CONFISSÕES- W. SOMERSET MAUGHAM

   Memórias do famoso autor inglês escritas quando ele tinha sessenta anos. Ainda viveria mais vinte, vindo a morrer em 1965. Não espere encontrar a intimidade do autor aqui. Ele quase nada fala de sua vida física. Estas memórias são espirituais, estando assim próximas daquilo que Montaigne e Rousseau escreveram. Maugham fala de seus livros e de suas peças. Dá muitos conselhos e percebemos o ressentimento que ele tem em relação a crítica. Crítica que jamais lhe deu o valor devido.
   Maugham foi um autor de imenso sucesso popular. Seus livros e suas peças fizeram dele um homem rico. E muitas obras ainda se tornaram filmes bem sucedidos. Nascido inglês, ele passou seus primeiros sete anos na França, seu pai era do corpo diplomático. Quando seus pais morreram foi para a Inglaterra, onde foi educado por um tio, severo, frio e religioso. Maugham jamais se sentiu confortável em seu país. Suas influências são francesas, Maupassant e Flaubert, e seus favoritos também, Stendhal e Balzac. Já adulto, ele irá estudar na Alemanha e sua vida será feita de viagens. Os Mares do Sul foram sua viagem mais importante.
   Algumas estocadas que ele dá em ingleses são certeiras. O fato de que eles pouco se interessam por sexo e que têm relações sentimentais e nunca apaixonadas. Ingleses gostam de lembrar de seu canto, gostam de manter uma quente amizade, mas são incapazes de arroubos românticos. Sexo é uma desagradável obrigação. São comerciantes, povo feito para o ganho monetário, sem a poesia de alemães e o dom hedonista dos latinos. Se isso é verdade ou puro ressentimento não cabe a mim dizer, o que posso falar é que sua literatura é realmente marcada pelo "bom-tom" e uma falta de sexualidade vibrante. Falam de bons e velhos tempos, do campo e da escola, de amor espiritual, mas raramente contam abertamente casos de pura luxúria ou de tara. Mesmo nos liberais anos de 1970, suas descrições "apimentadas" sempre soam falsas ou pior, violentamente culpadas. É uma literatura insuperável na arte de descrever a natureza, de contar a infância, de lidar com aventura, mas não consegue ser filosófica ou carnal.
   O melhor de Maugham são suas descrições de suas leituras de adolescência. A aventura de um novo livro, a emoção inesquecível. São páginas em que me vi. Mas devo dizer que não é um grande livro. Maugham enrola, estica, pula, edita, acaba por fugir.
   Um tímido. Ele fala que gosta de estar só, apenas a observar a vida. Pena que aqui ele apenas flutuou pelos temas, sem os tocar e arranhar.
   

ABAIXO O MUNDO REAL, LUCIA GUIMARÃES, ONTEM NO ESTADÃO

   Ela escreveu um texto que saiu ontem no Estado. Assustador. Descreve uma propaganda do Facebook. Uma reunião de familia em que uma Parente, Velha, Gorda e Feia fala sem parar. Enquanto isso uma Adolescente, Magra e Bonita, em seu Face, dá as costas a velha e a ignora com solos de bateria, guerra de bolas de neve, imagens na tela do PC que são MAIS REAIS QUE A REALIDADE.
   A mensagem que Lucia Guimarães percebe: Celebremos a autoabsorção no eu. O desprezo pela refeição comunal, o desprezo pelos feios, o desprezo pela realidade, o mundo belo e sem perigo da virtualidade. O veredito foi dado: O mundo é feio, velho e deprimente. Voce só pode ser feliz no Face. Lucia recorda a missão oficial que o hiper-fascista Zuckerberger ( hiper-ressentido com a natureza, diria eu ) advogou em seus começos: Dar poder as pessoas para tornar o mundo mais aberto e conectado. Hahahahahaha! Lucia fala que nesse mundo feliz do Face conversar com alguém que está a sua frente é pura perda de tempo. Cool é desprezar o que não é cool. É um tipo de escapismo não-romântico, sem risco, sem o sublime, previsível e controlado. A solidão, estado em que podemos criar e refletir, fica abolida. Lucia descreve estudantes do campus onde o terrorista de Boston estudava. Esses estudantes, ANTES de pensar em entregar o assassino, apagaram todas as pistas virtuais dos PCs do rapaz. O mundo real NÃO podia entrar naquele mundo virtual do campus, então, antes da policia, apaga-se tudo. Salva-se o cool perfeito do feio e imperfeito.
   Notei isso já em 2007. O mundo atual favorece a divisão dos homens em guetos isolados e estáticos. Explico. No mundo do rádio e da TV sem cabo, do jornal impresso e da revista volumosa, voce era exposto a vários mundos que não eram o "seu". Assim, eu era exposto a samba e funk para poder ouvir rock. E acabava por conhecer e ocasionalmente apreciar samba e funk. Antes de ver o filme de Fellini na Globo às 23 hs, assistia As Panteras e Chico City. Meu poder de edição da vida era mínimo. Na escola eu não podia escapar numa tela do meu colega chato ao lado ou da gordinha nerd atrás de mim. Isso tudo era bom? A pergunta não é essa. A pergunta é: O que esse mundo não virtual me trouxe? Conhecimento.
   Tenho amigos hoje que podem passar toda a vida ouvindo apenas as mesmas músicas, vendo os mesmos filmes e vivendo em um mundo onde só vivem pessoas da mesma turma. Conectados, TODOS gostam das mesmas coisas, consomem os mesmos produtos. E ilhados, longe de gostos e modos de ser diversos, crêem burramente que eles são ALTERNATIVOS, afinal, são DIFERENTES. Diferentes do que?
   Na tela voce protesta contra o desemprego. E gente cool como voce vai a rua fazer um lance cool onde voce diz o que não quer, mas não consegue formular o que deseja. Na verdade o que os cool da Espanha e da Grécia querem é poder ficar no Face sem se preocupar com a vida real.  Grana para poder viver para sempre entre gente cool em lugares cool. Não importa como esse dinheiro venha.
   Vejo em filmes italianos de 1950 o quanto os avôs dessa geração lutaram. Filas para comida, barracos e curtiços, improviso dia a dia, solidariedade entre vizinhos, espirito de grupo. Seus netos e bisnetos são mimados. Babys de fraldas em forma de bermudas pinky. O desejo deles chega só até a tela de seu brinquedo, o espaço de seu berço tem forma de apê e as brincadeirinhas infantis travestidas de sexo sem consequência. Seu mundo TEM DE SER de bebês para bebês. Daí o horror ao velho ( velhos livros, velhos filmes e velhos cool ), ao não-controle e a solidão. Bebês precisam de babás 24 hs ao dia.
   Mas o pior é: QUEM CONTROLAR, OU AO MENOS ENTENDER O MUNDO LÁ FORA, dominará com facilidade essa turminha cool. Fácil assim.
   Platão again. A teen toda cool está na caverna entretida com suas sombras. Lá fora tem o mundo de verdade. Quem diria....Platão escreveu sobre o futuro.

NUMA MESA DE BAR ( MULHERES, BACH E O BLUES )

   Uma conversa com um amigo à mesa de um bar na noite de um domingo terrível em seu tédio soberano. Então tudo aqui escrito pode ser caótico, ou não, porque um dos meus defeitos mais chatos é a falta de desarrumação.
   Mulheres, claro. Meu amigo teve mais um relacionamento errado. Pelo menos ele tem relacionamentos. São mais que contatos futeis, regra de hoje entre adultos. Pobres mulheres! Na ditadura de SEX AND THE CITY em que elas vivem, quem ganha somos nós que agora temos mulheres livres. Não precisam de nossa ajuda e de nossa proteção. E elas têm de levar os filhos a escola, fazer ginástica, trabalhar, ficar bonitas e ainda ir às baladas da noite. Têm de ser mães, trabalhadoras, sexys e livres. E elegantes sempre. Coitadas...Nós apenas aplaudimos. E sentimos falta de uma mulher mais lenta e relaxada, que não imite Sarah Jessica Parker. Menos piadinhas e mais bom humor, please!
   Não sou comuna. Aliás acho comunas ingênuos. Tão ingênuos como coroinhas de igreja. Mas devo dizer que o capitalismo conseguiu atingir seu mundo perfeito. Pense e veja... Existem séries de TV que têm como atração o trabalho. Sim! Voce fica em casa, após trabalhar todo o dia, vendo gente na TV trabalhando!!! Não é incrivel??? Voce assiste um funileiro consertar um carro, um cozinheiro fazer um banquete para 500 pessoas. Voce assiste um bombeiro em seu cotidiano de work, voce vê uma corretora vender casas e um maquiador maquiar. É o sonho do hiper-capitalismo, transformar o trabalho em show, em desejo, em espetáculo. E tome médicos operando, advogados advogando e vendedores vendendo. Falo que isso é absurdo, muito absurdo. Imaginem numa mesa de bar quatro  amigos conversando: "Cara, quero ser um funileiro e usar minha serra e serrar muito!", "Eu quero pegar meu carro e vender casas! Muitas casas! Yeah!"  Na TV são workers bonitões, glamurosos...Bláh!  Vamos falar a real: Cara, trabalho é uma merda! A gente trabalha porque é obrigado, porra! Não vem o bacana da NBC ou da CBS me dizer que a vida de um peão é excitante. Bullshit!!!
   Meu amigo e eu andamos meio downs. A gente conhece isso: Blues. A verdade é que ninguém ouve blues por anos e passa impune por isso. Voce fica sabendo as coisas.
   A vida é toda imperfeição. O amor é sempre torto. Não adianta negar, amamos aquilo que não temos. Se voce percebe que aquilo é 100% seu, bem, já era, voce perde o tesão. Se voce começa a babar por uma mulher e a ligar pra ela toda hora, logo voce vai ver o que te acontece. Parece bobo falar isso, mas é o que é.
   Mães amam seus filhos porque sabem que vão perdê-los um dia.
   A arte é perfeita. O mundo da arte e do pensamento é perfeito. E mentiroso. Eu passei anos atrás do amor que existia na arte, atrás do sentido que há na filosofia, atrás da beleza que há na pintura e da harmonia que vive na música. NECAS! Isso não existe. Platão estava certo. A vida é sombra. As ideias são a perfeição. A matemática é perfeita. O mundo não é matemático.
  Meu amigo, lembro que voce ouvia Bach e vivia em paz maior. Tá na hora de voltar a Bach.

OUTRAS VIAGENS SOBRE SOLARIS

   Não esgotado o assunto, volto a desenvolver pensamentos nascidos do filme de Tarkovski ( Sobre o filme especificamente falo abaixo ).
   Eu amei seus seios, sua boca e sua pele inteira. Amava seu tom de voz, os dentes tortos e o cheiro de sexo. Sua impulsividade, seu humor sincero e reto, seus sonhos simples. Amava suas canções e o modo como ela ria sem medo ou vergonha. Sua coragem. Mas há uma questão nisso tudo: Eu a conheci? Eu realmente sei quem ela é, foi, queria ser? Ela me conheceu?
   O que sei de sua história? O que ela sente ao acordar, ao menstruar, quando está só, quando pensa nos pais. De onde ela veio, o que fez, o que é. Eu a conhecia?
   Esse é um dos assuntos dificeis do filme. Outro é a identidade. Assunto que é o mais importante da filosofia e da neurologia hoje. Existe um eu? Há algo de particular em mim ou em voce? Não seríamos apenas um arquivo de memórias e de reações óbvias? Que eu sou? Quem ela é? Mais perturbador no filme é: Será possível ter contato com alguém? Ou nos iludimos pensando que aquela distãncia, aquele não-conhecer, aquele quase nada, seja um contato? A questão agora não é mais Quem eu sou e sim, O Que eu sou.
   O filme dá duas pistas.
   Amamos aquilo que perdemos ou que podemos perder. Não amamos aquilo que achamos ter para sempre. Desse modo, pouco ligamos para pais e mães, que nos parecem pra sempre, e amamos a vida, que sabemos perder um dia e aqueles que nos parecem mais distantes. Quem ama a Deus O ama por sua incerteza e não o contrário. Tarkovski diz isso e mais: Amaremos a Terra apenas quando ela estiver destruída.
   Segunda pista: Se ela que eu amo pode ser uma ideia virtual em minha cabeça, o que remete ao fato de que ela não existe e na verdade é substituível; lógico será que eu também seja uma virtualidade na cabeça dela. O filme vai nessa lógica até o limite ( e tentarei não descrever o final perturbador ). A vida como um oceano de memórias, um pai que tem um filho que será e é sempre uma ideia abstrata em sua mente criativa.
   Parece exotérico para voce? Eis o mais platônico dos filmes.

SOLARIS- ANDREI TARKOVSKI.... FILMES DE ARTE PARA PESSOAS INTELIGENTES ( NÉ NÃO? )

   Todo filme que precisa de "bula" ou de manual de instruções é falho como cinema-puro. A linguagem do cinema não é verbal, ela é cinemática ( é terrivel ter de dizer algo que deveria ser tão óbvio ), mas nossa cultura é 100% verbal e então temos de transformar música, pintura, dança e cinema em discurso verbal. Deixa de ser bobo manézão! Filme muito falado, filme que só vale como narrativa verbal NÃO vale como cinema. Pode ser um bom conto, uma aula de filosofia, mas nunca um grande filme.
   Solaris dialoga com 2001 de Kubrick. Lançado 4 anos mais tarde é a versão russa da saga espacial-filosófica de Kubrick. O filme anglo-americano é mais cinemático, ele não precisa de palavras, é puro deleite visual. Solaris é literatura. Fico imaginando os orgasmos que Aronofski e Von Trier devem sentir com sua loooooonga chatice. Tarkovski faz tudo aquilo que eles ( e mais um monte de modernetes ) tentam fazer. Com uma diferença crucial: Andrei tem muito a dizer. E pensa com originalidade. Soderbergh refilmou esta saga em 2002 com George Clooney. Foi seu maior fracasso. Os fãs de Aronofski e que tais não suportam aquilo que seus guias adoram. Vamos ao filme...
   Um psicólogo é enviado ao planeta Solaris. Na estação orbital russa, um dos tripulantes morreu e dois outros ficaram doidos. Porque? Lá, o psicólogo descobre que o mar gelatinoso que é aquilo que compõe o planeta tem o poder de ler a memória das pessoas. Com esse conhecimento ele dá vida a essa memória. O psicólogo recebe então a visita de sua ex-esposa, morta a dez anos. Ela surge como ser de carne e osso, real para todos os outros, mas desmemoriada. Ela é sua esposa, mas ao mesmo tempo não é. O psicólogo se apaixona de novo...
   Realidade virtual. Muito mais sofisticado que Matrix e outros desse tipo, Tarkovski fala que a consciência é uma verdade ilusória. O que amamos? Amamos aquilo que amamos, mas o que é esse amor? Roger Ebert dizia que o filme demonstra que o amor é "amar a ideia que fazemos do amor", amamos aquilo que imaginamos sobre a pessoa amada, amamos aquilo que desejamos crer. O psicólogo do filme ama a réplica de sua esposa, réplica que não é a esposa mas que parece ser essa esposa. Esposa virtual, criada com as imagens da memória do marido, mas, ironicamente, desmemoriada, sem história, sem origem familiar. E essa réplica sofre por não ter história.
   O filme, lento ( Tarkovski é o diretor mais lento de toda a história ), solene, silencioso ( e com algumas poucas cenas com belíssima música eletrònica ), tem um apuro visual que beira o sublime. Por exemplo a primeira cena, das algas e da água, a poética e inesquecível cena dos amantes sem gravidade, flutuando, e a cena final, forte, surpreendente e misteriosa. Não descreverei essa cena, mas direi que ela muda toda a compreensão da obra.
   É um filme chato. Algumas cenas são exasperantes. Por outro lado é um filme que dá tempo a que pensemos sobre aquilo que vemos. Apreciamos uma cena, sempre longa, e depois podemos raciocinar sobre ela. Esse é o objetivo de Tarkovski. Um filme que é como uma instalação, cenas que formam um todo. Sublime? A teoria do sublime diz que a beleza-sublime nasce em meio ao medo, ao esforço, a vitória sobre uma força maior. Este filme nos dá beleza em meio a uma chatice quase insuportável. De seu modo é sublime. Seu mistério fica em nossa memória. É absolutamente original.

O ELOGIO DA LOUCURA- ERASMO DE ROTTERDAM, TODOS SÃO UNS PEIDORRENTOS

   Quando a Biblioteca do Congresso Americano elegeu os cem livros mais importantes do milênio ( ou seja, sem Biblia, Alcorão, gregos e latinos ), este livro, para minha imensa surpresa, ficou em terceiro lugar. ( Dante e o Quixote à frente ). Como atualmente ando estudando, com prazer e fascínio, o humanismo da renascença ( existe outro? ), eis que leio a obra central de Erasmo. Divertida, criativa, ácida, cômica, pessimista, didática e acima de tudo, dúbia. É o mais inteligente livro que li em minha vida.
   Erasmo perdeu os pais cedo e por isso foi aos 10 anos mandado para os monges. Isso desenvolveu nele o ódio aos dogmas, a disciplina, a vida limitada. Logo sai de lá e passa a viver entre Paris, Roma e Londres. Amigo de Thomas More, é na casa do amigo que escreve esta obra-prima. Lançado em 1509, ele logo se torna um sucesso. Todos lêem O Elogio da Loucura e Lutero chama Erasmo para sua cruzada contra o Papa. Erasmo não aceita. Vê nos protestantes um dogmatismo ainda pior que os dos católicos. Fica à parte dessa guerra, o que é condizente com sua obra. Editor, educador, Erasmo mudou a Europa. Anti-erudito, ele se preocupava em jamais parecer sábio, pedante, narcisista. Atacava os filósofos, os doutores, os reis e os bispos. Ria de suas frases sem sentido, de suas crenças vazias, de sua pretensão balofa. Percebia e expunha toda a loucura de seu mundo. E tinha a consciência de que essa loucura fazia desses bufões homens felizes. Ninguém no mundo mais feliz que um rei ladrão, um papa vaidoso ou um sábio cego. Ser feliz é portanto ser um louco.
   Quem fala no livro é a Loucura. Ela é uma deusa que alegremente nos conta um fato inegável: O mundo é dos loucos e aqueles que não o são têem uma vida pobre, triste e lamurienta. Essa a genialidade de Erasmo, nós nunca sabemos quando ele está falando a sério. Por exemplo, ao descrever os Poetas como seres esfomeados, vaidosos e tolos, jamais percebemos se ele os abomina de fato ou os compreende. A deusa Loucura se ri deles e nos convence de sua inutilidade. E assim acontece com advogados, médicos, escritores, nobres, padres e monges. Todos exibidos em sua estupidez, mas ao mesmo tempo Erasmo prova que é essa loucura, a ganância, a paixão, a luxúria, a mentira, a ilusão, que fazem deles homens felizes.
   Os dois momentos mais hilários são as descrições dos monges e das crianças. Monges remelentos, fedidos, passando a vida sem ler, sem trabalhar, inuteis. Bispos que discutem o sexo dos anjos, celeumas teológicos futeis como por exemplo se uma abóbora pode receber o Espírito Santo. E as crianças, egoístas idiotas, burras ( Erasmo sempre fala sem meios termos ), sujas, barulhentas, peidorrentas. E por isso, felizes. Em Erasmo ganha corpo essa certeza de 2013: Ser infantil é ser feliz. A ignorãncia é uma benção.
   Como seria maravilhoso termos um Erasmo hoje! Nos confundindo e nos deixando atordoados ao dizer que felicidade é ser Sarney ou Lula. Que alegria é assistir ao BBB e acreditar naquilo tudo. Ter um Erasmo para arrotar no rosto dos "doutores donos da verdade", peidar em astrólogos, teólogos, marxistas, liberais, cientistas, psicanalistas, existencialistas, poetas e roqueiros. Mostrar a absoluta loucura burra, a auto-ilusão risível que vive em todos esses seres absurdos, pomposos, falastrosos e masturbatórios. ( Inclusive o absurdo de blogueiros que chutam verdades que ninguém lê ). Erasmo seria delicioso ao mostrar o tolo carnaval de universidades e de congressos. Mostraria a infantilidade babosa de doutos venerandos, a loucura do delírio dos criadores de verdades "comprovadas".
   Falei dos capítulos sobre crianças e monges? Puá! Nada supera o escárnio sobre os professores! O modo como ele descreve os caspentos mestres, mortos de fome, ensinando gramática para crianças asnáticas e barulhentas, o modo como o tal mestre se torna um velho surdo, magro e remelento, a maneira como Erasmo por outro lado descreve a absurda e Louca alegria desses mestres fedorentos " que acreditam ter uma missão", caramba!, Erasmo é o Cara!
   Dizer mais o que? Este é desde já um de meus livros favoritos.

CIÊNCIA NOVA- GIAMBATTISTA VICO

   Vico não foi famoso em seu tempo ( 1660-1744 ), mas sua influência acabou por se fazer sentir em Colingwood e Croce, ou seja, até o século XX. Marx gostava dele, assim como Herder, Nietzsche e Heidegger. Qual a marca que esse filósofo italiano deixou?
    Acima de tudo ele era anti-cartesiano. Vico logo percebeu que o modo matemático de Descartes não podia explicar a vida. Isso porque à razão explica apenas aquilo que por ela é feita ou criada. Eis uma grande proposição de Vico: O homem conhece aquilo que constrói. Aquilo que faz. Só podemos entender completamente as coisas que criamos ou que podemos fabricar. A matemática é a criação mais humana por direito e fato. Ela inexiste em animais ou no universo. Ela existe apenas no mundo do homem. Criada, desenvolvida e mantida pelo homem. Se amanhã todos os humanos deixarem de existir a matemática cessará de existir. Portanto, ela é completamente transparente ao homem. Por outro lado, a vida não pode ser completamente conhecida pelo homem. Pois ele não a criou, e não consegue fabricá-la. O mesmo se dá com o pensamento, com a natureza, com o cosmos. Como compreender profundamente algo que não fizemos e que não conseguimos reproduzir?
    Para Vico a grande ciência humana é a História. E história compreende também o estudo da línguagem dos homens, a arte e a religião. O homem construiu a história do homem no mundo e ela pode ser compreendida e totalmente desvendada. É uma obra nossa, de total responsabilidade humana. Vico a estuda então e desenvolve a teoria dos três estágios de uma civilização: a mágica, a heróica e a humana. Na época da magia tudo é obra de deuses e do sobrenatural, na época heróica tudo gira ao redor de heróis e de seres especiais e afinal na era humana se institui o governo dos homens, que pode ser republicano ou monarquista. Espertamente Vico chega a esse ponto pelo estudo das palavras. Ele pega uma palavra latina e pesquisa sua origem. Percebe então, por exemplo, que divino vem de divinare e que divinare era adivinhar, portanto divinizar é adivinhar, ser adivinho. É um belo jogo de palavras, mas nem sempre garantidamente correto. Pois Vico esquece que mesmo o antigo grego ou o antigo latim sofriam influências de outra línguas mais antigas e que uma palavra que pareça ser origem de algo pode ter vindo de uma cultura onde aquele vocábulo possuia outra raiz. De qualquer modo o que hoje nos impressiona é a habilidade e a inteligência da mente de Vico em busca da história.
   É irrefutável o fato de que o conhecimento só pode ser completo quando dominamos o fazer. E que a História é uma ciência 100% humana, ao contrário da biologia ou da química, que estudam coisas que existem independentes da vontade e do saber humano. Têm portanto limites ao nosso conhecimento.
   Ciência Nova foi lançado em 1725 e preparou o século XVIII para a explosão de história que nele haveria. O final desse século assistiria a insurgência do homem e de sua história. Vico, filósofo que hoje é muito reconhecido, sabia.

PERDEMOS AS RUAS E AS JANELAS ESTÃO VAZIAS

   Cada época tem sua preocupação. Se essa preocupação já foi politica, religiosa e artísitica, hoje ela é social. Social não no sentido politico, não como ideia de futuro, mas antes como sintoma. Violência e solidão. Essas as duas grandes questões do tempo. Violência sem tática, sem ideologia e sem consequência, ato gratuito. Terror e absurdo. E a solidão verbosa de redes sociais e de ruas desertas de gente e cheias de coisas.
   Ando com um amigo nas ruas de um bairro que conheço desde 1973. É domingo de noite e são apenas oito horas. Faz bom tempo. Andamos por cerca de uma hora entre sobrados e praças. De repente percebo que não cruzamos por uma só pessoa. Chegamos ao extremo absoluto do nascimento de nossa cultura. Gregos viviam na rua e na praça. O inferno seria o exilio. Casas só para dormir. Hoje vivemos esse inferno. Nossa vida se faz entre paredes. ( Domingo a noite era hora de gente se despedindo no portão. De senhoras na janela olhando a rua e falando: Boa Noite!, crianças, eu, jogando bola e reclamando de ter de entrar, namorados na praça ). Pior: não escutamos uma só voz vinda das janelas das casas. Nenhuma. Luto? Terá morrido Roberto Carlos? Ninguém discute, briga, comenta a TV, ri. Nada. Silêncio quebrado por um ou outro carro que passa.
   Há gente no shopping center. Muitas. Houve um tempo de muita gente na praça e na rua. Lugares nossos, grátis, de familia. Agora nosso lugar não é nosso, é dos lojistas. O centro de nossa cidadania é um centro comercial. Se em 1973 me falassem que nosso futuro residia entre mercados e lojas de sapatos eu daria risada. Não andamos mais pelas ruas aos olhos dos vizinhos e de nossas mães. Andamos em galerias comerciais aos olhos dos seguranças e de câmeras de video. Liberdade? Onde?
   Bem, as ruas da Vila Madalena talvez estejam cheias. Ou a Paulista. Mas elas não são também um tipo de shopping? Galerias ao ar livre onde andamos entre apelos por consumo de cerveja e de comidinhas? Locais onde temos de ir para "viver"? Liberdade? O que é ser livre hoje?
   Falamos então de outras coisas. Uma delas é a relação do cara inquieto com o mundo atual. Fácil para mim perceber dois tipos de "consumidor" ou "apreciador" de arte. Tem aquele que só assiste filmes de agora e ouve bandas novas. Esse é o consumidor de produtos frescos. O passado é morto para ele e o futuro coisa de nenhuma preocupação. Ele engole apenas o pãozinho quente, o iogurte na validade e nada quer com conhaque. Sua rebeldia é aquela dentro do agora. Nos conformes. Da época. O cara inquieto critica sempre o agora. Fato fácil de verificar: todo artista que mereça consideração, desde que o mundo é mundo, tem uma relação crítica profunda com o agora. Ele nunca nasceu na hora certa. Pensa no passado e deseja o futuro. Daí sua afinidade com livros obscuros, filmes antigos e músicos de raiz. Ele firma os pés nos tesouros guardados e tenta dar o salto ao futuro, pulando o agora. Creia: Um homem envolvido com o aqui e agora cria produtos descartáveis. O tempo os engole. Sua criação, sua mente se deixa rodopiar nas miríades de musas apelativas de 2013. No passado selecionado ele acha o ponto firme, fora do agora, para se criar.
   Amizade é um tesouro. Cada amigo é um mundo. Tenho amigos que me fazem virar poeta grego, tenho amigos que me fazem ser palhaço. Outros me dão o dom da familia e alguns trazem-me filosofia.
   Dessa conversa nas ruas ficou uma pergunta: Porque um bom filme faz com que eu repita, sem ter consciência, todo o gesto e modo de meu pai vendo o mesmo filme? É possível ser inteiro sem a reconciliação com sua origem? De onde nascemos?
   A rua continua vazia.

HIGIENÓPOLIS, IMPRESSÕES SEM FOCO

   Eu vestia um tipo de paletó de couro que era uma geladeira ambulante. Comprado por minha mãe, na loja Garbo, ele tinha a dureza de uma armadura e a frieza de uma casa de janelas quebradas. Eu me encolhia na rua lateral ao cemitério. Sentia o vento gelado de maio. E como fazia frio naquele maldito lugar! Um frio sujo, fuligenoso, grudento, mesclado a fumaça dos carros e ao suor do corpo encapotado. Meus lábios rachavam e eu puxava a pele e fazia com que eles sangrassem. Minha língua tinha áftas, minha garganta doía. O cabelo, longo, despenteado, sujo, a mochila de lona rabiscada com o nome de "hendrix". Espinhas na cara e um lenço sujo que eu levava no bolso para assoar meu nariz sempre vermelho e entupido. Nunca fui tão feio. Nunca tão infeliz. Lá era Higienópolis.
   O muro do cemitério parecia nunca terminar e então eu via a entrada do Mackenzie júnior. Eu fora parar naquele colégio por influência de meu professor, o mesmo cara que hoje, trinta anos depois, ainda me influencia ao ponto de me fazer ser professor. O ano anterior fora feliz, brilhante, maravilhoso. Mas agora, no primeiro colegial, longe de meu bairro, nesse detestável Higienópolis, eu desabava. Solitário, eu me deixava andar pelo bairro estranho, o sol gelado na cara, longe das meninas bonitas que lá moravam e dos amigos esnobes de suas ruas vazias. O bairro era feito de sombras as sete da manhã. Uniformes mackenzistas nas ruas e velhinhas passeando com cães. Estranho lembrar que naquele tempo eu pouco ligava para cães. E também nada via de bom nos casarões. Eu os temia. Me deprimia a velhice do bairro. Todo ele me lembrava um cemitério. Em suas ruas ainda se viam casas sem muros, imensas, com suas janelas art-déco e mármores italianos. Hoje eu sei o que sentia, hoje eu saberia, mas aos 16 anos eu estava perdido. Andava então.
   Sentia respeito pela biblioteca do Mackenzie, com suas madeiras escuras e o cheiro de papel se desfazendo. Mas a Mario de Andrade me intimidava. Deprimido, eu a sentia como um hospital. A arquitetura das Clínicas. Aliás ir de casa até lá era uma excursão ao inferno: passava por três hospitais e três cemitérios. Ida e volta. Argh!
   O bairro era esnobe? Penso que sim. Hoje eu me divertiria, na época, caipira, sentia medo. No Mackenzie de então só se podia entrar de sapatos, tênis eram proibidos, assim como jeans. Alguns conhecidos da minha classe se reuniam para um chá. No apartamento em estilo Oscar Wilde de um deles, tudo era branco, tapetes, paredes e sofás. A porcelana portuguesa era rosa e branca. O que eu fazia lá? Minhas referências eram então Jimi Hendrix e Mick Jagger! Chá? Só se fosse com whisky! Hoje sei que provávelmente a culpa não era do bairro, eu andei com a turma errada. Andei? Melhor dizer, fugi da turma errada.
   Aconteceram manhãs em que andei pelo bairro inteiro. E era fácil se perder nele. Não havia nada para quebrar a monotonia das ruas. Casas, prédios sóbrios, árvores, e algumas poucas farmácias e padarias. Parecia que a gente não estava no Brasil. Buenos Aires ou Montevideo talvez. É estranho lembrar que as calçadas não tinham buracos e dava para se andar de olhos fechados. De certo modo era o que eu fazia. Aquele foi um ano em branco. Triste dizer que nessa minha história em bairros de São Paulo, história que vai do Caxingui a Paulista, do Brooklyn ao Itaim-Bibi, Higienópolis é uma sombra, manhã fria e um desfilar sem fim de casas fechadas e exageradas. Recordo então que não consegui tirar uma nota maior que seis em todo o ano e que fui reprovado já em agosto. Um desastre!
   Mas eu posso salvar algo desse ano... Porque no âmago de todo esse azedume flácido, eu sentia a certeza de um amor inflado. Me apaixonei pela menina mais esquisita da escola, uma loura espinhuda e magra, que em minha mente romântica era a encarnação de Anita Pallemberg em Higienópolis. E eu, ao som de Their Satanic Majesties Request, seria seu Brian Jones difamado e destrutivo. Nunca em minha vida, antes ou depois, fui tão rocknroll. Andar pelas ruas de lá era cantar baixinho: No Expectations e Paper Sun. Estava só, mas posso dizer que aquela sombra foi minha iniciação ao sublime.
   Por isso eu odeio não só Higienópolis como a Consolação. Para mim eles serão sempre frios e embalados em fumaça e couro duro. Mas é lá que ficou um resto, algum nó não desatado, uma chance esquecida, uma canção ainda em andamento. Higienópolis é minha sombra. Terra de meus vampiros, do medo da perdição e dos desafios perdidos.
   Preciso um dia lá voltar.

AO LONGO DO RIOCORRENTE- RICHARD ELLMANN, WILDE-YEATS-JOYCE-FREUD-ELIOT

   Coletânea de ensaios sobre autores do período 1890/1910, o que une os autores estudados, Yeats, Eliot, Joyce, Pound e Freud é seu amor pelo simbolismo, a criação e o uso de símbolos arcaicos, utilizados para dar luz ao "desconforto diante da vida material". Dessa forma, todos eles criaram uma espécie de mitologia particular, ferramentas para dar sentido àquilo que os aturdia.
   Richard Ellmann, americano, biógrafo e excelente crítico, foi professor em Yale e Oxford. É dele a icônica biografia de Oscar Wilde e também as definitivas sobre James Joyce e Yeats. O modo de abordagem de Ellmann propõe uma nova visão, que se ignore os chavões grudados ao autor e que se perceba, sem medo, a verdade óbvia. Verdade que foi esquecida com o tempo. A montanha de estudos banais feitos sobre cada um desses autores perpetuou certos fatos que reduziram sua complexidade. Foi tatuado em Yeats o perfil de autor folclórico, cantor de fadas e de heróis, exotérico espiritualista, nacionalista iralndês. O livro tem três textos sobre o poeta e mostra o quanto esse perfil é redutor ao extremo. William Butler Yeats sentia o desconforto da "vida imperfeita", mas jamais foi um exotérico como o foi Mallarmé. A linguagem de Yeats é sempre centrada na vida material. Ele não cria códigos cifrados, enigmas de sentido obscuro, como faz o francês. Yeats, sempre apaixonado pela vida dos sentidos, tenta encontrar o sagrado na carne, a perfeição na vida. Toda sua produção nada tem de abstrata-pura.
   Muito conhecida é a história do amor de Yeats por Maud Gonne. O amor do poeta pela rebelde iralndesa, o amor do puro espirito pela mulher de ação. Bobagem! Ellmann entrevista Maud Gonne e nota que os dois chegaram a ser amantes. Assim como a vida de Yeats foi repleta de casos sexuais. Fascinado pela vida sensual, Yeats procurava separar as duas vidas possíveis: a da perfeição, que seria possível apenas na arte e na alma, e a vida bela porém imperfeita da carne. A luta entre essas duas forças se trava em toda sua obra. Uma luta sem vencedor ou vencido.
   Ellmann escreve o mais belo capítulo do livro ao visitar a casa de Georgie, a esposa de Yeats. Já octogenária, os dois remexem nos arquivos, brincam com objetos, recordam. Muito mais jovem que Yeats ( ele se casou apenas aos 52 anos e manteve casos até o fim ), Georgie era o oposto do poeta. Ela se mostra uma mulher firme, decidida, teimosa. E uma inteligente leitora do marido. Segundo Yeats, ela lhe deu paz, conforto, e opiniões brilhantes sobre poesia, ocultismo e filosofia. O que se depreende da vida do poeta é sua sorte. Yeats viveu uma vida rica. Plena, maravilhosa.
   O livro vai nesse objetivo. Todos os analisados ( com exceção de Freud ), foram amigos. Ou no mínimo se encontraram por algumas vezes e se influenciaram. Oscar Wilde começa o primeiro capítulo. Sua influência por toda a inteligência do final do século XIX é gigantesca. Dele deriva Yeats ( que se apaixonou pela casa de Wilde quando o visitou ainda muito jovem ), de Yeats vem Pound e de Pound Joyce. Pound foi secretário de Yeats e amigo de Joyce. Joyce foi fã de Yeats e depois o negou. E Eliot foi discípulo e crítico de todos eles. Foi um momento muito interessante. Ellmann demonstra a conciência que todos tinham do período. 1900 foi um marco. O velho é jogado fora de forma deliberada. Eles escrevem que o cinetificismo do século XIX não mais lhes serve. Que o positivismo, o realismo, são passado-morto. Tudo agora é novo. Freud se encaixa nesse contexto, Seus textos são parte desse simbolismo, tentativa de demonstrar a falencia da razão pura. Embate entre carne e alma, limite e desejo, imperfeição e perfeição, belo e feio, Apolo e Dionísio.

SOBRE O INFINITO, O UNIVERSO E OS MUNDOS- GIORDANO BRUNO, A PAIXÃO PELO ILIMITADO

   Bruno foi queimado em Roma, 1600. Sem abrir mão de sua crença, Bruno olhou para os céus, tendo a plena certeza de que tudo é infinito. Porque o Papa tanto o detestava? O que havia de tão terrível em sua filosofia? Ele jamais deixa de crer em Deus, jamais abraça a fé protestante. Qual seu pecado?
   Ele foi monge e abandonou a igreja quando desenvolveu sua filosofia ( da qual já falo ). Sua vida passa a ser uma viagem constante: Suiça, Alemanha e Inglaterra. É na ilha que ele escreve sua maior obra, "Sobre o Infinito". Pensando que a Itália já fosse segura, ele vai à Veneza, dar aulas para um nobre. Traído, é entregue a Roma, condenado e queimado vivo.
   Giordano Bruno foi um homem típico da renascença. Ele unia ciência a arte, magia a religião, filosofia e poesia, bem-viver e bem-pensar. Em si havia a sede de saber e de fazer. O homem renascentista é sempre um homem de ação, um insatisfeito que faz coisas. Um pensador que mede a vida pelo tamanho do homem. E para Bruno, tudo era infinito. Espaço, criatividade, Deus, a memória, tudo infinitamente sem forma, sem tamanho e sem volume.
   Em seu livro, escrito em forma de diálogo, Aristóteles é atacado. E com ele, toda a filosofia da idade média cai por terra. Bruno afirma que se Deus é onipotente, então seu poder é ilimitado. Se seu poder não tem limites, então ele só deseja e só pode criar o que não tem limites. Não haveria sentido em que um Ser ilimitado criasse algo limitado. Portanto o universo é infinito. Mais que isso, existem infinitos sóis e infinitas Terras. Gente em outros mundos. O universo é infinito e dentro dele existem mundos finitos. Todo esse pensamento é radicalmente contrário ao que se difundia na era medieval. Bruno afirma ainda que nada termina, as coisas se transformam. O que é será sempre sob outra forma. Não existe alto e baixo, todo lado que se olhe é infinito. A Terra não é o centro privilegiado do universo, ela é apenas um dos mundos possíveis. Mundos vários, vida que muda, universo sem fim e sempre vivo.
   Mas Bruno não desvaloriza o homem. Para ele, a mente humana é tão infinita quanto a mente divina. Na imaginação, na sensibilidade, o homem atinge o infinito. Deus está em todas as coisas, inclusive na mente do homem, mente que é sem forma e sem fixidez como é o universo. O homem tem a obrigação moral de usar essa capacidade divina de sua mente. Em seu espírito vive o infinito e a infinita capacidade de criar e de entender.
   Vale dizer que o volume começa com uma carta que Bruno envia ao ilustríssimo senhor de Castelnau. Poucas vezes em minha vida li algo de tão belo, de tão nobre e de tão alto grau de sabedoria. E é isso que mais se sente ao ler Bruno: Quando Roma fez arder a carne daquele homem, se queimava um nobre, um justo, um ser privilegiado.
   " Daí sucede que não arredo pé do árduo caminho...."
    Giordano Bruno é infinito.

RESNAIS/ BERTOLUCCI/ HATHAWAY/ TOTÓ/ MARIO MONICELLI

   SIMBAD E O OLHO DO TIGRE de Sam Wanamaker com Patrick Wayne e Taryn Power
Ray Harryhausen produziu e escreveu. E, claro, fez os efeitos especiais. Que não encantam. Ray foi perdendo o jeito conforme o tempo avançava. Seu apogeu se deu entre 1960/1964...aqui estamos em 1977... Nota 2.
   ADRENALINA de Neveldine e Taylor com Jason Statham e Amy Smart
Voces sabem: injetam uma droga num matador profissional. Sua adrenalina não pode parar ou ele morre. Então ele corre, briga, bebe cafeína, faz sexo e briga. O filme é hilário! Tem um milhão de efeitos e todos os vicios do cinema atual: é vazio, sem pensamento, anti-estético e grosseiro. Mas tudo é perdoado por sua falta de pose. Ele se sabe idiota e admite sua popicidade teen. Isso o redime. Como condenar algo que me deu hora e meia de prazer? Nota 6.
   MR.MAGOO  de Stanley Tong com Leslie Nielsen e Kelly Lynch
 Se não é a pior comédia da história...chega perto disso. Leslie era ótimo, mas este filme é uma roubada! Em tempo: Inácio Araújo falou esta semana da boa fase que a comédia viveu nos anos 80. Ele citou Steve Martin, John Candy, Crystal, Murray...Comédias que ainda eram humanas, ainda tinham personagens com alguma profundidade. Ele se esqueceu de Leslie Nielsen. Este filme? Esqueça! Nota ZERO
   POLICIA E LADRÃO de Mario Monicelli e Steno com Totó e Aldo Fabrizi
Seria Totó o maior humorista da história do século XX? Nascido como um nobre italiano, tornado ator, o rosto de Totó, sua voz, os movimentos de seu corpo, são das coisas mais elaboradas, mais encantadoras da arte do riso. Aqui ele é um malandro que vive de golpes. Aldo Fabrizi é o policial que o persegue. Estamos na Roma de 1951. Uma cidade inacreditávelmente pobre. O filme é todo entre lama e favelas. E seu povo. Um pensamento: o povo mais anti-americano do mundo nunca foi o russo. É o italiano. Vemos o porque neste filme. Há um orgulho em se burlar a lei, em não se fazer nada, um prazer no improviso, no diálogo cheio de duplos sentidos, na vagabundagem, na negação a produção e ao tempo como dinheiro. E ao final, o ápice do humanismo, o policial e o ladrão se reconhecem como atores de um mesmo drama, como faces da mesma verdade. Monicelli amava gente. Seu cinema é sempre um olhar amoroso a gente comum. A gente que luta para poder continuar a lutar. Este filme, em que pese o começo hesitante, é maravilhoso! Nota 9.
   VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA! de Alain Resnais com Pierre Arditi, Lambert Wilson, Sabine Azéma e Michel Picoli
Por quinze minutos o filme parece ser fascinante. Sentimos na tela a inteligência de Alain Resnais. Ele que é um dos mais intelectualizados dos diretores da história. Aos quase cem anos de idade, vemos nesses minutos a promessa de invenção. Como aconteceu com Altman, que morreu mais jovem que 99% dos diretores, Resnais nos provoca e promete. Mas então tudo se arruina. O filme morre em diálogos frios e em truques que se repetem. O tédio chega avassalador. Impossível suportar. Chato, chato e chato. Darei um 4 para Resnais? Ou sairei pela tangente da covardia do sem nota? Não, darei a nota: 3.
   TRAMA MACABRA de Alfred Hitchcock com Bruce Dern, Barbara Harris e Karen Black
É o último filme do mestre e eu lembro das críticas da época: péssimas. Os críticos tinham prazer em falar da pobreza do roteiro e da indigência das imagens. Well...visto hoje, neste tempo de roteiros pobres e imagens banais, este filme parece menos ruim. Mas continua a ser comum. Na verdade ele é como um bom episódio de alguma série de tv. Toda a primeira parte é bem chata, a parte final se encontra em ação interessante e bom suspense. O mestre havia morrido para o cinema em 1964 com Marnie. Deu um suspiro em 1972 com o ótimo Frenesi. Este deve ser evitado. Nota 4.
   EU E VOCÊ de Bernardo Bertolucci
Ainda não estreou aqui. Bernardo achou um jovem ator que tem a cara do Malcolm McDowell da Laranja Mecânica de Kubrick. E o filme é esse rosto. Confesso ser suspeito para falar deste filme. Eu fui aos 15 anos como aquele jovem. Ele usa cabelo longo e tem espinhas. Nas férias finge ir a excursão da escola. Na verdade ele se isola no porão de sua própria casa. Lá, com comida estocada, roupas e bebida, ele pensa poder ser feliz. Mas uma meia-irmã, junkie, surge e muda tudo. O filme termina ( ele é curto ), com David Bowie -Space Oddity. Bertolucci continua adolescente. Isso é emocionante. Ele olha para o garoto como cúmplice. Em 1968 ele filmou Partner, retrato do adolescente de então. Um filme esquizóide e hiper-radical. E desde então ele tem nos dado esses retratos de adolescentes e de seus tempos. Não sei se este jovem é um cara de 2013. Como falei, eu fui como ele e não fui/sou um adolescente de 2013. É um filme modesto, sem compromisso, franciscano, pobre. E que apesar de ter tanta coisa para me agradar me deixou entediado. Fácil saber porque. Se o garoto tem um rosto que funciona, a irmã é uma mala-sem-alça, feita por atriz limitada e pouco marcante. Quando ela surge o filme desaba. Já que o jovem me lembrou McDowell, bem que Bernardo podia ter conseguido uma "Maria Schneider". Nota 6.
   A LEGIÃO SUICIDA de Henry Hathaway com Gary Cooper e David Niven
Hathaway foi um dos grandes diretores de aventura do cinema. Nos anos 30, ele, Wellman e Curtiz criaram toda a forma, todo o molde que seria usado naquilo que até hoje é o filme de aventuras. Um herói solitário e nobre, a ação que irrompe súbita, as façanhas, o humor do amigo do herói, a "mocinha" que o ajuda, o vilão frio e trapaceiro. Esqueça a modernidade, este filme prega o colonialismo desavergonhadamente. Filipinas. Americanos ensinam os "nativos" a se defender. Cooper, sempre elegante e sempre com sua voz firme e o olhar alegre, é um médico que serve o exército. O filme tem assassinatos, doenças, rivalidades, brigas e emboscadas. A ação é muito boa. Uma bela diversão à antiga. Nota 7.

O VENTO NOS SALGUEIROS- KENNETH GRAHAME, O LUGAR DA FELICIDADE

   Em seu ótimo livro, OS LIVROS E OS DIAS, relato em que Alberto Manguel fala dos doze livros escolhidos para simbolizar os doze meses do ano, O Vento Nos Salgueiros é colocado às alturas. 
   Finalmente encontro esse livro em edição nacional. Traduzido por Ivan Ângelo, editora Richmond, este livro é para as crianças anglo-saxãs aquilo que O Sitio do Pica-Pau Amarelo era para nós. Lugar de encontro, romance de formação, canto sobre o que seja ser criança, encanto e liberdade. A diferença é que os valores do livro de Monteiro Lobato remetem a familia, o livro de Grahame fala do maior dos valores vitorianos: a casa, o canto, o lar. Escrito em 1904, na era que nos deu o Peter Pan de Barrie, o que as aventuras de O vento podem dizer a um adulto de 2013? Segundo Manguel, uma magia de paz e de conforto. A obra tem um apelo irresistível, ela nos mostra aquilo que mais precisamos ter: proteção. 
   O livro é maravilhoso. Fala de uma Toupeira que resolve sair da toca e ver o mundo. O mundo, diga-se, de uma Toupeira, mundo bem curto e pequeno. Ela encontra o Rato D'Água e logo são amigos. Nesse encontro ficamos sabendo da casa onde vive o Rato. E então percebemos do que trata o texto. Da doçura do lar. De lareiras quentes e de de sofás macios. Das janelas e das portas. E da amizade entre seres comuns, banais até. Não há um herói. São seres com medo, com curiosidade e que têm o dom dos animais: sabem sentir as coisas. Esses lares são escolhidos por seu cheiro. 
   Momento de maestria ( e de simplicidade ) se sucedem. Há a tempestade de neve que surpreende os amigos. A casa do Texugo é encontrada e podemos sentir o alivio dos dois ao entrar na casa quente e tomar a sopa farta na mesa da sala. Um outro momento, esse tão forte em magia como aquele do lago em O LAGO SAGRADO de Atwood, acontece quando um filhote de Lontra é resgatado no bosque. Nessa busca o Toupeira entra em transe e é guiado por Pan, o deus grego da floresta. É um capitulo maravilhosamente bem escrito, deliramos no delirio do Toupeira,  páginas que nos fazem ansiar por mais cenas como essa. Pena, elas não surgem. 
   O final do livro traz as aventuras do Sapo, um aventureiro milionário, hedonista, viciado em carros, gastador. Confesso que é um personagem "menos bom". Não gostei do Sapo como adorei o Toupeira, O Texugo e o Rato. 
   Kenneth Grahame criou os personagens e suas aventuras de improviso, inventando tudo no quarto do filho, tentando fazê-lo dormir. Lançando esse material em livro, três anos mais tarde, O Vento Nos Salgueiros se tornou rapidamente um ícone da literatura infantil inglesa. Surgido na hora certa e no lugar certo, o livro faz parte do movimento que valorizou a infância e o lar, o conforto e a segurança na mente inglesa. De Alice à Peter Pan, de Roger Rabbit à Mogli, este é o momento chave das letras para crianças.
   Grahame descreve o lar do Rato pronto para o inverno. Comida, ordem, paz, quietude. Concordo com Manguel. Kenneth Grahame era um mestre na descrição do que seja o bem-estar. 
   Ler este livro é um grande "bem-estar".

OZON/ FREUD/ BILLY CRYSTAL/ LANCASTER/ BORZAGE

   UMA FAMILIA EM APUROS de Andy Fickman com Billy Crystal, Bette Midler e Marisa Tomei
Avôs alegres e soltos e netos de vida programada e utilitária. Óbvio que os avôs irão salvar a vida chata dos netos. O roteiro nada tem de novo. Mas o filme se mantém ok. Porque? Billy Crystal é um tremendo comediante! E Bette Midler sempre foi uma diva. Tomei, ainda bonita, é a filha dos dois e mãe dos tais netos problemáticos. Nota 4.
   ANGÉLICA E O SULTÃO de Bernard Borderie com Michele Mercier e Robert Hossein
Um pavor! Este filme foi um hit na França dos anos 60. Tanto que foram feitas cinco sequências. Nos anos 70, na Tv Tupi, ele foi um dos primeiros a despertar minha "paixão" por um símbolo sexual. Lembro de assistir escondido, de madrugada. Visto agora é uma imensa decepção! Tem a pior trilha sonora da história, ação mediocre e nenhuma emoção. E Michele nem era tão bonita! Nota ZERO.
   FREUD ALÉM DA ALMA de John Huston com Montgomery Clift, Susannah York e Larry Parks
Existem momentos em nossa vida que são decisivos. Houve uma madrugada quando eu tinha 15 anos que foi assim. Na Globo passou, era segunda-feira, este filme no Corujão. Porque o assisiti? Uma bela crítica no JT. Fiquei abestalhado quando o vi. Tudo nele me enfeitiçou: o p/b genial e austero de Oswald Morris, a trilha sonora de Jerry Goldsmith, trilha que usa até mesmo música eletrônica-concreta. O romantismo rebelde do homem inovador contra tudo e contra todos, a incompreensão de seus colegas. O tom sofrido de Clift, numa atuação que joga em nossa cara um misto de inteligência e perdição. É um Freud sempre crível. A beleza dos pesadelos vienenses.... Lembro que não consegui dormir. Esperei minha mãe acordar para lhe dizer, às seis da manhã, que meu futuro se decidira: eu iria ser um psicólogo. Freud se tornou um de  meus ídolos por vinte anos. Depois percebi que meu ídolo era na verdade John Huston que fizera o filme. O filme passou esta semana em versão dublada na Cultura. Pensei em não o rever. Freud a muito se tornou um passado morto para mim. Mas não resisto. O filme volta a me enfeitiçar. E noto então que o que me seduzira fora a narrativa, a saga do intelectual contra o mundo, a saga da curiosidade em sua jornada e principalmente o soberbo e sublime clima vitoriano que o filme exala. Não me fiz psicólogo e não lamento isso. Me fiz um tipo de vitoriano. O filme antecipou sentimentos que eu encontraria em Henry James. Esteticamente é um primor. Huston, diretor de homens solitários contra seu meio, diretor dos derrotados, venceu. Nota DEZ!
   STREET ANGEL de Frank Borzage com Janet Gaynor e Charles Farrell
Gaynor ganhou o Oscar de atriz em 1929 por este filme. Que é um belo exemplo de filme silencioso. A câmera desliza, rola por ruas e fachadas, voa. Janet é uma moça sem lar que se une a trupe de circo. Há um bocado de alegria no filme. Uma alegria tristonha. Borzage foi um dos primeiros grandes do cinema americano. Os rostos são fascinantes. Nota 7.
   O ESPADACHIM NEGRO de Tay Garnett com Alan Ladd e Patricia Medina
Boa aventura medieval. Há ritmo na história chavão do ferreiro pobre que se disfarça de cavaleiro negro para se vingar de injustiças. Eu adoro filmes que usam espadas, muralhas e cavalos. Aqui temos tudo isso. Ladd não convence muito como herói medieval, ele é muito baixo e meio americano demais, mas a coisa funciona por causa de sua rapidez e falta de seriedade. Nota 5.
   DENTRO DE CASA de François Ozon com Fabrice Luchinni, Emmanuelle Beart e Kristin Scott Thomas
Tenho me "obrigado" a acompanhar o cinema atual. Tento ficar razoavelmente por dentro daquilo que rola nas telas deste século. E está na hora de confessar...não é fácil ! Tenho sido condescendente com filmes feitos de 2000 para cá. Quero gostar deles. Não os comparo aos clássicos. Os comparo com filmes de seu tempo. Mas, para ser sincero, isso começa a me enjoar. Quando entrei na era do dvd, passei três maravilhosos anos em que descobri 80% dos clássicos do cinema. Minha paixão foi lá em cima ! Que noites fantásticas ao lado dos filmes dos anos 30, 40, 50... Mas agora...É tudo tão pobre! Veja este filme: Um suspensezinho muito do comum que alguns críticos, e eu os entendo, colocam em alto posto. Não é um filme ruim. Apenas banal. Um aluno enrola um professor com redações que contam seu envolvimento com familia de amigo. É só isso. Devo dizer que o filminho cansa aos 40 minutos. Nota 3.
   BASTA, EU SOU A LEI de Burt Kennedy com Robert Mitchum, George Kennedy e Martin Balsam
Mitchum já era um veterano neste western que brinca com a velhice. Ele é um xerife que é aposentado por idade. Mas acaba por se unir a ex-rival e juntos eles salvam a cidade. Como se pode notar, o tom é leve, mas o tema é sério: a idade dos heróis, o momento em que o velho mundo dos cowboys morre e eles são afastados. Pode-se dizer que o filme fala também do fim do filme de western também. É um bom filme. Mitchum atua de seu modo distanciado. Kennedy está ótimo. Nota 6.
   APACHE de Robert Aldrich com Burt Lancaster
Dificil aceitar Burt como um apache. É um filme duro em seu começo. Vemos os apaches como judeus em campo nazista. Burt Lancaster é Masai, que foge a pé do exilio e volta a sua terra. Os brancos o perseguem. Aldrich foi um excelente e forte diretor. Sua filmografia é repleta de presentes dados ao público. De "Baby Jane" à "The Dirty Dozen". Ele se perde aqui ao esticar demais as cenas de romance. O filme cai e não se ergue mais. Pena. Nota 4.