ESTAMOS CHORANDO A BEIRA MAR

   Nunca tivemos tanto. Temos roupas, temos comida e remédios. Um homem assalariado, comum, tem hoje coisas que seriam impensáveis em 1950. Não falo de celulares ou PCs, eu falo do básico. Mas, estranhamente, nunca fomos tão "sem nada". Sigo o raciocínio de Olgária Mattos e da poesia de Kaváfis, perdemos a liberdade e a criatividade, com isso perdemos a viagem.
   As coisas existem em certa proporção e para ter uma nova coisa é preciso perder uma outra. Troca-se. Nossa fartura ocupa o espaço de outras coisas que se vão. A liberdade de nada ter trazia a liberdade de poder partir sem olhar para trás. E essa liberdade, mesmo que apenas sonhada, trazia consigo o dom de sonhar e de tentar. A criatividade. Temos coisas e não sabemos o que fazer com elas, ou pior, não sabemos também o que fazer sem elas. Nunca fomos tão dependentes do trabalho de outros. Não conseguimos sobreviver a sós. Precisamos de celulares, de carros, de protetor solar e de enlatados. A sós ao lado de um rio morreríamos de fome e com dor de barriga não saberíamos que chá fazer.
   Nossas crianças perdem o dom de imaginar. Não sabem mais inventar brincadeiras e construir brinquedos. As mãos perdem sua magia e com elas se vai a criação. Adultos, não mais temos um ideal e ficamos passivos a espera de alguém que nos dê ou venda uma invenção. Nova. Nunca tivemos tanto e nunca tivemos tão pouco.
   Jamais iremos saber cultivar, domar, fazer, ser outra vez? Coisas sagradas se tornam jogos ou brinquedos. Sexo é hoje um brinquedo e a guerra um jogo. A morte uma cerimônia vazia de sentido e o casamento uma chatice sem porque, uma lingua que esquecemos da tradução. Esquecemos. Vamos apagando da memória o que significa familia, amor, religião, arte, beleza. E então falamos sem pensar que tudo isso é um nada sem sentido. Na verdade não conseguimos lembrar do sentido, não entendemos mais essa linguagem. Nossa memória se ocupa de outras coisas... do que mesmo?
   Perder a lembrança de familia ou de religião seria aceitável se fôssemos felizes sem elas. Mas não é o que ocorre. Terapias, drogas, armas e vicios provam o contrário. A vida tem se desvalorizado. Dizer que uma vida é "mistério sagrado" parece hoje uma bobice.
   Vivemos um tempo em que até mesmo a poesia é não-poética.
   Ulysses lutou dez anos em Tróia. E levou outros dez para voltar para casa e para sua esposa. Nessa volta ele foi amante de uma feiticeira e viveu com ela na mais linda das ilhas. Nessa ilha tudo havia e nada era ruim. O mais lindo sol, o mais lindo mar e a ausência de dores e de doenças. Sexo, comida, prazer. Mas toda noite, escondido, Ulysses ia à praia e chorava. Ansiava por partir. Voltar à feia, pobre e triste Ítaca.
   Então um dia Ulysses parte. Sem saber se irá sobreviver a viagem, sem saber quanto tempo irá gastar no mar, ele se vai e abandona a ilha da felicidade. Ulysses se lança a dúvida, ao precário, e volta a ser ele-mesmo. De volta a aventura, ele readquire sua criatividade, sua independencia e suas opções. Mais que tudo, ele espera...Espera retornar, Ulysses é feliz, Ulysses volta a ter fé, ele espera e confia.
   Veja bem, Ulysses volta a ser feliz mas não a ser contente. Ele foi contente na ilha, no mar ele é sério, ele é feliz.
   Não é preciso que eu diga que vivemos na ilha. E que Homero teve a intuição divina da armadilha que o futuro nos preparava. Estamos contentes. Estamos chorando a beira mar.

LES MISERÁBLES/ CLINT/ DE MILLE/ ELVIS/ TIM BURTON/ STAR WARS

   OS MISERÁVEIS de Tom Hooper com Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway e Amanda Seyfried
Li o livro de Victor Hugo aos 15 anos e lembro de ter ficado muito impressionado com seu realismo. Das versões do cinema não vi nenhuma, e agora tive o prazer de assistir esta versão da peça da Broadway. Primeiro toque para aqueles muitos que não têm intimidade com musicais: este filme nada tem a ver com o musical clássico de Hollywood. Aqui ninguém dança, não há aquele alegre sabor jazzístico de Kelly, Astaire e etc. Os Miseráveis está muito mais próximo da ópera que do sapateado. No musical típico há diálogos, as canções entram para expor aquilo que se passa dentro dos perosnagens. As músicas são as emoções que se explicitam. Aqui tudo é cantado. O filme não tem um só diálogo, como na ópera, os atores falam cantando. É estranho até para mim que amo musicais, imagino um tradicional expectador de Arkansas o que sentirá vendo este filme ( nada, ele não o verá ). Porém, passado o choque do começo, tudo deslancha. Tom Hooper, o ótimo diretor de Malditos United e do oscarizado Discurso do Rei, entrega um filme repleto de emoção.
Antes de mais nada quero falar sobre e homenagear Hugh Jackman. Nas quase 3 horas de filme, em nenhum momento, ele deixa de passar a dor terrível que acomete Jean Valjean. Jean roubou para comer e vai pagar por isso para sempre. Ele foge da lei, tenta  ser um outro, e nessa fuga ele vive só, sempre só. Jackman consegue passar essa dor com olhares, modos de andar e com sua voz. Hugh Jackman canta muito bem e as canções, todas, são ótimas ( algumas excelentes ). Eis um ator completo! Hugh sabe fazer aventuras, comédia, drama, e musical. Completo. Juro que não quero ser "diferente", mas não gostei de Anne Hathaway. Ela exagera e passa do ponto. Sua personagem mais que sofre, ela hiper-atua. Anne é da escola Heath Ledger, atuação como sintoma. Já Amanda Seyfried dá um show. Exata, complexa, rica em conflitos. Russell Crowe destoa. Não canta mal, mas não atua, apenas posa. 
Gostei muito do filme, cheguei a chorar ao final, mas ele tem algumas falhas, falhas que se devem mais ao cinema feito hoje que a Hooper. Closes demais, cores pobres, câmera tremida, excesso de cortes. O visual do filme, que "parece" ser exuberante, quase se perde nessa confusão de estilos televisivos. Quando a pressa se abranda, temos cenas belíssimas como aquela do começo no cais, ou a cena das barricadas.
O tema é rico, o filme fala do momento crucial em que o povo toma definitivamente o poder. O poder não financeiro, mas o poder de fazer com que a história saia dos palácios e dos gabinetes e passe a ser contada nas ruas. A terrível miséria da França de 1830 é mostrada sem disfarces e todas as revoltas são perdidas. O povo perde, mas a história dá sua guinada. É nos esfarrapados que vive o futuro. O futuro é de Jean Valjean. O futuro seria de Victor Hugo, o primeiro intelectual-artista "de esquerda". Quem deixar de ver o filme irá imaginar que ele trata de amor, que engano! Os Miseráveis é sobre a miséria e a injustiça. O filme nunca foge disso.
Em que pese o belo PI e o divertido DJANGO, nada vi de melhor entre os indicados ao Oscar. Nota 8.
   CURVAS DA VIDA de Robert Lorenz com Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake e John Goodman
Um velho que está ficando cego. Ele é olheiro de beisebol. A filha, advogada de sucesso, tenta uma reaproximação. É dificil pois o velho é duro como...Walt Kowalski ! Um filme simpático, familiar e completamente banal. Nada nele surpreende, tudo o que acontece é esperado. Clint está cansado e Amy é uma atriz muito interessante. Não é um filme ruim, nem bom, é antes opaco. Nota 5.
   COISAS DA COSA NOSTRA de Steno com Carlo Giuffré, Pamela Tiffin, Jean-Claude Brialy e Vittório de Sica
Entre 1955 e 1975 a Itália chegou a ameaçar seriamente o poderio do cinema dos USA. Os italianos faziam filmes de arte melhores que os americanos e além disso tinham uma grande produção industrial de comédias, aventuras, terror e até westerns. Em 1962 e 63 quase fizeram tantos filmes/ano como Hollywood. Esta comédia representa a produção banal da época, o tipo de filme vulgar, que era dirigido ao povão, aos cinemas de subúrbio. Eram filmes como este que financiavam os Bertolucci e os Taviani. Fala da máfia Siciliana em estilo chanchada. Nota 3.
   O IMPOSSÍVEL de Bayona com Naomi Watts e Ewan MacGregor
Lixo. Naomi concorre ao Oscar por este papel.. Well....ela sofre pacas! Mas o prêmio se vier deveria ir para a maquiagem, são boas bandagens. Talvez seja o filme mais aborrecido do ano. Masoquistas vão adorar. Nota 1
   CORNERED de Edward Dmytryck com Dick Powell e Walter Slezack
Uma complicada trama sobre soldado americano que caça francês que lutou ao lado dos nazis. O filme é bom, mas decepciona. Dmytryck e Powell podiam bem mais. Nota 5.
   SANSÃO E DALILA de Cecil B. de Mille com Victor Mature e Hedy Lamarr
De Mille nunca errou por superestimar o público. Ele fazia um cinema carnaval, seus épicos eram desfiles opulentos. Se numa cena houvesse a necessidade de elefantes, De Mille punha logo uma dúzia... e mais tigres e leões. Misturava sexo com a Bíblia e tudo ficava com cara de show da Broadway. Foi o rei da Paramount e num tempo em que ninguém estava nem aí pra diretores, ele foi um superstar. Já vi quase todos seus filmes e gostei de todos, menos deste. Ele erra. Porque? Porque tanto Sansão como Dalila são dois malas. Groucho Marx comentou este filme na época:" Jamais veria um filme em que o peito do ator é maior que da atriz". Nota 2
   O BACANA DO VOLANTE de Norman Taurog com Elvis Presley, Nancy Sinatra e Bill Bixby
Quando eu era criança, lá por 1974, a Globo passava tudo de Elvis na Sessão da Tarde. E eu odiava. Em 74 nada era mais velho que Elvis. Fico surpreso ao perceber hoje que este filme, por exemplo, tinha apenas seis anos em 1974. O mundo mudara demais entre 68 e 74 e esses jovens de cabelo curto, alegrinhos correndo atrás de garotas groovy pareciam então a coisa mais careta do universo. Revisto hoje o filme me deu um choque...ele é pior do que eu lembrava. Quer dizer, ainda pior, quase um pesadelo!!! O tempo é mesmo relativo...um filme de William Powell feito em 1935 parece mais vivo que um Elvis de 1968...Bem, hoje Matrix já cheira a mofo... Nota ZERO
   FRANKENWEENIE de Tim Burton
E Burton pode ganhar afinal seu Oscar!! Com esta animação dark que fala de menino que traz seu cachorro de volta a vida. Burton homenageia os Gremlins e ainda Frankenstein, Drácula, e uma multidão de pequenos filmes trash. Há algo de muito triste neste desenho. É um retrato acabado de uma alma inadaptada, tão inadaptada que recusa a morte e o tempo. Tim Burton é um poeta. O desenho é muito bom. Nota 7.
   O IMPÉRIO CONTRA-ATACA de Irvin Kershner
Lançado em 1980, um big big big hit. Aventura pura. Um ícone para minha geração é um filme incriticável. Lucas misturou Flash Gordon com Kurosawa e New Age. Mais Han Solo, que é 100% um cowboy. De toda a saga este é o melhor. Kershner foi um bom diretor dos anos 60. Dirige melhor que Lucas. Sabe dar voz aos atores. E que beleza rever R2, Yoda e Chewey!!!

PEDRO JUAN GUTIÉRREZ, HANEKE, VERMEER E LUCY

   Então Haneke disse que usa seus filmes para dar um soco no estômago de seu público? Diz ele que seu povinho só reage a base de socos...Well....É por isso que estou fora desse clubinho. Não quero que me soquem e não preciso de socos para reagir. Sou daqueles que ainda possuem sensibilidade fina. Ainda sei o que significa estética, beleza e ironia. Não preciso do soco. A visão da mão e a consciência de meu estômago já me bastam. Seu cinema é publicitário. Ele entope seus fãs com produtos: socos no estômago. Coisas do tipo: hey! A vida é um lixo! Somos especiais por sabermos disso!
   Minha resposta a esse cinema fake: Blá!
   Um amigo afirma que sou contra psicólogos, filósofos e sociólogos. A priori não sou. Apenas penso que eles são hiper-valorizados. Por eles mesmos! Desconfio de quem vomita certezas. Tenho amigos psicólogos. Admiro aqueles que botam a mão na lama. E duvidam de tudo. Filósofos são boçais quando apenas brincam com palavras. Só creio em filosofias de vida. Sociologia jamais!
   Dá pra resumir tudo assim: Se o sujeito engoliu um dogma sem o desafiar tem meu desprezo. Se ele foi à vida verificar o dogma, bem, aí começamos a nos entender. Frases feitas, mesmo as "profundas", never!
  Vermeer criou cor. Todos nós, e mesmo os artistas apenas "bons", passam pela vida sem criar nada de novo. Os excelentes apenas misturam coisas que já existiam. Gênios como Vermeer são como um deus. Criam alguma coisa nova a partir do inexistente. Milagres.
  O tom daquela pele só existe em Vermeer. 300 anos podem se passar, aquela pele continuará a ser irrepetível. A dobra do tecido é obra da mão de Vermeer. Nenhum outro poderá repetir aquela dobra. Mais do que tudo, esse quadro vive. Vive por falar comigo ( o que aqui escrevo veio de uma conversa com a obra ), ele influencia, escuta, muda ao passar do tempo e se reproduz. O Vermeer que vejo não é aquele que voce vê. Eles são vários.
   Pedro Juan Gutierrez. Releio O Ninho da Serpente. Falam que ele lembra Bukowski. Sei lá. Pedro é latino. Ele tem prazer com o sexo. É sempre uma festa. E Pedro não é niilista. Ele crê em vudu, em olho-gordo, em macumba. No mundo de Pedro tudo é questão de destino. Voce tem sorte ou não. Gosto dele...Durante trinta páginas. A partir dái me entedia. Merda, bundas, pinga e fome. Tudo se repete sem parar. A voz do cara é boa. Ele pensa fundo e pensa bem.
   Pedro Juan morreria de tédio na Avenida Paulista.

HITCHCOCK-O MELHOR DA TERRA/ TARANTINO/ PETER JACKSON/ NICOLAS CAGE/ RZA

   KON-TIKI de Joachim Ronning e Espen Sandberg
Concorre a melhor filme estrangeiro no Oscar. E é melhor que Lincoln. Conta a história de Thor Heyerdahl, o antropólogo norueguês que em 1947 cruzou o Pacífico para provar sua teoria. Escrevi texto sobre o filme abaixo. Simples e bem narrado, é um filme bonito, inspirador. Nota 8.
   O HOBBIT de Peter Jackson
O filme tem alguns problemas de planejamento. O livro é curto, Jackson resolveu fazer o filme em 3 partes. Dará um total de sete horas. Isso faz com que a narração seja lenta, feita de longas cenas de conversas. Ou seja, as crianças ficarão entediadas. Quanto aos adultos, bem, o filme é bastante infantil, então vá preparado para isso. Os cenários são lindos, as cenas de batalha excessivas, os diálogos infantis. Não é o lixo que alguns gostam de dizer, mas é aborrecido. Nota 3.
   O HOMEM DOS PUNHOS DE FERRO de RZA com RZA
RZA escreveu, produziu, fez a trilha sonora, dirigiu e atuou. Vixe! Estamos diante de um novo Godard? Um novo Welles? Chaplin? Talvez seu ego ache isso, mas só seu ego ( e suas mocinhas ). O filme é risivel. Fala algo sobre a China de antigamente, misturado com rap, vingança e etc. O texto é tão babaca que parece piada. Os diálogos são dignos das piores letras de funk do Rio. É o pior filme do ano.
   DJANGO de Tarantino com Jamie Foxx, Christoph Waltz e Leo di Caprio
Escrevi sobre ele abaixo. É uma boa diversão Pop. Cheio de humor, de boa ação e alguns diálogos afiados, tem atuações fantásticas de Waltz e de Leo. Os coadjuvantes também brilham, mas, que pena, Foxx não segura o personagem. O herói tem zero de carisma. E Tarantino estica o final, a meia hora derradeira podia ter sido eliminada. Mesmo assim temos o padrão Tarantino de diversão: boas músicas, frases bem sacadas e tipos interessantes. Divirta-se!!! Nota 7.
   O RESGATE de Simon West com Nicolas Cage, Josh Lucas, Danny Huston e Malin Akerman
Bom filme de ação. Um cara rouba um banco e é preso. Após oito anos, solto, tem sua filha sequestrada. Adoro filmes de ação! São muito dificeis de fazer. É uma arte conseguir manter o suspense, a ação não parecer ofensivamente tola, saber quando cortar e quando deixar rolar. West é um bom diretor desse estilo. Assistimos o filme com prazer, torcemos, nos emocionamos. Cinema é arte de ação. Isto é cinema. Cage se diverte, e Malin Akerman é uma das mais bonitas atrizes de agora. Nota 6.
   FRENESI de Alfred Hitchcock com Jon Finch, Alec McCowen e Vivien Merchant
Voce assiste os indicados ao Oscar deste ano. Tenta gostar deles, ver alguma arte naquilo tudo. Se convence de que o cinema ainda tem relevãncia. Mas daí vem o velho Hitch e acaba com as ilusões. Voce assiste Frenesi e lembra então de como um filme podia ser bom, do quanto o cinema era mágico. É até covardia!!! Hitchcock foi o maior cineasta da história! Veja este filme: Feito em 1972, é o penúltimo filme da carreira do mestre. Aqui Hitch volta a filmar em Londres, após 34 anos de USA. Nessa época, Hitchcock vinha de dois fracassos e era chamado de decadente. Mas com Frenesi ele ressuscita e volta ao sucesso. E que filme maravilhoso este é! Em Londres, mulheres são estranguladas com uma gravata. A policia procura o assassino. Ao mesmo tempo, acompanhamos um inocente que é acusado. Ou seja, tipico roteiro à la Hitchcock. Aqui escrito por Anthony Shaffer, um dos grandes teatrólogos ingleses de então. Este filme quebra alguns paradigmas de Hitch. As mulheres são todas feias, há cenas de nú e a violência é mais explícita. O filme é perfeito. Tem suspense, humor, e algumas cenas são aulas de direção. Veja aquela do estupro. A forma como a câmera foca os rostos, um seio, as pernas, os olhos. Veja a cena do segundo assassinato, a câmera saindo pelo corredor, descendo as escadas, e os sons da rua aumentando. São assinaturas de genialidade, são toques de estilo que Lincoln, Django ou PI não conseguem ter. A simplicidade refinada, o inesperado. As conversas do inspetor com a esposa são também obras-primas de humor, de inteligência artesanal. E o final, conciso, exato, matemático, sem apelação. Alfred Hitchcock, como não o venerar? Frenesi, que eu não revia a mais de 25 anos é absolutamente perfeito. Humilha a maioria dos filmes. Um maestro! NOTA UM MILHÃO.

DJANGO LIVRE

   Os letreiros são de western-spaguetti e a trilha sonora usa temas de Bacalov e de Morricone, dois gênios das trilhas sonoras ( vi recentemente um documentário na tv Cultura, com a participação de Dave Holmes e da dupla Air, sobre trilhas sonoras. Eles diziam que as melhores trilhas foram feitas entre 65 e 75: John Barry, Henry Mancini, Lalo Schiffrin, Quincy Jones, John Willians, Michel Legrand, Nino Rota, Georges Delerue e Bacalov-Morricone ). Django é nome de um filme da época, um western-spaguetti com Franco Nero. Não se iluda, do Django original só ficou a trilha sonora e uma participação de Nero como um italiano que perde de Di Caprio no Mandingo.
   A unanimidade americana em torno deste filme é merecida, é um filme maravilhoso, mas ela expõe uma crise. Filmes como este, em 1965 ou em 1973, eram feitos de forma sucessiva. O que reafirma minha tese de que Dirty Dozen ou The Great Escape seriam hoje filmes de Oscar. Os amantes de cinema sentem saudades de grandes filmes divertidos, de filmes que misturam arte e Pop, que são inteligentemente entertainment. Fazer filmes de arte sobre o nada se tornou banal, fazer diversão soberba é cada vez mais raro. E a carreira de Quentin mostra isso, ele sabe filmar e sabe narrar.
  Entre os cinco filmes favoritos de Tarantino, pelo menos dois são obras-primas do diálogo: Onde Começa o Inferno de Hawks e Jejum de Amor, também de Howard Hawks. Outro fato mostrado em Django: Tarantino mantém viva a arte do diálogo. O filme tem cenas longuíssimas de diálogo. A amizade entre o alemão e Django é como a de Wayne e Dean Martin em Hawks, toda feita em longos e calmos diálogos. Como em Hawks, temos um mestre e um discípulo em bela interação.
  Alguns podem se incomodar pelo mundo que Tarantino mostra. O mundo dele é o mundo Pop. Nenhum filme dele mostra aquilo que se chama "mundo real". Bem, eu gostaria de perguntar: alguém mostra o mundo real? Dou exemplo. O mundo de Cosmópolis é real? Nunca vi ou vivi naquele mundo. O mundo dos filmes de Wes Anderson é real? O que é o mundo real? Todo filme não é a visão particular de um homem, ou de uma equipe, sobre um mundo que ele imagina? O mundo real de Tarantino, e de seus fãs, é o cinema. Como acontece com Hitchcock, ele cria um mundo baseado em suas paixões internas. E essas paixões são Pop. Para quem é fã, como eu sou, é o mundo onde vivo e onde me formei. O mundo colorido da cultura popular de consumo.
   O filme tem duas falhas, duas grandes falhas que quase o destroem. Uma é sua metragem. Ele termina e vai adiante mais meia-hora que são esquisitas. Parece que Quentin perde o tesão no final. Isso acontece por causa da segunda falha: o elenco.
   Christoph Waltz está magnifico! A criação dele é uma das coisas mais geniais que já vi. É um personagem que ficará na história. Day-Lewis levará o Oscar, mas Waltz está melhor, bem melhor. E temos Di Caprio, compondo um tipo dúbio, feito de sutilezas, de movimentos de sobrancelha, de gestos das mãos. E então, essas duas atuações desequilibram o filme. O herói, Django-Jamie Foxx, não está a altura dos dois. Quando Waltz morre o filme acaba.
   Mas é um grande filme, cheio de cenas memoráveis. Momentos como aquele da KKK, com um Don Johnson hilário, são jóias de diálogo, de criação de tipos e de filmagem. Tarantino não erra uma tomada. Repare como não ficamos reparando nos ângulos de câmera, nas bossas da direção. Esse é o estilo Hawks, a direção que conta a história sem jamais chamar a atenção sobre si-mesma ( estilo esse cada vez mais raro no cinema ). Nos ligamos na história, não na "obra".
   Por fim...o filme é um western, mas é um western-spaguetti. Tem o descompromisso com a veracidade, tem a violência estilizada e falsa, tem o humor dos westerns made in Italy.
   PS: Quentin Tarantino já falou de gangsters, de lutadores de kung fu, de mercenários da segunda-guerra, de vampiros...Ele está pronto para fazer um filme sobre suas raízes made in Italy. Mal posso esperar pra ver.

Bryan Ferry - TOKYO JOE



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Bryan Ferry - This Is Tomorrow



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UMA CRÔNICA SOBRE O AMOR: DE LONDRES 1977 ATÉ SP 2013- IN YOUR MIND, DISCO CHAVE DE BRYAN FERRY

   Existem discos que ficam mofados. Acabo de tentar escutar Avalon do Roxy. Que coisa! Como pode um disco que gostei tanto parecer agora tão vazio? Nenhuma emoção consigo capturar. Faz dançar, é bonito, mas está distante de mim. É isso, o cara que vibrava com Avalon talvez seja hoje muito pouco eu.
   Não é o caso de In Your Mind. O disco é de 1977, mas comprei-o apenas em 1993. Na época pré-cd e muito pré-internet, certos discos eram muito raros. Este era um deles. Vendeu tão pouco que nunca foi lançado no Brasil. E o fato de ter vendido pouco foi uma surpresa.
   Em 1976, com o ego inflado, Bryan Ferry encerra o Roxy Music e se dedica apenas a carreira solo. Com o Roxy acontecera um fato que também ocorrera na mesma época com The Faces: o cantor dar mais atenção a sua carreira fora da banda, e acabar por deixar os companheiros de grupo de lado. Rod Stewart lançava todo ano um disco solo e um disco com The Faces. Ao mesmo tempo, todo ano, Ferry lançava um disco com Roxy e um solo. E ambos,  Rod em 1975, Ferry em 1976, dão um chute final na banda.
   Então em 1976 Bryan Ferry lança seu primeiro disco solo com o Roxy desintegrado ( é seu quarto album solo na verdade ). Let's Stick Together é um disco excelente e é um big hit na Inglaterra ( nunca na América ). Com Rod Stewart cada vez mais longe de seus fãs, Bowie gravando soul music e Elton John começando a decair, Bryan Ferry se torna o nome mais IN de Londres. Todas as modelos querem ele, os fotógrafos lhe perseguem e até cinema ele faz. Escolhe Jerry Hall como namorada, se apaixonam ( a texana Hall era a top model number one do mundo ). Mas, voce sabe, ele é Bryan Ferry, as coisas tinham de se melancolizar.
    Em fins de 1976 Mick Jagger vai assistir um show de Ferry, e nos camarins conhece a namorada de Bryan, Jerry Hall. Fulminante paixão! Mick e Hall serão marido e mulher por mais de vinte anos. Bryan Ferry entra numa dor de cotovelo abissal e há quem diga que seu estilo até hoje é esse: abandonado por Jerry Hall.
   In Your Mind é gravado nesse espirito. Todas as faixas falam de Hall e as vendas foram as piores de sua vida. Era 1977, Londres só tinha ouvidos para disco, punk e ska, reggae e new wave. Em questão de meses Bryan Ferry passou a parecer careta, saudosista, velho. ( Ele estava com 31 ). In Your Mind é soberbo.
   Existem discos que são "bíblias" sobre o amor. São poucos esses discos. Consigo lembrar de Forever Changes do Love, Rattlesnakes de Lloyd Cole, o disco Steve McQueen dos Prefab Sprouts... São albuns que mergulham na paixão amorosa, dialogam com nossos corações, narram os começos e os finais de histórias, nos consolam e nos guiam. In Your Mind é assim.
   This is Tomorrow abre em alto-astral. E tem um solo de guitarra espetacular de Chris Spedding. O som é rico: sinos, teclados, sax e trompete, guitarra, percussão e montes de vozes. É o Pop perfeito, o Pop refinado de Mr.Ferry. All Night Operator começa a mudar o clima e quando entra One Kiss entramos na coisa. One Kiss é um baladão. Uma canção épica de amor comum. O vocal é sublime. Ela é triste mas jamais deprimida. Bryan Ferry sempre chora como Homem, nunca como menino.
   Love Me Madly Again é uma obra-prima. Tem um arranjo de violinos no final que é coisa de gênio. Há tanto para se dizer e tanto para se ouvir nessas canções...
   Tokyo Joe foi a faixa que chegou mais perto do sucesso. É esperta, dançável, muda de andamento toda hora, cheia de barulhinhos à La Eno. E vem Party Doll.
   Party Doll é uma balada-culto. Ferry canta como se estivesse num púlpito, e não a toa ela termina com um "Amém". Tudo nessa canção tem a simplicidade dos clássicos e a complexidade dos eternos. A voz está afirmativa, se impõe e todos os instrumentos soam em coesão. É um desses momentos em que o Pop surpreende. Há muita perfeição aqui.
   Rock of Ages é uma canção que empurra a vida avante e o disco fecha em ponto sublime com In Your Mind. A sequencia dessas duas jóias poucas vezes foi igualada.
   Quando ouvi o disco a primeira vez, numa tarde de dezembro em 1993, eu estava apaixonado. Eu e a menina que amava havíamos combinado: em Janeiro ela terminaria seu noivado e ficaríamos juntos então. Claro que nada deu certo e ela ficou com o cara. Mas em dezembro eu não sabia. Eu apenas sabia que a dividia com outro. In Your Mind caiu feito uma bomba nesse momento. Era a voz certa e a música certa. O disco me consolava e me fazia esperar.
   Hoje, quase vinte anos depois, ele poderia ser mofo, como Avalon. Ser apenas uma lembrança de um amor passado. Bonito. E distante. Mas não. In Your Mind está vivo. Cada acorde dessa multidão de instrumentos, dos baixos sinuosos às percussões fortes, cada palavra da voz de Ferry estão vivos como estavam em 77 e em 93.
  Amém.

MALICIA NEGRA, UM LIVRO MUITO MUITO CRUEL DE EVELYN WAUGH

   Tudo se passa na África oriental. Uma revolução. Imagens de crueldade e personagens ridiculos. Um armênio que só pensa em negociatas. O novo rei, que por ter estudado em Oxford pensa ser um homem muito acima da média. O povo do país, que tem hábitos como os de comer carne de brancos e fazer filhos sem parar. O embaixador da França, que vê tramóias da Inglaterra em tudo. O general do exército do país, um mercenário irlandês bêbado, casado com uma mulher da África, mulher esta que tem por nome "Black Bitch". E no meio de tudo, os ingleses.
   Na embaixada inglesa todos se preocupam com o que é "civilizado". O chá, os cavalos, o correio, os jogos e o jardim. Isso é importante, não essas tais de revoluções, ou guerras ou seja lá o que for... Assim, o embaixador passa o tempo se escondendo do trabalho. A esposa cuida das rosas e a filha pensa em sexo, em homens e em...mais sexo. Enquanto isso, na Inglaterra, um jovem sujo e sexy, aproveitador falido cansado de pegar dinheiro emprestado da mãe e de ir em festas que duram três dias, resolve ir para a África. E vai.
   O novo rei logo o faz seu ministro, o ministro da modernização. O rei baixa novas leis todo dia: proibe o uso de saias para os homens, inaugura um museu, faz uma estrada de ferro, pensa em metrô, proibe a matança de animais, obriga o uso de botas...Explode uma nova revolução. O povo não aceita a obrigatoriedade de se usar camisinha.
   O livro é mirabolante, enfeitiçante e politicamente incorretíssimo. Voce dá gargalhadas com esse mundo duro, absurdo e muito real ( infelizmente ), lugar em que o terceiro mundo se obriga a crescer e a se civilizar, onde reis vaidosos dão titulos de condes e duques a canibais mentirosos. Mundo onde os europeus pouco se importam com o que acontece desde que sejam deixados com suas festas e seus palácios. E não precisem se misturar aos selvagens. Nada é sério e tudo é fatal. Os africanos nada compreendem dessas coisas como democracia, educação ou bons modos brancos; e os brancos nada querem com os africanos. Vivem no país como em sonho.
   Como o livro termina? O que posso falar é que um deles é comido e um outro nada aprende com a história.
   Uma lição que fica: a Inglaterra, como todo império, deveu sua grandeza a algumas gerações de ousados aventureiros e espertos homens de dinheiro; no começo de seu final, uma casta de mimados sem iniciativa e sem ideias passa a dirigir o país. Que funciona ainda graças aos dividendos da riquesa acumulada pelos heróicos primeiros anos. Sempre é assim na história de todo império, seja EUA ou seja Roma, e este livro exibe essa casta em toda sua mediocridade.
   Waugh era uma víbora.

The Kon-Tiki expedition-color film



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New Kon Tiki Trailer 2012



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EXPEDIÇÃO KON-TIKI, FILME DE RONNING E SANDBERG

   Chuck Yeager é um dos meus heróis. E ele foi tema de uma obra-prima do cinema: Os Eleitos de Philip Kauffman. Sam Shepard interpretou Yeager. Agora meu outro grande herói, Thor Heyerdahl, ganha um filme, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. EXPEDIÇÃO KON TIKI é um belíssimo filme da Noruega. Simples, emocionante, discreto, como Thor.
   Em 2005 li em duas semanas dois livros de Heyerdahl: NA TRILHA DE ADÃO e A EXPEDIÇÃO KON TIKI. Digo sem medo de errar, que são dois dos livros que li com mais prazer em minha vida. Cheios de fotos, texto maravilhoso, eles conseguem fazer com que fiquemos plenos de alegria, de fé na vida e principalmente curiosos. Viver é ser curioso, ser inteligente é ter curiosidade, querer conhecer aquilo que não se conhece. Thor é um desses e por isso eu o venero.
   O filme conta a história sem enfeites. Heyerdahl estuda antropologia e lança a teoria ( ridicularizada ) de que os nativos da Polinésia tiveram sua origem não na Asia, mas sim na América do Sul. Ora, diziam todos, como os peruanos poderiam ter povoado as ilhas? Eles não sabiam fazer barcos, só jangadas, e uma jangada jamais poderia cruzar 8000 km no Pacifico. Heyerdahl insiste na ideia, junta uma equipe e parte. Sim, parte! Quase sem recursos vai ao Perú e lá constrói uma jangada, usando os mesmos materiais que os peruanos de 1500 anos atrás teriam a disposição. E parte.
   Detalhe importante: Thor Heyerdahl nada sabia de navegação, e pasmem, não sabia nadar! Forma uma equipe onde um é vendedor de geladeiras, outro é herói de guerra ( é 1947 ) e dos sete homens apenas um já esteve no mar. Fazem a jangada : troncos de madeira, cordas e uma cabana de folhas. Uma vela e nada de leme ou de remos. As correntes do mar irão os guiar, soltos, do Perú até a Polinésia. Essa é a certeza de Thor. E eles se jogam.
   O mar neste filme á mais belo que em PI. Não tem enfeites. E quando eles chegam a ilha, após 101 dias, voce chora com o riso de Thor Heyerdahl. Ele tinha apenas uma certeza, baseada apenas numa fé, sem qualquer evidência, e chegou. Nada pode ser comparado a bela aventura desse não-aventureiro. Nada se compara a alegre jornada desse grupo. Isso se chama heroísmo: um homem e sua certeza se dirige a seu destino sem ajuda de nada mais que sua fé. Obstinadamente ele prova sua verdade e jamais deixa de acreditar naquilo que o move. Se para mais alguém crer naquilo que ele crê era preciso refazer a viagem, ele a refez.
   O filme termina falando do destino da tripulação, e é com alegria que vejo que todos morreram velhinhos, se aventurando em outras paragens.
   Tenho neste momento em minhas mãos os dois livros. Preciso reler. Preciso novamente estar nesse mar. O filme, feito apenas de momentos claros, apenas daquilo que importa, sem firulas e sem exibições, é delicioso. Provávelmente jamais será exibido por aqui. Corram atrás! Voces irão adorar!

BERÇO DO CINEMA COMO O CONHECEMOS: A HISTÓRIA DA UNIVERSAL, CLIVE HIRSCHHORN

   Me surpreende a pobreza da história da Universal. Sempre soube que ela era, dentre as grandes, de segundo escalão. Mas não pensava que ela fosse tão de segunda! Porém, neste grande livro de Clive Hirschhorn, o que salta aos olhos é a ironia: a Universal, de certo modo, inventou sem querer aquilo que chamamos de cinema contemporâneo. Já explico como.
   O livro, cheio de fotos, traz comentários sobre todos os filmes feitos pela Universal. De 1916 até 1985. Daí em diante nem seria interessante continuar, pois aquilo que entendemos por produção deixa de ter a marca, o DNA de um estúdio e passa a ser objeto de produção indistinta, geralmente um conglomerado. Quando voce vê num filme a chancela da Paramount ou da Warner, saiba que o que essas empresas fizeram foi apenas alugar estúdios e distribuir o produto. Mas não era assim, e os pioneiros, amantes de cinema com faro para aquilo que o povo queria, inventaram e criaram os gêneros de filme, aquilo que até hoje chamamos de cinema americano.
   Ricas eram a MGM e a Paramount. Esbanjavam valores de produção e tinham as grandes estrelas nas mãos. A MGM criava filmes históricos, dramas românticos e os musicais. Aquilo que até hoje chamamos de filme de bom gosto, de filme luxuoso, é marca registrada da MGM. Já a Paramount ia pelo caminho da grande aventura e da malicia. Filmes sobre expedições a lugares exóticos, comédias escapistas, diálogos afiados. A marca da Paramount era a de ser liberal. Das companhias grandes era a que dava maior liberdade a escritores e diretores.
   Abaixo das duas, ainda ricas mas não opulentas, vinham a Warner e a Columbia. A Warner tendo como trademark um certo realismo. Warner era sinônimo de filmes mais duros, mais crús e menos escapistas ( o que não a impedia de ser a casa de Erroll Flynn ). Policiais e dramas com Bette Davis, esses eram os filmes com a cara da Warner. Já a Columbia era a casa do pão-durismo. Fazia-se o máximo com o minimo e seus filmes falavam diretamente com o povão. Eram os filmes mais simples.
   A Universal vinha abaixo desses quatro, vinha ao lado da RKO e da United Artists. Falo agora da Universal.
   Em setenta anos apenas dois Oscars de melhor filme foi ganho pela companhia. Dois grandes filmes aliás: Nada de Novo no Front e Golpe de Mestre, 1930 e 1973. Foram quarenta e três anos sem prêmio. O que era a Universal ?
   A casa de Drácula, de Frankenstein e da Múmia. A empresa nasce como a produtora de filmes de terror e de westerns baratos. As companhias mais ricas eram donas de redes de cinema, a Universal não. Imagine que desigualdade: a MGM fazia um filme e o exibia em seus cinemas, assim como a Warner, e até a RKO faziam. A Universal não. Para sobreviver ela precisou se concentrar nas cidades não atendidas pelas grandes, ou seja, o interior do país. A Universal passa a ser marcada pelos filmes populares, filmes curtos, baratos e de apelo. Terror e westerns.
   É assustador ver a pouca presença de grandes diretores e grandes atores na Universal. Claro, às vezes há um filme com James Stewart ou de Hitchcock, mas isso é bem mais tarde. Em seu começo ela é a casa de Bela Lugosi e de Boris Karloff. Voce começa a perceber o que quero dizer? A Universal como criadora do cinema de hoje?
   Séries de fantasia também são produtos da empresa. Maria Montez e Jon Hall fazem dúzias de filmes sobre As Mil e Uma Noites, assim como se fazem séries sobre um mulo que fala e uma familia de caipiras. Não há sutileza na Universal. A MGM jamais faria um filme sobre um mulo que fala!
   Musicais pobres também são produzidos e Deanna Durbin, um fenômeno, consegue estar em bons filmes. Ela se torna a primeira grande estrela da companhia. Tudo fica nesse clima até os anos 50 que é quando a empresa muda de donos. A MCA compra a Universal e uma mudança ocorre, os filmes ficam mais "bonitos". Dinheiro começa a ser gasto, É quando eles produzem seus melhores filmes: os westerns de Anthony Mann e mais tarde Spartacus para Kubrick e Os Pássaros para Hitchcock ( e observe, nada de Kubrick e Hitch é tão "cinema de agora" como Spartacus e Os Pássaros ). Nos anos 50 o produtor Ross Hunter cria na empresa aquilo que conhecemos como "comédia romântica", molde que dura até hoje e que tinha Rock Hudson e Doris Day como ícones da empresa.
   Assusta ver como a revolução dos anos 60 passou longe da Universal. Fizeram filmes ótimos como Charada de Stanley Donen, mas ignoraram o cinema de Lumet, Pollack e Frankenheimer. Penn, Nichols e Altman não teriam a menor chance lá.
   Mas sim os disaster movies. Em 1970 eles estouram com Aeroporto, e de 1970 até 1977 a empresa vive seu apogeu em bilheteria. Se desde 1930, com seus filmes de terror e suas séries para o povão, eles indicavam sem saber o que seria o cinema do futuro, na década de 70 eles criaram o cinema de 2013.
   Na década de 70, Warner e Paramount apostavam nos diretores. A Warner dava total liberdade a Altman e a Paramount bancava Coppolla, Polanski e sua turma. Essas empresas imaginaram que o futuro seria um certo tipo de filme autoral, contestador, de arte. Mas não a Universal. Ela apostou em Robert Redford, em Paul Newman e em Steven Spielberg. Em 1973, Golpe de Mestre quebra a banca ( é um filme maravilhoso ) e por toda a década Redford e Newman irão continuar fazendo seus big hits baseados em humor, ação e bons roteiros. E chega então 1975, e com ele o primeiro blockbuster como o conhecemos. Tubarão é lançado em centenas de salas, com marketing agressivo e se torna a segunda maior bilheteria da história. Mais, vira mania. As companhias grandes torcem o nariz, acham o filme careta, mas logo em seguida a Paramount dá espaço a Lucas e vem Star Wars. Pronto, nasceu o cinema como o conhecemos. Tubarão foi o primeiro, e não deixemos de falar, Lucas começou na Universal, American Graffitti é da companhia.
   No fim da década a Universal lança mais um estilo de filme desconhecido até então, a comédia grosseira e sem roteiro. John Belushi se torna star da tela grande em 1978. Um novo filão. Devo dizer também que a Universal foi a primeira grande empresa a produzir muitos filmes para a tv. Columbo é da Universal e Clint Eastwood começou também por lá.
   A MGM em seu auge tinha Garbo, Gable e Judy Garland. A Paramount tinha Dietrich, Cary Grant e Gary Cooper. A Warner era o lar de Bette Davis, Bogart e Erroll Flynn e a Columbia tinha James Stewart, Frank Capra e John Wayne. A RKO ia de Kate Hepburn e Fred Astaire....a Universal tinha Drácula, Flash Gordon e O Mulo Falante.
   Filmes de terror, séries baratas, comédias românticas, blockbusters, disasters movies e comédias grosseiras. Tudo DNA da Universal. Quem criou nosso cinema?
  PS: Imperdoavel falha! Esqueci da FOX!!!! Coloque-a logo abaixo da MGM e da PARAMOUNT. Seu caráter era o de seguir os passos das grandes. Fazia muitos musicais como a MGM. Comédias como a Paramount e aventuras tipo Warner. Só que sempre um tantinho mais pobres, mais bobinhas. Tyrone Power e Jennifer Jones eram as estrelas. E junto com a Columbia, colecionava prêmios Oscar.

  

CLOONEY/ SEAN CONNERY/ MARLOWE/ ANG LEE/ ALDRICH

   SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU de Martin McDonagh com Colin Farrell, Sam Rockwell, Abbie Cornish, Woody Harrelson, Christopher Walken e Tom Waits
Um elenco interessante em mais uma imitação de Tarantino. Diálogos sem sentido, violência de HQ, musiquinhas cool e uns personagens esquisitos. Tempere essa receita com humor e cores fortes. Certo? Não, tudo errado. Neste filmeco sobre um escritor sem inspiração e seu amigo tonto ( que vive de sequestros a cães ), tudo dá errado. O humor é medíocre e pior, os personagens são frouxos. Insuportável de tão vazio. Nota Zero.
   UM HOMEM MISTERIOSO de Anton Corbijn com George Clooney
Clooney é um assassino de aluguel que se refugia na Itália. Anton foi um famoso diretor de clips. Isso se percebe logo, ele é incapaz de encenar um diálogo. O filme é uma série de imagens frias, mal montadas e sem porque. Clooney posa e o filme é um nada absoluto. Nota Zero.
   NUNCA MAIS OUTRA VEZ de Irvin Kershner com Sean Connery, Klaus Maria Brandauer, Kim Basinger e Max Von Sydow
Em 1983 dois filmes de James Bond foram feitos. Um oficial, produzido por Saltzman e Brocolli; e um alternativo feito por outra equipe, mas com o trunfo de ter Sean Connery de volta ao papel, após 12 anos longe. É estranho, porque é um Bond sem o tipo de letreiro habitual e sem a trilha sonora de John Barry. Mas é 100% o velho Bond de sempre. A trama é sobre o roubo de arma nuclear e Connery está excelente no papel: cínico, mulherengo e frio como aço. De bônus há o fato de ele brincar com sua idade. James Fox faz seu patrão e diz que Bond está ultrapassado. O filme tem uma ótima primeira parte ( e uma péssima trilha sonora, de Michel Legrand ), mas perde ritmo no fim. Kershner vinha de dirigir O Império Contra-Ataca e Kim Basinger começava a chamar a atenção. É uma aventura que jamais se leva a sério. Nota 5.
   LOCAL HERO de Bill Forsyth com Peter Riegert e Burt Lancaster
Faz muito tempo que eu queria ver esse filme. Isso porque ele é sempre eleito pelos ingleses um de seus filmes favoritos de todos os tempos. Trata-se de um modesto filme dos anos 80 que fala de um jovem americano que vai à uma vila escocesa. Esse jovem trabalha numa enorme companhia de petróleo e seu objetivo é comprar a vila para construir uma refinaria. O filme tem seus primeiros quinze minutos sem nada de especial, mas de repente ele cresce e nos seduz completamente. A população adora a ideia de vender a vila inteira e o filme transcorre desse jeito: as coisas acontecem imprevisíveis e em ritmo normal. Nada de chocante acontece, nada é grande ou esquisito, entramos na vida banal daquela gente, que não são tristes e nem alegres, e sentimos estar diante de gente real e de vida de verdade. O lugar nem é tão bonito! Lancaster está excelente como o dono da empresa de petróleo, um solitário que é apaixonado por astronomia. O filme, discreto e bonito, é cheio de vida. Nota 8.
   MURDER, MY SWEET de Edward Dmytryck com Dick Powell
Excelente filme noir. Powell faz Marlowe, o mitico detetive de Raymond Chandler, e sua abordagem é completamente diferente daquela de Bogart. Powell faz um Marlowe muito mais pé de chinelo, sem moral, cheio de humor. Dmytryck era um ótimo diretor antes de ser pego pela comissão de McCarthy e demonstra isso aqui. O filme tem estilo, tem ritmo, ótimas cenas e diverte muito. Todo passado no mundinho de botecos, becos e sombras, é boa opção para quem quer conhecer esse maravilhoso gênero de cinema. Másculo, direto, e muito influente. Nota 7.
   COM A MALDADE NA ALMA de Robert Aldrich com Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten e Agnes Moorehead
Após o sucesso de Baby Jane, Aldrich reconvoca Bette Davis e lhe dá mais uma vez um filme de horror em que ela faz uma velha doida. E coloca outros veteranos a seu lado. Mas se Baby Jane foi inesquecível, este é apenas correto. Não assusta como o filme anterior e Bette não tem um papel tão forte como foi aquele. A gente percebe que alguma coisa aqui foi forçada. De qualquer modo, é um prazer ouvir Bette Davis e temos Agnes Moorehead dando um show como a maltrapilha empregada da casa. Nota 5.
   AS AVENTURAS DE PI de Ang Lee
Visualmente belíssimo, ele passa por alto das implicações contidas no primeiro terço do livro de Martell. Dessa forma, deixamos de conhecer Piscine em profundidade e nem sabemos o porque de sua familia. Mesmo assim Ang Lee produz mais um filme que nos surpreende. Vivemos uma época de cineastas pouco versáteis. Um filme de Wes Anderson ou de Thomas Anderson ou de Tarantino, por melhor que seja, sempre se parece com tudo aquilo que seu diretor sempre fez e faz. Mas não Ang Lee. Ao melhor estilo John Huston ou William Wyler ou Fred Zinnemann, Lee faz filmes em função da história a ser contada. Desse modo, Hulk nada tem que lembre Brokeback Mountain que nada tem a ver com Tempestade de Gelo. É um dos maiores talentos de nosso tempo. O filme é o que poderia ser, nem mais nem menos. Emociona menos que deveria, erra menos do que seria provável. Em mãos menos hábeis teria tudo para ser ridiculo. Nota 7.