CONSIDERAÇÕES SOBRE DEZ MINUTOS DE TV EM 1982.( FUTEBOL, CARROS E CIGARROS )..

Tento não falar sobre o futebol, minha intenção é falar de um momento do país, momento em 1982, demonstrado pela propaganda. Mas não resisto e falo: um time de homens que não se preocupa com cortes de cabelos e sobrancelhas lapidadas. Turma de gente que ainda se parece com os caras do buteco ou da esquina... Era um time mais bonito...
Em 1982 a ordem no Brasil, saindo da repressão, era só uma: hedonismo. Politicamente demos com os burros n'água, Tancredo morreria em 85 e Sarney instituiria o vale tudo. No futebol o jogo ingênuo seria enterrado e a época do jogo de resultados valeria para sempre.
É engraçado ouvir Luciano do Valle ainda com voz e é fantástico observar o jogo destravado, sem tosqueira. Vêm as propagandas:
Bamba, tênis. Dançarinos. Nada de esporte radical. Eles rodopiam em disco. Hedonismo puro. Hedonismo de desbunde. Depois o Fusca. Um desenho infantil, corações. Nada de futurismo, nada da fria eficiencia do mundo cinza, apenas corações e infantilismo. Coca-Cola. Na praia. Praia que tem uma abundancia de sorrisos. Hedonismo de sorrisos, ainda não se fez a ditadura dos tanquinhos. Continental mostra um jogo. Aí o contraste se exarceba. Em 2010 se falava em TIME DE GUERREIROS, neste anúncio de 1982 todo o destaque é dado ao drible e ao jogo de pés. Caráter do Brasil. El Gol, é anúncio que marcou época, carro que é um touro. Nada de jovens frios com seu jeito de robot, apenas emoção quente e solar. Hollywood: esportistas fumando???? Eu sei o mal que havia nesse tipo de propaganda. Mas o que quero dizer é que me parece estranhamente saudável um mundo que exibe o esporte como um grande foda-se... Hedonismo de novo, velejar é um prazer, nada competitivo aliás.
É necessário repetir uma giria antiga que é usada na peça da Coca: curtição. Curtição é usufruir com prazer, usufruir com o espirito do foda-se. Nossos anúncios não pregam mais a curtição, eles pregam a hiper-eficiencia, e pior, nosso futebol não é feito para ser curtido, é exibição de egos eficientemente propagados.
O mundo da curtição jamais voltará. Mas caraca! Um pouco menos de seriedade e eficiencia!
PS: e não deixa de ser interessante uma copa sem o patrocinio de um banco e de cerveja.

Intervalo Copa 1982 - Brasil x Argentina (RBS - Rede Globo Porto Alegre ...



leia e escreva já!

Handbags & the Gladrags - Rod Stewart



leia e escreva já!

SERIA UMA PENA SE VOCÊ NÃO ESCUTASSE....HANDBAGS AND GLADRAGS, ROD STEWART, SIM! ELE JÁ FOI GRANDE!

Entre 1969 e 1975, todo ano, a crítica inglesa elegia alguém como o "futuro do rock". Se em 1975 esse futuro se chamava Bruce Springsteen, em 1969 seu nome era King Crimsom. Assim como nos outros anos foram Bowie, Roxy Music e Sparks. E durante todo esse tempo, a molecada proletária de Newcastle, Bristol ou Manchester tinha ouvidos apenas para dois nomes: Slade para as bebedeiras e Rod Stewart para ficar no quarto ( e beber às vezes ). Esqueça o Rod Las Vegas de agora, creia-me, até seus trinta anos ele foi O Cara.
Foi jogador de futebol e coveiro e em 67 tirou a grande sorte, entrou para o Jeff Beck Group. Estouraram, ele, Jeff ( estrelaça ) e Ron Wood no baixo. Mas a banda terminou às vésperas de tocar em Woodstock ( chamaram o Ten Years After para os cobrir ). O disco AN OLD RAINCOAT WONT EVER LET YOU DOWN é o primeiro solo de Rod. Vendeu pouco, hoje é um clássico. Porque?
Leio uma velha crítica da Rolling Stone que entrega o motivo: Rod foi nessa época o único compositor/cantor que realmente sabia cantar o MOMENTO DECISIVO. O momento em que um garoto mata aula pela primeira vez, em que uma menina divide seu lanche no recreio, um velho penteando o cabelo e se lembrando do passado, um cego cruzando a rua e sendo ajudado por um estranho, o flagrante de um bandido, o primeiro porre, a dor do primeiro chute na bunda...Rod cantava todos esses temas, e o principal, sua voz tinha o dom para cantar isso a grande altura. Era uma voz que chorava, que se lamentava, que seguia avante e principalmente, dava coragem a quem o escutava. Se houvesse uma voz HERÓICA, essa seria a voz do jovem Rod.
Mas em 1975, milionário, ele sai da Inglaterra e vai morar em LA. Loiras e carros passarão a ser seu único assunto. Muitos dizem que a mudança de Rod, ao deixar seus fãs proletários desiludidos, abriu o caminho para o punk rock. Pois é...
O disco de 69, seu primeiro, com Ron Wood no baixo e guitarras, começa com uma versão lenta de Street Fighting Man, e o que posso dizer é que ela NÂO é pior que a original. Ela é enevoada, mais inglesa, mais contida. Em seguida vem Man Of Constant Sorrow e aí a coisa pega. Numa de minhas crises essa foi um hino. Ela realmente te tira do poço. E dá a certeza de que se o rock precisasse de um Keats, esse seria Rod. Blind Prayer é quase um blues e dá pra ver o que Ron seria se jamais tivesse ido aos Stones. Handbags vem agora, mas falo dela no fim.
An Old Raincoat se tornou depois um hit em shows de Rod. É uma celebração. Change a Thing é uma ambiciosa tentativa de progressivo e Cindys Lament continua a saga. O disco fecha com Dirty Old Town, que é dirty e não ficou old. Weeel... é hora de falar de Handbags.
Ela se inicia com um oboé e entra um piano. É uma canção. Uma das coisas que não consigo entender é como um cara de 16 anos pode hoje viver sem canções de amor no rádio. Canções, não falo de R and B mela cueca, não falo de choradeiras de meninos ao piano, nem de mocinhas e seu violãozinho, falo da canção de amor sem neurose, da canção doce, viril, de voz potente e alta, a canção de menestrel, exaltando o amor, a canção que dá vontade de amar, que desperta a saudade de amores idos. Handbags é isso e é mais.
O período 1969/1979 é considerado o momento auge da canção de amor. Não por acaso é a época de Paul MacCartney, de Roxy Music, de Elton John e de Stevie Wonder. Tempo de Paul Simon, Eagles, Queen e um monte de one hit makers. Rod foi rei nesse universo, Handbags é de seus cumes ( mas não o único ).
Ouço essa canção e vejo diante de mim todas as meninas que amei um dia. E as manhãs em que acordei com a certeza desse amor. A canção rola por dentro de nossas veias e não nos dá o desespero de amores falidos, mas sim a saudade do mel do amor de verdade. Rod tinha isso: a dor vinha, mas sua voz sempre fazia tudo valer a pena. Nunca foi voz pequena.
Ouvir essa canção hoje é um privilégio. O tempo passa, Rod fica cada dia mais Dean Martin, mas seu lugar em meu coração é reservado.

O MOINHO SOBRE O RIO- GEORGE ELIOT ( REVOLUÇÃO INDUSTRIAL X ROMANTISMO )

Ser mulher em 1840. Mulher possuidora de inteligência viva e de ansiosa energia. Assim foi Mary Ann Evans, nome verdadeiro de George Eliot. E assim é Maggie, heroína deste monumental romance. A autora foi criada em forte ambiente religioso. Passou a duvidar de tudo e tornou-se escritora. Na vida afetiva precisou enfrentar a má fama de se unir a um homem casado e pai de duas filhas. Evans/Eliot não é uma artista do estilo, seu brilho é o do pensamento, da criação de tipos. Como Maggie, menina pela qual todo leitor irá se apaixonar.
Pois Maggie nasce "com pele e cabelos de cigana", em mundo onde ser pálido e louro é a lei. É o interior da Inglaterra, mundo de moinhos e da classe média ascendente. Mais que pele e cabelos morenos, Maggie é uma força da natureza. Ela é curiosa, ela é viva, ela está sempre em movimento. A primeira parte do livro, centrada na infância de Maggie, e em seu irmão Tom, teimoso e corajoso, no pai desastrado que a adora e na mãe tola e ingênua, é forte e poética como poucas coisas já lidas. As primeiras 200 páginas voam, passam em amor pelos personagens de Maggie e Tom, mas também em encantamento pelos parentes sovinas, invejosos, moralistas, dogmáticos. O pequeno mundo movido a negócios, a dinheiro aplicado, a rendimentos.
O centro do livro é a terra. Todos lutam por ela. O homem, pela primeira vez em toda a história, percebe que seu mundo não mais lhe pertence. As coisas mudam, são destruídas, paisagens se vão. Não existe mais a continuidade, e esses seres, agitados e saudosos, se movem nesse mundo incerto, que teima em negar o passado, em se transformar. O trauma que a Europa viveu então se faz notar pela violência de suas revoluções, guerras e movimentos mentais. E neste livro se nota pela destruição de todos os sonhos de Maggie.
George Eliot é cruel com Maggie? Como poderia ser se Maggie é ela mesma? Mas nada dá certo para aquela adorável menina. Seu tempo é tempo feito para gente que não é como ela é. Maggie nega o amor, se perde e passa toda a vida ansiando pela volta a infãncia. Eliot traduz assim o romantismo de seu tempo: saudades da infância européia, onde todo recanto era sem dono, toda árvore era sua companheira por toda a vida e cada estação seria sempre exatamente como fora a anterior. Maggie sabe que esse mundo fora destruído. Mas ela passa pela vida crendo em sua volta.
Há um momento em que George Eliot se deixa perder. Quando Maggie se divide entre dois amores o livro perde originalidade e se torna mais um romance de amor sofrido. Mas isso logo é resolvido e o final é de trágica e bela verdade. Eles tinham de terminar assim, não poderia haver outro fim.
Mary Ann Evans sabia, e diz isso várias vezes, que a grandeza da Inglaterra estava firmemente construída sobre a teimosia dos compromissos familiares. Famílias negociavam com famílias e lutavam pela manutenção de seus bons nomes e de sua fortuna. O inglês era um ser de pensamento sólido, imutável, limitado e sem temor. Esse modo, sem imaginação, de avançar sempre e de manter a palavra dada, segundo Eliot, levaria o país ao poder mundial. Mas faria de Maggies e Toms vítimas de um mundo feito pelo e para o dinheiro.
Seiscentas páginas que poderiam ser mais. George Eliot foi uma grande mulher.

BRASILIA, UM LUGAREJO DE ALTAS BANCADAS

Numa sala imensa, um homem "especial", fala para seus camaradas. Esse discursante está longe deles, bem longe, detrás de uma imensa bancada, ao alto, em posição "superior".
Os outros estão lá embaixo, escondidos detrás de imensas poltronas, perdidos no vazio de um salão imenso. Impossível haver lá um "olho no olho", um cara a cara.
Esse é nosso congresso. Sua disposição arquitetônica já traindo o espírito da casa. Aliás, desenho feito por arquiteto bem pouco democrático. Espaço feito para discursos ao vazio, para conchavos detrás de sombras, imensamente oco.
Em outro lugar....
O ministro discursa em posição "inferior". Ele fica em piso mais baixo que seus companheiros. Se coloca ao centro, todos os outros estão quase encostados nele. Fala cercado, de pé, e escuta apupos, vaias, perguntas feitas por quem está "acima" e próximo.
Me causa admiração sempre que vejo o congresso inglês. O ministro tendo de enfrentar os congressistas no olho a olho, cotovelos quase encostados, o ministro de pé em meio aos companheiros. Vaias e adendos, perguntas feitas a todo momento, com educação, mas na proximidade.
Só irei acreditar no Brasil no dia em que o congresso for reformado. Em que se derrubar aquela ridícula e ditatorial bancada. Precisamos dessa "Bastilha".

PARA ENTENDER UM ROMANCE, O TEMPO E UM LIVRO

Primeiro a lenda. Começamos a nos tornar civilizados com lendas cantadas à fogueira. Mistura de religião com fato, cantos. Depois os épicos, feitos de heróis que dão orgulho ao povo e ensinam como ser cidadão. E vem a escrita.
Revelador o fato de que começamos pela poesia. É em verso que nossa consciência se revela ( ou inconsciência? ). Poesia que fala de deuses, depois de história e só então se cria o Ego.
O ego se firma e reafirma no drama teatral. No palco nós vemos o outro e tomamos ciência de nós-único. E muito tempo depois, a poesia provençal terminará o trabalho, nos dando a certeza de que o ego é feito para o amor.
Observe: já estamos em Dante, cinco mil anos de cultura ocidental, e nada de romance. Escreve-se poesia, filosofia, história, lenda, canção, conto picaresco, mas o romance como o conhecemos, não.
Vem a prosa, Boccaccio e depois Cervantes. Mas não são romances. A trama não é romanesca, os personagens não evoluem, a ação não leva adiante, resumindo: o tempo ainda não é linear.
Lendo o Quixote, o Decameron ou Canterbury Tales, percebemos que a história narrada não vai adiante, não corre. Os personagens nascem como se "fora do tempo". As coisas não mudam, acontecem aventuras, mas nada anda. Não é o romance. Mas é a prosa. Prosa com alma de poesia, atemporal. Quase nada é descrito, as coisas estão e permanecem como são.
Mas, na Inglaterra, por volta de 1740, textos começam a falar de homens que nascem e se modificam ao correr do enredo. Não se escreve sobre um herói extra-temporal, se conta uma linear saga no tempo. Começo-meio e fim. Personagens e ambiente. Forças sociais. Tempo que tudo modifica. Robinson Crusoe, Tom Jones, Clarissa. Defoe, Fielding e Richardson, no centro do capitalismo nasce o romance.
A paisagem muda sem cessar. As relações mudam. As cidades matam o atemporal. Os recantos familiares são destruídos. O homem se torna cão sem dono. O romance procura dar um sentido a esse terremoto. Ele dá linearidade ao que é irracional.
O século XIX é o auge do romance. E não por acaso é também o auge da ilusão racionalista. A maestria do romance mora toda neste século ( como também, e não por acaso, o apogeu da sinfonia ). Flaubert, Balzac e Stendhal na França; Eça e Camilo em Portugal; Hawthorne, Melville e James nos EUA; Turgueniev, Dostoievski e Tolstoi na Rússia; e principalmente Hardy, Dickens, Bronte, Thackeray, Stevenson e essa magistral Eliot na Inglaterra.
Tudo o que entendemos por "um bom livro" reside nesses autores. De Jonathan Frazen à Naipaul, passando por Harry Potter e Paulo Coelho, o que sentimos ser "um romance" é criado aqui. Bellow, Updike, Amis, Ellroy, todos têm a visão da narrativa como linha no tempo, modificações, personagens que crescem, desfechos.
O pesadelo do século XX desacredita o romance. A dúvida se faz e o sentido se esfacela. Joyce, Proust, Borges, Calvino, Sebald, tentam ir contra a linearidade, o enredo, o tempo. Para eles a questão é: como crer em romances se a vida é irracional? Balela! A vida deles é um romance. Eles escreveram romances sobre alguém que tenta sair do "grande romance do tempo". Falharam. Mas que bela falha!!!!!
Estou lendo George Eliot. Apesar do nome ela é uma mulher. Mary Ann Evans. Muitos a consideram a maior autora inglesa. Concordo. Lê-la é um prazer. Voce mergulha no ambiente, se apaixona pelos personagens e pensa estar vendo a vida mais viva que a própria vida. O segredo do grande romance está aqui: os personagens. Eles devem nos conquistar. Lendo Eliot voce se vê em amores com eles. E há aqui a melhor e mais bela descrição da infância possível.
Quando o mundo chega em George Eliot há um apogeu de uma longa saga. De Homero à Eliot. O que vem depois tem de ser diferente. Porque?
Um professor da USP me disse que após Victor Hugo é impossível para um francês fazer poesia. O fim da rima se deve a incapacidade de se tentar ser melhor que Hugo. Pois é isso. Após George Eliot ( e Tolstoi e Stendhal e Henry James ) é impossível se escrever um romance linear melhor que os deles. O romance se torna então farsa ou crítica, se torna uma outra coisa: best-seller diluidor, crítica modernista ou quebra-cabeça pós-tudo. Mas o grande romance, a história que cria seu próprio universo, e criando dá sentido a vidas sem sentido, esse romance é coisa do século XIX.
É uma benção ainda podermos os ler.

É BOM SER HOMEM ! É BOM PRA #@%##$!!!!!!

André Barcinski nos traz uma matéria com James Ellroy. Não sei se é verdade ou tipo, mas Ellroy diz não saber nada de facebook ou internet ou o diabo a quatro. Justo! Ele diz que para se escrever bem não se pode ficar conectado. Verdade. Tenho amigos que deixaram de escrever após o facebook. Escrevem suas besteirinhas na rede e esquecem de seus sonhos do "grande livro que vou escrever". A internet é um anti-deprê, um consolo para escrevinhadores frustrados. Como eu.
Eu escrevia muito melhor antes de meu blog ou do facebook. Me concentrava mais, elaborava melhor, tinha menos ansiedade. A caneta e o papel não são SIMPLES saudosismos. Eles são calmos, quietos, não elétricos. Na internet voce acaba se dispersando entre amigos, noticias e correspondência. A inspiração se vai. Não há espaço morto, silêncio interno, atemporalidade.
Ellroy diz não ler nenhum autor vivo. Na verdade não lê mais nada. E nem vê filmes. Sua narrativa ele a deve a Beethoven e Bruckner. Bom.... Todo bom autor escreve musicalmente. Stendhal era puro Mozart e Tolstoi é Beethoven. Mas acho dificil um escritor não ler. Todo autor é um viciado em letras, em texto, em palavras.... Mas é um prazer ver um autor tão pouco intelectual. Show.
James Ellroy é um homem homem, e esse texto casa com o texto de Pondé, texto que fala do homem homem, o homem não feminino, raça em vias de desaparecimento.
O homem compreensivo ( conheço alguns ) daqueles que ama a mulher "enquanto gente", é brochante. Mulheres com homens assim são poços de frustração. Pondé diz que a mulher deseja sim, embora às vezes envergonhada, ser um objeto ( de vez em quando ), ser tratada como ser desejado, ser diferente do homem, ser-fêmea, que deve ser protegido, tomado, cercado, dominado.
Meninos criados por pais de rabo de cavalo, que meteram em suas cabeças coisas como : "mulheres são como nós", "Respeite-as enquanto humanos", podem fazer o que? Tratá-las como irmãzinhas. Esses meninos têm aquele rostinho inofensivo, aquela voz suave-sonsa que tanto enxameia as ruas de toda cidade. As mulheres inteligentes, liberadas, se envolvem com esses tipos democráticos, e depois de dois anos se vêem, coitadinhas, ansiando pelo cafa da padaria ou o jogador de futebol da praia.
E o menino, que tolinho, se vê trocado pelo quarentão de barba suja ( " Porque? Porque?" ), ou pelo adolescente tapado caiçara.
No meio da beijação noturna, das azarações de verão, tudo o que elas querem é uma mão suja de graxa, uma boa pegada e o olhar de quem as vê como objetos magníficos para serem roubados.
O resto é consolo....

NICOLAS CAGE/ DORIS DAY/ COCTEAU/ BERGMAN/ MANOEL DE OLIVEIRA/ JOE WRIGHT/ GABIN

FÚRIA SOBRE RODAS de Patrick Lussier com Nicolas Cage e Amber Head
Barulho e corpos decepados. Mulheres nuas em cenas não-sensuais. Machismo a enésima potência. E Cage no meio daquilo tudo. Adoro filmes de ação sem cérebro. Sou fã de Jason Statham e fui de Bruce Willis/ Mel Gibson. Mas filmes de ação precisam de leveza, de algum humor. O que vemos aqui é grosseria pura e nada de emoção. Video-game em que voce não joga, assiste e engole. Estamos no ponto mais baixo do cinema. Nota ZERO.
A TEIA DE RENDA NEGRA de David Miller com Doris Day, Rex Harrison e Myrna Loy
Um elenco superior para um filme comum. Doris é esposa aterrorizada por telefonemas anônimos. Rex é seu marido e Loy uma amiga. Tem classe, mas o roteiro não se distingue por nada de especial. Serve para fãs de Hitch que gostam de conhecer suas imitações ( meu caso ). Doris, uma atriz sempre subestimada, segura o papel. Nota 5.
INVERNO DA ALMA de Debra Granik com Jennifer Lawrence
Por entre toneladas de entulho, bando de zumbis esfomeados e drogados vaga sem destino e sem nada para se ocupar. Uma menina deprimida vai à procura do pai em meio a esse mundo lixo ( que não é o meu ). É só isso. Um filme perfeito para quem confunde arte com depressão, ou que mostrar a verdade é mostrar gente zumbi. Se voce viajar grandão no filme, voce até pode imaginar que há ali a constatação do fim da figura paterna/deus e dos restos de coisas tentando ocupar esse vazio. Vazio que é inescapável. Mas o filme é realmente tão rico? Ou ver isso é empurrar sentidos que ele não merece ter? A atriz não atua, apenas fica zanzando pelo set. Foi dificil ficar acordado. Nota ZERO.
A BELA E A FERA de Jean Cocteau com Jean Marais e Josette Day
Para se avaliar um clássico é preciso vê-lo mais de duas vezes. Na primeira vez em que vi este filme ( 1991 ) chamei-o de obra-prima. Na segunda vez ( 1999 ) apenas de um excelente filme. Agora o considero um filme interessante, bonito ( a foto é de Henri Alekan ) mas nada de tão grandioso assim. Nosso gosto se apura com o exercicio do olhar e do escutar. Em 91 o que eu conhecia de cinema? Bom..... A história é aquela do desenho Disney. Claro que numa chave mais adulta. Cocteau, para os meninos que não sabem, foi poeta, coreógrafo, pintor, diretor de cinema e escritor. Bom em todos esses ramos, genial em nenhum. Amigo de Picasso, Matisse e toda a turma boêmia da Paris 1920/1940, seus filmes sempre possuem um visual rico, sonhador, poético. Mas também apresentam sempre algo de flácido, suave demais. É o caso. Nota 6
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA de Manoel de Oliveira com Ricardo Trêpa
Se Clint Eastwood viver mais vinte anos terá a idade que Manoel tem hoje. Um milagre! E tomara que Clint ( e Woody ) consigam. Manoel de Oliveira é pouco apreciado em Portugal. Seu sucesso vem da França e da Espanha. Fácil saber o porque: ele expõe aquilo que os portugueses não gostam em si-mesmos. Aqui ele pega um conto de Eça e faz um filme de uma hora, apenas. E que filme é esse? Uma radiografia sobre a facilidade com que um amor nasce dentro de uma pessoa, e a mortal capacidade que esse amor tem de se escapar. Se amar é fácil, perder um amor é mais fácil ainda. O filme nada tem de trágico. Aliás, nada tem de emocionante. A paixão é exposta como coisa fria. E o fim é ainda mais frio. As cenas nunca são bonitas, são precisas, simples, naturais. É um tipo de cinema diferente, distante, de cenas longas, nada espetaculares. Em meio a tanta bobagem é um alivio. Mas por outro lado, há uma ostentação cultural, um pedantismo que chega a irritar. De qualquer modo, quando um ator recita um poema de Fernando Pessoa ( Alberto Caieiro ) faz-se a luz. É uma cena maravilhosa. Manoel de Oliveira não é de nosso tempo. Seu filme parece ter sido feito por um contemporâneo de Machado de Assis, Proust ou Thomas Mann... E ele o é. Nota 6.
O SÉTIMO SELO de Ingmar Bergman com Max Von Sydow, Bibi Andersson e Gunnar Bjorson
Quando temos diante de nós um filme como este, tudo o que podemos fazer é ajoelhar e bater palmas. O prazer em assisti-lo é inenarrável. Se voce não compartilha desse prazer, sorry, voce não sabe o que perde. Morte, história, coragem, jogo, estes os temas do filme. Bergman constrói cenas sobre cenas que nos ficam gravadas na cabeça como sonhos acordados. É, como diz Pauline Kael, o único filme medieval que parece ter sido feito na época. Bergman compreende o que foi aquele tempo. De certa forma, ele viveu seus conflitos em termos de culpas medievais. Foi um homem que enfrentou o dragão. Inescapável marco do cinema. Nota DEZ.
ARDIDA COMO PIMENTA de David Butler com Doris Day e Howard Keel
Doris está adorável como Calamity Jane, a heroína do oeste, com jeito e roupas de homem. Keel é um cowboy seu amigo. O filme, musical, mostra sua transformação em mulher atraente. É um musical de sucesso, mas não é um dos grandes. Em que pese o talento de Doris e de Keel, o filme tem uma encenação comum, pouca ousadia em seus números. È apenas uma diversão ligeira, da época em que se produziam filmes às toneladas. Nota 6.
GAINSBOURG de Joann Sfar com Eric Elmosnino, Laetitia Casta e Lucy Gordon
Um bom filme sobre um ícone. Sfar surpreende: caso raro de bio que não sente pudor em amar seu objeto. Serge é tratado como personagem de lenda, de conto de fadas. A encenação é rica, e suas canções estão lá ( La Javannaise é a melhor ). Bacana terem lembrado de France Gal, mas bem que podiam ter dado um jeito de colocar Anna Karina. A terceira parte, quando ele encontra Birkin, é a melhor. O encontro com BB é o pior resolvido. De qualquer modo, é obrigatório para fãs, para francófilos e para quem gosta de boa música. Para o resto será uma surpresa. Eric tem atuação de gala, mas Serge não era tão feio! Lucy é uma Jane convincente ( sim, se usavam saias tão curtas ) e Laetitia está longe da beleza de BB. Pena Claudia Schiffer não ser mais jovem.... A atriz que faz Grecco nada tem da esquisitice da musa existencialista. No mais, é um filme sobre um homem muito sexólatra feito de forma estranhamente pudica.... Sinal dos tempos.... Nota 7.
HANNAH de Joe Wright com Saoirse Ronan, Cate Blanchet e Eric Bana
Ainda não passou aqui este novo filme do excelente diretor de Desejo e Reparação e de Orgulho e Preconceito. Do que trata? Saoirse ( excelente ) é uma menina criada pelo pai ( Bana ) para saber se defender. Na verdade ela é parte de uma experiencia que não deu certo. Blanchet é a agente governamental que fez parte do projeto e que agora quer eliminá-la. Sentiram o drama? É HQ das mais banais. E o filme é esquizo até o osso. Wright, um talento enorme, trabalha com esse roteiro banal e faz misérias com as cenas. Não há um excesso de cortes, não há violência demais. Mas há a criação de um clima angustiante e principalmente, Wright consegue fazer um filme de hoje que se parece com futuro distante. Vemos aquele mundo sórdido, à Blade Runner, e percebemos que é nosso mundo, é agora. Um filme cheio de erros ( o pior é a trilha sonora vulgar ) mas que deixa se perceber o talento, grande, de seu diretor. Nota 6.
A TRAVESSIA DE PARIS de Claude Autant-Lara com Jean Gabin e Bourvil
Demorou mas virei fã de Gabin. Acho que precisamos de uma certa idade para gostar de seu jeito lento, duro, seco e mal-humorado. O chapéu de lado, o cigarro em toco, as mãos gordas. O maior mito francês em cinema. Aqui ele é um pintor bem sucedido que se envolve com o contrabando na segunda guerra só para ver como é. Ele ama a vida e quer conhecer esse lado de viver entre contrabandistas desesperados. Seu camarada é um apavorado e afobado pobretão, sempre nervoso e quase estragando tudo. O que eles contrabandeiam é carne de porco ( há a morte de um porco no começo que pode ofender alguns ). O filme, filmado nas ruas escuras de Paris, é uma diversão deliciosa. Assistimos com interesse a caminhada desses dois perdidos pela cidade tomada pelo medo e por soldados nazistas. E é lindo ver a Paris escura, fria, suja, pobre, da guerra. Nota 7.

Serge Gainsbourg & Mireille Darc - Comic Strip (1967)

O CARA! ( e Mireille Darc, a maravilhosa..... ) Penso em voltar a fazer francês......

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GAINSBOURG, HERÓI, um filme de JOANN SFAR

Existem 3 modos de se ver o filme-homenagem de Joann Sfar. O primeiro é vê-lo como alguém que conhece e ama Gainsbourg. É meu caso e ver este filme tem algo de frustrante. O cinema é por natureza um simplificador e Sfar fez um filme que torna a vida turbulenta, rica, perigosa de Serge, uma vida quase linear. Pior, é um filme com o rosto de 2011, puritano. Sfar consegue o milagre de fazer um filme sobre Serge sem uma cena de sexo. Nada se fala sobre seu filme provocante de 1976, e se mostra o homem alcoólatra que ele se fez, sem jamais se exibir uma garrafa de bebida. Para o Gainsbourg fã, o filme é bastante não-gainsbourgiano.
O segundo modo de vê-lo é como alguém que nada sabe sobre Serge e que quer descobrir quem ele é através do filme. Esse é o típico personagem-alvo do cinema para inteligentinhos do cinema atual. Aquele cara que nunca leu Tolstoi e que tenta conhecer o gênio russo através da "Última Estação", ou o cara que não ouve Bob Dylan mas acha que conhece Dylan pelo filme genial de Todd Haynes. O inteligentinho irá agora conhecer Serge via Sfar. E que Serge é esse? Um cantor/compositor francês que fazia músicas bacaninhas ( e que antecipavam o som bacaninha de pessoas fashion de hoje ). Um feioso que namorou BB ( e chega a ser humilhante para Laetitia Casta o quanto ela é menos bonita que a diva BB ), um chato que teve a sorte de ser casado com Jane Birkin. Fica a imagem de um cara meio perdido, levado pelo destino, solto, e sempre com seu Gitanes aceso. Um cara simpático, e eis o erro: Serge nunca foi simpático! Voce o amava ou o odiava, simpático jamais! Mas estamos em 2011, a ditadura da simpatia...
O terceiro modo é vê-lo como cinema, sem se preocupar com Gainsbourg. Fazendo de conta que tudo aquilo é ficção. E é então que o filme cresce. Como cinema em si, é um filme encantador. Joann Sfar ama tanto a Serge Gainsbourg que lhe fez uma fábula. Jogou fora a pretensão de exibir sua caleidoscópica e labiríntica persona e se concentrou em dar de presente à Serge e a seus fãs um poema de amor. O filme exibe suas canções, ama seu rosto de rato, apaixona-se por seus cigarros e cresce muito na parte final, ao mostrar a relação com Jane Birkin. O ator, Eric Elmosnino é mais feio que Serge ( e menos viril ). Gainsbourg era muito mais rouco e bruto. Atraía pela virilidade explícita. Joann suaviza isso, mas homenageia seu herói mostrando seu lado mais suave, engraçado, "simpático" então.
É um belo filme, léguas à frente de biografias tolas como RAY. Quando o filme se encerra sentimos um imenso respeito pelo homem Gainsbourg e reside aí o segredo do filme.

RAGA, LIVRO DE J.M.G. LE CLÉZIO

Primeiro ele narra uma viagem. Uma familia de ilhéus numa das maiores aventuras da saga humana: piroga no oceano, perdida, indo de ilha a ilha. E a nova terra, a praia.
O livro, curto, eu o li em uma manhã de frio, é delicioso. Deliciosamente interessante, porém é de dor que ele fala. Crimes cometidos pela Europa sobre a Oceania. Hediondos.
Mas antes Le Clézio anda pela ilha. E percebe a angústia sempre presente nessas ilhas que turistas tolos chamam de "paradisíacas". Nunca foram um paraíso. Nunca. A história desses mundos é de fugas: fugir da fome, fugir dos vulcões, fugir dos inimigos. Se aventurar ao mar, descobrir nova ilha. E depois a maior da dores, a chegada de navios brancos, a captura de seus filhos, de suas mulheres, a escravidão. Le Clézio anda pela ilha com uma missionária católica, e vê nela a primeira pista de um novo mundo num novo século... Qual mundo?
Antes do novo ele narra as lendas. A fertilização do mundo, a sexualização da vida. Lendas que são surpreendentes. Terra que nunca foi de ninguém, ilhéus que sempre viram a terra como dona da vida, o homem como companheiro da terra, parte dela e não seu dono. Mas a vela branca do navio europeu é vista ao largo, e a fuga se faz. Para dentro da mata. Os europeus tomam posse da terra, dos corpos e dos deuses, é a chegada do eu.
Homens que se jogam fazendo "o gol " ( o nome é esse, nós o chamamos de bugee jump ), mulheres que trançam esteiras. Pássaros que anunciam a vida. Estrelas. E o mar, sempre o mar.
Mas agora é hoje e Le Clézio sempre narra de hoje, não se perde no passado. E constata o futuro das ilhas, o futuro da Terra, deste planeta. Um novo cristianismo mestiço, uma nova forma de ver a vida.
E é pela língua que a coisa se anuncia ( meu professor de linguística adoraria este livro ). Línguas miscigenadas, criolas, que são não um erro mas sim uma vingança. Línguas como o foram um dia o francês e o português, línguas que eram reações de tribos contra o opressor romano ( o latim culto ). O final do livro é uma antecipação desse futuro: eles são hoje a vitalidade que fomos um dia. Eles têm a curiosidade de quem é novo. Tudo querem ver, tudo provam, e principalmente, tudo misturam. Misturam músicas, adicionam temperos, fazem uma sopa de línguas. O futuro é mestiço ( sempre foi ). Porque o francês é um mestiço ( de romanos, celtas, normandos, bretões ), o português é um mestiço ( de romanos, íberos, celtas, suevos e árabes ), mas são mestiços já esquecidos de suas origens, o sangue impuro acomodado em não-memória, em não-sonho. Mas nas ilhas, na Oceania, como no Caribe e como na África, a mestiçagem é viva, é agora, nasce. E eles se espalham pelo mundo, porque têm viva na mente a dor da opressão, porque têm a violência na alma, porque precisam vingar a injustiça.
Sim, há uma violência latente nesses lugares. Que é uma reação e nunca uma ação. Seus avôs foram massacrados, raptados, estuprados, sua cultura foi apagada, seus deuses ofendidos, sua cara foi amordaçada. Nunca houve dor maior no mundo. Não foi a dor ( terrível ) da guerra, pior, foi a dor da aniquilação. Exemplo: em 1910 na África do Sul ainda se organizavam expedições de caça ao negro. Na Austrália, de caça ao aborígene. Forma européia de vencer o tédio...
A reação violenta está na língua, cheia de termos crús, estúpidos, agressivos. A reação está no modo como eles viajam, viajam com o intuito de voltar, de explorar o explorador. Eles foram dizimados, são violentos e resistentes. Pois seus deuses voltam e o que desejam é lembrar.
Mestiços, povos que amam provar tudo e que assim amam a tecnologia, as novidades, a moda, mas que ao mesmo tempo impregnam tudo de deuses, de manhas, de ritos e de mistérios. Lêem as linhas do tempo. Resistem.
Franceses e portugueses foram massacrados um dia. Foram escravos e perderam sua religião, sua terra. Mas não souberam resistir, se renderam. Essa dor nos foi roubada. Mas não eles, sua dor é deles, é mantida e é celebrada. Identidade.
O futuro de toda nação passa pelo saber ser mestiça. Os aborígenes, ( assim como os negros e os outros povos misturados ), quem diria, são o futuro da vida. Se eles deixarem de resistir estaremos mortos.
Pequeno grande livro.

O sétimo selo - diálogo de Antonius Block com a Morte



leia e escreva já!

O SÉTIMO SELO, UM BERGMAN FEROZ ( RELIGIÃO X ARTE ).

Ingmar Bergman tem raiva. A repressão sofrida na infância ( como mostra Fanny e Alexander ) lhe deixou a marca da dúvida, da angústia e da dor. Nenhum cineasta tratou melhor desses temas, e nenhum cineasta foi mais independente. Bergman fez sempre o que desejou fazer. Na arte e na vida. O Sétimo Selo fez dele uma estrela intelectual, no ano em que além desse filme-marco, ele lançou Morangos Silvestres e preparou O Rosto ( meu favorito ).
De qualquer modo, para o bem ou para o mal, aquilo que conhecemos como "cinema de arte" nasce aqui. Antes de O Sétimo Selo, lógico, existia arte em Dreyer, Ozu ou Renoir, mas a relação do cinéfilo com tal tipo de filme se dá aqui. Desde este filme, "filme de arte" se tornou um gênero à parte.
Ninguém entendeu melhor a idade média ( opinião que compartilho com N críticos ). E neste filme estamos em momento chave da psique humana: a volta das cruzadas e a peste negra. Vários autores relatam que é no retorno da cruzada que se faz a crítica primeira ao cristianismo. Os horrores cometidos e a visão de reinos mais evoluidos que os europeus, fez com que a dúvida se entravasse na mente dos cavaleiros. Porém, mais importante que isso é a peste.
Uma de cada quatro pessoas morreu na peste. Seria como se hoje 2 bilhões de pessoas no mundo morressem em dois anos. Corpos jogados nas ruas apodrecendo, cidades sendo evacuadas, gente gritando pelas ruas, a certeza de que o mundo iria terminar. Psicólogos e filósofos que admiro dizem que foi momento de tamanho horror, que a angústia moderna perante a morte tem sua origem nesse momento. O idílio do paganismo/cristianismo primitivo morre com o horror da peste, com o medo sem fim. O europeu se torna grave, sisudo, angustiado, covarde.
Dois homens acabam de voltar da cruzada e encontram a Europa em terror. A morte acompanha um deles e os dois jogam xadrez. Essa morte nada tem de religiosa. Ela acontece, ceifa vidas, mas nada sabe do que faz. O cavaleiro que joga com ela ( um enigmático Max Von Sydow, que voce viu no filme recente de Scorsese ), é um questionador. Ele quer saber porque Deus não fala com ninguém. O outro que o acompanha já é um homem da renascença, ele tem suas respostas e todas são negações: Deus não existe, o Diabo não existe e os homens não são livres.
Os dois andam e encontram um casal de atores. Eles criam um filho e são muito simples em sua arte mambembe. O ator tem visões e numa bela cena ( que remete a Morangos Silvestres ) ele vê a Virgem Maria com um bebê. O cavaleiro se faz amigo dos dois enquanto um terceiro ator se envolve com mulher casada. Há uma bela cena em que o casal se apresenta cantando e são interrompidos por uma procissão religiosa. Bergman mostra a oposição entre a leveza criativa vital da arte e o peso mortal e tétrico da igreja. Mas ele não é um criador simplório e voce deve sempre duvidar do que Bergaman parece dizer. Pois a pergunta que essa cena traz ( e todo o filme ) é: Onde está a verdade? Se o masoquismo da procissão é ato de histerismo e cegueira, na arte há também algo de ilusório e falso. Ou não?
Uma das mais belas cenas é de uma jovem bruxa sendo queimada ( que remete a Carl Dreyer ). O cavaleiro quer saber se ela, naquele momento final, consegue ver o demônio. Aturdido, ele percebe que os olhos dela nada vêem, apenas o medo e o horror ( ou não? ).
Como todo gênio, Bergman não responde, pergunta. Tudo o que ele sabe é que viver dói. E que existem momentos de alivio que compensam a dor. O casal de atores sobrevive. Mas o outro ator, que fugiu com a mulher casada, em cena de humor cruel ( o filme tem humor quase todo o tempo, humor medieval ) tem sua árvore derrubada pela morte. Morte que trabalha sem cessar.
A cena final é uma das mais conhecidas, os mortos dançando atrás do ceifador. Mas não é esta a cena derradeira, há ainda uma breve tomada do casal partindo. Mais vida e arte irá nascer. Para então morrer.
Porque Bergman, mesmo falando de morte, me faz feliz? Fácil responder: minha alma vibra ao presenciar talento verdadeiro. Por mais triste que seja o tema, eu me alegro ao ver como um homem de gênio lida com essa dor. Nada de falso, nada de artifício, nenhuma apelação. Filmes simples e que jamais se esgotam. O Sétimo Selo seria tema para infindáveis conversas. Penso no jovem Woody Allen vendo esse filme em NY-1956 e pirando para sempre. Vejo-o hoje, em 2011, Brasil, e mais uma vez sinto uma coceira mental, uma vontade de pensar e de perguntar.
Ingmar Bergman é um gênio, seu talento está além do cinema.

LUIZ FELIPE PONDÉ E EU, MEDIEVAIS OU BARROCOS? ROMÂNTICOS?

Que Pondé é um meu irmão espiritual todos que me lêem sabem. E neste texto de 4 de julho ele só confirma isso. Do cacete!
É hilária a forma como ele chama os "meninos" ( meninos são seres anódinos, felizinhos e fofos, que adoram tudo o que é moderninho e ousadinho ), de "inteligentinhos". Inteligentinhos, devo dizer, é melhor que meninos. Mas, como não sou plagiador, continuarei a chamar esses fãs de festivais de cinema e de festinhas louquinhas de meninos. Afinal, assim como os inteligentinhos, os meninos pensam estar livres da Idade Média. Passam pela vida dormindo em caminhas de seda azul.
Não sei se sou medieval ( para quem não leu, o tema de Pondé é Bernanos, o pecado e a era medieval. Pondé, como eu e Jung, sabe que a idade média é para sempre. Que quanto mais voce a nega e renega, mais ela fica louca e forte em seu sub sub sub ).
E que frases de Pondé!!!!!
A salvação dos meninos é como a salvação da Bela Adormecida.
O pecado é nossa substância.
Dois minutos na companhia de um inteligentinho é morrer de tédio.
A liberdade é um tormento.
O pecado é uma paixão pela aniquilação do ser.
ESSES BONS MOÇOS NADA ENTENDEM DA VIDA, E POR ISSO TIRAM DE NÓS NOSSA ÚNICA DIGNIDADE: A LUTA INTERIOR CONTRA NÓS MESMOS.
Sou um medieval graças a Deus. Não acredito no homem e muito menos em mim mesmo.
Eu sei que sou feito do mal, e voce, inteligentinho, se acha do bem, eis sua miséria. Voce é uma folha de alface, eu sou um réptil.
Todas essas frases estão no texto de Pondé. Mas ele fica ainda mais terrível ao dizer que são os pecados que fazem com que nos conhecemos. Penso eu mais que isso: são eles que nos fazem homens.
A avareza, com seu culto ao dinheiro e ao corpo perfeito ( que Bernanos chama de câncer da alma ); a luxúria e seu culto ao gozo, luxúria que nos faz mudos; ambição que traz a cegueira e a inveja que ao desejar tudo dos outros destrói tudo o que temos. Pecados que são de todos e que os inteligentinhos, belas adormecidas, pensam não ter. Eles pensam que pecado é invenção cristã, culpa inculcada para dominar os outros... tolos meninos, quem já leu textos pré-cristãos sabe que toda civilização tem pecado e castigo.
O que me surpreende é saber que existe gente que nega o pecado. Absurdo sofista, relativismo vazio, síndrome de avestruz! Então não existe pecado? Somos todos seres puramente biológicos sem conceito de moral que vivem numa boa? Ao contrário do que o muito perdido Nietzsche percebia ( queria perceber ), a força não está na amoralidade, a força heróica está na consciência da falha, do pecado e da falta. Ser um bicho nada tem de heróico. E Nietzsche queria apenas isso: absolvição para seus pecados negando o pecado e o castigo. Coisa de menino inteligentinho.
Mas Pondé a horas tantas diz ser niilista. Descrê em tudo, inclusive nele mesmo. Seria então ainda um medieval? Ou esse conflito não faria dele um barroco, época de dúvida e da união de opostos inconciliáveis? O medieval tem certeza em seu pecado, mas crê na igreja e em seu rei. Não seria então Pondé um barroco, com suas dúvidas e medos? Romântico, talvez seja essa a resposta. Um ser solitário e revoltado, uma pedra no caminho dos meninos.
O que me importa é o bem e o mal, a dor e a dádiva, a alma e a carne.
Amor sem preço? Prazer sem dor? Vitória sem dilaceramento? Isso existe?
Sirvo a reis e procuro pelo deus que não conheço ( e duvido ). Creio em palavras medievais como missão, paixão, maldição, azar, benção e abnegação. Se elas, assim como o pecado, são invenções culturais, pouco muda, somos seres de cultura.
Pecadores entre névoas de maldição, almas sombrias divididas entre medo e desejo, heróis lidando com egos ditatoriais, e um Deus, quer exista quer não, regendo as idéias que nos atormentam.
PS: no RODA VIVA de ontem ( dia 4 de julho ) um escritor angolano, jovem, amigo de Mia Couto, cujo nome me fugiu. Em dado momento ele fala do mistério da escrita, da inspiração como posse, mistério..... um entrevistador sorriu e balançou a cabeça. Eis a imagem do inteligentinho ( estéril e beladormecida ), e o artista xamânico/medieval, seu oposto.
Eis tudo.

AMAR OU SER AMADO

Um amigo me pergunta se é melhor amar ou ser amado. Digo, de primeira, que é melhor amar. Pois não tem valor algum ser amado por quem não se ama. Se ser amado por quem não se ama fosse felicidade nenhum casal se separaria. Mas... será?
Quando amamos, quando conseguimos amar, tudo ao nosso redor se faz amoroso. Passamos a sentir afeto e carinho pela vida. Mas e se esse nosso amor for repelido? Amar sem ser amado....
Tenho então duas coisas a dizer.
Primeiro: Falo de Amor e não de casamento. Sentir que se ama não significa realizar esse amor. Me parece que as pessoas confundem muito isso. Muitas não conseguem sentir Amor. Sentem desejo, carência, medo e solidão. Falo do dom de se sentir o calor do amor, o querer bem, o torcer pela amada, a constância do afeto. Amor nobre, que acaba se expandindo para amigos, bichos, ambiente. Amor que faz com que quem o sente torne-se caloroso, expansivo, sorridente, bonito, em resumo: Amável. E reafirmo então, mesmo que esse amor não se faça carne, é dele que guardamos nossas mais ricas lembranças. Mais, é o que faz a vida valer a pena.
Segundo: Tragédia do homem: para ser amado é preciso ser amável e para ser amável é preciso amar. Converse com alguém que está amando. Faça-o falar desse amor. Repare em como voce sente estar diante de alguém realmente vivo e em como voce deseja estar perto dessa vida calorosa. E não é preciso ser o Amor do tipo cupido. Ouvir alguém falar com amor, com entusiasmo, de seu hobby, de seu trabalho, de sua cidade favorita, de qualquer coisa que ele ame, faz com que essa expansão aconteça diante de nossos olhos. A pessoa começa a brilhar e seu rosto fica expressivo. As mãos se movem em vida, o peito se enche de ar, a voz se afirma. O amor pela vida nasce e voce quer estar ao lado daquele que Ama.
Mas há o ser que foge do amor. O Vampiro que nega a luz e o calor e pensa no amor como tola ilusão, armadilha, futilidade diante da morte. Não percebe que ele ama a morte e amar a morte é também amor. Amor pra dentro, rancoroso, travado, secreto e doído. Para esse tipo de ser, ter alguém que o ame é indiferente. Normalmente ele sabe ser amado, mas pouco importa, ele não quer, esqueceu de amar.
Ser amado é uma dádiva maravilhosa. Mas saber, querer, ousar amar, isso é estar vivo.

JOHN DONNE E O DIABO DA TASMÂNIA

Concordo com John Donne. Mais que isso, sinto na carne e no osso aquilo que ele diz. Cada ser que morre na Terra é parte de mim que morre junto. Falo ainda, há uma agoniante sensação de pobreza e de fracasso quando sabemos que um componente do teatro terrestre pode estar se indo. Para sempre.
Vida interior é alma. Vidas externas que se refletem dentro de mim mesmo. Elas dançam e repercutem em meu interior e se fazem componente desse eu. Quando um desses eus deixa de existir é meu eu que morre. Um pouco, e muito.
O encanto do filme de Woody Allen é o de se ver um homem que por amar outros seres fora de si-mesmo, ama a vida e amando a vida ama Paris e o mundo. Disso bem entendo, pois sei, muito, o que é amar Londres por Thackeray ou Ferry, Paris por Proust e Gauguin e o sul dos EUA pelo jazz e pelo blues.
Só que mais forte é amar a Serra do Mar por seus micos e seu verde sombrio, é amar a Austrália pelos dingos e pelos cangurús. E se os tigres estão por um fio, se o mar deixará de ter golfinhos, é evidente que a vida, nossa vida, será de um vazio abissal. O homem que ama Tokyo porque Tokyo tem aparelhinhos e luzes não percebe que ele ama coisas mortas. E hoje se ama Nova Iorque e Amsterdam por coisas sem vida. Não por Cole Porter ou Rembrandt.
O Diabo da Tasmania está se indo. Um fungo que se torna cancer facial destrói a espécie. Inteira. Quando ele estiver vivo apenas em memória de tolos como eu, saiba, e tenha a certeza, de que a Vida neste planeta estará ainda mais pobre e mais futil. Porque voce e eu somos ele também.
John Donne sabia.

DONEN/ CARY GRANT/ BURT LANCASTER/ AL PACINO/ POWELL/ CAPRA

ARABESQUE de Stanley Donen com Gregory Peck e Sophia Loren
No inicio dos anos 60 foi moda fazer filmes do tipo "mistério-policial-chic". Donen fez em 63 o melhor deles: Charada. Aqui ele tenta fazer um filme tão bom quanto aquele. Infelizmente não consegue ( Pudera! ninguém mais conseguiu fazer outro Charada.) Mas este Arabesque não é ruim. Diverte e é bonito de se ver. Sophia nunca esteve tão perfeita e Peck é sempre ok ( Embora não sirva pra comédia. Suas cenas de humor naufragam ). Stanley Donen é o soberbo diretor que ajudou Gene Kelly a fazer Cantando na Chuva e que depois provou sua maestria com Sete Noivas para Sete Irmãos. Donen sabia dar a seus filmes um toque sublime de leveza, brilho, chique, humor e muita inteligencia. Em 1994 foi homenageado no Oscar e sua dança com seu prêmio é dos melhores momentos da academia. Nota 6.
NIGHTFALL de Jacques Tourneur com Aldo Ray, Brian Keith e Anne Bancroft
Ótimo policial noir. Tourneur foi um daqueles caras que sabia fazer qualquer tipo de filme. O que ele dava a todos os seus trabalhos era senso de ação, clima, e boas interpetações. Este filme tem tudo isso, e mais um enorme fatalismo pessimista. Tudo dá errado para seus personagens vulgares. Uma excelente diversão. Nota 8.
O LADRÃO DE BAGDÁ de Michael Powell com Sabu, June Duprez
Em que pese a maravilha de foto ( Georges Perinal ), o filme é muito irregular. Na verdade Powell dirigiu apenas um quarto do filme. Korda e Whelan dirigiram o resto. Isso lhe dá uma alternancia de ritmos, climas que não evoluem. Mas funciona como fantasia solta e tem seus momentos. Mas não espere demais. Nota 5.
ESTE MUNDO É UM HOSPICIO de Frank Capra com Cary Grant, Peter Lorre, Raymond Massey
Um filme que é todo falho. É a versão nas telas de peça de imenso sucesso. Fala de duas velhinhas que aliviam a vida de velhos solitários: elas matam esses infelizes. Mas a comédia não funciona. O motivo? Todos os personagens são irritantemente histéricos. Mesmo o maravilhoso Cary Grant está fora do tom. Dá para se perceber seu desconforto. Nota 4.
O HOMEM DE ALCATRAZ de John Frankenheimer com Burt Lancaster e Telly Savallas
Baseado em fatos reais. Um homem anti-social, ruim, é preso. Ele odeia as pessoas e idolatra sua mãe ( uma assustadora/edipiana Thelma Ritter ). Na prisão, um diretor passa a persegui-lo ( um odiável Karl Malden ), porque ele não se encaixa em seu plano de prisões ultra-racionais. Por acidente, esse preso cria um canário na cela, e passa, com o tempo, a ser uma das maiores autoridades do mundo em ornitologia. Sem jamais sair da prisão. O filme é muito dificil. Todo filmado dentro das celas, sem sol, sem alegria, nada apelativo. Lancaster está contido, seco, bastante viril e o resto do elenco está a sua altura. Frankenheimer, um dos grandes da época, sabe filmar esse tipo de tema. A câmera testemunha, não julga, mostra e jamais escancara. Não é fácil acompanhar vida tão árdua, mas caraca! Vale muito a pena. Nota 7.
O IMPÉRIO DAS ARANHAS de John Bud Cardos com William Shatner É um thrash fuleiro sobre aranhas que matam e aprontam. É versão pobre de Os Pássaros. Voce se senta e se deixa ver, e de repente se pega gostando. Nota 5.
ANNA CHRISTIE de Clarence Brown com Greta Garbo
Peça de Eugene O'Neill, ou seja, pessimismo ao extremo. Garbo prova mais uma vez ser grande atriz. Faz um papel sem nenhum glamour. Mas o filme, feito no inico do cinema falado tem um enorme problema: seu peso. No começo do falado, os aparelhos de gravação de som eram imensos, isso fazia com que câmera e atores não pudessem se mover. O que temos são longas cenas sem movimento ( isso seria resolvido no ano seguinte ). Chato pacas! Nota Zero.
JUSTIÇA PARA TODOS de Norman Jewison com Al Pacino, Jack Warden e Christine Lahti
No tempo em que o cinema americano era adulto, se fez este filme. É sobre um advogado que tem de defender de processo por estupro, o juiz que ele mais detesta. O roteiro de Barry Levinson mistura drama pesado e comédia louca, funciona e muito. Jewison, diretor engajado, mostra a vida de travestis, pequenos ladrões, julgamentos falhos e escritórios cheios de processos infindáveis. Pacino vai enlouquecendo e sua atuação é das melhores coisas que ele já fez. A explosão que ele sofre no final é das cenas mais citadas pelos jovens atores. Mas há mais: o filme é maravilhosamente rico. Um juiz que tenta se enforcar, um outro fascista, um advogado que enlouquece, um travesti sensível, todos são meio loucos neste filme que parece faiscar em mil direções, mas que jamais se perde. Posso dizer que se voce é daqueles meninos que ainda não descobriram o cinema adulto dos 70, que ainda pensa que Rede Social e Cisne Negro são o máximo...bem, veja este filme e depois a gente conversa. Há aqui uma complexidade fílmica não afetada maravilhosa. E há Pacino. Nota 9.
NESTE MUNDO E NO OUTRO de Michael Powell com David Niven e Kim Hunter
Uma obra-prima. Fantasia pura e poesia soberba em filme que trata de espíritos e anjos sem jamais ser fofo ou lacrimoso. Sério e socialmente nobre, Powell era um gênio. Este filme, diferente de tudo o que voce já viu, é testemunho de alma sem igual. Ver e crer. Nota DEZ!!!!!!
PARALELO 49 de Michael Powell com Laurence Olivier, Raymond Massey e Leslie Howard
Um grupo de nazis, perdidos no Canadá, tentam escapar. Coragem de Powell, o filme, feito durante a segunda guerra, tem nazis como personagens centrais e mostra os alemães como não-vilões. O filme, claro, ataca o nazismo, mas exibe o fato de que os alemães não são todos ruins e mais, que há soldados alemães inocentes. Fora isso, é uma aventura de primeira com deslumbrantes paisagens canadenses. Mais um show de Powell. Nota 7.

FIAM: UM LUGARZINHO MUUUUUITO ESTRANHO...

Ficava em meio a uma zona residencial. Na época, bastante deserta. Choveu muito naquele ano, e estranhamente, só me recordo de dias frios. O prédio era um antigo depósito de um supermercado, e lá dentro nos sentíamos como um tipo de produto perecível. Corredores inclinados, de concreto, labirintos.
Fernando Davino usava gola rulê, blusa justa cor de rosa e devia ter por volta de 102 anos. Muito magro, dava suas aulas de pé, no centro da sala. Amava suas teorias. Ana Teresa deu uma aula de redação em que o tema era O Bolero de Ravel. E ainda havia uma professora de psicologia com óculos fundo de garrafa. Estarão vivos? Aqui eles estão.
Era uma época snob. Tudo parecia aspirar a Londres e New York. E Londres/New York eram Londres e New York. Mas também era o tempo da explosão das marcas de surf no Brasil. Town and Country, OP, Redley, Natura... Então a classe era dividida entre surfistas ( toneladas ), o povo dos jardins e alguns aliens ( eu entre eles ). Nos anos 80 as tribos não se misturavam. Eu tinha de rebolar para andar entre todas elas. Acabava não sendo de nenhuma.
Meninas de cabelo punk e garotos de roupa preta e coturno. Esses eram os veteranos. Ao meu lado se sentou um cara de bigode que espirrou e se encheu de muco ao dizer "Presente!" Aquela foi a última era dos bigodes. Ele virou um brou e estava sempre chapado. Pasmem!!!! Era permitido fumar marijuana dentro da faculdade! Meia sala assistia às aulas chapada. A professora falava "Quietos!" E todos riam sem parar. O líder dos malucos era um cara com rosto do mal. Penso hoje: O que a gente estava fazendo lá? Eu sei o que eu fazia: Me apaixonava. Toda semana....ser garoto não é fácil.....
Festas em lugares com nomes engraçados: Radar Tantam, Pool, Victoria Pub, Rose Bom Bom, Madame Satã. Meu niver foi no Satã. Um desastre! Ninguém se sentiu bem num lugar sujo e sinistro, onde gente vomitava na sua cara e uma moça cuspia repolho em voce. Além de um porão úmido com cheiro de suór e punks querendo surrar quem não fosse punk. Mas as músicas eram ok. Eletro da época, teclados Casio.
Como seriam as amizades se na época existisse o msn? Não usaríamos o telefone e com certeza sentiríamos menos vontade de se ver. Porque a gente se via muito, e quando eu gostava de alguém, eu adorava esse alguém ( mesmo que durasse um nada ).
Snobs... eu pensava ser o novo Heminguay! E tinha amigos que queriam ser um Picasso, um Dior ou um Kerouac... Um dizia sonhar em beber champagne no alto do Empire State e se jogar de lá então.... outra queria comprar um título inglês e se tornar Lady qualquer coisa. Zoomp, Yes Brasil, Soft Machine e Elle et Lui. Um certo clima de deprê fake, deprê bonita, chic.
Amigos...eu não fui um bom amigo. Naquele ano eu estava doido, totalmente doido. Na verdade tinha um distúrbio que depois virou moda ( sempre na vanguarda, Tony Roxy ), síndrome do pânico, amada e odiada síndrome.... Mas eu ia vivendo, aos trancos e barrancos!
Fizemos uma peça de teatro para marcar o fim desse glorioso ano. Uma peça sem texto definido, sem nenhum ensaio e sem palco! Mas fizemos! E nela eu recordo de um Sheriff judeu ( Mel Brooks !!!! ), de índios de sunga cantando Martinho da Vila, de um bandido de preto e botas de bico fino ( eu ) e de uma cena de dança ( eu sempre desejei ser Bob Fosse ). Uma menina elegante tirando fotos, uma outra rindo, um ator de smoking e um frio cruel naquele auditório escondido.
De onde veio tanta coragem? Foi o ridiculo sublime! Grotescamente ousado! Ego- trip sem culpa.
Depois esse elenco se foi, o tempo os levou rumo a erros e, espero, muitos acertos. Outros anos vieram, outras peças menos carnavalescas e outras salas mais quentes e mais homogêneas. Mas aquele foi o ano zero da minha adultês. E daquele primeiro dia, com o cara de bigode e uma súbita paixão pela menina de roxo, até o último dia, com o cara de branco e a paixão pela menina de cabelo liso, ficou um rastro de riquesa e de risos que esse mesmo tempo não apagou, antes, valorizou.
Quem estava lá sabe... mauricio, romeu, giba, baker, ricardo n, fachinni, nelson, roberto, renata, moara, flavia, roberta, patricia, monica, andrea, paula.......

NESTE MUNDO E NO OUTRO- MICHAEL POWELL ( DIRETOR CULTUADO POR DE PALMA, SCORSESE E COPPOLLA...E POR MIM. )

Um dos maiores prazeres de um cinéfilo é ver os filmes de Michael Powell. Com Hitchcock é ele o melhor diretor que a Inglaterra já teve ( David Lean e Carol Reed vêm atrás ). O que mais impressiona em Powell é seu arrojo. Todos os seus filmes são originais, diferentes, arriscados. Ele nunca é hermético, nada tem de intelectual, mas Powell corre riscos, chega perto do grotesco, tange o mal gosto, e sempre vence. É um gênio. Dos cinco maiores que o cinema já possuiu.
Do que trata este filme? De guerra, amor, morte, responsabilidade, das relações entre EUA e Inglaterra, de heroísmo e de ilusão. Ele começa com imagens do espaço sideral ( a foto, deslumbrante, é de outro gênio: Jack Cardiff ), e chega a Terra e então a Inglaterra, em meio a segunda guerra. Um avião está caindo e seu piloto se despede da vida. Mas há um erro e o além se esquece de levar sua alma para o céu. Em cena belíssima, ele acorda na praia e pensa estar morto. Mas não, sobreviveu a sua queda. Na sequencia ele se apaixona por americana, tem seu cérebro operado e recebe visitas de enviado do além que faz o tempo parar. Parece comédia? Pois não é. Parece melodrama? Nunca é. Filme pra chorar? Jamais. Não tem uma única cena feita para as lágrimas. O que é então? Poesia. O cinema de Powell é sempre profundamente poético, não no sentido de "belo" ou de "emocionante", mas sim no sentido de simbólico/sublime/imenso.
Perto do final há um julgamento no céu. Serve para vermos se ele deverá morrer ou permanecer vivo. E o que assistimos é a um surpreendente julgamento da nação inglesa. Irlandeses, Sul-africanos, americanos e russos julgam esse inglês e julgam seu país. É um momento breve, e tremendamente arriscado.
Várias vezes durante o filme me peguei sentindo o mesmo tipo de coisa que sinto ao ver os melhores desenhos feitos hoje. Por que? Porque Powell não teme nunca parecer ingênuo, tolo, infantil. Como ocorre com esses desenhos, ele não tem compromisso algum com o mundo adulto, com parecer adulto, ser artístico ou engajado. Powell filma aquilo que deseja, aquilo que quer dizer e jamais faz concessões ao que seria elevado ou comercial. O fácil não existe para ele.
Quem assistir este filme esperando uma bela história de amor ou um filme sobre almas do além estará comprando gato por lebre. O filme não se parece com nada que voce viu antes. E mais surpreendente: é deliciosamente popular.
Enumerar as Obras-Primas deste diretor é enumerar mais de dez filmes. O que posso dizer é que em 1960 ele destruiu sua carreira ao fazer o filme mais neurótico que já vi: Peeping Tom, filme sobre voyeur assassino que estava vinte anos além de seu tempo. Mas ele ainda conseguiu fazer em 1968 um de meus filmes favoritos: A Idade da Reflexão, possivelmente o filme mais feliz que já vi. Esquecido por toda a década de 60/70, Powell viveu para se ver reabilitado em 1980, graças as homenagens dos diretores citados acima. Casou-se então com a montadora dos filmes de Scorsese e foi premiado em Veneza. Morreu em 1988, aos 82 anos. Feliz.
Para quem dirigiu filmes como: OS CONTOS DE HOFFMAN, CORONEL BLIMP, OS SAPATINHOS VERMELHOS, NARCISO NEGRO e tantos mais, sua vida foi retrato fiel do mundo que retratou.
Michael Powell foi um poeta no cinema. Ele não narrava histórias. Fazia poesia. Como ele, ninguém mais.