CASANOVA, MUITO ALÉM DE UM GRANDE SEDUTOR - IAN KELLY
Ao final desta biografia, Ian Kelly diz que Casanova viveu na beira do abismo. Seu mundo morria ao mesmo tempo que sua vida se extinguia. Ele viveu, para Ian Kelly, em um dos raros momentos na história do ocidente, em que a alegria era maior que a tristeza. Nasceu no início dos anos 1700 e morreu nos últimos anos do século. A revolução francesa matou o universo que ele conheceu. O mundo de Casanova é irrecuperável. Para Ian Kelly, ótimo escritor, nosso momento histórico é muito parecido: o mundo que conhecemos termina aqui. E por incrível que pareça, iremos sentir saudades dos últimos 50 anos do século XX.
Casanova foi filho de pai e mãe atores venezianos. Nada nobre. Perdeu a virgindade com duas irmãs, aos 17 anos. Sua vida exemplifica o que havia de tão especial em seu tempo.
Ele jamais teve uma casa. Nem endereço. Bonito e curioso, aprendeu cinco línguas, travou contatos com as amantes dos nobres e através delas, penetrou nos meios mais seletos da Europa. Não havia fronteiras. Em todos os sentidos. Um homem culto podia e devia estudar física, poesia, música, química e história. Pessoas viajavam sem parar pelo continente. Casanova viveu em Dresden, Paris, Londres, São Petersburgo, Praga, Roma, Veneza, Madrid...Ficou milionário ao criar a loteria francesa ( Lotto ), perdeu tudo em jogo e amantes. Participou de duelos, foi estudioso da Cabala, alquimia, astrologia, numerologia. E escreveu uma auto biografia com 4000 páginas. Ian Kelly a considera uma obra-prima muito adiante de seu tempo. Casanova fala tudo: doenças venéreas, atos sexuais, comida, bebida, jogo, descreve as estradas, a vida dos reis, festas, condições das cidades, e principalmente, se auto analisa. As 4000 páginas foram escritas ao fim da vida e elas antecipam o método psicanálitico, pela primeira vez alguém escreve concientemente para vencer a depressão. Eu consegui achar um dos volumes, são 12, e achei a leitura uma delícia. Há prazer em viver em cada linha. Casanova foi feliz por toda a vida, apenas na velhice, impotente, doente, ele entristeceu e por isso, escreveu.
Teve convívio com Voltaire, Mozart, Rousseau, Catarina da Russia, Frederico da Prússia, Louis XV. Fez sexo com mulheres famosas e com empregadas de café. Amava comida, café e chocolate. Dominava a arte da conversa. Foi o molde do que seria o malandro, o safo, o esperto. Fugiu da prisão, foi famoso em todo o mundo,fez sexo a quatro, cometeu incesto, explorou mulheres mais velhas, usou homossexuais apaixonados, tudo sem a menor culpa. Como demonstram tantos romances da época, foi um tempo que conseguia unir a mais depravada vida sexual, com a mais contida etiqueta social. Fazer amor era uma arte para Casanova, e ao contrário de seus colegas de então, ele dizia só fazer sexo quando apaixonado. Casanova antecipou nisso o romantismo. Ele sofreu bastante por amor. Mas era por pouco tempo, ele logo partia para outra. Muitas outras!
Ian Kelly ama o personagem de seu livro. E consegue nos fazer ama-lo. Que mais pode se querer de uma biografia?
Ian
ONE FINE DAY ( UM DIA ESPECIAL ). CRIANÇAS CRESCERAM E HOJE TÊM 30 ANOS
Esse é aquele filme que voce já viu na Sessão da Tarde. Bem feito, Michael Hoffman dirigiu direitinho. Tem uma dupla adorável, Michelle Pfeiffer e George Clooney. Era a fase em que Clooney imitava Cary Grant. Olhava com o queixo encostado no peito, bufava quando contrariado, deixava a cabeça pender de lado quando pensava. Tudo isso é o carygrant way...No filme ele tem uma filha, e ela um filho. Os dois têm as profissões mais chiques dos anos 90: ela é arquiteta e ele é jornalista. O roteiro faz os dois se odiarem e depois se apaixonarem, tudo em um dia. Mas não é sobre isso que desejo falar. É sobre as crianças.
O menino é um pequeno crápula. Ele passa o filme todo sendo "adorável". Faz beicinho, tem saudades do pai, chora, geme e não para um segundo de dar trabalho. Ele quebra coisas, destroi o trabalho da mãe, nunca faz o que ela pede, jamais. E o que a mãe faz? Diz que o ama e o abraça. Mais ou menos 2000 vezes no filme ela diz que o ama!!!!! Anos 90 né? Paz amor e rave.
Hoje esse menino tem mais ou menos 30 anos. E é um desses adultos que esperam que a cada erro cometido alguém lhe diga: O mundo te ama cara! Ele desconhece a palavra não. Para ele não existe proibição. Limite? Isso depende da minha vontade bro!
One Fine Day pode ser visto como duas crianças tratando seus pais como dois serviçais patéticos.
CARNAVAL, TEATRO E VENEZA
Ian Kelly diz que para entendermos o século XVIII devemos ter em mente que ele é definido pelo teatro, pelo carnaval e pela cidade de Veneza. Todas as relações sociais e os costumes são ditados pelo palco. As pessoas se vestem, falam e até mesmo sentem como se tudo fosse um imenso cenário. Isso explica aquelas roupas e perucas, a maquiagem ostensiva e os casos de amor tão cheios de "lances" cômicos e dramáticos, inclusive os duelos e as cartas imensas. No tempo de Shakespeare já havia grande teatro, óbvio, mas voce sabe que o teatro de então era puro texto, sem cenários e grandes construções mecânicas. No século XVIII nascem as divas, as grandes estrelas, e os gigantescos teatros. Veneza por exemplo, tinha um teatro por bairro e ingressos eram dados à população. Não se esqueça de incluir a Ópera como parte disso tudo. Vivia-se e morria-se como numa peça. O carnaval de Veneza, que então começava em outubro e ia até a páscoa, era o ponto máximo dessa teatralidade. Durante quase metade do ano, só se podia andar na rua com máscara. Veneza, a mais irreal das cidades, é o símbolo do século. Fazia-se muito amor, sexual e casto, mas sempre tendo em mente uma performance para um palco.
O século seguinte é o do romance, e a vida passa a ser vivida não mais como uma festa sobre um palco, mas sim como se sua vida fosse um livro. As roupas não importam tanto, a maquiagem desaparece, o que vale é "viver", e viver significa ser uma personagem. Voce é um tipo, um caráter, uma figura.
Penso que é quase lógico então que o século XX é o do cinema. Todos estamos em um filme ou em um programa de TV. Se no século XVIII era Veneza e Paris, e se depois foi Londre, agora era Nova Iorque e Los Angeles. Decoramos casas, vamos à bares e boates, onde tudo remete à algum filme. Falamos como numa série, ansiamos em ser antes Tarzan, um cowboy, agora um viajante das estrelas ou um rei do crime. Beijamos e sofremos como vimos na tela, compramos roupas de tal tipo de personagem e dirigimos nossos carros como no Texas ou no Arizona. Mas atenção! assim como o tempo do romance vai até os anos de 1920, ainda estamos no final da era da imagem de cinema ou TV. Nascidos em 2000 já estão em outra época. Qual? Em 2030 vamos saber.
JUSTINE - LAWRENCE DURRELL
Talvez voce não saiba, mas nos anos 60 era lawrence Durrell um dos cinco escritores mais famosos do mundo. Ainda em 1984, seu Quinteto de Avignon foi um dos acontecimentos literários do ano. Morreu em 1990, velho e rico, sempre irriquieto. Como Paul Bowles, Durrell foi um desses saxões que correram mundo atrás do sol. Inglês, ele se apaixonou pelo Mediterrâneo, mas não o lado chique desse mar, seu mundo era o lado árabe. Justine se passa em Alexandria e inaugura seu Quarteto de Alexandria. Este livro foi best seller em 1958. Bons tempos em que num ano o best seller era Nabokov e no outro Durrell ou Bellow.
Justine conta a história de um inglês que vive no lado paupérrimo de Alexandria. O livro não especifica, mas parecem ser os anos 40. Esse inglês se envolve com uma dançarina do lugar e depois se apaixona por Justine, uma ninfomaníaca casada com um árabe rico. Ela é uma terrivelmente auto destrutiva seguidora do gnosticismo. O mundo do livro é repleto de gays, lésbicas, cirandas de sexo. O estilo é solto, nunca sabemos onde estamos e para onde vamos, o tempo retrocede, avança, para e acelera. Fala-se da gnose, da Cabala, mas o clima é de descrença, dúvida e muito desespero. Não é leitura de prazer, Durrell é difícil, negro, pegajoso, não busca a beleza, ele busca o não morrer. Há calor aqui, mas nunca sensualidade.
Durrell relaciona sexo com espírito. A paixão como morte da alma. Na gnose toda a vida da matéria seria um erro, o mundo material como criação de um anjo renegado e não de Deus, que teria criado a alma mas não o mundo visível. Paixão e sexo são matéria e portanto fadados sempre ao erro e a tristeza. Isso é Justine.
Se voce usar cadernos culturais de jornal como guia de leitura jamais irá chegar à Durrell. Este não é meu livro favorito dele, mas procure nos sebos da vida.
AMADEUS, FILME DE MILOS FORMAN REVISTO HOJE
Biografias...há alguma que faça justiça ao retratado? As melhores são aquelas que disistem de biografar e passam a criar algo novo a partir do biografado. Não sei se deu pra entender, mas é tipo Lawrence da Arábia: já que lendo seu imenso livro, OS SETE PILARES DA SABEDORIA, nada se descobre sobre ele, e T.E.Lawrence permanece inescrutável, então que se faça uma aventura a partir de Lawrence. Lean e Robert Bolt fizeram então um filme que USA Lawrence, mas que não o BIOGRAFA.
Peter Shaffer, autor da peça de sucesso e roteirista deste filme, faz o mesmo. Este filme não mostra de verdadeiro sobre Mozart. Mas homenageia o gênio da música. Nada aqui tem relação com sua vida. Salieri nunca foi um vilão, não tramou contra Amadeus e muito menos o matou. Mozart era feliz, tinha tara por traseiros femininos e adorava falar de fezes e gases. Nisso o filme chega perto, mas ele NÃO ERA um boboca com risos de tonto. Realmente Mozart não tinha o comportamento de um gênio, mas isso por um motivo muito simples: ninguém até sua época tinha. O perfil do gênio veio na geração seguinte à dele, com Byron, Goethe e Beethoven. Antes do tempo dos românticos, gênios como Rembrandt, Leonardo ou Bach eram como Mozart: artesãos preocupados com dinheiro. Produziam. Tinham plena conciência de sua superioridade, mas não carregava nas costas a maldição de ser um gênio, essa invenção egocêntrica de romanticos magoados com o mundo real. Mozart fazia música sabendo ser excelente no que fazia. Fora isso, jogava muito, bebia e era doido pelo traseiro de sua mulher. Suas crises com a nobreza eram as mesmas de qualquer um que deles dependesse.
Eu amei este filme quando o vi pela primeira vez, nos anos 80. O visual é magnífico. Hoje jamais fariam um filme com tanto luxo e tanto detalhe. Praga faz o papel de Vienna e é fotografada, por Miroslav Ondriceck, de modo sublime. Para completar, o foco do filme é a música, não há melhor, e ainda temos Twyla Tharp coreografando tudo. Perfeição. Como todo mundo na época, eu era um esteta e o filme foi um estouro de bilheteria. Todo mundo ia ver. Filas. Revi mais duas vezes: na TV nos anos 90 e em dvd já neste século. Sempre gostei. Ontem menos, bem menos.
Milos Forman, bom diretor, estraga o filme com sua mão pesada. Salieri demais, Deus demais, século XX demais, paralelos com o partido comunista da Tchekolovakia demais. Assisti pensando: chega de Amadeus como rock star! Chega de Salieri como Dracula! Chega dos reis como líderes do PC Tcheco! Onde está o século XVIII? Não está. Nem mesmo nas cenas de ópera que são coreografadas como shows da Broadway. Tudo seria válido se assumisse sua condição de diversão, de homenagem, de pastiche. Mas não. Forman SEMPRE faz filmes com mensagens. E lá vem mais uma cena pseudo séria com Salieri. Por fim, a cereja do carnaval: Mozart dita seu Requiem para Salieri.
Ama deu.
AQUELAS CANÇÕES DE AMOR
Eu sei que bandas indie continuam fazendo musiquinhas fofas. E que o rythm n blues ainda tem cantores falando de sexo e namoro. Mas houve um tempo, mais ou menos entre 1969-1979, em que 80% do que vendia muito era sobre o amor romântico, aquele que vem direto dos menestréis. Adolescentes, e mesmo crianças como eu era então, consumiam essas dores de amor. Como dizia Nick Hornby, ninguém passa por isso impunemente. Somos a geração mais vidrada em amores frustrados da história recente. Nós, que hoje temos entre 50-60 anos, somos viciados em amar errado. Hey, foi Cazuza quem disse isso! E ele teria 60 se vivo fosse.
Claro que sempre houve música de rádio romantica. Sinatra fez a fama assim. Mas era diferente, era adulta. Por mais que Sinatra em Bewitch sofra, há controle naquilo. Frankie pode estar quase cortando os pulsos, e estava, mas ele mantém a pose. Virilidade era o nome disso. E maturidade também. Era um tempo em que aos 15 anos um moleque acendia um cachimbo e imitava Bing Crosby. Ser adulto era cool.
Mas então vieram, adivinha quem, os Beatles. E de repente todo mundo passou a querer ser Peter Pan. E assim, as canções românticas passaram a ter o desespero adolescente. Uma canção de amor não falava mais de um homem e uma mulher, falavam de um garoto e de uma garota. E como todo amor juvenil, o coração se abria na canção. Era ingênuo. Era puro idealismo. E era às vezes lindo de morrer.
Daydream Believer dos Monkees foi a primeira canção desse tipo que eu amei. Pasmem, eu tinha 8 anos. Com essa idade eu já me emocionava com o mel dessa canção ( que hoje me parece tão boboca ). Depois veio If, do grupo Bread, aos 9 anos. Acho incrível o fato de como as pessoas amavam essas músicas tão tristes. As tears go by dos Stones, Hamburg dos Procol Harum, Nights in White Satin, dos Moody Blues. São milhares.
Aos 12 comecei a colecionar discos e eu amava Elton John por causa de sua melancolia. Eu e toda a torcida do Flamengo. O que Elton vendia era Your Song e Dont Let The Sun Go Down On Me, Goodbye Yellow Brick Road e Candle in the Wind, não seus rocks espertos como Bitch is Back. Nunca vou saber o quanto, mas crescer ouvindo no radio, dia e noite, All By Myself do Eric Carmen e Mandy do Barry Manillow muda sua vida. Mesmo artistas mais frios, mais artísticos, como Bowie ou Lou Reed, tinham seu sucesso garantido pela balada de amor. A hora do choro. A parada da Billboard começava em Without You do Nilsson, em 1972, e ia até My Love, com Paul e Wings. Ter 10 anos de idade era começar a sofrer por amor. Aqui no Brasil era ainda mais forte esse romance de mel e fel. Roberto Carlos, Antonio Marcos, Morris Albert, os sambas de amor de Martinho, Paulinho e Tom e Dito, Benito ah eu vou embora...tinha coisas lindas, de um romantismo sem pudor, assumido, inteiro. Não era uma geração da depressão, era a época do exagero e da histeria, que seja.
OS TEMPLÁRIOS - PIERS PAUL READ
Este livro tem um problema fatal: ele transforma os templários no tema menos interessante de tudo que ele aborda. O autor começa falando dos antecedentes do cristianismo, e isso é muito interessante. Daí ele passa aos primeiros cristãos, e isso é mais interessante ainda. Há uma exposição das várias heresias cristãs, e esse é o mais interessante dos temas, e então vemos o nascimento do islã, interessante mas nem tanto. Quando afinal surgem os templários, na primeira cruzada, nos decepcionamos. O livro cai na monotonia. Piers Paul Read não sabe descrever batalhas, não consegue criar suspense e filosoficamente, em comparação ao que lemos até então, os templários parecem pobres.
Os templários eram nobres que foram viver a vida de monges. Com o tempo eles se tornaram cavaleiros religiosos, seguidores de rígidas regras monásticas, que guardavam as rotas dos peregrinos rumo à Jerusalem. Eles eram a guarda mais temida e mais corajosa dentre os cristãos, isso por serem de longe os mais disciplinados. A ordem se tornou rica, começou a emprestar dinheiro aos reis europeus, e não é dificil imaginar que seu fim se deveu à cobiça dos reis. Eles não só deram um calote nos templários como os difamaram e tomaram suas terras. Todas as lendas sobre a ordem templária é difamação pura e simples.
O lado bom do autor é que ele nos alerta todo o tempo sobre a diferença fundamental entre 2020 e os anos de 800 à 1.300 = a religião. Nós tendemos a não entender mais a importância que a religião tinha então e transformamos tudo em questão financeira. As cruzadas davam enormes prejuízos à Europa ( sim ! Incrível né ). O que movia os reis e nobres era o medo do inferno. Todos levavam vida de pecado e ir às cruzadas era a garantia de ter seus pecados perdoados. Isso era sério. Era mortal. O que move nossa vida é o dinheiro, mas naquele tempo o que os movia era a religião, e fé era questão de vida eterna. Para nós isso é tão difícil de aceitar como seria para eles entender uma guerra por petróleo.
Read dá uma boa explanação sobre Maomé e o islã. Óbvio que ele não os trata como vilões, mas....caramba, é inegável que se trata da religião mais simplificada do mundo. Daí sua popularidade. Já o judaísmo quase é pintado como uma coisa não confiável. O papel dos judeus no livro não fica muito claro.
Falei das belas páginas do começo do livro, não falei? São fascinantes. As histórias dos primeiros 500 anos do cristianismo são maravilhosas.
PRA ONDE VAMOS?
A prova de que não há individualidade entre povos antigos, na verdade uma das provas, é que voce não verá entre eles um só menino que se recuse a passar pelas provas de iniciação. Pensando como o grupo pensa, não há sequer a sombra de um NÃO dentro de sua cabeça. E nós sabemos que a individualidade começa pelo uso do não. Assim como não haverá uma mulher que dirá não a seu esposo.
Dos vários acertos de Jung, um dos mais brilhantes é o de ter percebido que a modernidade caminha não para a extroversão, mas sim para a introversão. Essa afirmação pode chocar quem pensa superficialmente, pois tendemos a achar nosso tempo interconectado muito mais voltado ao fora que ao dentro. Mas eu te provo nossa interioridade agora...
Voce se considera religioso, mas não vai á igreja. Voce crê em Deus, mas no seu Deus interior. Voce não segue o dogma de fora, mas sim aquele que seu íntimo te prescreve.
Voce tem uma esposa-esposo, namorada-namorado, mas seu vínculo não é ditado por algum compromisso social, mas sim enquanto o amor durar.
Voce acha um absurdo em caso de guerra ter de defender seu país. Não vê onde o fato de morar aqui te obrigue a defender uma terra que nem sua é.
Suas diversões se tornam cada vez mais caseiras não é? TV e não cinema. Namoro on line. Jogos on line.
Seu corpo físico é apenas um detalhe do exterior, seu sexo é definido pelo seu íntimo. Lá dentro voce se sente mulher, é sua verdade, pouco importando sua carne e muito menos o que os outros pensam ou percebem.
Ninguém fora tem o poder de te falar o que seja belo. A beleza vive dentro de sua vontade e de seu gosto íntimo.
O mesmo vale para a moral.
Voce realmente crê que querer é poder e que seu único inimigo é voce mesmo.
Há um grande orgulho no fato de voce achar que dizer não é um ato de afirmação.
Pra voce todo governo é ruim.
Rua é pra voce um lugar por onde voce precisa passar, e não um lugar para estar.
O inferno é cheio de outros. Essa frase, tão tola, de Sartre, te parece hiper correta.
O homem é o mal do planeta. Ou seja, tudo que te é externo é ruim, apenas seu interior angelical vale alguma coisa. Toda a história, todas as realizações concretas do homem ativo são lixo.
Se todas essas frases não te provarem para onde estamos indo, o mais dentro de dentro, sinto muito. Voce não escuta mais.
A FILOSOFIA NA ALCOVA - MARQUÊS DE SADE
Que lixo medonho! Não falo isso por moralismo, em tempo de filme pornô on line a pornografia de Sade é apenas mais do mesmo. Incesto, crueldade, sujeira, muito sexo anal, homossexualismo de monte, pedofilia, está tudo aqui e dito de modo nú e crú. Mas...que coisa chata! Sade não tem erotismo, é pornografia mecânica. As pessoas são artefatos de madeira que transam sem parar.
Entre as ladainhas sexuais há a política de Sade. Ele xinga Jesus Cristo, e com isso xinga família, lei e ordem. Parece um adolescente bem louco de 14 anos em sua primeira farra de sexo, alcool e cocaína. O raciocínio de Sade é primitivo, bárbaro: tudo vale e viva o crime! Ele defende o assassinato, o roubo, a morte de bebes, sexo com os pais etc etc etc...O que me espanta é gente séria o ter em conta. Sade não é sequer um escritor ruim, ele não é um escritor. O que ele faz é propaganda. Como disse, um jovem querendo irritar papai e mamãe. Ele xinga.
O tédio se revela até nessa mania, boba, de usar a antiguidade como álibi. Roma fazia isso, a Grécia fazia aquilo, então também posso fazer, eba! Esse tipo de autor sempre faz isso, escolhe no supermercado da história o que lhe absolve. Pega de Roma os bacanais, mas se esquece da obrigação militar; traz dos gregos o homossexualismo, mas "esquece" a noção de virilidade do cidadão. Falar que Cristo era um efeminado que foi sodomizado pelos sábios judeus é apenas uma ofensa tola. Nada significa.
Lendo Sade percebo uma ironia dos tempos atuais: conservadores defendem noções de estado e família que na verdade são modernas, e os radicais defendem um tipo de liberdade que na verdade é tão antiga quanto é a barbárie. Todo anarquista sonha com um mundo tribal, mas ele esquece que esse mundo era o reino do medo e da violência como ato legal e cotidiano. Todo conservador sonha com o mundo da civilidade dos costumes, a continuidade do mundo dos avôs, mas ele se esquece que esse mundo não existe mais, e que a história, que ele defende, não pode regridir.
Sade era nada mais que um sintoma.
INCONSCIENTE
Vou considerar apenas o DNA. Nada de alma portanto.
Por 200 mil anos, no mínimo, vivemos a experiência de ver lobos trucidarem nossos companheiros. E ao anoitecer sentíamos o pavor indizível da hora da fera. Escondidos em árvores e depois em cavernas, encostados, passávamos a noite escutando urros, gritos, guinchos. Todo amanhecer era a alegria de mais uma vitória.
Por 200 mil anos, na verdade mais, matávamos quem roubasse nossos grãos, matávamos por nossa área de caça, matávamos por nossa mulher, tomada. Se esperava de nós que assassinássemos bem. Capturamos bichos. Plantamos muito depois, e mesmo como agricultores, lutávamos para manter a terra.
Por 200 mil anos, ou mais, bem mais, jogávamos ao lixo nossos bebês defeituosos. Sobrevivia quem podia ajudar a sobreviver, os doentes atrapalhavam. Nossos corações viviam encharcados de adrenalina, nossos ouvidos sempre alerta, prontos para fugir ou para brigar. Todo o tempo.
Não havia família. Enquanto fosse forte um homem procriava com quem pudesse. Quando fraco, que se escondesse. Os filhos eram das mulheres, só ao crescer o pai os tomava e os levava à caça. E a guerra.
Não havia propriedade. Tudo era do clã. E o clã tinha seu chefe. Esse chefe era aquele que melhor matava. Simples assim. Para poder comer, ou ter um teto, voce se submetia ao clã.
A religião era a explicação da vida. Uma defesa contra o medo. A arte era sempre religiosa. Tudo era exterior. Eternamente em luta, não havia tempo de olhar para dentro.
Não mais de 5000 anos de civilização como a conhecemos. E civilizar é sempre reprimir.
Voce não vai tomar e estuprar sua vizinha. Voce não vai fugir da defesa do grupo. Será mantida uma lei, e ela tem por objetivo dar rumo e ordem ao grupo. A lei necessita história, tradição, costume.
Nossa mente começa a ser ocupada por regras, novos hábitos, obrigações. Para onde vai o homem antigo?
Para a caverna da mente, a zona escura, o inconsciente. Não se apaga essa herança por simples vontade. Ficou escrito em algum gene: matar, fugir, se esconder, estuprar, grunhir. Medo. Muito medo.
Voltando no tempo somos 100 mil pessoas no planeta. Ou menos, claro. Tivemos as mesmas experiências. Por milênios. Somos todos parentes. Temos portanto o mesmo inconsciente. Coletivo.
Esse inconsciente está a espreita. Eis ele surgindo em sonho. Numa doença mental. Num ato gratuito. Na arte. Na fala involuntária. No transe. Num crime. Numa guerra.
Saúde é conseguir harmonizar consciente-civilização com o inconsciente-barbárie. Como? Nunca pela palavra. Por atos. O inconsciente não fala, faz.
Simbolize.
TIPOS PSiCOLÓGICOS - JUNG
"Em épocas arcaicas não havia individualidade. Rousseau estava errado. O homem primitivo não era livre. Ele sofria a pressão da coletividade de forma absoluta."
" Esse poder opressor está vivo dentro de nós. Estado e igreja são a exteriorização do poder que internalizamos em nosso passado mais arcaico. O poder dos dois não é tão forte quanto permitimos que seja".
" Para a força coletiva nada é mais odioso que a individualidade. Para o barbarismo tudo tem de ser feito para todos. O indivíduo é uma criação da cultura ".
" Para o introvertido, Deus é procurado dentro de si mesmo. Para o extrovertido, Deus se encontra no mundo, Ele é um encontro fora de si".
" Duas mentalidades opostas: Uma procura fazer do mundo aquilo que ela pensa ser o certo, outra olha o mundo e procura tirar proveito daquilo que se apresenta. São inconciliáveis. "
" O individualismo nasce com a creça cristã de que cada um possui uma fagulha divina e que cada um é responsável por sua salvação. "
" Uma das certezas mais ilusórias de nosso tempo é crer que a religião pode ser banida de nossa vida com um simples desejo de negação. Ela faz parte de nosso modo de sentir, pensar, e formar nossa ideia de vida. E assim como o paganismo, ela está incrustada em nosso inconsciente".
" Artistas e filósofos, os verdadeiros, trazem sua ideia do inconsciente. Têm acessa á essa fonte. Por isso logo o mundo os segue, pois eles apenas antecipam aquilo que o inconsciente pede à todos".
" No mundo tecnológico, QUANTO MAIS O HOMEM COLOCA SUA LIBIDO EM SEUS OBJETOS, MENOS LIBIDO ELE TERÁ EM SI MESMO. Haverá um esvaiziamento interno e um excesso de libido na máquina ".
Estes são frases coletadas dessa imensa, difícil, compensadora obra de Jung. Lançada em maio de 1920, temos então seus 100 anos. Dos gregos aos primeiros cristãos, depois Schiller, William James, Nietzsche, Schoppenhauer, Spitteler, a cultura de Jung é imensa. Eis um volume que vale por enciclopédia. Procure e leia.
ALMA LIBIDO E ANIMA
Ande comigo minha alma, anima, sombra que espreita minha vida.
Se falo demais, então é voce calada, se penso demais, então é voce impulso.
Espelho, imagem invertida, se sou viril é voce pura feminilidade. Fértil.
Olhe para mim alma que me dá libido, libido que não é sexo apenas, é investimento, energia que injeto em algo que está em mim.
Ou não.
Mulher que vejo na rua agora, e onde projeto a minha alma. Invisto energia. Libido feito imagem fora de mim.
Beijar minha alma em voce.
Ouvir minha alma em voce.
Unir.
Se eu sou a pedra é voce água. Se eu sou mudança é fixa sua presença.
Indomável alma, feminina alma, todo homem tem alma mulher, toda mulher tem alma homem, abraça-me.
Imagem à janela que me encanta desde que vim ao mundo.
Olhar lânguido que é um lago e uma fonte.
Alma minha eu sou seu.
DOIS TIPOS DE POETAS
Yeats é um tipo introvertido.
Whitman um tipo extrovertido.
Yeats vê dentro de sua mente uma paisagem enevoada, e dessa paisagem ele tira uma narrativa.
Whitman vê soldados em meio à guerra civil, e disso ele desenvolve sua poesia.
Yeats joga sobre a torre, real, em Sligo, aquilo que dentro dele ele vê. Yeats sente que o mundo vive em sua alma.
Whitman olha para o mundo e do mundo ele absorve aquilo que dentro dele entrará. Ele é parte do mundo.
Yeats acharia Whitman muito ativo demais. Talvez rude demais. Quem sabe até mesmo ríspido.
Whitman veria Yeats como um delicado. Egocêntrico demais. Idealista que não sente o gosto do mundo real, como ele é.
Todos nós somos os dois, e é claro que os dois tiveram seu lado contrário. Mas um dos lados nos domina por um tempo maior. Nos traimos por nossas ações mais planejadas, pela nossa rotina, pelo que nos interessa.
Observe:
Yeats não parecia ligar para o sucesso.
Whitman queria ser a voz de sua nação. Tudo nele está voltado ao outro, ao cidadão.
Yeats escrevia para as fadas. Para si mesmo. E no máximo cinco amigos.
Whitman falava com um país inteiro.
É arriscado e ingênuo querer falar da personalidade de duas almas tão complexas e distantes de nós.
Mas a obra de ambos nos dá essa chance.
( baseado em Jung mas ele não usa esses exemplos )
JUNG, TIPOS PSICOLÓGICOS
Estou lendo o TIPOS PSICOLÓGICOS de Jung. Aviso que não irei destrinchar o livro. Ele é vasto e toda redução o empobreceria demais. Farei vários textos, curtos, em que citarei uma ideia do livro. Voce que pense sobre ela.
A obra tem 600 páginas, estou na 170, agora ele analisa Nietzsche e o conceito de Apolo x Dionísio que o alemão escreveu. Antes disso, Jung, sempre uma mente enciclopédica, falou sobre filósofos medievais, gregos primitivos e Schiller. Destaco aqui duas afirmações:
1- A história do mundo e da civilização se explica pela divisão, dentro de nós e fora de nós, entre tipos INTROVERTIDOS E EXTROVERTIDOS. O conflito tem sido insolúvel, e é nessa guerra que se faz a história. Ideal contra prático. O idealista pensa e depois olha o mundo. E busca adaptar o mundo àquilo que ele crê ser a verdade. O prático vê o mundo e depois o conhece. Tenta se adaptar àquilo que o mundo é. Neste momento histórico, se voce pensou em esquerda e direita acertou. Jung, como Schiller e Nietzsche, sabe que são modos de ver o objeto inconciliáveis. Não há comunicação entre essas duas visões. Mas não se engane! Na vida pública hiper exposta e hiper calculada de 2020, o que parece ser introvertido pode ser um extrovertido oportunista; e um que se mostra como extrovertido, ser um idealista confuso. Jung adverte que saber qual seu "time" é ato de muito difícil diagnóstico. Uma dica: auto análise aqui está fadada ao fracasso.
2- A religião surge sempre como criação inconsciente que visa equlibrar o mundo. Desse modo, óbvio que uma religião como a cristã, baseada em amor ao próximo, revela que dentro do homem cristão existe o impulso pelo ódio ao próximo. Jung escreveu em 1920, pós primeira guerra: " Não me surpreende que dentro da civilização do pacifista Jesus Cristo, ocorra a pior das guerras " Imagine o que Jung pensou em 1945! Portanto, Jung sabe que se os gregos, por exemplo, criaram a religião clara e heroica do Olimpo, era porque eles se sentiam acossados por uma vida cheia de medo e de escuridão.
E chega aqui.
Assinar:
Comentários (Atom)