DOIS FILMES DE JOHN HUSTON. UM PERFEITO E OUTRO MUITO ERRADO. e ainda considerações sobre Truffaut e a política de autor.

   A turma de críticos franceses dos Cahiers, Truffaut, Godard, Rohmer, odiava John Huston. Nunca entendi porque. Ainda não entendo. Bem...eles também falava mal de todo filme inglês. Diziam que o cinema inglês era sempre quadrado. Sem "arte". Risível falar isso do cinema que no tempo dos Cahiers tinha Powell, Carol Reed e David Lean. Voltando à Huston...O Cahiers amava os filmes de John Ford e de Howard Hawks, então o motivo não era ideológico. Diziam que Hawks era um dos tais "autores completos", que em cada filme de Hawks se notava a mão de um "autor".
  Deus! Como eles eram bobos!!!! Hawks ria disso! Ele sabia que seu ideal de cinema era conseguir fazer filmes totalmente diferentes um do outro, e só na parte final de sua carreira, com os westerns tipo Rio Lobo, ele se entregou à um certo "autorismo", repetindo o mesmo filme diversas vezes. O Hawks de Scarface e Levada da Breca nada tem de autoral. É um grande fazedor de filmes.
  John Huston seria muito mais autor que Ford ou Hawks. Pois Huston além de dirigir, escrevia seus filmes, era um grande escritor. Hawks e Ford não faziam seus roteiros. Ford nem produtor era. Sim, John Ford, gênio que era, deixava sua marca em todo filme, mas ressalto isso para dizer como a teoria dos Cahiers era fraca. Se Ford ou Fritz Lang eram autores, então Huston também era.
  Nem vou entrar no mérito de que certos filmes, grandes filmes, têm como autor não seu diretor, mas sim o produtor. E O Vento Levou é um filme de David Selznick, só dele. Como produtor, ele escolheu todo o estilo visual e o roteiro do filme. Tudo na obra tem a mão dele. Nos anos 90, todos os filmes dos Weinstein eram filmes Weinstein. Pouco importava o diretor, eram filmes com a marca do estilo dos produtores. A série Bond 007 sempre foi de autoria de Broccoli e Saltzman e Jack Warner foi o verdadeiro autor de My Fair Lady. Um produtor de gênio aprova o roteiro, dá palpites na montagem, opta pela trilha sonora correta e chama os atores exatos para os papeis. Uma das tragédias do cinema atual é que os produtores são investidores, sabem nada de cinema e não amam a arte de fazer filmes. Querem ganhar dinheiro ou fazer uma marca forte. Só isso. Preferem passear em seu iate a ver um filme.
  The Asphalt Jungle é um filme perfeito. No Brasil se chama O SEGREDO DAS JOIAS. É cult hoje dizer que ele é o melhor filme de Huston. Não sei se é o melhor, mas é um Huston típico, autoral. Um grupo de bandidos de segunda classe fazem o grande roubo. Mas tudo dá errado. Eis o tema de Huston: o homem contra o destino. O indivíduo lutando contra o meio e sendo derrotado no final. Pra quem não sabe foi este o filme que lançou a moda de filmes de assalto. De RI FI FI de Jules Dassin, à OS ETERNOS DESCONHECIDOS de Monicelli, é aqui que a coisa começa.
  Huston usou grandes atores e não grandes estrelas. A produção é pequena. Sterling Hayden faz o pistoleiro do interior, bronco, e Sam Jaffe é o veterano que sabe tudo sobre planejar um assalto. Há ainda Louis Calhern no papel de sua vida, um advogado corrupto e Marilyn Monroe, em começo de carreira, como sua jovem amante. O filme não envelheceu um dia. O estilo é duro, viril, seco, a fotografia não tem nenhum glamour, as cenas fogem do sensacional, é quase neo realista. Não consigo lembrar de nada de ruim no filme. Durará para sempre.
  Já MOULIN ROUGE, filme sobre Toulouse-Lautrec, é quase uma bomba. Concordo com Pauline Kael: é quase inacreditável que o mesmo homem que fez The Asphalt Jungle, filme tão ágil e veloz, tenha feito esta maçaroca pesadona. Bem...no futuro Huston faria A Biblia, talvez o pior filme da história.
  Tenho a teoria de que Huston se atrapalhava quando conscientemente pensava estar fazendo arte. Ele se tornava pretensioso. Chato. Ok, The Dead, seu último filme, é arte consciente, mas foi um ponto fora da curva. Huston é maior quando lida com seu tempo e com assuntos urgentes, cotidianos, de jornal. A solenidade lhe cai muito mal. Apesar da fotografia de Oswald Morris, este filme é bobo, chato, deprimente. Huston quer celebrar Paris, a pintura e Lautrec, e tudo que nos dá é champagne azeda.
  Corra pra ver O SEGREDO DAS JOIAS e fuja de Lautrec.

UMA EPIFANIA, SURGE CLINT EASTWOOD

   TARÂNTULA é um desses filmes dos anos 50 feitos para teens assistirem em drive ins num programa duplo. Lançado em 1955, conta a história de uma aranha que se torna gigante por causa de testes nucleares feitos no deserto. Um monte de gente morre e tudo parece perdido. Mas então, o herói do filme chama a força aérea. Pede para jogarem napalm no bicho. Vemos então o jato vir. Um atorzinho, fazendo uma ponta no filme, diz duas falas. As duas basicamente dizem o seguinte: DEIXA COMIGO.
   Sim, voce logo reconhece aquela voz: é CLINT EASTWOOD aos 25 anos de idade, fazendo sua segunda aparição nas telas, antes de ir pra TV fazer a série Rawhide. É epifânico. Clint joga a bomba, mata o bicho e o filme acaba. Em dez segundos ele antecipa tudo o que faria dele famoso. Mais fantástico, em meio aos atores esquecidos passados do filme, temos a sensação de que aquele olhar e aquela voz de Clint é um tipo de SER DE HOJE TRANSPORTADO PARA 1955. Momento de ultra sofisticada ironia.
  Sim. Penso que talvez ele seja o maior herói-ator dos últimos 60 anos.

TRANSPARÊNCIAS - VLADIMIR NABOKOV

   Eis aqui o livro de 1972 de Nabokov. Curto. Conta a aventura, se é que se pode chamar disso, patética, muito patética, de um jovem revisor de livros. Na Suíça ele se apaixona por Armande, liberal e misteriosa. Nosso herói é sonâmbulo. Foi internado em hospícios. Entrevista um escritor velhusco e tarado. Comete um crime. Casa-se. Lembra do pai. E divaga...A melhor frase do livro se encontra em seu final. Não irei a repetir. Mas, brilhante, ela meio que elucida todo o sentido de romance tão confuso. E simples.
  Existem dois tipos de escritor. O que escreve com enorme luta, imensa dificuldade; e o que escreve fácil, produz muito, como quem respira. Nabokov, assim como Dickens, Balzac, Greene ou Updike, escreveu muito, sem parar jamais. E, óbvio, em meio a tanta coisa, encontramos textos geniais e outros que parecem automáticos. Este é um dos automáticos. Fácil perceber que ele escreve com pressa, quase se repete, cumpre uma obrigação ( com ele mesmo, seja bem frisado ). Nada há de ambicioso aqui. Mas entenda, nada de ambicioso para o homem que escreveu Pale Fire. Este romance está longe de ser vulgar, comum ou simples. Em 1972 Nabokov era o escritor mais festejado do mundo, e ele sentia a febre de ter de escrever sem parar. Revistas, jornais, produtores de filmes, todos queriam algo dele. Eu ainda peguei o fim dessa onda. Nabokov morreu em 1977, sendo criança, recordo dele vivo, escrevendo contos para a Playboy e sendo muito bem pago por isso. Não ache indigno! Todo autor dos anos 60 e 70 escrevia para a revista.
  130 páginas esquisitas.
 

SOBRE CRIANÇAS E GUERRAS

   Um tema muito duro de abordar é o da pedofilia. Se você, como eu, não milita contra esse mal, deve estar por fora do que está rolando. Creia, existem grupos na internet que lutam para dar à esse crime o mesmo status do usuário de drogas, um doente que deve ser tratado e não um criminoso. Ele é um doente? Sim, sem dúvida. Mas não seríamos doentes todos nós, desde o fumante até o serial killer?
  O problema não é mudar o status do crime, mas sim transformar o pedófilo ocasional em um tipo de "doentinho que juro que tá se tratando em psiquiatra". Para fazer isso, esquerda e direita, entendam, os mais idiotas da direita e os mais imbecis da esquerda, usam dois discursos que ao fim se completam.
  Para a direita, tudo se resume em olhar o passado. Gregos e romanos se divertiam com crianças, e foi apenas nos últimos 200 anos que isso se tornou um crime. É "histórico". Graças à Deus esse modo de pensar é individual, não tem se tornado um movimento organizado. Sua base de raciocínio é medíocre. Assim fosse eu poderia ter escravos, pois a escravidão só se tornou crime a dois séculos. Duelos ainda ocorreriam e condenados seriam enforcados na praça pública. Tudo foi "histórico".
  Já a esquerda usa o velho slogan de sempre: A inocência infantil é uma invenção burguesa. Olhar a criança como ser sagrado faz parte da filosofia do lar vitoriano. Se devemos destruir tudo o que esse lar, repressor e opressor, significa, devemos também dar à criança "seu direito de ser agente sexual". ( Me doi ter de escrever tamanhas bobagens ).
  Eu não queria crer que existisse grau tão grande de perversidade assumida, mas amigos conservadores me deram o endereço no youtube de um dos grupos. Tem no face também.
  Nos USA, e nossa mídia não divulga, está acontecendo um grande processo. Um fornecedor de "menores disponíveis" foi preso. Ele se matou na prisão, mas sua sócia resolveu abrir a boca. De políticos famosos à atores de Hollywood ( um deles com fama de bom pai ), todos estão envolvidos nessa rede mundial de pedofilia. Jamais darei nomes enquanto não forem julgados e presos. Tenho ética.
  Vivemos o começo de um século. E, como todo começo, as paixões, boas e ruins, se exacerbam. No começo do XIX houve Napoleão e a revolução romântica. O Ego como força maior da vida. No começo do XX houve a revolução russa e as guerras, o Ego sendo subjugado pelo coletivismo dos "ismos". Agora não há como saber o que está em jogo. É preciso algum distanciamento. Arrisco, e devo estar errado, em dizer que há uma luta entre o infantilismo mais vaidoso e delirante, o desejo como poder "mágico", e a caricatura da maturidade, vista como uma espécie de coragem sem culpa.
  O que é certo é que não haverá uma repetição. Nada mais de revoluções, nada mais de romantismos, nada mais de iluminismos. Apesar dos gritos, não faz mais sentido falar em luta de classes ou em ditadura da igreja. São palavras vazias, restos vomitados de slogans que morreram a mais de 40 anos.
  A briga entre brancos e negros nos USA é artificial. Uma tentativa de trocar a luta de classes, que não cola mais, pela luta racial. Artificial porque feita na nação errada. Não há lugar no planeta onde o negro viva melhor que nos EUA. Não há cultura negra mais amada que nos EUA. Falar em supremacia branca nos USA não faz agora sentido nenhum. Simplesmente porque não existe uma cultura puramente branca dentro do país. Supremacia branca existe na Russia. Ou na China. Suécia. Talvez até na Itália. Países onde um negro ainda é visto com alguma estranheza. Ser um negro hoje nos EUA é ser mais americano que qualquer outro. O americano típico é hoje uma negra.
  Comecei falando de crianças e termino falando de guerra racial. Faz todo sentido. O mundo é uma sopa. Espere esfriar e prove o sabor. Mas espere esfriar por favor.
 

UM POST DIFÍCIL: LOLITA- NABOKOV. UMA OBRA PRIMA QUE NÃO É NADA DAQUILO QUE VOCÊ PENSA.

   É muito difícil escrever sobre Lolita. Não só pelo seu tema espinhoso. Mas também por ser uma obra muito, muito complexa. Os filmes péssimos feitos com base no livro, até Kubrick se perdeu e fez uma chatice sem fim, apenas deturparam o texto do romance. Então vamos deixar claro certas coisas que são óbvias mas que muita gente não sabe:
1- Nabokov nunca gostou de meninas. É até ridículo falar isso, mas ele amava mulheres que tinham um jeito de nobreza perdida, e todas eram profundamente intelectuais.
2- O livro não tem nenhuma cena erótica e é tão bem escrito que você mal percebe quando ele está descrevendo uma cena de masturbação.
3- Humbert Humbert, o narrador, é uma pessoa bastante fantasiosa. Tudo o que sabemos é aquilo que ele nos conta. E o que ele percebe é aquilo que ele quer perceber.
4- O tema do livro não é a tara, é a América. Lolita fala do deslumbramento de um emigrante da Europa central por uma americana jovem, muito jovem ( ela tem 12 anos e um metro e quarenta de altura ).
   Lançado em 1956, e ainda acho um milagre ele ter sido editado, Lolita se tornou um best seller de escândalo. Penso na quantidade de gente que pensou estar comprando pornografia e comprou um romance poético. Sórdido, imoral, cruel e às vezes até mesmo repugnante, porém sempre poético. A linguagem é hipnótica. Nabokov escreve com toda sua potência. Ele escreve como uma força da natureza.
  A história você conhece: ele chega a América, se casa com a mãe de Lolita, a mãe morre e ele e a criança partem numa viagem pelos motéis do país. Os capítulos em que os USA são descritos são maravilhosos. Humbert sente ódio e amor pela nação jovem e brega, linda e óbvia, vulgar e inesgotável. Os USA são Lolita. Uma ninfeta ( Nabokov criou esse nome neste livro ) que mistura sujeira e saúde, voracidade e ignorância, praticidade e inocência.
  Humbert narra e mesmo assim, se voce prestar atenção, verá onde suas mentiras surgem: ele diz que Lolita o seduziu, mas lemos que ela chora de manhã, tenta escapar e é chantageada por ele. Estamos diante de simples rapto. Lolita é orfâ, não tem ninguém no mundo, Humbert se aproveita disso. Eles transam o tempo todo. Ele diz que ela é indiferente. Estupro é a palavra. Humbert é asqueroso. E mesmo assim lemos com prazer tudo que ele diz. Milagre de grande autor: seguirmos as palavras de um pulha.
  O livro é delicioso. O livro é revoltante. Lolita não é adorável. Ela é uma menina com poucos banhos e muita fome. Apenas uma ninfeta. Nabokov descreve o que é uma. Seria uma menina que olha para adultos com curiosidade. Apenas isso. Ah sim, antes que acusem o autor de machista: há na história a plena sensação de como é difícil ser desejada. Os homens são descritos como maduros homens frustrados ou meninos cheios de espinhas loucos para transar. Humbert é interessante como personagem, mas voce jamais iria querer o encontrar na vida. Quanto à Lolita...ela nunca parece real. A olhamos pelos olhos de Humbert, e ele jamais a viu de fato.
   Muito se fala sobre a coragem de Joyce ou Kafka por escreverem os livros difíceis que escreveram. Mas este ex nobre russo teve uma coragem de titã ao lançar este romance. Não usarei a palavra imoral. Mas ele vai fundo contra o tabu. E para deixar tudo ainda mais complicado, Lolita o chama de pai.
   Nabokov percebeu como estrangeiro a hiper sexualização dos EUA. E viu que essa sexualização vinha via adolescentes. Não esqueça que 1956 é o ano de Elvis e do rock n roll. Lolita é lançado no tempo de Good Golly Miss Molly e de Be Bop a Lula. Já naquele tempo meninas de 12 anos pensavam em transar todo o tempo, e algumas faziam a coisa em moitas e banheiros públicos. Adultos ficavam loucos em meio à essa liberalidade. Queriam fazer parte da festa. Humbert enlouquece no processo. É o scholar europeu, o professor que escreve livros sobre poesia francesa, que mergulha na vertigem sexual do país novo, muito novo, jovem, muito jovem, caipira, muito caipira. Lolita TINHA de ter 12 anos. Fosse uma garota de 18 ou 19 a mensagem e a loucura não seria tão clara e tão poderosa. A Europa, sábia e morta, com seus 3000 anos de cultura se deixa levar pelo desejo americano, desejo que tem apenas 456 anos. Posso ir mais longe e dizer que Humbert está morto. Ele nunca viveu. Nasceu sem nascer. Lolita é viva. E por isso lhe escapa. Mesmo no ato sexual ela nunca está presente.
   Lolita foi nos anos 60 chamado de o melhor livro do século. Um milagre de escrita refinada. Nem tanto. Mas...caramba! Que grande livro!!!!

DYLAN E ENNIO

   Grande comoção geral pela morte de Ennio Morricone. Já aviso que não sou fã. Ele compôs as trilhas dos westerns que todo mundo conhece e que todo mundo acha as melhores já feitas para westerns. Não são. Elmer Bernstein e Jerome Morros compuseram coisa bem melhor. Isso não significa que não goste da música dos tais filmes. Como não gostar? Como bom italiano, ele mistura tudo numa receita que acaba dando certo. Tem as guitarras de James Bond com vozes de Burt Bacharach. Percussão de Yojimbo com melodia de Max Steiner. Deu certo. E por ser....cômica? O povo ama.
   Desde Wagner muita gente comenta que música italiana é sempre melada. Ennio fez algumas trilhas apelativas que pra mim são imperdoáveis. O italiano sempre quer uma lágrima sua. Ele se esforça por isso. A arte do país foi destruída muitas vezes por essa mania de achar que a lágrima é o maior dos prêmios. Rossini, Mascagni, Leoncavallo, até Vivaldi às vezes caía nisso. Verdi se deixou tomar também.
   Nino Rota foi muito maior que Ennio. Tão melado quanto, mas muito mais belo. Nino voava.
   Um nobre amigo me manda o disco novo de Bob Dylan. Surpresa! Bob melhorou a voz. Ele não tenta mais cantar. Ele ruge. O disco todo é um leão velho emitindo ainda seus urros guturais. É rock n roll puro. Bob é da geração que ainda faz rock não parecer paródia. Isso porque essa gente nascida entre 1940-1950 ouviu rock e só rock como referência. Não adquiriram o distanciamento que faz com que todo músico de rock nascido em 1960 ou 1990 pareça sempre estar reinterpretando criticamente algo já feito antes. O que é verdade.
   Quando Bob fala de Jimmy Reed ele fala como quem conheceu Reed. Dylan e MacCartney. A idade nunca foi inimiga da arte. Pensava-se que seria ridículo cantar rock aos 40. Townshend e Jagger diziam isso num tempo em que ninguém tinha 30. Hoje a gente sabe que não. Dylan gravou discos aos 30 anos muito ruins. E desde que fez 60 tem acertado muito.
   Me inquieta saber que algum imbecil irá dizer que Dylan é apenas um judeu branco macho. Mas quer saber? Isso vai passar! Este é um novo século, o XX se foi, e é normal que se tentem novos modos de viver e pensar. O lixo irá sumir e o que vale será preservado. Dylan será como Shelley ou Whitman. O novo século o poupará.

NUVENS DE PÁSSAROS BRANCOS - YASUNARI KAWABATA

    Mais um Kawabata, este o mais curto romance que li até agora. Presente nele o estilo simples e objetivo do mestre. Um jovem vai à uma cerimônia de chá. Lá estão presentes duas das amantes de seu pai já falecido. Deverei contar o resto? Melhor não.
   Mulheres conduzem a história. Em Kawabata o ponto de vista é do homem, mas esse personagem masculino é sempre passivo. Ele vê. Ele sofre a ação. Mas são as mulheres que movem a história. E que mulheres! Kawabata é o mais sensual dos autores. Em poucas palavras vemos e gostamos de suas jovens mulheres. Há nele um certo desprazer pela idade. Algo de grotesco em toda personagem idosa. Já em relação às jovens há sempre o amor pela flor e pela estação do ano. Isso me leva a pensar que Kawabata ainda é editado por ser japonês. Entenda, eu amo Kawabata e sempre leio tudo dele que encontro, mas é o tipo de literatura fora de moda. Penso que por ser "de outra cultura" o beneficia. É bacana ler um japonês. Como é bacana ler um turco ou um finlandês.
  Me irritei muito com a passividade do personagem central. Ele não age. Se deixa levar. Quando resolve sair da letargia já é tarde demais. Kawabata, jamais um autor comprometido com o velho Japão de antes da guerra, não deixa de espelhar o mundo da gueixa. A mulher como o ser que faz, que serve, que se dá. E o homem como o senhor que espera ser servido. Senhor gentil, mas sempre um senhor. A tara do Japão pós moderno por mulheres de rosto infantil revela muito isso.
  É o menos bom dos livros desse autor. Mas isso não é pouco.

PORQUÊ DEIXEI DE SER VEGETARIANO

   Voltei a comer carne. Foram vinte anos de vegetarianismo. Falar do porque retornei ao consumo de hamburger pode explicar o que é o mundo de hoje.
   Minha decisão de parar de comer animais foi puramente piedosa. Nada de medicina. Eu amo bichos e sentia que comê-los seria uma crueldade. Tinha também a ideia de que comer animais aumentava minha animalidade. Minha alma seria mais pura não os comendo.
   Cresci comendo carne. A nostalgia do sabor delicioso da carne habitava minha memória. Resistir à esse desejo aumentava minha auto estima. É claro que eu me sentia superior a quem comia bife.
   Mas, estranho isso, eu adorava assistir programas de culinária na TV. Durante anos eu tinha prazer em ver um churrasco sendo assado e mais ainda em ver um gordo consumir um hamburger de 5 andares. Eu babava. E resistia.
  Meu primeiro incômodo foi político. Os professores que menos gosto se gabam de sua condição vegana. Eles realmente acreditam que o veganismo é o passo seguinte da evolução. Me sentia incomodado por me parecer com eles. Deles quero a maior distância possível.
  O segundo incômodo, mais sério, foi ético. Eu via um programa de TV sobre churrasco como quem assiste um vídeo pornô. E quando percebi isso me senti realmente esquisito. Eis a situação de nosso tempo: Ver e não fazer. Como quem olha fotos de viagens que jamais fará ou saliva por cenas de sexo que nunca irá se permitir, eu babava pela carne mal passada. E, pior, exatamente como um fanático religioso, me sentia superior por resistir à tentação. A carne como pecado.
  Foi a partir daí que comecei a pensar. Pensar na realidade e nos animais.
  Vivemos o tempo onde uma geração não aceita a realidade de forma absoluta. Sempre tivemos uma dificuldade em aceitar o lado sujo da vida, mas agora a não aceitação se tornou ódio. Pessoas não aceitam o fato da Terra ser redonda ou da biologia do sexo ser uma lei natural. Não se aceita a necessidade de existir uma obrigação e também não se aceita a história da humanidade. Tudo pode ser apagado e deletado. Mas a verdade é que não pode. E como demonstra a atual pandemia, por trás de todas essas não aceitações, vive a maior não aceitação de todas: Não se aceita a morte. Todo psicólogo sabe que por detrás de toda fobia existe o medo de morrer. Pois uma geração que cresceu matando virtualmente em games, não consegue encarar a morte real.
  Antes íamos à enterros todo ano. Morria um irmão, um vizinho, um tio. E desde crianças íamos aos velórios. Meu primeiro velório foi aos 45 anos. Do meu pai. Sim, eu faço parte da geração que não aceita a morte, e portanto, não aceita a vida.
  Tigres comem gazelas vivas. Cobras esmagam filhotes de zebras. Herbívoros velhos morrem devorados por hienas. Leões velhos morrem lentamente, de fome. Na natureza não se aplica o conceito de crueldade. A vida para existir tem de ser como ela é. Seu gato querido torturará um rato se puder. Irá bater nele até ele morrer. Isso durará horas.
  Vegetarianos adoram falar da crueldade humana. Pois digo que somos o único bicho que sente a morte de sua vítima. Perto da forma como um elefante morre na floresta, nossos matadouros são o paraíso.
  NÃO HÁ MORTE SEM DOR. NÃO HÁ MORTE BONITA. E NÃO HÁ VIDA SEM MORTE. É isso que se tornou tão difícil admitir.
  Veganos querem que não se coma mais carne. E fico pensando no que se fará com o bilhão de bois e porcos que existem nas fazendas do planeta. Deixar que eles vivam até morrer? Soltar na natureza? Queimar todos? Sinto dizer que todos eles vão morrer do mesmo modo, assim como uma anta morre. E a morte desses porquinhos, de doença, seca ou fome, não vai ser nada indolor.
  Então saia da frente dessa tela e coma um bife bem temperado.
  E faça sexo.
  Seu corpo é uma fábrica de prazer, até o dia em que a doença chegar e a morte fechar suas portas.
  Não compete a nós entender porque a vida é como é. Mas aceite que voce é parte dela. Seu corpo não é virtual e seus desejos não podem ser deletados. Não há reset na vida.
  Paro aqui. Meu hamburger está ao ponto e ele me chama. Toda a felicidade possível na vida está em viver de acordo com seu corpo. A alma sabe disso. E ela irá te aconchegar.

QUEM PERDE GANHA - GRAHAM GREENE...DIVERTIMENTO SOBRE PASCAL

   Por escrever com facilidade, Greene se deu ao luxo de construir duas carreiras. Uma ambiciosa, onde seus livros, pesados, falam sobre Deus e a culpa. Outra, leve, feita de livros que desejam apenas divertir. Este é curto, simples, divertido. Li em apenas um fôlego, 130 páginas curtas. Conta a história de um casal. Ele é um modesto funcionário que se casará. Ela uma menina otimista com momentos de dúvida. O chefe dele, um poderoso dono de empresa, boa vida e culto, temido, dá à ele um casamento e uma lua de mel em Monte Carlo. Mas lá, o casal se perde em meio ao jogo e à sorte. Ele fica rico, muito rico, e o patrão desaparece.
  Oh Graham Greene! Mesmo numa diversão aqui está seu tema de sempre: Deus, sorte, culpa, ingratidão. O pobre noivo constrói um sistema para vencer no cassino. Vence, mas perde a esposa e a felicidade. Como Pascal, que é citado bem de passagem no livro, ele procura febrilmente enfiar a vida e Deus dentro de um sistema. E ao fazer isso, perde o amor. Briga com Deus ( o chefe ), por achar que ele o esqueceu, o abandonou em Monte Carlo, causou todo seu mal.
  Penso que voce não vai achar este livro. É uma edição de 1960, da Civilização Brasileira. Talvez em um sebo, com sorte...Não crie um sistema para o encontrar. Essa a mensagem do livro. Não o procure. Não O procure. Se Ele te esqueceu, conforme-se com esse mistério. Talvez ganhar seja seu azar e ao perder voce ganhe algo. Ninguém sabe.
  É um delícia de livrinho!

O HOMEM INVISÍVEL - H.G. WELLS

    Viagem no tempo, homem invisível, invasão de discos voadores...engraçado como os temas de Wells são, dentre os autores que inauguraram aquilo que viria a ser a sci fi, aqueles que provavelmente jamais serão realidade. Jules Verne falou sobre voltas ao mundo e idas à Lua, e bem ou mal, eles aconteceram. George Orwell e Aldous Huxley previram ditaduras do prazer ou um mundo hiper vigiado, e acertaram, mas Wells, logo o mais social dentre todos eles, não. Provável que viajar no tempo seja inviável e que ser invisível seja impossível. Para sempre.
   O livro é uma espécie de pesadelo lúgubre. O Homem Invisível é violento, desagradável e infeliz. Há ótimas descrições da vida simples nas pequenas cidades inglesas e Wells dá ritmo frenético à tudo.
  H.G. Wells foi famoso, muito famoso. Ao falecer, nos anos 50, era quase um mito. De origem muito pobre, enriqueceu escrevendo, mas jamais esqueceu sua origem. Ele foi um dos primeiros autores a temer o futuro. Sua mensagem acabou por dar o tom que prevalece ainda hoje: o futuro científico promete exploração e desastre. Eu pessoalmente discordo disso. Penso que o mundo nunca teve tão pouca doença e tão pouca fome. Interessante...noto agora que houve um momento, antes da TV e do rádio, que estar em casa era conversar e ler. Fins do século XIX até mais ou menos os anos 30, foi a era de ouro do conto, da novela, do romancista popular. Tempo de Sherlock Holmes, Father Brown, do começo do conto policial e de horror, do conto em lugares exóticos, de Tarzan, Joseph Conrad, O.Henry, da popularização de Poe, Bram Stoker, Agatha Christie, Le Blanc, Twain. E de Wells.
 

ANJOS, FANTASMAS E ESPÍRITOS

   Michael Almereyda é um famoso diretor de teatro inglês atual. Nos extras do filme que acabei de ver, ele narra um texto soberbo sobre a atriz Gail Russel e o ator Ray Milland. Tão informativos quanto poéticos, comecei a perceber que há algo de muito estranho alí. Pois bem, na última parte do extra, ele fala algo que cala fundo no meu coração: Virginia Woolf dizendo, em 1926, auge do filme sem som, que a invenção do cinema trouxe uma experiência inédita até então: a de se ver fantasmas. Pela primeira vez nós estávamos vendo gente que era pura luz, aparições irreais, espectros. Almereyda desenvolve isso, e além de mostrar que com o correr do tempo o que vemos são pessoas realmente mortas, o que deixa a observação de Virginia ainda mais verdadeira, nós, diante de um filme, somos os fantasmas, os anjos, os espíritos.
 O extra mostra então cenas de filmes sobre almas, e dentre eles, Asas do Desejo, o filme magia de Wim Wenders. A câmera rodopia entre as pessoas naquilo que imaginamos ser o modo angelical de ver a vida. Pois então, o que somos nós, ao ver um filme, senão anjos vendo algo sem ser percebido? Se as imagens do filme são de uma realidade de espectros, sem solidez, nós as vemos como anjos, olhamos mas não podemos tocar, falamos mas não somos ouvidos, torcemos mas não podemos influir.
  Incrível não? Eu jamais havia notado que vendo um filme estou no lugar de um anjo vendo a Terra. Vejo, mas não estou lá. Me coloco numa dimensão à parte. Torço. Rezo. Quero. Mas não posso agir. Os atores não podem me ver. Meu desejo não mudará o roteiro. A vida no filme acontece lá e eu vivo aqui. Olho. Rodopio. Os anjos de Berlin sou eu.
  Mas incrível ainda é uma cena do filme em que esses extras estão. Ray Milland e Gail Russel andam por uma rua inglesa de 1942. A câmera foca neles, acompanha seu passeio posicionada na frente do dois. Ao fundo vemos uma rua de paralelepípedos, casas de comércio, umas poucas pessoas vivendo seu dia a dia. A cena não tem nada de extraordinário. Uma simples cena de diálogo em um filme. Mas quando vejo essa cena, não sei o porque, penso: Espera! O que houve? Estou vendo magia aqui! Esse lugar...essa gente...são...fantasmas! Belos fantasmas, cotidianos fantasmas...que se passa? Estou hipnotizado...
  Pensei ser esse apenas um lapso meu. Mas não é que nos extras Almereyda mostra essa cena, tão banal, como momento em que a teoria dele se prova? São fantasmas. Estão mortos. São intocáveis. Mas eu os vejo como espectros de luz. Vivos. Vivendo uma vida deles, só deles. Em um local que é COMUM MAS AO MESMO TEMPO É FANTÁSTICO.
  O filme se chama O SOLAR DAS ALMAS PERDIDAS e é nele que pela primeira vez se ouviu Stella by Starlight, uma canção de Victor Young que se tornou ícone do jazz ( vc já a ouviu com Miles Davis, Charlie Parker, Sinatra, Ella, Chet... ). Nunca pensei que fosse uma canção de um filme sobre fantasmas. O roteiro fala de um casal que se muda para um casa que tem dois fantasmas. E, como diz Almereyda, é um filme muito ruim com cenas maravilhosas. Ele é todo errado, esquisito, com momentos ridículos, mas ao mesmo tempo tem duas atuações sobrenaturais ( Gail e Ray ) e os fantasmas ainda dão grande incômodo. Foi o primeiro filme da história a tratar o sobrenatural não como aventura ou comédia, mas como um fenômeno sério. Grande sucesso em seu tempo, 1944, merece ser visto por aquilo que nos provoca. E em dvd, pelo extra.
  Com ele assisti também O SOLAR DE DRAGONWYCK, primeiro filme de Joseph L. Mankiewicz, que não vale à pena, e THE GHOST AND MRS MUIR, também do mesmo diretor e que vale muito à pena. Muir é uma viúva que vai morar numa casa na praia e lá conhece o fantasma do capitão que lá vivia. É romance total e tem Gene Tierney hiper bonita e Rex Harrison estreando na América. Ver Rex é sempre prazer supremo. O filme é dos três, o melhor. Não tem nada de ruim ou menos que bom.
  Ah sim, o filme que contém a cena fantástica e os extras, O SOLAR DAS ALMAS PERDIDAS, não é de Mankiewicz. É de Lewis Allen, um diretor classe B. Ray Milland ganharia o Oscar no ano seguinte por FARRAPO HUMANO, de Wilder.

O FIO DA NAVALHA + GASLIGHT. DIVERSÃO PARA ADULTOS BABY

   O FIO DA NAVALHA de W. Somerset Maugham é daqueles best sellers que ninguém mais lê. Maugham, escritor profissional ao extremos, escreveu de tudo: romances, contos, teatro, cinema. Em certo momento, anos 40 e 50, ele era um dos cinco autores mais lidos no mundo. Hoje seus livros não interessam mais. São muito pop para serem estudados pelo povo metido a artista, e muito adultos para serem lidos por quem quer apenas fantasia, afinal, nossos atuais best sellers são todos fantasias sobre horror ou ciência, ou algum tipo de auto ajuda disfarçada.
  O FIO DA NAVALHA foi um dos romances formadores em minha vida. Como Zorba O Grego, Cândido, Complexo de Portnoy, são aqueles livros que me fizeram amar a leitura já em minha época de adulto. Se a história de meus livros amados começou com Tom Sawyer e A Ilha do Tesouro, foi com O Fio da Navalha que essa história se confirma. Li 3 vezes e me identifiquei com Larry, o homem que traumatizado pela guerra, passa a vida fugindo do mundo à procura da iluminação. Maugham escreve como quem fala à beira da lareira fumando um cachimbo. Pausado, calmo, jamais cansativo. Literatura de alta gastronomia. Como a de Isak Dinesen. Evelyn Waugh.
  Em 1984, Bill Murray, apaixonado pelo livro, fez um filme sobre a obra de Maugham. Larry feito por Bill Murray. Um filme longo e aborrecido. Pior que tudo, metido à arte. Salva-se apenas a Sophie feita por Theresa Russel. Ontem vi a versão de Edmund Goulding, Fox, 1946, época em que a moda Maugham estava no auge. É um típico filme adulto POP de Hollywood. O tipo de filme que hoje só pode ser feito na TV. Estranhamente o filme foca muito mais em Elliot, o velho esnobe, e Maugham, o próprio escritor que conta a história de Larry. Funciona? Muito. Larry no filme se torna aquilo que ele é na vida: personagem esquivo, que surge e desaparece, um solitário. Gene Tierney faz a maldosa ex noiva de Larry. Há que se dizer, Gene Tierney foi a mais bonita mulher do cinema. Estranho fato, todas as divas da tela hoje parecem grotescas. Marilyn, Greta, Marlene, Rita, são como bonecas em show de travestis. Porém Gene Tierney, assim como Grace Kelly ou Jeanne Crain, são tão belas hoje como sempre foram. É um bom filme.
  Patrick Hamilton escrevia teatro popular-chique. Esse tipo de teatro hoje sobrevive apenas em alguns musicais. O público era o casal de 35-60 anos, classe média, curso superior, querendo se divertir ao mesmo tempo que usava sua inteligência. O filme Gaslight, direção de George Cukor, Oscar para Ingrid Bergman, é eletrizante. Ingrid é a pobre mulher que quase enlouquece nas mãos de Charles Boyer. NUNCA ME IRRITEI TANTO com um vilão como com esse CRÁPULA feito por Boyer. Não me importa se ele exagera ou não. Eu fiquei a ponto de destruir a TV. Eu o odiei muito! MUITOOOOOOOOOOO!!!!!!!! Ótimo filme. Dizem que a versão inglesa é ainda melhor. Vou vê-la.
  Ingrid Bergman? Ela exala sexualidade até quando dorme. Tivesse sido atriz nos mais despudorados anos 60 ou 70, teria enlouquecido homens em salas de cinema. Ela tem traços nórdicos demais, mãos grandes, mas seu olhar e suas cenas de beijo são de absoluta entrega. Sentimos que ela é ultra quente. Aqui ela ganhou seu Oscar, merecido, e os USA se apaixonaram por ela. Ingrid vinha da sequência Casablanca, Por Quem Os Sinos Dobram, Notorious de Hitchcock...difícil achar atriz com sequência de filmes tão icônica. Mas em 48 ela destruiria tudo ao largar marido médico para viver com Roberto Rosselini, logo um italiano!!!! Corajosa Ingrid.
  Dois ótimos filmes. Gaslight é melhor.