DOIS MESES DE MÚSICA
Neste meu reencontro com um tipo de rock "não filtrado pelo gosto da imprensa musical", eis o que andei ouvindo... ( Com notas e de forma objetiva )
Arch Enemy- Rise of The Tyrant....2
Jack Johnson...To The Sea......2
Muse-The Second Law.....1
Arch Enemy é metal sueco com cantora que tem voz de homem. É melódico e fala daquelas coisas medievais. Falta originalidade. Jack é apenas um Chris Isaak do mar. Prefiro o de San Francisco. Muse seria bom se o cantor não fosse um Bono Vox histérico.
White Stripes- Elephant.....7
Offspring- Americana.......1
The Best of Jethro Tull....5
White Stripes é legal. Envelheceu bem. Offspring eu não reouvia desde 1999. Vinte anos! Parece ter uns 50. Impossível de se escutar agora. O Jethro tem um album que gosto muito, Aqualung. Esta coletânea, 20 canções, tem 4 que são ótimas.
Black Sabbath volume 4......8
Sabbath Bloody Sabbath.....DEZ
Sabotage........4
Paranoid............7
Black Sabbath first album.....5
Eu sei que Paranoid foi eleito o maior album metal da história, mas não acho isso. Bloody é um maldito de um disco perfeito. E o Volume 4 é o ensaio para se fazer o Bloody. Sabotage é o mais pesado e é o menos criativo. Pior capa da história do mundo!
The Doors.......8
Morrison Hotel.....8
LA Woman......9
Redescobri que Jim foi o cara. The Doors tem a insuportável The End. Morrison Hotel é um belo album de estrada e LA Woman é quase perfeito.
Gorillaz.......6
Judas Priest-British Steel.....6
Metallica Album Preto.....DEZ
Jeff Beck-Blow by Blow......7
Gorillaz eu nunca tinha escutado o disco inteiro. É uma versão inglesa dos discos do Beck. Ok. Judas Priest é considerado o terceiro maior disco de heavy da história. Não é heavy! É glitter. Lembra Sweet. Lembra até Suzi Quatro. Gostei. Mega POP. O Album Preto é imenso. Jeff Beck é o melhor guitarrista da história. E que nunca gravou um disco perfeito. Dizem que ele é impossível de conviver e por isso nunca durou numa banda. Este disco, instrumental, é jazz rock que dá pra ouvir. Jazz rock é muito chato, mas este é legal porque é bem funk. A versão dele de She's a Woman é de cair de quatro.
Rush- 2112........6
Genesis-Whutering and Wind.....ZERO
Sim, até prog fui xeretar. O disco do Genesis é impossível de ouvir. Chaaaaaatooooooo. Já o Rush foi uma surpresa! Geddy Lee tem voz de pernilongo, mas o som é bem dinâmico. Não é chato não.
ZZ Top- Tres Hombres......5
Happy Mondays-Pills and Thrills.......6
The Stone Roses........5
A banda de Shaun Ryder é mais divertida e muito mais dance. Os Roses são passado bem distante. A voz de Ian enche o saco. Já o ZZ é sempre o mesmo.
Arch Enemy- Rise of The Tyrant....2
Jack Johnson...To The Sea......2
Muse-The Second Law.....1
Arch Enemy é metal sueco com cantora que tem voz de homem. É melódico e fala daquelas coisas medievais. Falta originalidade. Jack é apenas um Chris Isaak do mar. Prefiro o de San Francisco. Muse seria bom se o cantor não fosse um Bono Vox histérico.
White Stripes- Elephant.....7
Offspring- Americana.......1
The Best of Jethro Tull....5
White Stripes é legal. Envelheceu bem. Offspring eu não reouvia desde 1999. Vinte anos! Parece ter uns 50. Impossível de se escutar agora. O Jethro tem um album que gosto muito, Aqualung. Esta coletânea, 20 canções, tem 4 que são ótimas.
Black Sabbath volume 4......8
Sabbath Bloody Sabbath.....DEZ
Sabotage........4
Paranoid............7
Black Sabbath first album.....5
Eu sei que Paranoid foi eleito o maior album metal da história, mas não acho isso. Bloody é um maldito de um disco perfeito. E o Volume 4 é o ensaio para se fazer o Bloody. Sabotage é o mais pesado e é o menos criativo. Pior capa da história do mundo!
The Doors.......8
Morrison Hotel.....8
LA Woman......9
Redescobri que Jim foi o cara. The Doors tem a insuportável The End. Morrison Hotel é um belo album de estrada e LA Woman é quase perfeito.
Gorillaz.......6
Judas Priest-British Steel.....6
Metallica Album Preto.....DEZ
Jeff Beck-Blow by Blow......7
Gorillaz eu nunca tinha escutado o disco inteiro. É uma versão inglesa dos discos do Beck. Ok. Judas Priest é considerado o terceiro maior disco de heavy da história. Não é heavy! É glitter. Lembra Sweet. Lembra até Suzi Quatro. Gostei. Mega POP. O Album Preto é imenso. Jeff Beck é o melhor guitarrista da história. E que nunca gravou um disco perfeito. Dizem que ele é impossível de conviver e por isso nunca durou numa banda. Este disco, instrumental, é jazz rock que dá pra ouvir. Jazz rock é muito chato, mas este é legal porque é bem funk. A versão dele de She's a Woman é de cair de quatro.
Rush- 2112........6
Genesis-Whutering and Wind.....ZERO
Sim, até prog fui xeretar. O disco do Genesis é impossível de ouvir. Chaaaaaatooooooo. Já o Rush foi uma surpresa! Geddy Lee tem voz de pernilongo, mas o som é bem dinâmico. Não é chato não.
ZZ Top- Tres Hombres......5
Happy Mondays-Pills and Thrills.......6
The Stone Roses........5
A banda de Shaun Ryder é mais divertida e muito mais dance. Os Roses são passado bem distante. A voz de Ian enche o saco. Já o ZZ é sempre o mesmo.
DVDS AO LIXO
Desconfie sempre dos apaixonados. Eles são cegos.
Entre 2005 - 2014, eu fui apaixonado por cinema. Sentir amor pelo cinema eu sinto desde meus 14 anos, mas paixão é diferente. Na paixão voce não ignora os defeitos, voce os exalta e os admira. Há um sentimento de que tudo dentro do meio é bom, pelo simples fato de que tudo dentro do meio é parte da paixão, o cinema. Mas por que estou falando isso? Para dizer que a paixão morreu e o amor permanece. E o que muda com isso?
Amor procura prazer, paixão quer a própria paixão, mesmo que ela o faça sofrer. Voce pode sofrer por amor, mas é um sofrimento passageiro, a mete é o bem, e o bem é alegria. Na paixão não há meta, o que existe é a rotina de sobreviver dia a dia. Não há saída e voce nem quer saída nenhuma. Voce se subjuga e subjuga o outro. Isso vale para a relação entre humanos, mas também entre humano e objeto, humano e arte.
Cheguei a ter 3.200 dvds. Sim. Uma quantidade imensa de filmes que eu jamais veria uma segunda vez. Não os veria por falta de tempo, mas também porque eu não achava que haveria prazer em os rever. Mantinha-os por paixão ao cinema. Me sentia obrigado.
Tenho me livrado de muitos desses filmes. Já se foram 800. Espero um dia ter uns 500 apenas. Não os vendo. DVDs hoje não têm valor algum, são objetos sem apreço como objetos que são. Não os dou pois não há amigos que desejem os ter. Nosso mundo está se esvaziando de coisas sólidas e se entupindo de dejetos mentais. Então deixo-os em bancos de praça ou em pontos de bus. Quem quiser que os pegue. Goddard se foi inteiro. Sem a paixão voce não consegue ver onde o mérito de Goddard. Ele só serve para quem está doido por cinema ou maluco por ideologia. Rhomer, Bertolucci, Rosselini também se foram. Não há prazer em os ver. Olho as capas dos dvds e não sinto afeto sorridente. Não são amigos.
Woody Allen sofreu imensas perdas. Mais de 20 foram largados. Nunca mais irei rever A Rosa Púrpura ou Poderosa Afrodite. Allen é ok, mas caramba, na verdade seu mundo é apenas homens atrás de mulheres.
Melhor falar dos que amo, não é? Impossível largar Bergman em uma praça. Impossível deixar Kurosawa na chuva. Mais que paixões, eles são amores, me definem como homem adulto. Acho que não preciso dizer quais outros ficarão comigo até meu fim: Hitch, Ford, Huston, Hawks, musicais de Astaire, os filmes noir franceses de Melville e Becker, filmes de samurais, várias aventuras de Erroll Flynn, Clint e Steve McQueen, Powell, Lean e Reed.
São amores, são um prazer, me dão desejo de revisitar, estar junto. Vejo seus defeitos, mas me deito ao lado de seu brilho e de seu calor. Almas gêmeas? Sim, por que não.
Entre 2005 - 2014, eu fui apaixonado por cinema. Sentir amor pelo cinema eu sinto desde meus 14 anos, mas paixão é diferente. Na paixão voce não ignora os defeitos, voce os exalta e os admira. Há um sentimento de que tudo dentro do meio é bom, pelo simples fato de que tudo dentro do meio é parte da paixão, o cinema. Mas por que estou falando isso? Para dizer que a paixão morreu e o amor permanece. E o que muda com isso?
Amor procura prazer, paixão quer a própria paixão, mesmo que ela o faça sofrer. Voce pode sofrer por amor, mas é um sofrimento passageiro, a mete é o bem, e o bem é alegria. Na paixão não há meta, o que existe é a rotina de sobreviver dia a dia. Não há saída e voce nem quer saída nenhuma. Voce se subjuga e subjuga o outro. Isso vale para a relação entre humanos, mas também entre humano e objeto, humano e arte.
Cheguei a ter 3.200 dvds. Sim. Uma quantidade imensa de filmes que eu jamais veria uma segunda vez. Não os veria por falta de tempo, mas também porque eu não achava que haveria prazer em os rever. Mantinha-os por paixão ao cinema. Me sentia obrigado.
Tenho me livrado de muitos desses filmes. Já se foram 800. Espero um dia ter uns 500 apenas. Não os vendo. DVDs hoje não têm valor algum, são objetos sem apreço como objetos que são. Não os dou pois não há amigos que desejem os ter. Nosso mundo está se esvaziando de coisas sólidas e se entupindo de dejetos mentais. Então deixo-os em bancos de praça ou em pontos de bus. Quem quiser que os pegue. Goddard se foi inteiro. Sem a paixão voce não consegue ver onde o mérito de Goddard. Ele só serve para quem está doido por cinema ou maluco por ideologia. Rhomer, Bertolucci, Rosselini também se foram. Não há prazer em os ver. Olho as capas dos dvds e não sinto afeto sorridente. Não são amigos.
Woody Allen sofreu imensas perdas. Mais de 20 foram largados. Nunca mais irei rever A Rosa Púrpura ou Poderosa Afrodite. Allen é ok, mas caramba, na verdade seu mundo é apenas homens atrás de mulheres.
Melhor falar dos que amo, não é? Impossível largar Bergman em uma praça. Impossível deixar Kurosawa na chuva. Mais que paixões, eles são amores, me definem como homem adulto. Acho que não preciso dizer quais outros ficarão comigo até meu fim: Hitch, Ford, Huston, Hawks, musicais de Astaire, os filmes noir franceses de Melville e Becker, filmes de samurais, várias aventuras de Erroll Flynn, Clint e Steve McQueen, Powell, Lean e Reed.
São amores, são um prazer, me dão desejo de revisitar, estar junto. Vejo seus defeitos, mas me deito ao lado de seu brilho e de seu calor. Almas gêmeas? Sim, por que não.
ROGER SCRUTTON E O VALOR DO METALLICA
Roger Scrutton escreveu um texto exaltando o Metallica. Sim. Roger, que desprezava o rock, viu na banda uma qualidade sinfônica que o tocou. Metallica era Wagner com eletricidade.
Tenho um amigo que toca em orquestra sinfônica. Ama Bach. Me contou que eles se apresentaram uma vez tocando uma faixa do album preto da banda. A faixa que postei logo abaixo. Disse ele que ficou fabuloso.
Quem diria!
Meu irmão me deixou de herança os 4 primeiros discos do Metallica. Demorei um ano e meio para os escutar. Então escuto. Mas começo por aquele que ele não me deixou de presente, começo pelo album preto, eu o comprei. Um choque! Trata-se, escutado em 2020, sem preconceito afinal, escutado por mim, que nunca o ouviu antes, trata-se como disse, de uma obra-prima. Sim. Uma obra-prima.
Entendo Scrutton ( para quem pensar que estou sendo catequizado pelo filósofo, eu li o texto depois de me apaixonar pelo disco ). O LP é uma sinfonia riquíssima que atualiza aquilo que Richard Wagner fizera em 1850. Cada faixa é uma pequena sinfonia em si mesma, uma página de temas que se desenvolvem como um disparo de cavalos selvagens. O som é violento, mas é soberbamente pensado. Eles têm total domínio daquilo que fazem. E o que fazem é rock em sua forma mais elevada. Mistura de groove com melodia quebrada, peso em timbres metálicos.
Após me encantar, procuro textos sobre o disco e é então que topo na net com o texto de Scrutton. Leio também outras fontes que dizem ser esse o disco de rock mais vendido desde 1991. Na verdade foi aquele o último período em que o rock vendia tanto quanto outros tipos de música. Época de Red Hot, U2, Pearl Jam e Nirvana vendendo muito. Logo viria o tempo de Jay Z, OutKast, Black Eyed Peas, Snoopy, e o rock ficaria beeeem fora dos top 10. ( Ocasionais Coldplay apenas confirmam a regra ).
Descobrir uma banda na minha idade é um prazer maravilhoso. Ainda mais uma banda como o Metallica. Tenho a oportunidade de ouvir pela primeira vez TODA sua discografia. Às vezes penso como é triste não poder mais ouvir Roxy Music ou Low pela primeira vez. Mas eis que ainda há o que descobrir. E são discos fáceis de achar, o que é ainda mais legal.
Em 1991 eu estava ouvindo Chris Isaak. Happy Mondays. Public Enemy. Não renego nada. Continuo amando todos eles. Quando na MTV entrava algo de mais heavy eu mudava de canal. Ainda cabeça feita, eu odiava aquilo que me ensinaram ser "musica de idiotas". Preconceito? Muito. Odiava sem ouvir. Era tabu para mim.
Trinta anos depois eis que estou aqui, na meia idade, ouvindo a obra dos caras pela primeira vez. Para mim é novo. Virgem.
Espero que voce, que em 1991 ouviu setecentas vezes o album preto, dê, em 2020, uma chance para o Public Enemy. Ou para os Charlatans, que ouvi muito naquele tempo também. Talvez para voce esses caras parecerão novos. Mesmo que voce conheça 911 is a Joke, o resto do album será inédito.
Abro mais uma porta em minha cabeça musical. Entendi onde está a genialidade de James e de Kirk. Master of Puppets é tão bom quanto. Mas este disco preto....
Tenho um amigo que toca em orquestra sinfônica. Ama Bach. Me contou que eles se apresentaram uma vez tocando uma faixa do album preto da banda. A faixa que postei logo abaixo. Disse ele que ficou fabuloso.
Quem diria!
Meu irmão me deixou de herança os 4 primeiros discos do Metallica. Demorei um ano e meio para os escutar. Então escuto. Mas começo por aquele que ele não me deixou de presente, começo pelo album preto, eu o comprei. Um choque! Trata-se, escutado em 2020, sem preconceito afinal, escutado por mim, que nunca o ouviu antes, trata-se como disse, de uma obra-prima. Sim. Uma obra-prima.
Entendo Scrutton ( para quem pensar que estou sendo catequizado pelo filósofo, eu li o texto depois de me apaixonar pelo disco ). O LP é uma sinfonia riquíssima que atualiza aquilo que Richard Wagner fizera em 1850. Cada faixa é uma pequena sinfonia em si mesma, uma página de temas que se desenvolvem como um disparo de cavalos selvagens. O som é violento, mas é soberbamente pensado. Eles têm total domínio daquilo que fazem. E o que fazem é rock em sua forma mais elevada. Mistura de groove com melodia quebrada, peso em timbres metálicos.
Após me encantar, procuro textos sobre o disco e é então que topo na net com o texto de Scrutton. Leio também outras fontes que dizem ser esse o disco de rock mais vendido desde 1991. Na verdade foi aquele o último período em que o rock vendia tanto quanto outros tipos de música. Época de Red Hot, U2, Pearl Jam e Nirvana vendendo muito. Logo viria o tempo de Jay Z, OutKast, Black Eyed Peas, Snoopy, e o rock ficaria beeeem fora dos top 10. ( Ocasionais Coldplay apenas confirmam a regra ).
Descobrir uma banda na minha idade é um prazer maravilhoso. Ainda mais uma banda como o Metallica. Tenho a oportunidade de ouvir pela primeira vez TODA sua discografia. Às vezes penso como é triste não poder mais ouvir Roxy Music ou Low pela primeira vez. Mas eis que ainda há o que descobrir. E são discos fáceis de achar, o que é ainda mais legal.
Em 1991 eu estava ouvindo Chris Isaak. Happy Mondays. Public Enemy. Não renego nada. Continuo amando todos eles. Quando na MTV entrava algo de mais heavy eu mudava de canal. Ainda cabeça feita, eu odiava aquilo que me ensinaram ser "musica de idiotas". Preconceito? Muito. Odiava sem ouvir. Era tabu para mim.
Trinta anos depois eis que estou aqui, na meia idade, ouvindo a obra dos caras pela primeira vez. Para mim é novo. Virgem.
Espero que voce, que em 1991 ouviu setecentas vezes o album preto, dê, em 2020, uma chance para o Public Enemy. Ou para os Charlatans, que ouvi muito naquele tempo também. Talvez para voce esses caras parecerão novos. Mesmo que voce conheça 911 is a Joke, o resto do album será inédito.
Abro mais uma porta em minha cabeça musical. Entendi onde está a genialidade de James e de Kirk. Master of Puppets é tão bom quanto. Mas este disco preto....
DOWN IN MONTEREY
Assisti ontem de noite o festival de Monterey na companhia de uma menina de 20 anos. Ela adora rock e dentre seus favoritos estão The Doors, Slipknot e Arch Enemy. Ela também ouve POP coreano e ama Velhas Virgens e Massive Attack. Tem um monte de bandas de eletrônico satânico que ela escuta e ainda posso citar Bowie, Led Zeppelin, Muse e Franz Ferdinand entre suas paixões.
Monterey é o festival feito perto de San Francisco, em junho de 1967. Foi o primeiro festival e é o antepassado do Rock in Rio, Lolla e de todo show ao ar livre com mais de 3 bandas. Eu já vi o documentário mais de 20 vezes, e fico curioso em saber o que uma menina como ela vai achar. Detalhe: ela não sente saudade de hippies. Na verdade ela odeia drogas. Vamos ao show...
O documentário começa com Mamas and Papas e California Dreamin parece à ela algo tão antigo como Noel Rosa ou Gonzaguinha. Mas são as pessoas que lhe dão enjoo: são incrivelmente sujas. Faço-a ver o fascínio que há na não repetição de roupas. Em todo o doc não vemos duas pessoas vestidas de modo parecido. Há ali uma real diversidade que hoje só existe em slogans publicitários. Em um show atual todos se vestem iguais, são uniformes. Em Monterey há uma mistura de modelos, tecidos, cabelos, óculos que diverte e apaixona a visão. Ela entende. E percebe logo que cada um naquele evento é uma alma à procura de auto expressão. Dois anos mais tarde, em Woodstock, isso já se perdera. Em 1969 já há uma uniformidade de cabelos e roupas. Em 1967 ainda há individualidade.
Simon e Garfunkel parece à minha amiga bossa nova. Violão e banquinho lhe dá asco e ela quase desiste. Mas Canned Heat é blues e ela ama blues. Logo saca que em 1967 dá ainda para fazer sucesso sendo feio. Canned Heat é a banda mais feia que ela já viu na vida.
Country Joe and The Fish nos faz rir. É um som interessante, ao contrário do Jefferson Airplane, que lhe pareceu tão antigo quanto Roberto Carlos. Não que seja parecido, mas é antigo. Morto. Ela me pergunta se o rock naquela época era sempre assim: sem adrenalina. Falo pra ela esperar.
Janis Joplin não lhe interessa. Ela diz que cantoras feias não lhe dão desejo de ouvir. Eis uma diferença de geração: Janis ou Patti Smith não têm chance com ela. Uma cantora tem de ser alguém com quem ela se identifica em alma e em corpo. Minha amiga é muito bonita. Janis não é do mundo dela. De qualquer modo ela fica impressionada com a voz. E vê nela o sinal da depressão, doença que ela conhece bem.
Otis Redding é o melhor cantor da história. E ele está acompanhado por Cropper, Dunn e Jackson. Lhe conto que nosso amigo Fabio toca baixo imitando Duck Dunn. Ela ri. E acha Otis do caralho.
Mas tudo muda com The Who. Peço para ela prestar atenção em Keith Moon e é paixão imediata. Ela é baterista e não acredita no que vê. Moon não existe! Como pode ele fazer aquilo? Eis a tal adrenalina. Ela mata a charada: é o único show que parece atemporal. Eles poderiam ser uma banda de agora. Não há elogio maior. The Who não faz parte daquele tempo. São fora de todo tempo. Vivem em um tempo próprio.
Jimi Hendrix. Lhe conto que ele é sagitário. O cara mais sagitário da história. Ela não gosta da cara dele. É feio. Nem das roupas, são sujas. Mas caramba! Ele é sexy. Quase pornô. E não toca guitarra. Parece que a guitarra toca sozinha.
Aconselho todo mundo a fazer isso. Ver um DVD de algum show antigo e querido com uma pessoa querida de 2020. Mal posso esperar para mostrar Gimme Shelter para ela.
Monterey é o festival feito perto de San Francisco, em junho de 1967. Foi o primeiro festival e é o antepassado do Rock in Rio, Lolla e de todo show ao ar livre com mais de 3 bandas. Eu já vi o documentário mais de 20 vezes, e fico curioso em saber o que uma menina como ela vai achar. Detalhe: ela não sente saudade de hippies. Na verdade ela odeia drogas. Vamos ao show...
O documentário começa com Mamas and Papas e California Dreamin parece à ela algo tão antigo como Noel Rosa ou Gonzaguinha. Mas são as pessoas que lhe dão enjoo: são incrivelmente sujas. Faço-a ver o fascínio que há na não repetição de roupas. Em todo o doc não vemos duas pessoas vestidas de modo parecido. Há ali uma real diversidade que hoje só existe em slogans publicitários. Em um show atual todos se vestem iguais, são uniformes. Em Monterey há uma mistura de modelos, tecidos, cabelos, óculos que diverte e apaixona a visão. Ela entende. E percebe logo que cada um naquele evento é uma alma à procura de auto expressão. Dois anos mais tarde, em Woodstock, isso já se perdera. Em 1969 já há uma uniformidade de cabelos e roupas. Em 1967 ainda há individualidade.
Simon e Garfunkel parece à minha amiga bossa nova. Violão e banquinho lhe dá asco e ela quase desiste. Mas Canned Heat é blues e ela ama blues. Logo saca que em 1967 dá ainda para fazer sucesso sendo feio. Canned Heat é a banda mais feia que ela já viu na vida.
Country Joe and The Fish nos faz rir. É um som interessante, ao contrário do Jefferson Airplane, que lhe pareceu tão antigo quanto Roberto Carlos. Não que seja parecido, mas é antigo. Morto. Ela me pergunta se o rock naquela época era sempre assim: sem adrenalina. Falo pra ela esperar.
Janis Joplin não lhe interessa. Ela diz que cantoras feias não lhe dão desejo de ouvir. Eis uma diferença de geração: Janis ou Patti Smith não têm chance com ela. Uma cantora tem de ser alguém com quem ela se identifica em alma e em corpo. Minha amiga é muito bonita. Janis não é do mundo dela. De qualquer modo ela fica impressionada com a voz. E vê nela o sinal da depressão, doença que ela conhece bem.
Otis Redding é o melhor cantor da história. E ele está acompanhado por Cropper, Dunn e Jackson. Lhe conto que nosso amigo Fabio toca baixo imitando Duck Dunn. Ela ri. E acha Otis do caralho.
Mas tudo muda com The Who. Peço para ela prestar atenção em Keith Moon e é paixão imediata. Ela é baterista e não acredita no que vê. Moon não existe! Como pode ele fazer aquilo? Eis a tal adrenalina. Ela mata a charada: é o único show que parece atemporal. Eles poderiam ser uma banda de agora. Não há elogio maior. The Who não faz parte daquele tempo. São fora de todo tempo. Vivem em um tempo próprio.
Jimi Hendrix. Lhe conto que ele é sagitário. O cara mais sagitário da história. Ela não gosta da cara dele. É feio. Nem das roupas, são sujas. Mas caramba! Ele é sexy. Quase pornô. E não toca guitarra. Parece que a guitarra toca sozinha.
Aconselho todo mundo a fazer isso. Ver um DVD de algum show antigo e querido com uma pessoa querida de 2020. Mal posso esperar para mostrar Gimme Shelter para ela.
ATENÇÃO! ESTE TEXTO TEM PALAVRÕES E É BASTANTE BURRO
Uma das coisas que mais fodeu minha adolescência foi eu ter metido na cabeça que minha mente era uma grande coisa. Já aos 14 anos me tornei um pretensioso fake. Então, para manter essa auto estima besta em dia, passei a ler e seguir críticos de cinema e de música. Era a década de 70, e se voce acha que intelectuais são, em 2020, doutrinadores, é porque voce não viveu em 1977. Para esses críticos de 77, fazer sucesso era sempre imperdoável e ser apolítico era prova de fascismo. É por isso que voce, jovem deste milênio, se surpreende ao saber que Pasolini ou Bertolucci eram tão endeusados. Assim como Costa-Gavras e Goddard, seus grandes méritos eram ser de esquerda, bem de esquerda, mega de esquerda, e jamais terem grande bilheteria ( Bertolucci começou a ser mal falado quando fez sucesso com o Tango em Paris ). Diretores que ousavam falar mal dessa turma politizada, gente como Huston, Hawks e McCarey, eram logo taxados de direitistas, alienados e vendidos.
No rock era a mesma coisa. E então, lá estava eu, ingênuo e quase criança ainda, lendo os críticos, e me obrigando a gostar de tudo o que eles elogiavam. Eu me via como um cara especial, superior, então eu tinha a obrigação de amar Cassavetes e de abominar um simples filme divertido e bem feito. Como eu dizia, no rock a gente, se era inteligente, tinha de amar Leonard Cohen e Carole King, Joni Mitchell e Bob Dylan. Ok, eles até que são legais às vezes, mas eu tinha de ouvir só eles. E pior que tudo, eu era convencido a odiar com todas as forças todo rock que fosse apenas diversão. Ou adrenalina.
Aerosmith, AC DC, Judas Priest, e acima de tudo, Black Sabbath, eram chamados de rock analfabeto. Era sub música, sub letras, sub público e sub tudo. O Led Zeppelin logo fugiu dessa turma, por isso Plant e Page sempre davam um jeito de falar que não faziam parte do hard rock ou do heavy metal. Infelizmente o Led nunca mais quis fazer um outro Led Zeppelin II para não correr o risco de ser comparado ao Deep Purple, a mais burra das bandas segundo a crítica in.
Foi então que me fodi. Parei de ver rock como diversão e sim como educação.
Graças aos tempos, hoje o rock está tão ao canto que todos podem escutar o que quiser sem sofrer grandes pressões. Hoje até o Queen é levado em conta. Em 1978 era uma banda da direita nojenta. Arre!
Escrevo tudo isto só pra dizer que SABBATH BLOODY SABBATH, disco que me proibi de continuar ouvindo em 1977, ao descobrir que era ruim e burro segundo a crítica, é um disco perfeito. Sim, perfeito, com riffs inesquecíveis e criativo ao extremo. Sabra Cadabbra e Looking for Today são diferentes de tudo que se fazia então, criam um novo som. A banda de Tony Iommi estava sozinha nesse estilo. E eu amava esse disco até aprender que ele era ruim.
Oh God!
Não há uma só faixa pobre e voce o escuta numa levada só, sem quedas e sem decepções. Melhor que os mais respeitados em seu tempo Pink Floyd e Neil Young.
Acredite, uma das piores coisas da vida é receber uma educação torta. Não receber educação nenhuma é menos nocivo. Hoje não há mais uma educação musical ativa. Em 1977 quem escrevia no JT ou na POP era a única opinião. Então era a verdade incontestável. Pobre Ozzy que não tinha uma só voz ao seu lado! Apenas o fãs...mas eles eram analfabetos, não contavam.
Vou ouvir o disco de novo.
No rock era a mesma coisa. E então, lá estava eu, ingênuo e quase criança ainda, lendo os críticos, e me obrigando a gostar de tudo o que eles elogiavam. Eu me via como um cara especial, superior, então eu tinha a obrigação de amar Cassavetes e de abominar um simples filme divertido e bem feito. Como eu dizia, no rock a gente, se era inteligente, tinha de amar Leonard Cohen e Carole King, Joni Mitchell e Bob Dylan. Ok, eles até que são legais às vezes, mas eu tinha de ouvir só eles. E pior que tudo, eu era convencido a odiar com todas as forças todo rock que fosse apenas diversão. Ou adrenalina.
Aerosmith, AC DC, Judas Priest, e acima de tudo, Black Sabbath, eram chamados de rock analfabeto. Era sub música, sub letras, sub público e sub tudo. O Led Zeppelin logo fugiu dessa turma, por isso Plant e Page sempre davam um jeito de falar que não faziam parte do hard rock ou do heavy metal. Infelizmente o Led nunca mais quis fazer um outro Led Zeppelin II para não correr o risco de ser comparado ao Deep Purple, a mais burra das bandas segundo a crítica in.
Foi então que me fodi. Parei de ver rock como diversão e sim como educação.
Graças aos tempos, hoje o rock está tão ao canto que todos podem escutar o que quiser sem sofrer grandes pressões. Hoje até o Queen é levado em conta. Em 1978 era uma banda da direita nojenta. Arre!
Escrevo tudo isto só pra dizer que SABBATH BLOODY SABBATH, disco que me proibi de continuar ouvindo em 1977, ao descobrir que era ruim e burro segundo a crítica, é um disco perfeito. Sim, perfeito, com riffs inesquecíveis e criativo ao extremo. Sabra Cadabbra e Looking for Today são diferentes de tudo que se fazia então, criam um novo som. A banda de Tony Iommi estava sozinha nesse estilo. E eu amava esse disco até aprender que ele era ruim.
Oh God!
Não há uma só faixa pobre e voce o escuta numa levada só, sem quedas e sem decepções. Melhor que os mais respeitados em seu tempo Pink Floyd e Neil Young.
Acredite, uma das piores coisas da vida é receber uma educação torta. Não receber educação nenhuma é menos nocivo. Hoje não há mais uma educação musical ativa. Em 1977 quem escrevia no JT ou na POP era a única opinião. Então era a verdade incontestável. Pobre Ozzy que não tinha uma só voz ao seu lado! Apenas o fãs...mas eles eram analfabetos, não contavam.
Vou ouvir o disco de novo.
BILLY WILDER ESTRAGA MAIS UM FILME: SABRINA.
Sabrina começa com...era uma vez...e termina bonitinho, daquele modo que Billy Wilder sabia fazer. Esperto, ele sempre se superava em finais. Assinava seus filmes. Revejo este filme após 10 anos. Gosto? Sim. É um belo filme azedo. Mas, como todo filme do austríaco, ele é cheio de defeitos que hoje me incomodam bastante.
Como voce sabe, Sabrina é uma menina que cresceu numa casa terrivelmente rica. Filha do chauffeur, ela se apaixona por David, o herdeiro playboy da casa. Com seu amor frustrado, ela tenta se matar, é salva por Linus, o irmão que vive pelo trabalho. Sabrina vai para Paris fazer um curso de gastronomia. ( Moderno o filme, em 1954 ninguém fazia isso ). Volta dois anos depois transformada em Audrey Hepburn vestida por Givenchy. David se apaixona por ela, Linus a seduz para que o irmão se case com uma moça rica, e no fim, Sabrina e Linus ficam juntos. Conto de fadas típico né? Não. É um filme quase tétrico.
Billy Wilder se mete no roteiro e faz com que, sutilmente, como em todos os seus filmes, o que parecia simples se revele "vienense". Sabrina é inocente? Ela ama David ou ama o luxo daquela casa? Ela se apaixona por Linus ou não será pelo irmão mais rico? Não há um só amor no filme que convença, e isso é proposital. Wilder sabe que amor e poder, sexo e medo andam sempre misturados.
David se apaixona ou quer transar com Sabrina? O caso de Linus é mais estranho ainda. Nada nele demonstra amor. A impressão que temos é que ele parte com Sabrina apenas com o intuito de descansar uns cinco dias e voltar ao trabalho, seu amor de fato.
Humphrey Bogart, que faz Linus, odiou trabalhar com Wilder. Bogey tinha um modo seco e impessoal de trabalhar. Ele aparecia no set, fazia seu papel e voltava para sua mulher e seu iate. Billy gostava de formar famílias no set. Todo o elenco se tornava uma máfia fechada, as filmagens eram cheias de piadas, risos e casos amorosos entre o elenco. Bogey odiava isso e ficava à parte. Linus é feito com extremos mal humor. Bogey não está nem aí para o filme. Isso prejudica todo o roteiro. Sabemos que é IMPOSSÍVEL Sabrina amar aquele senhor feio e sem charme. Bogart parece o contador da empresa. Não há glamour. Há um momento em que o filme ronda a pedofilia, tamanho o desconforto.
William Holden faz David. Apesar de ser 20 anos mais velho que Audrey, o flerte convence. Holden era bonito e na vida real os dois tiveram um caso durante o filme. Vejo nos extras que CARY GRANT iria fazer o papel de Bogey. Mas ele desistiu na última hora. Com Cary Grant todo o filme pareceria real e o humor seria soberbo. Linus era Cary Grant, maduro, charmoso, bonito e meio bobo, sem Grant jamais se deveria ter convocado Bogart.
Muitos filmes de Billy Wilder são menos bons por um erro de casting. Billy amava trabalhar com atores amigos e isso danificava a credibilidade de certos papeis. Sabrina é um filme muito famoso, mas é apenas um bom filme. Meu incômodo é que ele deveria ter sido grande, muito grande. Cary Grant melhoraria todos os filmes já feitos, mas aqui sua falta afunda o barco.
Como voce sabe, Sabrina é uma menina que cresceu numa casa terrivelmente rica. Filha do chauffeur, ela se apaixona por David, o herdeiro playboy da casa. Com seu amor frustrado, ela tenta se matar, é salva por Linus, o irmão que vive pelo trabalho. Sabrina vai para Paris fazer um curso de gastronomia. ( Moderno o filme, em 1954 ninguém fazia isso ). Volta dois anos depois transformada em Audrey Hepburn vestida por Givenchy. David se apaixona por ela, Linus a seduz para que o irmão se case com uma moça rica, e no fim, Sabrina e Linus ficam juntos. Conto de fadas típico né? Não. É um filme quase tétrico.
Billy Wilder se mete no roteiro e faz com que, sutilmente, como em todos os seus filmes, o que parecia simples se revele "vienense". Sabrina é inocente? Ela ama David ou ama o luxo daquela casa? Ela se apaixona por Linus ou não será pelo irmão mais rico? Não há um só amor no filme que convença, e isso é proposital. Wilder sabe que amor e poder, sexo e medo andam sempre misturados.
David se apaixona ou quer transar com Sabrina? O caso de Linus é mais estranho ainda. Nada nele demonstra amor. A impressão que temos é que ele parte com Sabrina apenas com o intuito de descansar uns cinco dias e voltar ao trabalho, seu amor de fato.
Humphrey Bogart, que faz Linus, odiou trabalhar com Wilder. Bogey tinha um modo seco e impessoal de trabalhar. Ele aparecia no set, fazia seu papel e voltava para sua mulher e seu iate. Billy gostava de formar famílias no set. Todo o elenco se tornava uma máfia fechada, as filmagens eram cheias de piadas, risos e casos amorosos entre o elenco. Bogey odiava isso e ficava à parte. Linus é feito com extremos mal humor. Bogey não está nem aí para o filme. Isso prejudica todo o roteiro. Sabemos que é IMPOSSÍVEL Sabrina amar aquele senhor feio e sem charme. Bogart parece o contador da empresa. Não há glamour. Há um momento em que o filme ronda a pedofilia, tamanho o desconforto.
William Holden faz David. Apesar de ser 20 anos mais velho que Audrey, o flerte convence. Holden era bonito e na vida real os dois tiveram um caso durante o filme. Vejo nos extras que CARY GRANT iria fazer o papel de Bogey. Mas ele desistiu na última hora. Com Cary Grant todo o filme pareceria real e o humor seria soberbo. Linus era Cary Grant, maduro, charmoso, bonito e meio bobo, sem Grant jamais se deveria ter convocado Bogart.
Muitos filmes de Billy Wilder são menos bons por um erro de casting. Billy amava trabalhar com atores amigos e isso danificava a credibilidade de certos papeis. Sabrina é um filme muito famoso, mas é apenas um bom filme. Meu incômodo é que ele deveria ter sido grande, muito grande. Cary Grant melhoraria todos os filmes já feitos, mas aqui sua falta afunda o barco.
SINCRONIA E ANARQUIA
Li um artigo bem legal ontem. Quando digo Universo, como voce o imagina? Provável que seja um lugar imenso, sem fim, sem começo e velho pra caramba. Ok? Só que não é assim. No texto que li, sim, física quântica, o Universo não é uma só coisa. Ele é um conjunto de pequenos Universos. Estranho? Não é mais estranho que tentar imaginar uma coisa sem começo e sem um fim.
Tudo seria formado por hiper mega ultra minúsculas partículas. Até aí nada demais. Mas são coisas menores que um elétron. Menores que um bóson. E cada uma dessas coisas é em si um Universo. Bem...qual a diferença de chamar essas coisinhas de partículas ou de Universos?
Um Universo tem suas próprias leis físicas. Então, fica claro, que cada fragmento obedece suas próprias leis. Parece absurdo pensar que logicamente tudo seria então uma anarquia onde cada coisa seguiria sua lei própria. Mas, é exatamente isso que essa teoria propõe. A ordem de tempo e espaço é apenas uma ilusão criada por nossa mente. Na verdade, o universo é um amálgama de mundos. Melhor explicando, para um pedaço de cortiça, tempo e espaço nada significam. Assim como para um coelho, nada vale naquilo que o relógio diz. Um ET que chegasse aqui teria imensas dificuldades em se adaptar, ou mesmo começar a entender o que significa tempo e espaço. Na multiplicidade de universos, tempo não existe e espaço é ilusório.
Escrevo isso por um motivo. Há uns três meses estava andando na rua quando de súbito veio à minha mente a lembrança de uma menina. Nada tão especial ela. Nada me fizeram lembrar de seu rosto. Não a via a mais ou menos cinco ou seis anos. Eu andava e pensei nela. Pois bem...dois minutos depois a vejo parada na calçada, prestes a cruzar a rua, e topo com ela. Digo olá etc etc etc.
Hoje, na academia, lembro do nada de um amigo que não vejo a mais de dez anos. Não era um grande amigo, apenas um colega. Então, ando até uma padaria, depois compro coisas num mercado e na avenida o vejo vindo em minha direção. Olá etc etc etc
O que esses dois fatos têm a ver com o que escrevi sobre física? Tudo. Minha mente, universo próprio, já havia encontrado com eles em outro tempo. Ou, numa realidade paralela eu os vejo todo dia e tive um pequeno acesso à isso.
Parece loucura? Mas é exatamente isso que a física anda estudando. A cada escolha nossa criamos mais uma realidade. Nossa mente não reconhece tempo e vive em passado e futuro como coisa normal.
Escrevo mais outro dia.
Ou já escrevi?
Tudo seria formado por hiper mega ultra minúsculas partículas. Até aí nada demais. Mas são coisas menores que um elétron. Menores que um bóson. E cada uma dessas coisas é em si um Universo. Bem...qual a diferença de chamar essas coisinhas de partículas ou de Universos?
Um Universo tem suas próprias leis físicas. Então, fica claro, que cada fragmento obedece suas próprias leis. Parece absurdo pensar que logicamente tudo seria então uma anarquia onde cada coisa seguiria sua lei própria. Mas, é exatamente isso que essa teoria propõe. A ordem de tempo e espaço é apenas uma ilusão criada por nossa mente. Na verdade, o universo é um amálgama de mundos. Melhor explicando, para um pedaço de cortiça, tempo e espaço nada significam. Assim como para um coelho, nada vale naquilo que o relógio diz. Um ET que chegasse aqui teria imensas dificuldades em se adaptar, ou mesmo começar a entender o que significa tempo e espaço. Na multiplicidade de universos, tempo não existe e espaço é ilusório.
Escrevo isso por um motivo. Há uns três meses estava andando na rua quando de súbito veio à minha mente a lembrança de uma menina. Nada tão especial ela. Nada me fizeram lembrar de seu rosto. Não a via a mais ou menos cinco ou seis anos. Eu andava e pensei nela. Pois bem...dois minutos depois a vejo parada na calçada, prestes a cruzar a rua, e topo com ela. Digo olá etc etc etc.
Hoje, na academia, lembro do nada de um amigo que não vejo a mais de dez anos. Não era um grande amigo, apenas um colega. Então, ando até uma padaria, depois compro coisas num mercado e na avenida o vejo vindo em minha direção. Olá etc etc etc
O que esses dois fatos têm a ver com o que escrevi sobre física? Tudo. Minha mente, universo próprio, já havia encontrado com eles em outro tempo. Ou, numa realidade paralela eu os vejo todo dia e tive um pequeno acesso à isso.
Parece loucura? Mas é exatamente isso que a física anda estudando. A cada escolha nossa criamos mais uma realidade. Nossa mente não reconhece tempo e vive em passado e futuro como coisa normal.
Escrevo mais outro dia.
Ou já escrevi?
SHAMPOO - HAL ASHBY
Deve ser engraçado um cara com menos de 40 anos ler o livro sobre drogas e a Hollywood dos anos 70, e depois ver este filme. Porque se fala muito dele no dito volume. Feito em 1975, ele foi uma hiper bilheteria. E tinha Robert Towne no roteiro, Ashby na direção e Warren Beatty como ator e produtor. Towne é colocado no Olimpo no livro por causa do roteiro de Chinatown, feito um ano antes. E Ashby era o diretor mais top depois de Altman. Ok? Mas aí o cara pega e vê este filme e deve ter um tremendo choque. Que diabos! É apenas um filme POP.
Sim e não. É POP por ter uma direção correta, sem grandes lances, e é mais que aparenta ser, bem mais.
O filme, que é todo Warren, no auge de sua fama de garanhão, é sobre a melancolia de um cabeleireiro que transa com todas as suas clientes ricas. Ele faz sexo 4 ou 5 vezes ao dia e começa a sentir que sua vida é um fracasso. Há um paralelo com o tempo em que o filme se passa, 1968...os jovens têm sexo e drogas, mas a eleição é ganha por Nixon.
Beatty dá um show. Confuso, ruim de fala, ansioso, seu personagem é comovente. Inocente, um objeto bonito que todas usam. Julie Christie é seu grande amor, a namorada de um velho rico casado. Carrie Fisher é a teen que ele pega. E Goldie Hawn o caso atual. É um filme simples, mas também cheio de camadas. Vale por Warren correndo em sua moto de casa em casa tentando achar um modo de crescer.
O fim é perfeito.
Sim e não. É POP por ter uma direção correta, sem grandes lances, e é mais que aparenta ser, bem mais.
O filme, que é todo Warren, no auge de sua fama de garanhão, é sobre a melancolia de um cabeleireiro que transa com todas as suas clientes ricas. Ele faz sexo 4 ou 5 vezes ao dia e começa a sentir que sua vida é um fracasso. Há um paralelo com o tempo em que o filme se passa, 1968...os jovens têm sexo e drogas, mas a eleição é ganha por Nixon.
Beatty dá um show. Confuso, ruim de fala, ansioso, seu personagem é comovente. Inocente, um objeto bonito que todas usam. Julie Christie é seu grande amor, a namorada de um velho rico casado. Carrie Fisher é a teen que ele pega. E Goldie Hawn o caso atual. É um filme simples, mas também cheio de camadas. Vale por Warren correndo em sua moto de casa em casa tentando achar um modo de crescer.
O fim é perfeito.
PORQUE SOME LIKE IT HOT NÃO É A MELHOR COMÉDIA DA HISTÓRIA
QUANTO MAIS QUENTE MELHOR costuma ser sempre chamado de a melhor comédia já feita. É uma escolha automática, como dizer que Sgt Peppers é o melhor disco ou que Bob Dylan é o melhor letrista. Revejo o filme de Billy Wilder e não dou uma só risada. OK. Há comédias maravilhosas, como Levada Da Breca que não nos fazem rir. Melhor que isso, elas nos deixam felizes. E as assistimos com um sorriso na boca. Então confesso, sorri vendo Some Like It Hot. Mas não foi um grande sorriso. Há algo de errado no filme. O que?
Jack Lemmon é provavelmente o melhor ator que Hollywood viu. Vencedor de 3 Oscars, ele era genial em drama e em comédia. E aqui ele tem mais um de seus hiper grandes momentos. Se voce olhar para ele durante todo o filme voce vai ficar estarrecido. As caras e trejeitos que ele faz travestido, o modo como ele começa a gostar de ser mulher, são de uma sedução de gênio. Jack Lemmon se delicia fazendo seu papel e nos delicia generosamente. Voz e corpo em absoluto domínio, ele chega ao pico dos atores. Até mesmo o dedão do pé está atuando. Não há um microssegundo de folga. Jack é um ator total.
Tony Curtis não faz feio. Mais que isso, está bem. O simples fato de não ser engolido por Jack é já um mérito. Os dois casam bem. Tony é bonito e Jack é sem graça. Tony é sério e Jack é doido. Tony imita Cary Grant. Jack é Billy Wilder como ator. Falemos de Billy.
A direção é veloz, os coadjuvantes são brilhantes e o roteiro é rico em reviravoltas. As falas são ótimas. Então onde o erro que me incomoda?
Marilyn, claro. Billy odiava trabalhar com ela. MM era irresponsável e Billy amava o profissionalismo. Mas Wilder a aceitava pois dizia que o resultado compensava. Hummm....pois eu digo que MM estraga o filme. Ela não tem a verve para segurar o papel. Está ausente, aérea, e passa todo o filme me dando pena. Fica obvio que Billy a usa como espantalho. Ela é exposta em vestidos justos e transparentes que ressaltam sua falta de forma física. Sinto-a quase humilhada. Entenda, o filme não é machista. Tem até uma fala feminista de Jack Lemmon ao ser assediado no elevador. Mas MM é como um peso. Tony e Jack estão leves e felizes, então surge MM...e a comédia trava.
Após a morte de MM tornou-se moda dizer que ela era boa atriz e mulher inteligente. Sinto, não era. SOME LIKE IT HOT é a prova de que MM era apenas uma estrela perdida. O filme precisava de uma comediante a altura de Jack. Os produtores escalaram uma loira em crise eterna. DUCK SOUP é a maior comédia da história.
Sorry Jack.
Jack Lemmon é provavelmente o melhor ator que Hollywood viu. Vencedor de 3 Oscars, ele era genial em drama e em comédia. E aqui ele tem mais um de seus hiper grandes momentos. Se voce olhar para ele durante todo o filme voce vai ficar estarrecido. As caras e trejeitos que ele faz travestido, o modo como ele começa a gostar de ser mulher, são de uma sedução de gênio. Jack Lemmon se delicia fazendo seu papel e nos delicia generosamente. Voz e corpo em absoluto domínio, ele chega ao pico dos atores. Até mesmo o dedão do pé está atuando. Não há um microssegundo de folga. Jack é um ator total.
Tony Curtis não faz feio. Mais que isso, está bem. O simples fato de não ser engolido por Jack é já um mérito. Os dois casam bem. Tony é bonito e Jack é sem graça. Tony é sério e Jack é doido. Tony imita Cary Grant. Jack é Billy Wilder como ator. Falemos de Billy.
A direção é veloz, os coadjuvantes são brilhantes e o roteiro é rico em reviravoltas. As falas são ótimas. Então onde o erro que me incomoda?
Marilyn, claro. Billy odiava trabalhar com ela. MM era irresponsável e Billy amava o profissionalismo. Mas Wilder a aceitava pois dizia que o resultado compensava. Hummm....pois eu digo que MM estraga o filme. Ela não tem a verve para segurar o papel. Está ausente, aérea, e passa todo o filme me dando pena. Fica obvio que Billy a usa como espantalho. Ela é exposta em vestidos justos e transparentes que ressaltam sua falta de forma física. Sinto-a quase humilhada. Entenda, o filme não é machista. Tem até uma fala feminista de Jack Lemmon ao ser assediado no elevador. Mas MM é como um peso. Tony e Jack estão leves e felizes, então surge MM...e a comédia trava.
Após a morte de MM tornou-se moda dizer que ela era boa atriz e mulher inteligente. Sinto, não era. SOME LIKE IT HOT é a prova de que MM era apenas uma estrela perdida. O filme precisava de uma comediante a altura de Jack. Os produtores escalaram uma loira em crise eterna. DUCK SOUP é a maior comédia da história.
Sorry Jack.
OSCAR OLHO
Uns 4 anos que o Oscar pouco me importa. Até hoje não sei quem ganhou o prêmio em 2019 ou 2018. Não é esnobismo. Apenas a constatação de que aquela não é mais a minha turma.
Envelheci. Graças a Deus sobrevivi. E aquela gente me parece tão distante de meu mundo quanto um aborígene é distante de um inglês de 1900. Olho para seus rostos e sinto que eles são de uma outra galáxia. Nada neles me agrada. Vejo-os como bebês de foca. E eu sou um leão marinho.
Se vestem mal. São fofos, bonzinhos, e completamente assexuados. Engraçado quase ninguém ter notado que a liberação absoluta do sexo fez com que o erotismo morresse. Eros vive na diferença e sem a aceitação da diferença ele se desfaz. Mas estou divagando...O Oscarolho não tem mais estrelas que nos fascinam. Apenas caras legais. Legais ao ponto de serem comuns. Vivemos a era do cara comum. Ser uma estrela cheira a fascismo, não é?
Olho para aquela plateia e vejo todos iguais. Não há individualidade. Todos comem tofu. Todos lutam pelos índios. Todos fazem filmes com belas lições de moral e de humanidade. Brad Pitt nada tem de bonzinho. Mas lá, no Oscarolho, vigiado, faz de conta que ele é tão fofo como todos os outros.
Se agradece a papai e mamãe. Se fala correndo. Se ajoelha diante de Meryl. Ninguém perde. É um mundo onde ninguém vence, apenas o Oscar vai para alguém. Como se fosse por acaso.
Sem Jack. Sem Warren. Não importa mais.
O Oscar é um prêmio da MTV para gente cinco anos mais velha. Tou fora.
Envelheci. Graças a Deus sobrevivi. E aquela gente me parece tão distante de meu mundo quanto um aborígene é distante de um inglês de 1900. Olho para seus rostos e sinto que eles são de uma outra galáxia. Nada neles me agrada. Vejo-os como bebês de foca. E eu sou um leão marinho.
Se vestem mal. São fofos, bonzinhos, e completamente assexuados. Engraçado quase ninguém ter notado que a liberação absoluta do sexo fez com que o erotismo morresse. Eros vive na diferença e sem a aceitação da diferença ele se desfaz. Mas estou divagando...O Oscarolho não tem mais estrelas que nos fascinam. Apenas caras legais. Legais ao ponto de serem comuns. Vivemos a era do cara comum. Ser uma estrela cheira a fascismo, não é?
Olho para aquela plateia e vejo todos iguais. Não há individualidade. Todos comem tofu. Todos lutam pelos índios. Todos fazem filmes com belas lições de moral e de humanidade. Brad Pitt nada tem de bonzinho. Mas lá, no Oscarolho, vigiado, faz de conta que ele é tão fofo como todos os outros.
Se agradece a papai e mamãe. Se fala correndo. Se ajoelha diante de Meryl. Ninguém perde. É um mundo onde ninguém vence, apenas o Oscar vai para alguém. Como se fosse por acaso.
Sem Jack. Sem Warren. Não importa mais.
O Oscar é um prêmio da MTV para gente cinco anos mais velha. Tou fora.
EU QUERO SER AMIGO DESSE CARA! BEAT THE DEVIL.
Uma das coisas mais chatas de 2020 é que, apesar de ainda admirarmos alguns artistas, são poucos, ou quase nenhum, que adoraríamos passar ao lado três meses de férias bancadas por eles mesmos. Admiro Tarantino, mas não teria saco pra ficar 12 semanas vendo filmes dos anos 70 e conversando sobre artes marciais. Scorsese não me parece muito divertido e Wes Anderson é do tipo que me proporia brincar com trenzinhos. Muitos passariam esses meses de férias drogados e outros em clínicas de repouso. Talvez fosse divertido passar esses meses com Coppola na sua vinícola. Ou com Clint Eastwood. Posando de cowboy em Carmel. Mas não me parecem boas companhias. Os filhos chatos de Francis Ford logo iriam encher o saco e Clint deve estar cercado de enfermeiras.
Três meses com John Huston seriam um sonho. Como era moda em seu tempo, artistas faziam coisas. Tinham a tal da "ansiedade por viver". Hoje há a tal "depressão por ter de estar vivo". John Huston criava atividades. Uma viagem ao Japão, caçar raposas na Irlanda, pescar no Pacífico, beber em Roma. Jogar em Cannes, andar pela França, ver toureiros na Espanha, nadar no Canadá. Ir em festas em Londres. E falir mais uma vez. Não importa, a vida é curta e só nos resta viver bem.
Huston pegou uma grana de seu amigo, Bogart, e foi pra Itália em 1953 fazer Beat The Devil. Chamou Humphrey e ainda a big star Jennifer Jones. Mais Peter Lorre, Gina Lollobrigida, Robert Morley e botou atrás das câmeras Oswald Morris. Chegam todos na Itália prontos pra filmar. E descobrem que não há roteiro. A grana foi gasta com bebida, comida, hotel, jogo e mulheres. Huston chama um garoto de nome Truman Capote e juntos escrevem no hotel aquilo que será filmado no dia seguinte. O trabalho começa sem roteiro. Huston e Capote dão gargalhadas enquanto imaginam um bando de mentirosos tentando dar um golpe na Africa. Algo a ver com uranio. Bogart logo percebe que sua grana foi pro ralo. Briga com Huston e a amizade se desfaz. Os outros atores, sem terem posto dinheiro na coisa, aproveitam o sol italiano. O filme é lançado, a crítica odeia e o chama de lixo mal acabado e o público foge. Nos anos 80, três décadas depois, vira cult. É um dos meus 50 filmes favoritos.
Demorou pra que eu gostasse dele. Só na quarta vez eu o aceitei. Na primeira achei-o chato. Na segunda incompreensível. Na terceira vi que era interessante. Na quarta me apaixonei. Ontem o revi. É uma festa!
Nada no filme é sério. Todos os personagens mentem uns para os outros. E Capote mais Huston mentem para os atores. A gente sente os dois rindo enquanto enrolam seus astros. É o mais malandro dos filmes. É sobre a mentira engraçada. É a alma de John Huston na tela.
Três ladrões, Morley, Lorre e Ivor Barnard. Nunca no cinema houve um trio tão lamentável. Você ri olhando para eles. Lorre finge ser irlandês. Morley finge ser esperto. Ivor finge ser humano. Bogart é empregado deles. Finge ser Bogey. Jennifer mente o tempo todo. E finge para si mesma estar apaixonada por Bogey. Gina é a mulher de Bogey. Finge ser inglesa. E Jennifer tem um marido que finge ser rico. Pegue esses tipos e faça um roteiro. Minta para os atores. Minta para o produtor. Minta para o público que for ao cinema. E se divirta muito fazendo este carnaval em preto e branco.
John Huston não foi o melhor diretor de cinema. Mas caramba! Não houve nenhum mais legal que ele.
Três meses com John Huston seriam um sonho. Como era moda em seu tempo, artistas faziam coisas. Tinham a tal da "ansiedade por viver". Hoje há a tal "depressão por ter de estar vivo". John Huston criava atividades. Uma viagem ao Japão, caçar raposas na Irlanda, pescar no Pacífico, beber em Roma. Jogar em Cannes, andar pela França, ver toureiros na Espanha, nadar no Canadá. Ir em festas em Londres. E falir mais uma vez. Não importa, a vida é curta e só nos resta viver bem.
Huston pegou uma grana de seu amigo, Bogart, e foi pra Itália em 1953 fazer Beat The Devil. Chamou Humphrey e ainda a big star Jennifer Jones. Mais Peter Lorre, Gina Lollobrigida, Robert Morley e botou atrás das câmeras Oswald Morris. Chegam todos na Itália prontos pra filmar. E descobrem que não há roteiro. A grana foi gasta com bebida, comida, hotel, jogo e mulheres. Huston chama um garoto de nome Truman Capote e juntos escrevem no hotel aquilo que será filmado no dia seguinte. O trabalho começa sem roteiro. Huston e Capote dão gargalhadas enquanto imaginam um bando de mentirosos tentando dar um golpe na Africa. Algo a ver com uranio. Bogart logo percebe que sua grana foi pro ralo. Briga com Huston e a amizade se desfaz. Os outros atores, sem terem posto dinheiro na coisa, aproveitam o sol italiano. O filme é lançado, a crítica odeia e o chama de lixo mal acabado e o público foge. Nos anos 80, três décadas depois, vira cult. É um dos meus 50 filmes favoritos.
Demorou pra que eu gostasse dele. Só na quarta vez eu o aceitei. Na primeira achei-o chato. Na segunda incompreensível. Na terceira vi que era interessante. Na quarta me apaixonei. Ontem o revi. É uma festa!
Nada no filme é sério. Todos os personagens mentem uns para os outros. E Capote mais Huston mentem para os atores. A gente sente os dois rindo enquanto enrolam seus astros. É o mais malandro dos filmes. É sobre a mentira engraçada. É a alma de John Huston na tela.
Três ladrões, Morley, Lorre e Ivor Barnard. Nunca no cinema houve um trio tão lamentável. Você ri olhando para eles. Lorre finge ser irlandês. Morley finge ser esperto. Ivor finge ser humano. Bogart é empregado deles. Finge ser Bogey. Jennifer mente o tempo todo. E finge para si mesma estar apaixonada por Bogey. Gina é a mulher de Bogey. Finge ser inglesa. E Jennifer tem um marido que finge ser rico. Pegue esses tipos e faça um roteiro. Minta para os atores. Minta para o produtor. Minta para o público que for ao cinema. E se divirta muito fazendo este carnaval em preto e branco.
John Huston não foi o melhor diretor de cinema. Mas caramba! Não houve nenhum mais legal que ele.
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