Michel Houellebecq é o cara. É o único escritor que realmente escreve sobre aquilo que o mundo é agora. Seu mundo é meu.
Para ele, nós apenas comemos, dormimos, transamos, trabalhamos e morremos. Mais nada. É um mundo sem heróis, sem deuses, sem qualquer transcendencia, reduzido ao nada.
Saiu um texto sobre ele na Folha de 3/10. Eu conheci Michel através de Iggy Pop. Sim, Iggy gravou um disco inteiro sobre Houellebecq. Iggy pensa ser ele o cara. Em mundo cada vez mais árido e vazio, só podia ser um francês o cronista deste tempo de mierda.
Partículas Elementares e A Possibilidade de Uma Ilha. São seus livros ( por enquanto ). Não se engane, voce vai ouvir falar muito dele ainda.
Mas não pense que eu o considere Grande.
Não lava os pés de Saul Bellow ou de Sebald. Mas o problema é que Sebald e Bellow estão mortos. Assim como Updike. Dos vivos, Le Clezio tem um estilo melhor, Roth é mais elaborado e criativo, e Coetzee é muito mais "escritor". Perto desses caras, Michel é tosco.
Porém é sua a escrita do século que nasce e já está gasto. A ruindade de Houellebecq é a ruindade da França/Europa/Terra de agora-já. Um desencantado fedendo a fumaça e a calor sudorífico. A água evapora, e com ela a poesia. Abrimos mão de tudo o que é subjetivo. A alma se vai com isso.
É tempo de Michel Houellebecq.
GUERRA!!!!!!!! ( TALVEZ ESTE SEJA MEU MELHOR TEXTO )
Frase de Thomas Mann: A Alemanha tem o direito de lutar por seus direitos de dominação e administração do planeta.
Frase de Freud: Eu dou toda a minha libido à Austria-Hungria!
Frase de Robert Musil: A guerra é bela e fraternal....
Alegremente, com sorriso no rosto e flores nas mãos ( dadas por belas moças ) soldados em 1914 foram fazer uma guerrinha logo alí. Pensavam que ainda era época napoleônica. Que se capturaria o general inimigo e se assinaria um pacto de não agressão. Quando abriram os olhos, após 4 anos de miséria, viram que dez milhões de jovens haviam morrido, e pior, que vinte milhões estavam destruídos para a vida, e pior ainda, que o mundo estava literalmente fodido.
Abriu-se uma chaga no psiquismo humano. O mundo ordenado de duques e condes, de burguesia que aspirava a ser "nobre" ruiu. O que veio foi a tomada de poder pelos revanchistas,´pelos radicais, pelos esquisitos. A Europa deixa de ser centro. Está esfacelada e dependente dos EUA. Fim.
Se o homem pode ser tão destrutivo e se a ciência pode ser tão danosa, se o bem que a era vitoriana anunciava era ilusório, e pior, se o europeu pode ser tão bárbaro quanto os povos dominados da África/Ásia; então tudo que nos resta é correr. Vamos beber, dançar, gozar agora, viver já, pois TUDO PODE SER DESTRUÍDO.
Pela primeira vez o homem vê o que significa DESTRUIÇÃO.
Arte e vida se tornam anúncio de destruição. Fé no homem, jamais outra vez.
Agora olho uma foto de outra guerra.
Nela, um grupo de judeus recèm libertos me olham. Livres de um lugar onde se matava industrialmente e com modos e motivos baseados na racionalidade. Eles me olham e mudos me acusam. A culpa não é dos nazis, nem dos alemães. Nazis e alemães são humanos como eu. A culpa é do mundo que construiu nazis e alemães. A culpa é do ocidente, da ciência, da filosofia, da arte, da América, de latinos e de nórdicos. A culpa é nossa.
Aniquilação final do psiquismo: o homem como monstro racional. A racionalidade como insensibilidade.
A segunda-guerra bateu forte demais. O mundo acabou alí. Hiroxima foi seu epitáfio.
Após o pesadelo o mundo acorda e nega esse sonho maldito.
Passado não mais. Eu e voce desistimos de pensar. Toda a velocidade à frente!!!!!
Se nós podemos construir uma máquina de matar e um matadouro humano, então só nos resta correr. NÃO SE APEGUE A NADA. NÃO ACREDITE EM NADA. TUDO É DO MAL.
Um amigo acabou de voltar da Europa.
Bacana, legal, aquele povo que festeja, consome e viaja por aí fazendo o bem em ongs.
Aquele insignificante povo, povo que sabe morar em lugar traumatizado, onde tudo é negação, onde se vive como bezerrinhos em boa manjedoura. Continente que morreu, sem futuro, onde tudo é um shopping de passado e um presente leve e irreal.
Que importância eles têm hoje?
O futuro se decide na América, na China, no Oriente.
Após a carnificina a Europa se tornou insignificante e irreal. Divaga em teorias, flerta com o nada, festeja a derrota. Moços e moças, tão bonitos, tão bonzinhos, tão sem destino, nada têm a acrescentar.
A terra de beethovens e de rembrandts é uma sala de azulejos e de aço: limpa, fria, onde se curam vícios, onde se dá um remédio.
A segunda-guerra nos aniquilou.
Europa é terra de impotências.
MAS.....
Há a taça de champagne bebida de manhã no campo francês. O sol nascendo e o cheiro das uvas no ar. Há para quem souber saber, o sabor do pão e da manteiga gordurosa.
Existe ainda um velho espanhol tomando sol na praça de Madrid. Ele ainda tosse e crê nos anarquistas. Mas esse velho fala entre ruínas. Quem passa é de pedra e de sal. Mas esse velho ainda fala e compra jámon na feira de rua. ( E como é linda a feira de rua ).
O Zé e o Luis ainda se jogam no rio Douro ( se fala Doiro ) na cidade que é um Porto. Ainda se pode fechar os olhos e ouvir as vozes que ecoam meus avós. "Ó Jórggge!", "Fala aí, ó Mánuel !!!"
Se voce souber ver existem migalhas de um mundo que já foi e ainda tenta o ser. ( Não consegue ).
Quando a primeira metralhadora disparou na Bélgica, não foram apenas vinte jovens franceses que morreram. Não foi apenas Jacques que deixou de beijar Marie, ou Ludovic que não mais escreveria à Isabelle. Aquela rajada fez com que eu não mais pudesse crer na bondade do homem, pudesse ter a certeza de que o mundo caminha para o bem e para a paz, e matou minha fé no cavalheirismo e na honra natural de todo bom cidadão.
Quando aquelas balas penetraram em Jacques e em Ludovic, penetraram em mim.
Que os olhares dos judeus me perdoem um dia.
Frase de Freud: Eu dou toda a minha libido à Austria-Hungria!
Frase de Robert Musil: A guerra é bela e fraternal....
Alegremente, com sorriso no rosto e flores nas mãos ( dadas por belas moças ) soldados em 1914 foram fazer uma guerrinha logo alí. Pensavam que ainda era época napoleônica. Que se capturaria o general inimigo e se assinaria um pacto de não agressão. Quando abriram os olhos, após 4 anos de miséria, viram que dez milhões de jovens haviam morrido, e pior, que vinte milhões estavam destruídos para a vida, e pior ainda, que o mundo estava literalmente fodido.
Abriu-se uma chaga no psiquismo humano. O mundo ordenado de duques e condes, de burguesia que aspirava a ser "nobre" ruiu. O que veio foi a tomada de poder pelos revanchistas,´pelos radicais, pelos esquisitos. A Europa deixa de ser centro. Está esfacelada e dependente dos EUA. Fim.
Se o homem pode ser tão destrutivo e se a ciência pode ser tão danosa, se o bem que a era vitoriana anunciava era ilusório, e pior, se o europeu pode ser tão bárbaro quanto os povos dominados da África/Ásia; então tudo que nos resta é correr. Vamos beber, dançar, gozar agora, viver já, pois TUDO PODE SER DESTRUÍDO.
Pela primeira vez o homem vê o que significa DESTRUIÇÃO.
Arte e vida se tornam anúncio de destruição. Fé no homem, jamais outra vez.
Agora olho uma foto de outra guerra.
Nela, um grupo de judeus recèm libertos me olham. Livres de um lugar onde se matava industrialmente e com modos e motivos baseados na racionalidade. Eles me olham e mudos me acusam. A culpa não é dos nazis, nem dos alemães. Nazis e alemães são humanos como eu. A culpa é do mundo que construiu nazis e alemães. A culpa é do ocidente, da ciência, da filosofia, da arte, da América, de latinos e de nórdicos. A culpa é nossa.
Aniquilação final do psiquismo: o homem como monstro racional. A racionalidade como insensibilidade.
A segunda-guerra bateu forte demais. O mundo acabou alí. Hiroxima foi seu epitáfio.
Após o pesadelo o mundo acorda e nega esse sonho maldito.
Passado não mais. Eu e voce desistimos de pensar. Toda a velocidade à frente!!!!!
Se nós podemos construir uma máquina de matar e um matadouro humano, então só nos resta correr. NÃO SE APEGUE A NADA. NÃO ACREDITE EM NADA. TUDO É DO MAL.
Um amigo acabou de voltar da Europa.
Bacana, legal, aquele povo que festeja, consome e viaja por aí fazendo o bem em ongs.
Aquele insignificante povo, povo que sabe morar em lugar traumatizado, onde tudo é negação, onde se vive como bezerrinhos em boa manjedoura. Continente que morreu, sem futuro, onde tudo é um shopping de passado e um presente leve e irreal.
Que importância eles têm hoje?
O futuro se decide na América, na China, no Oriente.
Após a carnificina a Europa se tornou insignificante e irreal. Divaga em teorias, flerta com o nada, festeja a derrota. Moços e moças, tão bonitos, tão bonzinhos, tão sem destino, nada têm a acrescentar.
A terra de beethovens e de rembrandts é uma sala de azulejos e de aço: limpa, fria, onde se curam vícios, onde se dá um remédio.
A segunda-guerra nos aniquilou.
Europa é terra de impotências.
MAS.....
Há a taça de champagne bebida de manhã no campo francês. O sol nascendo e o cheiro das uvas no ar. Há para quem souber saber, o sabor do pão e da manteiga gordurosa.
Existe ainda um velho espanhol tomando sol na praça de Madrid. Ele ainda tosse e crê nos anarquistas. Mas esse velho fala entre ruínas. Quem passa é de pedra e de sal. Mas esse velho ainda fala e compra jámon na feira de rua. ( E como é linda a feira de rua ).
O Zé e o Luis ainda se jogam no rio Douro ( se fala Doiro ) na cidade que é um Porto. Ainda se pode fechar os olhos e ouvir as vozes que ecoam meus avós. "Ó Jórggge!", "Fala aí, ó Mánuel !!!"
Se voce souber ver existem migalhas de um mundo que já foi e ainda tenta o ser. ( Não consegue ).
Quando a primeira metralhadora disparou na Bélgica, não foram apenas vinte jovens franceses que morreram. Não foi apenas Jacques que deixou de beijar Marie, ou Ludovic que não mais escreveria à Isabelle. Aquela rajada fez com que eu não mais pudesse crer na bondade do homem, pudesse ter a certeza de que o mundo caminha para o bem e para a paz, e matou minha fé no cavalheirismo e na honra natural de todo bom cidadão.
Quando aquelas balas penetraram em Jacques e em Ludovic, penetraram em mim.
Que os olhares dos judeus me perdoem um dia.
YOJIMBO- AKIRA KUROSAWA e TOSHIRO MIFUNE
Um samurai anda por caminho deserto. Joga um graveto ao ar, ele cai e o samurai segue a direção que o acaso indicou. Ele se coça, é sujo. Entra em vila e vê um cão vindo com mão humana na boca. A história promete.
Yojimbo, quando lançado, foi o maior sucesso da vida de Kurosawa. Àquela altura ele já era famoso e já havia assumido sua dívida para John Ford. Mas este filme vai além de Ford- mistura mangá com western, comédia com drama shakespeariano.
O samurai faz jogo duplo com duas famílias rivais. Toshiro Mifune faz esse herói. Ele passa o filme falando só o básico, o necessário. Ele come sempre com muita fome, bebe com sede e dorme com avidez. Quer dinheiro, se coça e boceja muito. É preguiçoso. Mas jamais deixa de ser um herói.
Existem certas atuações ( raras ) que marcam um novo rumo. Foi assim com Brando em UM BONDE... e com Bogart em CASABLANCA. Mifune inventa aqui Clint Eastwood, Steve McQueen e até Wolverine. Clint diz sempre ser este seu filme favorito. O assistiu em 1961 e sentiu estar ali tudo o que desejava fazer. JOSEY WALES, THE BAD e até OS IMPERDOÀVEIS têm rastros de Yojimbo. E claro, POR UM PUNHADO DE DÓLARES é a refilmagem de Yojimbo.
Kurosawa dirige com precisão de mestre. A câmera nunca está onde esperamos e cada enquadramento tem a marca de um estilo único. É o primeiro filme feito com design de HQ e ainda é o mais sofisticado.
O final, duelo à western em rua poeirenta, é de antologia. Um dos grandes finais da história do cinema. E com a trilha percussiva que voce nunca esquecerá.
Mifune/Akira/Yojimbo, o que mais se pode querer ?
Yojimbo, quando lançado, foi o maior sucesso da vida de Kurosawa. Àquela altura ele já era famoso e já havia assumido sua dívida para John Ford. Mas este filme vai além de Ford- mistura mangá com western, comédia com drama shakespeariano.
O samurai faz jogo duplo com duas famílias rivais. Toshiro Mifune faz esse herói. Ele passa o filme falando só o básico, o necessário. Ele come sempre com muita fome, bebe com sede e dorme com avidez. Quer dinheiro, se coça e boceja muito. É preguiçoso. Mas jamais deixa de ser um herói.
Existem certas atuações ( raras ) que marcam um novo rumo. Foi assim com Brando em UM BONDE... e com Bogart em CASABLANCA. Mifune inventa aqui Clint Eastwood, Steve McQueen e até Wolverine. Clint diz sempre ser este seu filme favorito. O assistiu em 1961 e sentiu estar ali tudo o que desejava fazer. JOSEY WALES, THE BAD e até OS IMPERDOÀVEIS têm rastros de Yojimbo. E claro, POR UM PUNHADO DE DÓLARES é a refilmagem de Yojimbo.
Kurosawa dirige com precisão de mestre. A câmera nunca está onde esperamos e cada enquadramento tem a marca de um estilo único. É o primeiro filme feito com design de HQ e ainda é o mais sofisticado.
O final, duelo à western em rua poeirenta, é de antologia. Um dos grandes finais da história do cinema. E com a trilha percussiva que voce nunca esquecerá.
Mifune/Akira/Yojimbo, o que mais se pode querer ?
O MENSAGEIRO- JOSEPH LOSEY E HAROLD PINTER, filme obrigatório para os que pensam
Água de chuva escorre em janela. É a primeira cena deste que é o mais perfeito retrato da era vitoriana. Porque não se atém apenas ao charme ou ao ridículo da época. Ele exibe a crueldade.
Um adolescente vai passar o verão em casa de muito rico e esnobe amigo. Sutilmente percebemos que por ele não ser tão "alta classe" como todos os outros, olham-no com curiosidade, condescendencia, e logo fazem dele "um ser util". Afinal, lhe outorgaram o privilégio de os frequentar.
O menino se apaixona pela irmã mais velha do amigo. Como estamos em 1900, nada sabe sobre amor, namoro ou sexo. É usado pela irmã, que percebe esse amor juvenil. Pois ela tem um caso com o vizinho, um muito grosso, muito sujo e muito sexy plebeu. Fazem então do menino o mensageiro de seu caso secreto. Caso recheado de sexo, caso à D.H.Lawrence. Nesse processo, o menino quase enlouquece.
Todo o sistema de classes inglês é exposto. Os dandys vivem em seu mundinho de charutos, jantares, e total incompetência para a vida. Mas se vêem como muito especiais e detém o dinheiro e os direitos. O vizinho aluga as terras dos "nobres". Esse é o sistema. É ele quem produz a terra, quem gera riqueza, quem tem idéias e quem tem ambição. Os dandys recebem seu aluguel. Ao menino, que não é dandy ou arrendatário, que nada sabe e não sabe querer, resta o anódino papel de mensageiro.
A moça acha no vizinho aquilo que não terá com seu noivo: animalidade. Mas a sociedade vencerá. Ao mensageiro resta confusão e amargor. Bem-vindo à vida!
Poucos filmes tiveram elenco tão perfeito. Julie Christie faz a moça. Bela e fria como aço. Ela é toda egoísmo. Atriz mais que perfeita, atriz que esnobou o star-system, ela, aqui no auge da fama, logo diminuiria suas aparições. Optaria por viver.
Alan Bates faz o vizinho. E ele tem toda a animalidade que o papel requer. Para esse tipo, que é o personagem que na verdade fez a riqueza do império, Bates é imbatível.
Temos ainda Margaret Leighton como a mãe ultra esnobe. Terrível em suas suspeitas, essa atriz de longa carreira está assustadoramente ultra-classe. Edward Fox faz o noivo, um bem intencionado e meio aéreo dandy, ferido de guerra.
E numa pequena aparição temos esse fenômeno da natureza chamado Michael Redgrave. O pai de Vanessa nos comove como o menino nos dias de hoje. Seu olhar, olhar parvo, tolo, de ainda apaixonado, de quem arruinou sua vida, é inesquecível. Com um olhar apenas, Sir Michael diz toda a tragédia de sua não-vida. Um gênio.
Poucos filmes têm um Nobel em sua equipe. Harold Pinter, nobel de 2005, fez o roteiro ( baseado em L P Hartley ) à seu modo: cruel, ferino e de poucos diálogos. Nada de panfletagem: tudo é subentendido. O roteiro brilha em chamas.
A trilha sonora de Michel Legrand é feita de fugas à Bach. Talvez a mais bela das trilhas. A música tema é obra de mestre erudito consumado. Perfeição.
A fotografia é do mestre Gerry Fisher, mestre que fotografou 2001 de Kubrick. Os campos, as casas, as roupas, os céus são quadros de retratistas ingleses, mas atenção!!!! Jamais têm aquele jeito arrumadinho demais, nunca parecem "moda".
Joseph Losey é um diretor americano de esquerda que fugiu do país no MacCarthismo. Se adaptou muito bem à Inglaterra, se tornando um dos melhores diretores ingleses da época ( 1960/1977 ). Ele tinha um soberbo senso visual e uma ferina ambição. Seus filmes são sempre ácidos e estranhamente etéreos.
O Mensageiro venceu Cannes em 1971.
Losey, Legrand, Pinter, Fisher, Julie, Redgrave, Leighton, Bates e Fox. Onde achar hoje uma equipe assim????
Ps. Foi este filme, visto na Globo em 1977 que me acendeu o amor por Julie Christie. Me vi como aquele menino mensageiro. Mais importante, me apaixonei não só por ela, mas pela música superior de Legrand e pelo cinema. Se hoje escrevo sobre filmes, muito se deve a este filme.
Sua primeira frase ( dita por Sir Michael ): " O passado é um país distante. Visitá-lo é sempre conhecer um lugar desconhecido. "
Um adolescente vai passar o verão em casa de muito rico e esnobe amigo. Sutilmente percebemos que por ele não ser tão "alta classe" como todos os outros, olham-no com curiosidade, condescendencia, e logo fazem dele "um ser util". Afinal, lhe outorgaram o privilégio de os frequentar.
O menino se apaixona pela irmã mais velha do amigo. Como estamos em 1900, nada sabe sobre amor, namoro ou sexo. É usado pela irmã, que percebe esse amor juvenil. Pois ela tem um caso com o vizinho, um muito grosso, muito sujo e muito sexy plebeu. Fazem então do menino o mensageiro de seu caso secreto. Caso recheado de sexo, caso à D.H.Lawrence. Nesse processo, o menino quase enlouquece.
Todo o sistema de classes inglês é exposto. Os dandys vivem em seu mundinho de charutos, jantares, e total incompetência para a vida. Mas se vêem como muito especiais e detém o dinheiro e os direitos. O vizinho aluga as terras dos "nobres". Esse é o sistema. É ele quem produz a terra, quem gera riqueza, quem tem idéias e quem tem ambição. Os dandys recebem seu aluguel. Ao menino, que não é dandy ou arrendatário, que nada sabe e não sabe querer, resta o anódino papel de mensageiro.
A moça acha no vizinho aquilo que não terá com seu noivo: animalidade. Mas a sociedade vencerá. Ao mensageiro resta confusão e amargor. Bem-vindo à vida!
Poucos filmes tiveram elenco tão perfeito. Julie Christie faz a moça. Bela e fria como aço. Ela é toda egoísmo. Atriz mais que perfeita, atriz que esnobou o star-system, ela, aqui no auge da fama, logo diminuiria suas aparições. Optaria por viver.
Alan Bates faz o vizinho. E ele tem toda a animalidade que o papel requer. Para esse tipo, que é o personagem que na verdade fez a riqueza do império, Bates é imbatível.
Temos ainda Margaret Leighton como a mãe ultra esnobe. Terrível em suas suspeitas, essa atriz de longa carreira está assustadoramente ultra-classe. Edward Fox faz o noivo, um bem intencionado e meio aéreo dandy, ferido de guerra.
E numa pequena aparição temos esse fenômeno da natureza chamado Michael Redgrave. O pai de Vanessa nos comove como o menino nos dias de hoje. Seu olhar, olhar parvo, tolo, de ainda apaixonado, de quem arruinou sua vida, é inesquecível. Com um olhar apenas, Sir Michael diz toda a tragédia de sua não-vida. Um gênio.
Poucos filmes têm um Nobel em sua equipe. Harold Pinter, nobel de 2005, fez o roteiro ( baseado em L P Hartley ) à seu modo: cruel, ferino e de poucos diálogos. Nada de panfletagem: tudo é subentendido. O roteiro brilha em chamas.
A trilha sonora de Michel Legrand é feita de fugas à Bach. Talvez a mais bela das trilhas. A música tema é obra de mestre erudito consumado. Perfeição.
A fotografia é do mestre Gerry Fisher, mestre que fotografou 2001 de Kubrick. Os campos, as casas, as roupas, os céus são quadros de retratistas ingleses, mas atenção!!!! Jamais têm aquele jeito arrumadinho demais, nunca parecem "moda".
Joseph Losey é um diretor americano de esquerda que fugiu do país no MacCarthismo. Se adaptou muito bem à Inglaterra, se tornando um dos melhores diretores ingleses da época ( 1960/1977 ). Ele tinha um soberbo senso visual e uma ferina ambição. Seus filmes são sempre ácidos e estranhamente etéreos.
O Mensageiro venceu Cannes em 1971.
Losey, Legrand, Pinter, Fisher, Julie, Redgrave, Leighton, Bates e Fox. Onde achar hoje uma equipe assim????
Ps. Foi este filme, visto na Globo em 1977 que me acendeu o amor por Julie Christie. Me vi como aquele menino mensageiro. Mais importante, me apaixonei não só por ela, mas pela música superior de Legrand e pelo cinema. Se hoje escrevo sobre filmes, muito se deve a este filme.
Sua primeira frase ( dita por Sir Michael ): " O passado é um país distante. Visitá-lo é sempre conhecer um lugar desconhecido. "
A CIDADE E AS SERRAS- EÇA DE QUEIRÓS, UM LIVRO PARA OS DIAS DE HOJE
Jacintho tem tudo. Filho de ricos portugueses, vive desde sempre em Paris. Foi Schopenhauriano, Marxista, Nietzschiista, e vários outros istas. Possui todos os aparelhos do mundo. Engenhocas que fazem sua vida confortável e moderna. Dezenas de empregados lhe servem, tem belas mulheres e come nos melhores restaurantes. Festas suntuosas, roupas finas, modismos vários. Mas tudo isso faz de Jacintho um entediado. Tudo o que ele diz é :-Que maçada!!!!
Tem um grande amigo, Zé Fernandes. O Zé ainda tem um pé em Portugal e o acompanha em Paris nas suas peregrinações. Duques disso, marquesas daquilo, patos com laranjas, arroz doce com manjar. O Zé observa Jacintho empalidecer e emagrecer. "Que maçada!!!"
Compram coisas para seu prazer. Maquinitas que umedecem o ar, que refrescam, que fabricam gelo, que falam, que aliviam dores, que tocam música. Mas que graça há ?
Jacintho tem terras em Portugal. O túmulo de seu avô desaba e ele vai lá para o reformar. Manda antes, por comboio, pratas, vitrais, máquinas e tecidos. Precisa de conforto.
Cruzar a Espanha é um horror e que desastre!!!! Sua bagagem se estravia!!!! Espanha e Portugal não são Europa! Que atraso!!!!! Não há telefones e a eletricidade falha. Os comboios não respeitam horários!!!!! Mas eles comem um cabrito divino, um arroz de cabidela dos deuses, um presuntito e um vinhozito....
As terras de Jacintho estão um caos! Ninguém trabalha nesse país? Mas tem um franguinho assado que é o melhor do mundo!!!!! E apesar de reclamar, Jacintho vai ficando....
Se apaixona pelas flores, pelo mato e anda com o Zé filosofando sobre a vida. "O mundo é belo, ó Zé. Os homens estão a o estragar."
Descobre a miséria de seus empregados e os ajuda. Torna-se um idealista ( sempre o fora. Mas a cidade grande mata todo ideal ). Casa-se, engorda e fica bronzeado. Tem dois filhos, é feliz.
Zé dá um pulo à Paris. E vê com horror que a cidade grande é apenas ANSIA POR DINHEIRO E GOZO IMEDIATO. Amigos que só falam de dinheiro e de prazer carnal, mulheres pouco saudáveis e muito pintadas, multidões lutando para acumular e gozar.
Volta a terrinha. Na paz da serra, o homem cresce e pode ser homem.
Escrevesse numa língua mais central ( ingles, frances ou alemão ) Eça seria da estatura de James, Conrad ou Mann. É um gênio, um esteta, um filósofo, um dandy, um poeta. Este tão simples livro, seu penúltimo, é claro como um milagre e dá prazer de comida bem feita. Suas frases dão água na boca, seus capítulos dão fome. Amamos ao Zé e ao Jacintho.
È preciso ler este livro, reler ( é minha segunda leitura em cinco anos ). É prazer de água da serra.
Eça soube que a cura se incia pelo gosto, pela boca, paladar. E depois pelo olho, pelo sol e pela cor. Jacintho, em 1900, sofre da doença de 2010 : depressão entediada. Mas ele é salvo pela vida, pelo reencontro com sua raiz, pela comida, pelo rosto das gentes, pelo despertar do interesse no outro. O livro é remédio, remédio de gosto doce, de fio de ovos.
O livro é Portugal e é Brasil.
Eça de Queirós. Escritorzito que é um santo remedito. Gigante em tempo de gigantes. Frases que são novelos de luz.
Acho que quero mais um bocadito!
Tem um grande amigo, Zé Fernandes. O Zé ainda tem um pé em Portugal e o acompanha em Paris nas suas peregrinações. Duques disso, marquesas daquilo, patos com laranjas, arroz doce com manjar. O Zé observa Jacintho empalidecer e emagrecer. "Que maçada!!!"
Compram coisas para seu prazer. Maquinitas que umedecem o ar, que refrescam, que fabricam gelo, que falam, que aliviam dores, que tocam música. Mas que graça há ?
Jacintho tem terras em Portugal. O túmulo de seu avô desaba e ele vai lá para o reformar. Manda antes, por comboio, pratas, vitrais, máquinas e tecidos. Precisa de conforto.
Cruzar a Espanha é um horror e que desastre!!!! Sua bagagem se estravia!!!! Espanha e Portugal não são Europa! Que atraso!!!!! Não há telefones e a eletricidade falha. Os comboios não respeitam horários!!!!! Mas eles comem um cabrito divino, um arroz de cabidela dos deuses, um presuntito e um vinhozito....
As terras de Jacintho estão um caos! Ninguém trabalha nesse país? Mas tem um franguinho assado que é o melhor do mundo!!!!! E apesar de reclamar, Jacintho vai ficando....
Se apaixona pelas flores, pelo mato e anda com o Zé filosofando sobre a vida. "O mundo é belo, ó Zé. Os homens estão a o estragar."
Descobre a miséria de seus empregados e os ajuda. Torna-se um idealista ( sempre o fora. Mas a cidade grande mata todo ideal ). Casa-se, engorda e fica bronzeado. Tem dois filhos, é feliz.
Zé dá um pulo à Paris. E vê com horror que a cidade grande é apenas ANSIA POR DINHEIRO E GOZO IMEDIATO. Amigos que só falam de dinheiro e de prazer carnal, mulheres pouco saudáveis e muito pintadas, multidões lutando para acumular e gozar.
Volta a terrinha. Na paz da serra, o homem cresce e pode ser homem.
Escrevesse numa língua mais central ( ingles, frances ou alemão ) Eça seria da estatura de James, Conrad ou Mann. É um gênio, um esteta, um filósofo, um dandy, um poeta. Este tão simples livro, seu penúltimo, é claro como um milagre e dá prazer de comida bem feita. Suas frases dão água na boca, seus capítulos dão fome. Amamos ao Zé e ao Jacintho.
È preciso ler este livro, reler ( é minha segunda leitura em cinco anos ). É prazer de água da serra.
Eça soube que a cura se incia pelo gosto, pela boca, paladar. E depois pelo olho, pelo sol e pela cor. Jacintho, em 1900, sofre da doença de 2010 : depressão entediada. Mas ele é salvo pela vida, pelo reencontro com sua raiz, pela comida, pelo rosto das gentes, pelo despertar do interesse no outro. O livro é remédio, remédio de gosto doce, de fio de ovos.
O livro é Portugal e é Brasil.
Eça de Queirós. Escritorzito que é um santo remedito. Gigante em tempo de gigantes. Frases que são novelos de luz.
Acho que quero mais um bocadito!
TONY CURTIS
Tony Curtis foi, entre 58/65 um dos dois atores mais famosos do mundo ( o outro era Rock Hudson ). Sim, creia-me, em mundo que tinha Brando, Paul Newman, John Wayne e Richard Burton, eram os dois os mais famosos.
Rock fazia um tipo Cary Grant mais pobre, Tony era ele mesmo. Apesar que recordo de sua hilária e genial imitação de Cary em QUANTO MAIS QUENTE MELHOR.
Tony Curtis fica para a história em algumas obras-primas que fez. SPARTACUS, OS VIKINGS, A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO ( com a outra grande estrela da época, Burt Lancaster ), além de várias excelentes diversões, sendo A CORRIDA DO SÉCULO a melhor. Quando a nova geração chegou ( Steve McQueen, Clint Eastwood, Jack Nicholson e Warren Beatty ) seu tipo se tornou "careta". Ele não conseguiu se renovar como Newman e afundou. Foi para a tv, e fez com Roger Moore uma série deliciosa ( e que pouco envelheceu ) THE PERSUADERS, onde ele faz um playboy detetive com muito estilo e prazer.
E era isso que Tony tinha de melhor. Ele passava um enorme prazer em atuar. Era bom vê-lo na tela, a gente gostava dele, era divertido.
Minha mãe e minha tia o adoravam. Achavam seu rosto o mais bonito do mundo. ( Não era. Alain Delon foi imbatível ). Recordo de que na minha infância seus filmes não paravam de passar na tv. Comédias e aventuras. Alguns muito ruins, mas sempre com Tony lhes dando a dignidade do prazer.
Fica uma homenagem.
Rock fazia um tipo Cary Grant mais pobre, Tony era ele mesmo. Apesar que recordo de sua hilária e genial imitação de Cary em QUANTO MAIS QUENTE MELHOR.
Tony Curtis fica para a história em algumas obras-primas que fez. SPARTACUS, OS VIKINGS, A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO ( com a outra grande estrela da época, Burt Lancaster ), além de várias excelentes diversões, sendo A CORRIDA DO SÉCULO a melhor. Quando a nova geração chegou ( Steve McQueen, Clint Eastwood, Jack Nicholson e Warren Beatty ) seu tipo se tornou "careta". Ele não conseguiu se renovar como Newman e afundou. Foi para a tv, e fez com Roger Moore uma série deliciosa ( e que pouco envelheceu ) THE PERSUADERS, onde ele faz um playboy detetive com muito estilo e prazer.
E era isso que Tony tinha de melhor. Ele passava um enorme prazer em atuar. Era bom vê-lo na tela, a gente gostava dele, era divertido.
Minha mãe e minha tia o adoravam. Achavam seu rosto o mais bonito do mundo. ( Não era. Alain Delon foi imbatível ). Recordo de que na minha infância seus filmes não paravam de passar na tv. Comédias e aventuras. Alguns muito ruins, mas sempre com Tony lhes dando a dignidade do prazer.
Fica uma homenagem.
MEU NOME É JOHN FORD ( NA FOLHA BY PEDRO BUTCHER )
Excelente, Folha de domingo, 26/09. Parabéns à Pedro.
Começa com uma visita ao grande diretor, no set de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. Quem visita Ford é um garoto de 15 anos. John Ford dá um conselho à esse rapaz: "Não enquadre o ator. Enquadre o horizonte. E quando voce souber se a linha horizontal deve ficar acima ou abaixo do personagem...aí voce será um diretor." O nome do garoto é Steven Spielberg.
Ford foi o melhor diretor nascido na América. Não há como duvidar disso. E mundialmente, somente Hitchcock e Kurosawa podem ser comparados a ele. O segredo de Ford é claramente exposto no artigo. Mas mesmo assim, ainda fica o segredo.
Todo grande artista tem um dom que pode ser explicado, mas não imitado. Voce pode explicar Billy Wilder ou Fellini. Mas por mais que voce fale sobre John Ford, alguma coisa sempre está além, inexplicada. É esse mistério que define o gênio. E sua falta de afetação também.
Ford nunca tentou ser "um artista". Como tod grande escritor, sua preocupação era contar uma história. E como todo grande homem, ele possuia um inabalável senso de moral. A família é o centro de seu universo. Ele crê na família, ele crê no bem ( mas conhece a força do mal ). Seus filmes sempre têm casamentos, enterros, refeições familiares, bailes, cenas de reencontro. Ford sabia que o ser-humano se define nas suas cerimônias. Mas há muito mais, há o herói.
O herói de Ford nunca é simples. Ele sempre é imperfeito. E sempre é alguém ferido, alguém que foi expulso do meio social. E que ansia, sem assumir, a ser aceito. Para Ford, a vida é comunitária. Mas há mais.
O senso estético de Ford. Cada tomada é uma cena perfeita. E um de seus segredos é o de que nada é esfregado em nosso rosto. Ele não filma como quem diz : "Vejam que lindo!!!", ou como quem exige que amemos ou odiemos um personagem. John Ford nos respeita, ele deixa que escolhemos o que pensar, o que sentir e o que admirar. Ele é profundamente democrático. Respeita sua platéia.
Mas nada disso é seu objetivo. O principal em John Ford é sua naturalidade. Não existe peso em seus filmes. Toda sua arte é de instinto, por isso é simples, fácil e agradável. Ele narra, ele exemplifica, e jamais foi didático.
O artigo mostra uma hilária entrevista que Ford deu à Bogdanovich : "-Como o senhor filmou a sequencia elaborada de Three Bad Men?" resposta: "-Com uma câmera."
Há também a citação de uma constatação de Tavernier ( quando crítico dos Cahiers ), a de que é nas retrospectivas que vemos o quão grande um cineasta é. George Cukor ou Minelli, por exemplo, perdem muito se vistos em sequencia. Uma sessão de 3 filmes de Cukor faz com que comecemos a ver seus defeitos. Com Ford é o contrário. Uma longa sequencia de filmes de Ford faz com que admiremos ainda mais sua obra.
Isso ocorreu quando comecei minha coleção de dvds. Alguns diretores ao serem assistidos dia a dia começavam a cansar. Já com Ford ( e Hitchcock também ) quanto mais eu o assistia , mais eu o amava. Sinto saudades de minha semana Ford e de minha semana Hitch.
Butcher conta ainda da companhia Ford. A equipe de técnicos e de atores que ele sempre usava. De seu amor a filmar ao ar livre e do modo como ele filmava. Ford montava o filme na câmera ( como Hitch e Kurosawa ). Não havia muita fita no chão da sala de edição. Fazia isso para que ninguém pudesse mexer em seu filme. Não deixava tomadas extras para o editor trabalhar. Pedro conta que hoje, com a câmera digital, tudo é filmado, quilômetros de filmagem, para deixar o editor ( e o produtor ) com centenas de opções. Que eu saiba, hoje, só Clint monta na câmera.
Há ainda o momento em que Ford enfrentou De Mille no MacCarthismo. Uma descrição que me deixou com lágrimas nos olhos. Não a descreverei, mas cito sua primeira frase ( que diz tudo sobre quem foi John Ford, diretor mais oscarizado da história, até hoje )
"-MEU NOME É JOHN FORD E EU FAÇO WESTERNS. EU NÃO GOSTO DE VOCE."
Macacos me mordam se isso não é atitude!
No fim de tudo, o maior herói de John Ford foi ele próprio.
Começa com uma visita ao grande diretor, no set de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA. Quem visita Ford é um garoto de 15 anos. John Ford dá um conselho à esse rapaz: "Não enquadre o ator. Enquadre o horizonte. E quando voce souber se a linha horizontal deve ficar acima ou abaixo do personagem...aí voce será um diretor." O nome do garoto é Steven Spielberg.
Ford foi o melhor diretor nascido na América. Não há como duvidar disso. E mundialmente, somente Hitchcock e Kurosawa podem ser comparados a ele. O segredo de Ford é claramente exposto no artigo. Mas mesmo assim, ainda fica o segredo.
Todo grande artista tem um dom que pode ser explicado, mas não imitado. Voce pode explicar Billy Wilder ou Fellini. Mas por mais que voce fale sobre John Ford, alguma coisa sempre está além, inexplicada. É esse mistério que define o gênio. E sua falta de afetação também.
Ford nunca tentou ser "um artista". Como tod grande escritor, sua preocupação era contar uma história. E como todo grande homem, ele possuia um inabalável senso de moral. A família é o centro de seu universo. Ele crê na família, ele crê no bem ( mas conhece a força do mal ). Seus filmes sempre têm casamentos, enterros, refeições familiares, bailes, cenas de reencontro. Ford sabia que o ser-humano se define nas suas cerimônias. Mas há muito mais, há o herói.
O herói de Ford nunca é simples. Ele sempre é imperfeito. E sempre é alguém ferido, alguém que foi expulso do meio social. E que ansia, sem assumir, a ser aceito. Para Ford, a vida é comunitária. Mas há mais.
O senso estético de Ford. Cada tomada é uma cena perfeita. E um de seus segredos é o de que nada é esfregado em nosso rosto. Ele não filma como quem diz : "Vejam que lindo!!!", ou como quem exige que amemos ou odiemos um personagem. John Ford nos respeita, ele deixa que escolhemos o que pensar, o que sentir e o que admirar. Ele é profundamente democrático. Respeita sua platéia.
Mas nada disso é seu objetivo. O principal em John Ford é sua naturalidade. Não existe peso em seus filmes. Toda sua arte é de instinto, por isso é simples, fácil e agradável. Ele narra, ele exemplifica, e jamais foi didático.
O artigo mostra uma hilária entrevista que Ford deu à Bogdanovich : "-Como o senhor filmou a sequencia elaborada de Three Bad Men?" resposta: "-Com uma câmera."
Há também a citação de uma constatação de Tavernier ( quando crítico dos Cahiers ), a de que é nas retrospectivas que vemos o quão grande um cineasta é. George Cukor ou Minelli, por exemplo, perdem muito se vistos em sequencia. Uma sessão de 3 filmes de Cukor faz com que comecemos a ver seus defeitos. Com Ford é o contrário. Uma longa sequencia de filmes de Ford faz com que admiremos ainda mais sua obra.
Isso ocorreu quando comecei minha coleção de dvds. Alguns diretores ao serem assistidos dia a dia começavam a cansar. Já com Ford ( e Hitchcock também ) quanto mais eu o assistia , mais eu o amava. Sinto saudades de minha semana Ford e de minha semana Hitch.
Butcher conta ainda da companhia Ford. A equipe de técnicos e de atores que ele sempre usava. De seu amor a filmar ao ar livre e do modo como ele filmava. Ford montava o filme na câmera ( como Hitch e Kurosawa ). Não havia muita fita no chão da sala de edição. Fazia isso para que ninguém pudesse mexer em seu filme. Não deixava tomadas extras para o editor trabalhar. Pedro conta que hoje, com a câmera digital, tudo é filmado, quilômetros de filmagem, para deixar o editor ( e o produtor ) com centenas de opções. Que eu saiba, hoje, só Clint monta na câmera.
Há ainda o momento em que Ford enfrentou De Mille no MacCarthismo. Uma descrição que me deixou com lágrimas nos olhos. Não a descreverei, mas cito sua primeira frase ( que diz tudo sobre quem foi John Ford, diretor mais oscarizado da história, até hoje )
"-MEU NOME É JOHN FORD E EU FAÇO WESTERNS. EU NÃO GOSTO DE VOCE."
Macacos me mordam se isso não é atitude!
No fim de tudo, o maior herói de John Ford foi ele próprio.
RAM- PAUL MACCARTNEY- SILLY LOVE SONGS
Paul MacCartney exemplifica à perfeição tudo o que tenho escrito ultimamente ( Amor cortês, individuação, religião ). O fato de o subestimarmos ( desde sempre ) e hiper-valorizarmos Lennon prova nosso vício em colocar a dor como dom supremo. O sofrimento, como os cristãos tão bem o sabem, dá uma aura de superioridade ao artista. E Paul parece à prova de verdadeira dor. Será? Ou não terá ele optado, em ato de nobreza exemplar, pelo riso?
Se acreditarmos em Kierkegaard, Paul, o feliz Paul, estaria num degrau acima de Lennon, Dylan e de outros sofredores. Que culpa ele tem em crer no amor tolo e feliz? No fundo ele é um camponês, e nisso mora todo seu gênio, porque se o rock um dia produziu genialidade é Paul o maior de todos. Ele criou o Pop branco, divulgou o rock sinfônico e é responsável por 75% do que os Beatles venderam. Quando lembramos os anos 60 tendemos a pensar em Dylan, Morrison, Hendrix, Lennon, Who, Reed, grandes mortos ou grandes sofredores. Mas é Paul o centro da década, consequentemente centro da arte Pop. O problema é que ele não parece "heróico". Será?
Ao contrário de Lennon que surgiu e morreu seguindo o modelo Elvis ( acrescentando doses imensas de Dylan no processo ), Paul surge seguindo Buddy Holly e Little Richard, e não se apaixona por Dylan. Ele cai de amores pela black music americana ( Marvin Gaye, Otis Redding, Joe Tex, Wilson Pickett e Aretha ), pelos sons sinfônicos que George Martin lhe mostra e principalmente pelos Beach Boys. RAM é seu segundo album solo e é um disco delicioso.
A capa, com um carneiro, já entrega do que se trata: PET SOUNDS, dos Beach Boys. Paul, que nunca escondeu seu amor pela obra-prima dos californianos, usa aquele tipo de arranjo e de produção multi-facetada, caleidoscópica, que é o que dava aos Beatles toda sua riquesa de arranjos. As músicas são como flashs, polaroides de emoções fugazes, canções de estados sensitivos. Music-Hall, folk britânico, pop americano, doo-wop, tudo cabe aqui. E aqueles arranjos vocais nos quais Paul exibe toda sua maestria ( arranjos de voz como ele fez, só os próprios Beach Boys e os Byrds conseguem ).
O disco começa com simples violão e simples canção de amor. Mas ele foi e é sempre assim. Para ele a vida é simples: uma esposa, filhos, e uma casa no campo. As pessoas tendem a pensar que ele é só isso. Mas é aí que nasce seu heroísmo, o cara que fez Yesterday e Helter Skelter optou pela simplicidade e nessa opção tentou nos mostrar um caminho. Blackbird e Martha são as obras-primas que inauguram sua escolha.
Ram depois envereda pelo blues e chega aos arranjos à Brian Wilson. É aí que o gênio-mago aparece. Uncle Albert é trilha de minha infância ( com Another Day ). Tocava incessantemente no rádio e aos 5 anos me apaixonei pela canção. Eu me emocionava ao ouvi-la e se tornou padrão daquilo que considero canção-criativa ( e feliz ). Ela muda de clima e de andamento cinco vezes!!!!! Linda!!!!! Na sequência ele faz um rock mais azedo e completa o album com sua costumeira habilidade em ser belo e aparentemente fácil.
Mas nunca é. Tente compor uma canção à MacCartney. Tente arranjar quatro vozes em ondas de idas e vindas. Tente harmonizar guitarras com metais e teclados. É preciso saber tudo de musica, de melodia. É preciso ter gosto. E principalmente, ouvido. Nisso tudo, ele é imbatível.
Sempre lhe faltou sexo. Paul está longe do perigo. Nada nele remete à James Brown, Sly Stone ou Mick Jagger. Paul seria puro espírito. Nada carnal. Mais uma vez eu digo: e daí ?
O movimento de individuação é maravilhosamente exemplificado pelos Beatles. Sua separação, em busca de sua afirmação individual, teve toda a tragédia amarga da vida de todo homem adulto. Ringo cresceu e optou pelo que podia ser: embaixador eterno da beatlemania. George mergulhou na religião e se tornou um espiritualizado bon-vivant. John levou sua rebeldia de Elvis+Dylan vida afora, mas que ironia, terminou como um tipo de Paul in New York -amor, esposa e filhos. Paul não brigou com seu passado. Se tornou filho de seus pais, sobrinho de seus tios e carinhoso pai de família. O Mr.Feel Good. Seus discos continuaram a ser filhos dos Beatles.
Qual o problema?
RAM é feliz e é criativo. Porque não dizer: ele é um herói por ter sobrevivido são, sorridente e sem pretensão. O que mais um menino caipira de Liverpool pode querer e poder ser?
I LOVE PAUL !
Se acreditarmos em Kierkegaard, Paul, o feliz Paul, estaria num degrau acima de Lennon, Dylan e de outros sofredores. Que culpa ele tem em crer no amor tolo e feliz? No fundo ele é um camponês, e nisso mora todo seu gênio, porque se o rock um dia produziu genialidade é Paul o maior de todos. Ele criou o Pop branco, divulgou o rock sinfônico e é responsável por 75% do que os Beatles venderam. Quando lembramos os anos 60 tendemos a pensar em Dylan, Morrison, Hendrix, Lennon, Who, Reed, grandes mortos ou grandes sofredores. Mas é Paul o centro da década, consequentemente centro da arte Pop. O problema é que ele não parece "heróico". Será?
Ao contrário de Lennon que surgiu e morreu seguindo o modelo Elvis ( acrescentando doses imensas de Dylan no processo ), Paul surge seguindo Buddy Holly e Little Richard, e não se apaixona por Dylan. Ele cai de amores pela black music americana ( Marvin Gaye, Otis Redding, Joe Tex, Wilson Pickett e Aretha ), pelos sons sinfônicos que George Martin lhe mostra e principalmente pelos Beach Boys. RAM é seu segundo album solo e é um disco delicioso.
A capa, com um carneiro, já entrega do que se trata: PET SOUNDS, dos Beach Boys. Paul, que nunca escondeu seu amor pela obra-prima dos californianos, usa aquele tipo de arranjo e de produção multi-facetada, caleidoscópica, que é o que dava aos Beatles toda sua riquesa de arranjos. As músicas são como flashs, polaroides de emoções fugazes, canções de estados sensitivos. Music-Hall, folk britânico, pop americano, doo-wop, tudo cabe aqui. E aqueles arranjos vocais nos quais Paul exibe toda sua maestria ( arranjos de voz como ele fez, só os próprios Beach Boys e os Byrds conseguem ).
O disco começa com simples violão e simples canção de amor. Mas ele foi e é sempre assim. Para ele a vida é simples: uma esposa, filhos, e uma casa no campo. As pessoas tendem a pensar que ele é só isso. Mas é aí que nasce seu heroísmo, o cara que fez Yesterday e Helter Skelter optou pela simplicidade e nessa opção tentou nos mostrar um caminho. Blackbird e Martha são as obras-primas que inauguram sua escolha.
Ram depois envereda pelo blues e chega aos arranjos à Brian Wilson. É aí que o gênio-mago aparece. Uncle Albert é trilha de minha infância ( com Another Day ). Tocava incessantemente no rádio e aos 5 anos me apaixonei pela canção. Eu me emocionava ao ouvi-la e se tornou padrão daquilo que considero canção-criativa ( e feliz ). Ela muda de clima e de andamento cinco vezes!!!!! Linda!!!!! Na sequência ele faz um rock mais azedo e completa o album com sua costumeira habilidade em ser belo e aparentemente fácil.
Mas nunca é. Tente compor uma canção à MacCartney. Tente arranjar quatro vozes em ondas de idas e vindas. Tente harmonizar guitarras com metais e teclados. É preciso saber tudo de musica, de melodia. É preciso ter gosto. E principalmente, ouvido. Nisso tudo, ele é imbatível.
Sempre lhe faltou sexo. Paul está longe do perigo. Nada nele remete à James Brown, Sly Stone ou Mick Jagger. Paul seria puro espírito. Nada carnal. Mais uma vez eu digo: e daí ?
O movimento de individuação é maravilhosamente exemplificado pelos Beatles. Sua separação, em busca de sua afirmação individual, teve toda a tragédia amarga da vida de todo homem adulto. Ringo cresceu e optou pelo que podia ser: embaixador eterno da beatlemania. George mergulhou na religião e se tornou um espiritualizado bon-vivant. John levou sua rebeldia de Elvis+Dylan vida afora, mas que ironia, terminou como um tipo de Paul in New York -amor, esposa e filhos. Paul não brigou com seu passado. Se tornou filho de seus pais, sobrinho de seus tios e carinhoso pai de família. O Mr.Feel Good. Seus discos continuaram a ser filhos dos Beatles.
Qual o problema?
RAM é feliz e é criativo. Porque não dizer: ele é um herói por ter sobrevivido são, sorridente e sem pretensão. O que mais um menino caipira de Liverpool pode querer e poder ser?
I LOVE PAUL !
AMOR
Para amar é preciso coragem. Porque amor é unir os radicalmente diferentes. Não pode haver amor sem o atrito da diferença.
Então todo amor é ato de heroísmo. Um desafio e uma viagem para lugar distante. Amor não é encontrar a alma gêmea, amor é unir-se ao que te é estrangeiro. Completar o que te falta.
O carinha do clube Paulistano que namora a menina do mesmo clube, que vive no mesmo bairro, que tem a mesma cor de olhos e se veste no mesmo shopping... isso pode ser amor mas não é O amor. Porque O amor te leva a desvendar um mistério, te leva a novos mundos e novas etapas.
Mas o amor pode ser também exercido a sós. E nós o exercemos sempre que procuramos uma conexão com alguma coisa que nos é alienígena, e que portanto nos pode completar, nos desvenda e nos amplia, e lança um desafio.
Portanto se voce é prosa entre na poesia e se voce é verso mergulhe na narrativa racional. Para quem conhece o açucar, sal; para quem vive no mato, a cidade. O que sabe escutar, falar; o que faz aritmética, enlouquecer. Para medrosos, o risco e para brancos, o negro. Os risonhos conhecerão o drama, os chorões mergulharão no riso. Água e fogo, ar com terra.
O amor é encruzilhada no escuro, é maré que leva ao oceano e é navio rumo a novo mundo.
Para amar há que se ter coragem.
Então todo amor é ato de heroísmo. Um desafio e uma viagem para lugar distante. Amor não é encontrar a alma gêmea, amor é unir-se ao que te é estrangeiro. Completar o que te falta.
O carinha do clube Paulistano que namora a menina do mesmo clube, que vive no mesmo bairro, que tem a mesma cor de olhos e se veste no mesmo shopping... isso pode ser amor mas não é O amor. Porque O amor te leva a desvendar um mistério, te leva a novos mundos e novas etapas.
Mas o amor pode ser também exercido a sós. E nós o exercemos sempre que procuramos uma conexão com alguma coisa que nos é alienígena, e que portanto nos pode completar, nos desvenda e nos amplia, e lança um desafio.
Portanto se voce é prosa entre na poesia e se voce é verso mergulhe na narrativa racional. Para quem conhece o açucar, sal; para quem vive no mato, a cidade. O que sabe escutar, falar; o que faz aritmética, enlouquecer. Para medrosos, o risco e para brancos, o negro. Os risonhos conhecerão o drama, os chorões mergulharão no riso. Água e fogo, ar com terra.
O amor é encruzilhada no escuro, é maré que leva ao oceano e é navio rumo a novo mundo.
Para amar há que se ter coragem.
LACAN FALA BOBAGEM
Todo menino desde o nascimento tem de refazer, em poucos meses, toda a história feita em milhões de anos, por seus antepassados. Deixar de ser parte da mãe e ir para fora, nascer, deixar de ser da mãe e ser do mundo, deixar de ser bichinho e ser pensante, deixar de ser parte de uma família e ser só, deixar de ser do mundo e ser de sí-mesmo, deixar de ser da natureza e ser estrangeiro em seu planeta, deixar de ser ....
Responder a questão, quem eu sou, sabendo ser irrespondível.
Um amigo me disse que Lacan concluiu ser a religião imorredoura. Como ateu puro, Lacan sempre confundiu religião com igreja. A igreja não morre porque o homem precisa de algo que lhe dê consolo e direção. A igreja é um partido político, uma terapia psicológica, uma distração, mas não é necessariamente religião. ( Embora se possa ter uma experiência religiosa numa igreja. Como se pode ter em qualquer lugar. )
A religião acabou, como força cotidiana acessível, por volta de 1300 ( e não é tanto tempo assim. Quanto tempo houve antes??? ). Ela termina no momento em que o homem se estilhaça em fragmentos, pois como o nome diz, a experiência religiosa era a força que mantinha o homem unido em seus múltiplos aspectos.
Com o fim do mundo religioso o perigo não é mais exterior ao ser, ele passa a ser um dos aspectos desse ser. O bem, assim como o mal, está dentro do homem, o amor e o egoísmo são opções do homem, e daí vem o caminho para a individuação final e para a solidão abissal. Se tudo está em mim, então eu sou meu mundo. Esse modo de pensar é o menos religioso possível.
Não posso transmitir o que seria uma experiência religiosa. É sentimento maior que o sentir e mais sensacional que a sensação. É exatamente como deixar de ser, se esquecer, perder-se de sua identidade, unir-se a tudo a seu redor.
Estar sem ser. Pertencer e libertar-se.
É liberar sem forçar. Encontrar o que não existe.
A igreja ( todas elas ) está muito longe disso.
Responder a questão, quem eu sou, sabendo ser irrespondível.
Um amigo me disse que Lacan concluiu ser a religião imorredoura. Como ateu puro, Lacan sempre confundiu religião com igreja. A igreja não morre porque o homem precisa de algo que lhe dê consolo e direção. A igreja é um partido político, uma terapia psicológica, uma distração, mas não é necessariamente religião. ( Embora se possa ter uma experiência religiosa numa igreja. Como se pode ter em qualquer lugar. )
A religião acabou, como força cotidiana acessível, por volta de 1300 ( e não é tanto tempo assim. Quanto tempo houve antes??? ). Ela termina no momento em que o homem se estilhaça em fragmentos, pois como o nome diz, a experiência religiosa era a força que mantinha o homem unido em seus múltiplos aspectos.
Com o fim do mundo religioso o perigo não é mais exterior ao ser, ele passa a ser um dos aspectos desse ser. O bem, assim como o mal, está dentro do homem, o amor e o egoísmo são opções do homem, e daí vem o caminho para a individuação final e para a solidão abissal. Se tudo está em mim, então eu sou meu mundo. Esse modo de pensar é o menos religioso possível.
Não posso transmitir o que seria uma experiência religiosa. É sentimento maior que o sentir e mais sensacional que a sensação. É exatamente como deixar de ser, se esquecer, perder-se de sua identidade, unir-se a tudo a seu redor.
Estar sem ser. Pertencer e libertar-se.
É liberar sem forçar. Encontrar o que não existe.
A igreja ( todas elas ) está muito longe disso.
UMA VISÃO- WILLIAM BUTLER YEATS ( ESPÍRITO, HISTÓRIA E SÍMBOLO )
Yeats já era o mais famoso poeta de língua inglesa quando lançou este livro ( que na verdade são 3 volumes ). O tema aqui exposto irá interessá-lo por toda a década de 20.
Casou-se tarde, e no quarto dia de sua lua de mel, sua esposa começou a receber espíritos. Toda a primeira parte é consagrada a esses fenômenos e aquilo que as entidades lhe falaram. Yeats descreve os odores misteriosos que anunciam as visitas ( rosas ) e as luzes e assobios que os acompanham. Durante meses a esposa psicografava enormes textos exotéricos sobre o que significa a vida, a história e o que acontece com nossas almas nesta e em todas as outras vidas. O poeta mergulha de cabeça em todo esse simbolismo sem medo nenhum, jamais apelando para soluções fáceis como dizer que tudo é loucura ou auto-hipnose. Como todo poeta ou amante, ele foge das facilidades e dos rótulos prontos.
No segundo volume é passada toda a mensagem desses seres etéreos. A base é a reencarnação, mas ao contrário do espiritismo, é uma reencarnação não cristã, e inversamente ao hinduísmo, não se apega ao karma. É leitura complexa, cansativa, muito difícil, com trechos completamente obscuros. Mas mesmo assim se depreende:
1- Que a história do homem é a história de sua individuação. Nosso caminho é estrada que vai do anonimato ao apego egocêntrico, da arte anônima a assinatura, do não-eu dos animais à afirmação do eu-sou-único, do grupo a auto-suficiência. Mas esse processo é cíclico, e nele se caminha para a decadência, momento em que a civilização se desagrega. Cada indivíduo perde o interesse pelo todo. Fato observado no fim do Egito, na Grécia, em Roma e Bizâncio.
2- Nada é resolvido nesta vida. Todo aprendizado é feito na revisão da vida vivida. Nossa existência sólida é apenas um ensaio, um sonho, uma tênue viagem.
3- Uma belíssima imagem: O Espírito é nosso futuro, nossos desejos são o presente, nossa matéria é nosso passado. Considero essa divisão maravilhosamente bem pensada. A alma como a aspiração, o desejo como a prisão do eterno agora, e nosso corpo e as coisas que nos cercam como envelhecidos e falíveis objetos do sempre passado.
4- Yeats cita Hegel: a Ásia é o mundo da natureza, a história do Ocidente é a história da fuga da natureza. Fuga essa que foi razoávelmente bem sucedida na Grécia e plenamente realizada pelo cristianismo, religião que separa definitivamente o homem da natureza.
5- Imagem da ciência e do intelecto: A ciência quando analisa um pássaro sempre enxergará um esqueleto seco numa praia. O pássaro que voa, come, defeca e copula é inalcansável pela razão, pois o intelecto para apreender algo precisa primeiro matar.
No terceiro livro Yeats analisa a evolução histórica na visão desse movimento de individuação e decadência. Ele cita Bizâncio como um apogeu humano e a criação de Merlin e do amor cortês como outro. Desde a renascença estaria havendo essa queda, essa desvalorização do coletivo e do sagrado, e o crescimento do individual e do corriqueiro.
Não importa se foram espíritos ou não, as idéias aqui escritas trazem outras idéias embutidas. O texto é inesgotável, fluido, fertilizador. São metáforas sobre metáforas, visões sobre visões, e o que mais surpreende é a coragem de Yeats em expor sua crença, suas experiências, sua mulher.
Verdade ou não, que importa?
O que é verdadeiro sob o céu que se move?
Casou-se tarde, e no quarto dia de sua lua de mel, sua esposa começou a receber espíritos. Toda a primeira parte é consagrada a esses fenômenos e aquilo que as entidades lhe falaram. Yeats descreve os odores misteriosos que anunciam as visitas ( rosas ) e as luzes e assobios que os acompanham. Durante meses a esposa psicografava enormes textos exotéricos sobre o que significa a vida, a história e o que acontece com nossas almas nesta e em todas as outras vidas. O poeta mergulha de cabeça em todo esse simbolismo sem medo nenhum, jamais apelando para soluções fáceis como dizer que tudo é loucura ou auto-hipnose. Como todo poeta ou amante, ele foge das facilidades e dos rótulos prontos.
No segundo volume é passada toda a mensagem desses seres etéreos. A base é a reencarnação, mas ao contrário do espiritismo, é uma reencarnação não cristã, e inversamente ao hinduísmo, não se apega ao karma. É leitura complexa, cansativa, muito difícil, com trechos completamente obscuros. Mas mesmo assim se depreende:
1- Que a história do homem é a história de sua individuação. Nosso caminho é estrada que vai do anonimato ao apego egocêntrico, da arte anônima a assinatura, do não-eu dos animais à afirmação do eu-sou-único, do grupo a auto-suficiência. Mas esse processo é cíclico, e nele se caminha para a decadência, momento em que a civilização se desagrega. Cada indivíduo perde o interesse pelo todo. Fato observado no fim do Egito, na Grécia, em Roma e Bizâncio.
2- Nada é resolvido nesta vida. Todo aprendizado é feito na revisão da vida vivida. Nossa existência sólida é apenas um ensaio, um sonho, uma tênue viagem.
3- Uma belíssima imagem: O Espírito é nosso futuro, nossos desejos são o presente, nossa matéria é nosso passado. Considero essa divisão maravilhosamente bem pensada. A alma como a aspiração, o desejo como a prisão do eterno agora, e nosso corpo e as coisas que nos cercam como envelhecidos e falíveis objetos do sempre passado.
4- Yeats cita Hegel: a Ásia é o mundo da natureza, a história do Ocidente é a história da fuga da natureza. Fuga essa que foi razoávelmente bem sucedida na Grécia e plenamente realizada pelo cristianismo, religião que separa definitivamente o homem da natureza.
5- Imagem da ciência e do intelecto: A ciência quando analisa um pássaro sempre enxergará um esqueleto seco numa praia. O pássaro que voa, come, defeca e copula é inalcansável pela razão, pois o intelecto para apreender algo precisa primeiro matar.
No terceiro livro Yeats analisa a evolução histórica na visão desse movimento de individuação e decadência. Ele cita Bizâncio como um apogeu humano e a criação de Merlin e do amor cortês como outro. Desde a renascença estaria havendo essa queda, essa desvalorização do coletivo e do sagrado, e o crescimento do individual e do corriqueiro.
Não importa se foram espíritos ou não, as idéias aqui escritas trazem outras idéias embutidas. O texto é inesgotável, fluido, fertilizador. São metáforas sobre metáforas, visões sobre visões, e o que mais surpreende é a coragem de Yeats em expor sua crença, suas experiências, sua mulher.
Verdade ou não, que importa?
O que é verdadeiro sob o céu que se move?
O HOMEM DOS OLHOS FRIOS-ANTHONY MANN ( HERÓIS )
Interessante pensar que os heróis de cinema de hoje são pistoleiros sem diálogos ou personagens de cartoon sem ideais. Os tipos feitos por Jason Statham, Vin Diesel, Daniel Craig ou Matt Damon não têm nada a dizer. Neles não existe um passado, uma história a ser superada, um destino a ser vencido. São heróis sem heroísmo, bonecos histéricos que se movem, saltam e correm sem transformação nenhuma. Eles não crescem, apenas se movem. Produtos que vendem ação.
Neste filme temos um herói. Um homem que foi alguém e que aprendeu a nunca confiar em ninguém. Ele perdeu tudo e agora vive dentro das regras do mundo. Mas vive no limite dessas regras, ele vê de fora, transita por dentro e por fora. Sabe exatamente o que esse mundo é.
A primeira cena do filme já nos pega. Ele vem em seu cavalo com um morto na garupa. Toda a cidade o observa. O sol castiga as ruas poeirentas. Ele desce e leva o corpo ao xerife de lá. O herói é um caçador de recompensas, ele mata para ganhar dinheiro, e o povo "honesto" da cidade o detesta por isso. Todos serão ríspidos e duros com ele.
O filme desenvolve a relação desse homem com o xerife dessa cidade, um inseguro e nada heróico jovem. Ele fará desse jovem seu discípulo e Mann é muito feliz no desenvolvimento dessa relação. Ela é silenciosa, travada, natural.
Mas há mais. O roteiro ( Dudley Nichols, perfeito ) toca na relação racista da cidade com os índios e o herói faz amizade com família segregada.
Há algo de muito nobre nesse homem ( como há em todo herói verdadeiro ), é a consciência que ele demonstra, lacônica, de não poder mais perder tempo com tolices como o racismo ou a vingança. Ele não deixou de ser racista por ter sido educado ou convencido a não ser, ele simplesmente percebeu que a vida é muito mais que isso. Nele existe a consciência do valor da vida e do "não-valor" dos homens.
Henry Fonda faz esse herói. Nenhum ator de seu tempo ou de hoje é como Henry Fonda. Ele é um homem inteiro, ele é o sonho dos americanos, nobre e democrata. Tem os olhos do que seria um líder perfeito. Algo nele é etéreo, suave, evanescente; mas é a suavidade da força que não se verga, do silêncio indomado. Sua atuação, já maduro, é comovente. Veja este filme e 12 HOMENS E UMA SENTENÇA e se convença de sua genialidade. ( Mas há ainda os filmes que fez com Ford, Lang e Hitchcock ).
Anthony Perkins faz o jovem xerife. Perkins, que será sempre Norman Bates, tinha uma fragilidade fascinante, e aqui essa sua "fraqueza" cai a perfeição. Ele gagueja, exita, treme, até finalmente acertar.
A fotografia, como em todo filme de Mann, tem um cuidado especial. Loyal Griggs capta as sombras prateadas das ruas e o brilho radiante do sol. A música, de Elmer Bernstein, é usada com economia, o que ajuda muito o filme.
Anthony Mann nunca errou. Todos os seus filmes são bons. Ele fazia filmes simples, porém cheios de simbolismo clássico. Equivalem às tragédias gregas, a fábulas morais, a exemplos de ensino e provação. Ele dava dignidade a tudo em que trabalhava. Ele era um homem tão vasto quanto eram vastos seus heróis. O cinema teve muita sorte em o ter, e eu tenho a sorte de poder assisti-lo.
Neste filme temos um herói. Um homem que foi alguém e que aprendeu a nunca confiar em ninguém. Ele perdeu tudo e agora vive dentro das regras do mundo. Mas vive no limite dessas regras, ele vê de fora, transita por dentro e por fora. Sabe exatamente o que esse mundo é.
A primeira cena do filme já nos pega. Ele vem em seu cavalo com um morto na garupa. Toda a cidade o observa. O sol castiga as ruas poeirentas. Ele desce e leva o corpo ao xerife de lá. O herói é um caçador de recompensas, ele mata para ganhar dinheiro, e o povo "honesto" da cidade o detesta por isso. Todos serão ríspidos e duros com ele.
O filme desenvolve a relação desse homem com o xerife dessa cidade, um inseguro e nada heróico jovem. Ele fará desse jovem seu discípulo e Mann é muito feliz no desenvolvimento dessa relação. Ela é silenciosa, travada, natural.
Mas há mais. O roteiro ( Dudley Nichols, perfeito ) toca na relação racista da cidade com os índios e o herói faz amizade com família segregada.
Há algo de muito nobre nesse homem ( como há em todo herói verdadeiro ), é a consciência que ele demonstra, lacônica, de não poder mais perder tempo com tolices como o racismo ou a vingança. Ele não deixou de ser racista por ter sido educado ou convencido a não ser, ele simplesmente percebeu que a vida é muito mais que isso. Nele existe a consciência do valor da vida e do "não-valor" dos homens.
Henry Fonda faz esse herói. Nenhum ator de seu tempo ou de hoje é como Henry Fonda. Ele é um homem inteiro, ele é o sonho dos americanos, nobre e democrata. Tem os olhos do que seria um líder perfeito. Algo nele é etéreo, suave, evanescente; mas é a suavidade da força que não se verga, do silêncio indomado. Sua atuação, já maduro, é comovente. Veja este filme e 12 HOMENS E UMA SENTENÇA e se convença de sua genialidade. ( Mas há ainda os filmes que fez com Ford, Lang e Hitchcock ).
Anthony Perkins faz o jovem xerife. Perkins, que será sempre Norman Bates, tinha uma fragilidade fascinante, e aqui essa sua "fraqueza" cai a perfeição. Ele gagueja, exita, treme, até finalmente acertar.
A fotografia, como em todo filme de Mann, tem um cuidado especial. Loyal Griggs capta as sombras prateadas das ruas e o brilho radiante do sol. A música, de Elmer Bernstein, é usada com economia, o que ajuda muito o filme.
Anthony Mann nunca errou. Todos os seus filmes são bons. Ele fazia filmes simples, porém cheios de simbolismo clássico. Equivalem às tragédias gregas, a fábulas morais, a exemplos de ensino e provação. Ele dava dignidade a tudo em que trabalhava. Ele era um homem tão vasto quanto eram vastos seus heróis. O cinema teve muita sorte em o ter, e eu tenho a sorte de poder assisti-lo.
BERGMAN/ JOHN FORD/ BOORMAN/ GODARD/ CHABROL/ CAROL REED/ ANTHONY MANN
PERSONA de Ingmar Bergman com Bibi Andersson e Liv Ullman
Dificil classificar este filme. Todas as notas que dou têm relação com o prazer. Não dou um dez porque o filme é importante ou complexo. O dez é dado ao filme que me dá um supremo prazer, seja estético, seja emotivo, seja moral. Mas como falar de Persona? O filme tem a profundidade simbólica dos melhores sonhos, mas ao mesmo tempo é árido. Nenhum prazer existe em sua visão. Assistir este filme é sentir desconforto, medo e até mesmo angústia. Não há como em outros filmes do mestre, o alívio prazeroso da bela imagem e dos atores geniais. Aqui tudo é dor. Impossível a mim dar uma nota.
OS DEZ MANDAMENTOS de Cecil B.de Mille com Charlton Heston, Yul Brynner e Anne Baxter
Aqui tudo é circo. Cecil se despede do cinema com imensa produção. São milhares de figurantes, bichos e cenários gigantes. Heston é Moisés e Brynner é o faraó. Anne está uma delícia como Nefertiti. Tem tudo nesse enredo de crioulo doido: tempestades, milagres, a voz de Deus, escravos, estupro e lutas. Profundo como um episódio de cartoon. Estranhamente é ainda divertido em sua cafonice esperta. Nota 6.
A VIDA ÍNTIMA DE SHERLOCK HOLMES de Billy Wilder com Robert Stephens e Colin Blakely
Na primeira parte vemos Holmes como um tipo de dandy gay viciado em cocaína. Watson é seu simplório amigo que como bom vitoriano finge nada perceber. É um tipo de comédia suave. Mas quando acontece o crime e Holmes passa a tentar o resolver o filme se perde. O caso é óbvio e simples demais para um detetive tão genial. È um dos últimos filmes de Billy e foi imenso fracasso. Nota 4.
DEPOIS DO VENDAVAL de John Ford com John Wayne, Maureen O'Hara e Victor McLaglen
Deixa eu contar: este é o filme favorito de meu pai. Assisti com ele quando eu tinha 10 anos de idade, na Globo, sábado às 21 horas. Lembro que achei o filme muito bobo, muito alegre e muito cheio de socos. Na adolescência passei a detestar esse tipo de filme ( como detestei tudo que lembrasse meu pai ). Mas após os 30 anos comecei a aceitar esses filmes, a ver sua poesia, seu imenso valor mitico. É o maior sucesso em bilheteria de Ford e ganhou Oscar. Conta a história de americano que vai a Irlanda ( Galway ) comprar casa que foi de seu pai. Lá, ele se enamora de vizinha ( Maureen maravilhosa ) e briga com grande valentão do lugar. O filme mostra a Irlanda do folclore, onde todos bebem e brigam, riem e fazem tudo beeeem devagar. Ford cria seu universo fordiano, mundo onde os mitos e os símbolos vivem. O filme é de uma comovente simplicidade e de uma esfusiante beleza. Wayne irrompe como rei da masculinidade e Maureen é a fêmea ideal. Lembrete de outro mundo possível ( extinto? ). Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!
XEQUE-MATE de Paul McGuiguan com Josh Hartnett e Lucy Liu
O que significa este filme? O ponto mais baixo em que uma diversão pode chegar? Observem: um filme ruim, antes, era um filme mal feito. Um filme ruim agora, como é este, é um filme mau. Violência pornográfica, roteiro imbecil e atores deploráveis ( o tal Josh mal sabe falar ). Há participações de atores de verdade ( infelizmente muito curtas ): Ben Kingsley e Morgan Freeman e de dois bons tipos: Bruce Willis e Stanley Tucci. Mas este lixo é inominável. Nota ZERO.
EXCALIBUR de John Boorman com Helen Mirren, Cherie Lunghi, Liam Neeson, Nicol Williamson
Uma fascinante viagem por mundo interior. Percebemos por entre as brumas nosso mundo e nossos símbolos mais imorredouros. Jung mora em cada personagem. Quando esta saga termina, sentimos que alguma coisa nos foi fixada. Há uma riquesa imensa nestas imagens. As cenas de Lancelot são as melhores, exemplos simples do que é o amor cortês. Nota 8.
FEDORA de Billy Wilder com William Holden e Marthe Keller
Último filme de Billy. Sem dúvida é o pior filme já feito por um grande diretor. Chega a dar pena. Trata-se de uma gororoba mal temperada sobre atriz anciã que tenta voltar ao cinema. Diálogos risíveis e interpretações lamentáveis. Nota Zero.
BANDE À PART de Jean-Luc Godard com Anna Karina, Sammi Frey e Claude Brasseur
Liberdade em forma de filme. Jean-Luc pega tudo que esperamos e nos devolve transformado. Os atores brincam e nos encantam, Anna dá um show no papel de uma bobona. O filme é leve, jovem, solto e soberbamente anárquico- mas atenção! É para amantes de cinema, sua magia está no filme em sí, não em sua "história". Nota 9.
ALPHAVILLE de Jean-Luc Godard com Anna Karina e Eddie Constantine
Godard consegue nos levar à ficção científica sem criar cenários ou efeitos. Ele filma a Paris de 1965 de um modo "esquisito", e nos faz crer que aquilo é um "outro mundo". Em que pese essa habilidade, este é de todos os seus filmes da primeira fase ( a fase Anna Karina ), o menos interessante. Um James Bond de vanguarda, ou um Godard em sci-fi. Nota 4.
MULHERES FÁCEIS de Claude Chabrol com Bernadette Lafond e Stephane Audran
É a história de 4 moças em Paris. Seus amores ( ou não ), bebedeiras, orgias e seu trabalho alienante. O filme é bastante ousado para a época e tem um final hitchcockiano. Lafond é uma comediante maravilhosa, tudo nela é ironia. Chabrol jamais foi um gênio, mas era um cineasta seguro, afiado, instigante. Nota 7.
O ÍDOLO CAÍDO de Carol Reed com Ralph Richardson e Michele Morgan
Na embaixada da França em Londres, um menino apegado a mordomo, presencia sua infidelidade e no processo descobre o que significa a palavra "verdade". Este filme, feito por um dos 3 maiores diretores ingleses, é uma obra-prima de suspense. O final me deixou com o coração na mão!!!! Detestamos o menino cada vez mais e nos compadecemos do mordomo e de sua amante. Cenários belos e labirínticos e fotografia exemplar de Georges Périnal. O grande ator shakespeareano, Ralph Richardson, mostra todo o medo e toda a aceitação do destino do patético mordomo. O filme, original e asfixiante, é uma jóia do melhor momento do cinema inglês. Veja e se apaixone por esse muito grande diretor. Nota DEZ!!!!
O HOMEM DOS OLHOS FRIOS de Anthony Mann com Henry Fonda e Anthony Perkins
Mann nunca errava???? A primeira cena deste western já é antológica, um passeio em grua, num preto e branco brilhante, pela cidade. Mas o filme é todo assim, uma aula de cinema. Fonda está estupendo como o herói amargo e quieto, exemplo de virilidade bem resolvida. Seus olhos são os olhos de um anjo caído. Tudo neste filme caminha para seu final catártico. Quem desejar saber o que é um herói e para que serve uma aventura, que veja este monumento. Anthony Mann, mestre de westerns que se fazem mitos, dava estatura de arte filosófica a filmes aparentemente banais. Um diretor perfeito. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Dificil classificar este filme. Todas as notas que dou têm relação com o prazer. Não dou um dez porque o filme é importante ou complexo. O dez é dado ao filme que me dá um supremo prazer, seja estético, seja emotivo, seja moral. Mas como falar de Persona? O filme tem a profundidade simbólica dos melhores sonhos, mas ao mesmo tempo é árido. Nenhum prazer existe em sua visão. Assistir este filme é sentir desconforto, medo e até mesmo angústia. Não há como em outros filmes do mestre, o alívio prazeroso da bela imagem e dos atores geniais. Aqui tudo é dor. Impossível a mim dar uma nota.
OS DEZ MANDAMENTOS de Cecil B.de Mille com Charlton Heston, Yul Brynner e Anne Baxter
Aqui tudo é circo. Cecil se despede do cinema com imensa produção. São milhares de figurantes, bichos e cenários gigantes. Heston é Moisés e Brynner é o faraó. Anne está uma delícia como Nefertiti. Tem tudo nesse enredo de crioulo doido: tempestades, milagres, a voz de Deus, escravos, estupro e lutas. Profundo como um episódio de cartoon. Estranhamente é ainda divertido em sua cafonice esperta. Nota 6.
A VIDA ÍNTIMA DE SHERLOCK HOLMES de Billy Wilder com Robert Stephens e Colin Blakely
Na primeira parte vemos Holmes como um tipo de dandy gay viciado em cocaína. Watson é seu simplório amigo que como bom vitoriano finge nada perceber. É um tipo de comédia suave. Mas quando acontece o crime e Holmes passa a tentar o resolver o filme se perde. O caso é óbvio e simples demais para um detetive tão genial. È um dos últimos filmes de Billy e foi imenso fracasso. Nota 4.
DEPOIS DO VENDAVAL de John Ford com John Wayne, Maureen O'Hara e Victor McLaglen
Deixa eu contar: este é o filme favorito de meu pai. Assisti com ele quando eu tinha 10 anos de idade, na Globo, sábado às 21 horas. Lembro que achei o filme muito bobo, muito alegre e muito cheio de socos. Na adolescência passei a detestar esse tipo de filme ( como detestei tudo que lembrasse meu pai ). Mas após os 30 anos comecei a aceitar esses filmes, a ver sua poesia, seu imenso valor mitico. É o maior sucesso em bilheteria de Ford e ganhou Oscar. Conta a história de americano que vai a Irlanda ( Galway ) comprar casa que foi de seu pai. Lá, ele se enamora de vizinha ( Maureen maravilhosa ) e briga com grande valentão do lugar. O filme mostra a Irlanda do folclore, onde todos bebem e brigam, riem e fazem tudo beeeem devagar. Ford cria seu universo fordiano, mundo onde os mitos e os símbolos vivem. O filme é de uma comovente simplicidade e de uma esfusiante beleza. Wayne irrompe como rei da masculinidade e Maureen é a fêmea ideal. Lembrete de outro mundo possível ( extinto? ). Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!
XEQUE-MATE de Paul McGuiguan com Josh Hartnett e Lucy Liu
O que significa este filme? O ponto mais baixo em que uma diversão pode chegar? Observem: um filme ruim, antes, era um filme mal feito. Um filme ruim agora, como é este, é um filme mau. Violência pornográfica, roteiro imbecil e atores deploráveis ( o tal Josh mal sabe falar ). Há participações de atores de verdade ( infelizmente muito curtas ): Ben Kingsley e Morgan Freeman e de dois bons tipos: Bruce Willis e Stanley Tucci. Mas este lixo é inominável. Nota ZERO.
EXCALIBUR de John Boorman com Helen Mirren, Cherie Lunghi, Liam Neeson, Nicol Williamson
Uma fascinante viagem por mundo interior. Percebemos por entre as brumas nosso mundo e nossos símbolos mais imorredouros. Jung mora em cada personagem. Quando esta saga termina, sentimos que alguma coisa nos foi fixada. Há uma riquesa imensa nestas imagens. As cenas de Lancelot são as melhores, exemplos simples do que é o amor cortês. Nota 8.
FEDORA de Billy Wilder com William Holden e Marthe Keller
Último filme de Billy. Sem dúvida é o pior filme já feito por um grande diretor. Chega a dar pena. Trata-se de uma gororoba mal temperada sobre atriz anciã que tenta voltar ao cinema. Diálogos risíveis e interpretações lamentáveis. Nota Zero.
BANDE À PART de Jean-Luc Godard com Anna Karina, Sammi Frey e Claude Brasseur
Liberdade em forma de filme. Jean-Luc pega tudo que esperamos e nos devolve transformado. Os atores brincam e nos encantam, Anna dá um show no papel de uma bobona. O filme é leve, jovem, solto e soberbamente anárquico- mas atenção! É para amantes de cinema, sua magia está no filme em sí, não em sua "história". Nota 9.
ALPHAVILLE de Jean-Luc Godard com Anna Karina e Eddie Constantine
Godard consegue nos levar à ficção científica sem criar cenários ou efeitos. Ele filma a Paris de 1965 de um modo "esquisito", e nos faz crer que aquilo é um "outro mundo". Em que pese essa habilidade, este é de todos os seus filmes da primeira fase ( a fase Anna Karina ), o menos interessante. Um James Bond de vanguarda, ou um Godard em sci-fi. Nota 4.
MULHERES FÁCEIS de Claude Chabrol com Bernadette Lafond e Stephane Audran
É a história de 4 moças em Paris. Seus amores ( ou não ), bebedeiras, orgias e seu trabalho alienante. O filme é bastante ousado para a época e tem um final hitchcockiano. Lafond é uma comediante maravilhosa, tudo nela é ironia. Chabrol jamais foi um gênio, mas era um cineasta seguro, afiado, instigante. Nota 7.
O ÍDOLO CAÍDO de Carol Reed com Ralph Richardson e Michele Morgan
Na embaixada da França em Londres, um menino apegado a mordomo, presencia sua infidelidade e no processo descobre o que significa a palavra "verdade". Este filme, feito por um dos 3 maiores diretores ingleses, é uma obra-prima de suspense. O final me deixou com o coração na mão!!!! Detestamos o menino cada vez mais e nos compadecemos do mordomo e de sua amante. Cenários belos e labirínticos e fotografia exemplar de Georges Périnal. O grande ator shakespeareano, Ralph Richardson, mostra todo o medo e toda a aceitação do destino do patético mordomo. O filme, original e asfixiante, é uma jóia do melhor momento do cinema inglês. Veja e se apaixone por esse muito grande diretor. Nota DEZ!!!!
O HOMEM DOS OLHOS FRIOS de Anthony Mann com Henry Fonda e Anthony Perkins
Mann nunca errava???? A primeira cena deste western já é antológica, um passeio em grua, num preto e branco brilhante, pela cidade. Mas o filme é todo assim, uma aula de cinema. Fonda está estupendo como o herói amargo e quieto, exemplo de virilidade bem resolvida. Seus olhos são os olhos de um anjo caído. Tudo neste filme caminha para seu final catártico. Quem desejar saber o que é um herói e para que serve uma aventura, que veja este monumento. Anthony Mann, mestre de westerns que se fazem mitos, dava estatura de arte filosófica a filmes aparentemente banais. Um diretor perfeito. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ZORBA,O GREGO-NIKOS KAZANTZAKIS, NADA COMO O SOL
Foi um tempo de deserto, o tempo em que li Zorba pela primeira vez. O sol me fazia suar muito e eu conhecia Zorba do jeito certo, debaixo do sol. Era um tempo em que minha caixa de proteção havia se quebrado e medo + dúvida me seguiam sem trégua. Mas eu conheci esse grego antigo como a vida e passei a sentir a existência como alguma dádiva. Nunca mais fui o mesmo.
Um intelectual inglês viaja à Grécia. Lá ele irá administrar uma mina que herdou. No barco que cruza o mar ele conhece Alexis Zorba, um grego sem cultura. Um grego que lutou em guerras, que matou, que chorou, um homem que viveu. Zorba é o homem antes da cultura, antes da separação ( traumática ) entre homem e natureza. Zorba não questiona o que a vida é ou pode ser, Zorba aceita e deseja.
Os dois se tornam amigos e o velho grego lhe ensina a comer, beber, brigar e principalmente a amar. A vida se dá para o "empurrador de canetas". Ele passa a entender que o vinho é um milagre, que a morte é para ser odiada, que toda mulher deve ser amada.
Zorba diz que tudo o que não pode ser dito deve ser dançado. Ele dançou a dor quando seu filho morreu. Ele dança a alegria de ser seu amigo. Zorba está além e antes da palavra.
A mina se torna um fiasco maravilhoso e os dois se separam. O inglês nunca se tornará Zorba, ele surgiu tarde demais em sua vida. O grego o convidará para ver "uma pedra", mas o empurrador de canetas ( hoje seria um apertador de botões ) não vai. Na versão de cinema tudo termina com a maravilhosa dança de Anthony Quinn, ator que se tornaria desde então Zorba para sempre.
Mas quando li o livro pensei todo o tempo em meu avô como Zorba. Um homem de pedras e de sol na cara, em lombo de burrico, com vinho e azeitonas. Sólido como o para sempre.
Releio Zorba a cada sete, oito anos. Esqueço às vezes o quanto ele me fez bem. Mais que isso, deu valor a minha hombridade, salvou-me de uma aridez snob. Fertilizou minha cabeça dura.
Porque ele me fez amar a mulher que tem sabor, que goza em despudor, que ri alto e chora berrando. Me fez saber o que o sol é: o rei dentre os reis e mágico incenso da mente. Me fez aceitar minha cara mediterrânea, meu peito cabeludo, meus dentes afiados e minhas mãos que são patas. Deu sabor de sol à minha vida.
Dei a mão ao velho Zorba e não mais a larguei.
Kazantzakis, solitário caçador de sentido, angustiado indagador, criou/encontrou Zorba e deu a si-mesmo e ao mundo um Homem.
Meu melhor é Zorba. O resto nada vale.
Um intelectual inglês viaja à Grécia. Lá ele irá administrar uma mina que herdou. No barco que cruza o mar ele conhece Alexis Zorba, um grego sem cultura. Um grego que lutou em guerras, que matou, que chorou, um homem que viveu. Zorba é o homem antes da cultura, antes da separação ( traumática ) entre homem e natureza. Zorba não questiona o que a vida é ou pode ser, Zorba aceita e deseja.
Os dois se tornam amigos e o velho grego lhe ensina a comer, beber, brigar e principalmente a amar. A vida se dá para o "empurrador de canetas". Ele passa a entender que o vinho é um milagre, que a morte é para ser odiada, que toda mulher deve ser amada.
Zorba diz que tudo o que não pode ser dito deve ser dançado. Ele dançou a dor quando seu filho morreu. Ele dança a alegria de ser seu amigo. Zorba está além e antes da palavra.
A mina se torna um fiasco maravilhoso e os dois se separam. O inglês nunca se tornará Zorba, ele surgiu tarde demais em sua vida. O grego o convidará para ver "uma pedra", mas o empurrador de canetas ( hoje seria um apertador de botões ) não vai. Na versão de cinema tudo termina com a maravilhosa dança de Anthony Quinn, ator que se tornaria desde então Zorba para sempre.
Mas quando li o livro pensei todo o tempo em meu avô como Zorba. Um homem de pedras e de sol na cara, em lombo de burrico, com vinho e azeitonas. Sólido como o para sempre.
Releio Zorba a cada sete, oito anos. Esqueço às vezes o quanto ele me fez bem. Mais que isso, deu valor a minha hombridade, salvou-me de uma aridez snob. Fertilizou minha cabeça dura.
Porque ele me fez amar a mulher que tem sabor, que goza em despudor, que ri alto e chora berrando. Me fez saber o que o sol é: o rei dentre os reis e mágico incenso da mente. Me fez aceitar minha cara mediterrânea, meu peito cabeludo, meus dentes afiados e minhas mãos que são patas. Deu sabor de sol à minha vida.
Dei a mão ao velho Zorba e não mais a larguei.
Kazantzakis, solitário caçador de sentido, angustiado indagador, criou/encontrou Zorba e deu a si-mesmo e ao mundo um Homem.
Meu melhor é Zorba. O resto nada vale.
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