desejo sexual, desejo que faz com que o ser volte a reencarnar. A visão do sexo entre os pais seria a última visão antes do retorno. Pois bem... A sucessão dessas fases, que aqui descrevi muito pobremente, é uma surpreendente versão milenar do PROCESSO DE TERAPIA! Ao ler o livro de trás para a frente, invertendo a ordem das fases, percebemos que é narrado todo o caminho que o ser faz para encontrar sua individuação e poder unir suas oposições. Da vida de desejos sexuais puros, passando pela crise de medo e de sentido, pela quase psicose, e encontrando afinal a verdade transcendente. Verdade que estaria na constatação de que todos temos Buda e que a vida nos é dada.
Nesse processo a razão é negada, a segurança abandonada e a visão se faz do todo e não do detalhe. A tênue máscara, o véu que nos cega, é despedaçada. Tudo aquilo que pensamos ser "eu" se mostra ilusão. O eu é inexistente e a vida desse eu não pode ser preservada, pois ele jamais foi vida. Vida é o todo, vida incriada, vida sem regra e sem objeto. Trajeto de nascimento, de entrada nas entranhas do inconsciente, do pavor frente aos abismos do símbolo.
Intuitivamente, os tibetanos descreveram nesse livro milenar, tudo que é comum a todo processo de individuação, todas as etapas do enfrentamento, a descoberta de que tudo está dentro de nós e de que a realidade é criada por nossa mente inconsciente ( jamais pela razão que cria apenas ilusões ). Inconscientemente procuramos esse confronto, irracionalmente nossa vida é feita e decidida.
O mundo tecnicista tem negado e ignorado toda essa vida interior e decisiva que habita em todos nós. Sedentos de transcendencia, procuramos no amor/sexo, ou na arte/donisio aquilo que só pode se encontrar, com muita dificuldade e sem garantia alguma, dentro de nós mesmos. Não há espaço para as manifestações do inconsciente em mundo de explicações rasteiras e fórmulas infantis ( onde a igreja é a primeira a negar a interioridade com seus cultos e cerimonias espetaculosas ). Nosso ser mais íntimo é a ÚNICA verdade e a única via para a felicidade.
Negar isso é a ilusão.
PREMINGER/ KUROSAWA/ KIM KI DUK/ COLIN FIRTH
DRIVER de George Tillman Jr. com Dwayne Johnson, Billy Bob Thorton e Carla Gugino
Inominável. Ação sem emoção nenhuma. Tenho visto muitos filmes atuais e eles têm me tirado toda a paixão que eu sentia pelo cinema. Um filme muito ruim de 1930 ou 1950 é tão vulgar e idiota como um filme ruim de 2010, mas a diferença é que ele é ruim "sem querer", por incapacidade ou por falta de recursos. O filme ruim atual é cínico, esperto, se vangloria de sua burrice, menospreza o público e destrói qualquer idéia de nobreza ou de verdade que voce podia ter sobre o cinema. É um verdadeiro estupro. Infelizmente já assisti a quase todos os grandes filmes do passado, e agora, vendo básicamente os filmes "novos" minha paixão é pisoteada e aviltada....
O DISCURSO DO REI de Tom Hooper com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham-Carter, Claire Bloom e Derek Jacobi
Tão bom quanto o filme anterior do diretor ( Maldito United ) e com o mesmo defeito: ele não consegue manter o ritmo. O que temos é um filme com uns poucos bons momentos e outros de tédio e vazio. O que jamais cai é a excelência do elenco. Vê-los é um prazer. Alguns críticos ficaram chateadinhos com a vitória deste filme no tal oscar....para mim a irritação deles é bom sinal. Dos concorrentes era o menos ruim. Como Carruagens de Fogo e Kramer x Kramer, este é um filme médio que ninguém recordará como oscarizado no futuro. Nota 6.
ESCÂNDALO de Akira Kurosawa com Toshiro Mifune
Kurosawa estava com problemas em relação a imprensa na época, quando fez este filme sobre paparazzis que perseguem estrela da música e pintor. O filme é em tom menor, Kurosawa é dos poucos diretores da história que cresce quando sua ambição aumenta. Mifune dá seu show naturalista e a realização é bastante competente, embora não haja nem sinal da genialidade do maior dos diretores. Nota 6.
BOM DIA TRISTEZA de Otto Preminger com Jean Seberg, David Niven e Deborah Kerr
Françoise Sagan escreveu este livro na adolescencia e logo se tornou o guia das jovens rebeldes de seu tempo. Este filme é infelizmente americano, então a acidez do original está totalmente perdida. Mesmo assim é um agradável e muito bonito filme. Vemos em preto e branco o presente da menina e em cores suas lembranças. A história é basicamente a história do ciúmes de uma filha pelo seu pai playboy. Os dois vivem em baladas e restaurantes ( na Provence ) juntos e felizes e ela é até mesmo amiga das namoradas do pai. Mas quando ele resolve se casar tudo desaba. Ela passa a ter namoros casuais e trama a destruição da pretendente. O elenco é bom e Otto sempre é um diretor forte, sabe, mesmo quando erra, o que deseja mostrar. O filme se passa entre os muito ricos dos anos 50, ou seja, é tudo muito chic. Nota 6.
O ARCO de Kim Ki Duk
Um velho cria uma menina em um barco. Ele traz pescadores para lá e quando algum deles se interessa pela menina é expulso. O velho usa o arco e flexa para adivinhar o futuro e para assustar esses pretendentes. Mas ela se apaixona por jovem e foge com ele. O velho quase morre, ela volta e os dois se casam. Quem assistiu esse filme coreano e pensou ter visto um filme budista sobre o desejo e o sexo nada entendeu. O centro do filme não é o velho e a menina, o centro é o velho e o arco. A menina é uma deusa, ela é a ponte que liga o velho, através do sofrimento, a sua realização plena: o arco. Ele se torna o grande arqueiro e pode então partir, sumir na água. Como ocorre com outro filme do diretor ( Inverno, Verão, Outono.... ) o ritmo é lentíssimo, mas o final compensa tudo: é belíssimo. A estranheza que ele causa é a mesma de quando vemos ou ouvimos algo genuinamente oriental, tomamos a consciencia de que quase nada sabemos ou entendemos. Nota 7.
QUANDO VOCE VIU SEU PAI PELA ÚLTIMA VEZ? de Anand Tucker com Colin Firth e Jim Broadbent
Certas pessoas gostam de falar mal de filmes que nos emocionam por apelar ao melô. Não entendem que emocionar é sempre um mérito, desde que se mantenha um mínimo de bom gosto. Pois bem, eis aqui um filme que apela muito e não consegue causar a menor emoção. Dois bons atores em roteiro sem sal que fala de filho e pai que nunca se deram bem, e agora o pai está com câncer e o filho tem a chance de se reaproximar. Cenas enfadonhas do filho criança com o pai, do filho adolescente com o pai e do agora, o filho adulto tornado poeta e o pai doente. Pai que foi sempre alegre e conquistador. Com tudo isso nas mãos, o filme consegue ser frio, distante, chato, impessoal. Aborrecido enfim. Nota 3.
Inominável. Ação sem emoção nenhuma. Tenho visto muitos filmes atuais e eles têm me tirado toda a paixão que eu sentia pelo cinema. Um filme muito ruim de 1930 ou 1950 é tão vulgar e idiota como um filme ruim de 2010, mas a diferença é que ele é ruim "sem querer", por incapacidade ou por falta de recursos. O filme ruim atual é cínico, esperto, se vangloria de sua burrice, menospreza o público e destrói qualquer idéia de nobreza ou de verdade que voce podia ter sobre o cinema. É um verdadeiro estupro. Infelizmente já assisti a quase todos os grandes filmes do passado, e agora, vendo básicamente os filmes "novos" minha paixão é pisoteada e aviltada....
O DISCURSO DO REI de Tom Hooper com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham-Carter, Claire Bloom e Derek Jacobi
Tão bom quanto o filme anterior do diretor ( Maldito United ) e com o mesmo defeito: ele não consegue manter o ritmo. O que temos é um filme com uns poucos bons momentos e outros de tédio e vazio. O que jamais cai é a excelência do elenco. Vê-los é um prazer. Alguns críticos ficaram chateadinhos com a vitória deste filme no tal oscar....para mim a irritação deles é bom sinal. Dos concorrentes era o menos ruim. Como Carruagens de Fogo e Kramer x Kramer, este é um filme médio que ninguém recordará como oscarizado no futuro. Nota 6.
ESCÂNDALO de Akira Kurosawa com Toshiro Mifune
Kurosawa estava com problemas em relação a imprensa na época, quando fez este filme sobre paparazzis que perseguem estrela da música e pintor. O filme é em tom menor, Kurosawa é dos poucos diretores da história que cresce quando sua ambição aumenta. Mifune dá seu show naturalista e a realização é bastante competente, embora não haja nem sinal da genialidade do maior dos diretores. Nota 6.
BOM DIA TRISTEZA de Otto Preminger com Jean Seberg, David Niven e Deborah Kerr
Françoise Sagan escreveu este livro na adolescencia e logo se tornou o guia das jovens rebeldes de seu tempo. Este filme é infelizmente americano, então a acidez do original está totalmente perdida. Mesmo assim é um agradável e muito bonito filme. Vemos em preto e branco o presente da menina e em cores suas lembranças. A história é basicamente a história do ciúmes de uma filha pelo seu pai playboy. Os dois vivem em baladas e restaurantes ( na Provence ) juntos e felizes e ela é até mesmo amiga das namoradas do pai. Mas quando ele resolve se casar tudo desaba. Ela passa a ter namoros casuais e trama a destruição da pretendente. O elenco é bom e Otto sempre é um diretor forte, sabe, mesmo quando erra, o que deseja mostrar. O filme se passa entre os muito ricos dos anos 50, ou seja, é tudo muito chic. Nota 6.
O ARCO de Kim Ki Duk
Um velho cria uma menina em um barco. Ele traz pescadores para lá e quando algum deles se interessa pela menina é expulso. O velho usa o arco e flexa para adivinhar o futuro e para assustar esses pretendentes. Mas ela se apaixona por jovem e foge com ele. O velho quase morre, ela volta e os dois se casam. Quem assistiu esse filme coreano e pensou ter visto um filme budista sobre o desejo e o sexo nada entendeu. O centro do filme não é o velho e a menina, o centro é o velho e o arco. A menina é uma deusa, ela é a ponte que liga o velho, através do sofrimento, a sua realização plena: o arco. Ele se torna o grande arqueiro e pode então partir, sumir na água. Como ocorre com outro filme do diretor ( Inverno, Verão, Outono.... ) o ritmo é lentíssimo, mas o final compensa tudo: é belíssimo. A estranheza que ele causa é a mesma de quando vemos ou ouvimos algo genuinamente oriental, tomamos a consciencia de que quase nada sabemos ou entendemos. Nota 7.
QUANDO VOCE VIU SEU PAI PELA ÚLTIMA VEZ? de Anand Tucker com Colin Firth e Jim Broadbent
Certas pessoas gostam de falar mal de filmes que nos emocionam por apelar ao melô. Não entendem que emocionar é sempre um mérito, desde que se mantenha um mínimo de bom gosto. Pois bem, eis aqui um filme que apela muito e não consegue causar a menor emoção. Dois bons atores em roteiro sem sal que fala de filho e pai que nunca se deram bem, e agora o pai está com câncer e o filho tem a chance de se reaproximar. Cenas enfadonhas do filho criança com o pai, do filho adolescente com o pai e do agora, o filho adulto tornado poeta e o pai doente. Pai que foi sempre alegre e conquistador. Com tudo isso nas mãos, o filme consegue ser frio, distante, chato, impessoal. Aborrecido enfim. Nota 3.
VARAIS E PORÕES ( SER CRIANÇA )
Há um tempo na vida em que não existe rumo. Nenhuma regra para seguir e voce pode deixar as coisas seguirem sem razão ou sentido. O modelo não foi criado e o mapa é feito enquanto se viaja. Cada manhã apresenta uma possibilidade, acordar é como beber com sede. Na verdade tudo é impensado e portanto, milagroso. A vida é uma amiga, o que não faz parte dessa amizade não é natural.
Havia então um doce namoro entre eu e meus sonhos. Eu ainda não aprendera que era errado sonhar. Nenhuma teoria me dizia que aquilo podia ser auto-erotismo ou preguiça. Sem culpa, eu amava minha companhia e pensava que viver seria amar cada vez mais. Dava prazeres para mim mesmo. Revistas coloridas, brinquedos que eu inventava e cantos secretos da casa onde me escondia. Todo momento era devaneio, todo detalhe uma descoberta. O espaço dentro de mim era maior que o universo ( mas eu não sabia ).
Tinha certeza de que moravam homens dentro da televisão, ficava olhando a tv por trás para tentar surpreende-los. Assim como acreditava que havia um quarto secreto em casa onde viviam os antigos donos. Quando chovia de madrugada e a água escorria pelas calhas de lata eu ficava acordado para ouvir aquele barulho. Já intuia que podia ser a última chance. O sinal do tempo já nascia.
Mas eu insistia. Cada passo dado no capinzal era o risco de se topar com o desconhecido. E acima das nuvens eu sabia que havia Deus. Meu pai nunca morreria, minha mãe nunca ficaria velha e ser grande era ser igualzinho a meu pai. E todo aquele mato, aqueles cantos de pássaros e os córregos claros seriam sempre como eram então: meus. ( Mas na verdade não eram meus, eram mais que isso, eu sentia que eu pertencia a eles e por eles eu sobreviveria ).
Todo homem vive seu momento de Adão, a queda. A minha ainda estava distante. ( Me dá raiva saber que por mais ateu que eu tenha sido, e lutado orgulhoso para o ser, voce sempre age e sofre como um cristão. )
Debaixo de meus cobertores eu via um mundo e fora do quarto um infinito. A lua entrava em cheio no chão onde eu brincava e de madrugada os cães e os galos cantavam. A manhã era criada pelo rádio de meu pai e o cheiro do café coado. Ele era grande e cheirava a loção de barba.
Se eu tivesse a coragem todo esse mundo voltaria a viver aqui, em mim. Esses quartos e quintais e cheiros moram ignorados no porão que eu não deixei. E sei, cada vez mais, que é impossível ser feliz sem eles comigo vivos. O único sentido é cantar sua existência.
Todas as meninas que amei foram tentativas de recuperar esse espaço. Falhas tentativas. Ninguém pode ir lá comigo, elas já estavam lá, eu é que não sabia.
A roupa que minha mãe lavara estava voando no varal. O sol e o vento, as videiras e o canto que ela cantava. A tartaruga comendo melancia e meu irmão bebendo o mel das flores vermelhas. O começo de se saber é ver que eu sou esse varal, esse sol e esse vento, e saber que tudo está onde sempre esteve e sempre irá estar.
Todo o resto é silêncio.
Havia então um doce namoro entre eu e meus sonhos. Eu ainda não aprendera que era errado sonhar. Nenhuma teoria me dizia que aquilo podia ser auto-erotismo ou preguiça. Sem culpa, eu amava minha companhia e pensava que viver seria amar cada vez mais. Dava prazeres para mim mesmo. Revistas coloridas, brinquedos que eu inventava e cantos secretos da casa onde me escondia. Todo momento era devaneio, todo detalhe uma descoberta. O espaço dentro de mim era maior que o universo ( mas eu não sabia ).
Tinha certeza de que moravam homens dentro da televisão, ficava olhando a tv por trás para tentar surpreende-los. Assim como acreditava que havia um quarto secreto em casa onde viviam os antigos donos. Quando chovia de madrugada e a água escorria pelas calhas de lata eu ficava acordado para ouvir aquele barulho. Já intuia que podia ser a última chance. O sinal do tempo já nascia.
Mas eu insistia. Cada passo dado no capinzal era o risco de se topar com o desconhecido. E acima das nuvens eu sabia que havia Deus. Meu pai nunca morreria, minha mãe nunca ficaria velha e ser grande era ser igualzinho a meu pai. E todo aquele mato, aqueles cantos de pássaros e os córregos claros seriam sempre como eram então: meus. ( Mas na verdade não eram meus, eram mais que isso, eu sentia que eu pertencia a eles e por eles eu sobreviveria ).
Todo homem vive seu momento de Adão, a queda. A minha ainda estava distante. ( Me dá raiva saber que por mais ateu que eu tenha sido, e lutado orgulhoso para o ser, voce sempre age e sofre como um cristão. )
Debaixo de meus cobertores eu via um mundo e fora do quarto um infinito. A lua entrava em cheio no chão onde eu brincava e de madrugada os cães e os galos cantavam. A manhã era criada pelo rádio de meu pai e o cheiro do café coado. Ele era grande e cheirava a loção de barba.
Se eu tivesse a coragem todo esse mundo voltaria a viver aqui, em mim. Esses quartos e quintais e cheiros moram ignorados no porão que eu não deixei. E sei, cada vez mais, que é impossível ser feliz sem eles comigo vivos. O único sentido é cantar sua existência.
Todas as meninas que amei foram tentativas de recuperar esse espaço. Falhas tentativas. Ninguém pode ir lá comigo, elas já estavam lá, eu é que não sabia.
A roupa que minha mãe lavara estava voando no varal. O sol e o vento, as videiras e o canto que ela cantava. A tartaruga comendo melancia e meu irmão bebendo o mel das flores vermelhas. O começo de se saber é ver que eu sou esse varal, esse sol e esse vento, e saber que tudo está onde sempre esteve e sempre irá estar.
Todo o resto é silêncio.
PSICOLOGIA DO ORIENTE- CARL GUSTAV JUNG
Ocidente x Oriente ( Oriente que cumpre sua sina se fazendo mais Ocidente, Ocidente que cai em neurose pura, fugindo da Orientalização ). Na raiz do ocidente há a extroversão. Mas pense, o que é a extroversão? Os povos primitivos têm dois modos, duas raízes: abstrair e observar, caçar e celebrar. O extrovertido olha a árvore obsessivamente, procurando ver nela Tudo. Atenção para o destaque: TUDO. O extrovertido procura o todo fora de sí. Mais que isso, ele na realidade desconhece e teme o que pode haver dentro de sua cabeça. Seu medo o faz negar tudo o que não esteja fora, exposto, visível, sólido. Amando ou odiando, tudo nele é para fora. Chega-se então ao limite do vazio: existir é fazer. Você só pode existir fazendo coisas sólidas. Amor se torna sexo e viver é trabalho.
A religião do ocidente reforça essa realidade. Deus existe fora de voce, Ele deve ser procurado. Voce precisa de padre, ministro, curandeiro, guru, igreja, bíblias, papas, e saindo disso: heróis, líderes, partidos, psicólogos, escritores. Toda força e toda transcendencia é procurada fora de sí. E para os que se pensam menos ocidentais por descrerem de gurus ou de heróis, cabe saber: a descrença é um ato ativo e exterior, portanto, ocidental.
Ao contrário de Buda, Jesus caminhava sem parar, fazia milagres, pregava, e foi executado. A vida de Jesus foi toda ação exterior, foi toda PROVA de existência. Ele precisava provar ser Deus. Seu ser tinha de se exteriorizar.
O oriente é introversão. O ser superior na visão oriental nada procura, nada precisa provar. Mais que isso, ele não quer Deus, ele já está em Deus. Na introversão o que está fora é ilusório e vão, a vida interior é a vida VERDADEIRA. Não existe a necessidade de se preocupar com a existência, com o real, pois para eles o real é sabidamente ilusório. A meta, o objetivo é sempre a introversão, o adentrar-se em sí, vasculhar o que está dentro da mente, da alma, do inconsciente. A diferença maior é que para o oriente tudo o que é pensado é existente-verdadeiro, para nós a verdade é o que foi executado, visto fora das idéias, testemunhado.
A vida externa é negada. Os olhos se fecham para o corpo que bóia no Ganges e para a fome. No Ocidente tudo é observado: a mente ocidental registra sem parar, lê intenções, vê imperfeições e ainda se perde em emaranhados filosóficos. A mente do Ocidente foge apavorada de tudo que lhe seja inexplicável, ocupa-se para não mergulhar na "loucura", na perda de razão, no absoluto: NA TRANSFORMAÇÃO, que é a submersão do eu.
A grande revolução oriental seria a descoberta da objetividade. O abrir de olhos sem perder o pé no inconsciente. Isso eles estão fazendo. Ao Ocidente caberia o fechar de olhos, parar e se ausentar dentro de sí-mesmo, ser mais indiferente ao objeto e mais corajoso com o que não se conhece. Nada disso está sendo feito. A exterioralidade é cada vez maior, as religiões cada vez mais infantis e a vida se torna um saber mais e mais e pensar menos e menos.
O estranho é que podemos ver fácilmente como a ciência e o homem científico se parecem com o crente do ocidente. Ambos creem numa realidade única. Para o cristão, tudo é obra de Deus, para o cientista, tudo é matéria; ambos lutam para provar sua verdade, ambos não admitem qualquer dúvida e os dois, estranhamante, estão comprometidos na busca por algo: a origem da vida e alguma mensagem de outros sistemas solares. Ambos procuram Saber.
Já os budistas sabem. Mas é um saber intuitivo. Sabem que não existe Deus, pois Ele seria uma máscara e toda verdade não tem máscara. Sabem que é dentro deles mesmos que vive a felicidade e a paz absoluta e que portanto eles de nada precisam para se iluminar. Que o mergulho na alma é o conhecimento. A conexão com o interior, com as intuições, com o saber não-verbal, saber vasto e sem tempo, saber que perdemos na idade medieval, neles, continua cotidiana. A linha foi modernizada, mas não rompida ( pois eles intuem que a própria modernidade é apenas uma ilusão ). Um oriental irá decidir um negócio ou uma guerra pela intuição: o momento certo, a maré correta, o golpe perfeito. O ocidental se cercará de milhares de informações, de bilhões de garantias, de estudos e especulações até se resolver.
Por fim, em nosso mundo europeu, todo homem introvertido será visto como tolo ou doente. Um fraco. No oriente, o extrovertido é um primitivo, um tipo de cãozinho engraçado, um macaco sem vida interior.
Hoje eles são um pouco mais cachorros. E nós não estamos um pouco mais bobos. O futuro é todo deles.
A religião do ocidente reforça essa realidade. Deus existe fora de voce, Ele deve ser procurado. Voce precisa de padre, ministro, curandeiro, guru, igreja, bíblias, papas, e saindo disso: heróis, líderes, partidos, psicólogos, escritores. Toda força e toda transcendencia é procurada fora de sí. E para os que se pensam menos ocidentais por descrerem de gurus ou de heróis, cabe saber: a descrença é um ato ativo e exterior, portanto, ocidental.
Ao contrário de Buda, Jesus caminhava sem parar, fazia milagres, pregava, e foi executado. A vida de Jesus foi toda ação exterior, foi toda PROVA de existência. Ele precisava provar ser Deus. Seu ser tinha de se exteriorizar.
O oriente é introversão. O ser superior na visão oriental nada procura, nada precisa provar. Mais que isso, ele não quer Deus, ele já está em Deus. Na introversão o que está fora é ilusório e vão, a vida interior é a vida VERDADEIRA. Não existe a necessidade de se preocupar com a existência, com o real, pois para eles o real é sabidamente ilusório. A meta, o objetivo é sempre a introversão, o adentrar-se em sí, vasculhar o que está dentro da mente, da alma, do inconsciente. A diferença maior é que para o oriente tudo o que é pensado é existente-verdadeiro, para nós a verdade é o que foi executado, visto fora das idéias, testemunhado.
A vida externa é negada. Os olhos se fecham para o corpo que bóia no Ganges e para a fome. No Ocidente tudo é observado: a mente ocidental registra sem parar, lê intenções, vê imperfeições e ainda se perde em emaranhados filosóficos. A mente do Ocidente foge apavorada de tudo que lhe seja inexplicável, ocupa-se para não mergulhar na "loucura", na perda de razão, no absoluto: NA TRANSFORMAÇÃO, que é a submersão do eu.
A grande revolução oriental seria a descoberta da objetividade. O abrir de olhos sem perder o pé no inconsciente. Isso eles estão fazendo. Ao Ocidente caberia o fechar de olhos, parar e se ausentar dentro de sí-mesmo, ser mais indiferente ao objeto e mais corajoso com o que não se conhece. Nada disso está sendo feito. A exterioralidade é cada vez maior, as religiões cada vez mais infantis e a vida se torna um saber mais e mais e pensar menos e menos.
O estranho é que podemos ver fácilmente como a ciência e o homem científico se parecem com o crente do ocidente. Ambos creem numa realidade única. Para o cristão, tudo é obra de Deus, para o cientista, tudo é matéria; ambos lutam para provar sua verdade, ambos não admitem qualquer dúvida e os dois, estranhamante, estão comprometidos na busca por algo: a origem da vida e alguma mensagem de outros sistemas solares. Ambos procuram Saber.
Já os budistas sabem. Mas é um saber intuitivo. Sabem que não existe Deus, pois Ele seria uma máscara e toda verdade não tem máscara. Sabem que é dentro deles mesmos que vive a felicidade e a paz absoluta e que portanto eles de nada precisam para se iluminar. Que o mergulho na alma é o conhecimento. A conexão com o interior, com as intuições, com o saber não-verbal, saber vasto e sem tempo, saber que perdemos na idade medieval, neles, continua cotidiana. A linha foi modernizada, mas não rompida ( pois eles intuem que a própria modernidade é apenas uma ilusão ). Um oriental irá decidir um negócio ou uma guerra pela intuição: o momento certo, a maré correta, o golpe perfeito. O ocidental se cercará de milhares de informações, de bilhões de garantias, de estudos e especulações até se resolver.
Por fim, em nosso mundo europeu, todo homem introvertido será visto como tolo ou doente. Um fraco. No oriente, o extrovertido é um primitivo, um tipo de cãozinho engraçado, um macaco sem vida interior.
Hoje eles são um pouco mais cachorros. E nós não estamos um pouco mais bobos. O futuro é todo deles.
JAIR, PELÉ, TOSTÃO E RIVELLINO ( O MELHOR ERA GÉRSON )
A maior alegria que tenho é a de fazer parte de uma geração que ainda sabia o que era ingenuidade. Não sei se por falta de informação, não sei se por causa do monte de tempo livre para ser bobo e bobear a toa, o que sei é que os pais da minha geração tinham ainda um ou dois pés no campo, e então eu e todos os caras da rua crescemos acreditando em heróis, semi-deuses e iluminados. Esse tesouro, a luz da ignorância, é o que mais valorizo em mim.
Porque é preciso ser um pouco tolo para poder criar. Se voce sabe tudo e pode explicar todas as coisas que acontecem, se voce joga luz em todo porão, voce nada consegue criar. Ter fé em coisas inexplicáveis, crer naquilo que é porque é, sem isso voce não consegue inventar uma história, uma lenda, uma saga.
Tive a sorte de ainda ser de um tempo em que a gente tinha a certeza de que todo astro do rock era um ser de outro planeta e de que todo diretor de cinema era um guru versado em segredos ancestrais. E eu sabia que todo amor era pra sempre e toda amizade era divina.
Mas eu estou escrevendo tudo isto só pra dizer que essa época fez com que um grupo de brasileiros se tornassem heróis. Que era uma emoção absurda ( ainda é ) ver alinhados Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino. A gente tinha a certeza de que eles eram perfeitos. De que eles eram genuínos, de que eram "para sempre".
Voce pode amar Ronaldo hoje. Ou Romário. Mas é diferente. Naqueles caras de 70 voce via apenas jogadores de futebol. Nada de modelos famosas, de festas glamurosas, de campanhas de midia. Nem Ferraris, nem BMWs. Voce sabia que eles eram simples, amáveis, nada arrogantes, que gostavam de uma caipirinha, um sambinha, um feijão. Cada um tinha sua marca pessoal, mas era marca feita sem jeito, sem acessor, sem grife.
Clodoaldo era o tímido, Gerson o briguento falastrão, Jair o ídolo das crianças, Pelé o melhor do mundo, Tostão o inteligente e Rivellino era o menino. Ninguém ligava muito pra cabelo, sobrancelha ou cor de chuteira. O negócio era jogar bola. Jogar e cavalheirescamente manter uma certa ética: se voce joga eu jogo.
Na última copa, a melhor das últimas três, e mesmo assim tão pobre, tive um pensamento: Tanta produção, imagens tão lindas, gramados impecáveis, para jogos tão feios. O quarto gol contra a Itália em 70 merecia esse monte de ângulos e slows e tira-teimas.
Hoje vi Rivellino. Meu coração foi pra boca. Herói pessoal é aquele que faz o máximo usando o mínimo. É o que vai ao topo e VOLTA A SUA ORIGEM. O que faz de crianças como eu ( em 70 eu tinha seis anos e nunca esqueci do que vi ) eternos apaixonados.
1970 foi um ano de heróis. E os maiores moravam aqui ao lado. E eram um bando de não-loucos, de não-bolas de ouro e de não-capas de Capricho. Que bom!
Porque é preciso ser um pouco tolo para poder criar. Se voce sabe tudo e pode explicar todas as coisas que acontecem, se voce joga luz em todo porão, voce nada consegue criar. Ter fé em coisas inexplicáveis, crer naquilo que é porque é, sem isso voce não consegue inventar uma história, uma lenda, uma saga.
Tive a sorte de ainda ser de um tempo em que a gente tinha a certeza de que todo astro do rock era um ser de outro planeta e de que todo diretor de cinema era um guru versado em segredos ancestrais. E eu sabia que todo amor era pra sempre e toda amizade era divina.
Mas eu estou escrevendo tudo isto só pra dizer que essa época fez com que um grupo de brasileiros se tornassem heróis. Que era uma emoção absurda ( ainda é ) ver alinhados Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino. A gente tinha a certeza de que eles eram perfeitos. De que eles eram genuínos, de que eram "para sempre".
Voce pode amar Ronaldo hoje. Ou Romário. Mas é diferente. Naqueles caras de 70 voce via apenas jogadores de futebol. Nada de modelos famosas, de festas glamurosas, de campanhas de midia. Nem Ferraris, nem BMWs. Voce sabia que eles eram simples, amáveis, nada arrogantes, que gostavam de uma caipirinha, um sambinha, um feijão. Cada um tinha sua marca pessoal, mas era marca feita sem jeito, sem acessor, sem grife.
Clodoaldo era o tímido, Gerson o briguento falastrão, Jair o ídolo das crianças, Pelé o melhor do mundo, Tostão o inteligente e Rivellino era o menino. Ninguém ligava muito pra cabelo, sobrancelha ou cor de chuteira. O negócio era jogar bola. Jogar e cavalheirescamente manter uma certa ética: se voce joga eu jogo.
Na última copa, a melhor das últimas três, e mesmo assim tão pobre, tive um pensamento: Tanta produção, imagens tão lindas, gramados impecáveis, para jogos tão feios. O quarto gol contra a Itália em 70 merecia esse monte de ângulos e slows e tira-teimas.
Hoje vi Rivellino. Meu coração foi pra boca. Herói pessoal é aquele que faz o máximo usando o mínimo. É o que vai ao topo e VOLTA A SUA ORIGEM. O que faz de crianças como eu ( em 70 eu tinha seis anos e nunca esqueci do que vi ) eternos apaixonados.
1970 foi um ano de heróis. E os maiores moravam aqui ao lado. E eram um bando de não-loucos, de não-bolas de ouro e de não-capas de Capricho. Que bom!
DIVAN DE SHAMS DE TABRIZ- JALAL UD-DIN RUMI
Porque tanto me incomoda a poesia de Rumi? Há, provávelmente, alguma coisa nela que abre uma ferida em mim. Ou ela revela uma paisagem ( passagem? ) que prefiro evitar. Qual?
Rumi nasceu na Persia, 1207, tornou-se famoso como religioso sufi, filósofo, mestre e depois poeta. Encontrou, no meio de sua vida, ao caminhante/errante Shams de Tabriz, com quem viveu uma relação de profunda espiritualidade amorosa. Os dois se complemetaram. Tabriz lhe ensinou o absoluto desapego. Este livro é dedicado a esse mestre, que partiu sem avisar e nunca mais foi encontrado.
Existe uma dança persa. Sama é seu nome. Nessa dança, os dançarinos giram sobre seu eixo como se fossem planetas. Ao mesmo tempo, eles rodam ao redor de um sol imaginário. Giram até penetrar no êxtase. Rami criou essa dança ( dançada até hoje. Tenho amiga que já a praticou. ) Jalal ud-Dim Rumi cantava ao dançar. Seus discípulos escreviam aquilo que ele cantava ( improvisava ). O poeta curou-se desse amor nessa dança e nesse canto.
São palavras que pregam a despersonalização. Para ele a felicidade está em não-ser, não-estar e não-falar. Para Rumi, o amor é maravilhoso por proporcionar a quem ama o esquecimento de si-mesmo. Ao amar não somos, não estamos e não temos razão. Somos felizes.
Cito-o:
Ó amantes abandonai as tolas ilusões
Enlouquecei, perdei de vez a cabeça.
Erguei-vos do fogo ardente da vida
Tornai-vos pássaros, sede pássaros!
E tu, perde-te por inteiro
Abandona tua casa em ruínas
Segue os amantes de Deus
-torna-te sufi, sede sufi!
Limpa teu coração dos velhos rancores
lava-o sete vezes
e serve o vinho do amor
-torna-te taça, sê a taça!
Enche tua alma de todo o amor
transforma-a na alma suprema
senta à mesa dos santos
-embriaga-te, sê o vinho!
O Rei que tudo ouve
fala com o homem piedoso
Escuta as palavras sagradas
-limpa teu corpo, limpa teu coração!
Ao ouvires a doce canção
teu espírito é alçado aos céus.
Teus limites nada significam
Sê como o amante sem medo
-torna-te eterno, sede eterno!
Os pensamentos só te levam onde lhes apetece
Queres segui-los?
Melhor é seguir teu destino
-torna-te guia, sê teu próprio guia!
Por quanto tempo mostrarás duas faces?
Até quando trairás a ti mesmo?
submisso como bandeira ao vento?
Não te cansa ser o bispo do xadrez?
E andar todo o tempo de viés?
-Torna-te sábio, ó sábio!
Por algum tempo foste os elementos
por outro tempo mais foste animal
por um tempo serás alma,
É agora a tua chance
-Torna-te alma suprema, sê a alma suprema!
Rumi já era famoso na Pérsia, na Siria, na Turquia, quando em 28 de junho de 1244 encontra Shams. Daí por diante sua vida será embriaguez. Rumi mergulhará em embriaguez de amor, de revelação, de saber.
Só a morte põe fim seguro
às dores e aflições da vida
A vida porém temerosa
tudo faz para adiar esse encontro.
É que a vida vê na morte
apenas a mão sombria
e fecha os olhos a luzente taça
que a mesma morte lhe oferece.
Assim também foge do amor o coração apaixonado
receoso de um dia morrer
da mesma paixão porque vive.
Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o "eu", esse tenebroso déspota
Tu o deixas espirar no negror da noite
e livre respiras a luz da manhã.
Lendo Rumi me vem uma sensação: A de que sua época possuia algum segredo sem nome. E penso: o desenvolvimento material cobra o empobrecimento espiritual. Há um equilibrio na vida. O crescimento do todo traz a diminuição do Uno, o enriquecimento da persona traz o esquecimento do coletivo.
Cinquenta anos após a morte de Rumi, cavaleiros franceses de volta das cruzadas trariam essa poesia para a Provence e criariam toda a nossa tradição amorosa.
Leia esta poesia e sinta alguém transcender tempo e lugar através de sons e mistério:
Sai do círculo do tempo
e entra no circulo do amor.
Entra na rua das tabernas
e senta entre os beberrões.
Se queres a visão secreta
fecha teus olhos.
Se desejas um abraço
abre teu peito.
Se anseias por uma face com vida
rompe esse rosto de pedra
Porque hás de pagar o dote da vida
a essa velha bruxa, a terra?
Mil gerações já gozaram
do que agora tens
Prova a doçura em tua boca
que antes foi flor, abelha e mel.
Vamos, aceita esta pechincha:
Dá uma única vida
E leva uma centena.
Jalal ud-Din Rumi.
Rumi nasceu na Persia, 1207, tornou-se famoso como religioso sufi, filósofo, mestre e depois poeta. Encontrou, no meio de sua vida, ao caminhante/errante Shams de Tabriz, com quem viveu uma relação de profunda espiritualidade amorosa. Os dois se complemetaram. Tabriz lhe ensinou o absoluto desapego. Este livro é dedicado a esse mestre, que partiu sem avisar e nunca mais foi encontrado.
Existe uma dança persa. Sama é seu nome. Nessa dança, os dançarinos giram sobre seu eixo como se fossem planetas. Ao mesmo tempo, eles rodam ao redor de um sol imaginário. Giram até penetrar no êxtase. Rami criou essa dança ( dançada até hoje. Tenho amiga que já a praticou. ) Jalal ud-Dim Rumi cantava ao dançar. Seus discípulos escreviam aquilo que ele cantava ( improvisava ). O poeta curou-se desse amor nessa dança e nesse canto.
São palavras que pregam a despersonalização. Para ele a felicidade está em não-ser, não-estar e não-falar. Para Rumi, o amor é maravilhoso por proporcionar a quem ama o esquecimento de si-mesmo. Ao amar não somos, não estamos e não temos razão. Somos felizes.
Cito-o:
Ó amantes abandonai as tolas ilusões
Enlouquecei, perdei de vez a cabeça.
Erguei-vos do fogo ardente da vida
Tornai-vos pássaros, sede pássaros!
E tu, perde-te por inteiro
Abandona tua casa em ruínas
Segue os amantes de Deus
-torna-te sufi, sede sufi!
Limpa teu coração dos velhos rancores
lava-o sete vezes
e serve o vinho do amor
-torna-te taça, sê a taça!
Enche tua alma de todo o amor
transforma-a na alma suprema
senta à mesa dos santos
-embriaga-te, sê o vinho!
O Rei que tudo ouve
fala com o homem piedoso
Escuta as palavras sagradas
-limpa teu corpo, limpa teu coração!
Ao ouvires a doce canção
teu espírito é alçado aos céus.
Teus limites nada significam
Sê como o amante sem medo
-torna-te eterno, sede eterno!
Os pensamentos só te levam onde lhes apetece
Queres segui-los?
Melhor é seguir teu destino
-torna-te guia, sê teu próprio guia!
Por quanto tempo mostrarás duas faces?
Até quando trairás a ti mesmo?
submisso como bandeira ao vento?
Não te cansa ser o bispo do xadrez?
E andar todo o tempo de viés?
-Torna-te sábio, ó sábio!
Por algum tempo foste os elementos
por outro tempo mais foste animal
por um tempo serás alma,
É agora a tua chance
-Torna-te alma suprema, sê a alma suprema!
Rumi já era famoso na Pérsia, na Siria, na Turquia, quando em 28 de junho de 1244 encontra Shams. Daí por diante sua vida será embriaguez. Rumi mergulhará em embriaguez de amor, de revelação, de saber.
Só a morte põe fim seguro
às dores e aflições da vida
A vida porém temerosa
tudo faz para adiar esse encontro.
É que a vida vê na morte
apenas a mão sombria
e fecha os olhos a luzente taça
que a mesma morte lhe oferece.
Assim também foge do amor o coração apaixonado
receoso de um dia morrer
da mesma paixão porque vive.
Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o "eu", esse tenebroso déspota
Tu o deixas espirar no negror da noite
e livre respiras a luz da manhã.
Lendo Rumi me vem uma sensação: A de que sua época possuia algum segredo sem nome. E penso: o desenvolvimento material cobra o empobrecimento espiritual. Há um equilibrio na vida. O crescimento do todo traz a diminuição do Uno, o enriquecimento da persona traz o esquecimento do coletivo.
Cinquenta anos após a morte de Rumi, cavaleiros franceses de volta das cruzadas trariam essa poesia para a Provence e criariam toda a nossa tradição amorosa.
Leia esta poesia e sinta alguém transcender tempo e lugar através de sons e mistério:
Sai do círculo do tempo
e entra no circulo do amor.
Entra na rua das tabernas
e senta entre os beberrões.
Se queres a visão secreta
fecha teus olhos.
Se desejas um abraço
abre teu peito.
Se anseias por uma face com vida
rompe esse rosto de pedra
Porque hás de pagar o dote da vida
a essa velha bruxa, a terra?
Mil gerações já gozaram
do que agora tens
Prova a doçura em tua boca
que antes foi flor, abelha e mel.
Vamos, aceita esta pechincha:
Dá uma única vida
E leva uma centena.
Jalal ud-Din Rumi.
PARAÍSO PERDIDO- CEES NOOTEBOOM
Uma moça dos Jardins, em São Paulo, filha de alemães, em momento de tristeza, sai de noite com seu carro sem rumo. Acaba em favela onde é estuprada. No choque de sua dor, sem nada mais a perder, resolve fazer a viagem sempre adiada: ir à Austrália. Lá ela se embrenha no deserto e conhece um pintor aborígene. Tem uma experiência de sexo, de silêncio e de êxtase. E volta sabendo o que é a vida. A vida é (---------------------------... ).
Ao mesmo tempo ( ou tempos depois? ) ocorre uma feira literária em Perth. Um crítico em crise encontra uma moça/anjo. É a garota que foi ao deserto e voltou. Um contato. Ele fica obcecado. Ela se vai. Breve. Silêncio...
Neste curto e muito preciso livro Cees atinge seu alvo. O mundo como vazio oco, anjos como seres com quem nada temos em comum, o cinismo destruindo toda possibilidade de sentido, e a Austrália ( pois do Brasil ele apenas fala de São Paulo, e SP é uma favela com os tais Jardins no centro. E os Jardins são um lugar onde todos sonham em viajar para fora ).
Austrália...India, Nepal. Cambodja, Terra Santa, Mongólia... existem lugares onde se busca um sentido, uma experiência, mas a Austrália é o mais forte, porque lá existem as terras sagradas, e lá viveram os aborígenes. O que eles tinham de tão diferente? Não conheciam o tempo. Viveram 40.000 anos exatamente no mesmo lugar, sem avançar um passo ao futuro, sem construir nada, tendo apenas meia dúzia de palavras em seu vocabulário, nada possuindo. São a mais radical oposição a nosso mundo. Quietos, calados, se guiando em terra onde nada cresce, nada existe, nada ocorre. Imutáveis, lentos, andando sem andar e profundamente ligados as estrelas, aos sons do silêncio, aos bichos, ao pó e ao vento. Povo de pedra, de areia, de sol. Perdedores em nossa corrida; mas qual é nosso prêmio mesmo?
Anjos que são os seres terríveis que anunciam nosso nada. Jogados por nós ao limbo da indiferença. Nooteboom consegue embaralhar tudo. E consegue ser misterioso e claro. Inicia o livro com citação de Benjamim sobre pintura de Klee e encerra com John Milton falando de Adão e Eva expulsos do paraíso. Nossa nostalgia desse paraíso perdido, nossa aversão a esse paraíso perdido. E os anjos que nos cercam, sempre lá e aqui, pagam quietos e calados por nossa aversão.
Os melhores estão calados.
O livro é muito bom.
PS: Os melhores livros de nossa época são os que lutam contra nossa atitude de ver em tudo que escape do banal, o brega, o kitsch. Nosso tempo cínico e covarde, vê em tudo que procure ser relevante, ridiculo. Nooteboom nunca é ridículo. E nunca é cínico ou blasé. Por isso ele é relevante. Seus personagens fazem a transposição, penetram no oculto e nada dizem sobre o que lá encontraram. Essa é a única função da literatura hoje. Todo o resto é farmácia.
Ao mesmo tempo ( ou tempos depois? ) ocorre uma feira literária em Perth. Um crítico em crise encontra uma moça/anjo. É a garota que foi ao deserto e voltou. Um contato. Ele fica obcecado. Ela se vai. Breve. Silêncio...
Neste curto e muito preciso livro Cees atinge seu alvo. O mundo como vazio oco, anjos como seres com quem nada temos em comum, o cinismo destruindo toda possibilidade de sentido, e a Austrália ( pois do Brasil ele apenas fala de São Paulo, e SP é uma favela com os tais Jardins no centro. E os Jardins são um lugar onde todos sonham em viajar para fora ).
Austrália...India, Nepal. Cambodja, Terra Santa, Mongólia... existem lugares onde se busca um sentido, uma experiência, mas a Austrália é o mais forte, porque lá existem as terras sagradas, e lá viveram os aborígenes. O que eles tinham de tão diferente? Não conheciam o tempo. Viveram 40.000 anos exatamente no mesmo lugar, sem avançar um passo ao futuro, sem construir nada, tendo apenas meia dúzia de palavras em seu vocabulário, nada possuindo. São a mais radical oposição a nosso mundo. Quietos, calados, se guiando em terra onde nada cresce, nada existe, nada ocorre. Imutáveis, lentos, andando sem andar e profundamente ligados as estrelas, aos sons do silêncio, aos bichos, ao pó e ao vento. Povo de pedra, de areia, de sol. Perdedores em nossa corrida; mas qual é nosso prêmio mesmo?
Anjos que são os seres terríveis que anunciam nosso nada. Jogados por nós ao limbo da indiferença. Nooteboom consegue embaralhar tudo. E consegue ser misterioso e claro. Inicia o livro com citação de Benjamim sobre pintura de Klee e encerra com John Milton falando de Adão e Eva expulsos do paraíso. Nossa nostalgia desse paraíso perdido, nossa aversão a esse paraíso perdido. E os anjos que nos cercam, sempre lá e aqui, pagam quietos e calados por nossa aversão.
Os melhores estão calados.
O livro é muito bom.
PS: Os melhores livros de nossa época são os que lutam contra nossa atitude de ver em tudo que escape do banal, o brega, o kitsch. Nosso tempo cínico e covarde, vê em tudo que procure ser relevante, ridiculo. Nooteboom nunca é ridículo. E nunca é cínico ou blasé. Por isso ele é relevante. Seus personagens fazem a transposição, penetram no oculto e nada dizem sobre o que lá encontraram. Essa é a única função da literatura hoje. Todo o resto é farmácia.
INCONSCIENTE COLETIVO- CARL GUSTAV JUNG
Deus está morto! Ao dizer isto eles mesmos ( intelectuais niilistas ) se tornam deuses- deuses enlatados, crânios de paredes grossas e coração frio. O conceito de Deus é simplesmente uma função psicológica necessária, de natureza irracional, que nada tem a ver com a questão de sua existência. A idéia de um ser divino e todo poderoso existe em toda parte. Quando não é consciente torna-se inconsciente- é arquetípico.
Por isso acho mais sábio reconhecer a realidade da idéia de Deus. Caso contrário fica em seu lugar uma outra idéia, uma coisa qualquer, asneira ou bobice total - invenções de consciencias "esclarecidas". Pobres e vazios substitutos, normalmente terminados em "ismo" : catolicismo, comunismo, capitalismo, nazismo, intelectualismo...
O homem tem todo o direito de achar sua razão belíssima. Mas ela é apenas uma faceta de seu psiquismo. E conseguirá entender apenas o que a ela compete: coisas lógicas e racionais. Todo o resto, Deus inclusive, será impossível a seu entendimento.
Tudo existe em seu contrário. Energia ou vida é a interação, conflituosa, de contrários: noite e dia, fogo e água, homem e mulher, razão e irrazão, consciente e inconsciente. Quanto mais racional se torna uma civilização, mais ela se torna fascinada por coisas irracionais ( discos voadores, astrologia, cientologia, viagens no tempo, vampiros, magia negra, religiões de mercado, livros exotéricos, drogas e álcool ), e quanto mais irracional, mais ela se torna refém da razão ( comunismo, nazismo, linhas de montagem, revolução industrial- todas construções racionais em meios regidos por irracionalidades ).
Se o homem tem uma boa relação com seus deuses ele não cai nas malhas de falsos deuses. Falsos deuses são os seres criados pela razão que procuram ocupar esse vazio. Uma religião baseada em preceitos racionais é tão prejudicial quanto uma ciência nascida no irracional. A verdadeira religião é fruto do incompreensível, do mais profundo e imutável caráter humano, daquilo que não tem tempo ou censura, do inconsciente coletivo, é aquilo que fala tanto a um europeu do século xx como a um aborígene de milhares de anos atrás.
Durante milênios o homem possuiu plena fé em deuses. Ele lidava com suas imagens interiores jogando-as para fora. Toda maldade de seu ser era projetado em demônios e todo poder em deuses e anjos. A partir do iluminismo essa crença se rompeu. Mesmo o mais beato dos cristãos passou a conhecer a dúvida. Essa rica coleção de imagens, criadas pelo inconsciente, tornaram-se prisioneiras, passaram a viver dentro do homem, trancafiadas. Jamais morrerão, são parte da vida humana como o fígado ou o reflexo do joelho. Mas o segredo de sua leitura se perdeu.
Ninguém nunca conheceu um demônio. Ou um deus. Mas todos temos essas imagens dentro de nós. Em toda cultura e desde sempre. Porque? Por que eles vivem em nós. Todos somos diabos e anjos, todos somos heróis e carrascos. São símbolos inatos que independem de nossa cultura, de nosso tempo ou de nossa história pessoal. São arquétipos.
Todo Tempo tenta preencher esses arquétipos com pessoas reais. Pessoas que cruzam o rio e se tornam mitos. Jesus Cristo é o maior desses mitos. Mas existem outros. Julio César, Napoleão, Da Vinci, Ghandi, Buda, Maomé, Alexandre, São Paulo... o que pergunto é: que mitos criamos hoje que nos ajudam a lidar com esses arquétipos? Qual a qualidade transcendental dos mitos de agora? Algum mito do século nos ajuda a caminhar entre a fronteira da vida/morte, consciente/inconsciente?
Há assunto mais fascinante?
Por isso acho mais sábio reconhecer a realidade da idéia de Deus. Caso contrário fica em seu lugar uma outra idéia, uma coisa qualquer, asneira ou bobice total - invenções de consciencias "esclarecidas". Pobres e vazios substitutos, normalmente terminados em "ismo" : catolicismo, comunismo, capitalismo, nazismo, intelectualismo...
O homem tem todo o direito de achar sua razão belíssima. Mas ela é apenas uma faceta de seu psiquismo. E conseguirá entender apenas o que a ela compete: coisas lógicas e racionais. Todo o resto, Deus inclusive, será impossível a seu entendimento.
Tudo existe em seu contrário. Energia ou vida é a interação, conflituosa, de contrários: noite e dia, fogo e água, homem e mulher, razão e irrazão, consciente e inconsciente. Quanto mais racional se torna uma civilização, mais ela se torna fascinada por coisas irracionais ( discos voadores, astrologia, cientologia, viagens no tempo, vampiros, magia negra, religiões de mercado, livros exotéricos, drogas e álcool ), e quanto mais irracional, mais ela se torna refém da razão ( comunismo, nazismo, linhas de montagem, revolução industrial- todas construções racionais em meios regidos por irracionalidades ).
Se o homem tem uma boa relação com seus deuses ele não cai nas malhas de falsos deuses. Falsos deuses são os seres criados pela razão que procuram ocupar esse vazio. Uma religião baseada em preceitos racionais é tão prejudicial quanto uma ciência nascida no irracional. A verdadeira religião é fruto do incompreensível, do mais profundo e imutável caráter humano, daquilo que não tem tempo ou censura, do inconsciente coletivo, é aquilo que fala tanto a um europeu do século xx como a um aborígene de milhares de anos atrás.
Durante milênios o homem possuiu plena fé em deuses. Ele lidava com suas imagens interiores jogando-as para fora. Toda maldade de seu ser era projetado em demônios e todo poder em deuses e anjos. A partir do iluminismo essa crença se rompeu. Mesmo o mais beato dos cristãos passou a conhecer a dúvida. Essa rica coleção de imagens, criadas pelo inconsciente, tornaram-se prisioneiras, passaram a viver dentro do homem, trancafiadas. Jamais morrerão, são parte da vida humana como o fígado ou o reflexo do joelho. Mas o segredo de sua leitura se perdeu.
Ninguém nunca conheceu um demônio. Ou um deus. Mas todos temos essas imagens dentro de nós. Em toda cultura e desde sempre. Porque? Por que eles vivem em nós. Todos somos diabos e anjos, todos somos heróis e carrascos. São símbolos inatos que independem de nossa cultura, de nosso tempo ou de nossa história pessoal. São arquétipos.
Todo Tempo tenta preencher esses arquétipos com pessoas reais. Pessoas que cruzam o rio e se tornam mitos. Jesus Cristo é o maior desses mitos. Mas existem outros. Julio César, Napoleão, Da Vinci, Ghandi, Buda, Maomé, Alexandre, São Paulo... o que pergunto é: que mitos criamos hoje que nos ajudam a lidar com esses arquétipos? Qual a qualidade transcendental dos mitos de agora? Algum mito do século nos ajuda a caminhar entre a fronteira da vida/morte, consciente/inconsciente?
Há assunto mais fascinante?
UM RIO CHAMADO TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA- MIA COUTO
Renascimento. Cruza-se um rio e do outro lado desse rio há um morto. Deve-se enterrar esse avô que não quer e não pode ser enterrado. Mas esse morto não está morto e na verdade na Ilha que existe nessa outra margem tudo é vivo.
Nesse mundo tudo ainda é um sentido e nessa Ilha toda pessoa é uma história impar. O narrador cruza esse rio e adentra a terra em que nasceu, e reencontra sua familia inteira e resgata os absurdos que dão sentido e dão vida a sua vida. Água e terra.
Penetra-se num mundo onde tudo é sonho e a realidade fertiliza-se em sentidos multiplicados. Cai-me às mãos à hora certa este livro, simples e entontecedor. Dica de amigo e que agora resolvo ler.
O avô que morre é o planeta que agoniza? A casa da origem é a Africa que se apodrece, que envelhece antes de nascer? A terra seca que vira pedra, as pessoas são orfãos que nunca tiveram lar para ter saudade, tudo é morte e ruína, mas o avô, meio morto, ensina ao neto as artes de ver e conhecer. E nós leitores, o que lemos é prenhe de imagens.
O final é uma árvore. E o rio que é o tempo que passa.
Para nós, filhos de ibéricos com acentos afros, raça que é celta, é árabe, é indígena e é escrava, o estilo de Mia Couto é como canção de ninar: familiar e cheia de sonhos nitidos. Para saxões ou francos parecerá exótico, para nós é cantiga. Uma escrita gorda de significados, de deuses e de inconsciencias coletivas, e simples como rio e como noite escura. Couve refogada e feijão branco com bucho. Uma escrita tão torta como fado e tão significante quanto tambor.
Cruza-se uma fronteira e vive-se um renascimento. Avô e tias e tios e gente da aldeia. Dores e raivas e paixões que nunca morrem. Obrigado pela dica. O moçambicano é um escritor que tem muito a dizer.
Nesse mundo tudo ainda é um sentido e nessa Ilha toda pessoa é uma história impar. O narrador cruza esse rio e adentra a terra em que nasceu, e reencontra sua familia inteira e resgata os absurdos que dão sentido e dão vida a sua vida. Água e terra.
Penetra-se num mundo onde tudo é sonho e a realidade fertiliza-se em sentidos multiplicados. Cai-me às mãos à hora certa este livro, simples e entontecedor. Dica de amigo e que agora resolvo ler.
O avô que morre é o planeta que agoniza? A casa da origem é a Africa que se apodrece, que envelhece antes de nascer? A terra seca que vira pedra, as pessoas são orfãos que nunca tiveram lar para ter saudade, tudo é morte e ruína, mas o avô, meio morto, ensina ao neto as artes de ver e conhecer. E nós leitores, o que lemos é prenhe de imagens.
O final é uma árvore. E o rio que é o tempo que passa.
Para nós, filhos de ibéricos com acentos afros, raça que é celta, é árabe, é indígena e é escrava, o estilo de Mia Couto é como canção de ninar: familiar e cheia de sonhos nitidos. Para saxões ou francos parecerá exótico, para nós é cantiga. Uma escrita gorda de significados, de deuses e de inconsciencias coletivas, e simples como rio e como noite escura. Couve refogada e feijão branco com bucho. Uma escrita tão torta como fado e tão significante quanto tambor.
Cruza-se uma fronteira e vive-se um renascimento. Avô e tias e tios e gente da aldeia. Dores e raivas e paixões que nunca morrem. Obrigado pela dica. O moçambicano é um escritor que tem muito a dizer.
O DISCURSO DO REI- TOM HOOPER ( E GEOFFREY RUSH + COLIN FIRTH )
No relançamento de VIOLÊNCIA E PAIXÃO de Visconti, o critico da Folha percebeu ao ver esse filme ( genial e contundente ) de 1975, quanto o cinema tem perdido, ano a ano, de ousadia e de profundidade. O cinema atual ( aquele feito de 1995 em diante ) exige quase nada de seu público e em troca dá migalhas de emoções superficiais e bem digestíveis. Dito isso é preciso dizer que todos os candidatos a melhor filme neste ano me decepcionaram. Eles variam dos muito falsos aos absolutamente banais. Este filme profundamente inglês é de todos eles o mais conservador, e não por acidente, aquele que dá o maior prazer.
Na relação do terapeuta de voz com um rei gago, há reflexos da relação de um psicólogo com seu paciente, de um padre com seu fiel e até de um artista com sua arte. O filme, longe de ser genial, mas digno e repleto de momentos radiantes, tem pelo menos uma cena maravilhosa: aquela em que o rei fala de sua relação com pai e irmão e se abre pela primeira vez. Vemos alí o milagre que existe no trabalho de um grande ator com um grande papel ( e sendo instigado por outro grande ator ). Colin Firth, ator que admiro desde 1994, ator que sempre cito e que meus amigos mal davam bola, ator que já fora genial em seu Darcy, que fora excelente até em filmes simples como Simplesmente Amor ou Mamma Mia, faz com voz e face uma sinfonia de dor. Mas Firth mostra a dor como peça de ourivesaria, esse ator completo consegue mostrar a dor em surdina, uma dor discreta, doída, gotejante, inconsciente. Geoffrey Rush o acompanha a altura. O seu tipo, um ator frustrado que ajuda os outros a ter voz, tem fragilidade e loucura, alegria e melancolia. O filme nos dá a dádiva de os poder admirar. ( E ainda tem Derek Jacobi, Anthony Andrews e Helena Bonham-Carter, todos maravilhosos. E em discreta passagem, a grande e fulgurante Claire Bloom ).
Tom Hooper, diretor do muito bom Malditos United ( critica escrita e catalogada por aí ), dirige com segurança, mas sem grande ousadia. Visualmente o filme se parece com tv. Tudo é pequeno e em close. É um filme deste tempo: pequeno. Mas os atores e o bom texto o levam para o alto. Conseguem me fazer recordar essa coisa chamada "cinema inglês". O que é o cinema inglês típico?
Recordo de O MENSAGEIRO. Foi o primeiro filme tipicamente inglês que ví. Aos 15 anos. O filme tipico inglês tem sempre excelentes atores. Dos protagonistas até o porteiro da mansão em seu papel sem falas, todos são perfeitos. Têm voz, sabem usar o olhar e conseguem parecer elegantes com roupas de operário ou à vontade de fraque e cartola. Nesse tipo de filme sempre há uma cena de chuva, de neblina e as bocas exalam vapor. As falas são ditas com cuidado, sem pressa, com gosto. Chá e táxis ( ou charretes ) e casas velhas mofadas. A fotografia é sempre amarelada, com raios de sol caindo entre folhas. E todos eles, sem excessão, propagam amor aos seus atores. Fernanda Montenegro sempre diz que todo ator inglês é genial. São pessoas que crescem declamando Shakespeare, lendo Dickens e Jane Austen, tendo uma tradição de segurança e autoridade nos palcos que vai de John Gielgud a Peter O'Toole, passando por Olivier, todos os Redgraves, Day-Lewis, Jeremy Irons, Richard Burton, Rex Harrison, James Mason, e mais uma lista infinita que engloba Helen Mirren e Judi Dench, Julie Christie e Vivien Leigh. Com Colin Firth e Geoffrey Rush, essa tradição ( que eles amam ) fica viva e bem representada. ( Rush é australiano. Mas caso voce não saiba, a Australia tem uma das mais ricas tradições "anglófilas" em teatro. Desde a época de Peter Finch. )
Voltando a este bom filme.
O que se passa com a monarquia? É o segundo filme em pouco tempo ( o outro é A RAINHA, magnífico ) a exaltar a figura do monarca. Me parece que a Inglaterra, adivinhando sua inerente irrelevância futura, começa, felizmente, a dar o justo valor a Elizabeth, George e Vitória. Símbolos de toda uma nação, de uma opção, de um modo de ser e de estar no mundo. Quando a monarquia inglesa se for, mesmo tendo tido Henriques, Eduardos e Charles medíocres, teremos a noção clara do que toda aquela aparente inutilidade queria dizer e assegurar.
Há uma cena perto do fim do filme que me emocionou profundamente. É uma fala do rei George, ao som do Quinto concerto para piano de Beethoven. Nessa cena há algo de doloroso, de constatação de fim, de glorioso e decadente. É cena para se rever e rever.
Antítese do filme do sempre oportuno ( oportunista? ) Fincher, este filme perderá seus prêmios Oscar para a tal rede. Mas se Colin perder, mesmo que seja para Jeff Bridges, haverá uma injustiça Richard Burtoniana na noite. O que ele faz neste papel me recordou Michael Redgrave. Não é pouco.
Na relação do terapeuta de voz com um rei gago, há reflexos da relação de um psicólogo com seu paciente, de um padre com seu fiel e até de um artista com sua arte. O filme, longe de ser genial, mas digno e repleto de momentos radiantes, tem pelo menos uma cena maravilhosa: aquela em que o rei fala de sua relação com pai e irmão e se abre pela primeira vez. Vemos alí o milagre que existe no trabalho de um grande ator com um grande papel ( e sendo instigado por outro grande ator ). Colin Firth, ator que admiro desde 1994, ator que sempre cito e que meus amigos mal davam bola, ator que já fora genial em seu Darcy, que fora excelente até em filmes simples como Simplesmente Amor ou Mamma Mia, faz com voz e face uma sinfonia de dor. Mas Firth mostra a dor como peça de ourivesaria, esse ator completo consegue mostrar a dor em surdina, uma dor discreta, doída, gotejante, inconsciente. Geoffrey Rush o acompanha a altura. O seu tipo, um ator frustrado que ajuda os outros a ter voz, tem fragilidade e loucura, alegria e melancolia. O filme nos dá a dádiva de os poder admirar. ( E ainda tem Derek Jacobi, Anthony Andrews e Helena Bonham-Carter, todos maravilhosos. E em discreta passagem, a grande e fulgurante Claire Bloom ).
Tom Hooper, diretor do muito bom Malditos United ( critica escrita e catalogada por aí ), dirige com segurança, mas sem grande ousadia. Visualmente o filme se parece com tv. Tudo é pequeno e em close. É um filme deste tempo: pequeno. Mas os atores e o bom texto o levam para o alto. Conseguem me fazer recordar essa coisa chamada "cinema inglês". O que é o cinema inglês típico?
Recordo de O MENSAGEIRO. Foi o primeiro filme tipicamente inglês que ví. Aos 15 anos. O filme tipico inglês tem sempre excelentes atores. Dos protagonistas até o porteiro da mansão em seu papel sem falas, todos são perfeitos. Têm voz, sabem usar o olhar e conseguem parecer elegantes com roupas de operário ou à vontade de fraque e cartola. Nesse tipo de filme sempre há uma cena de chuva, de neblina e as bocas exalam vapor. As falas são ditas com cuidado, sem pressa, com gosto. Chá e táxis ( ou charretes ) e casas velhas mofadas. A fotografia é sempre amarelada, com raios de sol caindo entre folhas. E todos eles, sem excessão, propagam amor aos seus atores. Fernanda Montenegro sempre diz que todo ator inglês é genial. São pessoas que crescem declamando Shakespeare, lendo Dickens e Jane Austen, tendo uma tradição de segurança e autoridade nos palcos que vai de John Gielgud a Peter O'Toole, passando por Olivier, todos os Redgraves, Day-Lewis, Jeremy Irons, Richard Burton, Rex Harrison, James Mason, e mais uma lista infinita que engloba Helen Mirren e Judi Dench, Julie Christie e Vivien Leigh. Com Colin Firth e Geoffrey Rush, essa tradição ( que eles amam ) fica viva e bem representada. ( Rush é australiano. Mas caso voce não saiba, a Australia tem uma das mais ricas tradições "anglófilas" em teatro. Desde a época de Peter Finch. )
Voltando a este bom filme.
O que se passa com a monarquia? É o segundo filme em pouco tempo ( o outro é A RAINHA, magnífico ) a exaltar a figura do monarca. Me parece que a Inglaterra, adivinhando sua inerente irrelevância futura, começa, felizmente, a dar o justo valor a Elizabeth, George e Vitória. Símbolos de toda uma nação, de uma opção, de um modo de ser e de estar no mundo. Quando a monarquia inglesa se for, mesmo tendo tido Henriques, Eduardos e Charles medíocres, teremos a noção clara do que toda aquela aparente inutilidade queria dizer e assegurar.
Há uma cena perto do fim do filme que me emocionou profundamente. É uma fala do rei George, ao som do Quinto concerto para piano de Beethoven. Nessa cena há algo de doloroso, de constatação de fim, de glorioso e decadente. É cena para se rever e rever.
Antítese do filme do sempre oportuno ( oportunista? ) Fincher, este filme perderá seus prêmios Oscar para a tal rede. Mas se Colin perder, mesmo que seja para Jeff Bridges, haverá uma injustiça Richard Burtoniana na noite. O que ele faz neste papel me recordou Michael Redgrave. Não é pouco.
PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE- CARL GUSTAV JUNG
A ênfase é toda dada a criatividade. Curar uma neurose é dar ao paciente a possibilidade de exercer sua criatividade ( pois neurose nada mais é que o empobrecimento da vida psíquica ). Vem daí a maior crítica às outras correntes psicológicas da época: elas se contentavam com o esclarecimento e o apaziguamento dos sintomas. Interrompiam a cura em terreno seguro, deixavam de procurar a individuação do paciente. Negavam os riscos ( que são imensos ).
Nietzsche, assim como Freud e como o próprio Jung, é um exemplo da neurose pessoal como neurose de sua época. Pois TODO neurótico traz em si a neurose do tempo em que vive. O doente vive na carne e de forma explícita aquilo que toda a sociedade vive de forma velada e não consciente. E uma das mais tristes formas de doença de nosso tempo é a dessacralização das manifestações de Dionisio. Observe como toda energia inconsciente quando liberada pela sociedade ( saudávelmente ) logo vai se enfraquecendo e perdendo todo seu aspecto livre e irracional. Jung cita as religiões pagãs, logo domesticadas pelo cristianismo, mas eu penso então, de forma mais corriqueira, naquilo que o carnaval foi e no que ele é hoje. De alegria e liberdade irrefletida, transforma-se em organização fria e comercial. O mesmo pode ser dito do rock ( onde hoje aquele espírito anárquico e sem sentido? ), das drogas ( que de caminho para o inconsciente se transformaram em via para a alienação ) e do sexo ( a liberdade sexual nos tornou mais felizes? O sexo é um ritual de crescimento ou se tornou apenas uma função fisiológica? ). Todo caráter dionisíaco sempre é desvirtuado, mas, não se engane, é imortal. E se nosso tempo não aceita ou teme sua manifestação, ele surgirá então como doença, depressão, guerra ou a simples banalização do espírito. Espírito que é tudo aquilo que faz a vida valer a pena, e ao mesmo tempo é o que mais tememos. Pois espírito é inconsciente coletivo e insconsciente significa despersonalização, não-controle, esquecimento, significa deixar de ser aquilo que se é, morte de certezas e de crenças, transformação absoluta. Cabe ao terapeuta, com conhecimento responsável de religião e história, antropologia e filosofia, caminhar com o paciente rumo a esse reino indomado e indomável. Sabendo que o inconsciente não será jamais domado, será isto sim, experimentado e aceito. Ao contrário do Freudianismo, Jung não fala jamais em sublimação ou iluminação de trevas, ele fala de humildade perante a psique e de liberação do si-mesmo, seja ele o que for.
Será que vale a pena eu tentar explicar a anima? A serpente? O que significa a mulher? A feminilidade que vive em nós e que é a força que faz a ponte com nosso inconsciente pessoal? O animus, a força masculina que mora nas mulheres, o ideal masculino, símbolo de eterno conflito e de engano? A serpente como ser simbólico que dá a possibilidade de liberdade e ao mesmo tempo de perda absoluta? Não falarei. Leia o livro e tente vivenciar.
Prefiro falar o que sempre acreditei e agora encontro escrito diante de meus olhos. ( O que confirma uma das crenaças junguianas: a de que o inconsciente cria aquilo que nos é real. Esse um dos postulados mais complexos de Jung e dos mais difamados pelos que não o leram ). O que leio é que o sexo é apenas um dos milhares de fatores que formam a psique. Reduzir tudo a pulsão sexual, a sublimação de desejo sexual, é exatamente isso: redução, modo astuto de não encarar a falta de controle, a sombra, a irracionalidade da mente. Sexo é importante, mas não é a única energia. Um mundo com sexo livre e sem tabús seria apenas isso: um mundo de sexo livre e sem tabús. O inconsciente continuaria desconhecido, as neuroses vicejando e a criatividade amordaçada. Na verdade a psique é uma multidão de energias, vivendo com seus opostos, sempre em desequilíbrio, sempre em busca desse equilíbrio. O equilíbrio é impossível, pois seria a morte, mas viver é a busca desse equilíbrio. O começo do conhecimento é reconhecer esse não-controle.
O trabalho do terapeuta não é aplacar a dor, é sim, percorrer com o paciente esse caminho entre conciente e inconsciente, dar acesso as imagens impessoais da mente, fazer com que seja reconhecida a sombra e o horror que vivem dentro de sua mente ( independente de sua vontade ) e dar ao paciente a possibilidade do sim e do não. Sim ao risco de viver, ao encontro com o si-mesmo, criatividade particular e característica única de cada humano.
Para Jung então, arte não é sublimação de nada. Arte é inconsciente, é transformação de código obscuro em comunicação, é mergulho em arcaísmos e sonhos, é possessão. Penso então em Stendhal e seus delirios de amor, em Mozart e seus passeios pelo céu, em Tolstoi e sua procura pelo sublime. Eles não são neuróticos que sublimaram um trauma e o fizeram arte, antes foram homens como eu e voce, mas que conseguiram mergulhar na sombra e de lá voltar com as imagens comuns a todos nós.
Livro fascinante e faiscante, vivo e simples, tem me feito imenso bem, tem me inspirado, vivificado e me dado sonhos límpidos e risonhos. A corrente junguiana é perfeita para aqueles que sentem amor pela busca, pela criação, pelo inesperado e pela viagem mental sem bússola. Reconheço que é um tipo de terapia ineficaz para crianças e homens apressados, mas para quem vive em curiosidade, para os fascinados por arte e filosofia, nada é melhor.
Nietzsche, assim como Freud e como o próprio Jung, é um exemplo da neurose pessoal como neurose de sua época. Pois TODO neurótico traz em si a neurose do tempo em que vive. O doente vive na carne e de forma explícita aquilo que toda a sociedade vive de forma velada e não consciente. E uma das mais tristes formas de doença de nosso tempo é a dessacralização das manifestações de Dionisio. Observe como toda energia inconsciente quando liberada pela sociedade ( saudávelmente ) logo vai se enfraquecendo e perdendo todo seu aspecto livre e irracional. Jung cita as religiões pagãs, logo domesticadas pelo cristianismo, mas eu penso então, de forma mais corriqueira, naquilo que o carnaval foi e no que ele é hoje. De alegria e liberdade irrefletida, transforma-se em organização fria e comercial. O mesmo pode ser dito do rock ( onde hoje aquele espírito anárquico e sem sentido? ), das drogas ( que de caminho para o inconsciente se transformaram em via para a alienação ) e do sexo ( a liberdade sexual nos tornou mais felizes? O sexo é um ritual de crescimento ou se tornou apenas uma função fisiológica? ). Todo caráter dionisíaco sempre é desvirtuado, mas, não se engane, é imortal. E se nosso tempo não aceita ou teme sua manifestação, ele surgirá então como doença, depressão, guerra ou a simples banalização do espírito. Espírito que é tudo aquilo que faz a vida valer a pena, e ao mesmo tempo é o que mais tememos. Pois espírito é inconsciente coletivo e insconsciente significa despersonalização, não-controle, esquecimento, significa deixar de ser aquilo que se é, morte de certezas e de crenças, transformação absoluta. Cabe ao terapeuta, com conhecimento responsável de religião e história, antropologia e filosofia, caminhar com o paciente rumo a esse reino indomado e indomável. Sabendo que o inconsciente não será jamais domado, será isto sim, experimentado e aceito. Ao contrário do Freudianismo, Jung não fala jamais em sublimação ou iluminação de trevas, ele fala de humildade perante a psique e de liberação do si-mesmo, seja ele o que for.
Será que vale a pena eu tentar explicar a anima? A serpente? O que significa a mulher? A feminilidade que vive em nós e que é a força que faz a ponte com nosso inconsciente pessoal? O animus, a força masculina que mora nas mulheres, o ideal masculino, símbolo de eterno conflito e de engano? A serpente como ser simbólico que dá a possibilidade de liberdade e ao mesmo tempo de perda absoluta? Não falarei. Leia o livro e tente vivenciar.
Prefiro falar o que sempre acreditei e agora encontro escrito diante de meus olhos. ( O que confirma uma das crenaças junguianas: a de que o inconsciente cria aquilo que nos é real. Esse um dos postulados mais complexos de Jung e dos mais difamados pelos que não o leram ). O que leio é que o sexo é apenas um dos milhares de fatores que formam a psique. Reduzir tudo a pulsão sexual, a sublimação de desejo sexual, é exatamente isso: redução, modo astuto de não encarar a falta de controle, a sombra, a irracionalidade da mente. Sexo é importante, mas não é a única energia. Um mundo com sexo livre e sem tabús seria apenas isso: um mundo de sexo livre e sem tabús. O inconsciente continuaria desconhecido, as neuroses vicejando e a criatividade amordaçada. Na verdade a psique é uma multidão de energias, vivendo com seus opostos, sempre em desequilíbrio, sempre em busca desse equilíbrio. O equilíbrio é impossível, pois seria a morte, mas viver é a busca desse equilíbrio. O começo do conhecimento é reconhecer esse não-controle.
O trabalho do terapeuta não é aplacar a dor, é sim, percorrer com o paciente esse caminho entre conciente e inconsciente, dar acesso as imagens impessoais da mente, fazer com que seja reconhecida a sombra e o horror que vivem dentro de sua mente ( independente de sua vontade ) e dar ao paciente a possibilidade do sim e do não. Sim ao risco de viver, ao encontro com o si-mesmo, criatividade particular e característica única de cada humano.
Para Jung então, arte não é sublimação de nada. Arte é inconsciente, é transformação de código obscuro em comunicação, é mergulho em arcaísmos e sonhos, é possessão. Penso então em Stendhal e seus delirios de amor, em Mozart e seus passeios pelo céu, em Tolstoi e sua procura pelo sublime. Eles não são neuróticos que sublimaram um trauma e o fizeram arte, antes foram homens como eu e voce, mas que conseguiram mergulhar na sombra e de lá voltar com as imagens comuns a todos nós.
Livro fascinante e faiscante, vivo e simples, tem me feito imenso bem, tem me inspirado, vivificado e me dado sonhos límpidos e risonhos. A corrente junguiana é perfeita para aqueles que sentem amor pela busca, pela criação, pelo inesperado e pela viagem mental sem bússola. Reconheço que é um tipo de terapia ineficaz para crianças e homens apressados, mas para quem vive em curiosidade, para os fascinados por arte e filosofia, nada é melhor.
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