Ele começa falando de Stendhal. Mas não se alegre. O estilo de Sebald não tem nada da acariciante fluidez de Stendhal. Sebald recorda a experiência do Stendhal viajante : no exército de Napoleão, tendo presenciado a travessia dos Alpes e o massacre : 50.000 soldados e 20.000 cavalos mortos, estropiados, espalhados pelo campo cheio de aves os devorando. Stendhal começa a escrever a partir daí.
No meio do livro Sebald recorda outra viagem : a de Kafka pelo norte da Itália/ sul da Austria. Uma viagem feita de horror e de alegria fugaz.
Sebald, narrador desencantado, refaz a viagem dos dois grandes escritores: Viena, Trieste, Innsbruck, Veneza, Riva, Verona e muito mais. Termina indo à W. cidade onde nasceu. Sua maior emoção é ver um afresco de Giotto, meio escondido numa capela de Pádua. Para ele, é a coisa mais bela que pode ser concebida pelo homem.
Decepções ele tem todas. O percurso é feito sem motivo algum. Ele vai zanzando de lá para cá, à toa, sem rumo, sem objetivo. Não há razão em se ir, não há motivo para parar. Tudo lhe decepciona, pior que isso : nada é realmente visto. Seus contatos com as pessoas são muito superficiais, sem brilho, amorfos. Ele pensa bastante, diz escrever, mas parece extremamente estéril.
Assim é o primeiro livro de W G Sebald, autor falecido precocemente nos anos 90 e que é chamado por alguns de "único autor contemporâneo que vale a pena." Vale ? Sem dúvida vale. É provávelmente o mais perfeito retrato deste início de século XXI. Uma pessoa em eterno movimento, ansiosa todo o tempo e que na verdade anda apenas para não ficar parada.
O estilo em que o livro é escrito é o estilo digital : nervoso, curto, parágrafos muito longos com pontuação arbitrária. Muita idéia em pouco texto. Parece escrito a pauladas. Mais anti Henry James é impossível : James escreve às pinceladas.
Sebald ficará. É original em seu tédio angustioso. É entediado mas não entedia. Complexo, porém, compreensível. Labiríntico.
Ao fim, na cidade de W., o narrador descobre um segredo. Que sua infância nunca existiu. Que aquilo que foi vivido não pode ser sequer recordado. Estamos presos a não-memória, a não-história. Nada mais interessa, nada mais surpreende, nada mais acontece de definitivo. Esse é o norte de sua viagem. Isso é que o faz andar: existir, hoje, não é pensar. Não é sequer fazer ou viver. Existir é se mover.
urbanidade: amor-paixão
Logo no início de Vertigem, livro de WG Sebald, há um pensamento bastante forte : a paixão é a necessidade daqueles que perderam o contato com a natureza. O estar apaixonado e o ato sexual são o que lhes restou de natural.
Não por acaso, a revolução industrial e o surgimento das grandes cidades, coincidem com o movimento romântico. Acuado, o Eu-natural se infla de sentimento, hiper-valoriza o amor-romântico, se mira no próprio coração. Para o homem ligado à vida natural, vivendo seus instintos básicos, paixão-amor é um sentimento que existe, é importante, mas não é tudo. Nada de love is all.
Há em primeiro lugar a luta pela sobrevivência. E essa feroz luta, dá a esse homem o contato com a natureza : partos, doenças ( sarampo, catapora, escarlatina, febres, tifo ), caças, guerras, fome, medo. Felizmente estamos distantes da época em que se morria de gripe aos 30 anos. Mas não devíamos ter jogado tudo ao lixo. O bom e o ruim. Nos livramos das doenças ( algumas ), da fome ( quase ), das guerras ( se tornaram virtuais ), mas jogamos fora também a aventura de viver, a liberdade, o sentido de sagrado, de se fazer parte de algo que sobreviverá para sempre, o sentimento de se maravilhar, o êxtase.
Procuramos tudo isso na paixão por alguém. Ela nos dará a fé de volta. Nos inspirará, nos dará coragem e liberdade, nos religará à vida e ao eterno. Nos deixará maiores. Que tragédia ! Ninguém conseguirá fazer tanto! Iremos nos sentir enganados, traídos, perdidos.
Ninguém será Keats por estar apaixonado.
Tentamos ver no sexo a animalidade, o prazer, o êxtase que toda uma complexa vida de instinto natural e solto nos proporcionava. Sexo é ótimo. Mas não é cura e razão de todo mal. Voce pode ser infeliz tendo todo o sexo do mundo, e feliz sem qualquer vida sexual. Que embaraço né ? Não é a idéia que nos é vendida.
Então, quando notamos, afinal, que o amor não nos trouxe de volta a inocência da infância, a inspiração da poesia, a liberdade da natureza; nos amarguramos, nos tornamos cínicos, culpando o próprio amor de um erro que não foi dele. E quando sentimos que por mais que façamos sexo, continuamos ansiosos, tristes e perdidos, culpamos nossas escolhas, e tentamos mais sexo, mais variações, mais loucuras.
O irônico é que das grandes emoções básicas do homem, vivemos hoje as mais negativas. Medo, raiva, desespero, cobiça. Perdemos o contato com o sublime, a nobreza, o auto-sacrifício, o êxtase dionisíaco, a catarse, a epifania. São sentimentos básicos. São anacrônicos como o bisão e o albatroz. Procuramos encontrar no amor tudo o que perdemos : o bisão e o albatroz. Encontramos um gatinho.
Não por acaso, a revolução industrial e o surgimento das grandes cidades, coincidem com o movimento romântico. Acuado, o Eu-natural se infla de sentimento, hiper-valoriza o amor-romântico, se mira no próprio coração. Para o homem ligado à vida natural, vivendo seus instintos básicos, paixão-amor é um sentimento que existe, é importante, mas não é tudo. Nada de love is all.
Há em primeiro lugar a luta pela sobrevivência. E essa feroz luta, dá a esse homem o contato com a natureza : partos, doenças ( sarampo, catapora, escarlatina, febres, tifo ), caças, guerras, fome, medo. Felizmente estamos distantes da época em que se morria de gripe aos 30 anos. Mas não devíamos ter jogado tudo ao lixo. O bom e o ruim. Nos livramos das doenças ( algumas ), da fome ( quase ), das guerras ( se tornaram virtuais ), mas jogamos fora também a aventura de viver, a liberdade, o sentido de sagrado, de se fazer parte de algo que sobreviverá para sempre, o sentimento de se maravilhar, o êxtase.
Procuramos tudo isso na paixão por alguém. Ela nos dará a fé de volta. Nos inspirará, nos dará coragem e liberdade, nos religará à vida e ao eterno. Nos deixará maiores. Que tragédia ! Ninguém conseguirá fazer tanto! Iremos nos sentir enganados, traídos, perdidos.
Ninguém será Keats por estar apaixonado.
Tentamos ver no sexo a animalidade, o prazer, o êxtase que toda uma complexa vida de instinto natural e solto nos proporcionava. Sexo é ótimo. Mas não é cura e razão de todo mal. Voce pode ser infeliz tendo todo o sexo do mundo, e feliz sem qualquer vida sexual. Que embaraço né ? Não é a idéia que nos é vendida.
Então, quando notamos, afinal, que o amor não nos trouxe de volta a inocência da infância, a inspiração da poesia, a liberdade da natureza; nos amarguramos, nos tornamos cínicos, culpando o próprio amor de um erro que não foi dele. E quando sentimos que por mais que façamos sexo, continuamos ansiosos, tristes e perdidos, culpamos nossas escolhas, e tentamos mais sexo, mais variações, mais loucuras.
O irônico é que das grandes emoções básicas do homem, vivemos hoje as mais negativas. Medo, raiva, desespero, cobiça. Perdemos o contato com o sublime, a nobreza, o auto-sacrifício, o êxtase dionisíaco, a catarse, a epifania. São sentimentos básicos. São anacrônicos como o bisão e o albatroz. Procuramos encontrar no amor tudo o que perdemos : o bisão e o albatroz. Encontramos um gatinho.
JEAN BECKER/ASQUITH/BERGMAN/BOGART/SOLARIS
CONVERSAS COM MEU JARDINEIRO de Jean Becker com Daniel Auteill
Becker, filho do grande Jacques Becker, é um dos bons diretores franceses atuais ( apesar de já veterano ). Aqui ele mostra uma linda história sobre amizade. Um pintor bem sucedido, pensa em reformar sua horta. Chama um jardineiro, que é, para sua surpresa, um antigo colega de escola. Amor, família, vida. Tudo é falado e vivido pelos dois. O filme jamais se torna chato. Ele flui, leve, colorido, saudável, bonito. Muito bom. nota 7.
O AMOR EM CINCO TEMPOS de François Ozon com Valeria Bruni-Tedeschi
Cansei de Ozon. Seu cinema frio, analítico, me entedia. Um saco este chatíssimo drama. Que me interessa a vida de dois malas que nada têm a dizer ? nota zero.
NUNCA TE AMEI de Anthony Asquith com Michael Redgrave e Jean Kent
Foram 400 anos de teatro inglês para se atingir a excelência da atuação de Mr. Redgrave. Ele é um anti-"sociedade dos poetas mortos". Um professor chato, duro, amorfo. A cena em que sua fortaleza desmorona é de uma comovente verdade. Redgrave se reclina, lendo uma dedicatória, e chora de costas para a câmera. O choro não é teatral, é contido, doído, magistral. Um filme absolutamente perfeito, levado com nobresa pelo elegante Sir. Asquith. E com um ator que é um Mozart do palco e da tela. Inesquecível e obrigatório. nota Dez!!!!!
O TÚMULO VAZIO de Robert Wise com Boris Karloff e Bela Lugosi
Muito bom esse Wise. Em mais de trinta anos de carreira dirigiu musicais como West Side Story ou A Noviça Rebelde; e mais faroestes, policiais e um clássico como O Dia em que a Terra Parou. Este é seu segundo filme, um terror da RKO. Karloff está muito bem, compondo um fascinante vilão. nota 5.
HORAS DE TORMENTA de William Wyler com Humphrey Bogart e Frederic March
Na velha Hollywood, quatro diretores eram todo-poderosos : George Stevens, Frank Capra, John Ford e principalmente William Wyler. Um diretor considerado até hoje o mais " capaz" da história. O que significa esse "capaz" ? Que Wyler nunca errava. Jamais alguém poderia chamá-lo de gênio, ou de ousado; mas ele era a certeza de fluidez, competencia e muita inteligência. Ele sabia fazer, sabia dirigir atores, sabia narrar. Conquistou três prêmios de direção e mais seis indicações não premiadas. Dirigiu de tudo : musical, western, filme noir, romance de fadas, filme de arte, de tribunal, comédia maluca, filme de guerra. De Ben-Hur à Princesa e o Plebeu. Sempre acertando. Este é de seus últimos filmes. Bogart é um muito desagradável bandido. Invade uma casa e mantém a família como refém. O filme é um duelo entre Bogey e o chefe da casa-March. Um filme tenso, rico em desdobramentos e que flui com rapidez. Um tipo de filme de Scorsese antes do tempo. Muito, muito imitado. Nota 8.
JUVENTUDE de Ingmar Bergman com Maj-Britt Nilsson
É impressionantemente o décimo filme de Bergman. Aos 30 anos!!!!! Bom tempo em que um diretor de trinta anos já dirigira dez filmes... Ele considerava este seu primeiro trabalho "de verdade". É sua primeira obra-prima. E talvez, seu filme mais simples. Uma bailarina, aos 28 anos, sente-se pela primeira vez na vida, "velha". Ela viaja à uma ilha, onde recorda um amor que viveu aos 15 anos. O filme é sómente isso. Uma sessão de terapia onde vemos a bailarina tomar consciência de quem ela foi, é, e será para sempre. Mas é também, como Bergman sempre faz, muito mais. Trata-se de uma exposição. Mostra a vida dos adultos em contraste com os jovens. Uns, cínicos, cruéis, desesperançosos; e os jovens, leves, risonhos, apaixonados, crentes. As cenas de namoro entre o jovem casal são reais, graciosas, e maravilhosamente atuais ( o filme é de 1951, mas, que estranho, parece ser de 2009 ). Maj-Britt, mais uma das maravilhosas atrizes de Bergmann, linda-moderna-enfeitiçante, tem uma atuação natural, uma menina cheia de sexo, de encanto e de alegria. Mas seu rude amadurecimento nos corta a respiração, porque é exatamente como se dá com todos nós : um amadurecimento amargo, cruel e surpreendente. Tudo que Bergman faria depois já se encontra aqui : a beleza da fotografia ( há filme mais belo que este ? ), as falas solenes, os atores geniais, a preocupação com sexo/morte/alma. Um encantador trabalho, um leve e delicioso filme, onde roteiro, música e atores se esmeram em criar duas horas de absoluto prazer e de intenso drama. Gênial. nota Dez!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
SOLARIS de Andrei Tarkovski
É tido por obra-prima. Que nota darei ? A fotografia é linda ( há uma cena com um cavalo de estarrecer de tão bonita ), o roteiro é poesia filosófica, a câmera é precisa. Mas o que dizer ? O filme tem o único defeito que não poderia ter : é grotescamente chato. O divino Oscar Wilde já dizia : perdoamos tudo em alguém. Ele pode roubar, pode mentir, pode ser falso e enganar, mas ser chato é imperdoável. nota zero!!!!!!
Becker, filho do grande Jacques Becker, é um dos bons diretores franceses atuais ( apesar de já veterano ). Aqui ele mostra uma linda história sobre amizade. Um pintor bem sucedido, pensa em reformar sua horta. Chama um jardineiro, que é, para sua surpresa, um antigo colega de escola. Amor, família, vida. Tudo é falado e vivido pelos dois. O filme jamais se torna chato. Ele flui, leve, colorido, saudável, bonito. Muito bom. nota 7.
O AMOR EM CINCO TEMPOS de François Ozon com Valeria Bruni-Tedeschi
Cansei de Ozon. Seu cinema frio, analítico, me entedia. Um saco este chatíssimo drama. Que me interessa a vida de dois malas que nada têm a dizer ? nota zero.
NUNCA TE AMEI de Anthony Asquith com Michael Redgrave e Jean Kent
Foram 400 anos de teatro inglês para se atingir a excelência da atuação de Mr. Redgrave. Ele é um anti-"sociedade dos poetas mortos". Um professor chato, duro, amorfo. A cena em que sua fortaleza desmorona é de uma comovente verdade. Redgrave se reclina, lendo uma dedicatória, e chora de costas para a câmera. O choro não é teatral, é contido, doído, magistral. Um filme absolutamente perfeito, levado com nobresa pelo elegante Sir. Asquith. E com um ator que é um Mozart do palco e da tela. Inesquecível e obrigatório. nota Dez!!!!!
O TÚMULO VAZIO de Robert Wise com Boris Karloff e Bela Lugosi
Muito bom esse Wise. Em mais de trinta anos de carreira dirigiu musicais como West Side Story ou A Noviça Rebelde; e mais faroestes, policiais e um clássico como O Dia em que a Terra Parou. Este é seu segundo filme, um terror da RKO. Karloff está muito bem, compondo um fascinante vilão. nota 5.
HORAS DE TORMENTA de William Wyler com Humphrey Bogart e Frederic March
Na velha Hollywood, quatro diretores eram todo-poderosos : George Stevens, Frank Capra, John Ford e principalmente William Wyler. Um diretor considerado até hoje o mais " capaz" da história. O que significa esse "capaz" ? Que Wyler nunca errava. Jamais alguém poderia chamá-lo de gênio, ou de ousado; mas ele era a certeza de fluidez, competencia e muita inteligência. Ele sabia fazer, sabia dirigir atores, sabia narrar. Conquistou três prêmios de direção e mais seis indicações não premiadas. Dirigiu de tudo : musical, western, filme noir, romance de fadas, filme de arte, de tribunal, comédia maluca, filme de guerra. De Ben-Hur à Princesa e o Plebeu. Sempre acertando. Este é de seus últimos filmes. Bogart é um muito desagradável bandido. Invade uma casa e mantém a família como refém. O filme é um duelo entre Bogey e o chefe da casa-March. Um filme tenso, rico em desdobramentos e que flui com rapidez. Um tipo de filme de Scorsese antes do tempo. Muito, muito imitado. Nota 8.
JUVENTUDE de Ingmar Bergman com Maj-Britt Nilsson
É impressionantemente o décimo filme de Bergman. Aos 30 anos!!!!! Bom tempo em que um diretor de trinta anos já dirigira dez filmes... Ele considerava este seu primeiro trabalho "de verdade". É sua primeira obra-prima. E talvez, seu filme mais simples. Uma bailarina, aos 28 anos, sente-se pela primeira vez na vida, "velha". Ela viaja à uma ilha, onde recorda um amor que viveu aos 15 anos. O filme é sómente isso. Uma sessão de terapia onde vemos a bailarina tomar consciência de quem ela foi, é, e será para sempre. Mas é também, como Bergman sempre faz, muito mais. Trata-se de uma exposição. Mostra a vida dos adultos em contraste com os jovens. Uns, cínicos, cruéis, desesperançosos; e os jovens, leves, risonhos, apaixonados, crentes. As cenas de namoro entre o jovem casal são reais, graciosas, e maravilhosamente atuais ( o filme é de 1951, mas, que estranho, parece ser de 2009 ). Maj-Britt, mais uma das maravilhosas atrizes de Bergmann, linda-moderna-enfeitiçante, tem uma atuação natural, uma menina cheia de sexo, de encanto e de alegria. Mas seu rude amadurecimento nos corta a respiração, porque é exatamente como se dá com todos nós : um amadurecimento amargo, cruel e surpreendente. Tudo que Bergman faria depois já se encontra aqui : a beleza da fotografia ( há filme mais belo que este ? ), as falas solenes, os atores geniais, a preocupação com sexo/morte/alma. Um encantador trabalho, um leve e delicioso filme, onde roteiro, música e atores se esmeram em criar duas horas de absoluto prazer e de intenso drama. Gênial. nota Dez!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
SOLARIS de Andrei Tarkovski
É tido por obra-prima. Que nota darei ? A fotografia é linda ( há uma cena com um cavalo de estarrecer de tão bonita ), o roteiro é poesia filosófica, a câmera é precisa. Mas o que dizer ? O filme tem o único defeito que não poderia ter : é grotescamente chato. O divino Oscar Wilde já dizia : perdoamos tudo em alguém. Ele pode roubar, pode mentir, pode ser falso e enganar, mas ser chato é imperdoável. nota zero!!!!!!
o melhor ator em lingua inglesa- Nunca te Amei
Lendo Paulo Francis, com sua coluna diária na Folha, é que formei muitas das opiniões que mantenho até hoje. Uma das colunas que mais me tocou foi a descrição do grande teatro inglês dos anos pós-guerra, teatro que Francis teve a alegria de assistir. Aprendi então a idealizar atores como John Gielgud, Laurence Olivier, Ralph Richardson e Michael Redgrave. E também os atores de peso um pouco mais leve : Rex Harrison, Peter O'Toole, Richard Burton, Alec Guiness, Peter Sellers, Paul Scofield. Tive, como Francis teve, a esperança de que Gary Oldman, Jeremy Irons, Day-Lewis, Kenneth Branagh refizessem essa glória. Mas, eu e Francis, assistimos a destruição dessa genialidade pela sedução hollywoodiana. Day-Lewis, fugindo de LA ainda manteve certa integridade, mas os outros... que trágico !
E nesses anos procurei então, via cinema, meio que nunca os seduziu, encontrar uma gota dessa mítica. Tentar ver a genialidade desses gigantes nos filmes ( poucos ) que eles fizeram ( já que as peças se foram para sempre... ). Dos menores, Rex Harrison nos deu 3 ou 4 atuações que lhe fazem justiça, o mesmo com O'Toole, Burton, Guiness e Sellers. Scofield registrou apenas uma. Mas os gigantes...
Não há um só filme que faça justiça ao talento corporal/animalesco de Olivier. The Entertainer seria o mais refinado e Hamlet o que o satisfez melhor. De John Gielgud nem é bom falar. Apesar de ter filmado com alguns excelentes mestres, sua vida no cinema se reduz a papéis pequenos, papéis que ele fazia ocasionalmente para pagar alguma peça que dera prejuízo. Belo tempo em que a excelência seduzia mais que a celebridade !
Ralph Richardson se limitou no cinema a fazer o inglês meio-maluco. Mas dá para se ver uma centelha em "Longa jornada noite adentro", a terrível peça de O'Neill que Lumet dirigiu.
É preciso se dizer que os quatro gigantes eram amigos, aprenderam a ler com Shakespeare e delimitavam sua maestria em "feudos" bem desenhados. Olivier era rei na atuação corporal e no olhar, Gielgud tinha a melhor voz e Ralph era o rei da versatilidade. Michael Redgrave tinha um pouco dos 3 outros. THE BROWNING VERSION, conhecido no Brasil como Nunca te Amei, faz total justiça à Redgrave e prova que Francis e críticos como Tynan nunca exageraram em seus elogios.
O filme, dirigido por Anthony Asquith, mostra os últimos momentos de um velho professor numa tradicional escola inglesa. Ele é o tipo de mestre que todo aluno odeia e que todo colega despreza : antipático, snob, frio, muito exigente. Esse professor tem uma esposa que o detesta e o trai, com um colega mais jovem e mais querido. Esse mestre será transferido para uma outra escola, onde irá receber menos. Pois bem, eis a descrição do filme. Mas o que realmente, é tal filme ?
No incio nós sentimos asco pelo papel de Redgrave. Ele o interpreta como um tipo de homem de aço, esticando as sílabas, olhando os jovens com nojo, não confiando em ninguém. Redgrave era jovem quando o filme foi feito. No mesmo ano, com o mesmo diretor, ele fizera um excelente Oscar Wilde, papel em que ele esbanja alegria, leveza e graça. ( Além de beleza- Michael foi um galã ). Aqui, em absurda versatilidade, vemos um homem à beira da cova. O modo como ele fala, a maneira como ele anda, respira, veste o sobretudo, enterra o chapéu na cabeça. Tudo é de verdade, tudo é técnica, tudo é o MAIS ALTO GRAU DE EXCELÊNCIA que um ator pode querer. Mas então, com o correr do filme, os milagres começam a ocorrer... mais e mais...
Cena após cena, movimento após movimento, vemos um homem desmoronar. Tudo o que ele tem, lhe é tirado. Tudo o que ele é, revela-se um nada. E nosso coração, completamente dominado por esse ator de gênio, se derrete, seduzido por um personagem muito desagradável. Um milagre que somente um mestre pode ousar fazer.
Derramei lágrimas de admiração e de dor. O filme é, com Umberto D, o mais triste que já assití. Triste, nunca deprimente. Nosso cérebro ferve de admiração, e pensamos durante todo o filme : eis um gênio ! Agora entendo o que Francis dizia !!! Michael Redgrave não veste o personagem. Não se perde, possesso, como o fazem Pacino ou Brando. Ele doma o papel. Adestra nossa atenção. Onde De Niro e Penn revelam vontade e entrega, Redgrave revela inteligência e elegância. Humilha os colegas atores.
Há uma cena em que sua máscara cai. O professor recebe um presente do único aluno que o admira. O professor chora. É o mais melancólico, verdadeiro, sublime, comovedor, magistral choro que tive a honra de ver em qualquer tela. É o mais honesto momento que o cinema me proporcionou. Um homem desaba. Completamente. Um ator se revela. E nos dá um presente inesquecível : um mês após ver essa cena ainda a ouço, a sinto, a venero. É eterna.
Michael Redgrave dá nesse filme, a maior atuação da história do cinema. Takashi Shimura em Viver, Michel Simon em Atalante, Mastoianni, Sydow, Mifune, Pacino... todos são batidos. Ele se agiganta, se faz imenso, cresce, domina. Quem não assistir esta atuação, não terá um padrão para julgar qualquer outra atuação de gênio. É obrigatório.
Anthony Asquith foi descendente de uma das mais nobres famílias inglesas. Um nobre que dirige com nobreza. Seu filme não se rebaixa jamais.
Michael Redgrave fundou uma nobre linha de atores. Vanessa, sua filha, é a mais famosa. Um nobre ator. Devo-lhe o diamante desta atuação. Para sempre.
E nesses anos procurei então, via cinema, meio que nunca os seduziu, encontrar uma gota dessa mítica. Tentar ver a genialidade desses gigantes nos filmes ( poucos ) que eles fizeram ( já que as peças se foram para sempre... ). Dos menores, Rex Harrison nos deu 3 ou 4 atuações que lhe fazem justiça, o mesmo com O'Toole, Burton, Guiness e Sellers. Scofield registrou apenas uma. Mas os gigantes...
Não há um só filme que faça justiça ao talento corporal/animalesco de Olivier. The Entertainer seria o mais refinado e Hamlet o que o satisfez melhor. De John Gielgud nem é bom falar. Apesar de ter filmado com alguns excelentes mestres, sua vida no cinema se reduz a papéis pequenos, papéis que ele fazia ocasionalmente para pagar alguma peça que dera prejuízo. Belo tempo em que a excelência seduzia mais que a celebridade !
Ralph Richardson se limitou no cinema a fazer o inglês meio-maluco. Mas dá para se ver uma centelha em "Longa jornada noite adentro", a terrível peça de O'Neill que Lumet dirigiu.
É preciso se dizer que os quatro gigantes eram amigos, aprenderam a ler com Shakespeare e delimitavam sua maestria em "feudos" bem desenhados. Olivier era rei na atuação corporal e no olhar, Gielgud tinha a melhor voz e Ralph era o rei da versatilidade. Michael Redgrave tinha um pouco dos 3 outros. THE BROWNING VERSION, conhecido no Brasil como Nunca te Amei, faz total justiça à Redgrave e prova que Francis e críticos como Tynan nunca exageraram em seus elogios.
O filme, dirigido por Anthony Asquith, mostra os últimos momentos de um velho professor numa tradicional escola inglesa. Ele é o tipo de mestre que todo aluno odeia e que todo colega despreza : antipático, snob, frio, muito exigente. Esse professor tem uma esposa que o detesta e o trai, com um colega mais jovem e mais querido. Esse mestre será transferido para uma outra escola, onde irá receber menos. Pois bem, eis a descrição do filme. Mas o que realmente, é tal filme ?
No incio nós sentimos asco pelo papel de Redgrave. Ele o interpreta como um tipo de homem de aço, esticando as sílabas, olhando os jovens com nojo, não confiando em ninguém. Redgrave era jovem quando o filme foi feito. No mesmo ano, com o mesmo diretor, ele fizera um excelente Oscar Wilde, papel em que ele esbanja alegria, leveza e graça. ( Além de beleza- Michael foi um galã ). Aqui, em absurda versatilidade, vemos um homem à beira da cova. O modo como ele fala, a maneira como ele anda, respira, veste o sobretudo, enterra o chapéu na cabeça. Tudo é de verdade, tudo é técnica, tudo é o MAIS ALTO GRAU DE EXCELÊNCIA que um ator pode querer. Mas então, com o correr do filme, os milagres começam a ocorrer... mais e mais...
Cena após cena, movimento após movimento, vemos um homem desmoronar. Tudo o que ele tem, lhe é tirado. Tudo o que ele é, revela-se um nada. E nosso coração, completamente dominado por esse ator de gênio, se derrete, seduzido por um personagem muito desagradável. Um milagre que somente um mestre pode ousar fazer.
Derramei lágrimas de admiração e de dor. O filme é, com Umberto D, o mais triste que já assití. Triste, nunca deprimente. Nosso cérebro ferve de admiração, e pensamos durante todo o filme : eis um gênio ! Agora entendo o que Francis dizia !!! Michael Redgrave não veste o personagem. Não se perde, possesso, como o fazem Pacino ou Brando. Ele doma o papel. Adestra nossa atenção. Onde De Niro e Penn revelam vontade e entrega, Redgrave revela inteligência e elegância. Humilha os colegas atores.
Há uma cena em que sua máscara cai. O professor recebe um presente do único aluno que o admira. O professor chora. É o mais melancólico, verdadeiro, sublime, comovedor, magistral choro que tive a honra de ver em qualquer tela. É o mais honesto momento que o cinema me proporcionou. Um homem desaba. Completamente. Um ator se revela. E nos dá um presente inesquecível : um mês após ver essa cena ainda a ouço, a sinto, a venero. É eterna.
Michael Redgrave dá nesse filme, a maior atuação da história do cinema. Takashi Shimura em Viver, Michel Simon em Atalante, Mastoianni, Sydow, Mifune, Pacino... todos são batidos. Ele se agiganta, se faz imenso, cresce, domina. Quem não assistir esta atuação, não terá um padrão para julgar qualquer outra atuação de gênio. É obrigatório.
Anthony Asquith foi descendente de uma das mais nobres famílias inglesas. Um nobre que dirige com nobreza. Seu filme não se rebaixa jamais.
Michael Redgrave fundou uma nobre linha de atores. Vanessa, sua filha, é a mais famosa. Um nobre ator. Devo-lhe o diamante desta atuação. Para sempre.
TOURNEUR/MINELLI/JULIE CHRISTIE/NAVARONE/
O HOMEM LEOPARDO de Jacques Tourneur
Val Lewton produziu para a RKO uma série de filmes de suspense. Filmes baratos, com 70 minutos de duração e que acabaram marcando um lugar na história do filme b. Porque ? Porque como nos melhores filmes de Dracula ou Sherlock Holmes, o que importa não é o crime ou o mistério. O que nos seduz é cada sombra do cenário, cada travelling da câmera, os acordes da trilha sonora, o maravilhoso rosto dos atores ( irreais, sempre irreais ), as ruas cheias de neblina na madrugada deserta, a garoa e a luz dos postes, o som dos passos na calçada escorregadia, o grito agudo, a calma do herói teimoso. É uma fórmula. É quase perfeito. È para se ver numa noite gelada, vários cobertores sobre a cama, a casa vazia e escura, o cão roncando no tapete. Delicioso. Um adendo : Tourneur foi um diretor frances que sabia fazer filmes de suspense, polciais noir, filmes de pirata. Eis o cara ! nota 8.
O PIRATA de Vincente Minelli com Judy Garland e Gene Kelly
Existem 3 níveis de amor ao cinema. O faroeste é o primeiro. Depois vem Buster Keaton e por fim o musical. Nada nesta arte dá maior prazer que o musical. Nada é mais refinado, civilizado, bem feito, artísticamente nobre que um grande musical. Tudo nele é artifício. Tudo nele é falso. E é na sua artificialidade que mora seu mérito. Um mundo ideal, perfeito, ilusório, um mundo como deveria ser, como achamos que poderia ser, e, em seus momentos mais sublimes, o musical nos faz crer que o mundo é O Musical. Nós é que não o percebemos. O Pirata é delicioso como um conto de fadas. Profundo como Mozart. Sublime como um amor aos 14 anos de idade. Eterno como a memória de uma paixão. Foram musicais como este, com seu capricho, sua beleza colorida, seus diálogos espertos, sua cultura vienense, que fizeram de mim um aficionado por cinema em geral. Gene sorrí como nenhum ator sorrí. O cenário é um carnaval de plantas, panos, janelas, biombos e muita gente. A música é mais que vibrante, é quente. Judy, etérea, paira soberana, hipnotizando nosso olhar com sua estranheza. Um gigantesco bolo de noiva, um revellon de luxo. nota 10 com muito louvor ! - informação : O musical terminou quando o talento minguou. Nada era mais dispendioso. Para se fazer um grande musical se precisava de atores famosos que interpretassem, cantassem e dançassem bem. E fossem engraçados e "adorados". Roteiristas treinados em comédia, afiados em diálogo rápido e leve. Compositores de sucessos. Arranjadores com técnica erudita. Orquestras gigantescas. Cenógrafos e coreógrafos da Broadway. Imensos estúdios. Tempo para ensaios. E um diretor que entenda de dança e de música. Quando juntar tanto talento se tornou um risco grande demais, o musical acabou. Sobreviveu, parcamente, em milagres feitos por um gênio solitário ( os de Bob Fosse ) e algum acaso fortuito.
OS CANHÕES DE NAVARONE de J. Lee Thompson com Gregory Peck, Anthony Quinn e David Niven.
Perfeição. Uma aventura com personagens bem delineados, excelentes diálogos, ação que emociona, suspense e diálogos que podem ser citados ( há um sobre a inutilidade da guerra que é genial ). Porque tudo deu tão certo ? O mérito é do roteirista, Carl Foreman, perseguido pelo MacCarthismo e brilhando como roteirista e produtor nesta aventura divetidíssima. Este filme é o parâmetro em que toda aventura deve ser julgada. Explosões, tiroteios, naufrágios, fugas, traições... maravilhoso!!!! nota 9.
DESPERATE JOURNEY de Raoul Walsh com Erroll Flynn e Ronald Reagan
Lixo. Uma imensa decepção!!!! Um roteiro patético, fazendo dos nazistas idiotas completos e dos americanos gente que sorrí durante tortura. Se a guerra fosse essa infantil piada... nota zero!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
DR. BULL de John Ford com Will Rogers
Não chega a ter a alegria de Juiz Priest, filme que Ford e Rogers fizeram no ano seguinte. Mas é um bom exemplo de filme rural, bucólico, lentamente agradável. Rogers tinha mágica simpatia e Ford, relaxado, lhe dá todo espaço e tempo para brilhar. nota 7.
VENUS de Roger Mitchell com Peter O'Toole e Jody Whattley
Nada revela mais o caráter aristocrático inglês que a classificação que eles dão à seus atores. Michael Caine, ator que trouxe o inglês cockney-malandro para as telas, jamais será visto, em Londres, como Gielgud ou Richardson. Pois John e Ralph são do mundo de Shakespeare, Michael não é. Dito isto, falo que Peter sempre foi um rei. Nada se compara a seu Beckett ou ao que ele faz em Leão no Inverno. Foi uma estrela maior, um conquistador compulsivo, um bebedor imbatível. E ocupa, na hierarquia britânica, um lugar dúbio. Apesar de ser um excelente ator teatral, por ter se popularizado demais no cinema, é colocado atrás de Paul Rogers ou Michael Redgrave. Absurdo!!! Falando deste filme... é triste ver seu rosto estragado. A bebida e a idade devastaram seu olhar de Lawrence da Arábia. Mas é belo ver como ele se diverte e dá conta deste papel difícil, sutil, e comicamente trágico. Fora Peter, é um filme tolo, frio, pretensioso, quase idiota. Ele foi indicado em 2007 por este papel, e perdeu o prêmio pela oitava vez ( um recorde de derrotas ). nota 1.
CINCO COVAS NO EGITO de Billy Wilder com Erich Von Stroheim, Franchot Tone e Anne Baxter.
Segundo filme americano de Billy. Um suspense de guerra em que o grande Erich rouba o filme em seu papel de Rommel, a raposa do deserto nazista. Um filme muito bem feito, muito bem escrito e com linda fotografia do mestre John Seitz. nota 7.
LONGE DELA de Sarah Polley com Julie Christie e Gordon Pinsent.
Preciso. Sarah Polley, atriz mirim do Munchausen de Gillian, se revela aqui muito boa diretora. Neste filme, triste, árido, geriátrico, tudo poderia levar às lágrimas fáceis ou às gracinhas de velhos bonzinhos. Sarah não faz nada disso. Conta sua história. Não força, não doura e nunca apela. Observa. Julie, que perdeu o seu segundo Oscar de forma injusta para Piaf, interpreta como só grandes atrizes podem : com os olhos, com as mãos, com o cabelo. Ela flutua, aturdida, medrosa, sedutora, completamente perdida, variando entre infantil e madura. Um desempenho feito de discreta elegancia. Uma lady. Mas eu já esperava isso de minha atriz musa-para sempre. De minha Kate Hepburn de Londres. Mas Gordon Pinsent arrasa. Seu desamparo, seu abandono e a teimosia de quem insiste em fazer o amor sobreviver é simplesmente acachapante. Um ator superlativo. E eis, ainda com o brilho de Olympia Dukakis e Michael Murphy ( antigo ator de Altman ) um simples e discreto drama outonal. Cheio de neve e de árvores. E em que a diretora, muito jovem, faz algo tão raro no cinema atual : conta a história e deixa que os atores brilhem. Parece tão pouco. Mas é tão raro. nota 8.
Val Lewton produziu para a RKO uma série de filmes de suspense. Filmes baratos, com 70 minutos de duração e que acabaram marcando um lugar na história do filme b. Porque ? Porque como nos melhores filmes de Dracula ou Sherlock Holmes, o que importa não é o crime ou o mistério. O que nos seduz é cada sombra do cenário, cada travelling da câmera, os acordes da trilha sonora, o maravilhoso rosto dos atores ( irreais, sempre irreais ), as ruas cheias de neblina na madrugada deserta, a garoa e a luz dos postes, o som dos passos na calçada escorregadia, o grito agudo, a calma do herói teimoso. É uma fórmula. É quase perfeito. È para se ver numa noite gelada, vários cobertores sobre a cama, a casa vazia e escura, o cão roncando no tapete. Delicioso. Um adendo : Tourneur foi um diretor frances que sabia fazer filmes de suspense, polciais noir, filmes de pirata. Eis o cara ! nota 8.
O PIRATA de Vincente Minelli com Judy Garland e Gene Kelly
Existem 3 níveis de amor ao cinema. O faroeste é o primeiro. Depois vem Buster Keaton e por fim o musical. Nada nesta arte dá maior prazer que o musical. Nada é mais refinado, civilizado, bem feito, artísticamente nobre que um grande musical. Tudo nele é artifício. Tudo nele é falso. E é na sua artificialidade que mora seu mérito. Um mundo ideal, perfeito, ilusório, um mundo como deveria ser, como achamos que poderia ser, e, em seus momentos mais sublimes, o musical nos faz crer que o mundo é O Musical. Nós é que não o percebemos. O Pirata é delicioso como um conto de fadas. Profundo como Mozart. Sublime como um amor aos 14 anos de idade. Eterno como a memória de uma paixão. Foram musicais como este, com seu capricho, sua beleza colorida, seus diálogos espertos, sua cultura vienense, que fizeram de mim um aficionado por cinema em geral. Gene sorrí como nenhum ator sorrí. O cenário é um carnaval de plantas, panos, janelas, biombos e muita gente. A música é mais que vibrante, é quente. Judy, etérea, paira soberana, hipnotizando nosso olhar com sua estranheza. Um gigantesco bolo de noiva, um revellon de luxo. nota 10 com muito louvor ! - informação : O musical terminou quando o talento minguou. Nada era mais dispendioso. Para se fazer um grande musical se precisava de atores famosos que interpretassem, cantassem e dançassem bem. E fossem engraçados e "adorados". Roteiristas treinados em comédia, afiados em diálogo rápido e leve. Compositores de sucessos. Arranjadores com técnica erudita. Orquestras gigantescas. Cenógrafos e coreógrafos da Broadway. Imensos estúdios. Tempo para ensaios. E um diretor que entenda de dança e de música. Quando juntar tanto talento se tornou um risco grande demais, o musical acabou. Sobreviveu, parcamente, em milagres feitos por um gênio solitário ( os de Bob Fosse ) e algum acaso fortuito.
OS CANHÕES DE NAVARONE de J. Lee Thompson com Gregory Peck, Anthony Quinn e David Niven.
Perfeição. Uma aventura com personagens bem delineados, excelentes diálogos, ação que emociona, suspense e diálogos que podem ser citados ( há um sobre a inutilidade da guerra que é genial ). Porque tudo deu tão certo ? O mérito é do roteirista, Carl Foreman, perseguido pelo MacCarthismo e brilhando como roteirista e produtor nesta aventura divetidíssima. Este filme é o parâmetro em que toda aventura deve ser julgada. Explosões, tiroteios, naufrágios, fugas, traições... maravilhoso!!!! nota 9.
DESPERATE JOURNEY de Raoul Walsh com Erroll Flynn e Ronald Reagan
Lixo. Uma imensa decepção!!!! Um roteiro patético, fazendo dos nazistas idiotas completos e dos americanos gente que sorrí durante tortura. Se a guerra fosse essa infantil piada... nota zero!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
DR. BULL de John Ford com Will Rogers
Não chega a ter a alegria de Juiz Priest, filme que Ford e Rogers fizeram no ano seguinte. Mas é um bom exemplo de filme rural, bucólico, lentamente agradável. Rogers tinha mágica simpatia e Ford, relaxado, lhe dá todo espaço e tempo para brilhar. nota 7.
VENUS de Roger Mitchell com Peter O'Toole e Jody Whattley
Nada revela mais o caráter aristocrático inglês que a classificação que eles dão à seus atores. Michael Caine, ator que trouxe o inglês cockney-malandro para as telas, jamais será visto, em Londres, como Gielgud ou Richardson. Pois John e Ralph são do mundo de Shakespeare, Michael não é. Dito isto, falo que Peter sempre foi um rei. Nada se compara a seu Beckett ou ao que ele faz em Leão no Inverno. Foi uma estrela maior, um conquistador compulsivo, um bebedor imbatível. E ocupa, na hierarquia britânica, um lugar dúbio. Apesar de ser um excelente ator teatral, por ter se popularizado demais no cinema, é colocado atrás de Paul Rogers ou Michael Redgrave. Absurdo!!! Falando deste filme... é triste ver seu rosto estragado. A bebida e a idade devastaram seu olhar de Lawrence da Arábia. Mas é belo ver como ele se diverte e dá conta deste papel difícil, sutil, e comicamente trágico. Fora Peter, é um filme tolo, frio, pretensioso, quase idiota. Ele foi indicado em 2007 por este papel, e perdeu o prêmio pela oitava vez ( um recorde de derrotas ). nota 1.
CINCO COVAS NO EGITO de Billy Wilder com Erich Von Stroheim, Franchot Tone e Anne Baxter.
Segundo filme americano de Billy. Um suspense de guerra em que o grande Erich rouba o filme em seu papel de Rommel, a raposa do deserto nazista. Um filme muito bem feito, muito bem escrito e com linda fotografia do mestre John Seitz. nota 7.
LONGE DELA de Sarah Polley com Julie Christie e Gordon Pinsent.
Preciso. Sarah Polley, atriz mirim do Munchausen de Gillian, se revela aqui muito boa diretora. Neste filme, triste, árido, geriátrico, tudo poderia levar às lágrimas fáceis ou às gracinhas de velhos bonzinhos. Sarah não faz nada disso. Conta sua história. Não força, não doura e nunca apela. Observa. Julie, que perdeu o seu segundo Oscar de forma injusta para Piaf, interpreta como só grandes atrizes podem : com os olhos, com as mãos, com o cabelo. Ela flutua, aturdida, medrosa, sedutora, completamente perdida, variando entre infantil e madura. Um desempenho feito de discreta elegancia. Uma lady. Mas eu já esperava isso de minha atriz musa-para sempre. De minha Kate Hepburn de Londres. Mas Gordon Pinsent arrasa. Seu desamparo, seu abandono e a teimosia de quem insiste em fazer o amor sobreviver é simplesmente acachapante. Um ator superlativo. E eis, ainda com o brilho de Olympia Dukakis e Michael Murphy ( antigo ator de Altman ) um simples e discreto drama outonal. Cheio de neve e de árvores. E em que a diretora, muito jovem, faz algo tão raro no cinema atual : conta a história e deixa que os atores brilhem. Parece tão pouco. Mas é tão raro. nota 8.
margaret atwood, tchecoslováquia, o amor verdadeiro
Ainda repercute em mim o livro de Atwood. Ele é tudo aquilo que o filme de Sean Penn poderia e deveria ter sido. É aquilo que Jheremiah Johnson secretamente é, e aquilo que Vanishing Point não poderia ser. Penso no sagrado.
O amor verdadeiro é sagrado. Pois se tudo o que é sagrado é intocado, o amor é intocável. Nós construímos um mundo à parte com o amor. Uma redoma o protege do mundo vulgar, frio, mesquinho, e vivemos em contato com o eterno, o sagrado, dentro dessa redoma. Mas é necessário um enorme cuidado : qualquer mentira, qualquer brutalidade destrói esse idílio. Macula sua necessária pureza. O amor então, após essa mancha, pode continuar, mas seu caráter sagrado se perdeu. Jamais será reencontrado. A relação sobreviverá como nostalgia do paraíso.
O sagrado necessita ser secreto. Uma coisa que é sómente sua. Nessa relação de voce com aquilo, será atingido o todo. Haverá uma ligação com tudo que existe ou existiu através de um contato muito íntimo, particular e sem código. Conto uma história que lí há alguns anos :
Quando o muro de Berlin caiu, foram à Praga e lá entrevistaram Vaclav Havel ( para quem não sabe, herói da resistencia tcheca contra os comunas. Escritor e primeiro presidente da nova república ). Havel contou que nos anos mais negros da repressão, ele, Kundera e Forman se reuniam no porão da casa dele. Um contrabandista conseguia discos americanos para eles e então eles os colocavam para tocar. Era um ato de resistência. Mas havia um disco que era tão livre, tão arrojado, tão etéreo que a relação deles com esse disco era SAGRADA. Tratava-se do primeiro disco do Velvet Underground.
Havel contou essa história para Lou Reed, quando os dois se encontraram em Praga, livres. É possível encontrar o sagrado num disco ? É, pois já a vivenciei.
Em 1981 comprei um muito caro e muito raro disco do Velvet Underground. Jamais havia escutado a banda. A conhecia por ter lido um artigo de revista. Nenhum amigo meu havia sequer ouvido falar de tal grupo. Velvet ? O que é isso ? Cheguei em casa e o coloquei para escutar. Alí estava : a coisa mais original, ousada, diferente e corajosa que eu poderia querer. Uma sensação de plena liberdade, de perigosa loucura, de além-do-tempo. Isso ainda não era um ato sagrado. Mas durante um ano voltei toda noite àquele disco. No escuro, geralmente bebendo, sentia que eu era o único cara em todo o mundo que escutava aquele disco. Ele era meu e só meu. Falava comigo. Ensinava coisas que não podem ser faladas. Me fazia transcender minha vida. O Velvet Underground era MINHA CASA.
Mal eu sabia que 3000 caras, espalhados pelo planeta, ouviam ao mesmo tempo o mesmo disco. Sentiam exatamente o que eu sentia. E que esses caras formariam bandas e dominariam o pop mais sério pelos próximos 30 anos... Criava-se o mito de que pouca gente escuta Velvet Underground, mas que os poucos que os escutam se tornam artistas. Eu não me tornei. Mas tive uma relação secreta, íntima com aquelas músicas que jamais foi repetida com disco algum. Houve algo de sagrado alí. O Velvet era uma gruta no meio de um bosque.
Hoje é dificil para uma banda conseguir isso. Ela cai na rede, faz clip, montes de shows e perde seu aspecto sagrado, não profanado, virginal, só para voce. Todos vão tocá-la. Ela será profanada.
Portanto, é impossível se falar daquilo que é sagrado para voce. É impossível ter uma relação sagrada em grupo. Sempre será voce em relação a alguma coisa maior que a vida e o universo.
Já tive essa relação com um livro, um filme, e o tal disco. Hoje é impossível. Tudo é de todos. Todo livro é dissecado, todo filme é acessível, todo disco é pop. Tudo CAI na rede e não SOBE à eternidade. ............................. Mas ainda há uma árvore só minha. Que fala uma língua que só eu compreendo. E que me abre as portas para além daquilo que penso eu ser. Ainda existe um canto na serra. Onde nenhum mal é possível. Lá eu deixo de ser eu. Lá eu sou a serra. Mas até quando ?
O amor verdadeiro é sagrado. Pois se tudo o que é sagrado é intocado, o amor é intocável. Nós construímos um mundo à parte com o amor. Uma redoma o protege do mundo vulgar, frio, mesquinho, e vivemos em contato com o eterno, o sagrado, dentro dessa redoma. Mas é necessário um enorme cuidado : qualquer mentira, qualquer brutalidade destrói esse idílio. Macula sua necessária pureza. O amor então, após essa mancha, pode continuar, mas seu caráter sagrado se perdeu. Jamais será reencontrado. A relação sobreviverá como nostalgia do paraíso.
O sagrado necessita ser secreto. Uma coisa que é sómente sua. Nessa relação de voce com aquilo, será atingido o todo. Haverá uma ligação com tudo que existe ou existiu através de um contato muito íntimo, particular e sem código. Conto uma história que lí há alguns anos :
Quando o muro de Berlin caiu, foram à Praga e lá entrevistaram Vaclav Havel ( para quem não sabe, herói da resistencia tcheca contra os comunas. Escritor e primeiro presidente da nova república ). Havel contou que nos anos mais negros da repressão, ele, Kundera e Forman se reuniam no porão da casa dele. Um contrabandista conseguia discos americanos para eles e então eles os colocavam para tocar. Era um ato de resistência. Mas havia um disco que era tão livre, tão arrojado, tão etéreo que a relação deles com esse disco era SAGRADA. Tratava-se do primeiro disco do Velvet Underground.
Havel contou essa história para Lou Reed, quando os dois se encontraram em Praga, livres. É possível encontrar o sagrado num disco ? É, pois já a vivenciei.
Em 1981 comprei um muito caro e muito raro disco do Velvet Underground. Jamais havia escutado a banda. A conhecia por ter lido um artigo de revista. Nenhum amigo meu havia sequer ouvido falar de tal grupo. Velvet ? O que é isso ? Cheguei em casa e o coloquei para escutar. Alí estava : a coisa mais original, ousada, diferente e corajosa que eu poderia querer. Uma sensação de plena liberdade, de perigosa loucura, de além-do-tempo. Isso ainda não era um ato sagrado. Mas durante um ano voltei toda noite àquele disco. No escuro, geralmente bebendo, sentia que eu era o único cara em todo o mundo que escutava aquele disco. Ele era meu e só meu. Falava comigo. Ensinava coisas que não podem ser faladas. Me fazia transcender minha vida. O Velvet Underground era MINHA CASA.
Mal eu sabia que 3000 caras, espalhados pelo planeta, ouviam ao mesmo tempo o mesmo disco. Sentiam exatamente o que eu sentia. E que esses caras formariam bandas e dominariam o pop mais sério pelos próximos 30 anos... Criava-se o mito de que pouca gente escuta Velvet Underground, mas que os poucos que os escutam se tornam artistas. Eu não me tornei. Mas tive uma relação secreta, íntima com aquelas músicas que jamais foi repetida com disco algum. Houve algo de sagrado alí. O Velvet era uma gruta no meio de um bosque.
Hoje é dificil para uma banda conseguir isso. Ela cai na rede, faz clip, montes de shows e perde seu aspecto sagrado, não profanado, virginal, só para voce. Todos vão tocá-la. Ela será profanada.
Portanto, é impossível se falar daquilo que é sagrado para voce. É impossível ter uma relação sagrada em grupo. Sempre será voce em relação a alguma coisa maior que a vida e o universo.
Já tive essa relação com um livro, um filme, e o tal disco. Hoje é impossível. Tudo é de todos. Todo livro é dissecado, todo filme é acessível, todo disco é pop. Tudo CAI na rede e não SOBE à eternidade. ............................. Mas ainda há uma árvore só minha. Que fala uma língua que só eu compreendo. E que me abre as portas para além daquilo que penso eu ser. Ainda existe um canto na serra. Onde nenhum mal é possível. Lá eu deixo de ser eu. Lá eu sou a serra. Mas até quando ?
o lago sagrado- margaret atwood
As deusas da literatura têm sido generosas com suas seguidoras. Iris Murdoch, Doris Lessing, Muriel Spark, Margueritte Yourcenar, e a melhor delas, Margaret Atwood, têm abrilhantado a literatura destes últimos 30 anos. Atwood é canadense e era ela, ao invés de Lessing, que deveria ter levado o Nobel 2006. É opinião geral : talvez ela seja agora, com a morte de Sebald, a maior escrita deste inicio de século. Sua escrita é seca, curta, direta, pouco saborosa, nada rica. Mas seus pensamentos são profundos, simbólicos e desvendam claramente o que significa ser mulher. ( Ou o que significa não ser homem. )
O Lago Sagrado é seu segundo livro, lançado em 1972, tendo causado muita impressão na época. Alberto Manguel o considera mágico e eu sempre o procurei nos sebos. Atwood tem 4 livros em catálogo, mas não este. Vamos ao tema .
Dois casais de namorados vão ao norte do Quebec. Para procurar o pai da narradora, que sumiu por lá. O namorado, Joe, é um calado escultor fracassado. David é um esquerdista, que vive chamando os americanos de porcos fascistas. A garota de David é Anna, que é obcecada pela aparência, se maquiando ao acordar e usando o sexo como produto de troca. Com elementos tão ralos, Atwood tece uma das histórias mais assustadoras que já lí.
O tema é a volta à natureza, e somos testemunhas da transformação da narradora : ela começa a se tornar uma mulher-selvagem, uma quase deusa-natureza, uma coisa-parte-do-tudo, um ser além-tempo. No começo ela não exita em espetar sapos vivos em iscas para pesca; no final, sentimos que ela é o sapo, o peixe e o lago.
O livro descreve tudo isso com maravilhosa precisão. Nos assustamos porque mudamos com ela, vemos o que ela vê e sentimos sua desintegração. Mas há mais coisas : o livro nos joga na cara a falsa disputa em que o amor se tornou, a americanização do mundo ( fazendo de todos, sem que o percebam "americanos" ), a indiferença com a morte, a voracidade sem sentido. E o fosso que existe entre "americanos" e os não "americanos".
Cito algumas frases de Atwood :
" Tudo o que valorizo nele é físico. O resto é desconhecido, desagradável ou ridículo. Não ligo para seu temperamento."
" Não sou contra o corpo ou a cabeça, só contra o pescoço. Cria a ilusão de que corpo e cabeça estão separados "
" Amor sem medo e sexo sem riscos. Quase conseguiram nos fazer crer que isso fosse possível."
" Ela não podia ser domesticada, comida ou treinada para falar. A única relação possível com ela era matá-la. Por isso matavam as garças e as penduravam em cruzes, como Cristos. Alimento, escravo ou cadáver : opções que os animais tinham."
" Não importa de que país sejam, são americanos. São o que nos espera. No que estamos nos transformando. São como um vírus que ataca o cérebro. Atacam por dentro, quem tem a doença não percebe. "
" E a outra garça, destruída e pendurada numa árvore. Se morrera de boa vontade, consentindo, se Cristo morrera de boa vontade, qualquer coisa que sofra e morra em vez de nós, é Cristo. Se os americanos não matassem aves e peixes, nós seríamos os mortos. Os animais morrem para que possamos viver. Os caçadores do outono matando as corças, isto também é Cristo. E nós as comemos enlatadas ou de outro modo: somos comedores da morte, a carne enlatada de Cristo ressuscitando dentro de nós, concedendo-nos a vida. Mas nós nos recusamos a venerar. O corpo venera com sangue e músculos, mas a cabeça é avara, consome e não agradece."
" Os caixões foram inventados para trancar os mortos. Não permitem que eles se transformem em outra coisa, flores, raízes, sementes."
Nos últimos capítulos deste originalíssimo livro, a personagem abandona tudo que tenha sido tocado pelo homem : toda pegada, todo metal, toda trilha. Torna-se algo entre animal e vegetal, cheia de poder, cheia de mutismo. Esquece das palavras, dos nomes, e magistralmente, prepara-se para retornar, sem planos, sem passado nenhum, sem uma narrativa.
Margaret Atwood não escreveu aqui uma obra-prima. Estéticamente o livro não se sustenta. Mas registrou um testemunho visceral, claro, límpido, daquilo que significa a vida, daquilo que seria um retorno a origem, e do que é ser mulher. Deve ser lido por qualquer homem com um mínimo de inteligência, e por toda mulher que tenha intuído qual sua sagrada missão.
O Lago Sagrado é seu segundo livro, lançado em 1972, tendo causado muita impressão na época. Alberto Manguel o considera mágico e eu sempre o procurei nos sebos. Atwood tem 4 livros em catálogo, mas não este. Vamos ao tema .
Dois casais de namorados vão ao norte do Quebec. Para procurar o pai da narradora, que sumiu por lá. O namorado, Joe, é um calado escultor fracassado. David é um esquerdista, que vive chamando os americanos de porcos fascistas. A garota de David é Anna, que é obcecada pela aparência, se maquiando ao acordar e usando o sexo como produto de troca. Com elementos tão ralos, Atwood tece uma das histórias mais assustadoras que já lí.
O tema é a volta à natureza, e somos testemunhas da transformação da narradora : ela começa a se tornar uma mulher-selvagem, uma quase deusa-natureza, uma coisa-parte-do-tudo, um ser além-tempo. No começo ela não exita em espetar sapos vivos em iscas para pesca; no final, sentimos que ela é o sapo, o peixe e o lago.
O livro descreve tudo isso com maravilhosa precisão. Nos assustamos porque mudamos com ela, vemos o que ela vê e sentimos sua desintegração. Mas há mais coisas : o livro nos joga na cara a falsa disputa em que o amor se tornou, a americanização do mundo ( fazendo de todos, sem que o percebam "americanos" ), a indiferença com a morte, a voracidade sem sentido. E o fosso que existe entre "americanos" e os não "americanos".
Cito algumas frases de Atwood :
" Tudo o que valorizo nele é físico. O resto é desconhecido, desagradável ou ridículo. Não ligo para seu temperamento."
" Não sou contra o corpo ou a cabeça, só contra o pescoço. Cria a ilusão de que corpo e cabeça estão separados "
" Amor sem medo e sexo sem riscos. Quase conseguiram nos fazer crer que isso fosse possível."
" Ela não podia ser domesticada, comida ou treinada para falar. A única relação possível com ela era matá-la. Por isso matavam as garças e as penduravam em cruzes, como Cristos. Alimento, escravo ou cadáver : opções que os animais tinham."
" Não importa de que país sejam, são americanos. São o que nos espera. No que estamos nos transformando. São como um vírus que ataca o cérebro. Atacam por dentro, quem tem a doença não percebe. "
" E a outra garça, destruída e pendurada numa árvore. Se morrera de boa vontade, consentindo, se Cristo morrera de boa vontade, qualquer coisa que sofra e morra em vez de nós, é Cristo. Se os americanos não matassem aves e peixes, nós seríamos os mortos. Os animais morrem para que possamos viver. Os caçadores do outono matando as corças, isto também é Cristo. E nós as comemos enlatadas ou de outro modo: somos comedores da morte, a carne enlatada de Cristo ressuscitando dentro de nós, concedendo-nos a vida. Mas nós nos recusamos a venerar. O corpo venera com sangue e músculos, mas a cabeça é avara, consome e não agradece."
" Os caixões foram inventados para trancar os mortos. Não permitem que eles se transformem em outra coisa, flores, raízes, sementes."
Nos últimos capítulos deste originalíssimo livro, a personagem abandona tudo que tenha sido tocado pelo homem : toda pegada, todo metal, toda trilha. Torna-se algo entre animal e vegetal, cheia de poder, cheia de mutismo. Esquece das palavras, dos nomes, e magistralmente, prepara-se para retornar, sem planos, sem passado nenhum, sem uma narrativa.
Margaret Atwood não escreveu aqui uma obra-prima. Estéticamente o livro não se sustenta. Mas registrou um testemunho visceral, claro, límpido, daquilo que significa a vida, daquilo que seria um retorno a origem, e do que é ser mulher. Deve ser lido por qualquer homem com um mínimo de inteligência, e por toda mulher que tenha intuído qual sua sagrada missão.
o sagrado e o profano
Existe alguma coisa sagrada em sua vida ? Voce sabe o que significa ?
Lendo o livro, duro e árido, de Margaret Atwood, tomo consciencia do que significa ter algo de verdadeiramente sagrado na vida. É aquilo que não foi profanado. Aquilo que não foi tocado, dissecado, desvirginado, vulgarizado. O que mantém seu mistério, seu encanto, seu caráter além, ou pré, razão. Sem isso, sem algo que nos faça ter esse contato, nos tornamos maquininhas vazias, corpos assassinos, mentes entorpecidas. A vida perde a luz.
Nada é ou pode ser mais sagrado que a própria vida. Quando matamos, destruímos tudo o que existe de encantador e perfeito. Mas atente : o homem sempre foi um matador. Porém, existe uma imensa diferença entre matar e MATAR.
Existe o matar consciente. Em que se percebe toda a dor e tudo o que há de trágico e inevitável naquele momento. É a morte do adversário samurai, do soldado inimigo morto no olho-a-olho, do executado em praça pública. Enxerga-se algo de ritualístico na vida. A inevitabilidade da morte. O horror que leva à transcendencia.
Existe o matar por necessidade. Para comer. Sobreviver. Agradecer, aos deuses e à própria vítima, a boa fortuna de ter caçado, encontrado. Minha vida deve sua existencia a sua vida. Vida alimentando vida.
O arrancar vida da vida. Decepar um fruto da árvore que lhe é mãe. Arrancar comida do solo que lhe é pai. Esperar o amadurecimento. Agradecer pela chuva. Pelo sol.
Tudo isso, tão simples, foi profanado. Voce mata na guerra como se guerra fosse virtual. Mortes na tela de video-game. Voce mata o assassino em cubículos isolados, onde um número é higienicamente apagado. Faz um aborto como se aquilo fosse uma simples e limpa extração dentária, um excesso de gordura eliminada. Mata milhões de animais, todos os dias, sem olhar seu olho, sem ouvir seus berros, sem conhecer e agradecer por seu sacrifício. É poupado do horror e perde o sagrado.
Todos os mares e todas as ilhas foram desvirginadas. Todas as montanhas estupradas. Não há um bosque onde um idiota não tenha ido caçar ( caçar para dar tiros, não para comer), ou se exibir em esportes barulhentos e imundos. Tudo foi profanado.
Teu corpo foi dissecado em vida, tua mente penetrada e exposta, teu sexo transformado em piada e em produto, tua religião falsificada. Sua vida e minha vida e a vida de todo bicho foi dessacralizada.Porque? - Para que possamos destruir e dormir, para que possamos assassinar em massa e engolir, para que possamos usar sem pensar. A vida se torna, desse modo, menos, muito menos que poderia e deveria ser. Se torna mecânica. Herdamos tédio, vazio e esterilidade.
Uma árvore, pelo menos uma árvore. Que seja só minha. Que tenha sido do pai de meu pai. E que eu saiba que será do filho de meu filho. Uma árvore que me dê o prazer de agradecer por sua existencia e que me permita crer no sagrado de sua realidade. Não profanada. Intacta.
Um lago onde o tempo tenha cessado. E eu me sinta parte dele e não seu senhor. Onde eu esqueça meu nome. E nada saiba sobre nada. Onde mergulhe em seu lodo e enxergue o que sempre desejei e jamais consegui. Um lago sagrado.
Animais que não me temam. E que não sejam meus escravos. Que existam intocados. Sem função nenhuma. Exibindo a vida- cruel e certeira- como ela sempre é, foi e precisa ser. Sagrados animais.
Eis aqui o segredo. Distantes dos animais, sem assistir nascimentos e mortes, comprando carne morta e ovos estéreis, nos tornamos distantes da vida não racional, da vida não planejada, da vida não profanada, do sagrado-eterno-imutável. Do ciclo, da roda, da magia.
Sei que tenho coisas sagradas. Lugares só meus a que sempre retorno. O triste é que dois deles foram profanados....não os sinto mais como sagrados. Perderam a ligação com o atemporal. Estão mortos. Foram derrubados e refeitos. Não dizem mais nada.
Um pouco de nós mesmos foi com eles.
Lendo o livro, duro e árido, de Margaret Atwood, tomo consciencia do que significa ter algo de verdadeiramente sagrado na vida. É aquilo que não foi profanado. Aquilo que não foi tocado, dissecado, desvirginado, vulgarizado. O que mantém seu mistério, seu encanto, seu caráter além, ou pré, razão. Sem isso, sem algo que nos faça ter esse contato, nos tornamos maquininhas vazias, corpos assassinos, mentes entorpecidas. A vida perde a luz.
Nada é ou pode ser mais sagrado que a própria vida. Quando matamos, destruímos tudo o que existe de encantador e perfeito. Mas atente : o homem sempre foi um matador. Porém, existe uma imensa diferença entre matar e MATAR.
Existe o matar consciente. Em que se percebe toda a dor e tudo o que há de trágico e inevitável naquele momento. É a morte do adversário samurai, do soldado inimigo morto no olho-a-olho, do executado em praça pública. Enxerga-se algo de ritualístico na vida. A inevitabilidade da morte. O horror que leva à transcendencia.
Existe o matar por necessidade. Para comer. Sobreviver. Agradecer, aos deuses e à própria vítima, a boa fortuna de ter caçado, encontrado. Minha vida deve sua existencia a sua vida. Vida alimentando vida.
O arrancar vida da vida. Decepar um fruto da árvore que lhe é mãe. Arrancar comida do solo que lhe é pai. Esperar o amadurecimento. Agradecer pela chuva. Pelo sol.
Tudo isso, tão simples, foi profanado. Voce mata na guerra como se guerra fosse virtual. Mortes na tela de video-game. Voce mata o assassino em cubículos isolados, onde um número é higienicamente apagado. Faz um aborto como se aquilo fosse uma simples e limpa extração dentária, um excesso de gordura eliminada. Mata milhões de animais, todos os dias, sem olhar seu olho, sem ouvir seus berros, sem conhecer e agradecer por seu sacrifício. É poupado do horror e perde o sagrado.
Todos os mares e todas as ilhas foram desvirginadas. Todas as montanhas estupradas. Não há um bosque onde um idiota não tenha ido caçar ( caçar para dar tiros, não para comer), ou se exibir em esportes barulhentos e imundos. Tudo foi profanado.
Teu corpo foi dissecado em vida, tua mente penetrada e exposta, teu sexo transformado em piada e em produto, tua religião falsificada. Sua vida e minha vida e a vida de todo bicho foi dessacralizada.Porque? - Para que possamos destruir e dormir, para que possamos assassinar em massa e engolir, para que possamos usar sem pensar. A vida se torna, desse modo, menos, muito menos que poderia e deveria ser. Se torna mecânica. Herdamos tédio, vazio e esterilidade.
Uma árvore, pelo menos uma árvore. Que seja só minha. Que tenha sido do pai de meu pai. E que eu saiba que será do filho de meu filho. Uma árvore que me dê o prazer de agradecer por sua existencia e que me permita crer no sagrado de sua realidade. Não profanada. Intacta.
Um lago onde o tempo tenha cessado. E eu me sinta parte dele e não seu senhor. Onde eu esqueça meu nome. E nada saiba sobre nada. Onde mergulhe em seu lodo e enxergue o que sempre desejei e jamais consegui. Um lago sagrado.
Animais que não me temam. E que não sejam meus escravos. Que existam intocados. Sem função nenhuma. Exibindo a vida- cruel e certeira- como ela sempre é, foi e precisa ser. Sagrados animais.
Eis aqui o segredo. Distantes dos animais, sem assistir nascimentos e mortes, comprando carne morta e ovos estéreis, nos tornamos distantes da vida não racional, da vida não planejada, da vida não profanada, do sagrado-eterno-imutável. Do ciclo, da roda, da magia.
Sei que tenho coisas sagradas. Lugares só meus a que sempre retorno. O triste é que dois deles foram profanados....não os sinto mais como sagrados. Perderam a ligação com o atemporal. Estão mortos. Foram derrubados e refeitos. Não dizem mais nada.
Um pouco de nós mesmos foi com eles.
SPIRIT/ONIBABA/RENOIR/JASÃO E O VELO DE OURO
THE SPIRIT de F. Miller
Will Eisner criou o Spirit como um detetive noir. Ou um observador da sordidez humana. Uma genial criação, cheia de sombras e miséria. Este filme é um testemunho vivo do nível de idiotia que o cinema chegou. Uma bobagem feita por uma besta para um bando de deficientes mentais. O atorzinho desperta compaixão. nota muito abaixo de zero.
PAPAI NOEL AS AVESSAS dirigido por qualquer um. com billy bob thornton.
Isto deveria ser uma comédia. Mas não provoca qualquer riso. Elogia o mal caráter. Prova o fato: a América acabou. Se tornou um tipo de Brasilzão onde neva. Um país de "jeitinho ". nota zero!
SASKATCHEWAN de Raoul Walsh com Randolph Scott
Faroeste passado no Canadá. Paisagens deslumbrantes. Tem mensagem pró-indios e a competencia de Walsh, um diretor que vai lá e faz a ação acontecer. nota 6.
JASÃO E O VELO DE OURO de Don Chaffey
Os efeitos especiais de Ray Harryhausen tinham o encanto de brinquedos de armar : voce sabe que é um brinquedo, a diversão é ver o brinquedo se mover. Como extra, este filme traz Tom Hanks entregando Oscar especial a Harryhausen e dizendo : - Muitos dizem Cidadão Kane, muitos dizem Casablanca; pra mim é Jasão e o velo de Ouro !... nota 7.
ROMEU E JULIETA de Baz Luhrman com Leo di Caprio
Eu adoro este filme ! Muito superior a Moulin Rouge. Colorido, leve, encantador. nota 7.
A ÚLTIMA NOITE de Robert Altman com Kevin Kline, Meryl Streep, Woody Harrelson
Eis o último filme do mais livre dos cineastas. O que ele filma aqui ? Um programa de rádio do interiror dos USA. É só isso. Simples, e portanto digno. Mas ao mesmo tempo revela o maior defeito de Altman : desleixo. Longe de obras-primas como Mash, Short Stories ou Nashville. 4.
A CARRUAGEM FANTASMA de Victor Sjostrom
Antes de ser o ator de Morangos Silvestres, Sjostrom foi o maior diretor da Suécia e ídolo de Bergman. Esta é sua Obra máxima : um fantástico e lúgubre filme sobre a morte. Imagens de sonho, uma trilha de música eletrônica soturna, atores "tomados". Terrível. Um pesadelo. nota 7.
WOLWERINE com Hugh Jackman
É um ator legal. Dá vontade de ser amigo dele ( mas daí a ser grande ator existe imensa diferença. Quem quer ser amigo de Marlon Brando ? ). Os efeitos especiais destróem o filme : tudo parece falso, de plástico, irreal. É um Wolwerine domesticado, bastante boa-praça, o que aniquila sua originalidade. Mas Hugh é gente boa... nota 4.
ONIBABA de Kaneto Shindo
No Japão dos samurais, velha e nora vivem, em meio a mar de bambú, de roubos, assassinatos, pilhagem. A nora se torna amante de amigo do marido morto e o filme se faz bastante sensual. A velha intervém, e a calamidade final irrompe. Um filme muito ousado e cheio de beleza cruel, dura, sádica. O Japão dos anos 60, com seu terrorrismo de esquerda, era um país enlouquecido. Este filme, genial em seu radicalismo, prova isso. A trilha sonora é coisa de mestre. Nota 8.
SANTA FÉ de Irving Pichel com Randolph Scott
Fraco western de rotina. nota 2.
UMA FESTA NO CAMPO de Jean Renoir
Nunca entendí o porque de Renoir ser considerado o maior diretor da história do cinema ( principalmente pelos colegas diretores ). Assiti todos seus principais filmes, e embora eu goste de todos, nenhum eu chamaria de obra-prima. Mas este, curto, apenas 45 minutos, começa a mudar minha idéia. Lindo, com um ar de plena felicidade. Mostra o que era a França de Renoir-pai, de Monet, de Matisse. Alegre, safado, poético, solar. Quase um milagre em película. Detalhe: o assistente de direção é o gênio da fotografia : Henri Cartier Bresson, o que diz muito sobre suas imagens : nunca um rio foi melhor filmado. nota 8.
A FILHA DA ÁGUA de Jean Renoir
Eis o primeiro filme de Renoir. Mudo, conta as atribulações de uma orfã. No campo, em meio a ciganos, burgueses, camponeses. Não é considerado um dos melhores Renoir, mas, com surpresa, ele me conquistou. Cenas como a do quase estupro pelo tio ( com cortes rápidos e cruzados ) e do incendio na fazenda, são de estupenda genialidade. O filme flui como um sonho. É agradável, belo, poético e leve. A fotografia, cheia de estilo, seduz. Lhe colocaram uma trilha "francesa" que ajuda muito. Uma bela surpresa. Uma quase obra-prima. nota 9.
Will Eisner criou o Spirit como um detetive noir. Ou um observador da sordidez humana. Uma genial criação, cheia de sombras e miséria. Este filme é um testemunho vivo do nível de idiotia que o cinema chegou. Uma bobagem feita por uma besta para um bando de deficientes mentais. O atorzinho desperta compaixão. nota muito abaixo de zero.
PAPAI NOEL AS AVESSAS dirigido por qualquer um. com billy bob thornton.
Isto deveria ser uma comédia. Mas não provoca qualquer riso. Elogia o mal caráter. Prova o fato: a América acabou. Se tornou um tipo de Brasilzão onde neva. Um país de "jeitinho ". nota zero!
SASKATCHEWAN de Raoul Walsh com Randolph Scott
Faroeste passado no Canadá. Paisagens deslumbrantes. Tem mensagem pró-indios e a competencia de Walsh, um diretor que vai lá e faz a ação acontecer. nota 6.
JASÃO E O VELO DE OURO de Don Chaffey
Os efeitos especiais de Ray Harryhausen tinham o encanto de brinquedos de armar : voce sabe que é um brinquedo, a diversão é ver o brinquedo se mover. Como extra, este filme traz Tom Hanks entregando Oscar especial a Harryhausen e dizendo : - Muitos dizem Cidadão Kane, muitos dizem Casablanca; pra mim é Jasão e o velo de Ouro !... nota 7.
ROMEU E JULIETA de Baz Luhrman com Leo di Caprio
Eu adoro este filme ! Muito superior a Moulin Rouge. Colorido, leve, encantador. nota 7.
A ÚLTIMA NOITE de Robert Altman com Kevin Kline, Meryl Streep, Woody Harrelson
Eis o último filme do mais livre dos cineastas. O que ele filma aqui ? Um programa de rádio do interiror dos USA. É só isso. Simples, e portanto digno. Mas ao mesmo tempo revela o maior defeito de Altman : desleixo. Longe de obras-primas como Mash, Short Stories ou Nashville. 4.
A CARRUAGEM FANTASMA de Victor Sjostrom
Antes de ser o ator de Morangos Silvestres, Sjostrom foi o maior diretor da Suécia e ídolo de Bergman. Esta é sua Obra máxima : um fantástico e lúgubre filme sobre a morte. Imagens de sonho, uma trilha de música eletrônica soturna, atores "tomados". Terrível. Um pesadelo. nota 7.
WOLWERINE com Hugh Jackman
É um ator legal. Dá vontade de ser amigo dele ( mas daí a ser grande ator existe imensa diferença. Quem quer ser amigo de Marlon Brando ? ). Os efeitos especiais destróem o filme : tudo parece falso, de plástico, irreal. É um Wolwerine domesticado, bastante boa-praça, o que aniquila sua originalidade. Mas Hugh é gente boa... nota 4.
ONIBABA de Kaneto Shindo
No Japão dos samurais, velha e nora vivem, em meio a mar de bambú, de roubos, assassinatos, pilhagem. A nora se torna amante de amigo do marido morto e o filme se faz bastante sensual. A velha intervém, e a calamidade final irrompe. Um filme muito ousado e cheio de beleza cruel, dura, sádica. O Japão dos anos 60, com seu terrorrismo de esquerda, era um país enlouquecido. Este filme, genial em seu radicalismo, prova isso. A trilha sonora é coisa de mestre. Nota 8.
SANTA FÉ de Irving Pichel com Randolph Scott
Fraco western de rotina. nota 2.
UMA FESTA NO CAMPO de Jean Renoir
Nunca entendí o porque de Renoir ser considerado o maior diretor da história do cinema ( principalmente pelos colegas diretores ). Assiti todos seus principais filmes, e embora eu goste de todos, nenhum eu chamaria de obra-prima. Mas este, curto, apenas 45 minutos, começa a mudar minha idéia. Lindo, com um ar de plena felicidade. Mostra o que era a França de Renoir-pai, de Monet, de Matisse. Alegre, safado, poético, solar. Quase um milagre em película. Detalhe: o assistente de direção é o gênio da fotografia : Henri Cartier Bresson, o que diz muito sobre suas imagens : nunca um rio foi melhor filmado. nota 8.
A FILHA DA ÁGUA de Jean Renoir
Eis o primeiro filme de Renoir. Mudo, conta as atribulações de uma orfã. No campo, em meio a ciganos, burgueses, camponeses. Não é considerado um dos melhores Renoir, mas, com surpresa, ele me conquistou. Cenas como a do quase estupro pelo tio ( com cortes rápidos e cruzados ) e do incendio na fazenda, são de estupenda genialidade. O filme flui como um sonho. É agradável, belo, poético e leve. A fotografia, cheia de estilo, seduz. Lhe colocaram uma trilha "francesa" que ajuda muito. Uma bela surpresa. Uma quase obra-prima. nota 9.
botando pingos nos issssssssssssss
Toda arte ( ou aquela que pensa ser ) é um organismo vivo. Ela nasce, se desenvolve e decai . Cinema mudo é a infancia dessa arte. E como toda criança é ingênuo, cheio de vitalidade e com o mágico dom de alguém que descobre o mundo. Nos anos 30 ele é um menino na escola. Fala muito, pensa ser " grande ", e vive sonhos de grandeza. O cinema se aventura mundo afora. Vem a adolescencia, e ele descobre que o mundo é cruel ( neo-realismo ) e ao mesmo tempo, se torna um rebelde cinico ( cinema noir ). Torna-se adulto. Seriedade, responsabilidade - a vida é para ser construida dia a dia - tempo dos dramas americanos dos 50, e do cinema de arte - Bergman, Fellini e muitos outros. Chegamos a maturidade. Filhos, cabelos brancos, posses, medos. È o cinema dos anos 70, que já revela um certo desencanto, um clima de fim de ilusões. Nos anos 80 estamos na terceira idade. O ser vivo tenta remoçar, faz plásticas, chora e rí, toma hormônios, luta. Mas perdeu vitalidade. Desse momento em diante é ladeira abaixo. Senilidade. Hoje ele vive ligado a aparelhos. A tecnologia faz com que ele ainda respire, mas na verdade ele vegeta. Vive pensando em seus velhos momentos de grandeza e sonha com sua última ereção. Às vezes consegue respirar sem aparelhos, revive alguma idéia esquecida e retorna ao quarto onde tenta ser criança outra vez.
Assim é com toda vida e com toda arte. E religião. E filosofia. Os gregos foram crianças, descobrindo e brincando com deuses, átomos e números. A idade média foi a primeira infancia, agarrada ao pai e cheia de medos e magia. Adolescencia renascentista em que o homem descobriu a liberdade, o universo e a independencia. Torna-se adulto no iluminismo ( estou falando de filosofia ) e maduro com Hegel, Schopennhauer e tem um surto de desejo de retorno à infancia com Nietzsche. No existencialismo ele começa a ser velho.
Mas então voce pode pensar : se toda arte se tornou velha, logo, ela irá morrer ! Talvez não. Talvez seja congelada numa espécie de limbo, onde tudo retorna indefinidamente, cada vez com mais superficialidade, cada vez dependendo mais da vida " por aparelhos ". Forçada.
Este é um tempo de ciencia. Nela, a vitalidade humana se manifesta. Pensamos em termos científicos ( sem perceber, nossos julgamentos se transformaram em conceitos da ciencia : eficiente X ineficiente, novo X ultrapassado, rápido X lento..... ), mas o trágico é que nosso espírito não é científico ! Daí a esquizofrenia da vida atual : um mundo cientificamente moderno feito para uma alma arcaica e apegada a carne, ao sol e a água. Ver a arte, a religião e a filosofia morrerem é A MAIOR TRAGÉDIA QUE A ALMA HUMANA PODERIA SENTIR, pois para ela é a perda de sua prórpia razão de ser, de consolo e de justificação. Ela irá então se alienar, encolhida em algum recanto do universo, assistindo ao nosso triste mundo de distrações vazias, de ansiedade inútil e de um progresso eternamente insatisfatório.
Assim é com toda vida e com toda arte. E religião. E filosofia. Os gregos foram crianças, descobrindo e brincando com deuses, átomos e números. A idade média foi a primeira infancia, agarrada ao pai e cheia de medos e magia. Adolescencia renascentista em que o homem descobriu a liberdade, o universo e a independencia. Torna-se adulto no iluminismo ( estou falando de filosofia ) e maduro com Hegel, Schopennhauer e tem um surto de desejo de retorno à infancia com Nietzsche. No existencialismo ele começa a ser velho.
Mas então voce pode pensar : se toda arte se tornou velha, logo, ela irá morrer ! Talvez não. Talvez seja congelada numa espécie de limbo, onde tudo retorna indefinidamente, cada vez com mais superficialidade, cada vez dependendo mais da vida " por aparelhos ". Forçada.
Este é um tempo de ciencia. Nela, a vitalidade humana se manifesta. Pensamos em termos científicos ( sem perceber, nossos julgamentos se transformaram em conceitos da ciencia : eficiente X ineficiente, novo X ultrapassado, rápido X lento..... ), mas o trágico é que nosso espírito não é científico ! Daí a esquizofrenia da vida atual : um mundo cientificamente moderno feito para uma alma arcaica e apegada a carne, ao sol e a água. Ver a arte, a religião e a filosofia morrerem é A MAIOR TRAGÉDIA QUE A ALMA HUMANA PODERIA SENTIR, pois para ela é a perda de sua prórpia razão de ser, de consolo e de justificação. Ela irá então se alienar, encolhida em algum recanto do universo, assistindo ao nosso triste mundo de distrações vazias, de ansiedade inútil e de um progresso eternamente insatisfatório.
os europeus- henry james
Existem dois tipos de grande romancista : aquele que cria personagens que se tornam reais e aquele que cria um universo que respira e cresce. Lievin, Heathcliff ou o Quixote são, não apenas seres vivos, reais, como fazem parte de um mundo criado pelo autor. Ao ler esse tipo de livro, voce penetra nesse planeta, acredita nele e passa a dialogar com os seres daquele universo, usando a linguagem daquele autor. É fascinante imaginar como seria Quixote no futebol, Lievin na segunda-guerra ou Heathcliff numa rave. É totalmente real. Nós sabemos como seria porque os conhecemos como pessoas vivas, " mais reais que a própria realidade ".
Heminguay e Fitzgerald conseguem criar seres reais, mas não criam um universo. Faulkner sim. Assim como Twain ou este viciante Henry James.
O mundo de James é o mundo dos milionários sem país. Dos estrangeiros, dos em-mudança, do desterro. Mas não o exílio mundo-cão, é mais sutil, é o exílio dos privilegiados, dos que deveriam ser livres, mas não o são.
Ler "Os Europeus" é travar contato com esse mundo : Felix, Carlota, Robert e Lizzie são apaixonantes. Voce lê não para saber o que vai ocorrer, voce lê para conviver com eles. E é isso que faz de James um grande romancista. Seus personagens interessam, seu ambiente interessa. O diálogo é, portanto, interessante. O enredo fala, com humor e requintes de leveza, de dois irmãos europeus, quase falidos, que vão visitar os ricos primos de Boston. O contraste entre Europa e América é fascinante.
Europeus enchem a casa de cortinas, tapetes, bibelôs, quadros, leques, panos. Americanos têm casas claras, confortáveis e com muita luz. Europeus amam aquilo que poderia ter sido, americanos o que será um dia. Europeus se vestem para os outros, americanos se vestem para não pensar na roupa. O amor europeu é um jogo de famílias, o americano é individualizante. O europeu se diverte muito e é triste, o americano é seco e distante, mas é confiantemente feliz. O europeu rí, o americano observa. O europeu tem nome e refinamento, o americano tem dinheiro e saúde. A limpeza é da América, o perfume é europeu.
Henry James nasceu numa rica e culta família de Boston. Seu pai, Henry James Sênior, foi um médico e intelectual que criou os filhos na crença de que o ser-humano dever ver de tudo, ouvir de tudo e conhecer tudo. Henry e seu irmão, William, foram educados então, em New York, Paris, Londres e Bonn. Em Henry se formou aí o sentimento de se ser um estrangeiro eterno, um viajante em mudança contínua. O pai sofreu o primeiro ataque de pânico registrado ( em 1875 ) e ficou com a sequela de regredir à infância. William, que também sofria ataques de pânico, se tornou um dos maiores psicólogos da América e o filósofo central do pragmatismo. Henry filho, criou a maior e mais bela obra ficcional da América. Se tornou um gigante, amado por Proust, Joyce, Fitzgerald e todo escritor sério desde então. Mudou-se para Londres, naturalizou-se, mas ao contrário de Eliot ( outro americano emigrado ) James confessou ao final da vida, que se tivesse permanecido na América teria provávelmente sido mais feliz e escrito melhor.
Ler Henry James é um prazer que nenhum outro autor pode dar. Encontro nele sabedoria, humor, e o discernimento de alguém que foi o primeiro dos modernos : percebeu que a partir dalí, lar- nação- tradição, significariam cada vez menos.
Heminguay e Fitzgerald conseguem criar seres reais, mas não criam um universo. Faulkner sim. Assim como Twain ou este viciante Henry James.
O mundo de James é o mundo dos milionários sem país. Dos estrangeiros, dos em-mudança, do desterro. Mas não o exílio mundo-cão, é mais sutil, é o exílio dos privilegiados, dos que deveriam ser livres, mas não o são.
Ler "Os Europeus" é travar contato com esse mundo : Felix, Carlota, Robert e Lizzie são apaixonantes. Voce lê não para saber o que vai ocorrer, voce lê para conviver com eles. E é isso que faz de James um grande romancista. Seus personagens interessam, seu ambiente interessa. O diálogo é, portanto, interessante. O enredo fala, com humor e requintes de leveza, de dois irmãos europeus, quase falidos, que vão visitar os ricos primos de Boston. O contraste entre Europa e América é fascinante.
Europeus enchem a casa de cortinas, tapetes, bibelôs, quadros, leques, panos. Americanos têm casas claras, confortáveis e com muita luz. Europeus amam aquilo que poderia ter sido, americanos o que será um dia. Europeus se vestem para os outros, americanos se vestem para não pensar na roupa. O amor europeu é um jogo de famílias, o americano é individualizante. O europeu se diverte muito e é triste, o americano é seco e distante, mas é confiantemente feliz. O europeu rí, o americano observa. O europeu tem nome e refinamento, o americano tem dinheiro e saúde. A limpeza é da América, o perfume é europeu.
Henry James nasceu numa rica e culta família de Boston. Seu pai, Henry James Sênior, foi um médico e intelectual que criou os filhos na crença de que o ser-humano dever ver de tudo, ouvir de tudo e conhecer tudo. Henry e seu irmão, William, foram educados então, em New York, Paris, Londres e Bonn. Em Henry se formou aí o sentimento de se ser um estrangeiro eterno, um viajante em mudança contínua. O pai sofreu o primeiro ataque de pânico registrado ( em 1875 ) e ficou com a sequela de regredir à infância. William, que também sofria ataques de pânico, se tornou um dos maiores psicólogos da América e o filósofo central do pragmatismo. Henry filho, criou a maior e mais bela obra ficcional da América. Se tornou um gigante, amado por Proust, Joyce, Fitzgerald e todo escritor sério desde então. Mudou-se para Londres, naturalizou-se, mas ao contrário de Eliot ( outro americano emigrado ) James confessou ao final da vida, que se tivesse permanecido na América teria provávelmente sido mais feliz e escrito melhor.
Ler Henry James é um prazer que nenhum outro autor pode dar. Encontro nele sabedoria, humor, e o discernimento de alguém que foi o primeiro dos modernos : percebeu que a partir dalí, lar- nação- tradição, significariam cada vez menos.
a bela julie christie, franz ferdinand e harold pinter
Nada confirma melhor a validade da postura filosófica sobre o tempo, na visão oriental, que o tipo de música pop que se faz na Grã-Bretanha desde 1984. Essa postura filosófica, seguida dentre outros por Eliot e Yeats, diz que o tempo é circular e que repisamos o mesmo caminho indefinidamente. Londres 1963 foi o último suspiro do leão agonizante. O império desmoronava de vez e desde então tudo, absolutamente tudo, com alguma validade, feito por um inglês, chora o final do apogeu britânico.
Aconselho dois filmes : Billy Liar e Darling. São filmes do movimento angry-free-cinema, que evoluiu por lá entre 59/65. Um cinema que é exatamente aquilo que a Inglaterra de hoje tenta e nunca consegue ser : jovem, descompromissada, revolucionária, alegre e sexy. São filmes com imagens das chaminés de Manchester, de garotas de minissaia andando pelas ruas, de garotos de cabelo despenteado reclamando do desemprego, de gigolôs charmosos, de brigas no pub, de correr atrás do double-decker-bus... de mini-cooper e lambretas, e de bikes em Oxford. É o tempo da sofisticação ultrajante de Joe Orton e Harold Pinter no teatro, dos atores inconformados e belamente decadentes : Peter O'Toole, Alan Bates, Terence Stamp, Tom Courtney; e das musas das musas : Vanessa Redgrave, Jane Asher, Judy Geeson, e a incomparável Julie Christie, a imagem definitiva.
Quando aconteceram Beatles, Stones, Yardbirds e Them, o momento já era passado e eles haviam se tornado estranhamente saudosistas. No momento de Carnaby street e Mary Quant, Londres já tinha vivido seu apogeu e já contabilizava um glamour do passado. Não por acaso, tudo de melhor que essas bandas fizeram foi chorar pelo leite derramado ( no caso, leite com chá ).
Tudo, desde então, é um repisar de fontes anteriormente bebidas. Smiths e Morrissey são a saudade de Wilde, de Oxford, o prazer de se tomar chá lendo Evelyn Waugh e Foster. The Jam´são terninhos eduardianos, cabelos eduardianos e o radicalismo da esquerda eduardiana. Com um som todo aspirando ser Who e Small Faces. Jesus and Mary Chain é a saudade do rouxinol de Keats, trespassado pelo som elétrico do Velvet com a voz de Ian Curtis. Nem vou falar de Oasis, uma banda doentia, que obriga o baterista a tocar como Ringo e faz a mixagem de seus discos com técnicas de 68. Ou o Blur, sempre tentando ser Oasis com sexo.
Pois assisto doze clips do Franz Ferdinand. Bem... o nome da banda já é saudade, nome do arqui-duque morto em Sarajevo, 1914... os clips são citações sobre citações dos tais filmes ingleses de 59/64. Moças que são a cara de Rita Tushingham, moços que se parecem com o jovem John Hurt e roupas como a swinging London... velho, velho,velho demais... O som é Small Faces mais Kinks com toques de Roxy Music. O de sempre...
Algo de jovem nas ilhas britânicas, somente quando parte dos negros ( que querem soar como americanos- e conseguem ) dos indianos e dos africanos que lá vivem. Ingleses brancos, esquálidos e anglicanos, continuam a chorar e chorar os velhos tempos, a repetir a mesma poesia de ancião impotente e a encher de mofo uma cidade já bastante mofada.
Aconselho dois filmes : Billy Liar e Darling. São filmes do movimento angry-free-cinema, que evoluiu por lá entre 59/65. Um cinema que é exatamente aquilo que a Inglaterra de hoje tenta e nunca consegue ser : jovem, descompromissada, revolucionária, alegre e sexy. São filmes com imagens das chaminés de Manchester, de garotas de minissaia andando pelas ruas, de garotos de cabelo despenteado reclamando do desemprego, de gigolôs charmosos, de brigas no pub, de correr atrás do double-decker-bus... de mini-cooper e lambretas, e de bikes em Oxford. É o tempo da sofisticação ultrajante de Joe Orton e Harold Pinter no teatro, dos atores inconformados e belamente decadentes : Peter O'Toole, Alan Bates, Terence Stamp, Tom Courtney; e das musas das musas : Vanessa Redgrave, Jane Asher, Judy Geeson, e a incomparável Julie Christie, a imagem definitiva.
Quando aconteceram Beatles, Stones, Yardbirds e Them, o momento já era passado e eles haviam se tornado estranhamente saudosistas. No momento de Carnaby street e Mary Quant, Londres já tinha vivido seu apogeu e já contabilizava um glamour do passado. Não por acaso, tudo de melhor que essas bandas fizeram foi chorar pelo leite derramado ( no caso, leite com chá ).
Tudo, desde então, é um repisar de fontes anteriormente bebidas. Smiths e Morrissey são a saudade de Wilde, de Oxford, o prazer de se tomar chá lendo Evelyn Waugh e Foster. The Jam´são terninhos eduardianos, cabelos eduardianos e o radicalismo da esquerda eduardiana. Com um som todo aspirando ser Who e Small Faces. Jesus and Mary Chain é a saudade do rouxinol de Keats, trespassado pelo som elétrico do Velvet com a voz de Ian Curtis. Nem vou falar de Oasis, uma banda doentia, que obriga o baterista a tocar como Ringo e faz a mixagem de seus discos com técnicas de 68. Ou o Blur, sempre tentando ser Oasis com sexo.
Pois assisto doze clips do Franz Ferdinand. Bem... o nome da banda já é saudade, nome do arqui-duque morto em Sarajevo, 1914... os clips são citações sobre citações dos tais filmes ingleses de 59/64. Moças que são a cara de Rita Tushingham, moços que se parecem com o jovem John Hurt e roupas como a swinging London... velho, velho,velho demais... O som é Small Faces mais Kinks com toques de Roxy Music. O de sempre...
Algo de jovem nas ilhas britânicas, somente quando parte dos negros ( que querem soar como americanos- e conseguem ) dos indianos e dos africanos que lá vivem. Ingleses brancos, esquálidos e anglicanos, continuam a chorar e chorar os velhos tempos, a repetir a mesma poesia de ancião impotente e a encher de mofo uma cidade já bastante mofada.
para ler após o texto daí de baixo !
Sim, sim, sim, sim ! Iris Murdoch está certa ! Nossa vida cotidiana não é real pois não é inteira. Quando meu pai se foi eu me sentí verdadeiro como raras vezes me sentí. Eu estava triste, perdido, aturdido, mas estava inteiro. Agora entendo : eu vivia um momento de Shakespeare, de Shelley, de Bronte.
Naqueles dias, sem nada planejar, sem nada antecipar, longe do trabalho e dos amigos, longe das máscaras, eu me atirei à literatura simbolista. Yeats, meu papa Yeats me consolou, e Proust, Wilde, Keats me fizeram companhia. Os símbolos foram invocados.
Iris Murdoch acertou. Pois em todos os meus momentos de alegria, alegria inesperada, súbita, irrefreável, eu fui um personagem de Cervantes, de Chaucer ou Rabelais. Então eu entendo que os gênios nos mostram aquilo que somos sem perceber, ou melhor, aquilo que tememos saber ser.
Não seria a neurose um conformismo ao irreal ? A vitória do medo ? A negação do daimon interior ?
Yeats estava e está certo. Há um diabozinho que nos espeta internamente. Que estraga tudo quando achamos estar em paz. Que espeta nossa bunda e nos faz andar. E esse monstrengo é aquilo que negamos, que não olhamos, que tememos. Todos o tem, mas o gênio tem mais. Alguns tem tanto que fogem e negam a luta. Desabam. Qual seria a força desse demonio em Da Vinci, em Beethoven, em Goethe ? Yeats diz que o amor faz parte desse demonio ( duende ). Que todo amor é um desafio que nos destrói. Que aquela/e que amamos é sempre um rival, um enigma, uma armadilha. Mas que ao aceitar a luta, crescemos, criamos, nos igualamos ao demonio.
Portanto jamais tema a dor. Quanto maior ela lhe aparecer, maior é sua força para a vencer.
Jamais chore o que se foi. O Nada é o que lhe cabe e, portanto, tudo lhe pertence. O que voce viveu e sentiu permanece para sempre em voce. E voltará. Outra e outra vez.
Basta viver.
Naqueles dias, sem nada planejar, sem nada antecipar, longe do trabalho e dos amigos, longe das máscaras, eu me atirei à literatura simbolista. Yeats, meu papa Yeats me consolou, e Proust, Wilde, Keats me fizeram companhia. Os símbolos foram invocados.
Iris Murdoch acertou. Pois em todos os meus momentos de alegria, alegria inesperada, súbita, irrefreável, eu fui um personagem de Cervantes, de Chaucer ou Rabelais. Então eu entendo que os gênios nos mostram aquilo que somos sem perceber, ou melhor, aquilo que tememos saber ser.
Não seria a neurose um conformismo ao irreal ? A vitória do medo ? A negação do daimon interior ?
Yeats estava e está certo. Há um diabozinho que nos espeta internamente. Que estraga tudo quando achamos estar em paz. Que espeta nossa bunda e nos faz andar. E esse monstrengo é aquilo que negamos, que não olhamos, que tememos. Todos o tem, mas o gênio tem mais. Alguns tem tanto que fogem e negam a luta. Desabam. Qual seria a força desse demonio em Da Vinci, em Beethoven, em Goethe ? Yeats diz que o amor faz parte desse demonio ( duende ). Que todo amor é um desafio que nos destrói. Que aquela/e que amamos é sempre um rival, um enigma, uma armadilha. Mas que ao aceitar a luta, crescemos, criamos, nos igualamos ao demonio.
Portanto jamais tema a dor. Quanto maior ela lhe aparecer, maior é sua força para a vencer.
Jamais chore o que se foi. O Nada é o que lhe cabe e, portanto, tudo lhe pertence. O que voce viveu e sentiu permanece para sempre em voce. E voltará. Outra e outra vez.
Basta viver.
se voce quer saber um pouco sobre livros, harold bloom é o cara
São mais de 800 páginas. Mas vale a pena. Gênio de Harold Bloom analisa os 100 autores de toda a história que ele considera mais influentes. Não darei a lista para voces. Mas posso dizer que algumas surpresas estão presentes. E outras lógicas e esperadas : Shakespeare é o maior e os únicos que se aproximam do autor inglês são Cervantes, Dante e Tolstoi. Com Joyce e Proust por perto.
O que vou fazer é citar alguns trechos que considero magistrais.
Freud não foi um grande cientista. Ele foi o maior cronista do século. O Montaigne de nosso tempo. Para a cultura alemã, ele é o continuador de Goethe, um tipo de gênio que tudo sabe, com poderes ilimitados. Um sábio.
Como foi Thomas Mann, o mais sábio dos autores do século.
Proust nos ensina que toda perda traz um ganho. É o mais artista dos escritores. Nos ensina a transcendencia do eu. Nenhum autor tem tantos momentos de epifania ( que eu, Tony, chamo de duende ) como Proust. Seu texto traz iluminação.
Samuel Beckett é um dos muito raros santos da literatura. ( Eu explico : lendo a biografia de Beckett vemos que ele fez tudo aquilo que chamamos de santidade. Ajudou colegas desafortunados, deu dicas valiosas, lutou em duas guerras sendo considerado um herói, e jamais se vangloriou. Enquanto Heminguay falava de sua participação- mentindo muito- Beckett nunca escreveu ou falou nada sobre seu heroísmo. Para ele, a guerra é algo cruel demais para ser divulgada ). Bloom conta que a literatura cessa de evoluir em Beckett. Após seu modernismo, o romance recua e volta a ser escrito como o era no século dezenove.
Emily Bronte, com O Morro Dos Ventos Uivantes atinge o auge do encantatório em livro.
Maravilhoso é o texto sobre Walter Pater. Pater foi um crítico inglês que formou gerações. Oscar Wilde deve muito à Pater. No texto de Bloom ficamos sabendo que além do esteticismo, Pater criou a " visão psicodélica do mundo " e então Bloom transcreve um texto de Walter Pater, de 1887 que antecipa uma viagem de lsd em décadas. Uma bela viagem de lsd. Pater dizia que nossa individualidade é uma ficção, que fazemos força para nos agarrar a esse centro individual; pois não fosse isso, iríamos nos dissolver em sensações. O artista deve " arder em chama preciosa ", ir até o fim de tudo. Pater cria portanto a religião dos ateus- a religião da arte, que tanto inflenciará além de Wilde, Yeats, Virginia Wolff, Joyce e Proust.
Para nossa alegria, Harold Bloom coloca Camões nas alturas. Para ele, Os Lusíadas são tão grandes como A Eneida e dignos de Homero ou Dante.
Ninguém escreveu tão bem sobre a paixão como Stendhal, e ninguém nos diverte tanto ao mostrar a dor de amar. Stendhal tem humor, tem fantasia, tem fogo. Ele é, com Tolstoi, o maior filósofo do amor e da luta entre os sexos.
Mark Twain cria, com Whitman e Henry James, a América, terra da ficção. Se Whitman é o maior poeta americano e James o melhor escritor, Twain é o maior humorista e o mais terrível satirista.
Faulkner é de longe o maior escritor da América depois de Henry James.
Fernando Pessoa foi mais que um gênio. Ao criar suas personas ( e como Whitman, ele apenas parece sincero. Todo grande poeta não é sincero ) Pessoa se torna 3 gênios. Pessoa descende diretamente de Shelley, é um poeta da alta imaginação, do alto romantismo. Álvaro de Campos é o mais genial dos heterônimos, exuberante. Sublime. Somente um país como Portugal poderia ter gerado um poeta como Pessoa. Pois Portugal é um heterônimo em sí. Uma relíquia de um império. Daí, Harold Bloom cita uma frase de Fernando Pessoa que eu não conhecia : " Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de gênio fazer senão converter-se, ele só, em literatura ? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito ? "
Ao falar de Iris Murdoch, Bloom cita outro texto, de Murdoch, que considero magistral/ belo e estranhamente assustador : " Shakespeare, Tolstoi, Homero, Dickens, James- mostram-nos o mundo verdadeiro, o nosso mundo, que, normalmente não enxergaríamos. Eles nos indicam aspectos da realidade que não seríamos capazes de ver sem sua ajuda. " Ou seja, o universo das peças de Shakespeare está dentro de nós. Todos temos a intensidade de Hamlet, o horror de Macbeth, a dor de Lear e o romantismo de Romeu. Mas somos incapazes de o perceber.
Há imensos elogios para Eça de Queirós e para Machado de Assis. Bloom chama Machado de gênio e diz ser ele o maior seguidor de Laurence Sterne e Swift- mas sendo sempre original em seu terrível humor. Eça é um fino artista, também cheio de humor, um dos grandes do século dezenove.
No texto sobre Yeats há outro dado que considero fantástico. ( E que mesmo adorando Yeats como eu adoro, não conhecia ). O gênio de uma pessoa é seu demônio. Ele o fustiga, desafia, exaspera. Assim como o amor, o demônio é o inimigo, a antítese, a imagem no espelho, anima. O amor, o gênio interno, existem como forças de destruição, mas que ao serem enfrentadas, tornam-se criação. O demônio alia-se ao amor " não apenas como opositor, é nosso outro eu. " Como Goethe e Shelley, ele acreditava no seu prórpio demônio. Ser que lhe propõe tarefas cada vez mais árduas. Cabe ao artista aceitar tal desafio, e mudar, mudar sempre, na eterna descoberta de sí mesmo.
Termino esta pequena exposição do livro de Harold Bloom ( há ainda maravilhosos textos sobre Italo Calvino, Goethe, Keats, Rimbaud... ), citando Yeats, o mais fantástico dos romanticos :
SÓ PODE CRIAR A MAIOR BELEZA IMAGINÁVEL QUEM SUPORTOU TODAS AS DORES IMAGINÁVEIS, POIS SOMENTE QUANDO VIMOS E PREVIMOS AQUILO QUE TEMEMOS, SEREMOS RECOMPENSADOS PELO DESLUMBRANTE, IMPREVISTO, ANDARILHOS DE ASAS NOS PÉS. NÃO PODERÍAMOS ENCONTRÁ-LO SE ELE NÃO FIZESSE PARTE, EM CERTO SENTIDO, DO NOSSO SER, DO NOSSO PRÓPRIO SER, MAS COMO ÁGUA COM FOGO, RUÍDO COM SILÊNCIO. VEREI AS TREVAS SE TORNAREM LUMINOSAS, O VAZIO SE TORNAR FECUNDO, QUANDO COMPREENDER QUE NADA TENHO, QUE OS SINEIROS DA TORRE APONTARAM UM SINO ITINERANTE AO HÍMEM DA ALMA.
A alma sempre há de ser virginal, pois o demônio ou gênio, é a ela antitético. O gênio de Yeats floresceu quando ele se deu conta de que nada tinha, que a solidão interna era sua benção. Dotados do frêmito do mar oeste/ Pensamentos e imagens comuns/ Dos quais criei meus gemidos/ Para depois beijar uma pedra...uma pedra...
E depois disso compus uma canção...
O que vou fazer é citar alguns trechos que considero magistrais.
Freud não foi um grande cientista. Ele foi o maior cronista do século. O Montaigne de nosso tempo. Para a cultura alemã, ele é o continuador de Goethe, um tipo de gênio que tudo sabe, com poderes ilimitados. Um sábio.
Como foi Thomas Mann, o mais sábio dos autores do século.
Proust nos ensina que toda perda traz um ganho. É o mais artista dos escritores. Nos ensina a transcendencia do eu. Nenhum autor tem tantos momentos de epifania ( que eu, Tony, chamo de duende ) como Proust. Seu texto traz iluminação.
Samuel Beckett é um dos muito raros santos da literatura. ( Eu explico : lendo a biografia de Beckett vemos que ele fez tudo aquilo que chamamos de santidade. Ajudou colegas desafortunados, deu dicas valiosas, lutou em duas guerras sendo considerado um herói, e jamais se vangloriou. Enquanto Heminguay falava de sua participação- mentindo muito- Beckett nunca escreveu ou falou nada sobre seu heroísmo. Para ele, a guerra é algo cruel demais para ser divulgada ). Bloom conta que a literatura cessa de evoluir em Beckett. Após seu modernismo, o romance recua e volta a ser escrito como o era no século dezenove.
Emily Bronte, com O Morro Dos Ventos Uivantes atinge o auge do encantatório em livro.
Maravilhoso é o texto sobre Walter Pater. Pater foi um crítico inglês que formou gerações. Oscar Wilde deve muito à Pater. No texto de Bloom ficamos sabendo que além do esteticismo, Pater criou a " visão psicodélica do mundo " e então Bloom transcreve um texto de Walter Pater, de 1887 que antecipa uma viagem de lsd em décadas. Uma bela viagem de lsd. Pater dizia que nossa individualidade é uma ficção, que fazemos força para nos agarrar a esse centro individual; pois não fosse isso, iríamos nos dissolver em sensações. O artista deve " arder em chama preciosa ", ir até o fim de tudo. Pater cria portanto a religião dos ateus- a religião da arte, que tanto inflenciará além de Wilde, Yeats, Virginia Wolff, Joyce e Proust.
Para nossa alegria, Harold Bloom coloca Camões nas alturas. Para ele, Os Lusíadas são tão grandes como A Eneida e dignos de Homero ou Dante.
Ninguém escreveu tão bem sobre a paixão como Stendhal, e ninguém nos diverte tanto ao mostrar a dor de amar. Stendhal tem humor, tem fantasia, tem fogo. Ele é, com Tolstoi, o maior filósofo do amor e da luta entre os sexos.
Mark Twain cria, com Whitman e Henry James, a América, terra da ficção. Se Whitman é o maior poeta americano e James o melhor escritor, Twain é o maior humorista e o mais terrível satirista.
Faulkner é de longe o maior escritor da América depois de Henry James.
Fernando Pessoa foi mais que um gênio. Ao criar suas personas ( e como Whitman, ele apenas parece sincero. Todo grande poeta não é sincero ) Pessoa se torna 3 gênios. Pessoa descende diretamente de Shelley, é um poeta da alta imaginação, do alto romantismo. Álvaro de Campos é o mais genial dos heterônimos, exuberante. Sublime. Somente um país como Portugal poderia ter gerado um poeta como Pessoa. Pois Portugal é um heterônimo em sí. Uma relíquia de um império. Daí, Harold Bloom cita uma frase de Fernando Pessoa que eu não conhecia : " Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de gênio fazer senão converter-se, ele só, em literatura ? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito ? "
Ao falar de Iris Murdoch, Bloom cita outro texto, de Murdoch, que considero magistral/ belo e estranhamente assustador : " Shakespeare, Tolstoi, Homero, Dickens, James- mostram-nos o mundo verdadeiro, o nosso mundo, que, normalmente não enxergaríamos. Eles nos indicam aspectos da realidade que não seríamos capazes de ver sem sua ajuda. " Ou seja, o universo das peças de Shakespeare está dentro de nós. Todos temos a intensidade de Hamlet, o horror de Macbeth, a dor de Lear e o romantismo de Romeu. Mas somos incapazes de o perceber.
Há imensos elogios para Eça de Queirós e para Machado de Assis. Bloom chama Machado de gênio e diz ser ele o maior seguidor de Laurence Sterne e Swift- mas sendo sempre original em seu terrível humor. Eça é um fino artista, também cheio de humor, um dos grandes do século dezenove.
No texto sobre Yeats há outro dado que considero fantástico. ( E que mesmo adorando Yeats como eu adoro, não conhecia ). O gênio de uma pessoa é seu demônio. Ele o fustiga, desafia, exaspera. Assim como o amor, o demônio é o inimigo, a antítese, a imagem no espelho, anima. O amor, o gênio interno, existem como forças de destruição, mas que ao serem enfrentadas, tornam-se criação. O demônio alia-se ao amor " não apenas como opositor, é nosso outro eu. " Como Goethe e Shelley, ele acreditava no seu prórpio demônio. Ser que lhe propõe tarefas cada vez mais árduas. Cabe ao artista aceitar tal desafio, e mudar, mudar sempre, na eterna descoberta de sí mesmo.
Termino esta pequena exposição do livro de Harold Bloom ( há ainda maravilhosos textos sobre Italo Calvino, Goethe, Keats, Rimbaud... ), citando Yeats, o mais fantástico dos romanticos :
SÓ PODE CRIAR A MAIOR BELEZA IMAGINÁVEL QUEM SUPORTOU TODAS AS DORES IMAGINÁVEIS, POIS SOMENTE QUANDO VIMOS E PREVIMOS AQUILO QUE TEMEMOS, SEREMOS RECOMPENSADOS PELO DESLUMBRANTE, IMPREVISTO, ANDARILHOS DE ASAS NOS PÉS. NÃO PODERÍAMOS ENCONTRÁ-LO SE ELE NÃO FIZESSE PARTE, EM CERTO SENTIDO, DO NOSSO SER, DO NOSSO PRÓPRIO SER, MAS COMO ÁGUA COM FOGO, RUÍDO COM SILÊNCIO. VEREI AS TREVAS SE TORNAREM LUMINOSAS, O VAZIO SE TORNAR FECUNDO, QUANDO COMPREENDER QUE NADA TENHO, QUE OS SINEIROS DA TORRE APONTARAM UM SINO ITINERANTE AO HÍMEM DA ALMA.
A alma sempre há de ser virginal, pois o demônio ou gênio, é a ela antitético. O gênio de Yeats floresceu quando ele se deu conta de que nada tinha, que a solidão interna era sua benção. Dotados do frêmito do mar oeste/ Pensamentos e imagens comuns/ Dos quais criei meus gemidos/ Para depois beijar uma pedra...uma pedra...
E depois disso compus uma canção...
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