A EVOLUÇÃO CRIADORA - HENRI BERGSON. A inteligência em tempos de crise.
Nossa inteligência se desenvolveu para prever, planejar e lidar com objetos. Essas não são apenas suas funções principais, são as únicas a que ela se presta. Ela sabe que se eu bater duas pedras surgirá fogo. Que o fogo assa a carne. Que sal deixa a comida melhor. Para ter carne é preciso caçar. Hoje, ter um emprego. Que o dinheiro ganho será gasto em contas. A inteligência planeja o que fazer com esse dinheiro. E é ela quem lida com tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. Até aqui tudo está perfeito. E continuaria perfeito se soubéssemos como manter a inteligência em seu lugar, lidando com aquilo que à ela cabe.
Mas não é assim que acontece. Em um momento de nossa evolução, passamos a crer que a inteligência pode prever tudo, planejar tudo, lidar com tudo. É nesse momento que perdemos nossa intuição e negamos a imprevisibilidade da vida. O acidental passa a ser visto como anomalia, quando na verdade ele é regra. Esse é o ponto mais interessante do pensamento de Henri Bergson.
Vamos ver se consigo passar a ideia para voce de um modo bastante claro. Voce já deve ter lido algum livro de auto ajuda. Notou como nele o acaso não existe? Se voce fizer isto voce obterá aquilo. Sorria que o mundo sorrirá para voce. Deseje. Se voce quiser de verdade a coisa acontece. Até mesmo a fé foi enfiada nesse saco de causa e efeito. Tenha fé e voce obterá.
Eu falei em causa e efeito? Sim, pois a inteligência só funciona no esquema imutável da causa e efeito. Para algo acontecer algo aconteceu antes. Se isso acontece aquilo acontecerá. Hospícios estão lotados de gente que pensava assim. E entraram em parafuso ao notar que fizeram X e não obtiveram X, mas sim YWZ. São mentes matemáticas que quebraram no momento em que a conta não fechou.
Observe que a física começa sempre com o mesmo postulado: Em um dado momento. Numa dada distância. Neste segmento de reta. Ou seja, ela só trabalha em um recorte do real. Jamais no todo. O movimento tem de ser pensado como um início e um fim, e esse movimento não é um movimento, pois ele é analisado em um tempo recortado. Mas a realidade é um tempo que não cessa e um espaço sem fim. Então é lógico dizer que a física trabalha com pedaços mortos do tempo e micro fragmentos do mundo. Pois nossa inteligência é desenvolvida para entender apenas aquilo que tem começo e fim. Aquilo que pode ser medido e pesado. Aquilo que pode ser contado. Ela reduz a vida à um rebanho de cabras. O universo visto como um curral.
A biologia não é diferente. Ela estuda órgãos e células, jamais o organismo completo em funcionamento. Ela sabe como uma célula se divide, não porque ela se divide. Um aminoácido provoca tal reação, mas não o que faz ocorrer tal reação. É um estudo da causa e efeito em que se sabe das duas pontas do fato, começo e fim, mas nunca o durante. Antibiótico mata uma bactéria. Mas não como ela é morta. Muito menos de onde ela surgiu ou o porque de ter surgido.
Homens muito inteligentes tendem a querer saber o porque de tudo. Inclusive porque ela me ama, ou porque ela deixou de me amar. Não percebem o básico: a inteligência não existe para responder a nada. Ela existe para fazer coisas sólidas e para prever aquilo que foi provado várias e várias vezes.
Podemos ir adiante? Se a inteligência só sabe lidar com objetos e com aquilo que ela conhece por repetição, haverá no homem que se guia apenas por ela, a tendência a ver tudo como objeto e sentir a vida como repetição. O homem preso apenas à inteligência sufocará o imprevisto e a intuição. Pior ainda, será incapaz de perceber a imprevisibilidade radical da vida.
Sem a inteligência voce não estaria lendo isto. Mas apenas com ela voce não fará nada com aquilo que lê. Apenas repetirá tudo para sempre. A inteligência odeia tudo que é imprevisto. A crise atual é mais uma prova disso. Tentam saber o porque. É preciso uma causa e um efeito. É preciso ver tudo como um objeto a ser lidado. É preciso tirar algo de útil de tudo isso. É preciso prever o futuro do mundo após esta crise. A inteligência, pega de surpresa, reage do único modo que sabe reagir quando colocada em choque: Pavor. Em seguida ela começa a procurar acomodar tudo em causa e efeito. E aposta em futuros.
Para Bergson, o tempo é real, independente de nós. E se tudo que existe reside dentro do tempo e é por ele dominado, então tudo é movimento. Eis um fato que a inteligência é incapaz de lidar. A mudança. Para lidar com um objeto é necessário saber que ele não mudará. Que ele estará ali e permanecerá ali. E que suas características jamais se transformarão. Isso porque ela precisa prever uma ação. Planejar. E se ela aceitar que o tempo é real e que assim tudo está sujeito à ele, toda previsão se mostrará falha. A inteligência abstrai o tempo. O que é agora será amanhã. O progresso é o hoje transformado em um mesmo hoje, apenas melhorado, nunca transformado. Desconfie do aperfeiçoamento das coisas. É o mesmo com novo rótulo.
Mas então seríamos apenas escravos do tempo? Brinquedos incapazes de lidar com ele?
Não. Pois mudamos com ele. Estamos nele, ou mais que isso, somos ele também. Daí o pensamento radical de Bergson: Nunca somos o mesmo. Nosso caráter, nossa personalidade imutável é uma ficção criada pela nossa inteligência. Se ela só sabe e só pode lidar com objetos mortos, ao olhar para nós mesmos, ela matará nosso EU, transformando-o em objeto estático. Para ela, o que sou hoje serei sempre. E voce será para mim o mesmo. Eternamente. Só desse modo a inteligência tenta apreender a vida. E falha miseravelmente.
Nossa intuição vive dentro do tempo. E é nela que ele se revela. Ela que nos diz que tudo muda o tempo todo. Pois se o tempo é movimento, tudo se move com ele. E assim muda sem cessar.
Mas não é assim que acontece. Em um momento de nossa evolução, passamos a crer que a inteligência pode prever tudo, planejar tudo, lidar com tudo. É nesse momento que perdemos nossa intuição e negamos a imprevisibilidade da vida. O acidental passa a ser visto como anomalia, quando na verdade ele é regra. Esse é o ponto mais interessante do pensamento de Henri Bergson.
Vamos ver se consigo passar a ideia para voce de um modo bastante claro. Voce já deve ter lido algum livro de auto ajuda. Notou como nele o acaso não existe? Se voce fizer isto voce obterá aquilo. Sorria que o mundo sorrirá para voce. Deseje. Se voce quiser de verdade a coisa acontece. Até mesmo a fé foi enfiada nesse saco de causa e efeito. Tenha fé e voce obterá.
Eu falei em causa e efeito? Sim, pois a inteligência só funciona no esquema imutável da causa e efeito. Para algo acontecer algo aconteceu antes. Se isso acontece aquilo acontecerá. Hospícios estão lotados de gente que pensava assim. E entraram em parafuso ao notar que fizeram X e não obtiveram X, mas sim YWZ. São mentes matemáticas que quebraram no momento em que a conta não fechou.
Observe que a física começa sempre com o mesmo postulado: Em um dado momento. Numa dada distância. Neste segmento de reta. Ou seja, ela só trabalha em um recorte do real. Jamais no todo. O movimento tem de ser pensado como um início e um fim, e esse movimento não é um movimento, pois ele é analisado em um tempo recortado. Mas a realidade é um tempo que não cessa e um espaço sem fim. Então é lógico dizer que a física trabalha com pedaços mortos do tempo e micro fragmentos do mundo. Pois nossa inteligência é desenvolvida para entender apenas aquilo que tem começo e fim. Aquilo que pode ser medido e pesado. Aquilo que pode ser contado. Ela reduz a vida à um rebanho de cabras. O universo visto como um curral.
A biologia não é diferente. Ela estuda órgãos e células, jamais o organismo completo em funcionamento. Ela sabe como uma célula se divide, não porque ela se divide. Um aminoácido provoca tal reação, mas não o que faz ocorrer tal reação. É um estudo da causa e efeito em que se sabe das duas pontas do fato, começo e fim, mas nunca o durante. Antibiótico mata uma bactéria. Mas não como ela é morta. Muito menos de onde ela surgiu ou o porque de ter surgido.
Homens muito inteligentes tendem a querer saber o porque de tudo. Inclusive porque ela me ama, ou porque ela deixou de me amar. Não percebem o básico: a inteligência não existe para responder a nada. Ela existe para fazer coisas sólidas e para prever aquilo que foi provado várias e várias vezes.
Podemos ir adiante? Se a inteligência só sabe lidar com objetos e com aquilo que ela conhece por repetição, haverá no homem que se guia apenas por ela, a tendência a ver tudo como objeto e sentir a vida como repetição. O homem preso apenas à inteligência sufocará o imprevisto e a intuição. Pior ainda, será incapaz de perceber a imprevisibilidade radical da vida.
Sem a inteligência voce não estaria lendo isto. Mas apenas com ela voce não fará nada com aquilo que lê. Apenas repetirá tudo para sempre. A inteligência odeia tudo que é imprevisto. A crise atual é mais uma prova disso. Tentam saber o porque. É preciso uma causa e um efeito. É preciso ver tudo como um objeto a ser lidado. É preciso tirar algo de útil de tudo isso. É preciso prever o futuro do mundo após esta crise. A inteligência, pega de surpresa, reage do único modo que sabe reagir quando colocada em choque: Pavor. Em seguida ela começa a procurar acomodar tudo em causa e efeito. E aposta em futuros.
Para Bergson, o tempo é real, independente de nós. E se tudo que existe reside dentro do tempo e é por ele dominado, então tudo é movimento. Eis um fato que a inteligência é incapaz de lidar. A mudança. Para lidar com um objeto é necessário saber que ele não mudará. Que ele estará ali e permanecerá ali. E que suas características jamais se transformarão. Isso porque ela precisa prever uma ação. Planejar. E se ela aceitar que o tempo é real e que assim tudo está sujeito à ele, toda previsão se mostrará falha. A inteligência abstrai o tempo. O que é agora será amanhã. O progresso é o hoje transformado em um mesmo hoje, apenas melhorado, nunca transformado. Desconfie do aperfeiçoamento das coisas. É o mesmo com novo rótulo.
Mas então seríamos apenas escravos do tempo? Brinquedos incapazes de lidar com ele?
Não. Pois mudamos com ele. Estamos nele, ou mais que isso, somos ele também. Daí o pensamento radical de Bergson: Nunca somos o mesmo. Nosso caráter, nossa personalidade imutável é uma ficção criada pela nossa inteligência. Se ela só sabe e só pode lidar com objetos mortos, ao olhar para nós mesmos, ela matará nosso EU, transformando-o em objeto estático. Para ela, o que sou hoje serei sempre. E voce será para mim o mesmo. Eternamente. Só desse modo a inteligência tenta apreender a vida. E falha miseravelmente.
Nossa intuição vive dentro do tempo. E é nela que ele se revela. Ela que nos diz que tudo muda o tempo todo. Pois se o tempo é movimento, tudo se move com ele. E assim muda sem cessar.
PARA QUE SERVE UMA RAINHA?
O que diferencia um homem de um urso é sua capacidade de abstrair, e na abstração, simbolizar. Nosso mundo, humano, se coloca à parte da natureza porque enquanto ela é o que é, nosso mundo é uma criação simbólica. Do número às letras, da cruz à tatuagem que voce tem na pele, tudo o que construímos ou pensamos é símbolo de alguma ideia.
Quando alguém pergunta para que serve uma rainha, e hoje, 21 de abril, é aniversário de nascimento de Elizabeth II, essa pessoa está tentando sair do nível humano e ir ao animal. Sim, porque a rainha não é a pessoa mais forte. Nem a mais inteligente. Nem mesmo, creia, a mais rica. Ela é apenas e tão somente filha de um rei. E por isso, é um símbolo. Sendo símbolo ela nada precisa fazer ou dizer. Ela apenas deve estar.
Apenas é vicio de linguagem, pois estar simbolizando é algo tão rígido e tão cercado de expectativas que poucos executam esse papel com perfeição.
Elizabeth nasceu e viveu como símbolo e nunca como pessoa real. Ela é o Reino Unido, e sendo isso ela é tudo, menos humana. Como rainha, ela é cada navio pirata de 1700 e cada cockney de 2020. Mas é também o fish and chips e inclusive os punks que a ridicularizavam. Pois como rainha ela garante que os súditos tenham o direito britânico de a ridicularizar. Enquanto houver rainha, ou rei, o reino tem a garantia de manter seu caráter. E é por isso que a Espanha mantém seu rei, e é por isso que Portugal sempre parecerá um barco à deriva.
Um rei, ou no caso uma rainha, é o ponto de convergência. Sendo assim, mesmo nas piores crises, há a garantia do símbolo. Caem catedrais, caem soldados, cai a confiança, mas o rei permanece. Inclusive porque não é preciso nem mesmo um rei vivo, basta a ideia de que a instituição permanece.
Não se preocupe que jamais irei defender a monarquia no Brasil. Seria ir contra o que falo aqui. A monarquia é um símbolo e o Brasil quebrou a redoma que mantinha o símbolo vivo. Quando voce perde a fé ela não retorna. A volta da monarquia na Italia ou em Portugal seria uma farsa. No Brasil seria um tipo de carnaval.
Dom Pedro, óbvio, jamais deveria ter sido expulso do trono. Nossa república, como tudo que aqui acontece, foi um ato de revanche e de ódio. Senhores de escravos não perdoaram o imperador por ter libertado seus "bens". Entender como teria sido nossa história sem a república é impossível. Mas pode-se imaginar uma maior segurança institucional.
Então hoje é aniversário de Elizabeth. São 94 anos de vida. Quando subiu ao trono Hitchcock filmava Janela Indiscreta. Paul MacCartney tocava piano na casa do tio. TS Eliot se dizia anglicano e monarquista. Ela passou pelos hippies, venceu os Sex Pistols ( cadê eles? ), entregou dezenas de taças e sobreviveu à Diana. Jamais deixou de estar simbolizando o reino. Jamais cometeu um só deslize.
E se voce a acha inútil, bem, voce não entendeu nada my dear.
Quando alguém pergunta para que serve uma rainha, e hoje, 21 de abril, é aniversário de nascimento de Elizabeth II, essa pessoa está tentando sair do nível humano e ir ao animal. Sim, porque a rainha não é a pessoa mais forte. Nem a mais inteligente. Nem mesmo, creia, a mais rica. Ela é apenas e tão somente filha de um rei. E por isso, é um símbolo. Sendo símbolo ela nada precisa fazer ou dizer. Ela apenas deve estar.
Apenas é vicio de linguagem, pois estar simbolizando é algo tão rígido e tão cercado de expectativas que poucos executam esse papel com perfeição.
Elizabeth nasceu e viveu como símbolo e nunca como pessoa real. Ela é o Reino Unido, e sendo isso ela é tudo, menos humana. Como rainha, ela é cada navio pirata de 1700 e cada cockney de 2020. Mas é também o fish and chips e inclusive os punks que a ridicularizavam. Pois como rainha ela garante que os súditos tenham o direito britânico de a ridicularizar. Enquanto houver rainha, ou rei, o reino tem a garantia de manter seu caráter. E é por isso que a Espanha mantém seu rei, e é por isso que Portugal sempre parecerá um barco à deriva.
Um rei, ou no caso uma rainha, é o ponto de convergência. Sendo assim, mesmo nas piores crises, há a garantia do símbolo. Caem catedrais, caem soldados, cai a confiança, mas o rei permanece. Inclusive porque não é preciso nem mesmo um rei vivo, basta a ideia de que a instituição permanece.
Não se preocupe que jamais irei defender a monarquia no Brasil. Seria ir contra o que falo aqui. A monarquia é um símbolo e o Brasil quebrou a redoma que mantinha o símbolo vivo. Quando voce perde a fé ela não retorna. A volta da monarquia na Italia ou em Portugal seria uma farsa. No Brasil seria um tipo de carnaval.
Dom Pedro, óbvio, jamais deveria ter sido expulso do trono. Nossa república, como tudo que aqui acontece, foi um ato de revanche e de ódio. Senhores de escravos não perdoaram o imperador por ter libertado seus "bens". Entender como teria sido nossa história sem a república é impossível. Mas pode-se imaginar uma maior segurança institucional.
Então hoje é aniversário de Elizabeth. São 94 anos de vida. Quando subiu ao trono Hitchcock filmava Janela Indiscreta. Paul MacCartney tocava piano na casa do tio. TS Eliot se dizia anglicano e monarquista. Ela passou pelos hippies, venceu os Sex Pistols ( cadê eles? ), entregou dezenas de taças e sobreviveu à Diana. Jamais deixou de estar simbolizando o reino. Jamais cometeu um só deslize.
E se voce a acha inútil, bem, voce não entendeu nada my dear.
O ADOLESCENTE BIRRENTO
Ele distribui folhetos onde prega a necessidade de ser ateu. Vegetariano, esbraveja pelo pacifismo. Ostenta orgulhoso a expulsão de sua escola de elite. É feminista. Mas abandonou uma namorada grávida e foi tão infiel que levou outra ao suicídio. Adolescente mimado e moderninho? Esta é a bio de Percy Bysshe Shelley. Se Byron foi o molde do adolescente satânico, Shelley é o molde do presidente de centro acadêmico. Mas os dois são diferentes.
Shelley não foi famoso em vida. Seus livros venderam mal. E enquanto Byron morreu em luta, Shelley se afogou no naufrágio de seu iate na Itália. Aos 30 anos. Sua influência comportamental começa apenas no inicio do século XX, com uma série de biografias romanceadas a alimentarem sua idolatria. Shelley passa a ser o corajoso adolescente rebelde, ateu e preocupado com os pobres. Inocente e sexy.
E sua poesia nisso? Eliot o demoliu nos anos 30. Demonstrou que tudo que ele escreveu teve a marca da infantilidade. Shelley escrevia bem, mas possuía mente de criança. Via o mundo como brinquedo onde ele era o herói que tudo podia. Nos seus poemas de amor fica fácil perceber que Shelley ama por ver na amada a si mesmo. Ele só ama quem é igual a ele. Daí a recorrência da imagem das almas gêmeas.
Mas algo há de genial. Ozymandias é sublime. Pouca coisa há que transmita melhor a tragédia do tempo que passa e destrói tudo. Quando esquecia de si mesmo, Shelley crescia.
Byron e Shelley são e foram os dois poetas mais famosos da Inglaterra. E não é snobismo dizer que dos grandes são os menos bons. Muitas vezes são ruins. John Keats é sempre excelente. Wordsworth é quase sempre maravilhoso. E mesmo Coleridge atinge alturas que Byron e Shelley jamais atingiram. Keats foi apenas um estudante de medicina que morreu aos vinte a poucos anos de tuberculose. E Wordsworth tem uma bio aborrecida e sem tragédias. Byron e Shelley tiveram vidas interessantes, e tornadas ainda mais complexas por biógrafos empolgados, viraram mitos. Os grandes poetas de quem não lê poesia. Quando a partir da década de 1930, estudar literatura passou a ser ler o texto e esquecer quem o escreveu, os dois românticos foram desvalorizados. Keats e Wordsworth finalmente elevados a seu devido lugar.
Porque na página diante de seus olhos, que é o que importa, eles são gigantes.
Byron e Shelley voce lê pensando em quem eles foram.
Shelley não foi famoso em vida. Seus livros venderam mal. E enquanto Byron morreu em luta, Shelley se afogou no naufrágio de seu iate na Itália. Aos 30 anos. Sua influência comportamental começa apenas no inicio do século XX, com uma série de biografias romanceadas a alimentarem sua idolatria. Shelley passa a ser o corajoso adolescente rebelde, ateu e preocupado com os pobres. Inocente e sexy.
E sua poesia nisso? Eliot o demoliu nos anos 30. Demonstrou que tudo que ele escreveu teve a marca da infantilidade. Shelley escrevia bem, mas possuía mente de criança. Via o mundo como brinquedo onde ele era o herói que tudo podia. Nos seus poemas de amor fica fácil perceber que Shelley ama por ver na amada a si mesmo. Ele só ama quem é igual a ele. Daí a recorrência da imagem das almas gêmeas.
Mas algo há de genial. Ozymandias é sublime. Pouca coisa há que transmita melhor a tragédia do tempo que passa e destrói tudo. Quando esquecia de si mesmo, Shelley crescia.
Byron e Shelley são e foram os dois poetas mais famosos da Inglaterra. E não é snobismo dizer que dos grandes são os menos bons. Muitas vezes são ruins. John Keats é sempre excelente. Wordsworth é quase sempre maravilhoso. E mesmo Coleridge atinge alturas que Byron e Shelley jamais atingiram. Keats foi apenas um estudante de medicina que morreu aos vinte a poucos anos de tuberculose. E Wordsworth tem uma bio aborrecida e sem tragédias. Byron e Shelley tiveram vidas interessantes, e tornadas ainda mais complexas por biógrafos empolgados, viraram mitos. Os grandes poetas de quem não lê poesia. Quando a partir da década de 1930, estudar literatura passou a ser ler o texto e esquecer quem o escreveu, os dois românticos foram desvalorizados. Keats e Wordsworth finalmente elevados a seu devido lugar.
Porque na página diante de seus olhos, que é o que importa, eles são gigantes.
Byron e Shelley voce lê pensando em quem eles foram.
O MUNDO BYRON DE 2020
Andei relendo Byron ontem. Beppo é o livro que escolhi. Byron morreu aos 36 e Beppo é de sua fase melhor, a final. Aqui ele é humorista. Beppo divaga sobre vários assuntos, tudo em ritmo de sátira. Se no seu começo Byron era piegas, aqui ele é exuberante. É um poema fácil de ler, divertido, levíssimo.
Se voce quer saber o quanto Byron guiou moda e consciências no século XIX, imagine um cara que foi Mick Jagger e Jim Morrison em um só. Goethe chegou a dizer que Byron era o maior homem do século. Ele era famoso em Piracicaba e em Vienna. Em Boston e em Goa. Sem rádio, sem TV, sem nada, ele era figura mundial. No boca a boca. Os jovens queriam ser Byron. Mais que isso, se sentiam irmãos de alma dele.
No fim do século XIX já se percebia que a poesia dele era de segunda categoria. Keats, Shelley, Wordsworth eram muito melhores. Poe passou a ser um modelo mais seguido. Hoje parece que as grandes figuras daquele século foram Beethoven, Wagner, Goethe e Tolstoi. Mas não foi assim. Somente Napoleão era tão famoso quanto Byron.
Ao contrário do que os críticos gostam de dizer, ainda há muito byronismo nos jovens de hoje. Não todos. Talvez nos mais interessantes.
Vejamos...
Byron nasceu rico e nobre, e foi ele quem popularizou a figura do jovem que tem tudo mas sofre por ter uma maldição sobre ele. Bonito, ele tinha um pé defeituoso e bastou isso para o deixar marcado. Marcado por si mesmo, pois as mulheres e os meninos choviam em sua cama. Bissexual, ele se envolvia com mulheres mais velhas, jovens camponesas, adolescentes, meninos virginais. Mas sempre jogando com a imagem de que " ele era um azar na vida de quem o tocava". Byron era o Homem Fatal.
Foi ele quem popularizou o novo gótico, cerimônias e orgias em cemitérios. Foi ele quem bebia vinho dentro de um crânio. ( Vc acha taças de caveira em qualquer loja na Galeria do Rock. Byron iria rir disso ).
Inquieto, ele foi um grande viajante, percorrendo a Europa em busca de excitação. Sua morte foi a mais bela possível, morto na Grécia, lutando pela libertação dos gregos da opressão turca. O que mais falta para vermos nele o europeu moderninho de hoje? Byron se entupia de drogas e tinha o tédio blasé dos fãs de Thom Yorke. Apaixonado por sua meia irmã, ele ia contra a moral de sua classe social. E, glória das glórias, Frankenstein foi escrito na sua casa numa noite de orgia.
Lord Byron criou, com seu comportamento, um padrão tão imitado, que hoje a gente vê tudo que ele fez como cliché. Desde Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, até o último herói do cinema, aquele herói que sofre e ninguém aceita, todos são netos e bisnetos do poeta inglês. Roqueiros dos anos 60 descobriram que ser Byron dava ibope e se lançaram à obra. Roqueiros de 2020 mal sabem disso, mas continuam seguindo o modelo, agora bem desgastado. Antes de Oscar Wilde, foi Byron o primeiro artista a usar sua arte na vida e não na obra.
Se voce quer saber o quanto Byron guiou moda e consciências no século XIX, imagine um cara que foi Mick Jagger e Jim Morrison em um só. Goethe chegou a dizer que Byron era o maior homem do século. Ele era famoso em Piracicaba e em Vienna. Em Boston e em Goa. Sem rádio, sem TV, sem nada, ele era figura mundial. No boca a boca. Os jovens queriam ser Byron. Mais que isso, se sentiam irmãos de alma dele.
No fim do século XIX já se percebia que a poesia dele era de segunda categoria. Keats, Shelley, Wordsworth eram muito melhores. Poe passou a ser um modelo mais seguido. Hoje parece que as grandes figuras daquele século foram Beethoven, Wagner, Goethe e Tolstoi. Mas não foi assim. Somente Napoleão era tão famoso quanto Byron.
Ao contrário do que os críticos gostam de dizer, ainda há muito byronismo nos jovens de hoje. Não todos. Talvez nos mais interessantes.
Vejamos...
Byron nasceu rico e nobre, e foi ele quem popularizou a figura do jovem que tem tudo mas sofre por ter uma maldição sobre ele. Bonito, ele tinha um pé defeituoso e bastou isso para o deixar marcado. Marcado por si mesmo, pois as mulheres e os meninos choviam em sua cama. Bissexual, ele se envolvia com mulheres mais velhas, jovens camponesas, adolescentes, meninos virginais. Mas sempre jogando com a imagem de que " ele era um azar na vida de quem o tocava". Byron era o Homem Fatal.
Foi ele quem popularizou o novo gótico, cerimônias e orgias em cemitérios. Foi ele quem bebia vinho dentro de um crânio. ( Vc acha taças de caveira em qualquer loja na Galeria do Rock. Byron iria rir disso ).
Inquieto, ele foi um grande viajante, percorrendo a Europa em busca de excitação. Sua morte foi a mais bela possível, morto na Grécia, lutando pela libertação dos gregos da opressão turca. O que mais falta para vermos nele o europeu moderninho de hoje? Byron se entupia de drogas e tinha o tédio blasé dos fãs de Thom Yorke. Apaixonado por sua meia irmã, ele ia contra a moral de sua classe social. E, glória das glórias, Frankenstein foi escrito na sua casa numa noite de orgia.
Lord Byron criou, com seu comportamento, um padrão tão imitado, que hoje a gente vê tudo que ele fez como cliché. Desde Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, até o último herói do cinema, aquele herói que sofre e ninguém aceita, todos são netos e bisnetos do poeta inglês. Roqueiros dos anos 60 descobriram que ser Byron dava ibope e se lançaram à obra. Roqueiros de 2020 mal sabem disso, mas continuam seguindo o modelo, agora bem desgastado. Antes de Oscar Wilde, foi Byron o primeiro artista a usar sua arte na vida e não na obra.
INFÂNCIA E WORDSWORTH
Wordsworth teve uma longa vida. 1770 até 1850. Oitenta anos que no século XIX equivaleriam a viver uns 100 hoje. Sua melhor poesia foi feita entre 1790-1820, ou seja, enquanto sua memória ainda estava fresca. Wordsworth não escreve nada sobre sua infância como biografia, mas ele só é poeta quando revive o sentimento de ser uma criança. Mas não pense que ele compactua da moda de então, aquela de que toda criança é inocente. Não. O que o poeta inglês tenta preservar é a sensação de estar vivo DENTRO da vida e não FORA do elan vital. Para Wordsworth a vida só é plena enquanto somos crianças. O hábito mata esse dom. O tempo nos obriga a viver numa eterna repetição, e essas repetições destroem a memória. Nascemos vindos da divindade. Quanto mais jovens mais podemos sentir essa nossa origem.
Fazer poesia, para ele, é rememorar. A emoção e o casamento entre criança e natureza, na idade adulta, estão perdidos. Mas calmamente voce pode relembrar e assim reviver, mesmo que a distância e de um modo frio, o que foi aquele encanto natural.
Wordsworth faz assim dois movimentos na época revolucionários. Primeiro tira o poeta do pedestal do classicismo. Todo ser humano pode ter essa experiência. Pois toda infância vive dentro desse encanto. Segundo fato: Fazer poesia é memória e não arte de pura técnica. Essa é outra pedrada nos clássicos.
É aceito hoje que todo artista verdadeiro tem acesso à um tipo de espírito da infância. O homem tende a perder esse espírito com a idade. Segundo Wordsworth o que o degrada é a pura e simples repetição. Somos presos numa rotina diária que embota nossa emoção. Horários, estudo, ruídos da cidade, distrações, tudo nos faz ESQUECER. Para ele, a infância é sagrada simplesmente por estar próxima ao outro mundo, o universo de onde viemos. Esse porque é para mim o único ponto discutível do que Wordsworth diz. Para mim o simples fato de sermos jovens cria o encanto. Vemos tudo pela primeira vez, sentimos pela primeira vez. Para esse encanto não é necessária nenhuma memória de outro mundo. Mas, de todo modo, Wordsworth cria uma bela imagem poética. E quem poderá negar essa verdade?
Desse modo, em nossa vida de adulto, e agora quem fala sou eu e não o poeta inglês, só tem valor poético TUDO AQUILO QUE É ALGUMA RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA. Não posso cometer o erro de dizer que minha experiência é a experiência de todos. Mas só consigo habitar o meu mundo de contentamento, paz e sensação de absoluto, quando mergulhado em algum tipo de rememoramento da infância. Ás vezes provo a felicidade total simplesmente por sentir em minha carne uma espécie de calor ou sono COMO DO DA MINHA MAIS REMOTA INFÂNCIA. É como se minha pele ou minha barriga voltasse a sentir o calor de uma tarde de 1970 ou o cheiro de uma fruta sentida em 1968. A sensação é de uma porta que se abre dentro de mim, e então olho dentro daquele mundo outra vez. O que vejo lá dentro não é alegria ou dor, felicidade ou melancolia, é A SIMPLICIDADE ABSOLUTA DE SE ESTAR VIVO. Eu não penso em nada de especial. Nenhum fato dramático é lembrado. O que sucede é somente uma sensação sem história. Um estar aqui. Viver.
A frase mais famosa de Wordsworth é a que diz O MENINO É PAI DO HOMEM. Isso porque todos nós tivemos um menino antes de ter um homem. Nascemos de um menino, fomos esse menino, ele veio antes e nos abriu as portas. Para não perder todo o encanto da vida, é necessário que esse menino-pai permaneça a nosso lado, mão com mão, sempre.
Isso me recorda muito as sessões de terapia que tive durante 1986-1989. Quem já fez sabe que 80% das sessões não são proveitosas. Mal nos lembramos delas. Mas que existem tardes em que uma porta se abre. Li mais de uma vez que a linguagem de nosso inconsciente é sempre poética. Nossa mente mais profunda fala e enxerga por poesia. Pois eu diria que ao tocar nosso inconsciente nos tornamos uma criança novamente. Nos tornamos básicos. Puro sentimento. Pura sensação. É aí que mora o pior medo. E a mais bela recordação.
Wordsworth intuiu isso. Ler esse poeta é sempre uma terapia.
Fazer poesia, para ele, é rememorar. A emoção e o casamento entre criança e natureza, na idade adulta, estão perdidos. Mas calmamente voce pode relembrar e assim reviver, mesmo que a distância e de um modo frio, o que foi aquele encanto natural.
Wordsworth faz assim dois movimentos na época revolucionários. Primeiro tira o poeta do pedestal do classicismo. Todo ser humano pode ter essa experiência. Pois toda infância vive dentro desse encanto. Segundo fato: Fazer poesia é memória e não arte de pura técnica. Essa é outra pedrada nos clássicos.
É aceito hoje que todo artista verdadeiro tem acesso à um tipo de espírito da infância. O homem tende a perder esse espírito com a idade. Segundo Wordsworth o que o degrada é a pura e simples repetição. Somos presos numa rotina diária que embota nossa emoção. Horários, estudo, ruídos da cidade, distrações, tudo nos faz ESQUECER. Para ele, a infância é sagrada simplesmente por estar próxima ao outro mundo, o universo de onde viemos. Esse porque é para mim o único ponto discutível do que Wordsworth diz. Para mim o simples fato de sermos jovens cria o encanto. Vemos tudo pela primeira vez, sentimos pela primeira vez. Para esse encanto não é necessária nenhuma memória de outro mundo. Mas, de todo modo, Wordsworth cria uma bela imagem poética. E quem poderá negar essa verdade?
Desse modo, em nossa vida de adulto, e agora quem fala sou eu e não o poeta inglês, só tem valor poético TUDO AQUILO QUE É ALGUMA RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA. Não posso cometer o erro de dizer que minha experiência é a experiência de todos. Mas só consigo habitar o meu mundo de contentamento, paz e sensação de absoluto, quando mergulhado em algum tipo de rememoramento da infância. Ás vezes provo a felicidade total simplesmente por sentir em minha carne uma espécie de calor ou sono COMO DO DA MINHA MAIS REMOTA INFÂNCIA. É como se minha pele ou minha barriga voltasse a sentir o calor de uma tarde de 1970 ou o cheiro de uma fruta sentida em 1968. A sensação é de uma porta que se abre dentro de mim, e então olho dentro daquele mundo outra vez. O que vejo lá dentro não é alegria ou dor, felicidade ou melancolia, é A SIMPLICIDADE ABSOLUTA DE SE ESTAR VIVO. Eu não penso em nada de especial. Nenhum fato dramático é lembrado. O que sucede é somente uma sensação sem história. Um estar aqui. Viver.
A frase mais famosa de Wordsworth é a que diz O MENINO É PAI DO HOMEM. Isso porque todos nós tivemos um menino antes de ter um homem. Nascemos de um menino, fomos esse menino, ele veio antes e nos abriu as portas. Para não perder todo o encanto da vida, é necessário que esse menino-pai permaneça a nosso lado, mão com mão, sempre.
Isso me recorda muito as sessões de terapia que tive durante 1986-1989. Quem já fez sabe que 80% das sessões não são proveitosas. Mal nos lembramos delas. Mas que existem tardes em que uma porta se abre. Li mais de uma vez que a linguagem de nosso inconsciente é sempre poética. Nossa mente mais profunda fala e enxerga por poesia. Pois eu diria que ao tocar nosso inconsciente nos tornamos uma criança novamente. Nos tornamos básicos. Puro sentimento. Pura sensação. É aí que mora o pior medo. E a mais bela recordação.
Wordsworth intuiu isso. Ler esse poeta é sempre uma terapia.
BAD NEWS
Não me lembro qual, mas havia uma civilização no passado em que o mensageiro que trazia más notícias era morto pelo rei. Antes de ser uma anomalia, isso revela um conteúdo profundo de nossa mente. Mensageiros da dor são evitados depois que a dor passa. Quando não, se tornam alvo de ódio. Prova disso? Quantos casais não se separam após a morte de um filho? Quantas famílias não se desunem após uma tragédia? Olhar o rosto daquele que te trouxe uma mensagem de dor, se torna, com o tempo, uma lembrança a ser evitada. Ninguém ama quem alardeia a tragédia. O amor que nasce em emergências é aquele que te fez sorrir no pesadelo.
Após esta crise será difícil para o cidadão comum não associar certas figuras com o mal de uma lembrança amarga. Penso, óbvio, em emissoras e veículos que não se cansam de assustar, dramatizar, alarmar. Não há seriedade neles, apenas o desejo vil de se aproveitar de um momento fora da curva. Mesmo que de forma inconsciente, grava-se na memória de todos o mal estar criado por tanta frase venenosa, tanta informação corrompida, tanto cenho feroz.
Essa atitude de certos meios de comunicação me surpreende muito. É uma atitude burra, ou talvez desesperada. Não há bom senso nenhum. Não se pensa no futuro da própria empresa. Até como ato de egoísmo ele é falho.
Dizem que o ser humano mostra seu rosto na hora da emergência.
Cara feia a da nossa imprensa.
Burra. Histérica e revanchista.
Após esta crise será difícil para o cidadão comum não associar certas figuras com o mal de uma lembrança amarga. Penso, óbvio, em emissoras e veículos que não se cansam de assustar, dramatizar, alarmar. Não há seriedade neles, apenas o desejo vil de se aproveitar de um momento fora da curva. Mesmo que de forma inconsciente, grava-se na memória de todos o mal estar criado por tanta frase venenosa, tanta informação corrompida, tanto cenho feroz.
Essa atitude de certos meios de comunicação me surpreende muito. É uma atitude burra, ou talvez desesperada. Não há bom senso nenhum. Não se pensa no futuro da própria empresa. Até como ato de egoísmo ele é falho.
Dizem que o ser humano mostra seu rosto na hora da emergência.
Cara feia a da nossa imprensa.
Burra. Histérica e revanchista.
MORAES MOREIRA ERA UM CARA LEGAL
Em meus mais de 50 anos de vida, afirmo sempre sem o menor medo de errar, que o Brasil nunca foi tão feliz como no período que vai de 1977 até 1983. Se voce quiser pode repetir a ladainha: Bah! Ditadura! Ok. Mas imagino que voce tenha uns 35, 25 anos né? Sim, havia uma ditadura, e nessa época eu tinha muita raiva dela. Não podíamos votar, e havia a odiada censura. Eu ficava frustrado com o fato de não podermos ver um nu frontal na Playboy. Nem na Ele e Ela. Era minha adolescência. Era isso que me atingia.
Eu lia dois jornais por dia, o Jornal da Tarde e a Folha da Tarde. Voce não vai acreditar, mas tinha jornal que chegava às bancas de madrugada, 5 da manhã, e outros, como os dois citados, às 10 horas. Então eu sabia que havia censura, proibições, perseguições. Mas creiam-me, o clima geral era de otimismo absoluto. Foi o último período de otimismo neste país.
Se voce duvida e acha que penso assim porque aos 15, 20 anos tudo parece colorido, ouça a MPB feita então. Por mais que Gonzaguinha seja amargo, os discos de Caetano, Gil, Gal, são de desbunde. É o auge do hedonismo. Em 1977 começou a lenta abertura. A volta dos exilados. É a época de Moraes Moreira.
Em 1971-1972 ele já havia lançado ao mundo o melhor disco já gravado nesta terra brasileira: Acabou Chorare. Um disco que ainda hoje me causa orgulho de ser daqui. Ouvir esse LP é como encontrar a si mesmo. Tratamento junguiano que resolve tudo em meia hora. A partir de 1977, em carreira solo mas nunca solitária, Moraes cria a trilha sonora da felicidade. Nunca fomos tão felizes. E a gente sabia disso.
Um parênteses aqui: Não foi uma época fácil pra mim. Fui um adolescente tímido e hiper solitário. Então eu passei por esses anos como um tipo de convidado que não aproveita a festa. Voltemos ao texto...
Tinha topless nas praias. E mulher pelada no carnaval. A gente sabia que Bethânia e Simone eram lésbicas. Que Ney e Clodovil eram gays. Mas e daí? Tinha Zico e tinha Chacrinha, então o Brasil era o país mais feliz do mundo. A gente realmente acreditava nisso. O Rio era o melhor lugar do mundo para se nascer e a Bahia era um lugar onde ninguém era triste. Por seis anos a gente viveu nessa certeza. Era o Brasil pobre mas sorridente. Isso era certo? Era errado? Não sei. O que sei era que Gabeira e Brizola tinham voltado, Glauber elogiava os generais e nossa ditadura era um esculacho. Brasileiro não sabe fazer nem ditadura direito. Nas ruas e nos bares, sempre lotados, se falava alto e se ria muito. Na rua Augusta a paquera era ostensiva e madrugada adentro. A gente dormia na praça, bêbados. E Moraes e A Cor do Som cantavam pra gente.
Teve Queen com Freddie Mercury em janeiro de 1981 no Morumbi. Gente de 15 anos ainda podia ir. Assisti entre 1980 e 1983 uns 3 shows do Moraes. O do ginásio do Ibirapuera foi o melhor. Todo mundo entupido de lança perfume e maconha. Como disse, a ditadura brasileira foi um esculacho. Eu voltava a pé pra casa. A gente, mesmo a classe média, tinha poucos bens e não sabia disso. Depois dos shows eu cruzava 10 km de ruas escuras, sozinho. Cantando alto.
Todo domingo tinha jogo no Morumbi. Um ingresso custava o mesmo que um bilhete de cinema: quase nada. Então todo mundo ia. 100 mil pessoas em jogo médio. Eu levava rojão e bandeirão. O povo da escola todo lá. Depois do jogo ainda dava pra jogar bola na rua. A vida era na rua.
Bazar Brasileiro foi o disco da época. Forró do ABC. Deus me fez brasileiro, o documento da raça, na festa da alegria...
Na praia dava pra morar ainda. Praia era zona livre, sem divisão e sem preço. E as festas: Natal, Páscoa, Ano Novo, Juninas, eram na rua, enfeitadas, grátis, sem frescura.
Mas em 1984 inventaram os anos 80 e a gente ficou fresco, metido, bobo. Pior, inventaram a tal hiper inflação, e esse foi um trauma muito pior que a ditadura. Nunca nos recuperamos. Os anos 80 trouxeram à tona o pior do Brasil: roubo. Corrupção. Cinismo. E um fatalismo atroz. A MPB hedonista virou rock brasileiro. Ficamos sérios. Ficamos velhos. Ficamos chatos demais.
Moraes permaneceu. Ele ainda apostava na alegria.
Morreu dormindo. Uma benção.
Voce foi o brasileiro em seu melhor.
Eu lia dois jornais por dia, o Jornal da Tarde e a Folha da Tarde. Voce não vai acreditar, mas tinha jornal que chegava às bancas de madrugada, 5 da manhã, e outros, como os dois citados, às 10 horas. Então eu sabia que havia censura, proibições, perseguições. Mas creiam-me, o clima geral era de otimismo absoluto. Foi o último período de otimismo neste país.
Se voce duvida e acha que penso assim porque aos 15, 20 anos tudo parece colorido, ouça a MPB feita então. Por mais que Gonzaguinha seja amargo, os discos de Caetano, Gil, Gal, são de desbunde. É o auge do hedonismo. Em 1977 começou a lenta abertura. A volta dos exilados. É a época de Moraes Moreira.
Em 1971-1972 ele já havia lançado ao mundo o melhor disco já gravado nesta terra brasileira: Acabou Chorare. Um disco que ainda hoje me causa orgulho de ser daqui. Ouvir esse LP é como encontrar a si mesmo. Tratamento junguiano que resolve tudo em meia hora. A partir de 1977, em carreira solo mas nunca solitária, Moraes cria a trilha sonora da felicidade. Nunca fomos tão felizes. E a gente sabia disso.
Um parênteses aqui: Não foi uma época fácil pra mim. Fui um adolescente tímido e hiper solitário. Então eu passei por esses anos como um tipo de convidado que não aproveita a festa. Voltemos ao texto...
Tinha topless nas praias. E mulher pelada no carnaval. A gente sabia que Bethânia e Simone eram lésbicas. Que Ney e Clodovil eram gays. Mas e daí? Tinha Zico e tinha Chacrinha, então o Brasil era o país mais feliz do mundo. A gente realmente acreditava nisso. O Rio era o melhor lugar do mundo para se nascer e a Bahia era um lugar onde ninguém era triste. Por seis anos a gente viveu nessa certeza. Era o Brasil pobre mas sorridente. Isso era certo? Era errado? Não sei. O que sei era que Gabeira e Brizola tinham voltado, Glauber elogiava os generais e nossa ditadura era um esculacho. Brasileiro não sabe fazer nem ditadura direito. Nas ruas e nos bares, sempre lotados, se falava alto e se ria muito. Na rua Augusta a paquera era ostensiva e madrugada adentro. A gente dormia na praça, bêbados. E Moraes e A Cor do Som cantavam pra gente.
Teve Queen com Freddie Mercury em janeiro de 1981 no Morumbi. Gente de 15 anos ainda podia ir. Assisti entre 1980 e 1983 uns 3 shows do Moraes. O do ginásio do Ibirapuera foi o melhor. Todo mundo entupido de lança perfume e maconha. Como disse, a ditadura brasileira foi um esculacho. Eu voltava a pé pra casa. A gente, mesmo a classe média, tinha poucos bens e não sabia disso. Depois dos shows eu cruzava 10 km de ruas escuras, sozinho. Cantando alto.
Todo domingo tinha jogo no Morumbi. Um ingresso custava o mesmo que um bilhete de cinema: quase nada. Então todo mundo ia. 100 mil pessoas em jogo médio. Eu levava rojão e bandeirão. O povo da escola todo lá. Depois do jogo ainda dava pra jogar bola na rua. A vida era na rua.
Bazar Brasileiro foi o disco da época. Forró do ABC. Deus me fez brasileiro, o documento da raça, na festa da alegria...
Na praia dava pra morar ainda. Praia era zona livre, sem divisão e sem preço. E as festas: Natal, Páscoa, Ano Novo, Juninas, eram na rua, enfeitadas, grátis, sem frescura.
Mas em 1984 inventaram os anos 80 e a gente ficou fresco, metido, bobo. Pior, inventaram a tal hiper inflação, e esse foi um trauma muito pior que a ditadura. Nunca nos recuperamos. Os anos 80 trouxeram à tona o pior do Brasil: roubo. Corrupção. Cinismo. E um fatalismo atroz. A MPB hedonista virou rock brasileiro. Ficamos sérios. Ficamos velhos. Ficamos chatos demais.
Moraes permaneceu. Ele ainda apostava na alegria.
Morreu dormindo. Uma benção.
Voce foi o brasileiro em seu melhor.
EU E MARCEL
Entre abril e agosto era sempre a mesma coisa. Exatamente às 18 horas a sinfonia de violinos mal afinados se instalava dentro do meu peito. Acordes agudos quando eu aspirava, acordes graves quando expirava. Franol e MM Expectorante. Algum psicólogo deveria escrever 3 volumes sobre o quanto a vida de um cara muda quando cresce com asma. Sua mente não relaxa! Voce se concentra em respirar toda noite o tempo todo. Fim de tarde vem o medo e a certeza, o ar vai faltar.
Deitado na cama voce sente calor, frio, medo, ansiedade. O ar não entra e quando entra não sai.
Marcel Proust viveu em um quarto com paredes de cortiça. Alérgico, ele ficou seus últimos anos sem sair desse quarto, escrevendo. As primeiras páginas de Em Busca falam de sua asma noturna. Não tenho medo de arriscar que o senso de observação de Proust nasceu em suas noites de vigília. Noites onde, eu sei, ficamos vigiando e observando o som de nossos pulmões e a evolução do ar dentro de nosso peito.
Por outro lado...
Que alegria quando volta a primavera e respiramos sem perceber. Voce, que teve a sorte de jamais saber o que é asma, não saberá o prazer que há na respiração, pura e simples, irrefletida. Não há prazer maior que o corpo vivendo sem esforço.
Deitado na cama voce sente calor, frio, medo, ansiedade. O ar não entra e quando entra não sai.
Marcel Proust viveu em um quarto com paredes de cortiça. Alérgico, ele ficou seus últimos anos sem sair desse quarto, escrevendo. As primeiras páginas de Em Busca falam de sua asma noturna. Não tenho medo de arriscar que o senso de observação de Proust nasceu em suas noites de vigília. Noites onde, eu sei, ficamos vigiando e observando o som de nossos pulmões e a evolução do ar dentro de nosso peito.
Por outro lado...
Que alegria quando volta a primavera e respiramos sem perceber. Voce, que teve a sorte de jamais saber o que é asma, não saberá o prazer que há na respiração, pura e simples, irrefletida. Não há prazer maior que o corpo vivendo sem esforço.
A MÁQUINA DO TEMPO
George Pal dirigiu e produziu este filme, baseado no livro de Wells, em 1960. Se em 60 o grande medo era do fim nuclear do planeta, hoje, 2020, A Máquina do Tempo assusta por sua precisão em adivinhar a situação social do primeiro mundo. Mas antes vamos lembrar.
Um cientista inglês, em 1899, constrói uma máquina com a qual ele viaja ao futuro. Milhares de anos depois, ele está no centro de um novo tipo de sociedade terrena: humanos divididos em Morlocks e Elois. Morlocks trabalham e vivem no subsolo. Elois são todos loiros e lindos e vivem sem precisar trabalhar, apenas se divertem. Morlocks na verdade criam Elois como gado. Toda noite alguns deles são devorados.
Para quem analisar superficialmente, Morlocks são a classe trabalhadora, que obrigada a se desumanizar, se vinga comendo a classe que nada produz. Essa interpretação é bastante tola. Elois são vítimas, Morlocks são exploradores. Na verdade à luz dos dias de hoje, a coisa é bem mais terrível do que parece.
Elois tomam sol num dolce far niente à beira da água. Não perguntam nada, não querem aprender nada, são indiferentes. Na cena em que estão almoçando, no enorme salão branco, tivessem cada um seu celular à mão, seriam típicos europeus dóceis e entediados de 2020. Na consciência deles, a comida surge dada por alguém, as roupas são presentes merecidos, e o passado é ignorado. Tudo que importa é ter paz e não precisar se esforçar. São como crianças. Entre eles não existe a doença e nem a velhice.
Morlocks vivem próximos à eles, mas são de certo modo invisíveis. Produzem comida, roupas, bem estar para os Elois. Em troca se alimentam de sua carne tenra. Morlocks não são felizes. Apenas criaram um modo de sobreviver. Mas são vencedores. Eles viveriam sem Elois. Já Elois morreriam de inanição sem eles. Se voce lembrou de europeus do norte, acertou.
Se Elois tivessem uma filosofia, ela seria: Me deixem em paz. Se Morlocks tivessem uma, e eu creio que a tenham, seria: Viver é lutar. Deixo à voce suas analogias.
Lembro de ter visto o filme, pela primeira vez, na Globo, sábado às 21 horas, por volta de 1975. Eu era uma criança, mas nunca esqueci. Filmes vistos nessa idade se tornam um tipo de sombra que nos seguem pelo resto da vida. Até hoje me pego pensando nos Elois, no paradoxo do tempo, no modo como o lugar onde estou estará daqui a 3000 ou 15 mil anos. Por puro reflexo sempre penso que aqui um dinossauro pisou e ali um selvagem caçou. Percebo que são imagens que me ficaram vindas deste filme.
Vivemos a mais de um século a obsessão do tempo. Como gastar, como usufruir, como não perder tempo. Mais que Deus, morte ou amor, o tempo é o centro de nossa angústia. Como bem diz o filme, é a dimensão que nos escraviza. Podemos ir e vir, subir e descer, mas a quarta dimensão, a temporal, nos prende ao seu modo.
O filme é delicioso. Poucos têm tal clima vitoriano tão bem construído. Voce se sente dentro da Londres de 1899. É uma pequena obra prima. Veja.
Um cientista inglês, em 1899, constrói uma máquina com a qual ele viaja ao futuro. Milhares de anos depois, ele está no centro de um novo tipo de sociedade terrena: humanos divididos em Morlocks e Elois. Morlocks trabalham e vivem no subsolo. Elois são todos loiros e lindos e vivem sem precisar trabalhar, apenas se divertem. Morlocks na verdade criam Elois como gado. Toda noite alguns deles são devorados.
Para quem analisar superficialmente, Morlocks são a classe trabalhadora, que obrigada a se desumanizar, se vinga comendo a classe que nada produz. Essa interpretação é bastante tola. Elois são vítimas, Morlocks são exploradores. Na verdade à luz dos dias de hoje, a coisa é bem mais terrível do que parece.
Elois tomam sol num dolce far niente à beira da água. Não perguntam nada, não querem aprender nada, são indiferentes. Na cena em que estão almoçando, no enorme salão branco, tivessem cada um seu celular à mão, seriam típicos europeus dóceis e entediados de 2020. Na consciência deles, a comida surge dada por alguém, as roupas são presentes merecidos, e o passado é ignorado. Tudo que importa é ter paz e não precisar se esforçar. São como crianças. Entre eles não existe a doença e nem a velhice.
Morlocks vivem próximos à eles, mas são de certo modo invisíveis. Produzem comida, roupas, bem estar para os Elois. Em troca se alimentam de sua carne tenra. Morlocks não são felizes. Apenas criaram um modo de sobreviver. Mas são vencedores. Eles viveriam sem Elois. Já Elois morreriam de inanição sem eles. Se voce lembrou de europeus do norte, acertou.
Se Elois tivessem uma filosofia, ela seria: Me deixem em paz. Se Morlocks tivessem uma, e eu creio que a tenham, seria: Viver é lutar. Deixo à voce suas analogias.
Lembro de ter visto o filme, pela primeira vez, na Globo, sábado às 21 horas, por volta de 1975. Eu era uma criança, mas nunca esqueci. Filmes vistos nessa idade se tornam um tipo de sombra que nos seguem pelo resto da vida. Até hoje me pego pensando nos Elois, no paradoxo do tempo, no modo como o lugar onde estou estará daqui a 3000 ou 15 mil anos. Por puro reflexo sempre penso que aqui um dinossauro pisou e ali um selvagem caçou. Percebo que são imagens que me ficaram vindas deste filme.
Vivemos a mais de um século a obsessão do tempo. Como gastar, como usufruir, como não perder tempo. Mais que Deus, morte ou amor, o tempo é o centro de nossa angústia. Como bem diz o filme, é a dimensão que nos escraviza. Podemos ir e vir, subir e descer, mas a quarta dimensão, a temporal, nos prende ao seu modo.
O filme é delicioso. Poucos têm tal clima vitoriano tão bem construído. Voce se sente dentro da Londres de 1899. É uma pequena obra prima. Veja.
PÁSCOA
Deus saiu da minha vida quando eu tinha mais ou menos 7 anos. Não me pergunte por que. Mas lembro muito bem que já nessa época eu sentia a distância enorme que havia entre eu e aqueles que pareciam crer. Meus pais não iam à igreja e foi provavelmente isso que me fez ser o que eu era: dividido.
Estranha situação que só neste exato momento recordo. Meus pais, segundo a moral católica de então, viviam em pecado. Eram casados no civil, mas não no religioso. Apesar de ambos crerem em Deus, não tinham dinheiro para a cerimônia quando se casaram, e depois, quando o dinheiro já havia, meu pai adiava a data indefinidamente. Então eles não se sentiam confortáveis para entrar numa igreja. E ao mesmo tempo queriam que eu crescesse como católico. O que era feito então? Minha tia me levava à missa dos domingos.
Na mente de uma criança de 7 anos a coisa era confusa. Lá estava eu, dentro de uma imensa igreja azul. Lotada de pessoas de todo tipo. Abafada. Ao meu lado eu via minha tia, véu negro sobre a cabeça, rezando. Eu estava alí, mas por que não meus pais? Agora, tanto tempo depois, é que percebo que seria impossível eu ter fé, a verdadeira fé, nessa situação estranha. Como herança, cresci desde então com a sensação vaga de que Deus não me queria lá. Se meus pais não podiam ou não queriam ir, eu estava no lugar errado.
Na minha adolescência Deus era um assunto sem lugar e quando virei adulto eu sentia orgulho em me dizer ateu. Tudo mudou quando meu pai faleceu. Em 2008.
Veja, não foi a dor que me fez mudar. Deus não foi consolo de desespero. Falo isso com segurança, porque meus piores momentos na vida foram muito antes, em 1986, 1987. E não me agarrei à Deus para me consolar. Não consegui nem tentar isso. Simplesmente me era impossível cogitar esse caminho.
Mas em 2008 algo aconteceu. Não há como explicar. Tudo que consigo dizer é que houve uma tristeza profunda, um desalento sem fim, uma sensação de vida que se perde em vão. Mas ao mesmo tempo tudo isso vinha entrelaçado com doçura, com aceitação da verdade, com profunda humildade. Eu me desarmei e senti que Deus entrava em mim. Aconteceram experiências simples e estranhas, mas não podem ser ditas.
E assim, por 10 anos eu vivi numa espécie de paz divina. Mas veio 2018, e agora posso confessar que então eu perdi Deus pela segunda vez na minha vida.
Foi meu segundo encontro com a morte, a morte de uma segunda pessoa central em minha vida e dessa vez o efeito foi contrário. Tudo que houve de significativo em 2008, aqui nada valia. Foi uma experiência do sem sentido, do vazio e de uma profunda raiva. Se a morte do meu pai trouxe paz e doçura, como se ela fosse o capítulo perfeito em um livro correto, esta trouxe perda e desânimo. Como fosse um ruído estridente numa sinfonia perdida.
Faz quase dois anos já. E nesses dois anos eu nunca mais consegui pensar em Deus. Não sinto por Ele nem medo, nem distância. Não há dúvida e nem certeza. Eu não consigo O sentir. É como uma ausência. Daí a certeza de que O perdi.
Durante dez anos eu olhava para o céu em meus momentos ruins, e tinha a certeza de estar em Sua companhia. Falava com Ele em pensamentos ao andar na rua. Erguia minha mente à Ele antes de dormir. Nos últimos dois anos não há nem a possibilidade mais remota de eu tentar isso. Meu céu ficou vazio. E isso é pior que o ateísmo, porque como ateu não há vazio pois não há céu. Voce não sente falta do que nunca provou.
Mas eu senti a doçura da Presença.
E não a sinto mais.
Amanhã é Páscoa e eu amaria escrever uma carta para Deus. Falando da saudade que sinto Dele. Do quanto Ele faz falta.
Talvez Ele não precise de cartas.
Talvez Ele esteja aqui.
Estranha situação que só neste exato momento recordo. Meus pais, segundo a moral católica de então, viviam em pecado. Eram casados no civil, mas não no religioso. Apesar de ambos crerem em Deus, não tinham dinheiro para a cerimônia quando se casaram, e depois, quando o dinheiro já havia, meu pai adiava a data indefinidamente. Então eles não se sentiam confortáveis para entrar numa igreja. E ao mesmo tempo queriam que eu crescesse como católico. O que era feito então? Minha tia me levava à missa dos domingos.
Na mente de uma criança de 7 anos a coisa era confusa. Lá estava eu, dentro de uma imensa igreja azul. Lotada de pessoas de todo tipo. Abafada. Ao meu lado eu via minha tia, véu negro sobre a cabeça, rezando. Eu estava alí, mas por que não meus pais? Agora, tanto tempo depois, é que percebo que seria impossível eu ter fé, a verdadeira fé, nessa situação estranha. Como herança, cresci desde então com a sensação vaga de que Deus não me queria lá. Se meus pais não podiam ou não queriam ir, eu estava no lugar errado.
Na minha adolescência Deus era um assunto sem lugar e quando virei adulto eu sentia orgulho em me dizer ateu. Tudo mudou quando meu pai faleceu. Em 2008.
Veja, não foi a dor que me fez mudar. Deus não foi consolo de desespero. Falo isso com segurança, porque meus piores momentos na vida foram muito antes, em 1986, 1987. E não me agarrei à Deus para me consolar. Não consegui nem tentar isso. Simplesmente me era impossível cogitar esse caminho.
Mas em 2008 algo aconteceu. Não há como explicar. Tudo que consigo dizer é que houve uma tristeza profunda, um desalento sem fim, uma sensação de vida que se perde em vão. Mas ao mesmo tempo tudo isso vinha entrelaçado com doçura, com aceitação da verdade, com profunda humildade. Eu me desarmei e senti que Deus entrava em mim. Aconteceram experiências simples e estranhas, mas não podem ser ditas.
E assim, por 10 anos eu vivi numa espécie de paz divina. Mas veio 2018, e agora posso confessar que então eu perdi Deus pela segunda vez na minha vida.
Foi meu segundo encontro com a morte, a morte de uma segunda pessoa central em minha vida e dessa vez o efeito foi contrário. Tudo que houve de significativo em 2008, aqui nada valia. Foi uma experiência do sem sentido, do vazio e de uma profunda raiva. Se a morte do meu pai trouxe paz e doçura, como se ela fosse o capítulo perfeito em um livro correto, esta trouxe perda e desânimo. Como fosse um ruído estridente numa sinfonia perdida.
Faz quase dois anos já. E nesses dois anos eu nunca mais consegui pensar em Deus. Não sinto por Ele nem medo, nem distância. Não há dúvida e nem certeza. Eu não consigo O sentir. É como uma ausência. Daí a certeza de que O perdi.
Durante dez anos eu olhava para o céu em meus momentos ruins, e tinha a certeza de estar em Sua companhia. Falava com Ele em pensamentos ao andar na rua. Erguia minha mente à Ele antes de dormir. Nos últimos dois anos não há nem a possibilidade mais remota de eu tentar isso. Meu céu ficou vazio. E isso é pior que o ateísmo, porque como ateu não há vazio pois não há céu. Voce não sente falta do que nunca provou.
Mas eu senti a doçura da Presença.
E não a sinto mais.
Amanhã é Páscoa e eu amaria escrever uma carta para Deus. Falando da saudade que sinto Dele. Do quanto Ele faz falta.
Talvez Ele não precise de cartas.
Talvez Ele esteja aqui.
O TERCEIRO TIRO. HITCHCOCK. A MORTE QUE NÃO IMPORTA.
Os primeiros quinze minutos são das coisas mais perfeitas que, não só Hitch, mas qualquer outro diretor já filmou. Os créditos iniciais, animados, com a trilha sonora brilhante de Bernard Herrmann ( ele, o diretor, a considerava a melhor já feita ), então as paisagens de Vermont em cores brilhantes. Úma criança, e então uma morte. Um velho caçador que fala seus pensamentos. Descobre o cadáver e pensa que o matou sem querer. Ele se esconde enquanto várias pessoas passam por lá...
Há aqui humor absurdo. Nonsense. Muita britanicidade. E beleza, uma beleza tétrica. Ironia aos montes. Harry é o morto. E morto ele é ao mesmo tempo um estorvo e insignificante. Nada vai acontecer no filme inteiro. Não lhe prometo emoção nenhuma. O filme foi um fiasco em sua época. Mas Hitch o amava, e não só por ser um patinho feio, mas sim por ser um filme impossível.
A cidade tem só 3 casas. Há um policial. Uma criança. Um pintor. E duas solteironas. E uma ruiva, mãe da criança. Esse é o elenco inteiro. Nenhum deles é muito normal. Todos são excêntricos. Na verdade o único interesse deles é sexo. Todos os diálogos, se vc prestar atenção, são convites ao ato sexual. Eles querem acasalar, e na primeira fala do filme, a do velho caçador "assassino", já se entrega isso. Diz ele que "caçar é maravilhoso porque satisfaz nosso instinto mais primitivo". Exatamente como o sexo faz.
Hitchcock trata, em todos o seus filmes, de "apenas" dois assuntos: sexo e morte. Qualquer pessoa com honestidade básica sabe que são os únicos temas que importam. Todo o resto é consequência, quando não futilidade. Este filme mostra, da forma que os anos 50 permitiam, que ao lado de um morto, tudo que nos resta é acasalar. A morte aqui não tem a menor importância. Quem se importa com Harry? Ele só desperta alguma atenção quando impede um namoro ou um casamento. Fora isso, é somente uma coisa a ser esquecida. Nunca Hitchcock foi tão direto. E ao mesmo tempo tão delicado. Isso porque o filme é um idílio. O lugar é um tipo de paraíso, e não há nesses lugares nada escondido, não é um falso paraíso, é aquilo que vemos, pessoas que vivem suas vidas comuns. São esquisitas porque as vemos de perto, bem de perto.
Não é um dos grandes filmes do gênio, mas é um daqueles em que ele revela seu riso debochado. Ele se dava a esse luxo. Cada 3 ou 4 sucessos, um filme pra brincar. Aqui vemos seu playground.
Shirley MacLaine estreia no cinema aqui. O elenco ainda tem o grande Edmund Gwenn. E John Forsythe. É um filme barato. E com cores espetaculares. O destaque é Bernard Herrmann. Sua trilha tem dois temas básicos: um irônico e um arrebatador. Nos dois ele apresenta aquilo que sua música é : perfeita. No meio dos anos 60 Hitch perdeu seu compositor. Os dois nunca mais foram os mesmos. Há encontros que parecem escritos no céu.
Há aqui humor absurdo. Nonsense. Muita britanicidade. E beleza, uma beleza tétrica. Ironia aos montes. Harry é o morto. E morto ele é ao mesmo tempo um estorvo e insignificante. Nada vai acontecer no filme inteiro. Não lhe prometo emoção nenhuma. O filme foi um fiasco em sua época. Mas Hitch o amava, e não só por ser um patinho feio, mas sim por ser um filme impossível.
A cidade tem só 3 casas. Há um policial. Uma criança. Um pintor. E duas solteironas. E uma ruiva, mãe da criança. Esse é o elenco inteiro. Nenhum deles é muito normal. Todos são excêntricos. Na verdade o único interesse deles é sexo. Todos os diálogos, se vc prestar atenção, são convites ao ato sexual. Eles querem acasalar, e na primeira fala do filme, a do velho caçador "assassino", já se entrega isso. Diz ele que "caçar é maravilhoso porque satisfaz nosso instinto mais primitivo". Exatamente como o sexo faz.
Hitchcock trata, em todos o seus filmes, de "apenas" dois assuntos: sexo e morte. Qualquer pessoa com honestidade básica sabe que são os únicos temas que importam. Todo o resto é consequência, quando não futilidade. Este filme mostra, da forma que os anos 50 permitiam, que ao lado de um morto, tudo que nos resta é acasalar. A morte aqui não tem a menor importância. Quem se importa com Harry? Ele só desperta alguma atenção quando impede um namoro ou um casamento. Fora isso, é somente uma coisa a ser esquecida. Nunca Hitchcock foi tão direto. E ao mesmo tempo tão delicado. Isso porque o filme é um idílio. O lugar é um tipo de paraíso, e não há nesses lugares nada escondido, não é um falso paraíso, é aquilo que vemos, pessoas que vivem suas vidas comuns. São esquisitas porque as vemos de perto, bem de perto.
Não é um dos grandes filmes do gênio, mas é um daqueles em que ele revela seu riso debochado. Ele se dava a esse luxo. Cada 3 ou 4 sucessos, um filme pra brincar. Aqui vemos seu playground.
Shirley MacLaine estreia no cinema aqui. O elenco ainda tem o grande Edmund Gwenn. E John Forsythe. É um filme barato. E com cores espetaculares. O destaque é Bernard Herrmann. Sua trilha tem dois temas básicos: um irônico e um arrebatador. Nos dois ele apresenta aquilo que sua música é : perfeita. No meio dos anos 60 Hitch perdeu seu compositor. Os dois nunca mais foram os mesmos. Há encontros que parecem escritos no céu.
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