leia e escreva já!
AFTERMATH É PERFEITO.
Estas notas foram encontradas num paletó de Anthony Roxy, The Second, pai de meu amigo Anthony Roxy, The Third. Encontrei essa bela peça de vestuário, comprada em Carnaby Street nos idos de 1966, dentro de um belo baú de tiras de ferro. Paletó listrado na vertical, de linho, com um forro de seda vermelha. Segue o texto ( escrito originalmente na bela grafia de Roxy, tinta roxa, caneta tinteiro com pena de ouro ) ...
" Brian tem o estilo e Mick tem o sexo. Keith tem o rock and roll.
Brian surge em minha maison com uma blusa de seda rosa e um poá de penas brancas. Sua namorada, Anita, a Diva, se veste exatamente como ele, as mesmas cores inclusive. A calça é justa, veludo branco. Estão ultrajantemente descalços. Mick veste uma simples camiseta de marinheiro e a calça é de alfaiataria. Sapatos de fivela, vinho. Impressiona a fragilidade física de Mick, ele parece feito de vidro. Keith tenta parecer um filho de mineiros de Newcastle. Usa um velho casaco de camurça bastante sujo. As unhas estão pintadas de negro. Os 3 me trazem seu novo disco, Aftermath. Fico feliz em saber que eles não tentam se parecer com "aquela banda"suburbana que insiste em se fazer simpática. Os 3 têm um ar blasé, penso que estão escolados no estilo "nem aí" da nouvelle vague.
O disco é escutado e me parece bastante bom. Não se compara aos singles recentes, especialmente a 19th Nervous Breakdown, mas a variedade desse Aftermath me espanta. Eles conseguem cavar seu nicho. Longe da simpatia dos 4 chatos de Liverpool e sem a acidez do bardo marxista dos Kinks. Bravo!!!"
Após ler esse rascunho resolvo reouvir o LP, afinal, a BBC escolheu a duas semanas Aftermath como o melhor disco dos Stones e um dos top 5 forever...
Ele começa bastante atual. Mothers Little Helper fala das pílulas que ajudam as mães a suportar o cotidiano chato. A melodia, urgente, levada acústica, é das mais grudentas. Há algo, mínimo, de Dylan. Quem em 1966 não tinha algo de Dylan?
Aftermath é uma obra extremamente rica. É o único disco deles em que há o trabalho de Mick, Keith e Brian em doses iguais. Nenhum dos 3 estava muito drogado ou brigado. Essa colaboração tripla dá ao LP variedade e beleza. Stupid Girl fala da mais idiota das mulheres e serve para marcar posição. Enquanto os Beatles falam das musas ( Michelle e Girl ), eles desprezam a estúpida mocinha. E se Lady Jane parece romântica, e é, Under My Thumb, uma obra-prima, conta a história da menina que agora é o "mais lindo animal de estimação do mundo". A riqueza sonora: Brian usa um cravo em Lady Jane, toca xilofone em Under My Thumb. Devo ainda dizer que Mick Jagger nunca cantou tão bem como em todo este disco. Sua voz, mais grave que no futuro, raspa os ouvidos de quem escuta.
Doncha Bother Me é um blues. Slide soberbo, curta e grossa, ela prepara a majestosa entrada de Goin Home. Oh....Goin Home....Ela quebra padrões!! Dura 12 minutos, é improvisada, tem sons de um trago num baseado, e antecipa, nos improvisos vocais de Mick, tudo aquilo que Jim Morrison desenvolveria. Um acorde de guitarra anuncia o som, ele vem negro, estradeiro e depois se metamorfoseia em viagem psicodélica. Um voo se ergue.
Lado B. Flight 505. Tipo Chuck Berry. Mas com um baixo distorcido e mais velocidade. O tal voo é aquele que matou Buddy Holly. High and Dry é o primeiro country gravado pelos Stones. E portanto, é a mais Keith das faixas. Tipo de canção rápida de buteco. Bem suja, ficaria bem em Beggars Banquet. Out Of Time é um baladão para se cantar em coral. Brian arrisca um orgão de igreja. Daí vem It`s Not Easy que traz a marca da banda: riffs maravilhosos e um solo curto e objetivo. I Am Waiting é barroca. Keith e Brian fazem acordes quase religiosos nos violões e no cravo e Mick canta como em Lady Jane, como se ele fosse um Shelley renascido na Carnaby Street. Linda de sonhar, a canção é feita para o amor. Vem depois Take It Or Leave It. Canção de rádio de 1966. Bonita, simples, sincera, boa de cantar junto. Que belo cover daria em 2014 !
Think anuncia o começo do fim deste magnífico disco. E a dramática What To Do encerra com chave de diamante. Uma música que combina tristeza e raiva. Os últimos segundos do disco ecoam o futuro da banda, fel e beleza.
Aftermath é perfeito.
" Brian tem o estilo e Mick tem o sexo. Keith tem o rock and roll.
Brian surge em minha maison com uma blusa de seda rosa e um poá de penas brancas. Sua namorada, Anita, a Diva, se veste exatamente como ele, as mesmas cores inclusive. A calça é justa, veludo branco. Estão ultrajantemente descalços. Mick veste uma simples camiseta de marinheiro e a calça é de alfaiataria. Sapatos de fivela, vinho. Impressiona a fragilidade física de Mick, ele parece feito de vidro. Keith tenta parecer um filho de mineiros de Newcastle. Usa um velho casaco de camurça bastante sujo. As unhas estão pintadas de negro. Os 3 me trazem seu novo disco, Aftermath. Fico feliz em saber que eles não tentam se parecer com "aquela banda"suburbana que insiste em se fazer simpática. Os 3 têm um ar blasé, penso que estão escolados no estilo "nem aí" da nouvelle vague.
O disco é escutado e me parece bastante bom. Não se compara aos singles recentes, especialmente a 19th Nervous Breakdown, mas a variedade desse Aftermath me espanta. Eles conseguem cavar seu nicho. Longe da simpatia dos 4 chatos de Liverpool e sem a acidez do bardo marxista dos Kinks. Bravo!!!"
Após ler esse rascunho resolvo reouvir o LP, afinal, a BBC escolheu a duas semanas Aftermath como o melhor disco dos Stones e um dos top 5 forever...
Ele começa bastante atual. Mothers Little Helper fala das pílulas que ajudam as mães a suportar o cotidiano chato. A melodia, urgente, levada acústica, é das mais grudentas. Há algo, mínimo, de Dylan. Quem em 1966 não tinha algo de Dylan?
Aftermath é uma obra extremamente rica. É o único disco deles em que há o trabalho de Mick, Keith e Brian em doses iguais. Nenhum dos 3 estava muito drogado ou brigado. Essa colaboração tripla dá ao LP variedade e beleza. Stupid Girl fala da mais idiota das mulheres e serve para marcar posição. Enquanto os Beatles falam das musas ( Michelle e Girl ), eles desprezam a estúpida mocinha. E se Lady Jane parece romântica, e é, Under My Thumb, uma obra-prima, conta a história da menina que agora é o "mais lindo animal de estimação do mundo". A riqueza sonora: Brian usa um cravo em Lady Jane, toca xilofone em Under My Thumb. Devo ainda dizer que Mick Jagger nunca cantou tão bem como em todo este disco. Sua voz, mais grave que no futuro, raspa os ouvidos de quem escuta.
Doncha Bother Me é um blues. Slide soberbo, curta e grossa, ela prepara a majestosa entrada de Goin Home. Oh....Goin Home....Ela quebra padrões!! Dura 12 minutos, é improvisada, tem sons de um trago num baseado, e antecipa, nos improvisos vocais de Mick, tudo aquilo que Jim Morrison desenvolveria. Um acorde de guitarra anuncia o som, ele vem negro, estradeiro e depois se metamorfoseia em viagem psicodélica. Um voo se ergue.
Lado B. Flight 505. Tipo Chuck Berry. Mas com um baixo distorcido e mais velocidade. O tal voo é aquele que matou Buddy Holly. High and Dry é o primeiro country gravado pelos Stones. E portanto, é a mais Keith das faixas. Tipo de canção rápida de buteco. Bem suja, ficaria bem em Beggars Banquet. Out Of Time é um baladão para se cantar em coral. Brian arrisca um orgão de igreja. Daí vem It`s Not Easy que traz a marca da banda: riffs maravilhosos e um solo curto e objetivo. I Am Waiting é barroca. Keith e Brian fazem acordes quase religiosos nos violões e no cravo e Mick canta como em Lady Jane, como se ele fosse um Shelley renascido na Carnaby Street. Linda de sonhar, a canção é feita para o amor. Vem depois Take It Or Leave It. Canção de rádio de 1966. Bonita, simples, sincera, boa de cantar junto. Que belo cover daria em 2014 !
Think anuncia o começo do fim deste magnífico disco. E a dramática What To Do encerra com chave de diamante. Uma música que combina tristeza e raiva. Os últimos segundos do disco ecoam o futuro da banda, fel e beleza.
Aftermath é perfeito.
CONTOS REUNIDOS DE VLADIMIR NABOKOV
Estou mergulhado e enfeitiçado nas 800 páginas de CONTOS REUNIDOS do mago esteta Vladimir Nabokov. Li as primeiras 200 páginas. Elas correspondem a seus primeiros contos, escritos na Alemanha e na Inglaterra, por volta de 1924. Um jovem de 25 anos portanto. E quanta invenção, quanta sensibilidade e melhor que tudo, já nascente, seu dom de unir humor a drama e dar pinceladas de sobrenatural e de inefabilidade à vida cotidiana. Sentimos toques de invisível. Como borboletas, como metamorfoses, como folhas que não se consegue ver.
Li 15 contos até agora. Não há um só que seja menos que ótimo. E alguns têm a marca de genialidade refulgente. Pegue NATAL por exemplo. Fala da morte de um filho. E de um pai que sofre sozinho. Em apenas 5 páginas Nabokov nos faz quase ver Deus em nossa frente. Raramente li alguma coisa mais bem acabada, bem construída, matematicamente precisa. À beira da morte nasce um lembrete. Não, não posso contar o final. O que posso dizer é que ele entra na muito restrita conta de meus contos favoritos. Eu daria tudo para escrever alguma coisa como essa.
Mas temos também A VENEZIANA. Esse é uma aula de surpresas plantadas, de clima estranho, de suspense e de beleza. Fala de um quadro, uma esposa e um jovem tímido. Perfeito. Há ainda BATER DE ASAS, um conto assustador, feio, sujo e bastante pessimista em seus erros denunciados. DETALHES DE UM PÔR DO SOL, outra perfeição, narrativa que se desenrola como música, harmoniosa e sempre surpreendente.
Ler Nabokov é um prazer que descobri aos 48 anos. Todos sabem que meu autor favorito, em prosa, é desde os 38 anos, Henry James, mas Nabokov escreve exatamente aquilo que eu gostaria de escrever se tivesse talento. Vladimir é vasto e ao mesmo tempo pequeno. Seu humor reside na sombra, em meio ao Kaos, no cerne da dor. As descrições nos fazem ver e quase sentir o cheiros das coisas. E os personagens vivem, mesmo quando descritos em apenas 3 linhas. Um mestre.
Lerei o resto lentamente. Lê-lo é como beber um Porto. Em pequenos goles, usufruindo do momento, da cor.
Li 15 contos até agora. Não há um só que seja menos que ótimo. E alguns têm a marca de genialidade refulgente. Pegue NATAL por exemplo. Fala da morte de um filho. E de um pai que sofre sozinho. Em apenas 5 páginas Nabokov nos faz quase ver Deus em nossa frente. Raramente li alguma coisa mais bem acabada, bem construída, matematicamente precisa. À beira da morte nasce um lembrete. Não, não posso contar o final. O que posso dizer é que ele entra na muito restrita conta de meus contos favoritos. Eu daria tudo para escrever alguma coisa como essa.
Mas temos também A VENEZIANA. Esse é uma aula de surpresas plantadas, de clima estranho, de suspense e de beleza. Fala de um quadro, uma esposa e um jovem tímido. Perfeito. Há ainda BATER DE ASAS, um conto assustador, feio, sujo e bastante pessimista em seus erros denunciados. DETALHES DE UM PÔR DO SOL, outra perfeição, narrativa que se desenrola como música, harmoniosa e sempre surpreendente.
Ler Nabokov é um prazer que descobri aos 48 anos. Todos sabem que meu autor favorito, em prosa, é desde os 38 anos, Henry James, mas Nabokov escreve exatamente aquilo que eu gostaria de escrever se tivesse talento. Vladimir é vasto e ao mesmo tempo pequeno. Seu humor reside na sombra, em meio ao Kaos, no cerne da dor. As descrições nos fazem ver e quase sentir o cheiros das coisas. E os personagens vivem, mesmo quando descritos em apenas 3 linhas. Um mestre.
Lerei o resto lentamente. Lê-lo é como beber um Porto. Em pequenos goles, usufruindo do momento, da cor.
STALLONE/ CARY GRANT/ SCARLETT/ ALAIN DELON/ DEPP/ KIDMAN
DIÁRIO DE UM JORNALISTA BÊBADO de Bruce Robinson com Johnny Depp
Muito, muito ruim. Depp está numa ilha do Caribe. Décadas atrás. Ele bebe, trabalha em jornal tosco, se envolve com bando de corruptos que pretende lotear a praia e ama a garota de figurão. Isso tudo, diz o filme, é baseado em Hunter Thompson. Onde? Uma chatice. Nota ZERO.
HEMINGUAY E MARTHA de Philip Kaufman com Nicole Kidman, Clive Owen e James Gandolfini
Esqueça a fidelidade histórica. Este não é Heminguay! Clive se esforça, mas o filme retrata Papa Heminguay como um alcoólatra meio chato, meio machista e nada verossímil. De qualquer modo o filme é dirigido para a personagem Martha Gelhorn, a terceira mulher do escritor e talvez a que ele menos entendeu. Uma jornalista forte e dura, mas não tão maior que Ernest Heminguay. O filme, feminista, pinta Martha como espiritualmente mais dotada que o escritor...bobagem! De qualquer modo é emocionante a recriação da revolução espanhola. O filme deveria ser só sobre isso, a guerra civil da Espanha. São momentos de grande cinema. Inclusive com a recriação das filmagens do grande Joris Ivens e de um tal de Capa perambulando por lá. Claro que Capa não era tão garoto, mas é sempre legal ver isso. Kaufman um dia fez uma obra-prima, Os Eleitos ( the right stuff ), baseado em Tom Wolfe. Depois fez a insustentável levez do ser, um belo filme, e o interessante henry e june. Como se vê, o interesse desse ex assistente de Clint Eastwood é a cultura, a boa cultura. Isso faz com que em seu pior ele seja muito pedante. Como aqui. De qualquer modo, na média o filme é ok. Nota 6.
A PISCINA de Jacques Deray com Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin
Quer saber o que seja o chic francês? Veja este filme. Ele repete a dupla masculina de o sol por testemunha e quase consegue atingir o alto nível da obra de René Clement. A história: um casal recebe a visita de um amigo. Ele vem com a filha. Forma-se a tensão. Todo filmado numa casa de campo, o chic de que falei não se mostra na casa ou nas roupas, ele existe nos corpos, nas cores, no modo como o filme é conduzido. Deray dirige matematicamente. Tudo cronometrado, exato. Devagar, mais rápido, devagar, súbito. Uma delicia de filme, um terço final inesperado e um Alain Delon no auge de seu carisma. Nota 8.
RED HEADED WOMAN de Jack Conway com Jean Harlow
Um filme impudico dos anos 30. Jean é uma secretária que seduz o patrão para ficar rica. Consegue e casa com ele. Depois seduz um outro mais rico. Consegue. E por aí vai. Nada moralista, bem dirigido, curto, foi um sucesso mas não é um grande filme. Ele tem humor, mas nunca grande humor. No mais, Jean Harlow, que foi um sex symbol famosíssimo na época, e que morreu jovem de uma apendicite, é das grandes estrelas da época a que envelheceu pior. Ainda conseguimos entender o porque da fama de Garbo e de Marlene, ainda sentimos a força de Kate e de Bette Davis, além do que Myrna Loy e Carole Lombard estão incólumes em 2014, mas Jean Harlow não. Ela parece muito antiquada. Seu apelo se foi. De qualquer modo é um filme razoável. Nota 5.
ANÁGUAS A BORDO de Blake Edwards com Cary Grant e Tony Curtis
Foi um grande sucesso em 1960. O primeiro grande sucesso de Blake, que faria na sequência breakfast at Tiffanys e a série da pantera cor de rosa. Foi mais um grande sucesso de Cary Grant, que aqui provava ainda ser uma estrela, e foi a confirmação de Tony Curtis, o novo Cary Grant que nunca deu completamente certo. Fala de um submarino na segunda-guerra. Uma sucata que é reformada pela tripulação e que depois dá carona a um grupo de mulheres marujas. Uma comédia agradável, mas não mais hilariante. De qualquer modo vemos excelentes atores ( Cary é hors concours ), um clima de alto astral e boa direção. Nota 7.
SOB A PELE de Jonathan Glazer com Scarlett Johansson
Scarlet é linda de doer. E a nudez anunciada é pudica. O filme não tem como ser pior. Me lembrou o filme de Nicolas Roeg, o homem que caiu na terra, aquele com David Bowie. Mas este é bem mais chato e vazio. Tudo nele transpira e anuncia: arte. Uma gororoba pretensiosa de quem sonha em ser Kubrick e mal pode lamber as botas de John Carpenter. Fuja! ZEEEEEEEROOOOOOO!
AJUSTE DE CONTAS de Peter Segal com Stallone, Robert de Niro, Alan Arkin e Kim Basinger
De Niro é um ex-boxeador convencido e fanfarrão, Sly é seu ex-rival, um cara modesto que quer esquecer o passado. Kim Basinger, ainda bonita, é a mulher que dividiu os dois. Uma revanche é marcada. O filme é absolutamente tolo. Nada faz o menor sentido. Mas há algo de bom, os atores levam tudo no bom-humor, Eles não levam o filme a sério também. Dá pra ver em video, como alguma coisa pra se ver antes do jantar. Não ofende e não dá pra lembrar de nada depois de dois dias. Nota 5.
OS MERCENÁRIOS 3 de Patrick Hughes com Stallone, Mel Gibson, Harrison Ford, Antonio Banderas, Jason Statham, Wesley Snipes, Schwarzenegger...
Imagina esse elenco em 1994!!! Há um erro aqui, a graça razoável dos dois primeiros estava no trabalho em equipe. Mas aqui Sly faz quase tudo sozinho! É uma exibição narcisista que relembra o Sly descontrolado dos anos 80. O filme não é ruim em seu gênero, mas ele nada tem que nos faça torcer. Mel Gibson quase rouba o filme como um odioso bandido. Nota 3.
Muito, muito ruim. Depp está numa ilha do Caribe. Décadas atrás. Ele bebe, trabalha em jornal tosco, se envolve com bando de corruptos que pretende lotear a praia e ama a garota de figurão. Isso tudo, diz o filme, é baseado em Hunter Thompson. Onde? Uma chatice. Nota ZERO.
HEMINGUAY E MARTHA de Philip Kaufman com Nicole Kidman, Clive Owen e James Gandolfini
Esqueça a fidelidade histórica. Este não é Heminguay! Clive se esforça, mas o filme retrata Papa Heminguay como um alcoólatra meio chato, meio machista e nada verossímil. De qualquer modo o filme é dirigido para a personagem Martha Gelhorn, a terceira mulher do escritor e talvez a que ele menos entendeu. Uma jornalista forte e dura, mas não tão maior que Ernest Heminguay. O filme, feminista, pinta Martha como espiritualmente mais dotada que o escritor...bobagem! De qualquer modo é emocionante a recriação da revolução espanhola. O filme deveria ser só sobre isso, a guerra civil da Espanha. São momentos de grande cinema. Inclusive com a recriação das filmagens do grande Joris Ivens e de um tal de Capa perambulando por lá. Claro que Capa não era tão garoto, mas é sempre legal ver isso. Kaufman um dia fez uma obra-prima, Os Eleitos ( the right stuff ), baseado em Tom Wolfe. Depois fez a insustentável levez do ser, um belo filme, e o interessante henry e june. Como se vê, o interesse desse ex assistente de Clint Eastwood é a cultura, a boa cultura. Isso faz com que em seu pior ele seja muito pedante. Como aqui. De qualquer modo, na média o filme é ok. Nota 6.
A PISCINA de Jacques Deray com Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin
Quer saber o que seja o chic francês? Veja este filme. Ele repete a dupla masculina de o sol por testemunha e quase consegue atingir o alto nível da obra de René Clement. A história: um casal recebe a visita de um amigo. Ele vem com a filha. Forma-se a tensão. Todo filmado numa casa de campo, o chic de que falei não se mostra na casa ou nas roupas, ele existe nos corpos, nas cores, no modo como o filme é conduzido. Deray dirige matematicamente. Tudo cronometrado, exato. Devagar, mais rápido, devagar, súbito. Uma delicia de filme, um terço final inesperado e um Alain Delon no auge de seu carisma. Nota 8.
RED HEADED WOMAN de Jack Conway com Jean Harlow
Um filme impudico dos anos 30. Jean é uma secretária que seduz o patrão para ficar rica. Consegue e casa com ele. Depois seduz um outro mais rico. Consegue. E por aí vai. Nada moralista, bem dirigido, curto, foi um sucesso mas não é um grande filme. Ele tem humor, mas nunca grande humor. No mais, Jean Harlow, que foi um sex symbol famosíssimo na época, e que morreu jovem de uma apendicite, é das grandes estrelas da época a que envelheceu pior. Ainda conseguimos entender o porque da fama de Garbo e de Marlene, ainda sentimos a força de Kate e de Bette Davis, além do que Myrna Loy e Carole Lombard estão incólumes em 2014, mas Jean Harlow não. Ela parece muito antiquada. Seu apelo se foi. De qualquer modo é um filme razoável. Nota 5.
ANÁGUAS A BORDO de Blake Edwards com Cary Grant e Tony Curtis
Foi um grande sucesso em 1960. O primeiro grande sucesso de Blake, que faria na sequência breakfast at Tiffanys e a série da pantera cor de rosa. Foi mais um grande sucesso de Cary Grant, que aqui provava ainda ser uma estrela, e foi a confirmação de Tony Curtis, o novo Cary Grant que nunca deu completamente certo. Fala de um submarino na segunda-guerra. Uma sucata que é reformada pela tripulação e que depois dá carona a um grupo de mulheres marujas. Uma comédia agradável, mas não mais hilariante. De qualquer modo vemos excelentes atores ( Cary é hors concours ), um clima de alto astral e boa direção. Nota 7.
SOB A PELE de Jonathan Glazer com Scarlett Johansson
Scarlet é linda de doer. E a nudez anunciada é pudica. O filme não tem como ser pior. Me lembrou o filme de Nicolas Roeg, o homem que caiu na terra, aquele com David Bowie. Mas este é bem mais chato e vazio. Tudo nele transpira e anuncia: arte. Uma gororoba pretensiosa de quem sonha em ser Kubrick e mal pode lamber as botas de John Carpenter. Fuja! ZEEEEEEEROOOOOOO!
AJUSTE DE CONTAS de Peter Segal com Stallone, Robert de Niro, Alan Arkin e Kim Basinger
De Niro é um ex-boxeador convencido e fanfarrão, Sly é seu ex-rival, um cara modesto que quer esquecer o passado. Kim Basinger, ainda bonita, é a mulher que dividiu os dois. Uma revanche é marcada. O filme é absolutamente tolo. Nada faz o menor sentido. Mas há algo de bom, os atores levam tudo no bom-humor, Eles não levam o filme a sério também. Dá pra ver em video, como alguma coisa pra se ver antes do jantar. Não ofende e não dá pra lembrar de nada depois de dois dias. Nota 5.
OS MERCENÁRIOS 3 de Patrick Hughes com Stallone, Mel Gibson, Harrison Ford, Antonio Banderas, Jason Statham, Wesley Snipes, Schwarzenegger...
Imagina esse elenco em 1994!!! Há um erro aqui, a graça razoável dos dois primeiros estava no trabalho em equipe. Mas aqui Sly faz quase tudo sozinho! É uma exibição narcisista que relembra o Sly descontrolado dos anos 80. O filme não é ruim em seu gênero, mas ele nada tem que nos faça torcer. Mel Gibson quase rouba o filme como um odioso bandido. Nota 3.
RINGO, UM DISCO DE RINGO STARR
Houve um breve período, entre 1972-1974, em que Ringo gravou a sério e em que ele quase conseguiu ser levado em conta. Seus 3 discos dessa época são memoráveis, e este, o segundo do período, é o melhor. Sucesso em vendas, com singles que estouraram, RINGO é um grande disco pop. Para fazê-lo Ringo recebeu uma ajudazinha de alguns amigos.
I Am The Greatest abre o LP, e é ótima! Composta por Lennon, tem uma maravilhosa guitarra de George Harrison. Na verdade George tem aqui um de seus melhores solos de toda a vida. É um terço dos Beatles nesta faixa. E Klaus Voorman, que fez a capa de Revolver comparece no baixo. Have You Seen My Baby foi composta por Randy Newman. Randy hoje é o cara que faz as ótimas trilhas de desenhos como Monstros, Up! e Wall E. Melhor, a guitarra é tocada pelo grande amigo de Ringo na época, Marc Bolan, do T.Rex. O riff é cem por cento Bolan.
George Harrison compôs Photograph e ela é uma das melhores coisas que ele fez na vida. Os vocais unem os dois e a melodia é lindíssima. O sax fica com Bobby Keys, dos Stones. Sunshine também é de George e mantém o alto nível. Além de George temos Robbie Robertson na outra guitarra, Rick Danko no violino e Garth Hudson no teclado...Todos os 3 são da The Band. Talvez seja a melhor faixa do álbum. Clima de J J Cale. O lado A fecha com You`re Sixteen, mais ou menos.
Oh My My foi um big hit como single. Saltitante, dançante, traz Billy Preston no orgão. Uma linha de baixo excelente de Klaus. Step Lightley tem o mito Steve Cropper na guitarra. Steve foi o cara que acompanhou Aretha, Otis e Wilson Pickett na Stax. A faixa, sutil, puro Cropper, é viciante. Six O`Clock é uma composição de Paul MacCartney e tem Linda e seu esposo nos teclados e vocais de apoio. Puro Paul anos 70, grudenta, bem arranjada, ela pede vocais melhores. Paul, ao contrário de John e de George, não compunha para cantores ruins. Ringo faz a canção se perder. Devil Woman é o ponto baixo e o disco se encerra com a terceira faixa de George, a bonita You and Me.
Tudo super produzido por Richard Perry, no vinyl ele trazia um livreto de 12 páginas e uma capa que, cheia de detalhes, se perde completamente em cd.
Sim, Ringo caiu de paraquedas no maior fenômeno pop da história. Surfou na fama por 3 anos, logo após o fim do grupo. E a partir de 74 se dedicou a beber, viajar e namorar. Algum talento ele tinha. E aqui, com a mão de amigos muito talentosos, ele comete um belo disco.
Jamais pensei que escreveria sobre este LP. Mas eu adorei este disco por vários anos e ele, reescutado agora, sobreviveu.
Valeu.
I Am The Greatest abre o LP, e é ótima! Composta por Lennon, tem uma maravilhosa guitarra de George Harrison. Na verdade George tem aqui um de seus melhores solos de toda a vida. É um terço dos Beatles nesta faixa. E Klaus Voorman, que fez a capa de Revolver comparece no baixo. Have You Seen My Baby foi composta por Randy Newman. Randy hoje é o cara que faz as ótimas trilhas de desenhos como Monstros, Up! e Wall E. Melhor, a guitarra é tocada pelo grande amigo de Ringo na época, Marc Bolan, do T.Rex. O riff é cem por cento Bolan.
George Harrison compôs Photograph e ela é uma das melhores coisas que ele fez na vida. Os vocais unem os dois e a melodia é lindíssima. O sax fica com Bobby Keys, dos Stones. Sunshine também é de George e mantém o alto nível. Além de George temos Robbie Robertson na outra guitarra, Rick Danko no violino e Garth Hudson no teclado...Todos os 3 são da The Band. Talvez seja a melhor faixa do álbum. Clima de J J Cale. O lado A fecha com You`re Sixteen, mais ou menos.
Oh My My foi um big hit como single. Saltitante, dançante, traz Billy Preston no orgão. Uma linha de baixo excelente de Klaus. Step Lightley tem o mito Steve Cropper na guitarra. Steve foi o cara que acompanhou Aretha, Otis e Wilson Pickett na Stax. A faixa, sutil, puro Cropper, é viciante. Six O`Clock é uma composição de Paul MacCartney e tem Linda e seu esposo nos teclados e vocais de apoio. Puro Paul anos 70, grudenta, bem arranjada, ela pede vocais melhores. Paul, ao contrário de John e de George, não compunha para cantores ruins. Ringo faz a canção se perder. Devil Woman é o ponto baixo e o disco se encerra com a terceira faixa de George, a bonita You and Me.
Tudo super produzido por Richard Perry, no vinyl ele trazia um livreto de 12 páginas e uma capa que, cheia de detalhes, se perde completamente em cd.
Sim, Ringo caiu de paraquedas no maior fenômeno pop da história. Surfou na fama por 3 anos, logo após o fim do grupo. E a partir de 74 se dedicou a beber, viajar e namorar. Algum talento ele tinha. E aqui, com a mão de amigos muito talentosos, ele comete um belo disco.
Jamais pensei que escreveria sobre este LP. Mas eu adorei este disco por vários anos e ele, reescutado agora, sobreviveu.
Valeu.
A HISTÓRIA DO MUNDO DO OCIDENTE ( QUEM DISSE QUE O ORIENTE É MELHOR ).
Povo. Entre eles nascem histórias. E fofocas. Que se espalham. Havia uma caixa de onde o sol saiu. Houve um deus que comeu seus filhos. Somos o sonho de um príncipe. Mitos, lendas, heróis, deuses, explicações. Eles nascem sem parar.
Ao mesmo tempo surgem uns poucos dentre poucos. Que perguntam e não inventam. Nasce a filosofia. Com uma diferença absoluta daquilo que entendemos hoje por filosofia: ela não discute a religião do povo. A aceita como ponto pacífico. A filosofia investiga a matéria e apenas a matéria. E acaba por pressentir aquilo que os mitos já sabiam: somos estrangeiros.
O que nos alucina não é o fato de um macaco ter algo de parecido conosco. Não é o fato de um olhar de cão poder revelar amizade ou companheirismo "quase humano". O que nos deixa aturdidos é o quanto estamos distantes dos animais. Se macacos usam gravetos para comer ou choram seus mortos, jamais os veremos honrar um deus macaco ou parar para estudar uma colônia de vespas. E aí mora uma diferença intransponível: os bichos são o máximo do pragmatismo, nós somos o extremo do anti-pragmatismo.
Um animal vive para ficar vivo. Come quando tem comida, dorme quando tem sono e defeca ao ter vontade. Cruza com a fêmea que o aceitar. Não abstrai, não delega, não se perde em divagações. Pois o simples fato de alguém pensar no pragmatismo já revela um espírito pouco pragmático. Animais estão em casa. Homens nunca. E é ilusão pensar que foi o progresso ou a ciência que nos tirou do centro do conforto terrestre. Nunca estivemos em casa. O mais primitivo dos homens cria seus mitos para explicar seu desconforto. O mais antigo dos homens olha o mundo de fora, o observa, o estuda, modifica o meio, tenta se adaptar. Não existe homem sem criatividade, o trabalho para tentar fazer do meio algo que seja dele. Um bicho nasce sendo de seu meio. Ele não sonha com outro mundo. Ele está sempre onde deve estar, na Terra.
Quando pensamos num ET pensamos num irmão.
Uma sociedade começa a decair quando o povo deixa de produzir histórias. Quando o desejo de explicar é ocupado pelo desejo de gozar. Intelectuais podem falar e falar, criar milhares de teorias, mas o homem se perde quando desiste de seus mitos, de sua religião e de sua estranheza. Tornar-se um bicho ou ser um Homem-Livre, duas metas que levam ao vazio.
O homem-livre seria um homem só. Mesmo em meio a ações em grupo, ele sempre seria só com sua filosofia e sua vontade. E um homem-bicho, feito de instintos e pragmatismo seria menos que um homem, seria um alienado. Um aleijado.
Tudo isto é o centro do Homem Eterno, excelente livro de Chesterton que procura resumir a história mental da Europa. No final ele, sempre um ex-ateu, católico militante, imagina o que seria a Europa sem o cristianismo. Uma colcha de retalhos. Uma espécie de India com milhares de religiões, milhões de mitos, línguas e povos dispersos, e como no Oriente, tomados de absoluta passividade. Pois não há a menor dúvida de que apesar de sua beleza poética, budismo, bramanismo, zoroastrismo assim como as religiões romana e grega convidam a negação do mundo real. Todas falam que o mundo é ou um sonho ruim ou um teatro onde os deuses comandam o destino de todos. Será o cristianismo a primeira religião a aceitar o mundo como real e eterno, a vida como boa e ruim, e o homem como dono de seu destino. Esses 3 novos pensamentos fazem do caldeirão pagão europeu aquilo que chamamos de mundo ocidental. Essa filosofia da ação, da militância, do agir no real, será compartilhada pelo Islã, fé que Chesterton respeita muito por ver nela uma irmã.
Não se iludam. Não pensem que nosso mundo foi criado por um filósofo grego, um poeta espanhol ou um rei eslavo. Nosso mundo é criação de dois mil anos de pregadores em ação, repetindo a mesma lei, convertendo, irmanando e criando o mundo da Palavra na Palavra e através da Palavra. O mundo da escrita, do livro, do sermão, do púlpito e do trabalho sem fim.
Ao mesmo tempo surgem uns poucos dentre poucos. Que perguntam e não inventam. Nasce a filosofia. Com uma diferença absoluta daquilo que entendemos hoje por filosofia: ela não discute a religião do povo. A aceita como ponto pacífico. A filosofia investiga a matéria e apenas a matéria. E acaba por pressentir aquilo que os mitos já sabiam: somos estrangeiros.
O que nos alucina não é o fato de um macaco ter algo de parecido conosco. Não é o fato de um olhar de cão poder revelar amizade ou companheirismo "quase humano". O que nos deixa aturdidos é o quanto estamos distantes dos animais. Se macacos usam gravetos para comer ou choram seus mortos, jamais os veremos honrar um deus macaco ou parar para estudar uma colônia de vespas. E aí mora uma diferença intransponível: os bichos são o máximo do pragmatismo, nós somos o extremo do anti-pragmatismo.
Um animal vive para ficar vivo. Come quando tem comida, dorme quando tem sono e defeca ao ter vontade. Cruza com a fêmea que o aceitar. Não abstrai, não delega, não se perde em divagações. Pois o simples fato de alguém pensar no pragmatismo já revela um espírito pouco pragmático. Animais estão em casa. Homens nunca. E é ilusão pensar que foi o progresso ou a ciência que nos tirou do centro do conforto terrestre. Nunca estivemos em casa. O mais primitivo dos homens cria seus mitos para explicar seu desconforto. O mais antigo dos homens olha o mundo de fora, o observa, o estuda, modifica o meio, tenta se adaptar. Não existe homem sem criatividade, o trabalho para tentar fazer do meio algo que seja dele. Um bicho nasce sendo de seu meio. Ele não sonha com outro mundo. Ele está sempre onde deve estar, na Terra.
Quando pensamos num ET pensamos num irmão.
Uma sociedade começa a decair quando o povo deixa de produzir histórias. Quando o desejo de explicar é ocupado pelo desejo de gozar. Intelectuais podem falar e falar, criar milhares de teorias, mas o homem se perde quando desiste de seus mitos, de sua religião e de sua estranheza. Tornar-se um bicho ou ser um Homem-Livre, duas metas que levam ao vazio.
O homem-livre seria um homem só. Mesmo em meio a ações em grupo, ele sempre seria só com sua filosofia e sua vontade. E um homem-bicho, feito de instintos e pragmatismo seria menos que um homem, seria um alienado. Um aleijado.
Tudo isto é o centro do Homem Eterno, excelente livro de Chesterton que procura resumir a história mental da Europa. No final ele, sempre um ex-ateu, católico militante, imagina o que seria a Europa sem o cristianismo. Uma colcha de retalhos. Uma espécie de India com milhares de religiões, milhões de mitos, línguas e povos dispersos, e como no Oriente, tomados de absoluta passividade. Pois não há a menor dúvida de que apesar de sua beleza poética, budismo, bramanismo, zoroastrismo assim como as religiões romana e grega convidam a negação do mundo real. Todas falam que o mundo é ou um sonho ruim ou um teatro onde os deuses comandam o destino de todos. Será o cristianismo a primeira religião a aceitar o mundo como real e eterno, a vida como boa e ruim, e o homem como dono de seu destino. Esses 3 novos pensamentos fazem do caldeirão pagão europeu aquilo que chamamos de mundo ocidental. Essa filosofia da ação, da militância, do agir no real, será compartilhada pelo Islã, fé que Chesterton respeita muito por ver nela uma irmã.
Não se iludam. Não pensem que nosso mundo foi criado por um filósofo grego, um poeta espanhol ou um rei eslavo. Nosso mundo é criação de dois mil anos de pregadores em ação, repetindo a mesma lei, convertendo, irmanando e criando o mundo da Palavra na Palavra e através da Palavra. O mundo da escrita, do livro, do sermão, do púlpito e do trabalho sem fim.
NATAL EM AGOSTO ( LENDO CHESTERTON )
A maior das revoluções veio. Um Deus nasce como homem. Eis a primeira inversão. A segunda é esta, nasce sem estrondo, nasce discreto, pobre, filho da base social. O triângulo se inverte: Deus vem de baixo e não do alto.
Com isso surgem mais coisas inéditas. Uma criança é sagrada, uma criança é Deus. E se ela é Deus ela é filho e Pai de sua mãe. Ao mesmo tempo. E Ela será uma criança-criança, crescerá como homem, terá brinquedos, aprenderá brincadeiras, irá comer e irá sonhar. Só aqui encontramos várias revoluções. Pela primeira vez o pobre é protagonista. Pela primeira vez uma criança é Deus. E pela primeira vez a história se faz entre os mais humildes, aqueles que ninguém vê.
Ao mesmo tempo 3 reis magos vêm vê-lo. São 3 filósofos em busca da sabedoria. Cruzam terras na ânsia de encontrar a Resposta. E o que encontram é uma caverna, palha, animais e um casal pobre e renegado. E no centro do mistério um bebê. Se ajoelham porque os 3 percebem. O mundo de Pã está morto. Já havia ocorrido a queda da bela mitologia romana, aquela do Lar, e já nascera a mitologia romana do mal, a que sacrificava humanos e exaltava a crueldade e a luxúria. Essa morria naquela caverna. O mundo tinha seu recomeço. O mundo é aquela criança.
A partir dali nunca mais se mataria com alegria. Nunca mais se louvaria o mal de modo inconsciente. Nunca mais se olharia um pobre como uma coisa. Sim, o mal vive até hoje, luta por vencer, mas ele encontrou seu adversário, seu oposto. O mal hoje sabe que é Mal. Antes o mal era o mal sem juízo ou culpa. Bem ou mal eram uma coisa só. Sacrifícios humanos, escravos, quem se importava?
Passamos a sentir a dor de uma criança que morre de fome. Isso era inédito. Pois nem a crença no mundo como uma ilusão budista, e nem o confucionismo, com seu respeito aos mortos e a disciplina, duas belas filosofias mais antigas que o Bebê, nenhuma delas dava qualquer atenção para a criança faminta ou ao pastor doente. Nobres, bons, mas distantes.
O Deus na caverna trouxe a Divindade ao mundo da matéria. Deus podia ser visto como homem. Estava aqui, entre nós, nos olhando, nos dando conselhos, sofrendo voluntariamente entre nossas dores.
Nessa minha explanação, tirada do belíssimo livro de Chesterton, O HOMEM ETERNO, há material para dois mil anos de teses e de filosofias. Toda essa inversão de valores, todo esse modo novo de sentir a vida foi a maior das revoluções. E todas as que vieram depois, humanas, feita por crentes ou por ateus, tiveram sempre a ansiedade de repetir a cena do menino nascido numa caverna. Zerar a história, trazer ao centro os mais desprezados, irmanar e comungar, vencer o mal.
Somos, nós ocidentais, todos cristãos. Mesmo aqueles que odeiam o cristianismo. Porque todos nascemos naquela caverna. Vemos o mundo daquele modo e nos sentimos culpados ao fazer o mal. Matar, roubar, judiar, nunca mais foi ato de alegria inconsciente.
Isso tudo é o Natal. O dia em que o mínimo se transformou em mais.
( Mas existe O MAL. E sobre isso escrevo outro dia. )
Com isso surgem mais coisas inéditas. Uma criança é sagrada, uma criança é Deus. E se ela é Deus ela é filho e Pai de sua mãe. Ao mesmo tempo. E Ela será uma criança-criança, crescerá como homem, terá brinquedos, aprenderá brincadeiras, irá comer e irá sonhar. Só aqui encontramos várias revoluções. Pela primeira vez o pobre é protagonista. Pela primeira vez uma criança é Deus. E pela primeira vez a história se faz entre os mais humildes, aqueles que ninguém vê.
Ao mesmo tempo 3 reis magos vêm vê-lo. São 3 filósofos em busca da sabedoria. Cruzam terras na ânsia de encontrar a Resposta. E o que encontram é uma caverna, palha, animais e um casal pobre e renegado. E no centro do mistério um bebê. Se ajoelham porque os 3 percebem. O mundo de Pã está morto. Já havia ocorrido a queda da bela mitologia romana, aquela do Lar, e já nascera a mitologia romana do mal, a que sacrificava humanos e exaltava a crueldade e a luxúria. Essa morria naquela caverna. O mundo tinha seu recomeço. O mundo é aquela criança.
A partir dali nunca mais se mataria com alegria. Nunca mais se louvaria o mal de modo inconsciente. Nunca mais se olharia um pobre como uma coisa. Sim, o mal vive até hoje, luta por vencer, mas ele encontrou seu adversário, seu oposto. O mal hoje sabe que é Mal. Antes o mal era o mal sem juízo ou culpa. Bem ou mal eram uma coisa só. Sacrifícios humanos, escravos, quem se importava?
Passamos a sentir a dor de uma criança que morre de fome. Isso era inédito. Pois nem a crença no mundo como uma ilusão budista, e nem o confucionismo, com seu respeito aos mortos e a disciplina, duas belas filosofias mais antigas que o Bebê, nenhuma delas dava qualquer atenção para a criança faminta ou ao pastor doente. Nobres, bons, mas distantes.
O Deus na caverna trouxe a Divindade ao mundo da matéria. Deus podia ser visto como homem. Estava aqui, entre nós, nos olhando, nos dando conselhos, sofrendo voluntariamente entre nossas dores.
Nessa minha explanação, tirada do belíssimo livro de Chesterton, O HOMEM ETERNO, há material para dois mil anos de teses e de filosofias. Toda essa inversão de valores, todo esse modo novo de sentir a vida foi a maior das revoluções. E todas as que vieram depois, humanas, feita por crentes ou por ateus, tiveram sempre a ansiedade de repetir a cena do menino nascido numa caverna. Zerar a história, trazer ao centro os mais desprezados, irmanar e comungar, vencer o mal.
Somos, nós ocidentais, todos cristãos. Mesmo aqueles que odeiam o cristianismo. Porque todos nascemos naquela caverna. Vemos o mundo daquele modo e nos sentimos culpados ao fazer o mal. Matar, roubar, judiar, nunca mais foi ato de alegria inconsciente.
Isso tudo é o Natal. O dia em que o mínimo se transformou em mais.
( Mas existe O MAL. E sobre isso escrevo outro dia. )
O HOMEM ETERNO- G.K. CHESTERTON
Será que se de nosso tempo restassem para o futuro apenas as pinturas de Picasso, as pessoas do ano 3000 pensariam que em 2014 todos se vestiam, se pintavam e eram como as caras e corpos das obras do espanhol ? E mais sinistro seria se elas imaginassem que os restos da Torre Eiffel tivessem um simbolismo além daquilo que ela é, simples beleza e exibição de riqueza. Porque imaginar que as pinturas numa caverna pré-histórica sejam mais que aquilo que são: belos desenhos. Talvez uma brincadeira, desenhos feitos para matar o tempo, embelezamento, arte pura e simples.
Olhamos os rostos das pinturas egipcias e achamos que eles tinham as caras que estão lá representadas. Porque? Aquilo é representação, ou alguém em 2014 tem a cara do Wolverine? A questão é, o que sabemos sobre os homens do passado? Quase nada.
E o melhor, segundo Chesterton, seria pensar neles como aquilo que são com certeza, Humanos. Desde sempre humanos, como eu e como voce.
Então vamos parar com essa tolice de imaginar que o homem que criou a roda era um quase-fera que grunhia e criava sem querer. Ele era um homem que pensava. Curioso, pegava coisas e as experimentava. Pesquisava. Tentava. Era, como nós, um criador. E ria. Se divertia. Tinha humor.
Tendemos a sempre pensar no passado com seriedade. Pois bem, se os homens do passado eram mais infantis eles então brincavam mais. E se fossem como nós, e eram, tinham senso de humor. Pois não pensem que os gregos cultuavam Hera ou Apolo como nós cultuamos Deus ou Allah. Eles tinham religião, eles tinham mito, mas não igreja. Os deuses eram mitos. Histórias que eles sabiam ser fantásticas e que os divertiam. Eles as criavam ao bel prazer. E tinham religião, coisas mais sagradas, sérias, e que nome não tinham. Estranho observar que subjacente às doidas lendas de Zeus, existem os ritos muito mais sérios de fertilidade, de sacrifício e de morte. Religião, a tentativa bem sucedida de transformar matéria. Mas não havia igreja. A Grécia era uma confusão de deuses, ritos, festas e tradições.
Os gregos eram organizados em politica, no estado, mas eram anarquistas em casa.
Interessante o que Chesterton percebe: povos que são apegados a familia costumam ter um estado anárquico e povos pouco apegados a familia criam estados fortes. Pois ao contrário de Atenas, Roma era anárquica. Governos caíam, senadores eram mortos e mesmo assim ela crescia. Porque romanos amavam sua terra. Amavam sua familia e amavam os deuses do lar. Se eles importaram Jupiter e Vênus, eram os secretos deuses do lar que os emocionavam. Esse trecho do livro é belíssimo.
Chesterton se divertiria muito com as bobagens escritas sobre as guerras entre Israel e árabes. O inglês dá risadas para o marxismo. Ele diz que razões econômicas existem em qualquer guerra, mas NUNCA são a razão principal. O que leva um soldado à guerra não é o soldo, o que leva um líder a declarar guerra não é uma mina de ouro. ( Isso tudo vem junto mas não é o que traz a guerra ), a batalha se faz quando uma nação encontra diante de si uma outra nação que a nega, que ameaça tudo aquilo em que ela crê, que ameaça sua certeza histórica e que traz assim o perigo da destruição de seu lar. Um soldado luta por sua casa, por aquilo que ele entende ser seu lar. Um país luta por destruir sua antítese, seu oposto. Os americanos podem lutar pelo petróleo do Iraque, mas acima de tudo lutam contra um mundo que lhes é horroroso, um modo de pensar que nega tudo em que eles acreditam. Lutam para sobreviver. Para poder continuar a crer em si-mesmo.
Como aconteceu com Roma. Os romanos tinham de aniquilar Cartago pelo fato de que Cartago matava crianças em sacrifício, comungavam com forças místicas que negavam tudo o que Roma professava e odiavam o modo familiar de Roma. Roma venceu. E o mundo nunca mais foi o mesmo.
Chesterton diz que é hora de parar com a mania científica. Um cientista explicando um totem ou um mito é como um poeta tentar explicar a divisão celular. Um totem é uma experiência estética e só pode ser entendido como arte. Um mito é sempre poesia e só pode ser explicado por poetas. Cientistas transformarão tudo naquilo que eles sabem, fórmulas de ação e reação.
Adoro Chesterton porque ele duvida. Inverte o que todos repetem e mostra a papagaice do que se tornou senso-comum.
Homens da caverna não eram feras assustadas, egipcios nunca foram seres rígidos de pintura, gregos não acreditavam em nada, romanos eram bons e calorosos, bárbaros eram brincalhões e os povos primitivos das Américas nada tinham de inocentes.
Excelente.
Olhamos os rostos das pinturas egipcias e achamos que eles tinham as caras que estão lá representadas. Porque? Aquilo é representação, ou alguém em 2014 tem a cara do Wolverine? A questão é, o que sabemos sobre os homens do passado? Quase nada.
E o melhor, segundo Chesterton, seria pensar neles como aquilo que são com certeza, Humanos. Desde sempre humanos, como eu e como voce.
Então vamos parar com essa tolice de imaginar que o homem que criou a roda era um quase-fera que grunhia e criava sem querer. Ele era um homem que pensava. Curioso, pegava coisas e as experimentava. Pesquisava. Tentava. Era, como nós, um criador. E ria. Se divertia. Tinha humor.
Tendemos a sempre pensar no passado com seriedade. Pois bem, se os homens do passado eram mais infantis eles então brincavam mais. E se fossem como nós, e eram, tinham senso de humor. Pois não pensem que os gregos cultuavam Hera ou Apolo como nós cultuamos Deus ou Allah. Eles tinham religião, eles tinham mito, mas não igreja. Os deuses eram mitos. Histórias que eles sabiam ser fantásticas e que os divertiam. Eles as criavam ao bel prazer. E tinham religião, coisas mais sagradas, sérias, e que nome não tinham. Estranho observar que subjacente às doidas lendas de Zeus, existem os ritos muito mais sérios de fertilidade, de sacrifício e de morte. Religião, a tentativa bem sucedida de transformar matéria. Mas não havia igreja. A Grécia era uma confusão de deuses, ritos, festas e tradições.
Os gregos eram organizados em politica, no estado, mas eram anarquistas em casa.
Interessante o que Chesterton percebe: povos que são apegados a familia costumam ter um estado anárquico e povos pouco apegados a familia criam estados fortes. Pois ao contrário de Atenas, Roma era anárquica. Governos caíam, senadores eram mortos e mesmo assim ela crescia. Porque romanos amavam sua terra. Amavam sua familia e amavam os deuses do lar. Se eles importaram Jupiter e Vênus, eram os secretos deuses do lar que os emocionavam. Esse trecho do livro é belíssimo.
Chesterton se divertiria muito com as bobagens escritas sobre as guerras entre Israel e árabes. O inglês dá risadas para o marxismo. Ele diz que razões econômicas existem em qualquer guerra, mas NUNCA são a razão principal. O que leva um soldado à guerra não é o soldo, o que leva um líder a declarar guerra não é uma mina de ouro. ( Isso tudo vem junto mas não é o que traz a guerra ), a batalha se faz quando uma nação encontra diante de si uma outra nação que a nega, que ameaça tudo aquilo em que ela crê, que ameaça sua certeza histórica e que traz assim o perigo da destruição de seu lar. Um soldado luta por sua casa, por aquilo que ele entende ser seu lar. Um país luta por destruir sua antítese, seu oposto. Os americanos podem lutar pelo petróleo do Iraque, mas acima de tudo lutam contra um mundo que lhes é horroroso, um modo de pensar que nega tudo em que eles acreditam. Lutam para sobreviver. Para poder continuar a crer em si-mesmo.
Como aconteceu com Roma. Os romanos tinham de aniquilar Cartago pelo fato de que Cartago matava crianças em sacrifício, comungavam com forças místicas que negavam tudo o que Roma professava e odiavam o modo familiar de Roma. Roma venceu. E o mundo nunca mais foi o mesmo.
Chesterton diz que é hora de parar com a mania científica. Um cientista explicando um totem ou um mito é como um poeta tentar explicar a divisão celular. Um totem é uma experiência estética e só pode ser entendido como arte. Um mito é sempre poesia e só pode ser explicado por poetas. Cientistas transformarão tudo naquilo que eles sabem, fórmulas de ação e reação.
Adoro Chesterton porque ele duvida. Inverte o que todos repetem e mostra a papagaice do que se tornou senso-comum.
Homens da caverna não eram feras assustadas, egipcios nunca foram seres rígidos de pintura, gregos não acreditavam em nada, romanos eram bons e calorosos, bárbaros eram brincalhões e os povos primitivos das Américas nada tinham de inocentes.
Excelente.
TEMPO
Onde eu via um rio agora corre uma avenida. E derrubaram a casa de minha primeira amada para fazer um restaurante. A praça encolheu, os lagos secaram. E até o céu parece hoje mais distante. Muito pior que viver uma primavera sem Lou Reed, Tim Maia ou José Wilker, é andar pelo Caxingui e não achar neste Caxingui o meu bairro. Todas as esquinas viraram pontos anônimos. Lembro meu pai.
Se eu viver tanto quanto ele irei ter mais 32 anos pela frente. E irei desconhecer toda rua. Onde o cinema em que vi o Led Zeppelin? Alguém ainda sabe bater palmas ao fim de um grande filme? Ver um show sem se distrair tirando fotos? Ir a uma festa e não pensar no que vai postar amanhã?
Se o bairro é outro as pessoas parecem outras. Cartinhas tímidas para as meninas...alguém ainda?
Em 1980 o mundo era a escadaria do Objetivo. O mundo era a via Anchieta. O mundo era a praia. Vou aos 3 lugares. A escadaria parece ser apenas uma escada. A Anchieta uma vulgar estrada. Curta. E a praia é uma faixa de areia oprimida por gente, carros e prédios. E a mudança de meu ambiente, dos lugares que eram MEUS, do habitat onde tudo era ninho, isso dói. Tanto ou mais que a morte daqueles que em 1980 eram vivos ( um mundo que ainda tinha Miles Davis, Bergman, Bunuel e Kurosawa ).
1980, no Brasil, era feito para quem tinha 15 anos. Eu. Em 2014 me parece que o mundo é para quem tem 25 e o Brasil para as crianças. Mas isso vai mudar. O mundo está envelhecendo e minha geração será a primeira, aqui, a ver o Brasil com menos crianças que idosos. Uma revolução anciã vai acontecer. ( Na Europa já está em curso ). Filmes, música, roupas, serão mais dirigidas aos cinquentões que aos teens. Sim, é provável que os sessentões tenham roupas e jeito de teens. Mas a coisa vai ter de se adaptar a uma nova realidade. O consumo feito pelos mais velhos.
E serão pessoas como eu sei que vou ser. Contentes por poder ver os Stones aos 93 anos, por ver a vigésima parte de Star Wars. Por ter a mão todos os discos do Led, do Neil Young e do J.J. Cale. Mas que ao mesmo tempo olharão para o mundo e perceberão que tudo lhe é desconhecido e que o mundo que ele amava se foi.
Ou não.
Porque uma árvore será sempre igual aquela que ele primeiro viu. A praça pode ter mudado, mas uma mangueira ainda é uma mangueira. E verá que se a praia é outra, o mar é o mesmo. Perceberemos que o que é da natureza nunca muda, o que se vai é aquilo que o homem fez. O sol é o sol que amanhecia em 1976 e a chuva cai como caía em 1989. Perceberemos que o olho de um cão é o mesmo olho daquele cão querido e perdido em 1998. Porque a natureza se renova. Se o Caxingui, o Morumbi, Pinheiros se foram para sempre ( sempre mesmo ), a grama molhada, a terra com minhocas e o abanar de uma cauda nunca mudam. A natureza se renova, se modifica lentamente, volta, é um ciclo.
Se dói lembrar de meu pai, de Roberto, Mauro, Dani ou Jeanne, consola saber que eles são seres da natureza, que são muito mais aparentados com o mar ou a serra que com uma casa que desaparece ou uma rua que se alarga.
A Paulista é outra e a escadaria nada mais me diz. Mas os rastros dos que aqui passaram ficam. Para sempre.
Se eu viver tanto quanto ele irei ter mais 32 anos pela frente. E irei desconhecer toda rua. Onde o cinema em que vi o Led Zeppelin? Alguém ainda sabe bater palmas ao fim de um grande filme? Ver um show sem se distrair tirando fotos? Ir a uma festa e não pensar no que vai postar amanhã?
Se o bairro é outro as pessoas parecem outras. Cartinhas tímidas para as meninas...alguém ainda?
Em 1980 o mundo era a escadaria do Objetivo. O mundo era a via Anchieta. O mundo era a praia. Vou aos 3 lugares. A escadaria parece ser apenas uma escada. A Anchieta uma vulgar estrada. Curta. E a praia é uma faixa de areia oprimida por gente, carros e prédios. E a mudança de meu ambiente, dos lugares que eram MEUS, do habitat onde tudo era ninho, isso dói. Tanto ou mais que a morte daqueles que em 1980 eram vivos ( um mundo que ainda tinha Miles Davis, Bergman, Bunuel e Kurosawa ).
1980, no Brasil, era feito para quem tinha 15 anos. Eu. Em 2014 me parece que o mundo é para quem tem 25 e o Brasil para as crianças. Mas isso vai mudar. O mundo está envelhecendo e minha geração será a primeira, aqui, a ver o Brasil com menos crianças que idosos. Uma revolução anciã vai acontecer. ( Na Europa já está em curso ). Filmes, música, roupas, serão mais dirigidas aos cinquentões que aos teens. Sim, é provável que os sessentões tenham roupas e jeito de teens. Mas a coisa vai ter de se adaptar a uma nova realidade. O consumo feito pelos mais velhos.
E serão pessoas como eu sei que vou ser. Contentes por poder ver os Stones aos 93 anos, por ver a vigésima parte de Star Wars. Por ter a mão todos os discos do Led, do Neil Young e do J.J. Cale. Mas que ao mesmo tempo olharão para o mundo e perceberão que tudo lhe é desconhecido e que o mundo que ele amava se foi.
Ou não.
Porque uma árvore será sempre igual aquela que ele primeiro viu. A praça pode ter mudado, mas uma mangueira ainda é uma mangueira. E verá que se a praia é outra, o mar é o mesmo. Perceberemos que o que é da natureza nunca muda, o que se vai é aquilo que o homem fez. O sol é o sol que amanhecia em 1976 e a chuva cai como caía em 1989. Perceberemos que o olho de um cão é o mesmo olho daquele cão querido e perdido em 1998. Porque a natureza se renova. Se o Caxingui, o Morumbi, Pinheiros se foram para sempre ( sempre mesmo ), a grama molhada, a terra com minhocas e o abanar de uma cauda nunca mudam. A natureza se renova, se modifica lentamente, volta, é um ciclo.
Se dói lembrar de meu pai, de Roberto, Mauro, Dani ou Jeanne, consola saber que eles são seres da natureza, que são muito mais aparentados com o mar ou a serra que com uma casa que desaparece ou uma rua que se alarga.
A Paulista é outra e a escadaria nada mais me diz. Mas os rastros dos que aqui passaram ficam. Para sempre.
ESCOLA. ELEIÇÃO, PRISÃO E PIJAMAS
Eleições. Há alguém que ainda leve isso a sério? Não falo só aqui. No mundo todo. Seja parlamento ou presidencialismo, who cares?
Alguém na escola? O que voce aprende? Lá dentro tem alguma coisa relevante em relação ao mundo cá de fora? Pode ser que existam professores que consigam trazer eletricidade a aula. Mas a filosofia da coisa é morta.
Previdência? Aposentadoria? Foram criadas na época em que tratar um câncer era morte certa. Em que se vivia 3 anos aposentado. Em que 90% nem conseguiam chegar a se aposentar.
Prisão. Pra que serve? Nada vinga. Não recupera. E gasta demais. E não me venha com pena de morte. A execução de um inocente invalida todo o sistema.
Estamos no mundo das conexões. Onde todo mundo está todo o tempo focado em 3 coisas simultaneamente. Um mundo onde a velocidade e a possibilidade de escolha é lei. Coisas acontecem sem parar e coisas são jogadas fora sem cessar.
Mas o velho sistema de voto, de sala de aula, de tempo de serviço, de pena a cumprir...
O século XXI precisa se ocupar das coisas humanas. Ou elas morrerão sem nada que as substitua.
Alguém na escola? O que voce aprende? Lá dentro tem alguma coisa relevante em relação ao mundo cá de fora? Pode ser que existam professores que consigam trazer eletricidade a aula. Mas a filosofia da coisa é morta.
Previdência? Aposentadoria? Foram criadas na época em que tratar um câncer era morte certa. Em que se vivia 3 anos aposentado. Em que 90% nem conseguiam chegar a se aposentar.
Prisão. Pra que serve? Nada vinga. Não recupera. E gasta demais. E não me venha com pena de morte. A execução de um inocente invalida todo o sistema.
Estamos no mundo das conexões. Onde todo mundo está todo o tempo focado em 3 coisas simultaneamente. Um mundo onde a velocidade e a possibilidade de escolha é lei. Coisas acontecem sem parar e coisas são jogadas fora sem cessar.
Mas o velho sistema de voto, de sala de aula, de tempo de serviço, de pena a cumprir...
O século XXI precisa se ocupar das coisas humanas. Ou elas morrerão sem nada que as substitua.
MATEMÁTICA, DOCTOR WHO E AS ELEIÇÕES
Leio a revista Veja desta semana. Muito interessante a matéria sobre o brasileiro que venceu o tal "Nobel"de matemática. Me toca o modo como a física quântica se aproxima da poesia e da religião. Ideias que essas duas intuições divulgaram desde sempre são matematicamente desvendadas pelas teorias mais modernas e abstratas.
Ando lendo mais um livro de Chesterton e o sábio inglês coloca tudo em dúvida. Cada "verdade"científica colocada em xeque. Será que Chesterton sabia algo de quântica? É muito provável que sim.
O brasileiro ( nome? esqueci ), ama borboletas e sua façanha matemática tem uma borboleta como símbolo. Grosso modo, o que ele fez foi ajudar a demonstrar que dentro do princípio da incerteza podem morar variantes infinitas que se modificam ao menor fator. A reportagem usa um exemplo excelente. A meteorologia estuda frentes frias, movimento de massas climáticas e estatísticas históricas. Pois bem. Mesmo assim, e por mais que esses dados sejam aperfeiçoados, ao extremo, nunca será possível afirmar com 100% de certeza que amanhã irá ou não chover. Porque? Porque nessa teoria, o movimento da asa de uma borboleta em Sta.Catarina tem o potencial e a possibilidade de modificar todo o clima de vários estados. Absurdo? Não. Matemática.
Se voce explica o universo matematicamente, voce o explica em equações. Em cálculos que podem levar séculos para serem completos. Uma vírgula, uma fração mínima, um zero a menos, qualquer detalhe pode modificar todo o sistema e fazer de uma equação X uma equação Y, ou insolúvel. Então se podemos explicar o universo como um sistema matemático e ao mesmo tempo aleatório ( matematicamente aleatório ), uma pedra jogada num lago pode modificar toda um ecossistema e o ar movimentado pela asa de uma borboleta pode mudar todo um clima.
John Donne, poeta e religioso inglês, escreveu no século XVII que toda pessoa que morre traz luto para todos aqueles que vivem. Todos. Que o sino que dobra pelo morto desconhecido, na verdade dobra por mim. E por voce. Donne intuiu que o choro de uma criança no Japão acaba por repercutir na vida de um velho que mora no Chile.
E cada vez mais a física nos mostra que uma pedra que foi lançada a bilhões de anos de uma estrela a bilhões de quilometros, pode modificar toda a estrutura e destino de um mundo que nada teria, mas tem, a ver com a tal pedra. O sino que dobrou em luto pela estrela que faleceu, dobrará em luto pelo mundo que a receberá como cometa amanhã.
A grande questão é: Tudo isso é um acaso, ou haverá uma ordem dentro desse caos? Matemáticos procuram essa ordem no centro do incerto, procuram uma regra em meio ao acaso. Uma equação que desvende e se aplique a tudo que pode existir. Parece poesia. Tem ares de religião. É ciência. Ainda.
Uma suposição. Neste mundo, cada vez menor e interligado, não haverá a clareza final de que tudo repercute em tudo? Que uma batida de carros no Paquistão é visto aqui e será lamentado em Singapura? E que o fato de todos nós podermos ver isso, ao mesmo tempo, já modifica todo um destino, travando chances e abrindo possibilidades?
A Veja fala também de Doctor Who, que é uma mania.
A Inglaterra pode ser definida por três coisas: Família Real, Beatles e Doctor Who. Uma revista americana diz que ingleses amam tudo que é velho e moderno ao mesmo tempo. Coisas como a Rainha, Keith Richards e Doctor Who. São velhos, são excêntricos, parecem imortais, e têm algo de muito provocativo. Yes! Raramente vi tão bela definição do espírito inglês. Espírito que podemos ver também em qualquer nova banda inglesa ( que sempre une a coisa muito fashion com um jeito velho de swinging London ), vemos no Monty Python, em Downtown Abbey e em instituições como Oxford, Shakespeare ou na BBC. Velho e moderno, conservador e livre, sempre excêntrico e sempre na surdina.
Adoro Doctor Who.
51 anos de série.
Por fim faço aqui meu único comentário sobre as eleições. Temos uma anta mal humorada, uma missionária e um playboy. E uma imensa multidão de candidatos que variam do burocrata medíocre ao aventureiro mentiroso.
É isso. Meu voto irá para o menos feio.
Ando lendo mais um livro de Chesterton e o sábio inglês coloca tudo em dúvida. Cada "verdade"científica colocada em xeque. Será que Chesterton sabia algo de quântica? É muito provável que sim.
O brasileiro ( nome? esqueci ), ama borboletas e sua façanha matemática tem uma borboleta como símbolo. Grosso modo, o que ele fez foi ajudar a demonstrar que dentro do princípio da incerteza podem morar variantes infinitas que se modificam ao menor fator. A reportagem usa um exemplo excelente. A meteorologia estuda frentes frias, movimento de massas climáticas e estatísticas históricas. Pois bem. Mesmo assim, e por mais que esses dados sejam aperfeiçoados, ao extremo, nunca será possível afirmar com 100% de certeza que amanhã irá ou não chover. Porque? Porque nessa teoria, o movimento da asa de uma borboleta em Sta.Catarina tem o potencial e a possibilidade de modificar todo o clima de vários estados. Absurdo? Não. Matemática.
Se voce explica o universo matematicamente, voce o explica em equações. Em cálculos que podem levar séculos para serem completos. Uma vírgula, uma fração mínima, um zero a menos, qualquer detalhe pode modificar todo o sistema e fazer de uma equação X uma equação Y, ou insolúvel. Então se podemos explicar o universo como um sistema matemático e ao mesmo tempo aleatório ( matematicamente aleatório ), uma pedra jogada num lago pode modificar toda um ecossistema e o ar movimentado pela asa de uma borboleta pode mudar todo um clima.
John Donne, poeta e religioso inglês, escreveu no século XVII que toda pessoa que morre traz luto para todos aqueles que vivem. Todos. Que o sino que dobra pelo morto desconhecido, na verdade dobra por mim. E por voce. Donne intuiu que o choro de uma criança no Japão acaba por repercutir na vida de um velho que mora no Chile.
E cada vez mais a física nos mostra que uma pedra que foi lançada a bilhões de anos de uma estrela a bilhões de quilometros, pode modificar toda a estrutura e destino de um mundo que nada teria, mas tem, a ver com a tal pedra. O sino que dobrou em luto pela estrela que faleceu, dobrará em luto pelo mundo que a receberá como cometa amanhã.
A grande questão é: Tudo isso é um acaso, ou haverá uma ordem dentro desse caos? Matemáticos procuram essa ordem no centro do incerto, procuram uma regra em meio ao acaso. Uma equação que desvende e se aplique a tudo que pode existir. Parece poesia. Tem ares de religião. É ciência. Ainda.
Uma suposição. Neste mundo, cada vez menor e interligado, não haverá a clareza final de que tudo repercute em tudo? Que uma batida de carros no Paquistão é visto aqui e será lamentado em Singapura? E que o fato de todos nós podermos ver isso, ao mesmo tempo, já modifica todo um destino, travando chances e abrindo possibilidades?
A Veja fala também de Doctor Who, que é uma mania.
A Inglaterra pode ser definida por três coisas: Família Real, Beatles e Doctor Who. Uma revista americana diz que ingleses amam tudo que é velho e moderno ao mesmo tempo. Coisas como a Rainha, Keith Richards e Doctor Who. São velhos, são excêntricos, parecem imortais, e têm algo de muito provocativo. Yes! Raramente vi tão bela definição do espírito inglês. Espírito que podemos ver também em qualquer nova banda inglesa ( que sempre une a coisa muito fashion com um jeito velho de swinging London ), vemos no Monty Python, em Downtown Abbey e em instituições como Oxford, Shakespeare ou na BBC. Velho e moderno, conservador e livre, sempre excêntrico e sempre na surdina.
Adoro Doctor Who.
51 anos de série.
Por fim faço aqui meu único comentário sobre as eleições. Temos uma anta mal humorada, uma missionária e um playboy. E uma imensa multidão de candidatos que variam do burocrata medíocre ao aventureiro mentiroso.
É isso. Meu voto irá para o menos feio.
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