A ciência nos deu a cura de algumas doenças e remédios pra deprê. Carros e aviões. Mas não nos deu uma forma de lidar com casamentos, amizades, pais e enterros. E é nessa hora, a hora da verdade, que a gente percebe que fomos roubados.
Isabel era minha prima. Mesma idade, a gente cresceu brincando. Ela falava baixo, era vaidosa, boa gente, cheia de amigos. Adorava os pais.
Sexta de noite, voltando do teatro, Isabel levou um tiro no peito. Metade do corpo se esparramou pelo carro. Os assassinos, de moto, se foram... Isabel deixou dois pais. E um lugar vazio.
O corpo, recomposto e maquiado, foi enterrado. E o que é um enterro? Um monte de gente triste, sem saber o que fazer, o que sentir, o que falar. O corpo baixa à terra em meio aos coveiros, e todos ficam aturdidos como bichos que nada entendem. E eu, que em nada creio, penso, cheio de ódio, naquilo que a tal modernidade nos tirou. Roubou de nossa vida o velório em igreja, o padre consolador, o ritual do enterro. Qualquer tribo primitiva sabe como lidar com isso, nós, modernos, não. Assim como não sabemos lidar com nada que realmente importa. Tudo é varrido para debaixo do tapete, para o inconsciente. Afinal, o que nos pedem é seguir em frente, sempre. ( O melhor é continuar a trabalhar!!!! )
Onde a transcendencia? Onde o luto profundo e reparador? Onde a dor da tragédia e a catarse? Tudo o que nos oferecem são flores e trabalho, a vida que segue, um antideprê e uma terapiazinha... e todo o significado da morte e da vida passa a ser não entendido. Nos tornamos menos que bichos, somos um conjunto de células, nosso sentimento e nossa dor é quimica, nada mais que quimica. Óxidos e nitratos que pensam.
É tudo uma merda, uma imensa merda. Sabemos tudo e nada sabemos na hora em que o negócio fica sério. Os pais, desamparados, pessoas da época romântica jogados na era do trabalho, ficam lá, ao lado da cova, agradecendo a quem compareceu ( muitos ) e em desamparo completo. Onde o chefe da taba? Onde o xamã? Onde o consolo que consola? Nada, absolutamente nada. Tudo trancafiado no inconsciente, afinal, toda essa vida religiosa/simbólica apenas atrapalha a caminhada rumo ao futuro/trabalho.
Eu sinto ódio. Muito ódio. A velha Bíblia estava certa, olho por olho. Não me venham com "vejamos", "por outro lado", "a sociedade"; morte se paga com morte, os dois covardes devem pagar, ser enforcados na minha frente, assados em fogo brando. Eles devem pedir perdão de joelhos e serem executados com risos e festa. Te deixo chocado? Falo aquilo que voce não tem coragem de dizer. Aquilo que foi trancafiado no seu cérebro, lá no escuro, junto com sonhos de familia feliz, desejos de liberdade e fé na vida. Os dois foram ruins, e creia, a maldade é incurável e imperdoável. O relativismo da ciência nos roubou também essa certeza.
Uma menina senta-se ao meu lado no velório. Vestido longo, cabelo com tiara, voz fininha. Talvez 7 anos. Ela é exatamente como Isabel foi um dia. Ela precisa ser protegida. Ela precisa ter um final mais digno. Ela é o único sentido que nos resta. A continuação da história.
Minha mãe pega meu braço. O pai de Isabel não quer sair do lado da filha. O céu está azul. Um pássaro passa voando. Algumas pessoas estão no túmulo de Senna.
Se Deus não existe e nunca existiu, eu o invento. Se os anjos fugiram da Terra com desgosto, eu falarei com eles. Se a alma é apenas o sonho de alguém que pensa demais, eu pensarei muito. O vale da morte, a dor de um pai, a saudade de um amigo... apenas isso importa.
VIDA- KEITH RICHARDS, COMENTÁRIO CONTRADITÓRIO
Os Stones fizeram em 1964 um contrato com a Decca muito melhor do que aquele dos Beatles com a EMI. Se tornaram a banda mais rica do mundo e a mais paparicada pelos milionários. Ao mesmo tempo posavam de reis dos revolucionários e dos insatisfeitos do mundo, papel que ficaria muito melhor em qualquer cantor de blues da Geórgia.
A história dos Stones é sempre uma história de muita sorte ( e é isso que irrita aqueles que insistem em crer que arte é sofrimento ). Lendo o livro de Keith, o que vemos é uma vida onde tudo sempre dá certo. Ele não morreu jovem, logo ficou rico, sobreviveu aos punks e aos grunges e tem uma imensa e saudável familia. Chega a dar raiva!
Keith é injusto várias vezes. Resmunga sobre Jagger. Diz que em 1983 Mick tentou tomar os Stones para si, e que em 1985 Jagger cometeu a deslealdade de se lançar em carreira solo. Ora Keith! Voce ficou oito anos como um peso junkie nas costas de Jagger! Quem já conviveu com um viciado sabe o quanto eles são chatos! Jagger levou a banda sózinho entre 73/81. E cá entre nós, sem Mick Jagger nos vocais, voces seriam no máximo um The Who.
Isso é chato no livro. Keith tem um ego do tamanho do de Jagger, mas ele posa de doidão-blueseiro, o rei da honestidade. Será? Se o Mick de 1961 morreu nos Rolls Royce e nas noites de Cannes e Monte Carlo, o Keith timido e humilde de 1962 se foi nas carreiras de pó e nas agulhas de heroína ( e dá uma sensação ruim vê-lo defender o bom consumo de drogas ).
Mas ninguém é perfeito. Mesmo cheirando carreiras nos palcos entre uma música e outra, mesmo tendo feito dois dos piores discos da história ( Dirty Work e Steel Wheels ), mesmo tendo feito aquele show lastimável em Copacabana, quem sabe o que é rocknroll sempre vai entender o porque de sua importância. Eles são espertos, maus, soberbos, egocêntricos, auto-centrados e nada sofridos. E por isso são vencedores, o tipo de cínicos sexies, coisa que os Beatles ou o U2 nunca puderam ser ( estavam ocupados em ser os tais "artistas relevantes" ). Os Stones sempre souberam que rock é irrelevante, que depois de Chuck, Elvis e Little Richard todo o resto foi diluição.
Foda-se! Eu tinha de defender Mick Jagger ( que tem a elegância de se manter calado ). Dizer, que ruim Keith!, que Mick tem o pau pequeno é muuuita sacanagem!
Mas fazer o que? Keith é a própria imagem da coisa, gostar dele é o teste para se saber se voce está por dentro do que seja rocknroll ou se voce está irremediávelmente por fora. Se a sua turma é do carrão/garotinhas/riffs de foder ou quarto/lágrimas/melodias tristonhas.
A gente pode dizer que o cara tem muita, muita sorte...
A história dos Stones é sempre uma história de muita sorte ( e é isso que irrita aqueles que insistem em crer que arte é sofrimento ). Lendo o livro de Keith, o que vemos é uma vida onde tudo sempre dá certo. Ele não morreu jovem, logo ficou rico, sobreviveu aos punks e aos grunges e tem uma imensa e saudável familia. Chega a dar raiva!
Keith é injusto várias vezes. Resmunga sobre Jagger. Diz que em 1983 Mick tentou tomar os Stones para si, e que em 1985 Jagger cometeu a deslealdade de se lançar em carreira solo. Ora Keith! Voce ficou oito anos como um peso junkie nas costas de Jagger! Quem já conviveu com um viciado sabe o quanto eles são chatos! Jagger levou a banda sózinho entre 73/81. E cá entre nós, sem Mick Jagger nos vocais, voces seriam no máximo um The Who.
Isso é chato no livro. Keith tem um ego do tamanho do de Jagger, mas ele posa de doidão-blueseiro, o rei da honestidade. Será? Se o Mick de 1961 morreu nos Rolls Royce e nas noites de Cannes e Monte Carlo, o Keith timido e humilde de 1962 se foi nas carreiras de pó e nas agulhas de heroína ( e dá uma sensação ruim vê-lo defender o bom consumo de drogas ).
Mas ninguém é perfeito. Mesmo cheirando carreiras nos palcos entre uma música e outra, mesmo tendo feito dois dos piores discos da história ( Dirty Work e Steel Wheels ), mesmo tendo feito aquele show lastimável em Copacabana, quem sabe o que é rocknroll sempre vai entender o porque de sua importância. Eles são espertos, maus, soberbos, egocêntricos, auto-centrados e nada sofridos. E por isso são vencedores, o tipo de cínicos sexies, coisa que os Beatles ou o U2 nunca puderam ser ( estavam ocupados em ser os tais "artistas relevantes" ). Os Stones sempre souberam que rock é irrelevante, que depois de Chuck, Elvis e Little Richard todo o resto foi diluição.
Foda-se! Eu tinha de defender Mick Jagger ( que tem a elegância de se manter calado ). Dizer, que ruim Keith!, que Mick tem o pau pequeno é muuuita sacanagem!
Mas fazer o que? Keith é a própria imagem da coisa, gostar dele é o teste para se saber se voce está por dentro do que seja rocknroll ou se voce está irremediávelmente por fora. Se a sua turma é do carrão/garotinhas/riffs de foder ou quarto/lágrimas/melodias tristonhas.
A gente pode dizer que o cara tem muita, muita sorte...
VIDA, UM LIVRO ( ENERGÉTICO, LIBERTÁRIO, VITAL ) DE KEITH RICHARDS
O maior elogio que se pode fazer a Keith Richards é chamá-lo de negro. O objetivo dos Stones sempre foi esse: ser uma banda de black music, de preferência como as de Muddy Waters ou John Lee Hooker. Em 1965, nos EUA, músicos da Stax lhe disseram pensar que Satisfaction fosse alguma canção americana. Era dificil para aqueles negros crer que aquela música fosse feita por branquelos da terra dos Beatles. Esse foi o maior elogio que KR poderia receber.
Ele sempre foi do blues. Assim como Charlie Watts foi do jazz e Jagger do soul. E mesmo quando ele foi country ou disco, era um tipo de country-blues e disco-blue. Quando em 1973 Keith foi morar na Jamaica, os batedores de tambor das favelas jamaicanas logo o chamaram de negro. Um garoto feio de Dartford-England, nascido em meio ao ruido das bombas nazi, ter conseguido ser um preto do Tennessee e um rasta da Jamaica... bem, é um milagre.
Keith não faz drama com nada. Sua lição é: foda-se! Da infancia rebelde, filho único de mãe alegre que traía o pai com o vizinho mais jovem, aos momentos ( vários ) de quase-morte, nada vira drama, nada é lamentado. Ele é muito forte. Keith Richards é um cowboy, um pirata, e porque não, um herói.
O livro é cheio de momentos curiosos, de coisas que mesmo os fãs não sabiam, e melhor, nada é muito fantástico. Ele não aumenta, não mitifica, escolhe ser simpático, mas nunca hollywoodiano. Ficamos sabendo que Bobby Keys é seu melhor amigo, que Charlie Watts é um dandy que só gosta de jazz. Me chóco ao saber o quanto KR chama Brian Jones de escroto, um cara que se achava o máximo, um músico que deixou de tocar e que se afundava em auto-piedade. Keith conta a noite em que Marlon Brando tentou ir pra cama com ele e Anita ( sua esposa ), e melhor, descreve o clima de Londres em 65/67: Londres com seus pintores Pop, os herdeiros de sangue azul se entupindo de LSD, a descoberta de que tudo era permitido, os escritores, os cineastas, as groupies. Mick Jagger como um atlético conquistador, KR como um cara que precisava de carinho, dormir junto, ter alguma história.
As drogas. Ele passa tempos enormes vivendo por e para elas. Na década de 60 drogas eram coisa desconhecida. Eram usadas como descoberta, afronta, porta para fora da sociedade. Nos anos 70 elas se tornam moda, são usadas como documento para ser "in", e nos 80 são remédios para fazer tudo funcionar. Hoje são coisas para divertir, produto para criar uma sensação rápida e passageira.
Keith nunca demonstra o menor arrependimento. Ele usava drogas porque lhe davam prazer. É só isso, nada mais, e ele deixa isso bem claro. Tomava uma droga para acordar, uma outra pós-café para ficar ligado, droga de trabalho, droga para se acalmar, droga para pensar melhor e droga para ficar 3 dias de pé. Ele diz sentir saudades das drogas antigas, que não são mais fabricadas. Conta que o segredo para ter sobrevivido é nunca ter tomado nada de segunda, sua cocaína era Merck, direto do laboratório, tão pura que flutuava no ar; sua heroína era papoula 100% tailandesa, barbitúricos de farmácias de confiança e por aí vai... não há nada de sofrido, nada de culpa, nada de "agora vi a luz"; e também nada de "veja como sou louco". As loucuras que ele conta são nada glamurosas, e nenhuma é sexual.
Pesada é apenas a história de Anita, a maravilhosa Anita, modelo alemã, ex-Brian Jones ( tem uma história muito boa dela e de Keith fugindo de Brian no Marrocos ), mais doida que KR e que tinha conexões com Andy Warhol, Fellini e Roger Vadim. Nos anos 70 ela entra na paranóia pura e o casamento naufraga. KR é salvo por Patti Hansen, uma saudável modelo americana, sua esposa até hoje. È bonito perceber então, já lá no fim do livro, que Keith nunca mudou. O guitarrista espinhudo do Ed Sullivan Show é o mesmo cara do Piratas do Caribe. Como eu, Keith nada joga fora. Se ele descobre rap, reggae, disco, funk, o que for, ele os adiciona ao que já conhecia; ao contrário de Jagger, que para se reciclar precisa jogar fora o passado, KR preserva e revaloriza sempre tudo o que foi. Ele soma, nunca substitue.
Gram Parsons é o cara a quem ele tece os maiores elogios. É ótimo ler o que ele fala sobre amizade. Assim como é legal ver o que ele diz sobre John Lennon, um cara que aparecia sempre em seu apartamento, que tentava seguir seu ritmo de drogas, mas que sempre terminava a noite no banheiro, desmaiado ao lado do vaso e dizendo: "Onde estou?"
Stones e Beatles se comunicavam sempre: " Hey John, estou com uma nova aqui, voces vão lançar algo agora?...Então espera 3 semanas, eu lanço agora e voces depois." Paul foi procurar Keith quando brigou com Heather Mills ( 2005 ) na Jamaica ( Keith mora lá, vizinho de Bruce Willis ), os dois chegaram a compor juntos e Keith disse a ele que a grande diferença entre Beatles e eles é que os Beatles sempre foram um grupo vocal. Tudo neles tem a voz por base, a parte instrumental só como acompanhamento; os Stones são um grupo instrumental, a base é sempre um riff, uma levada de guitarra. Brancos e negros, certo?
Ele conta como gravaram o Banquete dos Mendigos, em gravadorzinhos Phillips, apenas violões em volume alto que se distorciam pela pouca potência do gravador. Um tipo de som que hoje se perdeu. Conta a saga das gravações de Exile e desce a lenha em Jagger.
Não vou falar dessa parte. Acho dificil. Mas concordo que MJ tentou ser David Bowie na década de 80 ( todos tentaram e se ferraram. Bowie em 1983 estourou como ídolo teen-inteligente, todos os caras de sua geração tentaram operar o mesmo milagre, de Ferry a Rod, de Paul a Eric ). Keith acha um absurdo Jagger querer ser Bowie, pois Jagger é muito melhor que Bowie, o que ele fez foi se rebaixar. Dá pra discordar?
Keith diz sonhar em sempre fazer blues, Jagger odeia recordar Exile ou Let It Bleed.
É lindo ler sobre seu reencontro com o pai, trinta anos sem o ver. O pai, velho, tornou-se um tipo de pirata, um velho de pub, conquistador, forte, duro, o cara. ( Há uma foto linda no livro, os dois juntos ).
Já no fim, quando diz passar muito tempo lendo, Keith toca numa coisa Junguiana, não sei se sem querer. É quando ele fala dos horários. Que é uma besteira da revolução industrial, um conto do vigário, essa coisa de que devemos comer ao meio-dia, dormir oito horas por noite... tipo: hora de comer, hora de acordar, hora de transar...Foda-se, Keith diz que o certo é comer quando dá fome, dormir quando se tem sono e transar quando há desejo. E a droga entra nisso também. Cada um tem seu tempo, seu limite, seu ritmo, cada um é um.
E vem daí aquela fala linda que ele escreve, de que ele sabe ser um simbolo, e que todo cara que se fode trabalhando num emprego de merda, com um horário cruel e uma vida sem sal, tem dentro de si um Keith Richards asfixiado e que cabe a ele representar esse cara que insiste em viver dentro de cada um.
Isso é lindo. E o livro é lindo.
Dá uma puta tristeza quando acaba. A gente pensa: Que merda, eu estava me acostumando a ficar com Keith toda tarde! Que bosta de saudade desse cara do caralho!
Após ler o livro eu não aumento meu amor por Keith Richards. Isso seria impossível. Ele é meu anjo do mal desde 1974. Mas aumentou meu respeito por ele. Keith Richards é um grande cara!
Ele sempre foi do blues. Assim como Charlie Watts foi do jazz e Jagger do soul. E mesmo quando ele foi country ou disco, era um tipo de country-blues e disco-blue. Quando em 1973 Keith foi morar na Jamaica, os batedores de tambor das favelas jamaicanas logo o chamaram de negro. Um garoto feio de Dartford-England, nascido em meio ao ruido das bombas nazi, ter conseguido ser um preto do Tennessee e um rasta da Jamaica... bem, é um milagre.
Keith não faz drama com nada. Sua lição é: foda-se! Da infancia rebelde, filho único de mãe alegre que traía o pai com o vizinho mais jovem, aos momentos ( vários ) de quase-morte, nada vira drama, nada é lamentado. Ele é muito forte. Keith Richards é um cowboy, um pirata, e porque não, um herói.
O livro é cheio de momentos curiosos, de coisas que mesmo os fãs não sabiam, e melhor, nada é muito fantástico. Ele não aumenta, não mitifica, escolhe ser simpático, mas nunca hollywoodiano. Ficamos sabendo que Bobby Keys é seu melhor amigo, que Charlie Watts é um dandy que só gosta de jazz. Me chóco ao saber o quanto KR chama Brian Jones de escroto, um cara que se achava o máximo, um músico que deixou de tocar e que se afundava em auto-piedade. Keith conta a noite em que Marlon Brando tentou ir pra cama com ele e Anita ( sua esposa ), e melhor, descreve o clima de Londres em 65/67: Londres com seus pintores Pop, os herdeiros de sangue azul se entupindo de LSD, a descoberta de que tudo era permitido, os escritores, os cineastas, as groupies. Mick Jagger como um atlético conquistador, KR como um cara que precisava de carinho, dormir junto, ter alguma história.
As drogas. Ele passa tempos enormes vivendo por e para elas. Na década de 60 drogas eram coisa desconhecida. Eram usadas como descoberta, afronta, porta para fora da sociedade. Nos anos 70 elas se tornam moda, são usadas como documento para ser "in", e nos 80 são remédios para fazer tudo funcionar. Hoje são coisas para divertir, produto para criar uma sensação rápida e passageira.
Keith nunca demonstra o menor arrependimento. Ele usava drogas porque lhe davam prazer. É só isso, nada mais, e ele deixa isso bem claro. Tomava uma droga para acordar, uma outra pós-café para ficar ligado, droga de trabalho, droga para se acalmar, droga para pensar melhor e droga para ficar 3 dias de pé. Ele diz sentir saudades das drogas antigas, que não são mais fabricadas. Conta que o segredo para ter sobrevivido é nunca ter tomado nada de segunda, sua cocaína era Merck, direto do laboratório, tão pura que flutuava no ar; sua heroína era papoula 100% tailandesa, barbitúricos de farmácias de confiança e por aí vai... não há nada de sofrido, nada de culpa, nada de "agora vi a luz"; e também nada de "veja como sou louco". As loucuras que ele conta são nada glamurosas, e nenhuma é sexual.
Pesada é apenas a história de Anita, a maravilhosa Anita, modelo alemã, ex-Brian Jones ( tem uma história muito boa dela e de Keith fugindo de Brian no Marrocos ), mais doida que KR e que tinha conexões com Andy Warhol, Fellini e Roger Vadim. Nos anos 70 ela entra na paranóia pura e o casamento naufraga. KR é salvo por Patti Hansen, uma saudável modelo americana, sua esposa até hoje. È bonito perceber então, já lá no fim do livro, que Keith nunca mudou. O guitarrista espinhudo do Ed Sullivan Show é o mesmo cara do Piratas do Caribe. Como eu, Keith nada joga fora. Se ele descobre rap, reggae, disco, funk, o que for, ele os adiciona ao que já conhecia; ao contrário de Jagger, que para se reciclar precisa jogar fora o passado, KR preserva e revaloriza sempre tudo o que foi. Ele soma, nunca substitue.
Gram Parsons é o cara a quem ele tece os maiores elogios. É ótimo ler o que ele fala sobre amizade. Assim como é legal ver o que ele diz sobre John Lennon, um cara que aparecia sempre em seu apartamento, que tentava seguir seu ritmo de drogas, mas que sempre terminava a noite no banheiro, desmaiado ao lado do vaso e dizendo: "Onde estou?"
Stones e Beatles se comunicavam sempre: " Hey John, estou com uma nova aqui, voces vão lançar algo agora?...Então espera 3 semanas, eu lanço agora e voces depois." Paul foi procurar Keith quando brigou com Heather Mills ( 2005 ) na Jamaica ( Keith mora lá, vizinho de Bruce Willis ), os dois chegaram a compor juntos e Keith disse a ele que a grande diferença entre Beatles e eles é que os Beatles sempre foram um grupo vocal. Tudo neles tem a voz por base, a parte instrumental só como acompanhamento; os Stones são um grupo instrumental, a base é sempre um riff, uma levada de guitarra. Brancos e negros, certo?
Ele conta como gravaram o Banquete dos Mendigos, em gravadorzinhos Phillips, apenas violões em volume alto que se distorciam pela pouca potência do gravador. Um tipo de som que hoje se perdeu. Conta a saga das gravações de Exile e desce a lenha em Jagger.
Não vou falar dessa parte. Acho dificil. Mas concordo que MJ tentou ser David Bowie na década de 80 ( todos tentaram e se ferraram. Bowie em 1983 estourou como ídolo teen-inteligente, todos os caras de sua geração tentaram operar o mesmo milagre, de Ferry a Rod, de Paul a Eric ). Keith acha um absurdo Jagger querer ser Bowie, pois Jagger é muito melhor que Bowie, o que ele fez foi se rebaixar. Dá pra discordar?
Keith diz sonhar em sempre fazer blues, Jagger odeia recordar Exile ou Let It Bleed.
É lindo ler sobre seu reencontro com o pai, trinta anos sem o ver. O pai, velho, tornou-se um tipo de pirata, um velho de pub, conquistador, forte, duro, o cara. ( Há uma foto linda no livro, os dois juntos ).
Já no fim, quando diz passar muito tempo lendo, Keith toca numa coisa Junguiana, não sei se sem querer. É quando ele fala dos horários. Que é uma besteira da revolução industrial, um conto do vigário, essa coisa de que devemos comer ao meio-dia, dormir oito horas por noite... tipo: hora de comer, hora de acordar, hora de transar...Foda-se, Keith diz que o certo é comer quando dá fome, dormir quando se tem sono e transar quando há desejo. E a droga entra nisso também. Cada um tem seu tempo, seu limite, seu ritmo, cada um é um.
E vem daí aquela fala linda que ele escreve, de que ele sabe ser um simbolo, e que todo cara que se fode trabalhando num emprego de merda, com um horário cruel e uma vida sem sal, tem dentro de si um Keith Richards asfixiado e que cabe a ele representar esse cara que insiste em viver dentro de cada um.
Isso é lindo. E o livro é lindo.
Dá uma puta tristeza quando acaba. A gente pensa: Que merda, eu estava me acostumando a ficar com Keith toda tarde! Que bosta de saudade desse cara do caralho!
Após ler o livro eu não aumento meu amor por Keith Richards. Isso seria impossível. Ele é meu anjo do mal desde 1974. Mas aumentou meu respeito por ele. Keith Richards é um grande cara!
MARIA SCHNEIDER
Existem milhares de Marias hoje. Mas como bem disse Keith, uma coisa é ser doido agora, com mapa e bússola já feitas pelos doidos anteriores; outra bem diferente é ser o navegante sem mapa, vivendo e criando ao mesmo tempo uma rebeldia e uma loucura sem testes feitos por outros. Voce entra na piração e não tem nenhum exemplo pra te guiar. Maria foi dessas.
Ela estava pouco se lixando para o cinema. A menina começou pelo muito alto, pelo perigosamente alto: Brando e Bertolucci em Último Tango.
O mais intenso e enlouquecedor dos atores, no melhor desempenho "bruto" que um homem ousou exibir. Assitir o filme é ver um cara totalmente nú. Brando se exibe inteiro, sem medo e com imenso sofrimento. E Maria peitou o cara. Enfrentou o queridinho da esquerda cinéfila ( Bertolucci ) e o bicho doido gênio ( Brando ). E na sequencia mergulhou em Antonioni ( o niilista ) com Jack Nicholson ( o cínico ) na obra-prima O PASSAGEIRO.
Ela era apenas uma mocinha bem-lôca. Numa época em que ser assim não era moda e portanto nunca era fake. Correu riscos, partiu para excessos e se arrebentou toda. Viveu enfim.
Ter chegado aos 50 e poucos anos foi um milagre.
2011, a mais policiada das épocas não era pra ela. Se houver um além, a gente se vê por lá.
Ela estava pouco se lixando para o cinema. A menina começou pelo muito alto, pelo perigosamente alto: Brando e Bertolucci em Último Tango.
O mais intenso e enlouquecedor dos atores, no melhor desempenho "bruto" que um homem ousou exibir. Assitir o filme é ver um cara totalmente nú. Brando se exibe inteiro, sem medo e com imenso sofrimento. E Maria peitou o cara. Enfrentou o queridinho da esquerda cinéfila ( Bertolucci ) e o bicho doido gênio ( Brando ). E na sequencia mergulhou em Antonioni ( o niilista ) com Jack Nicholson ( o cínico ) na obra-prima O PASSAGEIRO.
Ela era apenas uma mocinha bem-lôca. Numa época em que ser assim não era moda e portanto nunca era fake. Correu riscos, partiu para excessos e se arrebentou toda. Viveu enfim.
Ter chegado aos 50 e poucos anos foi um milagre.
2011, a mais policiada das épocas não era pra ela. Se houver um além, a gente se vê por lá.
BELEZA E TRISTEZA- KAWABATA ( A BELEZA DO JAPÃO E DAQUI )
Livro final de Kawabata. Quem quiser o conhecer leia O PAÍS DAS NEVES. Ou KYOTO. Este é o pior. Mas aqui se fala do conceito de beleza japonês. A beleza ( sentido absoluto da vida para eles ), como retensão e repressão. O que é belo é aquilo que se liga a depuração máxima, tensão de espera, atenção em seu limite.
O Japão é pequeno. E é frio. Para sobreviver sempre foi preciso saber guardar, saber valorizar o mínimo. Cada flor que nasce é uma paisagem, todo canto de jardim é um deslumbre. O japonês aprende então a olhar o detalhe, a saborear com lentidão tudo que se desvanesce.
Que outro país excursiona para ver uma árvore florir?
Quando japoneses fotografam tudo, não existe ali o deslumbramento, o que mora nesse ato é a tristeza pela beleza que morre. A foto é a tentativa de a guardar viva.
Prende-se o cabelo, disciplina-se o corpo, cria-se um ritual para falar, para caminhar, para decorar, para o chá e a morte. Apruma-se a elegância. Cada gesto é um refinamento ( repressor e anti-natural ) de um ato grosseiro. Congela-se a animalidade e ritualiza-se a carne ( até o suicidio, elegancia na morte, ritualização do inescapável ).
A beleza torna-se tristeza, porque tudo o que é belo passa a ser retensão de impulso. Nada é natural, tudo é calculo. A beleza então confunde-se com melancolia ( e quantos ocidentais não sofrem dessa doença de pensar que a alegria nunca é bela? ).
Na Europa, no mundo árabe, isso não se faz tão acentuadamente. A exuberância é muito maior, a beleza é feita da tensão entre real e ideal; e na África toda beleza é sempre feliz. A exuberância como lei. Quando a imensidão sem fim das Américas nasce, a beleza se torna indomável, tudo o que é bonito é forte, grande, potente e natural.
Quem me conhece sabe que adoro o ritual e a religião do Japão ( religiões ), porque lá vejo o absoluto oposto ao que sou e sinto. Pois sou o desregramento da mata atlântica, o excesso de praias perdidas e o sem fim dos desejos ocidentais.
Nada disse sobre o livro do Kawabata. Mas o livro é bem isso. Falei....
O Japão é pequeno. E é frio. Para sobreviver sempre foi preciso saber guardar, saber valorizar o mínimo. Cada flor que nasce é uma paisagem, todo canto de jardim é um deslumbre. O japonês aprende então a olhar o detalhe, a saborear com lentidão tudo que se desvanesce.
Que outro país excursiona para ver uma árvore florir?
Quando japoneses fotografam tudo, não existe ali o deslumbramento, o que mora nesse ato é a tristeza pela beleza que morre. A foto é a tentativa de a guardar viva.
Prende-se o cabelo, disciplina-se o corpo, cria-se um ritual para falar, para caminhar, para decorar, para o chá e a morte. Apruma-se a elegância. Cada gesto é um refinamento ( repressor e anti-natural ) de um ato grosseiro. Congela-se a animalidade e ritualiza-se a carne ( até o suicidio, elegancia na morte, ritualização do inescapável ).
A beleza torna-se tristeza, porque tudo o que é belo passa a ser retensão de impulso. Nada é natural, tudo é calculo. A beleza então confunde-se com melancolia ( e quantos ocidentais não sofrem dessa doença de pensar que a alegria nunca é bela? ).
Na Europa, no mundo árabe, isso não se faz tão acentuadamente. A exuberância é muito maior, a beleza é feita da tensão entre real e ideal; e na África toda beleza é sempre feliz. A exuberância como lei. Quando a imensidão sem fim das Américas nasce, a beleza se torna indomável, tudo o que é bonito é forte, grande, potente e natural.
Quem me conhece sabe que adoro o ritual e a religião do Japão ( religiões ), porque lá vejo o absoluto oposto ao que sou e sinto. Pois sou o desregramento da mata atlântica, o excesso de praias perdidas e o sem fim dos desejos ocidentais.
Nada disse sobre o livro do Kawabata. Mas o livro é bem isso. Falei....
FORA DO AR
Fora do ar a quatro dias. Às vezes fico assim, sem me reconhecer. Ou me sabendo de verdade.
Quando fico nesse estado de foradoarzice sinto tanta vitalidade dentro do meu peito que chego a sentir que a vida é apaixonante. Mas não o apaixonante que a gente fala da boca pra fora. Não. É saber que a vida é leve, que o deixa ir, deixa sangrar mais que vale.
E minha mente se solta e se vai sem saber nada. E meu corpo vai atrás.
Coisas rolam. Coisas vêm. Doce 1983, doce 1992, doce 1998, doce 78. Ver o rio e afundar a cara naquela lama toda. Frases pra voce ( só pra voce baby )
O mundo se divide em quem gosta de cães e quem daria a vida por um deles.
Quem ouve rocknroll e quem se explode ao escutar uma guitarra "mal" tocada.
Tem aqueles que desejam uma mulher bonita, e tem quem possa matar ou se matar por uma bonita mulher em uma noite bonita. O desejo é uma faca guardada, enferrujada.
Alguns são brancos, outros pretos e outros muito escuros.
Tem quem se divirta com alegres diversões. Para outros tudo é diversão, mesmo o abismo.
Certos seres vivem com espelho e outros seguem o ruído. Quebrar o espelho com um grito, isso fazem outros.
Beleza é a razão. Mas há quem ame o feio sujo. Desde que seja um feio elegante e um sujo único.
Há quem perceba a ridicula futilidade da arte. Há quem veja a inutilidade de tudo.
Enquanto todos correm, um anda beeeem devagar
E quando todos seguem os horários de dietas industriais, outros comem quando sentem fome.
Bem.....
Duvide de tudo e diga sempre foda-se.
Jay Leno disse que o triste é que aprendemos a fazer aviões e foguetes
Mas não sabemos fazer um Keith Richards.
No fim de tudo, o mundo se divide em quem detesta Keith
E em quem o adora. ( E são esses os da coluna dois ).
Foda-se o que vou dizer ( estou muito fora do ar ):
Quando nasci eu escutava Ruby Tuesday e quando senti pela primeira vez o ódio pela ordem e pelo progresso, eu cantava Lets spend the night together. E ao descobrir o desejo que arranca a pele e expões a carne eu cantava Satisfaction e caía. Porra, KR estava comigo sempre ( quando a coisa valia a pena ): Na merda em que estive no colegial, um cabeludo em antro de fashions, eu cantava Citadel, e quando afinal achei minha "Anita" ( e botei um A na minha garganta ) era Happy na cabeça. Foda-se, estive no auge com tudo isso, essa básica música de preto que é sempre blues ( blues rock, blues soul, blues country, blues pop e até blues disco ). Eu estive em estradas e camas com You Gotta Move.
Então a coisa é que não é questão de gostar ou desgostar de KR. O fato é que o cara é uma tatto em minha vida, tá sempre lá. E se hoje eu começo a envelhecer, é ainda e agora mais ainda, que KR me mostra como envelhecer sendo o mesmo de sempre.
Porque ele nunca muda. E o negócio que nos maravilha é esse: o velho Keith nunca muda, é o mesmo de 64, de 73 ou de 2000. Fincou o pé na borda e disse: Foda-se, daqui não saio e não mudo.
Tem só mais uma coisa: KR tem consciência clara de tudo. Ele disse:
Enquanto os caras têm de obedecer um chefe, cumprir um horário, jogar fora tudo o que queriam, fingir ser banal; eu fico aqui, lembrando a eles que todos são um pouco Keith, alguns mais, outros menos; mas lembrando que todos nós devemos algo a esse cara. O seu KR está lá...e creia, quanto mais livre voce for, mais perto da tona ele estará.
Portanto eu tou beeem fora do ar. E torça para que eu fique por lá.
PS: Isso foi escrito pra voce.
Quando fico nesse estado de foradoarzice sinto tanta vitalidade dentro do meu peito que chego a sentir que a vida é apaixonante. Mas não o apaixonante que a gente fala da boca pra fora. Não. É saber que a vida é leve, que o deixa ir, deixa sangrar mais que vale.
E minha mente se solta e se vai sem saber nada. E meu corpo vai atrás.
Coisas rolam. Coisas vêm. Doce 1983, doce 1992, doce 1998, doce 78. Ver o rio e afundar a cara naquela lama toda. Frases pra voce ( só pra voce baby )
O mundo se divide em quem gosta de cães e quem daria a vida por um deles.
Quem ouve rocknroll e quem se explode ao escutar uma guitarra "mal" tocada.
Tem aqueles que desejam uma mulher bonita, e tem quem possa matar ou se matar por uma bonita mulher em uma noite bonita. O desejo é uma faca guardada, enferrujada.
Alguns são brancos, outros pretos e outros muito escuros.
Tem quem se divirta com alegres diversões. Para outros tudo é diversão, mesmo o abismo.
Certos seres vivem com espelho e outros seguem o ruído. Quebrar o espelho com um grito, isso fazem outros.
Beleza é a razão. Mas há quem ame o feio sujo. Desde que seja um feio elegante e um sujo único.
Há quem perceba a ridicula futilidade da arte. Há quem veja a inutilidade de tudo.
Enquanto todos correm, um anda beeeem devagar
E quando todos seguem os horários de dietas industriais, outros comem quando sentem fome.
Bem.....
Duvide de tudo e diga sempre foda-se.
Jay Leno disse que o triste é que aprendemos a fazer aviões e foguetes
Mas não sabemos fazer um Keith Richards.
No fim de tudo, o mundo se divide em quem detesta Keith
E em quem o adora. ( E são esses os da coluna dois ).
Foda-se o que vou dizer ( estou muito fora do ar ):
Quando nasci eu escutava Ruby Tuesday e quando senti pela primeira vez o ódio pela ordem e pelo progresso, eu cantava Lets spend the night together. E ao descobrir o desejo que arranca a pele e expões a carne eu cantava Satisfaction e caía. Porra, KR estava comigo sempre ( quando a coisa valia a pena ): Na merda em que estive no colegial, um cabeludo em antro de fashions, eu cantava Citadel, e quando afinal achei minha "Anita" ( e botei um A na minha garganta ) era Happy na cabeça. Foda-se, estive no auge com tudo isso, essa básica música de preto que é sempre blues ( blues rock, blues soul, blues country, blues pop e até blues disco ). Eu estive em estradas e camas com You Gotta Move.
Então a coisa é que não é questão de gostar ou desgostar de KR. O fato é que o cara é uma tatto em minha vida, tá sempre lá. E se hoje eu começo a envelhecer, é ainda e agora mais ainda, que KR me mostra como envelhecer sendo o mesmo de sempre.
Porque ele nunca muda. E o negócio que nos maravilha é esse: o velho Keith nunca muda, é o mesmo de 64, de 73 ou de 2000. Fincou o pé na borda e disse: Foda-se, daqui não saio e não mudo.
Tem só mais uma coisa: KR tem consciência clara de tudo. Ele disse:
Enquanto os caras têm de obedecer um chefe, cumprir um horário, jogar fora tudo o que queriam, fingir ser banal; eu fico aqui, lembrando a eles que todos são um pouco Keith, alguns mais, outros menos; mas lembrando que todos nós devemos algo a esse cara. O seu KR está lá...e creia, quanto mais livre voce for, mais perto da tona ele estará.
Portanto eu tou beeem fora do ar. E torça para que eu fique por lá.
PS: Isso foi escrito pra voce.
BILLY WILDER/ GAINSBOURG/ FORD/ OSHIMA/ SIRK/ HELEN MIRREN
CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA de Billy Wilder com James Cagney
De todos os clássicos diretores de Hollywood ( Ford, Hawks, Wyler, Stevens, MacCarey ) ninguém tem tantos filmes decepcionantes como Billy. Sim, ele é um cara genial, quando acerta, mas seus filmes fracos são mais irritantes que os filmes menos bons da turma citada acima. Este fala de executivo da Coca-Cola que trabalha em Berlin nos dias da construção do muro. É uma comédia boba. As piadas vêm e erram o alvo. O resultado é histérico. Nota 3.
A ÁRVORE de Julie Bertuccelli com Charlotte Gainsbourg
Fujam! Na Austrália morre um jovem pai em ataque cardíaco junto a árvore. Essa enorme e belíssima árvore é o centro e interesse único do filme. Pena que nada de interessante ocorra depois dessa tragédia. Quem quiser que encontre um sentido nesta coisa chata e lenta, se encontrar, esse sentido será acidental, o filme é tão cheio de "arte" que tudo pode ter um significado. Inclusive o significado da picaretagem. Nota 1 ( um ponto pela bela árvore ).
DONOVAN'S REEF de John Ford com John Wayne e Lee Marvin
A vida de um dono de boteco em ilha do Taiti. Acontece a visita de uma herdeira e mais nada. Ford, após cinquenta anos filmando. mostra sinais de cansaço. O filme é flácido, solto demais. Uma bela paisagem, atores gostáveis, mas nada mais que isso. Nota 3.
O MERCADOR DE ALMAS de Martin Ritt com Paul Newman, Joanne Woodward, Orson Welles, Anthony Franciosa
Belo exemplo de cinema adulto dos anos 50. Newman faz seu tipo mais habitual: o cara malandro, egoísta e carismático. Esse cara penetra em família do sul e acaba por se tornar herdeiro do "dono" de toda a cidade: Welles. Filhos que odeiam o pai, sensualidade reprimida, poder do dinheiro, homossexualismo, há de tudo um pouco. É uma diversão completa, um prato rico e gorduroso. Joanne está muito bem como uma solteirona. Nota 8.
O TÚMULO DO SOL de Nagisa Oshima
Em Osaka, anos 60, gente das ruas vende sangue para comer. Mais prostituição, drogas e Oshima, um diretor sempre violento. O filme é representante da Nouvelle Vague japonesa. Cores berrantes, câmera nervosa e cortes abruptos, incisivos. Oshima seria o centro desse movimento. O filme, um dos primeiros dele, é irregular, mas supreende sua modernidade. Nota 5.
TUDO QUE O CÉU PERMITE de Douglas Sirk com Jane Wyman e Rock Hudson
Muito melhor do que eu esperava. Sirk, dinamarquês rei do melodrama em Hollywood, faz aqui um dilacerante retrato da classe média da época ( terá mudado tanto assim desde 1955 ? ). Jane Wyman é uma viúva com dois filhos, cheia de amigos porém solitária. Ela se envolve com seu jardineiro, um jovem livre, que tenta seguir a filosofia de Thoreau. Ninguém aceita isso e os filhos ( quase adultos ) impedem o casamento. Só, ( e é chocante se observar como na época ver tv era considerado ato de perdedores, de gente sem vida social ), ela vê que caiu numa armadilha, os dois filhos seguem sua vida e ela fica à parte de tudo. Todo esse drama é conduzido de uma forma tão leve, fina, vibrante que é impossível resistir. Voce embarca na novelona. Fassbinder o refilmou na Alemanha e Almodovar sempre o cita ( além de Todd Haynes ). Rock Hudson era um canastrão, mas ninguém sabe ser mais tão galã. Nota 8.
MANON de Henri-Georges Clouzot com Cecile Aubry e Serge Reggianni
Clouzot é um dos maiores diretores que a França já teve. Fez pelo menos quatro obras-primas, mas este não é uma delas. Conta a história de mocinha muito "livre" que trai seu amor com vários homens de poder. O namorado sempre descobre, e sempre a perdoa. O final, hiper-romantico, é em deserto. O filme se vê com interesse, mas está muito abaixo do melhor Clouzot. Nota 5.
A RAINHA de Stephen Frears com Helen Mirren e Michael Sheen
Pra que ver este filme? Qual o interesse em se rever os dias da morte e do enterro de Lady Di? Tudo visto pelo ponto de vista de Tony Blair e da Rainha...pra que? Bem...o filme é estupendo, uma aula de direção e de interpretação. Stephen Frears, diretor da geração de Ridley Scott, mas que ao contrário de Scott, optou sempre pelo risco ( é dele a obra-prima Ligações Perigosas e ainda Minha Adorável Lavanderia, Alta Fidelidade, e mais uma infinidade de pequenos filmes instigantes ), dirige com uma eficiência que beira o milagre. Penetramos na mente de Elizabeth, conseguimos sentir o absurdo daquilo tudo, e melhor, não sabemos o que pensar. Ficamos desorientados. Mas há Mirren. Talvez seja este o desempenho feminino da década. Em personagem dificílimo, contido, frio, distante ( e tão cotidiano ) Helen cria uma alma, não imita. A rainha que ela nos mostra vai lentamente tomando consciência de sua derrota, do fim de uma ilusão. ( " Eu me recolho e nada declaro, sou sincera, enquanto isso essas pessoas que jamais a conheceram estão morrendo de dor, e eu é que sou a doida" ). Pois o filme é sobre isso: os súditos passam a querer lágrimas, frases pomposas, a exibição pornográfica de luto. Quando Di morre e a rainha se esconde, pois essa é a tradição, luto não é show, sentimentos devem ser contidos e discretos; o povo passa a odiá-la. O filme tem duas cenas de antologia: a hora em que ela lê as mensagens nas flores colocadas nos portões do palácio ( todas ofensivas a ela ) e a maravilhosa cena com o cervo, quando ela percebe a beleza que mora nele e o risco de ser caçado. Esse animal, que será morto lentamente e decapitado ( decapitação é o fim de todo rei deposto ) representa a bela elegância de uma época que morrera muito tempo antes, época que Elizabeth só então percebe ter chegado ao fim. De certa forma, Blair a salva dessa decapitação e ele acaba tomando seu partido. O filme então, feito pelo esquerdista Frears, tem a sabedoria de reconhecer que perante os novos tempos de midia e falta de respeito, ( são magnificas as cenas de telejornais da época, que mostram Lady Di tão falsa em sua "dor" e o povo deseperado com sua morte; e ainda vemos no enterro o absurdo de Elton John, Tom Cruise e Spielberg serem mais "gostados" que a familia de Di e de Charles ) a rainha ainda representa algo de decente, correto e de verdadeiramente real. O filme torna-se então imenso. Que admirável surpresa! Nota 9.
TERRA BRUTA de John Ford com James Stewart e Richard Widmark
Ford chamava este seu filme de "bela porcaria". Longe disso. Apesar de ele quase não ter história ( fala algo sobre brancos resgatados de Comanches ), o filme tem um ar de improviso, de alegre camaradagem, que acaba por encantar. Há quem o chame de obra-prima. Não é. Mas ele sem dúvida é invulgar. Nota 6.
De todos os clássicos diretores de Hollywood ( Ford, Hawks, Wyler, Stevens, MacCarey ) ninguém tem tantos filmes decepcionantes como Billy. Sim, ele é um cara genial, quando acerta, mas seus filmes fracos são mais irritantes que os filmes menos bons da turma citada acima. Este fala de executivo da Coca-Cola que trabalha em Berlin nos dias da construção do muro. É uma comédia boba. As piadas vêm e erram o alvo. O resultado é histérico. Nota 3.
A ÁRVORE de Julie Bertuccelli com Charlotte Gainsbourg
Fujam! Na Austrália morre um jovem pai em ataque cardíaco junto a árvore. Essa enorme e belíssima árvore é o centro e interesse único do filme. Pena que nada de interessante ocorra depois dessa tragédia. Quem quiser que encontre um sentido nesta coisa chata e lenta, se encontrar, esse sentido será acidental, o filme é tão cheio de "arte" que tudo pode ter um significado. Inclusive o significado da picaretagem. Nota 1 ( um ponto pela bela árvore ).
DONOVAN'S REEF de John Ford com John Wayne e Lee Marvin
A vida de um dono de boteco em ilha do Taiti. Acontece a visita de uma herdeira e mais nada. Ford, após cinquenta anos filmando. mostra sinais de cansaço. O filme é flácido, solto demais. Uma bela paisagem, atores gostáveis, mas nada mais que isso. Nota 3.
O MERCADOR DE ALMAS de Martin Ritt com Paul Newman, Joanne Woodward, Orson Welles, Anthony Franciosa
Belo exemplo de cinema adulto dos anos 50. Newman faz seu tipo mais habitual: o cara malandro, egoísta e carismático. Esse cara penetra em família do sul e acaba por se tornar herdeiro do "dono" de toda a cidade: Welles. Filhos que odeiam o pai, sensualidade reprimida, poder do dinheiro, homossexualismo, há de tudo um pouco. É uma diversão completa, um prato rico e gorduroso. Joanne está muito bem como uma solteirona. Nota 8.
O TÚMULO DO SOL de Nagisa Oshima
Em Osaka, anos 60, gente das ruas vende sangue para comer. Mais prostituição, drogas e Oshima, um diretor sempre violento. O filme é representante da Nouvelle Vague japonesa. Cores berrantes, câmera nervosa e cortes abruptos, incisivos. Oshima seria o centro desse movimento. O filme, um dos primeiros dele, é irregular, mas supreende sua modernidade. Nota 5.
TUDO QUE O CÉU PERMITE de Douglas Sirk com Jane Wyman e Rock Hudson
Muito melhor do que eu esperava. Sirk, dinamarquês rei do melodrama em Hollywood, faz aqui um dilacerante retrato da classe média da época ( terá mudado tanto assim desde 1955 ? ). Jane Wyman é uma viúva com dois filhos, cheia de amigos porém solitária. Ela se envolve com seu jardineiro, um jovem livre, que tenta seguir a filosofia de Thoreau. Ninguém aceita isso e os filhos ( quase adultos ) impedem o casamento. Só, ( e é chocante se observar como na época ver tv era considerado ato de perdedores, de gente sem vida social ), ela vê que caiu numa armadilha, os dois filhos seguem sua vida e ela fica à parte de tudo. Todo esse drama é conduzido de uma forma tão leve, fina, vibrante que é impossível resistir. Voce embarca na novelona. Fassbinder o refilmou na Alemanha e Almodovar sempre o cita ( além de Todd Haynes ). Rock Hudson era um canastrão, mas ninguém sabe ser mais tão galã. Nota 8.
MANON de Henri-Georges Clouzot com Cecile Aubry e Serge Reggianni
Clouzot é um dos maiores diretores que a França já teve. Fez pelo menos quatro obras-primas, mas este não é uma delas. Conta a história de mocinha muito "livre" que trai seu amor com vários homens de poder. O namorado sempre descobre, e sempre a perdoa. O final, hiper-romantico, é em deserto. O filme se vê com interesse, mas está muito abaixo do melhor Clouzot. Nota 5.
A RAINHA de Stephen Frears com Helen Mirren e Michael Sheen
Pra que ver este filme? Qual o interesse em se rever os dias da morte e do enterro de Lady Di? Tudo visto pelo ponto de vista de Tony Blair e da Rainha...pra que? Bem...o filme é estupendo, uma aula de direção e de interpretação. Stephen Frears, diretor da geração de Ridley Scott, mas que ao contrário de Scott, optou sempre pelo risco ( é dele a obra-prima Ligações Perigosas e ainda Minha Adorável Lavanderia, Alta Fidelidade, e mais uma infinidade de pequenos filmes instigantes ), dirige com uma eficiência que beira o milagre. Penetramos na mente de Elizabeth, conseguimos sentir o absurdo daquilo tudo, e melhor, não sabemos o que pensar. Ficamos desorientados. Mas há Mirren. Talvez seja este o desempenho feminino da década. Em personagem dificílimo, contido, frio, distante ( e tão cotidiano ) Helen cria uma alma, não imita. A rainha que ela nos mostra vai lentamente tomando consciência de sua derrota, do fim de uma ilusão. ( " Eu me recolho e nada declaro, sou sincera, enquanto isso essas pessoas que jamais a conheceram estão morrendo de dor, e eu é que sou a doida" ). Pois o filme é sobre isso: os súditos passam a querer lágrimas, frases pomposas, a exibição pornográfica de luto. Quando Di morre e a rainha se esconde, pois essa é a tradição, luto não é show, sentimentos devem ser contidos e discretos; o povo passa a odiá-la. O filme tem duas cenas de antologia: a hora em que ela lê as mensagens nas flores colocadas nos portões do palácio ( todas ofensivas a ela ) e a maravilhosa cena com o cervo, quando ela percebe a beleza que mora nele e o risco de ser caçado. Esse animal, que será morto lentamente e decapitado ( decapitação é o fim de todo rei deposto ) representa a bela elegância de uma época que morrera muito tempo antes, época que Elizabeth só então percebe ter chegado ao fim. De certa forma, Blair a salva dessa decapitação e ele acaba tomando seu partido. O filme então, feito pelo esquerdista Frears, tem a sabedoria de reconhecer que perante os novos tempos de midia e falta de respeito, ( são magnificas as cenas de telejornais da época, que mostram Lady Di tão falsa em sua "dor" e o povo deseperado com sua morte; e ainda vemos no enterro o absurdo de Elton John, Tom Cruise e Spielberg serem mais "gostados" que a familia de Di e de Charles ) a rainha ainda representa algo de decente, correto e de verdadeiramente real. O filme torna-se então imenso. Que admirável surpresa! Nota 9.
TERRA BRUTA de John Ford com James Stewart e Richard Widmark
Ford chamava este seu filme de "bela porcaria". Longe disso. Apesar de ele quase não ter história ( fala algo sobre brancos resgatados de Comanches ), o filme tem um ar de improviso, de alegre camaradagem, que acaba por encantar. Há quem o chame de obra-prima. Não é. Mas ele sem dúvida é invulgar. Nota 6.
MÚSICA, AINDA IMPORTA?
Primeiro música a beira do fogo ou na caverna. Música como ritual, como frenesi, religião, preparação para a guerra, união de tribo.
Depois. Música em igrejas, em cerimônias de coroação, em casamentos, em natais e aniversários.
E então, ela habita os teatros, e os pianos de estudantes pautados. E as rodas folclóricas, fogo, dança e bebidas.
Mais tarde. Música no rádio, em noites ao redor do grande aparelho de madeira, com suas válvulas misteriosas. E em discos pesados, que quebravam se caíssem no chão. Que chiavam.
Em filmes nas salas imensas com tapetes felpudos e lanterninhas de uniforme. Melodias em bailes de gala e nas rodas de samba dos morros. Nos terreiros e nos bares dos sertanejos.
Música sempre em grupo, sempre unindo, coisa sagrada que é sempre hino.
Chega o vinil. Olhar com amor a capa colorida, ler o encarte ( isso após rasgar o celofane ), sentir o cheiro do papel impresso, do petróleo do disco. Pegar com DELICADEZA, colocar pra rodar, ver o disco girar e escutar. Todo ele, inteiro, na sua sala ou no seu quarto, sempre em seu lugar especial, sempre um ritual.
Hoje. Música no seu ouvido, apenas sua, toda sua, individualizada. Música no ônibus, no metrô, na rua, na escola, no banheiro, todo o dia, na cama. Fundo indistinto do ruído da vida, música ruído.
Música feita para a magia que se tornou música feita para a igreja que se fez música feita para o teatro que se mudou em música para o rádio. E ela se fez para o disco e daí para o cd. E agora é um impulso elétrico que é pensada como trilha que combina com todo lugar. Música ambiente incolor de ruas e conversas sem fim ( e onde nada se escuta "de verdade" ).
Em 1975 Brian Eno criou a Ambient Music. Era um conceito ( ridicularizado então ). Eno dizia que a música do futuro seria parte de um ambiente, como um quadro ou a cor de uma parede. Essa música não poderia pedir atenção do ouvinte e também não teria emoção alguma. Pois o ouvinte jamais poderia perder a atenção daquilo que fazia ( o trabalho ).
Eno lança MUSIC FOR AIRPORTS I e II, e ainda discos para elevador, trens e salas de espera. Em Berlin ele conhece David Bowie e juntos lançam 3 discos: Low, Heroes e Lodger. O conceito é: música abstrata, que não seja feliz ou triste, nem sobre dor ou sobre amor, sem raiva ou tédio. Controle absoluto e absoluta neutralidade.
Hoje e desde os anos 80, esse tipo de proposta se tornou dominante. Mas em 1975 isso era um absurdo. Música era emoção naquele tempo ( de Lennon à Elton John, de Marley à Neil Young, tudo era emoção exacerbada e exibicionista ). O que Eno e Bowie ( e o Kraftwerk ) pediam era o oposto: frieza, controle, distância.
Agora estamos no ponto máximo desse conceito. Não só a música como produto sob controle, sem o inesperado, como o OUVINTE em atitude de neutra e distraída apreciação. Sem nenhum ritual de ligação, sem nenhum delicado cuidado de preservação, e sem qualquer canto sagrado de dança ou escuta.
A música, a mais misteriosa e mágica das artes, se torna enfim, a banalidade total e absoluta.
Depois. Música em igrejas, em cerimônias de coroação, em casamentos, em natais e aniversários.
E então, ela habita os teatros, e os pianos de estudantes pautados. E as rodas folclóricas, fogo, dança e bebidas.
Mais tarde. Música no rádio, em noites ao redor do grande aparelho de madeira, com suas válvulas misteriosas. E em discos pesados, que quebravam se caíssem no chão. Que chiavam.
Em filmes nas salas imensas com tapetes felpudos e lanterninhas de uniforme. Melodias em bailes de gala e nas rodas de samba dos morros. Nos terreiros e nos bares dos sertanejos.
Música sempre em grupo, sempre unindo, coisa sagrada que é sempre hino.
Chega o vinil. Olhar com amor a capa colorida, ler o encarte ( isso após rasgar o celofane ), sentir o cheiro do papel impresso, do petróleo do disco. Pegar com DELICADEZA, colocar pra rodar, ver o disco girar e escutar. Todo ele, inteiro, na sua sala ou no seu quarto, sempre em seu lugar especial, sempre um ritual.
Hoje. Música no seu ouvido, apenas sua, toda sua, individualizada. Música no ônibus, no metrô, na rua, na escola, no banheiro, todo o dia, na cama. Fundo indistinto do ruído da vida, música ruído.
Música feita para a magia que se tornou música feita para a igreja que se fez música feita para o teatro que se mudou em música para o rádio. E ela se fez para o disco e daí para o cd. E agora é um impulso elétrico que é pensada como trilha que combina com todo lugar. Música ambiente incolor de ruas e conversas sem fim ( e onde nada se escuta "de verdade" ).
Em 1975 Brian Eno criou a Ambient Music. Era um conceito ( ridicularizado então ). Eno dizia que a música do futuro seria parte de um ambiente, como um quadro ou a cor de uma parede. Essa música não poderia pedir atenção do ouvinte e também não teria emoção alguma. Pois o ouvinte jamais poderia perder a atenção daquilo que fazia ( o trabalho ).
Eno lança MUSIC FOR AIRPORTS I e II, e ainda discos para elevador, trens e salas de espera. Em Berlin ele conhece David Bowie e juntos lançam 3 discos: Low, Heroes e Lodger. O conceito é: música abstrata, que não seja feliz ou triste, nem sobre dor ou sobre amor, sem raiva ou tédio. Controle absoluto e absoluta neutralidade.
Hoje e desde os anos 80, esse tipo de proposta se tornou dominante. Mas em 1975 isso era um absurdo. Música era emoção naquele tempo ( de Lennon à Elton John, de Marley à Neil Young, tudo era emoção exacerbada e exibicionista ). O que Eno e Bowie ( e o Kraftwerk ) pediam era o oposto: frieza, controle, distância.
Agora estamos no ponto máximo desse conceito. Não só a música como produto sob controle, sem o inesperado, como o OUVINTE em atitude de neutra e distraída apreciação. Sem nenhum ritual de ligação, sem nenhum delicado cuidado de preservação, e sem qualquer canto sagrado de dança ou escuta.
A música, a mais misteriosa e mágica das artes, se torna enfim, a banalidade total e absoluta.
MAPAS E LENDAS ( AINDA DÁ? )
Precisamos de espaço. Existem certas coisas que somos obrigados a engolir, e essas coisas deixam de ser comentadas, se transformam numa espécie de assunto esgotado ou caem ao limbo do esquecimento. Mas o fato é esse: um homem sem espaço é um vegetal. Se voce não tiver para onde expandir seu olhar, se voce não tiver onde fugir para escutar o silencio, se voce não puder andar e sentir a liberdade de não estar dentro mas sim fora de algum lugar, voce seca, morre, vegeta.
É triste admitir isso, mas é uma tristeza necessária: gente sem espaço é como frango de granja, vida movida a luz artificial e drogas para crescer ( produzir ). Penso em crianças nascendo e crescendo em apartamentos fechados, brincando em playgrounds cercados, indo a escolas SEM janelas e gastando a semana em sites e jogos. Essa criança vai crescer? A mente dela irá se expandir? Qual o tamanho de seus sonhos? O quanto de criatividade, de originalidade ela vai desenvolver?
Falo disso porque entrei num site onde os mapas de SP de hoje são comparados aos mapas de SP de 1958. É péssimo olhar para o mapa, e se voce tiver depressão evite. O rio Pinheiros com suas margens limpas, um monte de espaço, de terrenos abertos e sem muros, trilhas cortando os quarteirões.
Mas pra mim foi cruel. Cruel porque sempre pensei que as lembranças que tenho do meu bairro pudessem ser fantasia. Mas não, está lá na tela: riachos onde pesquei, lagos onde aprendi a nadar, matas onde eu acampava; tudo dentro de SP ( Morumbi em 1969/1971 ). Vejo que não é fantasia, defronte a casa de minha tia não havia nada, um descampado todo LIVRE para meu sonho. E é somente com esse espaço livre que se pode começar a ser feliz. Porque é preciso sentir o vento na cara, ver a chuva vindo de longe, ter onde olhar o sol nascendo, escutar passos distantes, vozes longinguas, poder correr, se perder completamente, ter onde deitar no chão e adormecer. Sem esse espaço, sem esse ir-se de si-mesmo, voce perde o dom de "viajar", de expandir-se, de ser um bicho. Vegeta. Franguinho de granja.
Choveu hoje no deserto da Arábia. Algum otimista estúpido vai continuar dizendo que tudo está nos conformes. Uma área do tamanho da França ficou alagada no deserto da Austrália..... Posso falar o que penso ( e talvez voce odeie ler isso, então pare agora ), fizemos tudo errado. Nós estamos aqui com uma única missão: cuidar deste jardim. Nossa única tarefa IMPRESCINDÍVEL e que daria toda a nobreza necessária a nossa existência: cuidar do mundo, equilibrar, preservar, ajudar a natureza. Nossa inteligência, nossas mãos, nosso olhar se justificariam assim. É o único trabalho sério e é um trabalho que apenas nós poderíamos ter feito.
Mas não. O rio Pinheiros é um testemunho. E o espaço para todos os jardins foi trocado por garagens para 3 carros e portões com câmeras. Que pena....
É triste admitir isso, mas é uma tristeza necessária: gente sem espaço é como frango de granja, vida movida a luz artificial e drogas para crescer ( produzir ). Penso em crianças nascendo e crescendo em apartamentos fechados, brincando em playgrounds cercados, indo a escolas SEM janelas e gastando a semana em sites e jogos. Essa criança vai crescer? A mente dela irá se expandir? Qual o tamanho de seus sonhos? O quanto de criatividade, de originalidade ela vai desenvolver?
Falo disso porque entrei num site onde os mapas de SP de hoje são comparados aos mapas de SP de 1958. É péssimo olhar para o mapa, e se voce tiver depressão evite. O rio Pinheiros com suas margens limpas, um monte de espaço, de terrenos abertos e sem muros, trilhas cortando os quarteirões.
Mas pra mim foi cruel. Cruel porque sempre pensei que as lembranças que tenho do meu bairro pudessem ser fantasia. Mas não, está lá na tela: riachos onde pesquei, lagos onde aprendi a nadar, matas onde eu acampava; tudo dentro de SP ( Morumbi em 1969/1971 ). Vejo que não é fantasia, defronte a casa de minha tia não havia nada, um descampado todo LIVRE para meu sonho. E é somente com esse espaço livre que se pode começar a ser feliz. Porque é preciso sentir o vento na cara, ver a chuva vindo de longe, ter onde olhar o sol nascendo, escutar passos distantes, vozes longinguas, poder correr, se perder completamente, ter onde deitar no chão e adormecer. Sem esse espaço, sem esse ir-se de si-mesmo, voce perde o dom de "viajar", de expandir-se, de ser um bicho. Vegeta. Franguinho de granja.
Choveu hoje no deserto da Arábia. Algum otimista estúpido vai continuar dizendo que tudo está nos conformes. Uma área do tamanho da França ficou alagada no deserto da Austrália..... Posso falar o que penso ( e talvez voce odeie ler isso, então pare agora ), fizemos tudo errado. Nós estamos aqui com uma única missão: cuidar deste jardim. Nossa única tarefa IMPRESCINDÍVEL e que daria toda a nobreza necessária a nossa existência: cuidar do mundo, equilibrar, preservar, ajudar a natureza. Nossa inteligência, nossas mãos, nosso olhar se justificariam assim. É o único trabalho sério e é um trabalho que apenas nós poderíamos ter feito.
Mas não. O rio Pinheiros é um testemunho. E o espaço para todos os jardins foi trocado por garagens para 3 carros e portões com câmeras. Que pena....
SOBRE O LIVRO DE JOHNATHAN FRAZEN, LIDO
A LITHUANIA é privatizada. Voce pode ser dono de uma rua ou adotar meninas de 14 anos. O filho mais novo do casal de velhinhos, deste livro, vai pra lá. E Vê que a diferença entre Lithuania e EUA é mínima: nos EUA voce é anestesiado pelas drogas legais e ilegais, é condicionado a gostar apenas do que está ou se parece com a TV, e se distrai da vida com tecnologia futil e viciante. Teus vicios te dominam. Na Lithuania a coisa é mais honesta. Voce é dominado na porrada e no poder da grana. Sem hipocrisia.
Ele volta pra casa a tempo do natal. Pra descobrir que a familia não existe mais ( e que tudo o que ele queria era o amor do pai. Quando toma consciencia de que sempre o teve descobre então que não era isso....). A irmã está um caco. Seu único problema ( dela ) é a vida afetiva, mas esse problema é O Problema. E o irmão, rico, casado, pai, controla tudo: horários, sentimentos, eficiência, afetos. Covarde, está sempre aterrorizado com a sombra da depressão. Um ditador que é esmagado pela esposa, super bonita e super feliz quarentona, que morre de medo de ladrões.
O pai está demente. Antigo macho dominante, calado e frio, tornou-se um traste. No fim do livro pede que o filho o mate. Não matará. E há a mãe, que tenta crer na família e se vicia em antidepressivos ( porque não ser feliz? ). Quando tudo desaba é o único personagem que ainda crê na recuperação da vida ( aos 75 anos ).
Scott Fitzgerald dizia que a inteligência se manifesta em pessoas que conseguem manter duas idéias contrárias ao mesmo tempo. O livro tem essa citação ( que é a pura verdade. Todo burro tem certezas únicas ). Lendo Frazen nós nunca sabemos qual a opinião do autor, qual o personagem central e qual seria o fim daquilo tudo. São montes de personagens, montes de situações, uma montanha de informação.
Ele bate nessa coisa tão atual de médicos que só lêem sobre medicina, filósofos que só lêem filosofia e psicólogos que só lêem psicologia. E pessoas comuns, que só se interessam por seus umbigos. Mundo compartilhado em guetos, sites e wwws que Frazen chama de "branda demência social".
No mundo de Frazen ( o livro ganhou o Booker Prize de 2001 ) não há a menor chance de salvação, viver é descer ladeira abaixo. E fim.
Ele volta pra casa a tempo do natal. Pra descobrir que a familia não existe mais ( e que tudo o que ele queria era o amor do pai. Quando toma consciencia de que sempre o teve descobre então que não era isso....). A irmã está um caco. Seu único problema ( dela ) é a vida afetiva, mas esse problema é O Problema. E o irmão, rico, casado, pai, controla tudo: horários, sentimentos, eficiência, afetos. Covarde, está sempre aterrorizado com a sombra da depressão. Um ditador que é esmagado pela esposa, super bonita e super feliz quarentona, que morre de medo de ladrões.
O pai está demente. Antigo macho dominante, calado e frio, tornou-se um traste. No fim do livro pede que o filho o mate. Não matará. E há a mãe, que tenta crer na família e se vicia em antidepressivos ( porque não ser feliz? ). Quando tudo desaba é o único personagem que ainda crê na recuperação da vida ( aos 75 anos ).
Scott Fitzgerald dizia que a inteligência se manifesta em pessoas que conseguem manter duas idéias contrárias ao mesmo tempo. O livro tem essa citação ( que é a pura verdade. Todo burro tem certezas únicas ). Lendo Frazen nós nunca sabemos qual a opinião do autor, qual o personagem central e qual seria o fim daquilo tudo. São montes de personagens, montes de situações, uma montanha de informação.
Ele bate nessa coisa tão atual de médicos que só lêem sobre medicina, filósofos que só lêem filosofia e psicólogos que só lêem psicologia. E pessoas comuns, que só se interessam por seus umbigos. Mundo compartilhado em guetos, sites e wwws que Frazen chama de "branda demência social".
No mundo de Frazen ( o livro ganhou o Booker Prize de 2001 ) não há a menor chance de salvação, viver é descer ladeira abaixo. E fim.
QUANDO FREUD ERA REI : THE LONG, HOT SUMMER - MARTIN RITT
Na década de 50, em Hollywood tudo era freudiano. Cada fala e cada movimento de um personagem ( falo dos dramas dito sérios ) era calcado em edipianismo, repressão sexual, complexo de Electra, incesto, castrações e taras várias. Muita bobagem saiu desse caldo, pois todos estavam tão imersos nessa fé vienense que ignoravam que nem tudo que Sigmund ditava era verdade ( ou não pareceria ridículo com o tempo ).
Um dos melhores representantes deste estilo de cinema é THE LONG, HOT SUMMER, que no Brasil recebeu o nome inacreditável de O Mercador de Almas ( Freud explica? ).
O roteiro, perfeito, de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., condensa 6 contos de William Faulkner em duas horas. Milagrosamente dá certo. Quem dirigiu foi Martin Ritt, em seu terceiro filme, após triunfal carreira na TV.
Já se disse que se o sul tivesse vencido a guerra civil americana, os EUA seriam hoje o Brasil. Este filme mostra porque. Se passa na época contemporânea ( 1958 ) mas, feito no Tennessee, inspirado pelo muito sulista Faulkner, ele conta a história de um típico coronel ( que no Brasil seria um coroné do sertão ). Ele domina terras, comércio, politica e indústria de cidade. Gordo, falastrão, machista ( feito saborosamente por Orson Welles ), tudo o que ele deseja agora que está velho, é um neto. E para isso, como para tudo o mais, seu desejo é a única realidade. Na sua agressividade erótica, na sua sem-vergonhice, vemos o extremo amor a vida, o reino da libido pura. Esse coronel tem dois filhos. O filho-homem é um fraco. Seu único desejo é sexual, ele está enfeitiçado pela esposa, uma piranha sexy-jovem. O pai o despreza por isso e deixa isso claro. O filho se ressente, exibe seu sofrimento de filho não-amado e tentará matar o pai ( e ao fazer isso, readquire o respeito do pai. Sua cerimônia de entrada no mundo masculino é esse quase assassinato tabú ). A filha do coronel é uma insegura e auto-controlada professora idealista. Todo seu desejo, reprimido, é dirigido ao muito educado e calmo vizinho, um cavalheiro sulista a antiga, que irá se revelar gay. Nesse caldo de repressão, chega um homem que será o catalizador da quimica que irá fazer a coisa virar, a crise se instalar e a catarsis se tornar possível.
Ele é um desajustado, arrogante, frio e hiper-masculino matuto. Homem que vem em fuga, pois cometeu em outra cidade o pior dos crimes para aquela sociedade conservadora, ateou fogo a propriedade alheia. Ao pedir emprego ao coronel, ele irá penetrar no coração da familia. Ele e o coronel são dois iguais e reconhecem isso. O velho o adota como herdeiro e com esse ato ele destrói o filho de sangue e empurra o forasteiro para a cama da filha "certinha".
Essa história, que feita sem habilidade poderia se tornar pesada ou até ridicula, nas mãos desta equipe se faz leve, ágil e sempre interessante. Paul Newman consolida aqui seu tipo de mal caráter adorável. Ninguém soube como ele, fazer tantos tipos de péssimos costumes em filmes, e mesmo assim ser gostável. Com este papel ele venceu em Cannes como melhor ator. Joanne Woodward se casou com ele durante as filmagens ( duraria toda a vida ). A filha domina o filme. Joanne era uma atriz de gênio. Este papel, todo para dentro, é uma tour de force em seu modo de falar e na maneira como ela olha para ele. Anthony Franciosa é o filho sofredor. Ator do Actors Studio, sua intensidade é exata. Orson Welles sofreu muito neste papel. A maquiagem o asfixiava e os outros atores eram do estilo moderno de atuar ( o estilo que é o de hoje ), ou seja, buscavam dentro de si o âmago do personagem. Orson era da moda antiga, atuar era criar uma persona. Os choques foram dificeis. Além do que, Orson não perdia sua mania de querer roubar as cenas e dirigir o filme. Mas o patriarca que ele nos dá é fantástico. Um prazer vê-lo nesse papel.
Porque hoje não nos dão mais tanta fartura em um filme? Penso que se filmado agora ( o que seria dificil ) apenas um dos personagens seria mostrado. O diretor iria o dissecar lentamente, e todos os outros seriam coadjuvantes.
Se voce é daqueles caras que estão começando a descobrir que havia cinema antes de Tarantino, esse momento de renovação no cinema americano é um bom caminho de aprendizado. Os filmes feitos entre 1954/1965 de Ritt, Lumet, Frankenheimer, Penn, Schaffner, Nichols, Jewison, Mulligan e etc. É uma boa safra para se preparar para os pratos mais raros e de gormand..
Bom apetite!
Um dos melhores representantes deste estilo de cinema é THE LONG, HOT SUMMER, que no Brasil recebeu o nome inacreditável de O Mercador de Almas ( Freud explica? ).
O roteiro, perfeito, de Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., condensa 6 contos de William Faulkner em duas horas. Milagrosamente dá certo. Quem dirigiu foi Martin Ritt, em seu terceiro filme, após triunfal carreira na TV.
Já se disse que se o sul tivesse vencido a guerra civil americana, os EUA seriam hoje o Brasil. Este filme mostra porque. Se passa na época contemporânea ( 1958 ) mas, feito no Tennessee, inspirado pelo muito sulista Faulkner, ele conta a história de um típico coronel ( que no Brasil seria um coroné do sertão ). Ele domina terras, comércio, politica e indústria de cidade. Gordo, falastrão, machista ( feito saborosamente por Orson Welles ), tudo o que ele deseja agora que está velho, é um neto. E para isso, como para tudo o mais, seu desejo é a única realidade. Na sua agressividade erótica, na sua sem-vergonhice, vemos o extremo amor a vida, o reino da libido pura. Esse coronel tem dois filhos. O filho-homem é um fraco. Seu único desejo é sexual, ele está enfeitiçado pela esposa, uma piranha sexy-jovem. O pai o despreza por isso e deixa isso claro. O filho se ressente, exibe seu sofrimento de filho não-amado e tentará matar o pai ( e ao fazer isso, readquire o respeito do pai. Sua cerimônia de entrada no mundo masculino é esse quase assassinato tabú ). A filha do coronel é uma insegura e auto-controlada professora idealista. Todo seu desejo, reprimido, é dirigido ao muito educado e calmo vizinho, um cavalheiro sulista a antiga, que irá se revelar gay. Nesse caldo de repressão, chega um homem que será o catalizador da quimica que irá fazer a coisa virar, a crise se instalar e a catarsis se tornar possível.
Ele é um desajustado, arrogante, frio e hiper-masculino matuto. Homem que vem em fuga, pois cometeu em outra cidade o pior dos crimes para aquela sociedade conservadora, ateou fogo a propriedade alheia. Ao pedir emprego ao coronel, ele irá penetrar no coração da familia. Ele e o coronel são dois iguais e reconhecem isso. O velho o adota como herdeiro e com esse ato ele destrói o filho de sangue e empurra o forasteiro para a cama da filha "certinha".
Essa história, que feita sem habilidade poderia se tornar pesada ou até ridicula, nas mãos desta equipe se faz leve, ágil e sempre interessante. Paul Newman consolida aqui seu tipo de mal caráter adorável. Ninguém soube como ele, fazer tantos tipos de péssimos costumes em filmes, e mesmo assim ser gostável. Com este papel ele venceu em Cannes como melhor ator. Joanne Woodward se casou com ele durante as filmagens ( duraria toda a vida ). A filha domina o filme. Joanne era uma atriz de gênio. Este papel, todo para dentro, é uma tour de force em seu modo de falar e na maneira como ela olha para ele. Anthony Franciosa é o filho sofredor. Ator do Actors Studio, sua intensidade é exata. Orson Welles sofreu muito neste papel. A maquiagem o asfixiava e os outros atores eram do estilo moderno de atuar ( o estilo que é o de hoje ), ou seja, buscavam dentro de si o âmago do personagem. Orson era da moda antiga, atuar era criar uma persona. Os choques foram dificeis. Além do que, Orson não perdia sua mania de querer roubar as cenas e dirigir o filme. Mas o patriarca que ele nos dá é fantástico. Um prazer vê-lo nesse papel.
Porque hoje não nos dão mais tanta fartura em um filme? Penso que se filmado agora ( o que seria dificil ) apenas um dos personagens seria mostrado. O diretor iria o dissecar lentamente, e todos os outros seriam coadjuvantes.
Se voce é daqueles caras que estão começando a descobrir que havia cinema antes de Tarantino, esse momento de renovação no cinema americano é um bom caminho de aprendizado. Os filmes feitos entre 1954/1965 de Ritt, Lumet, Frankenheimer, Penn, Schaffner, Nichols, Jewison, Mulligan e etc. É uma boa safra para se preparar para os pratos mais raros e de gormand..
Bom apetite!
O DIA EM QUE JAMES BROWN SALVOU A AMÉRICA
A ROLLING STONE gringa ( não sei se saiu aqui ) conta uma saga que um dia há de virar filme.
Quando em 1968 Martin Luther King foi morto, toda a nação branca esperava pelo pior. Com os Black Panthers armados e todo aquele clima de sexo e anarquia, era certa a guerra civil entre brancos x negros. Foi aí que o milagre aconteceu.
No dia seguinte ao assassinato, James Brown começou a percorrer todas as estradas, a ir à todas as rádios e Tvs pedindo para que seus irmãos não fossem para a guerra. Que continuassem sua missão pela igualdade, mas que não partissem para o confronto ( seriam massacrados ).
I'm Black and I'm Proud começou a tocar direto nos rádios e o pior foi evitado. James Brown, The Godfather of Soul, salvou a barra. O que aconteceria se ele não tivesse corrido pra rua ? Centenas de mortos, toda a luta pelos direitos civis regredindo, ânimos acirrados e líderes maléficos se promovendo.
Não conheço ninguém no pop que tenha feito algo parecido.
Quanto mais eu conheço a história da música, mais eu compreendo o quanto Brown foi gigante.
O cara mandava prender e mandava soltar.
Quando em 1968 Martin Luther King foi morto, toda a nação branca esperava pelo pior. Com os Black Panthers armados e todo aquele clima de sexo e anarquia, era certa a guerra civil entre brancos x negros. Foi aí que o milagre aconteceu.
No dia seguinte ao assassinato, James Brown começou a percorrer todas as estradas, a ir à todas as rádios e Tvs pedindo para que seus irmãos não fossem para a guerra. Que continuassem sua missão pela igualdade, mas que não partissem para o confronto ( seriam massacrados ).
I'm Black and I'm Proud começou a tocar direto nos rádios e o pior foi evitado. James Brown, The Godfather of Soul, salvou a barra. O que aconteceria se ele não tivesse corrido pra rua ? Centenas de mortos, toda a luta pelos direitos civis regredindo, ânimos acirrados e líderes maléficos se promovendo.
Não conheço ninguém no pop que tenha feito algo parecido.
Quanto mais eu conheço a história da música, mais eu compreendo o quanto Brown foi gigante.
O cara mandava prender e mandava soltar.
AS 600 MELHORES CANÇÕES DOS ÚLTIMOS 60 ANOS ( 1949/2009 )
Bem.... se voce quiser uma aula de pop dê uma olhada no YouTube. Digite o título acima que vai aparecer um vídeo com todas as canções, cinco segundos de cada uma em ordem alfabética.
A lista é discutível, como toda lista é. Mas dá pra perceber como o pop dos últimos dez anos caiu de nível. É um monte de rocks que repetem tudo o que foi feito em décadas passadas e r and b de proveta. Mas o mais discutível ( e que várias pessoas reclamam ) são as injustiças da lista. Nenhuma canção de Johnny Cash !!!! Essa é a maior reclamação dos leitores. Nem umazinha ? Pessoas ainda reclamam da ausência de Iggy Pop ( nem Lust for Life ) , de só haver uma de Eric Clapton ( uma !!!! ) e uma de Paul MacCartney ( botaram só Maybe I'm Amazed.... ); enquanto temos coisas como Styx, Yes e Judas Priest.
Eu acho também muito ridículo só ter 3 músicas de Bowie e uma de Lou Reed. Isso não reflete a imensa influência dos dois gênios do pop urbano. Mas....
A década com o maior número de faixas é a de 50 e os Beatles, com 9 músicas, são os mais citados. Depois vem Elvis e Dylan com 8 e os Stones e o Led Zeppelin com 7. Nada a reclamar. Mas é chato não ver Midnight Rambler ou Hurricane entre elas.
Para quem não sabe, após um desbunde pelo rock inglês nos anos 60, a América começou nos anos 70 a desconfiar de tudo que vinha da ilha. Nesse momento, coisas que eram hit absoluto em Londres mal eram conhecidos nos EUA. Slade, T.Rex, Suzi Quatro, Roxy Music, Mott the Hoople e até mesmo Bowie e Queen não eram nem sombra na América do que eram na Europa. E mesmo aquilo que era inglês, mas apesar da divulgação ruim, conseguia vender muito nos EUA ,era execrado pela crítica yankee, sendo o Led Zeppelin a maior vítima desse preconceito. Para os críticos da América, o Led era lixo. Isso só mudaria a partir dos anos 80, quando Clash, Police e Pretenders abririam novamente o mercado americano ( e a cabeça da crítica ) para o rock inglês. Então é um prazer ver o Led Zeppelin com sete músicas, enquanto os ídolos da critica americana, que eram Bruce Springsteen, Joni Mitchell e Paul Simon, com três, cada.
Elton John, sem preconceitos, vem com cinco faixas, mesmo número de Madonna, Prince e Michael Jackson. Elton é um gênio do pop e entre 1971/1976 sua produção de jóias aproximou-se daquela que os Beatles tinham ( com a diferença de que ele era só um ).
Ouvindo todos esses 600 momentos, fica a certeza de que a música negra dá de pau, e é preciso ser muito racista ( ou ruim de cintura ) para não perceber isso. Quando a audição começa a ficar chata, lá vem um hit black erguer o nível. As vozes de Otis Redding, de Sam Cooke e principalmente de Aretha Franklyn são insuperáveis. Chegam a humilhar todo o resto. E vem a sequencia de James Brown ( o mais inovador gênio da história do disco ) com seis gigantescos momentos de criatividade/feelin/groove, e aquela voz que é um aaaaaayeeeeeerrrrgh ! Good God!!!!
Sly Stone, a maior banda da história do groove tem cinco hits na lista ( quem fez teatro comigo vai lembrar de uma delas ) e Stevie Wonder outras cinco. Marvin Gaye, Wilson Pickett, Temptations... todos com cinco ou seis músicas. Muito legal ! War é lembrado com Low Rider, uma das minhas top ten e todo o bando inglês dos anos 60 ( inclusive os Bee Gees e os Dave Clark Five ) estão lá lembrados. E é ótimo ver os Kinks com 3 músicas ! Consertam os erros dos anos 70 lembrando do Mott The Hoople e do T.Rex e dão até uma faixa pro Roxy Music. ( Eles mereciam, no barato, três ). O Queen, plenamente revalorizado, vem com quatro músicas, mas só uma pro Kraftwerk ? E passaram em branco pelo punk. Dois Sex Pistols, dois Clash e dois Ramones e é só. Mais nada. Bom, o que dizer? Do Velvet botaram só Heroin !
Claro que há o problema do gosto pessoal, do espaço... mas tem até Rihanna e Usher ! Custava mais uma do Who ( só três ) e outra de Rod Stewart ( só Maggie May ) ?
De qualquer modo, se voce começa a ouvir música agora, entra lá.
PS: Como é uma lista pop, nada de J J Cale, nada de Kevin Ayers e nada de Gram Parsons ( aliás há uma terrível má vontade com o country ), mas apenas pela presença daqueles momentos absurdos de Otis, Aretha, James Brown e cia, já vale a conferida.
Instrua-se e se divirta!!!
A lista é discutível, como toda lista é. Mas dá pra perceber como o pop dos últimos dez anos caiu de nível. É um monte de rocks que repetem tudo o que foi feito em décadas passadas e r and b de proveta. Mas o mais discutível ( e que várias pessoas reclamam ) são as injustiças da lista. Nenhuma canção de Johnny Cash !!!! Essa é a maior reclamação dos leitores. Nem umazinha ? Pessoas ainda reclamam da ausência de Iggy Pop ( nem Lust for Life ) , de só haver uma de Eric Clapton ( uma !!!! ) e uma de Paul MacCartney ( botaram só Maybe I'm Amazed.... ); enquanto temos coisas como Styx, Yes e Judas Priest.
Eu acho também muito ridículo só ter 3 músicas de Bowie e uma de Lou Reed. Isso não reflete a imensa influência dos dois gênios do pop urbano. Mas....
A década com o maior número de faixas é a de 50 e os Beatles, com 9 músicas, são os mais citados. Depois vem Elvis e Dylan com 8 e os Stones e o Led Zeppelin com 7. Nada a reclamar. Mas é chato não ver Midnight Rambler ou Hurricane entre elas.
Para quem não sabe, após um desbunde pelo rock inglês nos anos 60, a América começou nos anos 70 a desconfiar de tudo que vinha da ilha. Nesse momento, coisas que eram hit absoluto em Londres mal eram conhecidos nos EUA. Slade, T.Rex, Suzi Quatro, Roxy Music, Mott the Hoople e até mesmo Bowie e Queen não eram nem sombra na América do que eram na Europa. E mesmo aquilo que era inglês, mas apesar da divulgação ruim, conseguia vender muito nos EUA ,era execrado pela crítica yankee, sendo o Led Zeppelin a maior vítima desse preconceito. Para os críticos da América, o Led era lixo. Isso só mudaria a partir dos anos 80, quando Clash, Police e Pretenders abririam novamente o mercado americano ( e a cabeça da crítica ) para o rock inglês. Então é um prazer ver o Led Zeppelin com sete músicas, enquanto os ídolos da critica americana, que eram Bruce Springsteen, Joni Mitchell e Paul Simon, com três, cada.
Elton John, sem preconceitos, vem com cinco faixas, mesmo número de Madonna, Prince e Michael Jackson. Elton é um gênio do pop e entre 1971/1976 sua produção de jóias aproximou-se daquela que os Beatles tinham ( com a diferença de que ele era só um ).
Ouvindo todos esses 600 momentos, fica a certeza de que a música negra dá de pau, e é preciso ser muito racista ( ou ruim de cintura ) para não perceber isso. Quando a audição começa a ficar chata, lá vem um hit black erguer o nível. As vozes de Otis Redding, de Sam Cooke e principalmente de Aretha Franklyn são insuperáveis. Chegam a humilhar todo o resto. E vem a sequencia de James Brown ( o mais inovador gênio da história do disco ) com seis gigantescos momentos de criatividade/feelin/groove, e aquela voz que é um aaaaaayeeeeeerrrrgh ! Good God!!!!
Sly Stone, a maior banda da história do groove tem cinco hits na lista ( quem fez teatro comigo vai lembrar de uma delas ) e Stevie Wonder outras cinco. Marvin Gaye, Wilson Pickett, Temptations... todos com cinco ou seis músicas. Muito legal ! War é lembrado com Low Rider, uma das minhas top ten e todo o bando inglês dos anos 60 ( inclusive os Bee Gees e os Dave Clark Five ) estão lá lembrados. E é ótimo ver os Kinks com 3 músicas ! Consertam os erros dos anos 70 lembrando do Mott The Hoople e do T.Rex e dão até uma faixa pro Roxy Music. ( Eles mereciam, no barato, três ). O Queen, plenamente revalorizado, vem com quatro músicas, mas só uma pro Kraftwerk ? E passaram em branco pelo punk. Dois Sex Pistols, dois Clash e dois Ramones e é só. Mais nada. Bom, o que dizer? Do Velvet botaram só Heroin !
Claro que há o problema do gosto pessoal, do espaço... mas tem até Rihanna e Usher ! Custava mais uma do Who ( só três ) e outra de Rod Stewart ( só Maggie May ) ?
De qualquer modo, se voce começa a ouvir música agora, entra lá.
PS: Como é uma lista pop, nada de J J Cale, nada de Kevin Ayers e nada de Gram Parsons ( aliás há uma terrível má vontade com o country ), mas apenas pela presença daqueles momentos absurdos de Otis, Aretha, James Brown e cia, já vale a conferida.
Instrua-se e se divirta!!!
JACQUES TATI/ JOHN WOO/ ARONOFSKI/ ALDRICH/ IRMÃOS COEN
O MATADOR de John Woo com Chow Yun Fat
Maravilhosas cenas de tiroteios ( coreografadas ) e uma insuportável trilha sonora. No meio dos anos 90 Woo era chamado de "a esperança" do cinema de ação. Depois do horroroso Windtalkers desapareceu. Mas o homem tem um talento imenso para o movimento. Nota 6.
AS FÉRIAS DO SR.HULOT de Jacques Tati
O paraíso. Vemos pessoas que se dirigem à praia. Lá, sem diálogos e com trilha sonora ( de jazz ) observamos o que acontece: banhos de sol, jantares e cafés, discos na vitrola, fogos de artificio, carro que quebra, sono e jogos de xadrez e cartas. Nada de diferente da vida banal. Mas o milagre é esse, mostrando a banalidade Tati se torna único. Um gênio? Com certeza, pois o genial é ver o sublime e o original na banalidade e conseguir transmitir aos outros essa visão única e especial. O filme é o mais "feliz" já feito. Se houvesse um paraíso seria aquela praia. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
CISNE NEGRO de Darren Aronofski com Natalie Portman, Vincent Cassel e Barbara Herschey
Darren andou assistindo Red Shoes de Michael Powell.... e o misturou com Roman Polanski ( aquele de Cul de Sac e de O Inquilino ). Este filme também pode ser visto como The Wrestler, versão feminina. A bailarina é tão terminal quanto o lutador de Rourke. E vemos seu corpo em processo de destruição, como no outro filme. Sangue, agulhas, lâminas, suor e loucura. Paranóia. É um filme de horror, de desgosto e de putrefação. Mas a questão é: isso interessa a alguém? Não sei responder....Quem tiver dúvidas do talento de Darren, basta prestar atenção nos cinco primeiros minutos e nos quinze finais. Darren Aronofski é amante do budismo e dá para se perceber isso. Sua visão da realidade do corpo e da forma é feita de dor e de sacrificio, é como se todo invólucro fosse uma prisão. Espero agora que ele prove ser grande, fugindo desse seu mundo que começa a parecer cliché. Natalie está bem. Barbara está ok. Winona está Winona. Nota 7.
O IMPERADOR DO NORTE de Robert Aldrich com Lee Marvin e Ernest Bognine
Na década de 30, em plena depressão, vagabundos tentam pegar carona em trem. Mas o vigia feroz não permite. O filme é só isso. Mas Aldrich sabe tudo sobre aventura e faz um filme muito correto. Com uma falha grave. A trilha sonora é um absurdo! Parece ser de uma comédia romântica! Isso destrói todo o clima miserável e fatalista do resto. Mas tem Lee Marvin e isso é muuuuuito bom. Nota 5.
BRAVURA INDÔMITA de Joel e Ethan Coen com Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper e Hailee Steinfeld
Não é uma HQ. E não é um filme com toques e estilo "muito louco". Não fala "umas verdades da vida" e não posa de "arte pessoal". Apenas um filme que conta uma história. Uma história de vingança. E que tem ótimos diálogos, excelente fotografia e atores dando o máximo. E com toda essa simplicidade, essa falta de afetação, é um sucesso de público e de crítica. Bem... ele atesta a maravilhosa versatilidade dos irmãos Coen. De Fargo a Lebowski, passando pelo melhor filme dos anos 2000 ( Onde Os Fracos Não Têm Vez ) e várias excelentes comédias, eles não se cansam de provar serem os diretores melhor dotados de sua geração. Aqui, finalmente fazendo western ( o nome Ethan Coen foi dado pelo pai em homenagem ao Ethan de John Wayne em Rastros de Ódio. Ethan Hawke também... ), este filme é um remake de True Grit, filme de Henry Hathaway que deu Oscar de ator em 1969 para Wayne ( batendo Dustin Hoffman em Perdidos Na Noite... sim, foi uma injustiça... mas John Wayne merecia um prêmio antes de morrer.... ). Jeff Bridges é sábio, ele faz um Rooster que não tenta se parecer com John Wayne. Continua sendo um velho beberrão e sujo, mas Wayne lhe dava uma autoridade moral que aqui é substituida por um humor mais assumido. Matt Damon mostra que poderia ser um novo cowboy se existissem papéis para cowboys hoje. De bigode e sujo, Damon perde todo seu jeito de bom moço e se torna um belo tipo. Mas o filme é de Hailee. Que atuação mágica! Ela vai da tristeza a alegria, da desconfiança ao afeto com firmeza e competência. Tem tudo para marcar sua geração. Atenção para a cena final de Bridges. Uma cavalgada noturna que é uma nobre e poética homenagem a vários westerns. Finalmente alguém consegue fazer um filme de cowboys "como nos velhos tempos". Nada saudosista, nada revisionista, nada satirico, sem filosofadas. Apenas um competente, sincero, sensível e emocionante faroeste. Quem precisa mais? O cinema está lotado de pretensos Bergmans, pequenos Godards e principalmente novos Antonionis. Aqui temos um bonito Anthony Mann.... Que alivio! Nota 9.
Maravilhosas cenas de tiroteios ( coreografadas ) e uma insuportável trilha sonora. No meio dos anos 90 Woo era chamado de "a esperança" do cinema de ação. Depois do horroroso Windtalkers desapareceu. Mas o homem tem um talento imenso para o movimento. Nota 6.
AS FÉRIAS DO SR.HULOT de Jacques Tati
O paraíso. Vemos pessoas que se dirigem à praia. Lá, sem diálogos e com trilha sonora ( de jazz ) observamos o que acontece: banhos de sol, jantares e cafés, discos na vitrola, fogos de artificio, carro que quebra, sono e jogos de xadrez e cartas. Nada de diferente da vida banal. Mas o milagre é esse, mostrando a banalidade Tati se torna único. Um gênio? Com certeza, pois o genial é ver o sublime e o original na banalidade e conseguir transmitir aos outros essa visão única e especial. O filme é o mais "feliz" já feito. Se houvesse um paraíso seria aquela praia. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
CISNE NEGRO de Darren Aronofski com Natalie Portman, Vincent Cassel e Barbara Herschey
Darren andou assistindo Red Shoes de Michael Powell.... e o misturou com Roman Polanski ( aquele de Cul de Sac e de O Inquilino ). Este filme também pode ser visto como The Wrestler, versão feminina. A bailarina é tão terminal quanto o lutador de Rourke. E vemos seu corpo em processo de destruição, como no outro filme. Sangue, agulhas, lâminas, suor e loucura. Paranóia. É um filme de horror, de desgosto e de putrefação. Mas a questão é: isso interessa a alguém? Não sei responder....Quem tiver dúvidas do talento de Darren, basta prestar atenção nos cinco primeiros minutos e nos quinze finais. Darren Aronofski é amante do budismo e dá para se perceber isso. Sua visão da realidade do corpo e da forma é feita de dor e de sacrificio, é como se todo invólucro fosse uma prisão. Espero agora que ele prove ser grande, fugindo desse seu mundo que começa a parecer cliché. Natalie está bem. Barbara está ok. Winona está Winona. Nota 7.
O IMPERADOR DO NORTE de Robert Aldrich com Lee Marvin e Ernest Bognine
Na década de 30, em plena depressão, vagabundos tentam pegar carona em trem. Mas o vigia feroz não permite. O filme é só isso. Mas Aldrich sabe tudo sobre aventura e faz um filme muito correto. Com uma falha grave. A trilha sonora é um absurdo! Parece ser de uma comédia romântica! Isso destrói todo o clima miserável e fatalista do resto. Mas tem Lee Marvin e isso é muuuuuito bom. Nota 5.
BRAVURA INDÔMITA de Joel e Ethan Coen com Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper e Hailee Steinfeld
Não é uma HQ. E não é um filme com toques e estilo "muito louco". Não fala "umas verdades da vida" e não posa de "arte pessoal". Apenas um filme que conta uma história. Uma história de vingança. E que tem ótimos diálogos, excelente fotografia e atores dando o máximo. E com toda essa simplicidade, essa falta de afetação, é um sucesso de público e de crítica. Bem... ele atesta a maravilhosa versatilidade dos irmãos Coen. De Fargo a Lebowski, passando pelo melhor filme dos anos 2000 ( Onde Os Fracos Não Têm Vez ) e várias excelentes comédias, eles não se cansam de provar serem os diretores melhor dotados de sua geração. Aqui, finalmente fazendo western ( o nome Ethan Coen foi dado pelo pai em homenagem ao Ethan de John Wayne em Rastros de Ódio. Ethan Hawke também... ), este filme é um remake de True Grit, filme de Henry Hathaway que deu Oscar de ator em 1969 para Wayne ( batendo Dustin Hoffman em Perdidos Na Noite... sim, foi uma injustiça... mas John Wayne merecia um prêmio antes de morrer.... ). Jeff Bridges é sábio, ele faz um Rooster que não tenta se parecer com John Wayne. Continua sendo um velho beberrão e sujo, mas Wayne lhe dava uma autoridade moral que aqui é substituida por um humor mais assumido. Matt Damon mostra que poderia ser um novo cowboy se existissem papéis para cowboys hoje. De bigode e sujo, Damon perde todo seu jeito de bom moço e se torna um belo tipo. Mas o filme é de Hailee. Que atuação mágica! Ela vai da tristeza a alegria, da desconfiança ao afeto com firmeza e competência. Tem tudo para marcar sua geração. Atenção para a cena final de Bridges. Uma cavalgada noturna que é uma nobre e poética homenagem a vários westerns. Finalmente alguém consegue fazer um filme de cowboys "como nos velhos tempos". Nada saudosista, nada revisionista, nada satirico, sem filosofadas. Apenas um competente, sincero, sensível e emocionante faroeste. Quem precisa mais? O cinema está lotado de pretensos Bergmans, pequenos Godards e principalmente novos Antonionis. Aqui temos um bonito Anthony Mann.... Que alivio! Nota 9.
MUNDO HOJE : AS CORREÇÕES, JOHNATHAN FRAZEN
Estou lendo AS CORREÇÕES de Johnathan Frazen. Infelizmente são apenas 600 páginas. Queria que fossem 1.000. Um prazer ler um livro escrito hoje ( é desta década ) de enorme sucesso ( o autor é considerado o melhor escritor americano jovem ), que não tem um só personagem que seja o alter-ego do autor. Nada de primeira pessoa, nada de confessional. Com Frazen estamos de volta ao mundo que nos deu Stendhal e Dickens, o mundo onde se fertilizam as páginas em branco. Frazen cria gente, cria diálogos, cria cenários e jamais tenta ser "original". Johnathan Frazen sabe escrever e escreve com imenso prazer, portanto, não precisa ser esquisito.
Seu livro vicia. E, obra-prima que é, mostra um painel apurado sobre o mundo de hoje. É indispensável para antropólogos, psicólogos e vários ologos mais. Exibe as feridas, não suaviza, e pasmem, diverte muito. ( Jamais sendo engraçadinho ).
Um casal de velhos do meio-oeste americano. Ele começa a ficar senil. Foi sempre um mandão bem sucedido. Ela ainda tenta acreditar que tudo vai bem. É uma hipócrita. Têm três filhos. A mais nova é uma chef de cuisine de sucesso que trabalha como uma escrava. Trintona bonita, racional, seca, secretamente insegura, divorciada. O filho do meio é um fracasso. Falha em vários projetos, ainda tenta parecer adolescente ( tem mais de trinta ) e se envolve com máfia da Lituânia. Seu maior problema é só pensar em sexo. E o mais velho, muito bem de vida, três filhos e linda esposa, mas que se afunda na sensação de que "algo que eu devia perceber não é percebido". Ele vê a vida como quimica, e está sempre pensando no equilibrio de seu cérebro. Tem pavor da depressão. Caroline, sua esposa, tem certeza de ser feliz. Excelente mãe, lê toneladas de livros de Phds em psicologia comportamental, e por ter tido sucesso na análise, vomita saúde mental para todos. Para ela, livros e filmes só se forem úteis.
O que esses livros dizem? Que sofrimento não é útil e que portanto sofrer é ser egoísta. Que todo adulto deve se guiar pelos jovens, pois eles são o futuro e o futuro será reino de felicidade. Que as crianças sabem tudo e têm muito a nos ensinar, pois elas já nascem fazendo parte desse maravilhoso mundo da informação.
Frazen nunca comenta nada. Ele narra. Confia em seus leitores. Não nos dirige, espera que tiremos nossas conclusões. Ainda estou na página 200, mas preciso dizer que se voce tiver de ler só um livro dos anos 2000 é este. ( Sebald é de 1995 ). E me faz pensar....
Há algo de Saul Bellow em sua abrangência. Mas a geração de Bellow era a geração da ansiedade. Eles queriam demais, e sofriam por não conseguir. Aqui estamos na geração da depressão. O prazer de hoje perde todo seu valor amanhã. Mas o buraco mostrado no livro é mais profundo.
Todos eles negam seus pais. Tudo o que eles desejam é ser o mais diferente possível daquilo que eles foram. Então evitam igreja, vizinhos, parentes, empregos comuns, casamentos longos, machismo, autoritarismo. Isso é consciente e é positivo. O problema é que não existe nada para se colocar no lugar. O que vemos é uma geração de homens com raiva das mulheres por se sentirem ameaçados pela força delas, e uma geração de mulheres rancorosas por acharem que os homens são inseguros. Não existe a menor comunicação entre eles. A vida de casado é mostrada como uma série de provas e provações e a vida de solteiro como uma longa fissura por sexo e companhia.
Os filhos, com idades entre 8 e 13 anos, são manobráveis. Um deles tem como grande objetivo montar um sistema de vigia em toda a casa. Câmeras na cozinha, salas, quartos.... E o pai só tem uma preocupação: estarei deprimido?
Mas a coisa vai mais fundo.
O mundo da ciência tem se tornado cada vez mais perfeito. Tudo é funcional, limpo, exato, sem falhas. Mas nós somos sujos, emotivos, inexatos, cheios de falhas e imprevisíveis. O problema geral é : TEMOS DE SER COMO MÁQUINAS: Perfeitos. Recauchutar, trocar, reciclar, realinhar, dar um brilho, acoplar mais potência...em nós mesmos!!!! Temos de FUNCIONAR. Daí, sabendo que nos tornamos supérfluos, tentamos a todo custo ser como um carro zero, um PC de último tipo: inteligentes, cheios de brilho, novos e úteis. Nesse mundo, todos os livros de auto-ajuda tentam fazer com que a pessoa funcione bem. Se adapte ao mecanismo geral. Mas veja:
Se as máquinas trabalham melhor, lutam melhor, planejam melhor e são mais rápidas e limpas, qual nosso papel na vida? Nos restou apenas um- fazer o dinheiro rodar. Máquinas ainda não compram. O homem saudável hoje é o consumidor. O deprimido deixa de comprar ( deixava, hoje compra remédios ), deixa de viajar, deixa de ir a baladas, deixa de fazer a única coisa que justifica a vida nestes nossos dias : SE DIVERTIR.
Porque se na geração dos pais dos personagens, tudo se justificava na tradição, na "boa" familia; hoje a única razão de viver é a diversão. Rir, estar sempre em movimento, fazer sem refletir e consumir muito e alegremente. Ser feliz confunde-se com se divertir ( tanto que muitos não sabem mais a diferença. É como se felicidade e diversão tivessem se tornado sinônimos ).
O livro exibe tudo isso sem perder a linha. Nada de panfletagem, nada de comentários do autor, nada de teses. A história corre, os diálogos se vão, a vida é exibida sem grandes exageros, e nós vamos, com horror e com satisfação, vendo a vida como ela ocorre agora.
Acreditem em mim, este livro é obrigatório.
Quando o terminar de ler conto mais.....
Seu livro vicia. E, obra-prima que é, mostra um painel apurado sobre o mundo de hoje. É indispensável para antropólogos, psicólogos e vários ologos mais. Exibe as feridas, não suaviza, e pasmem, diverte muito. ( Jamais sendo engraçadinho ).
Um casal de velhos do meio-oeste americano. Ele começa a ficar senil. Foi sempre um mandão bem sucedido. Ela ainda tenta acreditar que tudo vai bem. É uma hipócrita. Têm três filhos. A mais nova é uma chef de cuisine de sucesso que trabalha como uma escrava. Trintona bonita, racional, seca, secretamente insegura, divorciada. O filho do meio é um fracasso. Falha em vários projetos, ainda tenta parecer adolescente ( tem mais de trinta ) e se envolve com máfia da Lituânia. Seu maior problema é só pensar em sexo. E o mais velho, muito bem de vida, três filhos e linda esposa, mas que se afunda na sensação de que "algo que eu devia perceber não é percebido". Ele vê a vida como quimica, e está sempre pensando no equilibrio de seu cérebro. Tem pavor da depressão. Caroline, sua esposa, tem certeza de ser feliz. Excelente mãe, lê toneladas de livros de Phds em psicologia comportamental, e por ter tido sucesso na análise, vomita saúde mental para todos. Para ela, livros e filmes só se forem úteis.
O que esses livros dizem? Que sofrimento não é útil e que portanto sofrer é ser egoísta. Que todo adulto deve se guiar pelos jovens, pois eles são o futuro e o futuro será reino de felicidade. Que as crianças sabem tudo e têm muito a nos ensinar, pois elas já nascem fazendo parte desse maravilhoso mundo da informação.
Frazen nunca comenta nada. Ele narra. Confia em seus leitores. Não nos dirige, espera que tiremos nossas conclusões. Ainda estou na página 200, mas preciso dizer que se voce tiver de ler só um livro dos anos 2000 é este. ( Sebald é de 1995 ). E me faz pensar....
Há algo de Saul Bellow em sua abrangência. Mas a geração de Bellow era a geração da ansiedade. Eles queriam demais, e sofriam por não conseguir. Aqui estamos na geração da depressão. O prazer de hoje perde todo seu valor amanhã. Mas o buraco mostrado no livro é mais profundo.
Todos eles negam seus pais. Tudo o que eles desejam é ser o mais diferente possível daquilo que eles foram. Então evitam igreja, vizinhos, parentes, empregos comuns, casamentos longos, machismo, autoritarismo. Isso é consciente e é positivo. O problema é que não existe nada para se colocar no lugar. O que vemos é uma geração de homens com raiva das mulheres por se sentirem ameaçados pela força delas, e uma geração de mulheres rancorosas por acharem que os homens são inseguros. Não existe a menor comunicação entre eles. A vida de casado é mostrada como uma série de provas e provações e a vida de solteiro como uma longa fissura por sexo e companhia.
Os filhos, com idades entre 8 e 13 anos, são manobráveis. Um deles tem como grande objetivo montar um sistema de vigia em toda a casa. Câmeras na cozinha, salas, quartos.... E o pai só tem uma preocupação: estarei deprimido?
Mas a coisa vai mais fundo.
O mundo da ciência tem se tornado cada vez mais perfeito. Tudo é funcional, limpo, exato, sem falhas. Mas nós somos sujos, emotivos, inexatos, cheios de falhas e imprevisíveis. O problema geral é : TEMOS DE SER COMO MÁQUINAS: Perfeitos. Recauchutar, trocar, reciclar, realinhar, dar um brilho, acoplar mais potência...em nós mesmos!!!! Temos de FUNCIONAR. Daí, sabendo que nos tornamos supérfluos, tentamos a todo custo ser como um carro zero, um PC de último tipo: inteligentes, cheios de brilho, novos e úteis. Nesse mundo, todos os livros de auto-ajuda tentam fazer com que a pessoa funcione bem. Se adapte ao mecanismo geral. Mas veja:
Se as máquinas trabalham melhor, lutam melhor, planejam melhor e são mais rápidas e limpas, qual nosso papel na vida? Nos restou apenas um- fazer o dinheiro rodar. Máquinas ainda não compram. O homem saudável hoje é o consumidor. O deprimido deixa de comprar ( deixava, hoje compra remédios ), deixa de viajar, deixa de ir a baladas, deixa de fazer a única coisa que justifica a vida nestes nossos dias : SE DIVERTIR.
Porque se na geração dos pais dos personagens, tudo se justificava na tradição, na "boa" familia; hoje a única razão de viver é a diversão. Rir, estar sempre em movimento, fazer sem refletir e consumir muito e alegremente. Ser feliz confunde-se com se divertir ( tanto que muitos não sabem mais a diferença. É como se felicidade e diversão tivessem se tornado sinônimos ).
O livro exibe tudo isso sem perder a linha. Nada de panfletagem, nada de comentários do autor, nada de teses. A história corre, os diálogos se vão, a vida é exibida sem grandes exageros, e nós vamos, com horror e com satisfação, vendo a vida como ela ocorre agora.
Acreditem em mim, este livro é obrigatório.
Quando o terminar de ler conto mais.....
O MALDITO: ÀS AVESSAS, LIVRO DE J.K.HUYSMANS
Ciclos, todo tempo nega seu antecessor imediato. O garoto dos anos 80 odiava o doidão dos anos 70, e essa década, a de 1970, seria amada pelos anos 90. Toda arte é assim e em literatura isso é ainda mais flagrante.
Os românticos abominavam os livros do classicismo e os realistas/naturalistas negavam o romantismo. Mas em fins do século XIX vem o simbolismo recuperar o mito romântico. E nesse mundo de cores, impressões vagas e dandismo, nada é mais radical que este livro. Livro que também poderia ser chamado de DIÁRIO DE UMA NEUROSE.
O que move seu personagem, Des Esseintes, é o nojo, o desgosto e a náusea. O mundo que ele vê é um universo onde o comércio é rei. Tudo é dominado pelo lucro, pelo comum e banal, pela América de novos ricos e de vulgaridade histérica. Para lutar contra isso ( que é aliás a luta de todo simbolista. Os românticos odiavam a era industrial, os simbolistas radicalizam isso e odeiam tudo o que seja "comum" ), des Esseintes isola-se em palácio. Lá ele criará seu próprio mundo, mundo que será sua imagem, um tipo de espelho que remete a sí-mesmo. O livro, esquisito ao extremo, não tem ação, é a descrição desse palácio, desse cenário e dos sentimentos do personagem.
Salas com plantas carnívoras, salas com aquários gigantes e perfumes de areia e mar, salas londrinas e salas que são como infernos vermelhos. Des Esseintes cria ambientes, continentes, realidades virtuais. Se o mundo se tornou algo que o desgosta, ele criará seu próprio universo; e esse universo é ele-mesmo; fato de todo neurótico, ele é incapaz de sair de dentro de seu delirio, seu único interesse verdadeiro é seu próprio estado, ele ama obsessivamente seu sintoma.
Mas há mais. A virtualidade das células ilusórias de nosso mundo atual sem contatos de risco, já está antecipada aqui. Ele "viaja" a Londres comendo comida inglesa, sentindo cheiros londrinos e se cercando de um ambiente inglês. Em sua casa Londres é mais londrina que a Londres real. O livro me lembra muito certos filmes de Alain Resnais ( Marienbad principalmente ) com seu mundo fechado; é um livro "do mal", asfixiante.
Ficamos sabendo de seus gostos. Ele só admite aquilo que as massas não conhecem. Se um livro, um pintor ou um músico é um sucesso não poderá ter qualquer valor. É um fato: para todo simbolista a unaminidade é idiota. Assim, ele ama Moreau e Redon em pintura, Poe e Baudelaire em poesia, a filosofia de Schopenhauer e textos de vários escritores "malditos". Pois des Esseintes é atráido por tudo aquilo que desgosta o homem-comum, ele adora tudo o que é satânico, tudo o que é doentio, sujo, drogado, sexualmente mórbido, amoral e apodrecido. Seu extremado esnobismo é um dandismo que tende a doença e a morte, porque o homem vulgar teme acima de tudo aquilo que é podre, sifilitico, infernal. Ele provará drogas, ficará doente, terá alucinações, amores com mulheres masculinas, com mulheres doentes, com mocinhos frágeis, usará as pessoas e, terrível maldição, sentirá um tédio sem fim.
Pois nesse mundo auto-criado, o tédio é sempre o perigo. Tudo é provado por des Essientes, e tudo é jogado fora. As coisas se tornam sombras, perdem a urgência, o sabor. Chegando ao fim do livro ele se depara com a escolha : ou o revólver ou a cruz.
É fato, muitos simbolistas acabam se tornando católicos. Aquele tipo de católico que se veste de preto e faz preces em latim. O carola extremado, que condena todo pecado. Numa visão superficial, essa conversão pode parecer arrependimento pelos pecados passados, mas não é. No catolicismo o simbolista radical vê o mergulho definitivo no "mundo fora do planeta burguês", em terra que não faz parte de indústria/ciência e comércio, em plano simbólico que se alimenta de imaterialidade. E além de tudo, uma crença, que quando é radicalizada, se torna a mais esnobe e conservadora das fés, a crença católica, com seus bispos e cardeais, seus dogmas incompreensíveis e suas igrejas de ouro e de exorcismos. A aristocracia da fé.
Este livro, diabólico, hiperbólico, barroco, cansativo, perturbador e extremamente doentio, é uma chaga na literatura do século XIX. E de forma certeira, é uma antecipação de uma realidade que se aproxima. No pior futuro possível, todos nós seríamos des Essientes...e creia, muitos de nós já o são.
Os românticos abominavam os livros do classicismo e os realistas/naturalistas negavam o romantismo. Mas em fins do século XIX vem o simbolismo recuperar o mito romântico. E nesse mundo de cores, impressões vagas e dandismo, nada é mais radical que este livro. Livro que também poderia ser chamado de DIÁRIO DE UMA NEUROSE.
O que move seu personagem, Des Esseintes, é o nojo, o desgosto e a náusea. O mundo que ele vê é um universo onde o comércio é rei. Tudo é dominado pelo lucro, pelo comum e banal, pela América de novos ricos e de vulgaridade histérica. Para lutar contra isso ( que é aliás a luta de todo simbolista. Os românticos odiavam a era industrial, os simbolistas radicalizam isso e odeiam tudo o que seja "comum" ), des Esseintes isola-se em palácio. Lá ele criará seu próprio mundo, mundo que será sua imagem, um tipo de espelho que remete a sí-mesmo. O livro, esquisito ao extremo, não tem ação, é a descrição desse palácio, desse cenário e dos sentimentos do personagem.
Salas com plantas carnívoras, salas com aquários gigantes e perfumes de areia e mar, salas londrinas e salas que são como infernos vermelhos. Des Esseintes cria ambientes, continentes, realidades virtuais. Se o mundo se tornou algo que o desgosta, ele criará seu próprio universo; e esse universo é ele-mesmo; fato de todo neurótico, ele é incapaz de sair de dentro de seu delirio, seu único interesse verdadeiro é seu próprio estado, ele ama obsessivamente seu sintoma.
Mas há mais. A virtualidade das células ilusórias de nosso mundo atual sem contatos de risco, já está antecipada aqui. Ele "viaja" a Londres comendo comida inglesa, sentindo cheiros londrinos e se cercando de um ambiente inglês. Em sua casa Londres é mais londrina que a Londres real. O livro me lembra muito certos filmes de Alain Resnais ( Marienbad principalmente ) com seu mundo fechado; é um livro "do mal", asfixiante.
Ficamos sabendo de seus gostos. Ele só admite aquilo que as massas não conhecem. Se um livro, um pintor ou um músico é um sucesso não poderá ter qualquer valor. É um fato: para todo simbolista a unaminidade é idiota. Assim, ele ama Moreau e Redon em pintura, Poe e Baudelaire em poesia, a filosofia de Schopenhauer e textos de vários escritores "malditos". Pois des Esseintes é atráido por tudo aquilo que desgosta o homem-comum, ele adora tudo o que é satânico, tudo o que é doentio, sujo, drogado, sexualmente mórbido, amoral e apodrecido. Seu extremado esnobismo é um dandismo que tende a doença e a morte, porque o homem vulgar teme acima de tudo aquilo que é podre, sifilitico, infernal. Ele provará drogas, ficará doente, terá alucinações, amores com mulheres masculinas, com mulheres doentes, com mocinhos frágeis, usará as pessoas e, terrível maldição, sentirá um tédio sem fim.
Pois nesse mundo auto-criado, o tédio é sempre o perigo. Tudo é provado por des Essientes, e tudo é jogado fora. As coisas se tornam sombras, perdem a urgência, o sabor. Chegando ao fim do livro ele se depara com a escolha : ou o revólver ou a cruz.
É fato, muitos simbolistas acabam se tornando católicos. Aquele tipo de católico que se veste de preto e faz preces em latim. O carola extremado, que condena todo pecado. Numa visão superficial, essa conversão pode parecer arrependimento pelos pecados passados, mas não é. No catolicismo o simbolista radical vê o mergulho definitivo no "mundo fora do planeta burguês", em terra que não faz parte de indústria/ciência e comércio, em plano simbólico que se alimenta de imaterialidade. E além de tudo, uma crença, que quando é radicalizada, se torna a mais esnobe e conservadora das fés, a crença católica, com seus bispos e cardeais, seus dogmas incompreensíveis e suas igrejas de ouro e de exorcismos. A aristocracia da fé.
Este livro, diabólico, hiperbólico, barroco, cansativo, perturbador e extremamente doentio, é uma chaga na literatura do século XIX. E de forma certeira, é uma antecipação de uma realidade que se aproxima. No pior futuro possível, todos nós seríamos des Essientes...e creia, muitos de nós já o são.
FÉRIAS NA TELA: AS FÉRIAS DE MONSIEUR HULOT- JACQUES TATI, UM ORIGINAL
Foi Roger Ebbert quem disse que assistir a esta jóia é como tirar férias. Voce relaxa observando aqueles seres na praia, sorri, sente-se feliz e passa por momento de tristeza quando é hora de voltar pra casa. Mas então voce o reassiste, e percebe que ver Hulot outra vez é ainda melhor. É como reencontrar lugar e pessoas queridas. Este filme é então UM LUGAR.
Para mim a descrição é perfeita, mas completo: se o paraíso existir, esta praia com estas pessoas são moradores desse céu. Nada é mais paradisíaco.
Não existe tempo neste filme. Nada acontece. Quero dizer, várias coisas ocorrem todo o tempo, geralmente no mesmo instante; mas não há uma história, nada de objetivos ou rivais, não existem vilões e também nenhum ensinamento explícito. O filme é uma paisagem, um quadro de bom viver, uma benção.
O som deste filme é antológico. Feche os olhos, deite-se e apenas escute... esta obra te dá a sensação de estar na praia. Isso porque é um filme sem diálogos. Algumas pessoas falam, mas o que elas falam não tem a menor importância. Suas vozes são abafadas pelos sons, suaves, do ambiente. O que escutamos são murmúrios distantes, o vento, as folhas, insetos e o mar. Um cão que late, o apito do trem, talheres à mesa, um carro que buzina. Tati nos diz que as palavras são ruidos, os sons ao nosso redor é que se fixam em nossa memória afetiva. Ele está errado ?
Ao vê-lo pela primeira vez tive uma pequena decepção. Não era uma comédia? As gags não me fazem rir. Mas então começou a nascer um AFETO pelo filme, por Hulot e por tudo aquilo que é mostrado. O calhambeque, o hotel, todos os hóspedes ( mesmo o garçom mal-humorado ), o sol sobre a areia.... E realmente voce sente um desejo de que o filme se eternize, de que ele jamais termine. Oásis.
Feito em 1953, este filme foi sucesso imediato. Hoje seria? Com certeza não. Para se usufruir desta obra-prima é preciso atenção ao detalhe, calma, mente absolutamente limpa e gosto por viver. Não combina com pipoca e Coca, seu complemento é uma champagne a beira-mar e um peixe assado em fogo lento.
Bom... Jacques Tati, o homem que em cinema mais se aproxima da palavra ANJO, nos deu este presente, esta graça, este filme de absoluta originalidade ( e ainda é original ). Usufruir deste prazer é um privilégio.
Obrigado Jacques !
Para mim a descrição é perfeita, mas completo: se o paraíso existir, esta praia com estas pessoas são moradores desse céu. Nada é mais paradisíaco.
Não existe tempo neste filme. Nada acontece. Quero dizer, várias coisas ocorrem todo o tempo, geralmente no mesmo instante; mas não há uma história, nada de objetivos ou rivais, não existem vilões e também nenhum ensinamento explícito. O filme é uma paisagem, um quadro de bom viver, uma benção.
O som deste filme é antológico. Feche os olhos, deite-se e apenas escute... esta obra te dá a sensação de estar na praia. Isso porque é um filme sem diálogos. Algumas pessoas falam, mas o que elas falam não tem a menor importância. Suas vozes são abafadas pelos sons, suaves, do ambiente. O que escutamos são murmúrios distantes, o vento, as folhas, insetos e o mar. Um cão que late, o apito do trem, talheres à mesa, um carro que buzina. Tati nos diz que as palavras são ruidos, os sons ao nosso redor é que se fixam em nossa memória afetiva. Ele está errado ?
Ao vê-lo pela primeira vez tive uma pequena decepção. Não era uma comédia? As gags não me fazem rir. Mas então começou a nascer um AFETO pelo filme, por Hulot e por tudo aquilo que é mostrado. O calhambeque, o hotel, todos os hóspedes ( mesmo o garçom mal-humorado ), o sol sobre a areia.... E realmente voce sente um desejo de que o filme se eternize, de que ele jamais termine. Oásis.
Feito em 1953, este filme foi sucesso imediato. Hoje seria? Com certeza não. Para se usufruir desta obra-prima é preciso atenção ao detalhe, calma, mente absolutamente limpa e gosto por viver. Não combina com pipoca e Coca, seu complemento é uma champagne a beira-mar e um peixe assado em fogo lento.
Bom... Jacques Tati, o homem que em cinema mais se aproxima da palavra ANJO, nos deu este presente, esta graça, este filme de absoluta originalidade ( e ainda é original ). Usufruir deste prazer é um privilégio.
Obrigado Jacques !
ALTMAN/ MARTIN RITT/ REX/ CHABROL/ DENZEL/ JOHN WOO/ THE FIGHTER
A FORTUNA DE COOKIE de Robert Altman com Julianne Moore, Glenn Close e Liv Tyler
Quem leu o livro de Biskin sabe que após o sucesso, Altman se dedicou a sempre ser surpreendente. E também a destruir suas chances de ser pop. Mash é uma obra-prima de anarquia, liberdade e humor; mas Altman nunca mais conseguiu chegar perto desse cume. McCabe e Mrs Miller é um maravilhoso western melancólico e junkie, Short Cuts é um dos melhores filmes dos anos 90 ( se não for o filme da década ), mas no geral, a carreira desse diretor de marca e toque tão original foi uma sucessão de filmes que quase chegaram lá. Neste filme, fora o ótimo elenco ( todos os filmes de Altman têm ótimos elencos ) sómente o clima de "deep south" pode manter o interesse do público. O filme é flácido. Nota 3.
PARIS BLUES de Martin Ritt com Paul Newman, Sidney Poitier e Joanne Woodward
Entre 1955/1963 vários filmes foram feitos sobre jazz. O estranho é que os filmes que melhor mostram o que era o jazz, são aqueles que não eram especificamente sobre o jazz, mas sim os que tinham o espírito, a alma da música negra. Filmes sobre assaltos, sobre a publicidade ou sobre tribunais. Este é sobre dois músicos de jazz morando em Paris. Eles se apaixonam por duas turistas americanas que tentam fazer com que ambos voltem para os EUA. Mas isso seria abrir mão de uma carreira. O filme é estranho. Tem 3 atores excelentes, mas nenhum deles brilha, porque seus personagens são muito superficiais. Mas em compensação, tem Paris no auge de sua beleza suja e boêmia. Olhar para aquela cidade cinza, feita de bares, becos e bancas de rua é um imenso prazer. A trilha sonora é de Duke Ellington e há uma cena de improviso com Louis Armstrong que consegue ir à raiz do que significa jazz. Nada mal, mas podia ser muito melhor. Martin Ritt foi um muito importante ( e pop ) diretor dos anos 50/60/70/80, um tipo de Sidney Pollack com consciencia social. Nota 6.
O ROLLS ROYCE AMARELO de Anthony Asquitt om Rex Harrison, Jeanne Moreau, Shirley MacLaine, Alain Delon, George C. Scott, Ingrid Bergman, Omar Shariff
Asquit, diretor inglês rei da finesse, dirige este caro projeto que acompanha a "vida" de Rolls amarelo. São 3 histórias: na primeira ( a melhor ) vemos um tipo de nobre inglês, que ao presentear a esposa com o carro, descobre que ela lhe é infiel. Harrison dá um show de sutileza como esse marido ferido. O momento em que ele diz ( à Jeanne Moreau ), "de agora em diante odiarei cada minuto da minha vida", é momento de alta arte. O segundo episódio, sobre gangster e prostituta em viagem a Itália, é bem mais fraco. No terceiro, vemos o Rolls já velho na segunda guerra. O valor do filme está em sua bela técnica e no excelente primeiro episódio. Nota 5.
THE CRIMINAL de Joseph Losey com Stanley Baker
Que ótimo diretor Losey foi. Americano, perseguido pelo MacCarthismo, reergueu sua carreira na Inglaterra. Seus filmes são sempre duras críticas a sociedade. Aqui, em mundo de gatunos vagabundos, acompanhamos Baker como um presidiário. Na prisão ele é rei. Ao sair, tenta um golpe, mas tudo acaba saindo de seu controle. O filme é sexy, seco, nada "simpático". Stanley Baker faz tudo aquilo que Clive Owen tenta; eis um ator que eu não conhecia e que me agradou bastante. Trilha sonora genial, fotografia de Oswald Morris, elenco inteiramente afiado. Um belo filme sobre o lado podre da Inglaterra da época. Nota 7.
AS CORÇAS de Claude Chabrol com Stephane Audran, Jacqueline Sassard e Jean-Louis Trintignant
Uma entediada "burguesa" seduz moça na rua. Leva-a para viver em sua casa do campo, onde vive um casal gay. Mas surge um amigo que desfaz essa falsa paz. Nouvelle Vague de 1968, ou seja, de sua segunda fase, muito mais radical e muito menos interessante. O filme é seco demais, árido, sem emoção. Essa falta de emoção é proposital, mas o que ganhamos em troca ? O filme acaba sendo apenas uma tese sociológica sem clima ou charme. Nota 3.
INCONTROLÁVEL de Tony Scott com Denzel Washington e Chris Pine
Quem foi o mala que inventou esse estilo de filmagem ? Essa coisa de não nos dar a menor chance de pensar, ou pior, de escolher o que olhar em cada take. Veja como é : se o cara fala e acende um cigarro, a câmera dá close no cara falando, desce ao cigarro e volta ao rosto. O que é isso ? É muito fácil interpretar assim, é muito fácil filmar assim; voce não precisa interagir com outro ator, voce não precisa compor a cena, arrumar um grupo de atores. É tudo feito um a um, pedaço por pedaço. Miséria estética absoluta. Closes, closes e mais closes. Quem inventou isso ? Tony Scott, por volta de 1985 com Top Gun, um filme sobre aviões que passava todo o tempo dando closes no rosto e no braço de Tom Cruise. Aqui vemos um trem descontrolado. E é só. Denzel, ator maravilhoso, nada tem a fazer, passa o filme todo sentado. Uma geração inteira está sendo deseducada. Além de não terem mais a paciência de assistir algo que não as esbofeteie todo o tempo, estão perdendo o dom de olhar. Nota 2.
ALVO DUPLO de John Woo com Chow Yun Fat e Leslie Cheung
Dois irmãos: um é policial, outro é bandido. O bandido tenta se redimir. Woo inventou o moderno tiroteio. Ele é o cara que criou essa coisa de várias pistolas se apontando ao mesmo tempo ( não foi Quentin ) e também a famosa cena da explosão às costas do herói que anda indiferente. Aqui há uma sinfonia de sangue, pulos, tiros, dor e carne estilhaçada. E ritmo. Apesar da péssima trilha sonora ( esse é o grande defeito dos filmes de Hong Kong ) é um absorvente filme policial. Quem me lê sabe: voces estão testemunhando um cara descobrir toda a riquesa de um continente de cinema. Nota 6.
THE FIGHTER de David O. Russel com Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams
Não é um filme sobre box. É sobre familia. Mas é daí ? Quero dizer, o que está acontecendo? Este filme é ok, mas é um filme de tv. ( Ou o que era antigamente um tipico filme de tv). As imagens são banais, a história muito "humana" e muito simples, e os atores fazem apenas seu feijão-com-arroz de sempre. ( E mesmo Bale, que voltou a Robertdeniromente tentar impressionar com sua transformação física, está apenas ok. Às vezes ele parece um cara interpretando e não um personagem ). Este filme, que é um Rocky I bem piorado ( Rocky I emociona ), não é ruim, não mesmo. Mas concorre a vários prêmios no Oscar. Bem... acho que essa coisa de Oscar já era. Ou o cinema já se foi... as lutas são especialmente mal filmadas. Este filme me deu uma vontade imensa de rever Mean Streets ( quem já teve a honra de ver essa obra-prima de Scorsese sabe do que falo. As cenas de Mark com Bale tentam se parecer com aquelas de Keitel com De Niro e jamais chegam perto ). Quem quer ver um grande filme de box, veja The Set Up de Robert Wise, e quem quiser ver um grande filme... fuja. Mas ele não é ruim, é mediocre. Nota 4.
Quem leu o livro de Biskin sabe que após o sucesso, Altman se dedicou a sempre ser surpreendente. E também a destruir suas chances de ser pop. Mash é uma obra-prima de anarquia, liberdade e humor; mas Altman nunca mais conseguiu chegar perto desse cume. McCabe e Mrs Miller é um maravilhoso western melancólico e junkie, Short Cuts é um dos melhores filmes dos anos 90 ( se não for o filme da década ), mas no geral, a carreira desse diretor de marca e toque tão original foi uma sucessão de filmes que quase chegaram lá. Neste filme, fora o ótimo elenco ( todos os filmes de Altman têm ótimos elencos ) sómente o clima de "deep south" pode manter o interesse do público. O filme é flácido. Nota 3.
PARIS BLUES de Martin Ritt com Paul Newman, Sidney Poitier e Joanne Woodward
Entre 1955/1963 vários filmes foram feitos sobre jazz. O estranho é que os filmes que melhor mostram o que era o jazz, são aqueles que não eram especificamente sobre o jazz, mas sim os que tinham o espírito, a alma da música negra. Filmes sobre assaltos, sobre a publicidade ou sobre tribunais. Este é sobre dois músicos de jazz morando em Paris. Eles se apaixonam por duas turistas americanas que tentam fazer com que ambos voltem para os EUA. Mas isso seria abrir mão de uma carreira. O filme é estranho. Tem 3 atores excelentes, mas nenhum deles brilha, porque seus personagens são muito superficiais. Mas em compensação, tem Paris no auge de sua beleza suja e boêmia. Olhar para aquela cidade cinza, feita de bares, becos e bancas de rua é um imenso prazer. A trilha sonora é de Duke Ellington e há uma cena de improviso com Louis Armstrong que consegue ir à raiz do que significa jazz. Nada mal, mas podia ser muito melhor. Martin Ritt foi um muito importante ( e pop ) diretor dos anos 50/60/70/80, um tipo de Sidney Pollack com consciencia social. Nota 6.
O ROLLS ROYCE AMARELO de Anthony Asquitt om Rex Harrison, Jeanne Moreau, Shirley MacLaine, Alain Delon, George C. Scott, Ingrid Bergman, Omar Shariff
Asquit, diretor inglês rei da finesse, dirige este caro projeto que acompanha a "vida" de Rolls amarelo. São 3 histórias: na primeira ( a melhor ) vemos um tipo de nobre inglês, que ao presentear a esposa com o carro, descobre que ela lhe é infiel. Harrison dá um show de sutileza como esse marido ferido. O momento em que ele diz ( à Jeanne Moreau ), "de agora em diante odiarei cada minuto da minha vida", é momento de alta arte. O segundo episódio, sobre gangster e prostituta em viagem a Itália, é bem mais fraco. No terceiro, vemos o Rolls já velho na segunda guerra. O valor do filme está em sua bela técnica e no excelente primeiro episódio. Nota 5.
THE CRIMINAL de Joseph Losey com Stanley Baker
Que ótimo diretor Losey foi. Americano, perseguido pelo MacCarthismo, reergueu sua carreira na Inglaterra. Seus filmes são sempre duras críticas a sociedade. Aqui, em mundo de gatunos vagabundos, acompanhamos Baker como um presidiário. Na prisão ele é rei. Ao sair, tenta um golpe, mas tudo acaba saindo de seu controle. O filme é sexy, seco, nada "simpático". Stanley Baker faz tudo aquilo que Clive Owen tenta; eis um ator que eu não conhecia e que me agradou bastante. Trilha sonora genial, fotografia de Oswald Morris, elenco inteiramente afiado. Um belo filme sobre o lado podre da Inglaterra da época. Nota 7.
AS CORÇAS de Claude Chabrol com Stephane Audran, Jacqueline Sassard e Jean-Louis Trintignant
Uma entediada "burguesa" seduz moça na rua. Leva-a para viver em sua casa do campo, onde vive um casal gay. Mas surge um amigo que desfaz essa falsa paz. Nouvelle Vague de 1968, ou seja, de sua segunda fase, muito mais radical e muito menos interessante. O filme é seco demais, árido, sem emoção. Essa falta de emoção é proposital, mas o que ganhamos em troca ? O filme acaba sendo apenas uma tese sociológica sem clima ou charme. Nota 3.
INCONTROLÁVEL de Tony Scott com Denzel Washington e Chris Pine
Quem foi o mala que inventou esse estilo de filmagem ? Essa coisa de não nos dar a menor chance de pensar, ou pior, de escolher o que olhar em cada take. Veja como é : se o cara fala e acende um cigarro, a câmera dá close no cara falando, desce ao cigarro e volta ao rosto. O que é isso ? É muito fácil interpretar assim, é muito fácil filmar assim; voce não precisa interagir com outro ator, voce não precisa compor a cena, arrumar um grupo de atores. É tudo feito um a um, pedaço por pedaço. Miséria estética absoluta. Closes, closes e mais closes. Quem inventou isso ? Tony Scott, por volta de 1985 com Top Gun, um filme sobre aviões que passava todo o tempo dando closes no rosto e no braço de Tom Cruise. Aqui vemos um trem descontrolado. E é só. Denzel, ator maravilhoso, nada tem a fazer, passa o filme todo sentado. Uma geração inteira está sendo deseducada. Além de não terem mais a paciência de assistir algo que não as esbofeteie todo o tempo, estão perdendo o dom de olhar. Nota 2.
ALVO DUPLO de John Woo com Chow Yun Fat e Leslie Cheung
Dois irmãos: um é policial, outro é bandido. O bandido tenta se redimir. Woo inventou o moderno tiroteio. Ele é o cara que criou essa coisa de várias pistolas se apontando ao mesmo tempo ( não foi Quentin ) e também a famosa cena da explosão às costas do herói que anda indiferente. Aqui há uma sinfonia de sangue, pulos, tiros, dor e carne estilhaçada. E ritmo. Apesar da péssima trilha sonora ( esse é o grande defeito dos filmes de Hong Kong ) é um absorvente filme policial. Quem me lê sabe: voces estão testemunhando um cara descobrir toda a riquesa de um continente de cinema. Nota 6.
THE FIGHTER de David O. Russel com Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams
Não é um filme sobre box. É sobre familia. Mas é daí ? Quero dizer, o que está acontecendo? Este filme é ok, mas é um filme de tv. ( Ou o que era antigamente um tipico filme de tv). As imagens são banais, a história muito "humana" e muito simples, e os atores fazem apenas seu feijão-com-arroz de sempre. ( E mesmo Bale, que voltou a Robertdeniromente tentar impressionar com sua transformação física, está apenas ok. Às vezes ele parece um cara interpretando e não um personagem ). Este filme, que é um Rocky I bem piorado ( Rocky I emociona ), não é ruim, não mesmo. Mas concorre a vários prêmios no Oscar. Bem... acho que essa coisa de Oscar já era. Ou o cinema já se foi... as lutas são especialmente mal filmadas. Este filme me deu uma vontade imensa de rever Mean Streets ( quem já teve a honra de ver essa obra-prima de Scorsese sabe do que falo. As cenas de Mark com Bale tentam se parecer com aquelas de Keitel com De Niro e jamais chegam perto ). Quem quer ver um grande filme de box, veja The Set Up de Robert Wise, e quem quiser ver um grande filme... fuja. Mas ele não é ruim, é mediocre. Nota 4.
A FERA NA SELVA - HENRY JAMES ( VIVER NÃO DÓI )
Devastador. Esta novela ( 70 páginas ) do maior escritor americano da história, é devastadora. Qual é o segredo da escrita de James ? Não há como saber, ele dá voltas, vai de ponta a ponta, disseca aquilo que a personagem sente, descreve o que ela pensa, divaga um pouco, dá mais voltas, aprofunda-se, faz-se símbolo e de súbito, clareia tudo. É um modo de escrever, um estilo, insuperável. Apenas Proust ou Stendhal escrevem tão bem. No meio da leitura pensei em quartetos de cordas.
Este livro traz a história de um casal. Um casal que travou contato em Nápoles, dez anos antes. Se reencontram em Londres e reatam sua amizade. Ele tem a crença de que um tipo de "fera" irá saltar sobre seu corpo. Algo de muito cruel e urgente irá lhe acontecer. Por causa disso, ele passa a vida com apreensão e mantém aparência controlada, distante. Ela se torna sua confidente, faz-se uma cumplicidade.
Os anos passam, a situação se mantém ( e nós intuimos que ela o ama com paixão ) e quando ela morre algo de muito terrível acontece. A maldição se cumpre.
Em autor sem gênio seria apenas a história de um homem egoísta e sua relação com amiga que o ama. Em Henry James isso se torna cósmico. Ele jamais nos conta o que está se passando, apenas vai nos dando pistas, nos ensinando a ver, deixando-nos em dúvida e rumando, sem hesitação, para o único e horrendo fim possível.
Não vou, mais uma vez, falar da beleza superlativa da escrita de James. O que vou é citar uma frase deste livro admirável :
" Não seria o fracasso ir a falência, ser humilhado, exposto ao ridiculo, acabar na forca; o fracasso era não ser coisa alguma."
Em meras 70 páginas, esse gênio da escrita, nos exibe sem dó ou afetação, a dilacerada vida de alguém que nada foi pois nada precisou ser. O egoismo inocente dando impotência e morte a um homem tolo, distraído, ausente.
No fim dessas poucas páginas, que possuem peso de saga, está explícita a dor de não se saber como viver. E genialmente, Henry James nos convence que tudo pode ser suportado em vida; a injustiça, a fome ou a violência. Mas que a dor da covardia, de ter se vivido na virtualidade do que iria ser e nunca foi, do que aconteceria e jamais aconteceu, essa dor é a dor das dores, a dor de não se ter um rosto, de, como o personagem percebe tarde demais, nunca se ter chorado uma dor real, nunca se ter deixado estravazar uma emoção inteira.
O livro, lido em duas horas com fome e paixão, é uma obra-prima.
PS : Que bela edição da Cosac Naify ! A capa em cor de mármore ( o mármore fecha o relato ), o texto começando em páginas finas e brancas e terminando em papel negro e grosso. A cada página que viramos o papel vai se tornando cada vez mais escuro, indo do branco ao prata, ao cinza e ao chumbo, e a textura, o peso, cada vez maior. Exemplo perfeito de projeto gráfico que não é apenas bonito, ele se integra ao que se lê. Nota dez. Digno de Henry James.
Este livro traz a história de um casal. Um casal que travou contato em Nápoles, dez anos antes. Se reencontram em Londres e reatam sua amizade. Ele tem a crença de que um tipo de "fera" irá saltar sobre seu corpo. Algo de muito cruel e urgente irá lhe acontecer. Por causa disso, ele passa a vida com apreensão e mantém aparência controlada, distante. Ela se torna sua confidente, faz-se uma cumplicidade.
Os anos passam, a situação se mantém ( e nós intuimos que ela o ama com paixão ) e quando ela morre algo de muito terrível acontece. A maldição se cumpre.
Em autor sem gênio seria apenas a história de um homem egoísta e sua relação com amiga que o ama. Em Henry James isso se torna cósmico. Ele jamais nos conta o que está se passando, apenas vai nos dando pistas, nos ensinando a ver, deixando-nos em dúvida e rumando, sem hesitação, para o único e horrendo fim possível.
Não vou, mais uma vez, falar da beleza superlativa da escrita de James. O que vou é citar uma frase deste livro admirável :
" Não seria o fracasso ir a falência, ser humilhado, exposto ao ridiculo, acabar na forca; o fracasso era não ser coisa alguma."
Em meras 70 páginas, esse gênio da escrita, nos exibe sem dó ou afetação, a dilacerada vida de alguém que nada foi pois nada precisou ser. O egoismo inocente dando impotência e morte a um homem tolo, distraído, ausente.
No fim dessas poucas páginas, que possuem peso de saga, está explícita a dor de não se saber como viver. E genialmente, Henry James nos convence que tudo pode ser suportado em vida; a injustiça, a fome ou a violência. Mas que a dor da covardia, de ter se vivido na virtualidade do que iria ser e nunca foi, do que aconteceria e jamais aconteceu, essa dor é a dor das dores, a dor de não se ter um rosto, de, como o personagem percebe tarde demais, nunca se ter chorado uma dor real, nunca se ter deixado estravazar uma emoção inteira.
O livro, lido em duas horas com fome e paixão, é uma obra-prima.
PS : Que bela edição da Cosac Naify ! A capa em cor de mármore ( o mármore fecha o relato ), o texto começando em páginas finas e brancas e terminando em papel negro e grosso. A cada página que viramos o papel vai se tornando cada vez mais escuro, indo do branco ao prata, ao cinza e ao chumbo, e a textura, o peso, cada vez maior. Exemplo perfeito de projeto gráfico que não é apenas bonito, ele se integra ao que se lê. Nota dez. Digno de Henry James.
O GRANDE BAZAR FERROVIÁRIO- PAUL THEROUX
Autor do "Costa do Mosquito", Theroux é um dos autores americanos centrais dos últimos trinta anos. Este livro, escrito em 1973, publicado em 75 ( no Brasil em 2005 ), conta a viagem de Paul através de Europa, Oriente, Indochina, Japão e finalmente, Sibéria. Tudo de trem, pois o grande objetivo dessa viagem é o trem, a sensação da viagem por trilhos, por estações em cidades pequenas, o desfilar das paisagens pela janela, os contatos travados com seus companheiros de trip.
A viagem pra valer começa na Turquia. E logo aí, percebemos o ponto central do livro: o narrador é extremamente crítico, suas decepções são constantes. Da Turquia fica a imagem do mítico Trans-Europe Express, agora sem seu luxo de outros tempos, a imagem de um país confuso, hostil, cheio de "jeitinhos". Ele cruza depois o Afganistão, país que ele diz ser uma ficção, um sub-país ( o livro é de antes do politicamente correto. Theroux chega a chamar um país de "verme do mundo" ).
O melhor trecho do livro ( e mais longo ) é sua viagem por Paquistão, India e Ceilão. As coisas que são descritas chegam ao absurdo pleno e total ( " A India é uma ficção " ). Delhi como cidade que cheira a dinheiro, Calcutá como sordidez sem fim, a fome devastadora, a ganância, os rituais absurdos, a religião sem sentido, crianças se prostituindo, aleijados, esmolas. Voce lê e sente tudo aquilo. Cores, barulhos ( nada é mais barulhento que um indiano ), odores.
A visão de mundo de Theroux é hiper-americana, então vemos o quanto ele julga tudo o que vê em lentes e balança ocidental. Comparar sua visão sobre a India com aquela de Octávio Paz é comparar duas visões completamente opostas. O americano está sempre procurando conforto, comida boa, e indagando o por quê de tudo aquilo. Paz simplesmente mergulha na India. Não julga nada.
Mas eu logo começo a perceber o quanto o mundo mudou de 1975 para cá. Coisas hoje normais ainda o chocavam então. Paul Theroux se surpreende com prostitutas infantis e com a mania oriental do suborno. Para se conseguir qualquer coisa tem de se pagar por fora. Chegamos então a Singapura e outra idéia surge: o mundo do futuro ( que é nosso mundo de hoje ) foi inventado no Oriente. Se voce agora, 2011, quiser saber como será o planeta em 2031, ande por lá.
Em Singapura ele fica revoltado com a mania de receber noticias, correio e propaganda via fax. Ele vê nisso invasão de privacidade, transformação do privado em público, asfixia do original em cada um, conformidade ao todo. Singapura exala dinheiro e controle. As pessoas são presas por pisar na grama, são torturadas por jogar lixo na rua, e o governo, totalitário, vive em função do turista americano, de se fazer uma ilha da fantasia para quem vem de fora.
Chegamos ao Vietnã. Recém saído da guerra. Paul se encanta. Vê as paisagens mais lindas da viagem e percebe que todo o país é um imenso bordel. Tem uma revelação : ao contrário do que faziam Inglaterra e França, os EUA em todas as suas guerras jamais desejou colonizar um país. Os EUA nada constroem de sólido nos países invadidos, nada tentam implantar de definitivo. As guerras americanas são punições a quem não se comportou bem. Guerras descartáveis, irresponsáveis, sem nada de planejado.
Vem o Japão, e é aí que o choque se completa. Apartamentos minúsculos ( hoje não nos chocam mais, se espalharam pelo globo ), trens que correm demais e mal param nas estações, e um povo que corre ao futuro, mas que jamais deixa de ser como no passado. Quadrinhos de sexo e sangue, shows de sexo com tortura e mutilação, a tara por lâminas e por meninas. O japonês assistindo pornografia sem parar, bebendo sem parar, consumindo sem parar. E ao mesmo tempo parecendo calmo, antigo, familiar, tradicional, caseiro. Em 1975 nosso universo de 2011 todo já presente lá. Metrôs cheios, ruas onde ninguém se fala, a solidão em calçadas repletas. E máquinas que fazem tudo e acabam dirigindo a rotina da vida.
E a Sibéria, com sua paranóia pura, lugar mais deprê do mundo, álcool para poder aguentar.
Theroux passa ainda pelo Irã antes da revolução ( época do Xá ) e pelo Sri Lanka com sua fome inimaginável e suas milhares de religiões. O inacreditável Calcutá, sexo bizarro em todo canto.
Ele se choca com o fedor de todo o oriente, com gente nua nas ruas, com crianças sem pais. E ao mesmo tempo com a falta de cheiro do Japão, com uma mulher elegante que recolhe a sujeira de seu cão na rua ( invenção japonesa ), com o vazio absoluto de uma sociedade onde tudo funciona com rapidez.
É um livro delicioso, nervoso, moderno, pegajoso, quente. Paul Theroux sabe escrever e sabe ver.
A viagem pra valer começa na Turquia. E logo aí, percebemos o ponto central do livro: o narrador é extremamente crítico, suas decepções são constantes. Da Turquia fica a imagem do mítico Trans-Europe Express, agora sem seu luxo de outros tempos, a imagem de um país confuso, hostil, cheio de "jeitinhos". Ele cruza depois o Afganistão, país que ele diz ser uma ficção, um sub-país ( o livro é de antes do politicamente correto. Theroux chega a chamar um país de "verme do mundo" ).
O melhor trecho do livro ( e mais longo ) é sua viagem por Paquistão, India e Ceilão. As coisas que são descritas chegam ao absurdo pleno e total ( " A India é uma ficção " ). Delhi como cidade que cheira a dinheiro, Calcutá como sordidez sem fim, a fome devastadora, a ganância, os rituais absurdos, a religião sem sentido, crianças se prostituindo, aleijados, esmolas. Voce lê e sente tudo aquilo. Cores, barulhos ( nada é mais barulhento que um indiano ), odores.
A visão de mundo de Theroux é hiper-americana, então vemos o quanto ele julga tudo o que vê em lentes e balança ocidental. Comparar sua visão sobre a India com aquela de Octávio Paz é comparar duas visões completamente opostas. O americano está sempre procurando conforto, comida boa, e indagando o por quê de tudo aquilo. Paz simplesmente mergulha na India. Não julga nada.
Mas eu logo começo a perceber o quanto o mundo mudou de 1975 para cá. Coisas hoje normais ainda o chocavam então. Paul Theroux se surpreende com prostitutas infantis e com a mania oriental do suborno. Para se conseguir qualquer coisa tem de se pagar por fora. Chegamos então a Singapura e outra idéia surge: o mundo do futuro ( que é nosso mundo de hoje ) foi inventado no Oriente. Se voce agora, 2011, quiser saber como será o planeta em 2031, ande por lá.
Em Singapura ele fica revoltado com a mania de receber noticias, correio e propaganda via fax. Ele vê nisso invasão de privacidade, transformação do privado em público, asfixia do original em cada um, conformidade ao todo. Singapura exala dinheiro e controle. As pessoas são presas por pisar na grama, são torturadas por jogar lixo na rua, e o governo, totalitário, vive em função do turista americano, de se fazer uma ilha da fantasia para quem vem de fora.
Chegamos ao Vietnã. Recém saído da guerra. Paul se encanta. Vê as paisagens mais lindas da viagem e percebe que todo o país é um imenso bordel. Tem uma revelação : ao contrário do que faziam Inglaterra e França, os EUA em todas as suas guerras jamais desejou colonizar um país. Os EUA nada constroem de sólido nos países invadidos, nada tentam implantar de definitivo. As guerras americanas são punições a quem não se comportou bem. Guerras descartáveis, irresponsáveis, sem nada de planejado.
Vem o Japão, e é aí que o choque se completa. Apartamentos minúsculos ( hoje não nos chocam mais, se espalharam pelo globo ), trens que correm demais e mal param nas estações, e um povo que corre ao futuro, mas que jamais deixa de ser como no passado. Quadrinhos de sexo e sangue, shows de sexo com tortura e mutilação, a tara por lâminas e por meninas. O japonês assistindo pornografia sem parar, bebendo sem parar, consumindo sem parar. E ao mesmo tempo parecendo calmo, antigo, familiar, tradicional, caseiro. Em 1975 nosso universo de 2011 todo já presente lá. Metrôs cheios, ruas onde ninguém se fala, a solidão em calçadas repletas. E máquinas que fazem tudo e acabam dirigindo a rotina da vida.
E a Sibéria, com sua paranóia pura, lugar mais deprê do mundo, álcool para poder aguentar.
Theroux passa ainda pelo Irã antes da revolução ( época do Xá ) e pelo Sri Lanka com sua fome inimaginável e suas milhares de religiões. O inacreditável Calcutá, sexo bizarro em todo canto.
Ele se choca com o fedor de todo o oriente, com gente nua nas ruas, com crianças sem pais. E ao mesmo tempo com a falta de cheiro do Japão, com uma mulher elegante que recolhe a sujeira de seu cão na rua ( invenção japonesa ), com o vazio absoluto de uma sociedade onde tudo funciona com rapidez.
É um livro delicioso, nervoso, moderno, pegajoso, quente. Paul Theroux sabe escrever e sabe ver.
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