Flying Burrito Brothers - Christine's Tune



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THE FLYING BURRITO BROTHERS, UM SONHO TRISTE DE CURTO OUTONO

   Eu ouvia falar de Flying Burrito fazia séculos. O tipo da banda cult que não fez sucesso algum em seu tempo ( apesar de ser uma banda pop ). O povo da época não aceitava esse tipo de grupo. Se tivesse surgido dez anos mais tarde teria estourado. Se fosse o tempo dos clips estouraria AINDA mais facilmente.
   Mas em 1969 ninguém do rock dito sério gostava de bandas que não eram "bem loucas". As opções eram longos solos de guitarra ou mensagens de revolução. Os Burritos não se enquadravam em nenhum dos dois casos. A outra opção era o pop do Creedence ou dos Beatles. Mas aí havia o problema Gram Parsons.
   Hoje, em que nos acostumamos com Eagles ou John Mellencamp, parece estranho, mas o público do rock em 69 abominava country. Um chapéu de cowboy ou o som de um banjo deixava seus longos cabelos em pé. Country era música de conservadores, de racistas e de velhos religiosos. Hank Willians, Johnny Cash ou Willie Nelson eram escutados por uns poucos hippies como pecado vergonhoso, e o povão do centro dos EUA, lugares como Iowa ou Arkansas não contava. Gram Parsons, apesar de nascido na Florida, de familia rica e moderna, mudou a coisa.
   Entrando nos Byrds em 1968, ele transformou uma banda que era folk-elétrico em country-elétrico. Fora dos EUA as pessoas colocam folk e country no mesmo saco. Nada a ver. Folk é esquerda, country era direita. Folk é Woody Guthrie e Dylan, violão e letras gigantes, country é banjo, rabeca e dobro, letras sobre familia, campo e Jesus. O que Gram fez foi pegar a musica country e botar maconha nela. As letras falam de herois da estrada, de gente perdida em encruzilhadas, de amores desesperados e de muita solidão. Tudo regado a marijuana e tequila. E vestindo seu famoso paletó,  folhas de erva desenhadas sobre fundo branco.
   Os Byrds resolveram ir tocar na Africa do Sul. Gram se recusou, apartheid ainda vivo. Fundou os Flying Burrito Brothers.  O disco de estréia é lindo como a Lua. Mas nada vendeu.
   Como acontece com várias bandas, apesar de não estourar foram escutados pelas pessoas influentes. Um monte de gente começou a gravar country não-careta. E logo Keith Richards se fez fã e amigo. Gram e Keith passaram a andar juntos e a influência de Parsons sobre o som dos Stones de então é imensa. Dead Flowers ou Sweet Virginia são puro Parsons e Wild Horses foi composta tendo Gram em mente. Indo para a carreira solo, onde sua proposta country foi ainda mais radicalizada, Parson ainda teve o tempo de lançar dois discos. Mas em 1973 foi encontrado morto. Overdose de heroína.
   Há aqui uma história típica da época, que poderia estar em filme dos Coen. Os amigos, sabendo que Gram queria ser cremado, pegaram o corpo do velório e o levaram pro deserto. Lá tentaram cremá-lo com gasolina e não conseguiram. O corpo não virava cinza, virava churrasco...
   Os dois discos solo são pra chorar. Tristes como fim de caso ou fim de tarde solitária. Alguns momentos dão a certeza de que Parsons era um super poeta, um artista superior. Estava pronto para tomar as paradas do mundo. Não houve tempo pra isso. Morreu com 24 anos.
   Os Flying são uma bela alternativa para estes tempos posudos. Eles são naturais. O fato de não terem estourado demonstra a riquesa de sua época. Ou a cegueira de um sistema. No clip que postei abaixo, que é uma gozação e Não demonstra o tipico som de Parsons, ele faz gozação a Mick Jagger. Imita os trejeitos de Jagger e cria uma cumplicidade com Keith Richards. Eu, assim como tantos outros neste século que já nasce velho, adoro Gram Parsons.

The Flying Burrito Brothers - The Older Guys USTV (full version)



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Band À Part - Jean-Luc Godard (1964)



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BANDE À PART - JEAN LUC GODARD E ANNA KARINA

   Para se gostar de Godard em sua primeira época, aquela que vai de 1959 até 1965, fase que termina com o rompimento com sua musa, Anna Karina, é preciso se ter senso de humor. Isso porque seus filmes de então são desconstruções de tradições, leves reflexões sobre a absoluta liberdade de filmar e de viver. E se voce não possuir esse descompromisso e essa juventude libertária, nada feito. Voce vai procurar portos seguros nestes filmes-oceanos e nada irá encontar. Pensará então que este é um filme a deriva. Voce é que pensa como âncora.
   O filme foi feito em 25 dias e nesse ano Godard lançou 3 filmes. E meio.
   É sobre uma dupla de gatunos que envolve uma mocinha ingênua em crime. Roubarão a casa onde ela vive com a tia. Isso dito, o filme é tudo o que um filme de crime não deve ser. Ele divaga, se desvia. Quando surge a vontade de falar de um livro, se fala de um livro. Se há o desejo de dançar, se dança. E se surge o vazio de ideias, nasce o silêncio. Longe do realismo e longe de Hollywood, o filme é um quase nada, uma desconstrução que diz em alto e bom som: -Fazer um filme é uma brincadeira!!!! Nada há de sagrado nisto!!!!!
   Bem, se voce é Godard a coisa anda. O problema é que um monte de gente acreditou neste filme e passou a filmar tudo o que vinha à cabeça. Voce conhece o resultado...
   Quando vejo este filme sempre penso em meus jovens colegas de USP. O espírito do filme é o mesmo. Uma ingênua vontade de tentar coisas diferentes. Só que o filme veio 50 anos antes. E ainda é magnificamente jovem.
   Quentin Tarantino nomeou sua produtora com o nome deste filme. E em Pulp Fiction várias cenas são homenagens a o que vemos aqui. O papo furado dos bandidos no carro, a dança dos bandidos em uma lanchonete, a mocinha ingênua e de voz de criança, o jeitão relaxado e improvisado do filme inteiro. Aliás a cena na lanchonete é inesquecível. Ela nada tem de especial e incrivelmente tem tudo de que o cinema precisa. Antes eles fazem um minuto de silêncio por não ter nada de bom para dizer ( certos filmes deveriam ter duas horas de silêncio ), e depois improvisam a dança que é encantadora. O sorriso de Anna Karina ao final é deleite puro.
   É neste filme também que ocorre a famosa cena do Louvre, que é visto pelos três em nove minutos ( cena que Bertolucci cita em seu filme com Eva Green ). É outro improviso entre vários outros.
   Destaco também a fotografia natural de Raoul Coutard e esse é um segredo de Godard. Seus filmes naturais davam certo porque Raoul sabia filmar tudo em todo lugar com qualquer luz e em qualquer situação. Este filme é todo de rios sujos, ruas feias, árvores nuas, neblina e lama. Talvez o personagem mais importante seja esse ambiente úmido e pobre.
   Eu sou apaixonado por Anna Karina. Então prefiro nada mais dizer a não ser que Jean Luc Godard foi grande enquanto ela esteve a seu lado. Depois dela, o quase nada.
   Imperfeito, chato, rustico, improvisado e muito inspirador. Assistir este filme é injeção de vontade de criar. Godard não fazia grandes filmes, fazia peças de desejo de se fazer. Este filme dá esse desejo.
   Não é pouco.

O TEMPERO DA VIDA- G.K.CHESTERTON

   É sempre um prazer encontrar um autor que pensa, em muitas coisas, mas é claro que não em tudo, como voce. Chesterton tem uma visão de vida que em muito se parece com a minha. Ele faz crítica dura a toda a modernidade, explica o porque de suas críticas, e ao mesmo tempo jamais cai em amargor. Fosse amargo Chesterton cairia em contradição, pois o que ele mais critica na modernidade é exatamente seu amargor.
   Chesterton tornou-se mania na Inglaterra de cem anos atrás com seus livros policiais em que o "herói" era o pacato Padre Brown. Por detrás da simplicidade desses livros havia a exposição da filosofia do autor. Chesterton polemizava com coragem, ele era anti-capitalista e anti-comunista, abominava Freud e as seitas religiosas, entrava em atrito com Shaw e Russell, não gostava de toda filosofia materialista.
   Este livro traz textos publicados na imprensa, de 1905 até 1935. Alguns depois fizeram parte de um programa de rádio que ele tinha na BBC. As ideias defendidas neste livro são excitantes e provocadoras. O que as prejudica é o fato de terem sido pensadas para a imprensa; suas teses mereciam um muito maior desenvolvimento.
   A escrita funciona porque os temas são sempre muito graves, mas o estilo é sempre bem humorado. Exatamente o contrário do que se faz hoje na imprensa, onde se escreve banalidade com enorme seriedade. ( E no cinema também. Histórias idiotas tratadas com rigor de um recém formado ).
   Mas de onde vem a ideia de Chesterton de que a modernidade fracassou? É muito simples, aliás, a tese que ele sempre defende é a de que tudo é sempre óbvio, os só-cabeça é que pensam sem parar, jamais descansam e acabam por pensar demais e por pensar mal.  A modernidade produz em sua maioria, poemas e romances sem esperança, sem sentido, sem porque e sem utilidade. Isso tudo ainda poderia ser redimido se fosse belo, mas além de tudo há a descrença na beleza. A coisa é lógica, um mundo e uma época que produz tanta desilusão é consequentemente uma idade de profunda tristeza. Para saber qual o nivel de felicidade de um povo basta olhar o que esse povo escreve, canta e pinta. A arte moderna oscila entre o desespero, a tristeza e a ansiedade histérica.
   Autores felizes como Dickens, Thackeray ou poetas como Shelley e Holderlin seriam silenciados na modernidade. Chesterton, cristão radical que é, diz que a era mais feliz da humanidade foi aquela que os materialistas mais abominam: a idade média. Por ter sido uma época em que o dinheiro ainda valia pouco, a produção ainda era de quem produzia e onde a carne e o espírito ainda conviviam em razoável harmonia.
   Há um texto em que ele fala de algo que me deu o que pensar. Falando sobre Darwin, ele diz que o darwinismo deveria se restringir só àquilo que é de sua competência, a biologia. Se Darwin vira filosofia aplicável a tudo, se o evolucionismo pode explicar tudo ( e é o que acontece hoje, em 2012 ), então a ética e a moral serão jogadas no lixo. Todo ato imoral e não-ético poderá ser desculpado como degrau evolutivo. O ladrão esperto de hoje pode ser o próximo passo da evolução. O mais forte e o mais bonito serão a ponta da evolução. Valores humanos e não biológicos, como moral, ética e arte serão negligenciados. Ou pior, entrarão na falsa lógica evolucionista.
   Na estrada da simplicidade, Chesterton fala das crianças e das mulheres. Mulheres e crianças sendo vistas pela sociedade masculina como seres pouco racionais, emotivos, intuitivos. Chesterton pergunta então, e porque crianças, mulheres e os pobres também, seriam os errados? Quem disse que a intuição feminina ou o mundo cheio de sentido das crianças é o "mundo falso"? A mulher como o humano que está totalmente ligado a natureza, dona do dom da vida, da alimentação, ligada a ciclos, a marés, a sonhos. E a criança, supersticiosa, que crê em magia, em azar, em sinais, em lugares sagrados e secretos. Os pobres, que vivem na simplicidade da conta exata, sabendo tirar muito do quase nada. Porque eles estão errados? Porque são vistos como fracassos, como tolos ou como fracos?
   Inspírados textos de Gilbert Keith Chesterton, que fala da divisão da vida moderna, vida que divide tudo em fragmentos, que desfaz casamentos eternos, que separa aquilo que separado perde todo o sentido.
   Num café da Espanha ele assiste a um casal e seu filho. O pai, que olha a criança com adoração, dá um gole de sua cerveja ao menino. A mãe ri, e dá outro gole ao filho também. O garoto então se senta no colo do pai e brinca com seu bigode. Lá não existe um Édipo que possa os fragmentar, não existe uma tolice americana que dite algo contra o álcool dado a crianças. O mundo moderno não vive ali, aquela familia é antiga como a vida, bela como o mundo, perfeita como o amor.
   É esse o universo que Chesterton defende. É esse o único mundo onde a felicidade pode existir. Todo o resto é brinquedo de cabeças sem descanso.

Serge Gainsbourg - Black Trombone (1962)



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requiem pour un twister - serge gainsbourg



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SERGE GAINSBOURG- DU JAZZ DANS LE RAVIN ( SEX, GALOISE ET JAZZ )

   Serge era o cara que todo mundo na França adorava....odiar. Para a esquerda ( e na França de 60/70 essa dualidade fazia todo o sentido ), ele era um americanizado inconsequente, e para a direita ele era um tipo de vampiro imoral e perigoso. Bem...para mulheres interessantes ele era um desafio e para a molecada anárquica um provocador. Serge entra no século XXI sobrevivendo muito bem. Hoje ele é mais vivo que em seus últimos anos de vida.
   Como pessoa, ele estava em todas. Musicalmente foi jazz, foi chanson, fez rock e fez reggae. No cinema só fez bobagem, mas são sempre bobagens curiosas. Escreveu, fez TV, não parava nunca de inventar. E tinha um jeito hiper-mega-super cool. Serge é da linha de Robert Mitchum, parece sempre ausente, sonado, derrubado, indiferente. Mas quando voce se distrai ele surpreende, porque ele faz tudo sem esforço, sem drama de trabalho, parece fazer "sem querer". Isso é o cool moderno.
   Sua abordagem com as mulheres era a mesma, querer sem querer.
   Então, tudo o que ele fez, teve esse jeitão. Fazia um filme "sem querer" e um disco "sem muito jeito". E pegava todo mundo desprevenido.
   Veja este disco. Voce bota pra tocar e ouve piston e trombone. É jazz. Ele ouviu muito Gerry Mulligan. É cool jazz. Mas é mais cool que o cool jazz. É Le Cool Jazz.
   Ele coloca várias palavras em inglês nas letras. E as declama meio sonâmbulo e depois canta meio drunk. Tem bafo de sexo e de álcool. Cheiro de axila sem desodorante. Boteco com umidade. É sujo. Baforento.
   E voce se vê estalando os dedos no ritmo das músicas. Ele faz exatamente o que voce faria. Pega aquele cool jazz e o mistura com uma coisa muito dele mesmo, muito francesa. Uma coisa meio Rimbaud e meio Cocteau. Não é o jazz de whisky e negros alinhados de Chicago ou Orleans. É jazz com Pernod e jovens de boina e blusa listrada de St. German e Marseille. Os americanos odiavam. Era pra eles como ouvir rock feito por alemães. Pra nós, latinos, faz todo o sentido. Une dois mundos. Une o ótimo e o soberbo.
  E Serge vai então sem medo. No trombone que boceja e na bateria que sacoleja. E dá quase pra ver a fumaça do Gitanes ( ou será Galoise? ), sair do cd e entrar nos teus olhos. Dá quase pra sentir o cheiro da calcinha da menina bonita de cabelos à la garçonne. E daí voce pensa: Que bom! E depois acha: Quero ser Serge! E então conclui:
  É bom pra caramba!

HARAKIRI/ WYLER/ GATO DE BOTAS/ LOSEY/ RAY/ REDGRAVE

   HARAKIRI de Masaki Kobayashi
Estarrecedor. Vencedor do Oscar de filme estrangeiro, trata-se de uma obra-prima amarga. Através de angulos de câmera precisos e de um ritmo solene, o que assistimos é um retrato da vida em seu aspecto mais puro: a dor da fome e da quebra de um mundo. Samurais em tempo de paz são inuteis. Sem trabalho, passam fome, e envergonhados, pedem para que nobres os deixem praticar o harakiri em seus palácios. Um jovem é obrigado a se matar com espada de bambú, o que seria errado. Um outro samurai aparece para também se matar, mas antes conta sua história. A cena da morte por harakiri é bastante forte, aprendemos todo o ritual japonês. Mais terrível é a crítica social que há no filme, o harakiri como um modo de se eliminar guerreiros incômodos. Mas eles crêem nesse ritual e o seguem com exatidão. O filme tem a exibição de aspectos da vida que eram corajosamente mostrados pelo cinema japonês da época. O dilaceramento da carne e da alma exibidos em detalhes. Há uma cena em meio a bambuzal com vento que é uma das mais belas ( e terríveis ) cenas do cinema. Aqui Kobayashi atinge a perfeição. Nota DEZ.
   O ZELADOR ANIMAL de Frank Coraci com Kevin James
O inominável. Kevin é um dos piores humoristas do mundo. Nota Zero Farenheit.
   OS CAVALEIROS TEUTÔNICOS de Aleksander Ford
Clássico medieval do cinema polonês. Centra-se em jovem que promete amar jovem romântica. Isso entre inimigos, cavalos, prados imensos e espadas pesadas. Parece ser um grande filme, mas atenção: a versão existente em dvd é impossível de se ver. Desbotada, imagem encolhida, som ruim. Sem nota.
   O REI DOS REIS de Nicholas Ray com Jeffrey Hunter e Robert Ryan
Ray conseguiu filmar a vida de Cristo sem nenhuma emoção. Na verdade ele se prende mais às intrigas da corte de Herodes e a João Batista. Hunter faz um Jesus Cristo banal, mas Ryan está muito bem como João. O filme frustrará aos cristãos e será indiferente aos descrentes. Nota 1.
   A SOMBRA DA FORCA de Joseph Losey com Michael Redgrave
Um pai alcoólatra, recém saído de clinica, tem dois dias para salvar filho da forca. O filme, magistral, mostra toda a patética tentativa do pai. Ele esquece coisas, não percebe pistas, se enrola em ideias. Redgrave era um gênio. Faz um dos grandes viciados do cinema. E Losey sabia mostrar como ninguém a irreversibilidade do destino. Se o mal pode ocorrer, ele ocorrerá. Este filme tem um dos melhores finais já filmados. Tenso, triste, vazio, soberbo. Nota DEZ.
   A GUERRA DE HART de Gregory Hoblit com Colin Farrell e Bruce Willis
Esquece. Tédio insurpotável. Nota ZERO.
   O GATO DE BOTAS de Chris Miller
Não é um dos grandes desenhos do século de grandes desenhos. Mas é ok. O Gato é uma figuraça e os cenários são lindos. O roteiro se perde do meio para o fim, e conseguimos inclusive perceber erros absurdos. O personagem do Ovo estraga o filme. Nota 4.
   MRS MINIVER ( ROSA DE ESPERANÇA) de William Wyler com Greer Garson, Walter Pidgeon e Teresa Wright
Garson discursou por uma hora ao  ganhar o Oscar por este filme. Foi daí que instituiram o cronômetro na cerimonia. Ela não está especialmente bem. O filme fala de uma familia inglesa e sua vida na segunda-guerra. Wyler foi um grande diretor e há uma cena de gênio: um bombardeio com a familia assustada num porão. Cena feita de explosões que não se vê e de rostos que nada dizem. Mas o filme tem problemas. Todos são bons demais e essa Inglaterra é completamente americana. Winston Churchil dizia que este filme salvara a Inglaterra. Seu sucesso despertou o interesse da América pela guerra ( quando lançado os EUA ainda não haviam se lançado à luta ). Se a importância de um filme se mede pelo impacto social, este é dos mais fortes. Mas é apenas um singelo filme pop tipico da MGM. Nota 6.

EXATAMENTE COMO A VIDA REAL

   Uma coisa que me dá o que pensar: porque as pessoas percebem tanto mérito em filmes e livros que "são exatamente como a vida real"? Qual o mérito em se criar algo que nada mais é que uma cópia daquilo que a vida já criou? O máximo que uma obra realista pode atingir é saber olhar bem.
   Mas posso unir isso a mania de biografias e posso ir ainda mais longe e ir até os reality shows. Do extremo realismo às biografias e ao reality show o caminho é o mesmo, a via que declama em alto e bom som que só o que é "a verdade" tem valor e pode ser util.
   Quando um autor como Dickens cria mais de dez mil personagens, todos "irrealistas", o que ocorre? Dickens está negando a vida e criando gente que nada tem a ver com o real? Ou seria o contrário?
   Toda obra excessivamente realista tem algo de hospitalar. De quase sem vida, quando não, de morto. O escritor recolhe dejetos, fatos "´já acontecidos", e portanto, passados, e os fixa em linhas ou imagens. O mesmo ocorre com as biografias. Sempre passam a sensação de serem testamentos ditados por um moribundo. Um testemunho vindo do leito, leis cheias de "verdade". Que verdades são essas? Desde quando dizer a verdade é ser verdadeiro?
   Quando um autor poderosamente imaginativo cria personagens, lugares e ações, ele cria "a vida". Esse escritor, digamos Dickens, repete a criação que a natureza opera, do nada ou do vazio, cria personalidade. O movimento é o oposto do realismo, da reportagem ou da biografia. Neles voce participa da memória de um fato terminado, morto. No artista original, voce toma parte na criação presente, na liberdade de dar vida e sentido a uma narração.
   Nos acostumamos ao pequeno, ao pouco ambicioso. Autores criativos são vastos e me parece que eles assustam aos pequenos leitores de hoje. A criação deles é vasta demais, exigente demais, complexa demais. Mas é Chesterton que me alerta para o fato principal: autores como Dickens ( e Rabelais, e Swift ), são alegres demais.
   Eles trazem o dom da fertilidade, da fecundidade. Tocam o papel e criam, e criar vida é sempre um ato de alegria. Seus livros pulam, uivam, dançam, dialogam, dão prazer e dão ideias.
   Pessoas educadas ( ou domesticadas? ), a crer que "arte" seria um espelho da vida, e que vida seria tédio e atos minúsculos, jamais conseguirão tolerar os exageros de sentimento, apetite e de criação de Dickens ( e Balzac, e Cervantes ).
   Um artista sempre foi Prometeu. Um homem ladrão, que com o fogo na mão tentava dar luz e calor para a humanidade.
   Hoje, reduzido a um tipo de repórter do vazio e do não-ocorrido, ou um retratista do já terminado, um jornalista-divulgador da "verdade", ele carrega fogo apagado, impotência fria, tristeza de quem não sabe mais fazer viver, criar, inventar, ser feliz.

PEDACINHOS DE VIDA= PEDAÇÕES DE COVARDIA

   Chesterton tem humor, mas não é simpático. Não espere nada de confortável nele. E nem de liberal oco. No livro que estou lendo há uma ideia que nos deveria ser óbvia, mas que de tão clara se torna esquecível. A ideia, antipática, é a de que o erro da arte moderna é o de crer que a vida pode ser fragmentada.
   Sim, voce pode cortar uma vida em pedaços e misturar tudo. Voce pode transformar uma história em pedacinhos desconexos. Mas ao fazer isso voce paga um preço: voce mata a vida. A vida é um fluxo constante. A história é um fluir e se voce corta esse fluxo a história morre.
   Chesterton usa um exemplo que nos recusamos a aceitar. Se voce tem vários flertes, vários casos, voce não tem na verdade vários flertes e vários casos. O que voce tem é um grande flerte e um grande caso. Voce carrega a história de cada um desses flertes e casos. Não existe algo como "um encontro inconsequente". Todo encontro é consequente e sem perceber ele lhe fará pagar seu preço. Ideia antipática né?
   Não gostamos de ser lembrados disso. De que cada ato tem sua história e de que todas essas histórias formam um única história, a sua. De que na vida real, e ela não é a vida de livros modernos ou de filmes contados ao contrário, existe um inicio e um fim. E que eles são consequentes. A cada erro cabe uma dor e a cada acerto uma alegria. E que é impossível se ter uma historinha aqui e outra ali, todas são a grande e única narrativa.
   Esse é o fascinio da tragédia. Toda tragédia é a história correndo em sua fluidez indomável e cobrando o preço do ato feito. Nosso tempo, covarde, tem horror a tragédia. Temos a ilusão de que ao cortar a vida em pedacinhos poderemos ter pequenas dores. Casinhos ruins rendem dores suportáveis.
   Ironia dos deuses: Eis a nossa tragédia. A trágica fuga, constante e apavorada, da vida.

O VIGÁRIO DE WAKEFIELD- OLIVER GOLDSMITH

   Eu adoro o século XVIII. O romance se tornando dominante ao ser direcionado para a nova classe média. O nascimento daquilo que conhecemos como livraria, best-seller e imprensa cultural. E um espirito de época em que o que sobressaía era o prazer pela discussão, pela análise e pela novidade.
  Do que falavam esses romances? De viagens, de peripécias, de lutas e disputas. O enredo é sempre rico, estamos longe das elaborações do romantismo e dos detalhes do realismo. Não há uma grande preocupação com estilo, o principal é a história. Dessa forma o que temos é ação constante, acontecimentos sobre acontecimentos. A descrição de casas, paisagens ou rostos é secundária.
  Falei que esses livros falam de aventuras e de ambições, na verdade podemos reduzir tudo ao dinheiro. A classe média inglesa de 1770 pensa em renda, em bons casamentos e bons negócios. Por mais que os livros se encham de guerras ou de duelos, é o dinheiro que move a ação.
  Oliver Goldsmith foi um malandro. Viveu sempre de golpes, de expedientes. Torrou a herança da familia e foi levando a vida na lábia. E escrevia bem. Poeta e jornalista, aqui é romancista. Ele fala de um vigário e de sua familia. O vigário é um  ingênuo, as filhas são ambiciosas, a esposa mandona e os filhos obedientes. São explorados por nobre conquistador, azares sobre azares caem sobre a familia, e mesmo assim o vigário se mantém ingênuo, bom, um grande perdoador. As tragédias são tantas que o humor se faz presente. Goldsmith tem aquela verve típica da época. Ele mostra o ridiculo com tintas fortes. E todos são ridiculos, os nobres com suas crueldades e os burgueses com sua adoração aos nobres. O estilo é rápido, as coisas acontecem de repente, sem grandes preparações. Oliver Goldsmith não se detém, ele quer nos divertir e nos instruir. Consegue.
  Um livro é uma coisa maravilhosa. Quando ele é bom, entramos em um mundo quando o abrimos. O século XVIII foi aquele em que o livro tinha a maior consciência de seu poder de criar mundos. Seja na poesia, na filosofia ou no romance, os autores têm pleno poder sobre sua obra. Encaram a escrita como criação de mundo. Pois bem, ao abrir este volume entramos no belo mundo rural da classe média da época. E encaramos o grotesco desse universo de vigarices, pequenos golpes, interesses e fé cambaleante. Um belo livro.

A SOMBRA DA FORCA, JOSEPH LOSEY; PENA DE MORTE, COMUNISMO E ÁLCOOL

Quando a paranóia comunista tomou conta da América, logo após a segunda-guerra, um monte de gente pirou. No cinema a consequência foi a de que sumiram os filmes de consciência social, filmes que abundavam nos anos 30. Gente que fazia esse tipo de filme teve que se enquadrar. Alguns se recusaram e tiveram suas carreiras encerradas ou foram forçados a emigrar.
Um ator brilhante como John Garfield não aguentou a pressão e morreu do coração ainda jovem. Creia-me, John era indomável, um ator do estilo nervoso, que antecipou De Niro e Pacino. Outros nomes entraram na geladeira. A carreira se estagnou e ficaram anos no limbo. Gente como Elia Kazan e Edward Dymytrick preferiu se safar dedurando os colegas. Acabaram por pagar um preço também, Kazan passou o resto da vida a se justificar e Dymytrick simplesmente se afundou em banalidade. Era um diretor que prometia, após os depoimentos nunca mais se acertou.
E existiram aqueles que emigraram e que na emigração se fizeram grandes. Conseguiram renascer, renascer de tal modo que acabaram por se confundir com o país que adotaram. Jules Dassin já era em 1950 um maravilhoso diretor americano. Fazia um tipo de cinema másculo, de sombras e personagens malditos, filmes fatalistas, que nada envelheceram. Tendo de sair da América, Dassin se transformou em um dos mais interessantes diretores da Europa. Tanto que ainda hoje há quem pense ser ele um francês ou um grego. Pois foi na França e na Grécia que ele se radicou. Dirigiu alguns dos melhores filmes do mais forte período do cinema da Europa e se casou com a maior estrela do cinema grego.
Joseph Losey é um caso de igual força. Há quem tenha a certeza de que ele é inglês. Já dirigira alguns filmes nos EUA, mas é na Inglaterra que ele se afirma. Primeiro fazendo filmes como este A SOMBRA DA FORCA, e depois nos roteiros de Pinter ou de Tennessee Willians. Seu estilo é o do drama claustrofóbico. Os personagens penetram num tipo de labirinto sem solução e acabam por se perder para sempre. Este filme, com mais uma atuação de gênio de Michael Redgrave, trata de culpa, de alcoolismo, da força do dinheiro, da pena de morte, de pai e filho. Voce passa o filme esperando a redenção e ela não pode acontecer. O pai salva o filho, mas pagando um preço alto demais.
Redgrave mostra o patético do álcool sem jamais cair na comédia. Junto com o Richard Burton de A NOITE DO IGUANA, é o mais perfeito retrato de um viciado. Ele não consegue agir direito, ele não consegue pensar, ele tenta e tenta, mas esquece fatos, falha, se atrapalha. No rosto de Redgrave voce vê toda essa confusão dolorosa, um mapa de derrotas e de decepção.
O enredo é simples: um pai sai de clinica e visita o filho na prisão. O filho vai ser executado por assassinato. O pai vai tentar elucidar o crime em dois dias. Mas ele é um bêbado, o filho o odeia e nada parece o ajudar a chegar a verdade. Losey leva as cenas com absoluto controle. Nada de exageros, nada de choro, sem heroísmo ou humor. É quase uma radiografia gelada de uma agonia. Mas com toda essa precisão ele nos pega em cheio. Porque ele dá espaço para que um ator brilhe à vontade e para que a história corra em seu desenvolvimento dramático. O filme é curto, sem nada de sobra ou de menos. O pai bebe com raiva, adormece quando não devia, perde pistas, tenta raciocinar, se perde. Losey observa tudo com distãncia, sem se apiedar, isento.
Joseph Losey foi um grande diretor.