QUASE FAMOSOS-CAMERON CROWE

   Andei acompanhando a coluna de André Barcinski pós-Oscar. O que ele mais falou foi sobre o fato de que filmes que nos anos 70 fariam sucesso hoje passam batido. São poucos bons filmes que se produzem agora, e esses poucos são ignorados. O gosto se tornou tão medíocre, que Chinatown ou Mash hoje seriam provávelmente, um fracasso. E os dois foram big-hits em seu tempo. Scorsese, Altman, Polanski ou Bergman tiveram muita sorte de nascer quando nasceram. Nascidos vinte anos mais tarde seriam hoje diretores "alternativos" com uma filmografia minúscula. O cinema se tornou coisa de quem tem 12 anos.
   Existe um momento na vida de um diretor em que ele dá a grande cartada. É o momento em que sua carreira se define. Se acertar, nasce uma nova etapa, nova vida. Se errar, sua carreira se torna confusa, irregular, e pode até se encerrar. Bergman viveu isso ao fazer Persona, Fellini com Oito e Meio e Kurosawa com Os Sete Samurais. Acertaram, se fizeram novos artistas. Mas há os que erraram, e pagaram o preço. Scorsese errou em O Rei da Comédia, e se perdeu por quase dez anos. Coppolla fez Apocalypse e morreu como diretor popular. Tim Burton jogou tudo em Big Fish e desde então está preso a refilmagens e perdeu seu fogo. E há o caso trágico deste Quase Famosos.
   Quando foi lançado a expectativa de crítica e estúdio era de um super sucesso. Já se contava com seu Oscar de melhor direção. Mas o fracasso de público foi tão grande que tudo que a academia pode lhe dar foi o prêmio de roteiro. Foi a partir daí que eu comecei a perceber que o filme que seria um sucessão em 1973, em 2003 seria um fiasco. Desde então Cameron se perdeu e Kate, Billy... todos tiveram sua ascensão interrompida. Porque? Eu não sei.
   Nunca o Led Zeppelin permitiu que suas músicas fossem usadas em cinema, aqui temos várias. Isso porque Cameron foi aquele garoto do filme. Ele seguiu o Led na adolescência cobrindo a excursão da banda para a Rolling Stone. E é maravilhoso vermos aquele bando de doidos fazendo uma revista que se mantém até hoje. O filme tem dezenas de cenas maravilhosas, dúzias de músicas soberbas, e interpretações inspiradas. Voce se apaixona pelas goupies, pelos músicos, pelo rapaz e até pela mãe. É um filme solar, claro, dourado, pra cima, e jamais parece tolo. Trata a adolescência com respeito. É um grande filme, mesmo para quem não gosta de rock. ( Assisti na época com minha namorada que odiava rock. Ela adorou o filme ).
   A banda retratada combina a fama do Led com o jeitão dos Eagles. No roteiro há pitadas de Who e The Band. O cantor que foge e se joga na piscina é Robert Plant e o batera que se diz gay no avião em pane é Keith Moon. Cameron estava lá, ele sabe o que diz. O filme não pega pesado em drogas, em sexo e não tem violência e nem gente no hospital... acho que é por isso que fracassou.
   Rod Stewart e Elton John são resgatados em duas cenas poéticas e tristes, mas Sparks do Who está na cena símbolo do filme: quando ele descobre os discos da irmã. É lindo.
   O filme deveria ter feito de Kate uma estrela e de Billy um star. Não fez. Pena. Eles brilham como astros. Amam seus papéis. O tempo fará justiça a este filme como faz a suas músicas. Não, não vou falar de minhas lembranças pessoais desse tempo. Foi o tempo em que o rock era uma religião, e em que ele ditava as regras da arte. Ao mesmo tempo, foi o momento em que o lixo de hoje se instituiu: drogas, infantilidade e individualismo extremado. O filme mostra isso: amamos aquela banda porque eles fazem o que sempre sonhamos em fazer- ser adolescentes para sempre. Um playground do tamanho de um estádio. Estamos no furgão deles até hoje.
   É um puta filme.
  

VIDA

   O que mais temos para aprender com a Europa? Entenda, eu amo a cultura européia, mas o que posso ver de realmente novo nos gregos, latinos ou celtas? O que me revolucionará no romantismo, existencialismo ou na psicanálise? Nada, absolutamente nada. Amar a Europa como eu amo é amar uma rememoração eterna. É amar o já conhecido. Museu.
   Quantas civilizações foram apagadas antes de as conhecermos? Quantas lendas e histórias eu poderia ter escutado? Uma visão original de mundo extinta. Modos de explicar a vida que me foram roubados.
   Secamos aos poucos, morremos em repetição sem fim. Uma visão de vida em um único mundo homogêneo. Uma resposta para cada única pergunta. Um ditatorial modo de vida. E mais nada.
   Cada tribo aborigene que se vai é uma liberdade de viver a menos que se nos dispõe. O planeta que sempre foi uma sopa de vidas se faz um bloco de concreto puro. O que aprender de Nietzsche ou de Platão? A vida ansia por conhecer o que é diferente. Onde? Se aquela gente que tinha uma original história sobre a criação se foi para sempre?
   Chegará um tempo em que a única verdade repousará no MIT. E em que não mais saberemos o que seja a palavra liberdade. Livre será um cara sobre uma bike numa ciclovia em meio a cidade. Acharemos que isso é ser livre. E em que os únicos bichos conhecidos serão os de fazenda e os pets. Pensaremos que um cão de rua é livre. Tudo no mundo será humanizado e então, sem ver mais deiferença em nada, teremos chegado a solidão absoluta. A solidão de quem vê espelhos em tudo. Máquinas e bichos "humanos" e gente que pensa e faz tudo como todos fazem.
   Eu quero saber de gente que vem de onde eu não vim. E que pensa completamente diferente de quem eu conheço. Outra história, outra crença e outras verdades. Opções de liberdade.
   Não quero que a ciência reviva o Tigre da Tasmânia. Se o fizer, ele será apenas um ser da ciência a ser usado pela ciência. Este mundo não é mais o dele e não o merece. O que eu quero é que a vida seja amada. A vida em toda sua crueza e complexidade. Respeitada amplamente.
    Temos tudo a aprender com um macaco, um peixe ou um velho indio.
    Um professor da Sorbonne não nos salvará.

El último tigre de Tasmania (Tilacino)



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O TIGRE DA TASMÂNIA

   Quando tempos atrás andei lendo relatos sobre descobridores, os homens que desbravaram mares e continentes lá pelos séculos XVI ou XVII, o que mais me chocou foi a indiferença que eles tinham à vida. Em cada praia que eles aportavam acontecia um alegre massacre. Focas eram mortas aos milhares, pinguins esfaqueados, pisoteados, esmagados, mortos às cacetadas. Bichos, que por jamais terem visto um homem, tolamente não os temiam, eram trucidados. Pássaros eram mortos aos milhões ( sim, voce leu direito, milhões ). Há uma cena em que ao chegar a uma ilha os marinheiros se divertem matando focas às cacetadas. A praia se enche de sangue e os marujos só param quando ficam totalmente cansados. E a diversão recomeça no dia seguinte. Ler essas páginas, que na época deveriam ser divertidas, é insuportável. São homens que eu não aceito como meus irmãos.
   Foi nesse processo que se aniquilou o pássaro Dodô e o Tigre da Tasmânia. O Dodô foi extinto por volta de 1700, mas o Tigre é mais duro de aceitar, ele desapareceu em pleno século XX. Madeireiros e mineradores da Austrália se divertiam em matar e exibir o corpo do animal. Existem fotos desse festim. Existe um filme do último Tigre vivo. Ele está preso numa jaula, é 1920, e ele é o último dos últimos.
   Pense. Se um dia o último homem desaparecer, com ele "o mundo" morrerá. Com esse homem, toda a visão de mundo da espécie irá deixar de existir. Pior, será como se ele jamais houvesse existido. Quando uma espécie deixa de existir, todo aquele mundo, dela, se vai embora com ela. E o mundo que resta fica mais banal, menos multi-facetado, empobrecido.
   Daí voce pode pensar: E daí? Tudo tem seu tempo.
   Mas se os dinossauros nada tiveram a ver conosco, saiba que quando matamos e perseguimos um bicho até sua extinção, é à vida que massacramos. E por mais que tentemos ignorar, temos consciência do mal que é feito. Matamos e aniquilamos, e depois nos sentimos indignos da vida. E cheios de nojo, matamos o que resta. Seja numa visão religiosa, ou seja numa visão ciêntifica, é um crime. Roubar da vida uma espécie, riscar da história uma trilha evolucionária, é imperdoável.
   Cada vez mais tenho a certeza de que estamos aqui para cuidar da vida. Se somos os únicos seres com habilidade o bastante para amparar, remediar e prevenir a morte, temos a obrigação de preservar a vida. É o único ato que pode nos dar sentido. Deixar que um ser seja o último, é o pior dos crimes.
   Sim, somos por natureza violentos, egoístas, vorazes e muito covardes, sei de tudo isso. Mas sei também que temos a liberdade de lutar contra nós mesmos. De sermos pacifistas, altruístas e preservacionistas. Quem empaca apenas na constatação de nossa maldade tem uma postura preguiçosa, conformista, morta. Somos e temos sido maus. Mas temos a obrigação de lutar contra isso.
   Obrigação perante o que? Perante a vida. Toda a nossa história tem sido uma história de morte, massacre e egoísmo. E não tem dado certo. Somos infelizes e estamos sempre com medo. Se apostamos na morte, e é o que fizemos sempre, apostamos errado. O Tigre da Tasmânia é a prova de nossa burrice.
   O dia em que, em meio aos massacres, um marinheiro parou e olhou para uma foca e sentiu compaixão, esse dia foi especial. Alí nascia uma nova visão. Criava-se uma ponte entre duas espécies distintas. Um mamífero primata sentia algo por um mamífero absolutamente distante de seu meio. Esse marinheiro sentia aversão pela morte.
   Preservar a vida e jamais permitir que um ser seja o último de um mundo. É o que nos dá valor. É o ato de nobre heroísmo de hoje.

Wrong To Love You



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HEART SHAPED WORLD- CHRIS ISAAK, AMAR BEM.

   Mesmo que superficialmente Chris Isaak parecesse ser da mesma raça que John Mellemcamp ou Tom Petty ( não é e nunca foi ), quando surgiu em 1987 ele não poderia estar mais deslocado. Seus 3 primeiros discos nada venderam e ele só começou a chamar a atenção quando Tony Scott colocou uma música dele em seu melhor filme: AMOR A QUEIMA ROUPA, roteiro de Tarantino. Antes David Lynch usara Wicked Game em CORAÇÃO SELVAGEM. De repente, em 1991, gostar de Chris Isaak era hiper-cool. HEART SHAPED WORLD foi o primeiro disco dele que comprei. Não sei se é o melhor, ele tem cinco discos de altíssimo nível. E felizmente, todos eles têm o mesmo espírito: falam de amores despedaçados e de casais que sabem estar no fim. Isaak é desbragadamente romântico. Ele só pode ser entendido por aqueles que já amaram mal.
  O som de sua guitarra é produzido pela mais vagabunda das guitarras. É famosa a história de que ele comprou uma guitarra na Sears-Roebuck, tipo "de brinquedo". Modelo que distorce tudo, desafina, tem zumbido. Esse se tornou seu som, um toque delicado num instrumento irascível. Mistura de Chet Baker com fartas doses de Elvis, Isaak é uma reedição de Roy Orbison. Tem voz.
  Grandes vozes brancas. Como foram Van Morrison ou Steve Winwood. Isso desapareceu. Ninguém se importa mais com cantores que cantam bem, que têm um timbre reconhecível. Estilo vocal é coisa tão rara como praia deserta ou ilha desconhecida. Chris Isaak tem voz. Uma voz afinada ( e que ao vivo é idêntica ), suave e levemente angustiada, cristalina. Cheia de sentimento, mas jamais parecendo feminina, é um homem que ama.
  Na época deste disco ele filmava com Bertolucci ( O PEQUENO BUDA ), e tinha clips feitos por Bruce Weber ( quem não sabe, Bruce é O fotógrafo de moda ). Poderia ter sido uma estrela se tivesse se aplicado em fazer mais versões açucaradas de Wicked Game. Não. Seu disco seguinte era como todos os outros. Melancolia de motéis de beira de estrada. Chris não adoçou Wicked Game. Continuou azedo.
  O disco abre com Heart Shaped World, que é a melhor faixa. A guitarra tem ecos de madrugadas e a voz um quase apelo por amor. Cio. O disco é todo noturno, com sombras, e muita chuva. A banda, que sempre o seguiu, é coesa, soa como se todos fossem um. Sempre rock'n'roll, sempre amorosos.
  Chris Isaak se tornou trilha de minha vida entre 1991/ 1998. Época de grandes paixões noturnas. De se ficar visualizando o rosto da menina, cada olhar e cada trejeito dela, enquanto se escuta Chris Isaak no escuro. Tempo de se dirigir com ansiedade, o peito disparado e a garganta seca, ao encontro da menina. Chris me consolava. E me fazia seguir firme e forte.
  Ele fez um MTV Acústico que é sublime. Simplesmente perfeito. E bastante intimista. Devo tê-lo assistido mais de 50 vezes. E há um documentário sobre o disco BAJA SESSIONS que é revelador. A praia de Chris é mexicana. Seu som vem das baladas mexicanas tocadas para senhoritas em noites quentes. BAJA SESSIONS é uma obra-prima.
  Mas foi HEART SHAPED WORLD que me apresentou Isaak. E ele é bem menos solar. Desde a capa, foto de Weber em que Chris personifica Chet, até a última faixa, tudo nele é bonito, é eco de paixão. E tudo é fora de tempo, deslocado no agora, out.
  Porque se tudo na midia é agora sensacional, histérico e over, Chris Isaak foi o tempo todo discreto, contido e soft. Ele é do mundo dos Mustangs, das louras perdidas e dos horizontes sem fim. Ele sabe perder. E ama. Sem medo e sem fim.

The Monkees - Look Out Here Comes Tomorrow



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The Monkees - I'm a Believer



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ATÉ OS ANJOS PARTEM UM DIA ( DAVY JONES MORREU )

   Até Davy Jones pode morrer. E foi hoje, primeiro de Março de 2012. Eu queria ter o dom de escrever uma elegia, como aquela que Lorca escreveu para um toureiro morto, ou a de Yeats para os aviadores irlandeses. Mas o que posso falar? Os Monkees, banda na qual Davy era o sex-symbol, foram uma paixão para mim e para milhões de jovens em todo o globo. Entenda, a gente até conhecia Beatles, Stones e Tom Jones, mas o que a gente amava era Monkees. Detalhe: eu tinha 7 anos de idade, e creia-me, o que voce ama aos 7 anos é muito sério.
   Essa paixão foi a mais intensa que vivi por uma banda. Se voce acha que amei Stones, Led ou Roxy Music, voce não me conhece. Dos 7 aos 12 anos eu passava o dia todo pensando nos Monkees e cantando suas músicas. Na escola, a mesma onde hoje eu trabalho, eu ficava alheio a aula desenhando guitarras na carteira. Nas guitarras eu escrevia: Monkees.
   Meu pai tinha ciúmes deles e eu pensava se eles ainda estavam vivos! Estavam meu caro Paulinho.... o primeiro deles a morrer morreu sómente hoje, mais de quarenta anos depois.
   Era uma série de tv que passava na Globo, terças de tarde, às 14;30 horas. Eu tinha tanta ansiedade em os assistir que até hoje recordo dia e hora. Era uma banda de rock da Califórnia criada pela NBC para capitalizar a moda do rock. Fizeram audições e montaram o grupo de acordo com o visual e dons de cada ator. Totalmente pré-fabricado. Tanto que os rockeiros os odiavam. Mas vendia pacas. Entre 66 e 68 botaram uns oito singles nas paradas. Do mundo todo. Daí em 68 eles quiseram provar que eram artistas e passaram a compor. Antes quem fazia as músicas eram contratados da tv. Gente como Carole King e Neil Diamond. E em 68 também fizeram um longa de cinema: Head.
   Head é um dos filmes mais loucos já feitos. O roteiro é de Jack Nicholson. Tem Frank Zappa no cast. E Victor Mature. Foi um fracasso. Em 1969 os Monkees já eram. Menos na tv, onde a série continuou a passar. Foi na série que vi pela primeira vez cabelos longos, calças listradas e camisetas de gola rulê. Colares de contas, batas indianas e um apartamento "bem louco". Com 9 anos eu deixei crescer a franja e ganhei uma calça listrada em azul e amarelo. Mais que isso, muitos anos depois eu escrevia peças de teatro que eu pensava serem "meio Monty Python meio Asdrúbal Trouxe o Trombone".... eram na verdade puro Monkees.
   Meu Monkee favorito era o tonto Peter Tork. Meu irmão adorava Mickey Dolenz. Todos adoravam Mickey. Mickey era o batera, o mais cômico e o mais louco. Peter era tímido e calado. Havia ainda Michael Nesmith, o intelectual folk e Davy, o queridinho das meninas. Ele era meio Ronnie Von, um tipo de pequeno príncipe.
   David Bowie mudou seu nome por causa de Davy Jones. Bowie se chama David Jones.
   É a lei da vida, mesmo os anjos morrem.
   Davy agora vai poder dançar e cantar sua Daddy's Song nos céus. Mas gosto de pensar que o pequeno Paulinho irá dançar com ele, num quintal cheio de galinhas e patos, debaixo de um sol sem fim, em futuro que chegará. Amores de infância são sagrados.

The Monkees (head) "Daddy's Song"



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Aretha Franklin - I Say A Little Prayer



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ARETHA E WHITNEY

   Belo texto no Estadão sobre Whitney Houston. O autor, que é americano, fala que nos EUA ele seria vaiado se dissesse o óbvio: Whitney era uma cantora ruim, fabricada, fria, sem qualquer sinal de verdadeiro talento. O canto que ela emitia nada tinha dela-mesma, era banal e poderia ser confundido com o canto de qualquer outra cantora de seu tempo. Pior, ela institui esse tipo de cantor hiper-produzido, exibicionista e vazio. Um canto sem emoção, sem pensamento, sem personalidade. O sonho da indústria: linha de montagem de vozes.
   O autor ( Lee...o que mesmo? ), conta que a madrinha de Whitney, Aretha Franklyn, não foi ao enterro e disse que Whitney era uma estrela. Só isso, uma estrela, não uma cantora. E como uma estrela moderna, ela torrou 100 milhões em drogas. Drogas usadas com o único objetivo de se drogar.
  Aretha Franklyn era/é uma grande cantora. Tem tudo aquilo que Whitney nunca nem sonhou em ter. Personalidade, sentimento genuíno e pensamento. Cada canção de Aretha traz a marca de tudo aquilo que ela pensa, vive e sente. Uma voz sem igual, única, como únicas eram as vozes de Ray Charles, Wilson Pickett ou de Otis Redding. Aretha canta, e canta e canta. Toda a saga negra na voz. Confundir sua voz com a de qualquer outra cantora é impossível. E essa marca se chama arte.
  Ouvir Whitney é uma experiência vazia de significado. Escutar Aretha é uma aprendizagem. Na morte de Whitney, pobre moça, os louvores são de sua madrinha, a inigualável Aretha Franklyn.

MORRISSEY

   Como aconteceu com Bob Dylan no rock dos anos 60, Morrissey é um belo talento nefasto. Se Dylan sem querer instituiu a praga do "rock relevante", Morrissey inaugurou o lixo do "rock em meu quartinho". Ele feminilizou o rock inglês e o transformou nessa coisinha fofa e sensível que suportamos até hoje. Mocinhos que amam seus ursinhos de pelúcia, com maço de rosas nas mãos e pensamentos "belos" na cabeça...Morrissey matou a virilidade do rock inglês.
   Mas assim como Dylan é infinitamente melhor que seus seguidores, Morrissey transcende a caricatura anódina que fazem seus seguidores. Ele é original, ele tem bom gosto, e ele tem um verniz de humor que seus fãs raramente percebem. Morrissey segue a linha de Oscar Wilde e de Evelyn Waugh, seus fãs são apenas seguidores do lado mais óbvio de suas letras. Chatos.
   Os Smiths eram ok. Mas eles dominaram a ilha de Thatcher. E criaram toda uma linhagem de meninos sensíveis. Chorosos e assexuados. Fico pensando que foram eles quem mataram a linha Clash-Jam-Specials, uma linha viril, anárquica, esperta, que foi engolida pela onda melancólica. Mas Morrissey não tem culpa nenhuma. Ele apenas fazia boas músicas. E era fã de Mott the Hoople e T.Rex. Pegou a Inglaterra num momento Culture Club e Duran Duran. Foi fácil dominar. Depois de Johnny Marr, nenhum guitarrista inglês ousou fazer pose de macho. Todos passaram a balançar a cabeça e a franja como Johnny Marr sempre fez. Nunca mais Mick Jones.
   Leio que João Gilberto, apesar de sua genialidade, trouxe uma maldição à MPB. Todos os cantores após ele se afeminaram. Passaram a cantar delicado, suave, feminino.
   Quem diria? Morrissey é o João Gilberto da Inglaterra.

OSCAR 2012, O ANO DA CRISE

   Pela primeira vez Hollywood admite que houve um filme falado em lingua estrangeira melhor que os feitos nos EUA/Inglaterra. Sempre existiram obras-primas em japonês, italiano ou suéco, mas Hollywood sempre acreditou que no fim das contas, seus filmes eram melhores. Porque isso acabou ontem?
   Um filme francês, de um diretor desconhecido, vence com facilidade aos velhos queridos da América ( Spielberg, Scorsese, Woody Allen e Malick ) e a novos queridos ( Alexander Payne, Brad Pitt e Clooney ). Como? Fácil entender.
   Quem vota é quem faz filmes. E essa premiação é um pedido de socorro. Hollywood, aquela que faz os filmes, e não a que contabiliza custos, aquela que ama o cinema, se encantou por um filme que faz tudo aquilo que eles não mais podem fazer. Um filme que não é parte dois de nada, que não é HQ, que não fala de gente doente ou doida, que não explora violência, que não tem efeitos. Mais que isso, é um filme que fala de amor, bondade, tempo e de cinema. Que lhes lembrou o que significa fazer parte dessa "arte".
   E acima de tudo: Que se pode fazer um filme de coragem. Pois nada pode ser mais arriscado que fazer um filme em P/B, mudo e sem tiros e explosões. Hollywood, sabendo que está num buraco, homenageia a si-mesma num filme estrangeiro.
   Porque o cinema como eu o conheci acabou. Os poucos bons filmes ainda feitos são irrelevantes. O que ficou são 10 monstros anuais que estouram nas bilheterias e um imenso resto que nada significa. Para minha geração ( a mesma de Alexander Payne, Todd Haynes e PT Anderson ), cinema era a arte mais importante. Kurosawa, Fellini ou Bergman eram mais geniais que os melhores escritores, poetas, pintores ou filósofos. Um grande filme era como uma igreja. Assim era para milhões de pessoas. Isso acabou. Cinema é hoje uma sala de emoções simples e baratas. Os filmes se tornaram vazios, bobos, nulos. E os atores choram por isso, os diretores suspiram pela liberdade perdida. Mas a culpa foi deles mesmos. Hollywood deseducou seu público e no processo o perdeu. Cinema já era.
   O Artista nos exibe o auge de uma crise. Em lindo filme que é como um ET no mundo atual. Bravo!
   Quanto a cerimonia....Excelente ver Billy Crystal de volta. Eles perceberam que o jeitão MTV dos últimos anos desmoralizava a festa. Billy foi engraçado, elegante e com timing perfeito. Jamais deveria ter saído.
   Thomas Langmann, produtor do Artista, citou Claude Berri. Claude foi um produtor e diretor excelente, mas Michel, o diretor, dedicou o Oscar a Billy Wilder. Ele falou: -Dedico o troféu a 3 pessoas, Billy Wilder, Billy Wilder e Billy Wilder.
   É um fato. Quando Fernando Trueba ganhou seu prêmio de filme estrangeiro também dedicou o Oscar a Billy. -Se eu acreditasse em Deus dedicaria o prêmio a Ele, como não creio dedico a Billy Wilder! Reza a lenda que Billy lhe ligou no dia seguinte: -Alô...é Deus falando...
   Europeus adoram Billy.
   Achei Angelina feia. Achei Natalie pavorosa. Milla estava bonita.
   Jean Dujardim tem a cara mais simpática do mundo. Espero que saibam honrar seu talento com roteiros que tenham a ver com ele. Já sei que não vai dar certo. Não se escrevem roteiros para atores simpáticos. Os poucos que surgem são todos de Clooney e Pitt. Então que Jean fique na França.
   Meryl tinha de vencer um dia. Pena que em filme tão ruim. E é sempre um prazer ver Colin Firth. De tudo que não vi, sinto vontade de ver apenas o filme sobre Marilyn e Olivier.
   Aposentaram a orquestra.
   A melhor coisa da noite foi a cena de Intriga Internacional no telão. O rosto de Cary Grant e o avião o perseguindo. Cinema em seu apogeu.
   Hugo é bonito mas O Artista é melhor. O Oscar tá pequeno. Hollywood passou trinta anos apostando em filmes idiotas. Namorando adolescentes. Adolescentes são infiéis por natureza. Agora é tarde. Os adultos ficaram adolescentes. O cinema errou.
   O Artista não.