O PODER E A GLÓRIA + THE QUIET AMERICAN

   Depois de Conan Doyle e Agatha Christie, somente Shakespeare tem mais textos adaptados ao cinema que Graham Greene. E que estranho momento vive esse autor inglês! Por eu ter nascido nos anos 60, ainda peguei o final da imensa fama de Greene. Entre os anos 40 - 80, Graham Greene foi candidato eterno ao Nobel e junto à Borges, o maior dos derrotados. Para quem frequentava livrarias e cadernos culturais em 1970, 1980, Greene era figura constante. Mesmo aqui neste sub sub continente, vários de seus livros estavam sempre sendo editados. Porém hoje, em 2020, vigésimo ano da Nova Idade Medieval, há montes de jovens leitores que nunca ouviram falar de tal autor. E se conhecem vagamente o nome, é por ter ouvido falar de alguma adaptação para a tela.
   Li O PODER E A GLÓRIA. É meu quinto Greene e o mais difícil de ler. Figura engraçada esse Greene. Ele escrevia muito e dividiu sua obra em dois campos: livros sérios e livros de divertimento. O PODER E A GLÓRIA é dos sérios. O tema é árduo: estamos em algum país da América Central. Houve uma revolução socialista. Todas as igrejas foram queimadas e em seu lugar foram construídos campos de esportes. Todos os padres foram fuzilados. A população, que mal compreende o que se passa, vive em miséria terminal. O livro acompanha essa situação de dor e de inescapável inferno. Como personagens há um ex padre que foi obrigado a casar e se desmoralizar, um tenente que  DESEJA DESTRUIR TODO O PASSADO DO PAÍS E COMEÇAR TUDO DO PONTO ZERO. Há ainda um padre que tenta fugir da nação e se tornou alcoólatra. Em meio a tudo isso, temos ainda um dentista inglês e um funcionário americano de uma empresa que exporta as bananas do país. O texto é escuro, sombrio, quente, úmido, mofado, doentio, sem nenhum alívio.
  Graham Greene se converteu ao catolicismo aos 26 anos de idade. Seus livros têm por tema a dor. A culpa. E a absolvição. Acho que já deu para voce entender porque em 2020 não se lê mais Greene não é? É um autor que odeia profundamente a esquerda. Mas ao mesmo tempo não acredita na direita. Niilista? Seria simples se ele fosse um niilista anarquista. Greene estaria na moda. Mas não. Ele crê na vida como dor. Viver é para ele, sofrer, sofrer para assim poder, quem sabe, se redimir em outra vida. É catolicismo radical. E por ser assim, se aproxima de Dostoievski: A santidade possível vive nos piores dentre nós. Pois são eles os que mais sofrem.
  Aproveitei para ontem rever o filme THE QUIET AMERICAN, feito por Joseph L. Mankiewicz em 1958. Texto de Greene, claro. O filme foi feito em Saigon-Vietnã, antes da guerra, e só por isso já vale ser visto.
  Estamos em 1952, em plena guerra de independência. Tropas francesas, os colonizadores, lutam contra os guerrilheiros do norte, comunistas. Mas o filme não é sobre guerra. É, como só poderia ser em Greene, sobre culpa. Um jornalista inglês, vivido com a maestria discreta habitual por Michael Redgrave, namora uma nativa vietnamita muito mais jovem. Eles se amam. Mas surge um jovem americano e aos poucos ele conquista a menina. O inglês é tomado pelo ódio e acaba por trair o americano, levando-o à morte. No fim ele perde tudo: mulher, honra, sossego, consciência, auto estima. o redor desse drama, a situação trágica do país: de um lado a abusiva e incompetente colonização francesa, do outro os comunistas, matando franceses e vietnamitas aos montes. O jovem americano está no país movido pelo ideal ingênuo de uma terceira via: Liberdade com democracia. Sabemos no que isso ia dar no futuro. Quando o filme foi feito os americanos ainda não estavam lá. Seriam precisos 50 anos de dor para se alcançar o que o país é hoje.
   O inglês não acredita em nada. Velho europeu desencantado, ele zomba da França, teme os comunistas e acha ridículo o americano. O filme é excelente.
   Joseph L. Mankiewicz é outro grande nome esquecido. Foi o único diretor a vencer dois Oscars de diretor seguidos, e em ambos ganhando também pelo roteiro: QUEM É O INFIEL em 1949 e A MALVADA ( ALL ABOUT EVE ) em 1950. Típico americano liberal da época, ele consegue não tomar partido. Mérito de seu bom roteiro.
   Graham Greene voltará um dia? Penso que sim. Quanto maiores os erros do mundo, mais rápido as pessoas olharão para seus pontos de apoio e de estabilidade. E a alta literatura é sempre um desses pontos.

ADEUS JOHN WAYNE ( PORQUÊ O NAZISMO VENCEU )VOLTAIRE!

   Uma comissão na cidade de Orange County vai retirar a estátua de John Wayne. Ela ficará num porão. Eis um assunto difícil de falar.
   Cresci em um mundo cultural com espaço. Espaço é a palavra. Havia espaço para Eliot e para Marianne Moore. Para James Baldwin e para Mishima. O que se amava era a excelência. Podia-se lamentar a posição de Ezra Pound durante a guerra, podia-se odiar o que Elia Kazan fez, mas JAMAIS se imaginava censurar ou apagar da história alguém que tivesse contribuído para a diversidade cultural do planeta. Desde 1960 John Wayne era chamado, injustamente, de fascista. Mas seus filmes passavam normalmente na TV, ele era homenageado em festivais e respeitado por seu legado. Isso não poderia ser apagado, pois apagar a cultura seria como empobrecer nosso espírito. Porém, a partir dos anos 80 esse amor se perdeu.
  Uso a palavra amor de forma bastante apropriada. O amor pela cultura faz com que eu ame Acossado, mesmo odiando a posição política de Godard. Faz com que eu leia Heminguay, mesmo sabendo que eu o detestaria como pessoa. Esse amor a cultura morreu e não estou sendo exagerado ao dizer isso. Os fariseus tomaram o museu e compraram a editora. Eles não amam a cultura, eles amam o seu PRÓPRIO ESPELHO e esse espelho não aceita nada que não seja ele mesmo.
  Perversamente a diversidade está matando a....diversidade. Essa diversidade, made in 2020, é uma festa entre iguais, inclusive no modo de vestir e falar. Penso que eles estão tão profundamente condicionados que perderam a capacidade de perceber essa armadilha. Diversidade pequena, limitada, diversidade que tem pauta, censura, manual de bom comportamento. Uma festa que não permite a entrada de quem foge a seus ditames, e pior, uma festa que expulsa fantasmas.
  Aldous Huxley já dizia em 1930 que a pior opressão parte de quem diz defender o bem. Vegetarianos, pacifistas, naturistas, liberais, além de oprimir com suas regras, nos fazem mal por nos legarem a culpa. Se eles são bons, então somos o mal. Eles produzem o mesmo efeito do cristianismo que dizem odiar. Erguem o nariz arrotando sua superioridade. São anjos. E têm má digestão.
  Agora, neste exato momento, eles estão limpando a história do mundo. Desinfetam páginas e páginas do passado, tudo em nome do bem e da justiça. Desde a inquisição não se via tamanho fanatismo. Não é coincidência usarem a fogueira. O que os move é o ódio. Eles não compreendem o passado, não entendem a arte fora do utilitarismo político e por isso vivem em ressentimento. Discursam contra o racismo, mas dão cor à todo espírito e toda arte. Para eles um ser humano se resume a cor de sua pele. A raça condiciona toda arte que podemos produzir, tudo o que podemos falar. Segundo eles, não há como escapar do seu condicionamento racial. Se voce é branco voce só pode produzir arte de branco. Eles negam a alma, sem cor e sem sexo, e se prendem ao conceito que dizem exterminar. Bem...desde Hitler não se vê e ouve nada tão estúpido. Não à toa nazistas também se viam como puros.
  Alguns anos atrás eu li alguém que dizia que na verdade os nazis venceram a guerra. Leio dois livros por semana e é difícil lembrar todo autor, baby. Mas ele dizia que depois da guerra vivemos em um mundo armado, vigiado e desencantado, e por isso os nazis haviam vencido por terem mudado o mundo. Pois agora a coisa piorou. O modo nazi, inconsciente, toma conta da diversidade perversa. O ódio ao diferente é absoluto, e pior, é visto como O BEM.
  Não, não estou exagerando e explico mais um pouco.
  Sim, voce sempre teve sua turma. Vamos a chamar de turma da Vila Madalena. Ou galera do Baixo Leblon. Ou jovens de Greenwich Village. Voce odiava, digamos, os caras da Mooca, ou da Barra, ou de Boston. Havia um atrito. Uma discussão. Mas não havia a tentativa de fazer com que a Barra deixasse de existir. Voce odiava Roberto Carlos ou o general Geisel, mas não pensava em queimar seus discos ou apagar seus anos de governo da história. Pois é isso que agora se apresenta. A absoluta negação da cultura. Pois cultura é história e história é passado.
  Roger Scrutton diz que o conservadorismo se resume a amar as coisas do passado e lutar para as preservar. Nunca na história recente, a civilização, que eu amo, aquela criada por judeus e gregos, romanos e celtas, foi tão atacada. Há um plano óbvio de a cancelar.
  Não é a primeira vez que isso ocorre. Crises culturais cíclicas, em que todo o mundo cultural parece afundar, são inevitáveis. Houve isso nas invasões bárbaras, na crise da reforma, na guerra contra os nazistas. A diferença é que agora é uma guerra não declarada, uma guerra sem batalhas, de guerrilha, de pequenas e constantes destruições.
  Eu defenderei sempre o direito de voce assistir o filme que voce quiser. Mesmo que eu o deteste.
  Isso é Voltaire.
  E ontem vandalizaram sua estátua em Paris. Nela escreveram: Racista.
  Meu amor chora.
 

FOGO-FÁTUO, ALDOUS HUXLEY

   Dentre os livros que peguei na casa do meu amigo, livros deixados por seus pais, está este volume de Huxley, um dos escritores do século XX que mais admiro. São quatro contos, que vão do muito bom ao enfadonho.
  O último conto, DEPOIS DOS FOGOS, é o mais longo e o enfadonho. Huxley tem uma frase muito boa onde ele diz que cultura é quando tomamos contato com aquilo que nada tem a ver conosco. Frase ótima para os dias de grupo social. Diz ele que ler ou conhecer apenas aquilo que tem "tudo a ver" conosco é apenas narcisismo. Adquirir cultura é expandir a alma, ela cresce quando conhecemos aquilo que é diferente de nós. Bem, apesar desse belo e correto pensamento, este conto me entediou. E, que estranho, o motivo foi o de ser dos quatro o mais próximo de mim. Conta a história de um terrivelmente pedante e bem sucedido escritor que se envolve com uma fã. Ele tem 51 anos, ela tem 21. Ela se apaixona por ele, ele tenta resistir. Lemos os dois pontos de vista. Ele é incrivelmente chato, tenta educar a menina, a leva a museus, restaurantes típicos, tudo se passa na Itália. A atração que ele sente é física, puramente física, e por isso, segundo ele, irresistível. Diabólica. A atração que ela sente é a de admiração. O tema é interessante, mas por Deus!, como Miles Fanning, o escritor, é chato! Filosofa sem parar, tece longos discursos sobre deuses e demônios, exibe seu charme urbano pedante e blasé, e pior que tudo, chafurda no medo. Ela é prática. Ele é um monstro de falsidade auto imposta.
  Os quatro contos têm isso em comum: a exibição de pessoas de alta cultura e de alta hipocrisia. Sinto um temor: será que Huxley teve esse objetivo? Será que esses escritores falam por ele? Ou será que esses intelectuais são modelos para serem criticados?
  No primeiro conto, o melhor, temos basicamente a conversa entre dois amigos. Um praticamente só escuta, o outro é um escritor frustrado, rico, mas que vive do jornalismo. Ele escreveu a auto-biografia de um milionário. O conto fala da vida desse magnata, Chawdron. O escritor é a imagem perfeita da antipatia. Tece epigramas e lições de vida sobre tudo! Mas o conto é tão bem escrito e o que ele diz é tão afirmativo, que acabamos lendo com prazer. É um personagem terrível. Ele chega muito perto de parecer um nazista. ( Os contos são de antes da guerra ).
  O segundo conto, Cura de Repouso, centra-se numa mulher que foge do marido. Vai para Roma e lá se envolve com um italiano. Fim trágico aqui. O marido abandonado é mais um escritor. Dessa vez um inglês seco e frio.
  OS CLAXTONS é o segundo melhor conto. Bastante atual, fala de um casal que é vegetariano, liberal, bondoso, que deseja educar os filhos no caminho certo, e que por isso acabam por se revelar dois tiranos que usam seu vitimismo como modo de oprimir suas crianças. Lembra o mundo de hoje? Muito! Huxley tinha esse dom de antecipação, e ele já percebia nos anos 20, que a bondade era a pior forma de opressão possível. O casal Claxton é correto, liberal, tem pena dos pobres bichinhos, quer a paz universal, e impõe a seus filhos a culpa eterna por serem humanos. É impossível para os filhos serem apenas crianças. Eles precisam ser um projeto de futuro.
  Interessante o que percebo agora...o escritor do primeiro conto é quase nazista em certas opiniões , e não consigo saber se Huxley na época as endossava. Mas...todos os personagens centrais dos quatro contos têm esse aspecto de intelectualidade vaidosa, de donos da verdade que jamais duvidam de si mesmos. Dos quatro, três se passam na Itália, e os Claxton, que não tem nada de italiano, zomba da mania dos Claxton de andarem com mochilas e amarem as longas caminhadas. Calções, botas, meias, e as mochilas eternas, mochilas como símbolo de superioridade moral. Fascistas? Mussolini?
  Na sequência Huxley mergulharia no mundo Admirável e Novo.

GASOLINE ALLEY - ROD STEWART. CREIA EM MIM PEQUENO MILLENIAL, ELE FOI UM DIA UM GRANDE, GRANDE POETA

   O Rod Stewart que existiu entre 1969-1975 era acima de tudo um cantor folk com voz de negro da soul music. Foi a melhor voz do rock. E logo no início, neste disco de 1970, seu segundo disco solo, voce já percebe tudo isso.
  Há um acorde de violão. E um acorde slide guitar. E em seguida a voz. Imediatamente voce entende o recado. E é transportado para aquele mundo. Chão de pedras, garoa, pobreza, melancolia viril, beleza entre o vazio. Lembro a primeira vez que escutei essa canção. Era 1982 e eu tava beeeem mal. Ela soou então como um tipo de consolo. Havia uma mensagem clara naquela voz: Resista. Ronnie Wood me ensinou então onde estava a beleza do slide. Ele era mais que blues, ele era uma afirmação. Um imenso ponto de exclamação: Eu estou aqui. É muito difícil encontrar um disco que comece melhor que este.
   Depois vem a festa: Its All Over Now, um dos muitos covers que Rod fez a vida toda. Versões que são sempre ou quase sempre melhores que a verão original. Em seu disco de estreia, Rod conseguiu gravar uma versão de Street Fighting Man que é melhor que a original dos Stones. E isso foi quase um milagre. Pois aqui ele gravou Only a Hobo, e sua versão de Bob Dylan mostra uma beleza que Dylan apenas sugere. Rod Stewart tem a voz para revelar todo o potencial que uma canção pode ter. O que ele faz com Country Comfort de Elton John é sublime. Rod dá voz à uma multidão de perdidos. Nossa alma, em sua profunda imensidão, agradece.
  O que posso acrescentar sobre CUT ACROSS SHORTY? Em outros posts falei muito dela. Descrever? Uma bateria surpreendente ( Mick Waller ), tropeçando bêbada entre o som do violino cigano que promete banditismo. O suspense do violão em seu acorde que lembra uma cascavel. O contra baixo ( Pete Sears ), é uma locomotiva que resolve o Kaos inicial e faz a música avançar. Rod começa a cantar e nós seguimos a saga. É uma saga, uma lenda, um conto, uma oferenda. Desde a primeira vez que a ouvi ( dizem que as grandes músicas se gravam de tal modo em nós, que sempre vamos lembrar da primeira vez que as ouvimos, onde estávamos, que clima fazia, como nos sentimos ), cut across shorty é das minhas cinco favoritas em qualquer tipo de escolha. Ela ergue o espírito. Fala direto à ele. Carrega-o.
 Jo's Lament é de uma tristeza aceita. O disco todo tem um caráter melancólico. Sempre impressiona o fato de como pode esse compositor se perder. Não há exemplo maior de dinheiro em excesso e mulheres erradas como agentes de corrupção do talento. Tento escapar desse chavão, mas é exatamente o que aconteceu com Rod. Na história do rock, apenas Al Green teve uma transformação para pior tão absoluta. No caso de Green foi seu encontro com Deus que o desviou da música sexy e secular que ele fazia. Green se tornou ministro da fé e cantor de gospel. No caso de Rod foi a auto satisfação que o desviou de seu talento de compositor de hinos aos pobres perdidos e cronista do cotidiano redescoberto. Ninguém escrevia melhor que ele sobre o comum. Um pente encontrado, uma foto perdida, uma rua revisitada. Ele fazia poesia de qualquer coisa, e com a ajuda de Ron Wood e de Martin Quinteton, dava melodia adequada a essas joias da alma.
  Gasoline Alley não é o melhor disco solo de Rod. O primeiro é o mais bonito e Every Picture Tells a Story é o album mais genial. Mas Alley foi meu primeiro Rod da fase heroica.  Eu tinha os LPs de 1975, 1976, 1977, conhecia o Rod que era um mix de Chuck Berry com Sam Cooke, o Rod bem sucedido e hiper profissional. Quando descobri o artista primitivo foi um choque. E foi Alley quem primeiro me mostrou isso.
  Então querido millenial, jogue teu preconceito no lixo e aprenda que o senhor que hoje canta Cole Porter e o playboy que cantava disco music teve uma alma. Ele a deu de presente à uma centena de louras, mas felizmente essa alma ficou gravada em discos.
  Poder ouvir esse cara é um imenso privilégio.

PARAÍSO INFERNAL ( ONLY ANGELS HAVE WINGS ), O MUNDO DE HOWARD HAWKS

   Em dois minutos de filme estamos dentro do mundo de Howard Hawks: vemos um país fictício, uma praia que existe só em Hollywood, gente que não se parece com gente de lugar nenhum e um navio que chega ao porto, um navio que traz mais gente de ficção ao país da imaginação. Esse é o mundo do Howard Hawks maduro, aquele dos últimos vinte anos de vida. Este filme, de 1939, foi feito muito antes dessa fase em sua carreira, mas ele já anuncia o que seria o mais constante Hawks style.
  Uma americana desce do navio. Jean Arthur. E ela faz a típica mulher Hawksiana: Tem um passado meio marginal. É forte e independente. Fala o que pensa. E está sempre alegre, apesar da sombra que lhe faz companhia. Essa mulher conhece um grupo de homens. Neste filme, um grupo de aviadores. Eles arriscam a vida entregando cartas numa rota perigosa. É o mundo do melhor livro de Saint Exupéry, Correio Sul. Temos então mais outra marca de Hawks: o grupo de amigos que enfrenta o perigo estoicamente. E por ser um filme típico desse diretor, o filme não terá um alvo. Ele meio que se espalha em pequenos acontecimentos do dia a dia. Um dia a dia excepcional, mas é cotidiano para aqueles homens. Mundo masculino, porém sacudido por uma mulher tão forte quanto eles. Dentro desse mundo há um veterano em decadência física, Thomas Mitchel, um piloto acusado de covardia que deverá se redimir, Richard Barthelmess ( soberbo ), a esposa sexy desse piloto, Rita Hayworth ( nunca mais tão bonita ), e o chefe do grupo, o mais estoico e mais amargo entre eles, Cary Grant ( num papel pouco Cary Grant, e atuando de uma forma contida que convence e muito ).
  Se eu contar o que acontece no filme irei falar várias coisas. Mas nenhuma delas poderei chamar de o centro do filme. Howard Hawks não faz filmes com um centro. Rio Lobo, Rio Bravo, Red River, Hatari!, todos são filmes sem um centro, sem um enredo central. Todos são sobre grupos de homens. Todos são tratados sublimes sobre a amizade e a lealdade. John Ford, o diretor que mais invejava e admirava Hawks, tem sempre O Tema. Rastros de Ódio é sobre um cowboy indo resgatar uma menina. E assim são todos os seus filmes. Por isso Tarantino lembra tanto Hawks em modo de pensar um roteiro: ele também não tem um tema definido. São temas. Ou, para quem não gosta, é um monte de papo furado.
  Fala-se muito nos filmes de Hawks. Ele ama o diálogo. E essas falas não carregam mensagem alguma. É conversa. Apenas conversa. O sentido não está no que se fala. Ele está em como se fala e com quem se fala. O sentido é o ato de falar, não a palavra. Por isso eu amo tanto seus filmes. Ele não explicita nada, mas também não esconde. Seus filmes são o que vemos e só o que vemos. E que prazer eu sinto em os ver!
  A maior beleza é poder ver aquelas pessoas existirem. Alguém disse que em Hatari! sentimos amor por um café da manhã. A melhor cena do filme é ver John Wayne e seus amigos tomando café todas as manhãs. Concordo plenamente. Somos convidados àquele grupo. E nos sentimos bem dentro dele.
  Eu seria desonesto se falasse que Hawks nos ensina a ter coragem, a ser viril, a ter estoicismo. Isso é para Ford ou Huston. Hawks não quer ensinar, ele quer deixar um testemunho. Esses aviadores nos apaixonam. Antes o apaixonaram.
  Durante o filme, foi a segunda vez que o vi, a cópia é perfeita, cheguei a pensar: Que coisa! Este talvez seja agora meu filme favorito! Nenhum filme de Hawks será o favorito de ninguém. Isso porque eles não são SENSACIONAIS.  Mas vários filmes dele estarão entre os mais queridos. Pois eles são um remédio. Nos fazem bem.
  Eu realmente amo esse diretor.

ADMIRE O MUNDO NOVO

   Convivo com pessoas bastante pobres. E com a faixa etária entre 11 e 20 anos. 80% do meu tempo é passado com essas pessoas. E devo dizer que mesmo elas, graças ao mundo fantasioso em que vivemos, acreditam poder viver sem trabalhar, sem arcar com o preço das coisas, sem sofrer as reações daquilo que é feito. Voce ficaria impressionado ao saber que para eles, o mundo digital é muito mais importante que ter onde morar ou a própria saúde. Selfies são a identidade. Todo o resto é acessório.
  Apesar de ter crescido em mundo sem net, eu hoje vivo interligado. Posto muito, discuto muito, vivo muito dentro do virtual. E sinto na pele as armadilhas, o vício, a mentira. Penso que meu conflito NÃO É o conflito dos teens. Eles não conhecem o mundo que conheci. O MUNDO QUE CONTINUA EXISTINDO. Eu vivo nos dois. Eles nem sabem que há um outro.
  Nos conflitos atuais, Black Lives, Antifas etc, tudo nasce dentro da net e é jogado como vômito no colo do mundo sólido, das ruas. Surge o conflito óbvio entre dois mundos: No mundo real, as coisas têm existência independente de seu desejo. No outro mundo, voce pode montar seu perfil e controlar seu ambiente. A raiva surge nesse choque.
  Se em 1966 já houvesse a rede mundial virtual, os hippies teriam ido ainda mais longe. A virtualidade deles existia apenas em discos, shows e revistas alternativas. E claro, na cultura das drogas. Na vitória de Nixon em 1968 e no mal estampado em Charles Manson, eles sofreram seu choque de realidade. Ao contrário daquilo que muitos pensam, mesmo no mundo de 2100 ou 2200, a realidade sempre vence. Pelo simples fato de que somos seres biológicos. A biologia é a realidade final. Morremos e apodrecemos.
  Os meninos que ateiam fogo e derrubam estátuas estão sempre postando selfies. O tempo todo on line. O objetivo não é apenas reportar. É muito mais prestar contas ao universo digital. Como se falassem: Veja! O mundo deles está sendo destruído! O real agora é meu!
  Tola brincadeira de crianças. O virus continua existindo. Seu estômago sentirá fome. E as rugas em sua face irão nascer. Derrubar a estátua de Washington não faz com que ele deixe de existir como figura emblemática. Tudo o que ele fez está feito. Voce não pode deletar Churchill da comunidade do planeta Terra. Sinto muito bb. Quando voce faz isso, é voce que se auto deleta da história.
  O medo do virus, completamente desproporcional e terrivelmente covarde, é o medo de uma geração que instalou anti virus no pc e não admite que não haja um anti virus para as ruas. Cada vez mais veremos esse tipo de comportamento, a revolta mimada contra tudo que fuja ao controle. É um império medroso. Se um disco voador posasse no centro do planeta todos correriam para buracos. E meia dúzia iria com flores e bandeiras de paz cantar Beatles para os ETs. São dois comportamentos incrivelmente tolos e infantis. Adultos ainda existem, muitos, mas eles não estão no palco da internet. Estão recolhendo os cacos das estátuas. E estudariam a nave dos ETs antes de tomar qualquer decisão.
  Tenho um amigo que é muito competente em inteligência artificial. Ele realmente crê na criação de uma mente artificial que seja idêntica a nossa mente. Eu diria a ele que na verdade o processo é contrário: nossa mente é que se tornará artificial. Simplificaremos tanto a história, a psicologia, a arte e a filosofia, que passaremos a pensar a  agir como autômatos. Máquinas bastante mimadas por sinal.
 
 

NÃO HÁ ANTI VIRUS NO MUNDO REAL

   João Pereira Coutinho escreve sobre os "jovens classe média" que derrubam estátuas. Ele faz uma bela comparação com 1984 de Orwell e com o filme de Sean Penn sobre o menino que se isola do mundo. Ele diz que há uma tentativa de se diminuir a história, diminuir o vocabulário, para assim se diminuir o pensamento. Tudo aquilo que possa trazer "problemas" é calado. Para meu espanto, descubro que até o livro de Harper Lee, To Kill a Mockinbird está sendo censurado. O filme com Gregory Peck, uma maravilha, cairá em ostracismo. É o novo mundo: limitado, purificado, homogêneo.
   Eu concordo com tudo que Coutinho fala, mas vou mais longe.
   Imagine que voce cresceu em uma realidade onde não existem fotos ruins. Toda foto voce pode retocar até transforma-la em imagem perfeita. Ou então a apagar. Imagine que nesse mundo só existe quem voce aceita, todo aquele que pensa diferente é deletado. Imagine que voce só faz parte de comunidades que pensam como voce. Onde toda a verdade é a criada pelo grupo. Imagine isso ok?
   Agora imagine que essa pessoa, um dia, vai ao mundo real. O mundo da natureza, dos instintos, do desejo não realizado. Onde imagens feias não podem ser deletadas. Onde um presidente que não é do seu grupo é eleito. Onde o passado existe, aconteceu, e é muito complexo.
  O que voce faz então?
  Tem três caminhos:
  Volta ao seu mundo virtual e se tranca no quarto.
  Procura acordar e encarar a realidade.
  Luta pela instauração do virtual dentro do real. Como? Deletando estátuas feias que não fazem parte do grupo. Apagando posts-livros que negam o grupo. Surrando pessoas que insistem em existir fora do grupo. E achando que o presidente é deles, não nosso.
   Entenda. É o mesmo tipo de pessoa que enlouqueceu ao descobrir com a Covid que a morte existe. E que não há parede ou anti virus contra ela. É aquela que acha que cortar os órgãos sexuais faz de voce uma mulher. Que ser gordo é somente estética e não questão de saúde. É a classe média hiper protegida, que hoje vive numa bolha virtual-mental e que não consegue aceitar nada que vá contra aquilo que ela deseja.
  Derruba-se o passado, pois ele não é bonito.
  Tira-se o livro da prateleira, pois ele é mal.
  Lembro de uma entrevista de emprego que tive, anos atrás, em que um menino dizia gostar muito de ler. Mas que não lia livros de homens mortos. A entrevista era para uma editora. Todos ficaram constrangidos. A entrevistadora perguntou por que. Ele respondeu que livros de gente morta falavam de coisas mortas, portanto eram irrelevantes. Todos seguraram o riso. Isso foi em 2008. Penso que hoje ninguém iria rir.
   Quando voce nega o passado, voce nega aquilo que voce é. Porque voce é fruto da árvore que brotou séculos atrás. Sem história voce é apenas uma coisa que late e abana o rabo. Sim, um cão não tem história. Seu cão é hoje aquilo que os cães foram sempre. Não há passado nos animais. Portanto negar o passado é ser menos que humano. Negar a história é desejar viver no presente eterno. No virtual.
   Como consequência temos o nada.
   Mas isso fica pra outra postagem.

SARGENTO YORK, O FILME MAIS VELHO DO MUNDO

   Em 1941 SARGENTO YORK tirou de Cidadão Kane o prêmio de melhor ator para Orson Welles. Graças a Deus. Gary Cooper ganhou e a crítica nunca perdoou o filme por isso. Howard Hawks também concorreu contra Welles pelo troféu de direção, mas ambos perderam. Ontem vi o filme. Adorei. Me diverti muito. Mas é possivelmente o filme mais velho hoje. Conto a história e voce vai entender por quê.
  O filme começa numa igreja. Dentro dela há a pregação de um pastor. É 1916. A história de York, por incrível que pareça, é uma história real. York existiu e fez o que o filme mostra. Pois bem....a pregação é atrapalhada por tiros lá fora. Alvin York e seus amigos, bêbados, dão tiros à toa. A mãe de York sente vergonha.
  Vemos a casa da família. Absurdamente pobres. É o Tennesse. Ripas de madeira. Chão de terra. York usa o arado numa terra pobre. Flerta com a vizinha. Briga num bar. Caça raposas. Resolve casar. Trabalha feito doido para comprar terra. Vence concurso de tiro. Mas é enganado pelo vendedor. Perde a terra e o dinheiro.
  Revoltado, ele pensa em matar. Mas aí acontece um milagre. Não o contarei. Mas é bastante crível. York começa a seguir a igreja, lê a Bíblia, segue a fé.
  Vem a primeira guerra e ele não quer matar. O Livro proíbe isso. No exército ele se revela um fenômeno no tiro. Tem uma crise moral. E é enviado ao front francês. Se torna um herói ao vencer sozinho uma brigada alemã. Ele captura 128 inimigos e mata 29 numa só batalha. Ao fim da guerra, famoso, cheio de propostas, inclusive de Hollywood, ele volta à sua família, pobre, para trabalhar.
  Alvin York é um matuto. Um redneck, um zé ninguém. Mas é ao mesmo tempo um coração bom, uma simples homem da natureza, um bom filho. Gary Cooper era muito velho para o papel, mas ele consegue o tornar caipira sem ser idiota e bom sem ser piegas. O atraso da sua cidade é tanta que York nunca ouvira falar de uma coisa chamada metrô e se espanta com a eletricidade. Mas...porque é o mais velho filme do mundo?
  Porque ele dá valor supremo a tudo aquilo que a modernidade mais odeia: mãe, lar, compromisso com o país, trabalho duro, religião organizada, Bíblia, Deus, vizinhança. Longo, lento, sem qualquer pressa, o filme não corre, não passa, ele flui como um rio lamacento. Hawks ama York, óbvio. O super sofisticado Hawks ama o matuto York. Sabemos que Hawks serviu na primeira guerra. Parece que ele conheceu o York real. E o admirou muito. Cada segundo de filme mostra esse amor.
  Meu pai amaria este filme.
  Pena não o termos visto juntos.

WINSTON GRAHAM - ABISMOS DO CORAÇÃO

 Um amigo me chama à sua casa. Ele irá se mudar para um apartamento pequeno e os livros que seu recém falecido pai deixou não caberão na nova residência. Meu amigo pede para eu pegar o que quiser. São mais de 500 livros, mas os bons eu já os tenho. Pego alguns, menos de 10. Este peguei sem querer. Como sem querer? Distraído, olhando livros e conversando ao mesmo tempo, li na lombada do livro o nome Graham e imaginei que fosse Graham Greene. Pois é...Noto o engano em casa e pesquiso quem foi Winston Graham. Viveu por todo o século XX. Ganhou alguns prêmios menores. Escreveu Marnie, que virou filme de Hitchcock. Autor de uma série best seller de livros de aventuras medievais. Um George RR Martin de seu tempo. Este livro que peguei é de 1955 e a edição nacional é de 1958. Começo a leitura...
  Leio as 250 páginas em dois dias. Que engraçado isso! Não, nada de obra prima etc etc etc...mas como é gostoso ler um livro POP bem escrito! Um inglês vai à Amsterdan investigar a morte de seu irmão. Ele não aceita o fato de ter sido suicídio. Tenta provar que foi assassinato. Depois ele vai à Itália, Capri. A história se passa em meios muito chiques e o tipo de enredo poderia ser aquele de Agatha Christie. Mas não é. O herói não é frio e muito menos cerebral. Ele se engana. Ele erra, Ele perde o controle.
  Este livro jamais será reeditado. Jamais será resenhado. Jamais haverá um renascimento Winston Graham. Mas o fato de um cara em 2020 o ler...isso é literatura, não é?

20TH CENTURY, A PRIMEIRA SCREWBALL COMEDY DA HISTÓRIA

   Feito em 1932, por Howard Hawks em apenas 3 semanas, este filme, 20th Century, continua brilhando como se feito a apenas 3 dias. É incrível como este roteiro, de gênio, não envelheceu um só dia, e mais impressionante ainda é a direção de Hawks e dois atores que merecem o nome de gênios.
   O filme é simples, muito simples. Ele trata de um casal. Um produtor de teatro hiper vaidoso e histérico e sua ex namorada, uma atriz sem talento que ele lançou ao estrelato. Rompidos, ela se torna estrela de cinema, e ele um falido. Ambos se encontram em um trem, o 20th Century e gritam um com o outro sem parar. Não espere amor romântico aqui. Eles interpretam o tempo todo. A vida real é para eles um palco, tudo que eles sentem e falam é exagerado, canastrão, fake. Hawks dirige do seu modo invisível, ele nunca tenta chamar atenção sobre si mesmo, o filme existe em função do roteiro e dos atores. Hawks é o oposto de Hitchcock, nada de truques, nada de surpresas, nada de grife.
  Assisto mais uma vez, e novamente sinto a euforia alegre que o filme emana. Mais ainda, há algo de profundamente inteligente em cada cena. Não a inteligência arrogante e insegura do teen, mas a tranquila inteligência confiante do profissional. Todas as falas não tentam ser engraçadinhas, elas são cômicas por serem histéricas. Não há um só ângulo de câmera ousado, esquecemos que isto é um filme, o vemos como uma história sendo contada. Nasce aqui a screwball comedy, típica comédia dos anos 30, que no brasil é chamada de comédia maluca, um erro de tradução ridículo.
  A screwball comedy é alegre. E é amalucada, não louca. Loucos são os Irmãos Marx e eles não fazem parte do gênero. Louco é W.C. Fields, e ele também não é do estilo screwball. Esse amalucado é aquele da menina emancipada que entra num escritório a 300 km por hora falando vinte frases em dois segundos. Primeira característica: É um estilo feminista. Não existe sem uma mulher forte, inteligente e ousada. Segunda característica: Todo filme se passa em um mundo claro, leve, sem pobreza explícita. Jejum de Amor, talvez o melhor do estilo, até fala de pobres, mas a pobreza não é filmada. São filmes para pessoas em crise sentirem alívio. Esse o objetivo. Terceiro fato: Não há casais casados. São ex casados, ex noivos, ex namorados ou desconhecidos. O centro é sempre o amor, mas é um amor irresponsável, solto, sem mel, sem melodrama, sem futuro.
  Podemos dizer que a comédia dos anos 40 passa a ser uma comédia de família, de casal, e nos anos 50 ela se torna farsa, troca de papeis, confusão de valores estabelecidos. Voce sabe que nos anos 80 ela é a comédia de escola, de universidade, de grupo social que se anarquiza, e nos anos 90 se torna a comédia dos imbecis, dos idiotas de bom coração, dos bebês adultos.
  20th Century é a primeira comédia à anos 30. E mais ainda, é a comédia que provou que o gênero não dependia mais daquilo que se usava no cinema mudo: o atletismo dos atores, quedas, tombos e murros.
  John Barrymore faz o produtor. Se voce já viu um dia, aqui no Brasil, Paulo Autran, Ney Latorraca, fazendo um tipo egocêntrico, voce agora sabe de onde eles pegaram cada expressão facial e cada trejeito de corpo. O que Barrymore faz é simplesmente uma das duas ou três maiores atuações em comédia da história. Não há como não se apaixonar por ele. Possesso, ele vive aquele ego imenso, maníaco, louco, feroz, melodramático e canastrão. Que tal conhecer ele mais um pouco?
  John Barrymore é descendente de uma família de atores que remonta ao século XIX. Irmão de Lionel Barrymore e Ethel Barrymore, todos lendas no teatro, dos 3 ele foi o mais famoso e o único que não ganhou seu Oscar. No cinema mudo John Barrymore foi super star ao nível Douglas Fairbanks e Valentino. Atuava em capa e espada e em dram como Jeckyl and Hyde. Passou ao cinema sonoro sem problema. No teatro era considerado o único americano digno de atuar em Hamlet ( opinião dos ingleses ). Dominou a Broadway, entrou em Hollywood como rei e mito. Entre 1932-1935 ele tem várias atuações fantásticas em filmes. Mas...havia a bebida. Morre alcoólatra e ao fim da carreira passa a fazer papeis indignos do seu gênio. Se voce quer o conhecer, é este o filme.
  Carole Lombard faz a atriz. E nada pode ser mais elogiável que o fato dela enfrentar Barrymore sem ser engolida. Lombard foi casada com William Powell e depois com Clark Gable. Morreu num desastre de avião em 1942. Era a atriz de comédias número um do mundo. Gable jamais a esqueceu.
  O filme, como toda boa história, completa um círculo perfeito. Ele termina onde começa. Eu adoraria que filmes como este voltassem á moda. Mas isso é impossível pelo fato de que não há mais quem tenha o gosto de os ver. Graças aos deuses estão vivos em fitas, dvds, blu rays ou memórias digitais.
  Como dizia Paulo Francis, enquanto houver inteligência no planeta, ele resistirá.

Peter Bogdanovich Recommends: Howard Hawks' Twentieth Century



leia e escreva já!

VAMOS FALAR DE ERROL FLYNN

   20 de junho é aniversário de Errol Flynn e eu vou falar um pouco desse ator.
   Ele foi o maior nos anos 30, e hoje está bem mais esquecido que Cary Grant ou Bogey. Não vou dizer que ele foi maior que qualquer um dos dois, James Stewart, Gary Cooper e Clark Gable são mitos maiores. Merecidamente. Mas mesmo Cary Grant, dono de uma vida fascinante, não tem uma biografia mais rica que a dele. Tristemente eu constato que a campanha feita contra Flynn nos anos de guerra surtiram efeito. Até hoje.
   Errol Flynn nasceu na Tasmânia. Cresceu se exercitando. E tudo indica que se tornou ator apenas por acidente. Fez um filme na Austrália, gostou da coisa, e foi para Hollywood pra ver o que acontecia. Rapidamente foi contratado pela Warner e sem sequer fazer uma ponta, estreia como big star em Capitão Blood. Só Audrey Hepburn teve um começo tão por cima. De repente Flynn era maior que James Cagney.
   Durante oito anos ele foi um dos cinco grandes do cinema. Grant, Cooper, Gable, Stewart e Cagney.  Mas, ao contrário dos outros, que esticaram sua fama pela década de 40 e até 50, Flynn teve uma súbita e fulminante queda a partir de 1944-1945. Humphrey Bogart toma seu lugar entre os cinco grandes, e essa mudança faz todo o sentido.
   Muita gente já disse que os anos da segunda guerra mudaram o cinema americano muito mais do que se fala. Diretores e atores serviram no front, e ninguém vai à guerra e volta o mesmo. George Stevens, Frank Capra, Howard Hawks, Leo McCarey nunca mais fazem o tipo de filme que faziam nos anos 30. E os atores mudam também. Humphrey Bogart é a cara dos novos tempos: feio, seco, frio, duro, feito de aço. Subitamente, James Stewart e Clark Gable parecem saltar anos e se transformam em adultos perdidos. Gary Cooper deixa de fazer comédias e aventuras, se estabiliza como o americano calado. James Cagney se afasta do cinema por anos. Cary Grant envelhece e se torna um tipo de tio boa vida. Todos parecem menos juvenis, mais comprometidos com algum tipo de realidade, não há mais espaço para o glamour e o escapismo surreal dos anos 30. Errol Flynn não muda. Mesmo nos filmes de guerra, e ele fez um dos melhores, Objetivo Burma!, ele permanece o cara dos anos 30. Suave. Nada agressivo. Bons modos. Urbano. O olhar é de quem quer ser amigo, a voz, inconfundível, é polida, educada, em tom baixo, sempre a beira do sorriso. Percebo agora que não há ator mais oposto a Bogart que ele. Bogey era chumbo, Flynn era uma brisa, Bogey era pouco ou nada atlético, Flynn era um modelo de nadador, Bogey falava como quem cospe, Flynn falava sorrindo. Bogey era anos 40. Flynn, assim como William Powell e John Barrymore, anos 30.
   Mas a queda foi grande demais e não apenas uma mudança no gosto explica isso. A vida pessoal de Errol Flynn o sabotou. Ele bebia, ele fazia muito, muito sexo, e ele se achava imortal. Brigou com a principal colunista de Hollywood, ela começou uma campanha de difamação, ele não se ajudou, e em dois anos ele já era passado. De superstar passou a Quem?
   Flynn se casou um monte de vezes e nenhum durou muito. Seu último casamento foi com uma fã e jovem estrela ( menor de idade, o que não o ajudou nada ). Foi nos braços dela que ele morreu do coração, em 1958, ainda com menos de 50 anos, mas parecendo ter mais. Ironicamente, no fim da vida ele se tornara um ótimo ator. Como coadjuvante ele brilha em O Sol Também se Levanta, roubando o filme de Ava Gardner e Tyrone Power, e fez ainda um filme com John Huston, Raízes do Céu, onde ele é a melhor coisa. Mas a bebida não lhe deu uma chance. Sua turma nos áureos tempos tinha a nata dos bêbados de Hollywood, seu modelo era John Barrymore.
  ( Há uma história de que Barrymore quando morreu teve o corpo roubado por Flynn. Ele levou o corpo à casa de David Niven. Colocou o corpo à lareira com um copo na mão. Niven ficou horas conversando com Flynn e Barrymore até notar que ele estava morto ).
  Andei vendo alguns filmes de Errol nestes dias. Robin Hood. Westerns. Burma. É impressionante como ele é soft. Mesmo em seus filmes de pirata, ele nunca parece bruto ou agressivo. Ele vence por lutar bem, não por ser forte. É leal. É um desportista. Nos westerns, ele fez vários, ele nunca vence por atirar bem. Ele vence por falar bem. É um cowboy educado. Gentil. E que usa artimanhas. Eis uma boa palavra: Flynn é manhoso. E vence com prazer. É a definição do savoir faire e do joie de vivre.
  Não houve e não há ator que tenha conseguido seguir sua estrada. Todos que tentaram não vingaram. Stewart Granger foi o que chegou mais longe. Johnny Depp tentou a vida toda. E errou miseravelmente. A mistura de suavidade com humor, educação com charme, heroísmo leal, bem...se já parecia estranha em 1948, imagina em 2020.
  Sempre que voce vir em um filme algum herói sorrir enquanto briga, fugir da violência se possível, emitir palavras como se fossem miados, e erguer as sobrancelhas ao ver toda e qualquer mulher, isso é o Flynn Style. Ele não se impõe, ele rodopia. Ele não ameaça ninguém, ele tece teias.
  Seria fantástico ver um filme onde Flynn e Cary Grant estivessem juntos. Isso nunca aconteceu. Talvez porque seria um filme tão leve que se desmancharia em luz.