DUVEEN, O MARCHAND DAS VAIDADES- S.N. BEHRMAN

   E tudo começa na Holanda. No século XIX, a avó de Duveen coleciona porcelana de Delft. Um dia essas porcelanas, que não pareciam valer grande coisa, são bem vendidas por um tio na Inglaterra. Resolve-se então aplicar nisso, na venda de porcelana e de móveis. Quando Duveen vem ao mundo a familia já está bem de finanças, mas ele dará o grande salto, fará de seu nome sinônimo de vendas, de gosto e de esperteza.
  Logo na adolescência ele se lança. Muda o endereço do tio, estabelece-se na América. E passa a vender arte, sómente grande arte. Nesse tempo ( 1900-1915 ), a Quinta Avenida em NY, era zona de mansões. E os moradores dessas mansões se chamavam Morgan, Rockefeller, Hearst, Altman, Carnegie. No ramo do aço, petróleo, construção, estradas de ferro, carnes e lojas de departamento, foram eles que fizeram a fortuna do país. Era o tempo do hiper-capitalismo, do risco, do lucro fabuloso. Duveen logo percebeu que esses homens tinham tudo: mansões, iates, cavalos, jóias. E tédio. Não sabiam viver e não queriam saber. Eram radicalmente diferentes dos nobres europeus. Os europeus, mais confiantes em seu status, aproveitavam seu ócio sem culpa. Os americanos, impedidos de relaxar pela ética puritana em que tempo ocioso é tempo pecaminoso, sem um passado nobre, sem títulos a disputar, se sentiam inseguros, vazios, frágeis. É nessa brecha que Duveen adentra.
   Se eles tinham tédio, Duveen curaria esse tédio fazendo-os gastar milhões. Se o tempo ocioso era um pecado, Duveen os faria se sentir produtivos investindo em arte. Se esses milionários se consideravam plebeus, Duveen lhes venderia nobresa e classe através de quadros que foram de duques e de barões ingleses. E o principal, Duveen venderia não querendo vender. Como?
  O grande prazer dele era comprar. E ele jamais pagava barato. Comprava caro para poder vender caro. E com pouca margem de lucro. Ao comprar caro ele mostrava a sua restrita clientela o valor da obra. E ao vender com pouco lucro, e às vezes nenhum, ele exibia seu caráter de colecionador, de não vendedor. Mas seu objetivo é vender. Sempre. Exemplo:
  Uma vez, na Inglaterra, Duveen visita a casa de um nobre. Na sala vê uma coleção de tapeçaria. Diz ao dono: "-Me dói o coração ao ver uma sala tão bela com tão vulgar tapeçaria". Duveen compra toda a coleção. E a deixa em seu porão, para sempre. Sim, era verdade, a tapeçaria era ruim. Sim, ele pagou caro por ela. Sim, ele não as vendeu. Mas ele ganhou nessa operação. Como? O nobre ficou tão encantado que começou a passar para Duveen todas as dicas sobre tapeçarias de seus amigos. Duveen passou a negociar com esse círculo fechado. Comprar tapeçarias que agora eram boas, e vendê-las aos americanos. "Esta foi de Lord X, esta foi de Lady L..."
  Sempre que um milionário americano ia á galeria de Duveen, na Quinta Avenida, lógico, e eles adoravam ir até lá, Duveen dava um jeito de não vender uma pintura para eles. Era sempre o ritual do "esta não está a venda", "esta eu reservei para minha mulher", " Morgan escolheu esta". Duveen sabia que a impossibilidade aumenta o desejo e jogava com isso. Quem tem tudo deseja somente o que não pode ter. E um Rafael, um Van Dyck, um Rembrandt eram raros.
   Duveen jamais negociou pinturas pós-1800 por isso. O século XIX produziu demais. Se seus clientes começassem a amar Renoir ou Monet teriam muito que escolher. Mas um Tiziano seria sempre dificil.
  Então o que Duveen dava a esses bilionários ( os quadros custavam um milhão, num tempo em que 10.000 dólares era uma fortuna ), era o desejo, e mais que isso, a sensação de imortalidade. Todos eles acabaram por formar coleções, coleções que hoje são vistas por todos, coleções sem preço. A coleção Morgan, Rockefeller, Carnegie.....
  Era um belo prazer para esses homens. Gente que aos 15 anos vivia no trabalho duro, semi-iletrados, duros e solitários, calados e muito sovinas, verdadeiros Tio Patinhas,  poder agora, aos 70 anos, viver cercado pelo luxo e nobresa de pinturas que foram de reis ou de duques. Isso lhes dava a sensação de permanência e de importância que a filosofia americana não podia dar. Ter mármores italianos e móveis franceses antigos era o mais próximo que eles podiam chegar de uma vida que não estava à venda. Duveen lhes vendia tudo isso.
  S.N.Behrman foi jornalista e um dos mais brilhantes dos roteiristas da velha Hollywood. Tinha o dom do diálogo. Escreveu mais de cem roteiros e ainda peças e livros. Este é delicioso. Um prazer da primeira a última página. Procure e leia.

VERGONHINHA, FILME DE MCQUEEN

  Assisti SHAME de McQueen. Mas não é especificamente dele que vou falar. Ou é?
  Ontem Calligaris matou a pau. Conseguiu dizer o que me incomoda nesse tipo de filme. Por detrás de sua nudez e pseudo-ousadia, vive uma mente conservadora, medrosa, preconceituosa. Vamos os fatos.
  Leio que antes de rodar o filme, McQueen fez todo o cast assistir e estudar O ÚLTIMO TANGO EM PARIS. Exemplifico aí a diferença. Brando transa todo o filme com Schneider. Ele é um homem em crise. Vazio, culpado, envelhecendo. Mas o filme jamais diz que ele está "errado". Muito menos que ele tem uma doença e precisa ser "salvo". Ele é um Homem em crise. Por pensar, por sentir, enfim, ele vive a crise de viver.
  No cinema de "arte" atual isso não mais existe. Em sua maioria ( há excessões ), eles partem da ideia de que o que se está mostrando é um outsider, um doente ou um viciado. Jamais o personagem é mostrado como gente como a gente. São filmes em que a doença impera. Ora!!!!! É como se Hitchcock mostrasse James Stewart em Vertigo como um neurótico. Ele é. Mas o filme nunca lhe dá esse rótulo. Ele é como eu e voce. Apenas falho. Bergman mostrou pessoas em crise profunda sempre. E nunca moralizou. Elas não precisavam de remédios, de hospital ou de prisão. Talvez precisassem de Deus, de filosofia ou de amor. Acima de tudo Bergman sabia e demonstrava: não as julguemos, elas não são extraordinárias, elas são como nós.
  Calligaris elegantemente evita falar o mais óbvio: a psicologia se foi, o mundo é da psiquiatria.
  Bergman, como Fellini ou Antonioni, é do tempo de Freud, Jung e Lacan. Eles dialogam, não dão diagnósticos. Seguem os personagens sem os rotular. Observam. Sabem que eles são nós.
  Filmes como Shame são psiquiátricos. O cara é um doido e cabe a nós sentir pena ou raiva, e ter piedade. Tudo é reduzido ao sintoma, ao ato esquisito, ao fora do padrão. Não se dá a menor chance ao personagem, antes do filme começar o diagnóstico já foi dado.
  Feito por Truffaut ele seria um homem sofrido, mas ao mesmo tempo sentindo prazer naquilo que faz. A complexidade da vida, o certo misturado ao errado, o bom ao mau. Feito por McQueen ele é apenas doente. E ponto final.

QUANDO UMA OBRA DE ARTE MARCA SUA VIDA VOCE LEMBRA COM DETALHES DA PRMEIRA VEZ... A PRIMEIRA VEZ COM VIVA!

   Quando uma obra de arte marca sua vida, ela não se fixa em sua vida apenas por ser única. É o momento em que voce a encontra, assim como ocorre com o amor, que dá à obra sua "aura" semi-religiosa. Falo semi-religiosa porque mesmo um ateu militante ( ateu militante, contradição em termos ), tem uma experiência religiosa ao topar com a obra que definirá sua vida. É um momento em que não só ela, como o lugar e o dia em que foi avistada, dão ao apreciador um sentido de permanência, de motivação e de verdade. Como se naquele lugar e naquele momento a vida estivesse a descoberto, exposta em toda sua magnífica luz.
 Desse modo, tão importante quanto ter visto "OITO E MEIO" por exemplo, é a sala onde o assisti. A manhã de domingo, o tipo de luz que vinha pela janela, o pijama que eu usava. Se voce quiser saber o quanto aquela obra foi importante para voce faça a medição de quantas coisas voce recorda do dia em que a conheceu. Na primeira vez em que escutei LET IT BLEED eu estava com calor, sem camisa. Era hora do almoço, eu ia matar aula e meu irmão o escutou comigo.
 Do disco VIVA! do Roxy Music, tudo está vivo na minha lembrança. Tão vivo que até o cheiro da capa recém aberta me volta ao nariz quando rememoro esse momento. Era 1977, era abril, fazia sol e calor. Portanto daqui pra frente meu texto se tornará impressionista e se voce achar que o que aqui escrevo só interessa a mim mesmo.... bem, nosso mundo será brevemente um mundo ONDE TODOS SERÃO escritores e raros saberão ser leitores. Ele já é mundo em que bandas são mais numerosas que discos.
 Como todo quarto dos anos 70, o meu tinha cada centímetro das paredes coberto por uma foto recortada de alguma revista. Mulheres de bikinis, um cachorro salsicha, barcos, Cauli e Bocão pegando ondas, Zico, ilhas e bandas de rock: Led Zeppelin, Bad Company, Queen, Rolling Stones, Rod Stewart, Who, Zappa e uma do Ted Nugent. Naquela tarde de sol eu arranquei foto por foto  e comecei a pintar as paredes. Melancolia, eu cantarolava Chance Meeting, canção que havia recèm conhecido em VIVA! Não sabia que para o resto de minha vida aquela seria a música da minha melancolia.
 A primeira audição.
 Eram três da tarde e a casa estava vazia, toda pra mim. Uma lata de Lanjal misturada com água. Um vinyl bonito, o selo com o colorido VIVA! escrito com brilhantes e a capa de papelão: uma morena bonita cantando com Mr. Ferry.
 A multidão grita e faz coro, entra o som. Rico, cheio, oriental: OUT OF THE BLUE, com óboe, sinuosidades sexy, e a voz. Bryan cantava mais forte na época, cantava alto, viril, e tinha forte acento de ironia. A música evolui, a bateria de Paul Thompson comanda, um solo de Phil Manzanera e o encerramento extasiante. O povo delira e entra PYJAMARAMA. A new-wave nasce aqui. Ferry era então o rei de Londres. Pop classudo, belo sax de Andy MacKay. Eu estou estranhamente hipnotizado, aquilo era diferente, não parecia rock, era outra coisa. THE BOGUS MAN me aterroriza. Bateria marcial, baixo swingado e milhões de efeitos elétricos. A voz de Ferry é maldita e noturna, o synth de Eddie Jobson flutua, me enamoro do timbre da música, começo a entender sem saber das teorias de Eno: timbre é tudo.
 CHANCE MEETING em versão pop. Vozes da platéia ao fundo. Triste como uma despedida. E vem a alegria de BOTH ENDS BURNING. Muito melhor que a versão de estúdio, muito louca, solta, febril, emocional. Os vocais das Sirens são errados, desafinados, maravilhosos. Viro o vinyl. A platéia grita em coro: ROXYROXYROXY, costume mantido até hoje. IF THERE IS SOMETHING. Seria para sempre. São 3 movimentos, quase uma sinfonia glitter. Quanta beleza cabe numa faixa de vinyl negro que brilha como petróleo? IN EVERY DREAM HOME A HEARTACHE. Maldição, soturna, dark, vampirismo. Voodoo. DO THE STRAND. Final à la Roxy: festa. Caleidoscópica festa. Vai de tango a rumba, de rock a soul e valsa com fandango.
  Mas antes:
  Sentado num tronco de árvore que caíra a tempos em meu campo. Umidade, era a primeira tarde fria do ano. No JT vinha a crítica do lançamento do novo disco do ROXY: VIVA! Escrito pelo insuperável Ezequiel Neves. Ele botava o disco nas alturas. Chamava ENO de maluquete e dava a Ferry a alcunha de Frank Sinister. Eu já havia comprado outro disco do ROXY, Siren. Gostara, mas não muito. Na tarde seguinte, ainda muito cinza, iria comprar o tal de VIVA! O sol viria forte no dia em que o escutei... 
  É 2012.

Roxy Music: 2HB, Live from the Clyde Auditorium, Glasgow, PORQUE ME CHAMO TONY ROXY



leia e escreva já!

CARNÉ/ RAMPART/ MARY POPPINS/ A VOLTA AO MUNDO/ KING/ DERCY

   OS VISITANTES DA NOITE de Marcel Carné com Alain Cuny, Arletty, Jules Berry, Fernand Ledoux e Marie Déa
Carné dirigiu aquele que é considerado o maior filme já feito na França, O BOULEVARD DO CRIME. Este foi feito imediatamente antes. Rei do movimento do "realismo poético", uma onda de filmes pessimistas e simbólicos, tem roteiro do grande poeta Jacques Prévert. Fala de dois enviados pelo diabo, que na idade média, seduzem dois jovens apenas pelo prazer de seduzir. Mas o enviado masculino se apaixona, o que faz com que o diabo em pessoa apareça para o castigar. Não é uma obra-prima, mas é marcante. Abre possibilidades ao veículo, o da poesia. O elenco é estupendo. Nota 8.
   MARY POPPINS de Robert Stevenson com Julie Andrews e Dick Van Dyke.
Fenômeno da Disney, em termos absolutos é até agora o maior sucesso do estúdio. Otimista, irreal, infantil no bom sentido. Mary é uma babá que chega voando e ensina a compreensão. O filme nada tem de carola, mas é "antigo". Nada tem em comum com o mundo de 2012 ( aparentemente ). A trilha sonora dos irmãos Sherman é uma obra-prima. Se voce ama musicais vai adorar. Se não aprecia o gênero, fuja. Existem musicais que podem converter os não-apreciadores, este não é o caso. Nota 8.
   A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS de Michael Anderson com David Niven, Cantinflas e Shirley Mac Laine
Sucesso de bilheteria, é considerado dos mais fracos vencedores de Oscar de melhor filme ( mas perdeu a melhor direção ). Os críticos o detestam por ter derrotado grandes filmes em 1956. Mas se esquecermos disso é um agradável filme à Sessão da Tarde. Com 4 horas de duração, ele mostra a viagem de Fogg e seu criado Passepartout, bem lentamente. Eles voam de balão e apreciamos a paisagem, andam de trem e vemos a América, navegam e sentimos o mar. Relaxe e aprecie a viagem, mas não espere emoção ou adrenalina, é um tipo de calmante. Obra do produtor Mike Todd, o filme feito em regime de empréstimos e calotes, acabou sendo seu único título. Ele morreu logo depois. São multidões de figurantes, cenários imensos e locações pelo globo inteiro. Feito hoje seria bem mais fácil. Nota 6.
   CISNE NEGRO de Henry King com Tyrone Power e Maureen O'Hara
Não se trata da comédia de Aronofski em que Natalie Portman faz uma bailarina gótica perdida em universo fake. Aqui é um convencional filme de pirata com todos os ingredientes do gênero. Eu sou vidrado em barcos á vela e espadas com caveiras, então me satisfaz. King foi um dos diretores operário da época. Filmava muito, nunca errava, mas também jamais arriscava. Era bem melhor em westerns. Nota 6.
   ABSOLUTAMENTE CERTO!  de Anselmo Duarte com Dercy Gonçalves
Um Brasil pobre, bem terceiro-mundo. Esse país existiu? Gente conversa nas ruas em cadeiras, amigos assistem Tv juntos, na sala, e as janelas têm sempre alguém a olhar a vida passar. O filme, ruim, vale só por isso, retrato antropológico de um mundo ido. Um passeio de Porsche pelo Anhangabaú vale o filme. E Dercy era ótima! Nota 1
   RAMPART de Moverman com Woody Harrelson e Ned Beatty
É sobre um policial. Ele vive em casa num meio feminino, filhas e esposas ( ex e atual ). No trabalho ele é duro, frio, violento. O trabalho de Woody é ótimo, se parece com o Clint ator, cheio de raiva contida. Mas é um filme pequeno. Típico pastiche do cinema dos anos 70 mas feito com o vazio tristonho do século XXI. Imagens pobres, closes fechados, câmera trêmula...antes de o ver eu já sabia a forma que teria. Vamos a um adendo. Há quem me fale que não consegue entender do que eu gosto. Como posso gostar de musical e western? De filmes trágicos e de comédias? Bem... o que me guia é o prazer. Só o prazer. E tenho  prazer em ver algo que me surpreenda, ou que seja estéticamente bonito, ou que me faça rir e chorar. Não me importa se fala de dançarinos ou de detetives, de cowboys ou de crianças. Se seja feito em 1980 ou 1921. Quero ter prazer. Nada de tédio, de sacrifício, de obrigação em me educar ou atualizar. Quero o gosto de ver a inteligência na tela. Certo????  Este filme de prazeroso só tem a atuação de Woody. Nota 5.
   EL CONDOR de John Guillermin com Lee Van Cleef e Jim Brown
Faroeste italiano feito nos EUA. No começo dos anos 70 o western tava tão por baixo que os americanso começaram a imitar a imitação italiana. Resultado: violência barata e heróis porcalhões. Jim foi um astro do futebol americano. Interpreta como um receiver. É um lixo, mas pelo menos o filme assume isso. Torna-se simpático. Nota 3.
  

BRUCE LEE E O DESEJO DE AUTO-EXPRESSÃO

  Após ler tanta besteira nesta semana ( Calligaris perdendo a noção e dando destaque a uma "descoberta" cientifica idiota, pois desde criança eu sei que lombrigas fazem com que a gente faça asneiras, e uma Veja que dá de capa uma pesquisa que revela o óbvio ), topo com algo de instigante onde não esperava, na Fox Sports. Um especial chamado Bruce Lee Lives.
  Se antes vivemos o desejo de ser respeitado, o desejo de ser cidadão e o desejo de ser livre, desde a década de 70 vivemos o desejo de auto-expressão. Após a conquista da liberdade, ou melhor, após a superação da necessidade de se poder viver em paz, nasce o querer ser aquilo que se é.
  Em seu aspecto mais tolo esse desejo faz com que todos pensem ser especiais. A ilusão de que ser voce-mesmo é ser único. E na busca desse dom, vale tudo, desde dar tiros em alunos até se mutilar em programas de Tv. É como se a única coisa que pudesse dar valor a vida fosse isso: se descobrir e ter a "coragem" de ser aquilo que se é. A propaganda logo entendeu isso e hoje todo produto quer que voce seja voce.
  Bruce Lee foi um dos filósofos desse movimento. E isso eu não sabia.
  Baixo, franzino, chinês em país que não aceitava chinas, Bruce se entendeu como ser especial e usou uma disciplina férrea para ser aquilo que ele poderia ser. O melhor. Criou uma nova arte-marcial, toda baseada na auto-expressão, uma técnica em que voce cria sua própria técnica baseada em seus dons e no adversário do momento. Bruce Lee domina o que já existe antes de sua chegada e tira de dentro de si a novidade, se diferencia. É um "radical".
   Radical no sentido de se ir ao limite. Pegar uma disciplina e usá-la como expressão de si-mesmo. Tornar o esporte um tipo de arte consciente. E isso foi novo.
   Bruce Lee é um mito para skatistas, bikers, DJs e Rappers. Porque? É também um pioneiro que deu as coordenadas dos filmes de ação de hoje e um guru para diretores como Tarantino e Rodriguez ( além de infinidades de outros como McG, Rob Cohen e Zack Snyder ). Porque?
   O que marca seu estilo e sua mensagem ( ele deixou uma filosofia de vida ), é sua atitude de "foda-se" perante a vida. Lee não queria ser o melhor, ele queria ser ele-mesmo. É esse o espirito que move nosso tempo. Um skatista, um músico, um pintor, se ele tiver o ideal de ser "cool" está pouco se lixando com sua concorrência, com o que seja sucesso, com as regras. Sua única vontade é ser aquilo que ele é: único. É uma atitude adolescente. Só adolescentes têm essa ilusão de que dentro de cada um há a originalidade. Normalmente essa atitude leva a uma vontade arrogante de se chamar a atenção. Mas os que compreenderam o significado da mensagem, de que ser voce-mesmo não quer dizer ser diferente mas sim TENTAR ser original, PROCURAR sua verdade, esses conseguem atingir a liberdade, uma atitude relaxada de auto-suficiência, um verdadeiro espirito Foda-se. Tentar e procurar, e não necessariamente chegar.
   Fato que salta aos olhos: os idolos que sobrevivem desde então são aqueles que passam essa atitude Bruce Lee de ser. Olhamos o passado e não mais entendemos atores espetaculares como Olivier, Clarck Gable ou Jean Gabin. Eles não tinham esse compromisso de auto-expressão, eram "apenas" grandes atores.  Gostamos deles, admiramos seu talento, mas não pensamos em ser como eles. Somos muito mais próximos de gente como James Dean, Steve McQueen ou Brando, atores que procuravam ser uma usina de auto-expressão. Tudo desde então, seja em literatura, música, politica, segue essa estrada. O que permanece é o artista/homem comprometido com seu eu, o que passou a ideia de auto-expressão. A valorização do auto-centrado, do angustiado, do eterno mutante, a desvalorização do simplesmente competente, do satisfeito, do fiel ao meio.
  Bruce Lee, como Steve McQueen, cria o herói como homem que procura, mas não mais aquele que procura recompensa oficial ou honra perante a cidade, é o herói que procura ser livre e que tem a certeza de que ser livre é ser si-mesmo. Se essa recompensa é ilusória ou não, bem, isso não o preocupa. Sua vida é improviso constante, adaptação ao momento, criação sob pressão do meio.
  Se hoje, como em 1973, Lee e Steve são mitos para aqueles que importam, isso se deve ao fato de intuitivamente eles terem percebido que após a queda de tabús e de restrições o que viria era o desejo de auto-expressão. Seja criando uma nova luta, rabiscando paredes ou arriscando novas manobras sobre uma prancha. Eis nosso mundo. Eis a nossa impossível satisfação.

VOLTAIRE POR ROGER BASTIDE

   Voltaire nasceu filho de burguês bem colocado. Dinheiro e prazer, sua vida será marcada por esses valores. Mas um fato doloroso marcará sua entrada na maturidade, o fato de que na França de seu tempo, dinheiro comprava prazer, mas jamais comprava respeito. Doeu no imenso orgulho de Voltaire a percepção de que ele era apenas um escritor, um burguesinho, uma piada. Mas estou me adiantando. O belo texto de Roger Bastide começa analisando o porque de Arouet, nome verdadeiro do autor do Candide, assinar Voltaire. E não só isso, o porque de ele usar vários nomes e muitas vezes não reconhecer sua própria autoria.
  Uma questão de auto-preservação? A lei era autoritária, e textos ferinos podiam custar a prisão. Mas as máscaras de Voltaire dizem mais. Bastide diz que os pseudônimos servem na verdade para nomear os múltiplos seres que habitam em cada um de nós. Voltaire percebe que vivemos várias realidades, que em nós existem mundos díspares. Eis sua modernidade.
  Desde cedo ele amou a diversão e o teatro. Sua primeira filosofia é a do prazer. A vida existe para se divertir. E não vamos esquecer que em seu tempo ( século XVIII ), era o teatro que dava fama a um autor. Literatura séria era teatral, e os poetas vinham logo em seguida. Escrever prosa era considerada ocupação pouco nobre, futil. Voltaire ama o teatro e ama a fama. Tem ambição, quer ser o novo Corneille e o novo Racine, o rei do teatro francês. Por toda a vida ele escreverá peças, algumas de grande sucesso, outras não. Deve-se dizer, todas estão mortas em nosso tempo. O teatro de Voltaire é velho, chato, não mais se representa. Sua fama eterna virá de sua filosofia e de seus contos. E da ação que ele produziu. A vida de Voltaire fez dele um gigante.
  Fez dinheiro. Apesar de ser artista e filósofo, sabia capitalizar. Era cruel. Emprestava a juros altos, aplicava na bolsa e ganhava. Comprava terras. Era considerado frio, ambicioso, duro, implacável. Voltaire amava o dinheiro. Sonhava em ser embaixador, se fazer um nobre.
  Mas um de seus escritos ofende um conde que o esbofeteia na rua. A crise nasce aí. Nenhum amigo toma seu partido. E o conde nem admite um duelo, pois não iria se sujar em duelo contra um plebeu. Voltaire, que emprestava dinheiro aos nobres vê a realidade da França. Ele era um nada. Quando acontece em 1755 o terremoto de Lisboa, catástrofe que mudou a Europa, que deu impulso a crítica à religião ( que Deus é esse que mata uma cidade inocente? ), o amargor de Voltaire atinge seu apogeu. Mas que amargor é esse?
  Cartesiano ainda, ele ama a razão. E para ele, se Deus não pode ser racional, pois um ser racional não permitiria a injustiça, então Deus não pode existir. A razão não pode explicar Deus. Observe que Voltaire salva a razão destruindo Deus. Segundo Roger Bastide, Kierkegaard dará um passo adiante: nada é racional, incluindo Deus que é inexplicável como a vida. Para um cartesiano como Voltaire esse pensamento é impossível. O tempo de Voltaire é tempo em que a fé na razão é absoluta. Tudo é explicável, tudo tem um porque, uma causa e um fim. O surpreendente é que Voltaire nega Deus mas não se faz ateu. Ele crê num Deus que habita em todos nós. É um deísta.
   Mas o mundo é para ele absurdo. Esse absurdo vem do fato de que ele não consegue se livrar da razão. À luz da razão tudo parece absurdo. É preciso nada levar a sério. É preciso saber rir.
   E ao mesmo tempo é preciso saber tudo. Voltaire tem uma curiosidade sem fim. Pesquisa, vê, tenta entender. É poeta, contista, historiador, autor teatral, ator, cientista, filósofo, político e jornalista. Participa da Enciclopédia e faz-se inimigo de Rousseau.
  Rousseau acredita nos sentimentos. Voltaire zomba dos bons sentimentos. Rousseau fala da bondade natural do homem. Voltaire ama a civilização. Rousseau é sensível e Voltaire é intelectual. São inconciliáveis. Mas voltemos no tempo....
  Logo após o duelo que tanto o humilhou, Voltaire vai à Inglaterra. Detalhe: ninguém ia à Inglaterra então. A ilha era um país que não contava. Europa era França, Espanha, Roma, Viena e Prússia. Ninguém sabia nada sobre a Inglaterra e ninguém falava inglês. Pois será Voltaire quem lançará a moda inglesa, a mania que se apossará do continente. Na Inglaterra ele encontrará uma nação que tinha muito em comum com suas ideias. Uma crença na força do dinheiro, escritores como homens respeitados e a liberdade de se escrever o que se desejar. Sem medo. Os ingleses amavam seus escritores, os nobres aumentavam suas rendas, e a igreja não se metia na vida cotidiana dos cidadãos. Mas há também algo nos ingleses que desconcerta Voltaire. Ele observa que é um povo que está feliz de manhã, mas que no fim da tarde cai em terrível melancolia. Eis uma imensa diferença entre França e Inglaterra que se mantém séculos afora. A França é fria, racional, faladora, analítica, e de humor constante. Falta-lhe fantasia. Já a Inglaterra é sonhadora, melancólica, quieta, piegas e de humor desconcertante. Voltaire logo percebeu tudo isso. Shakespeare seria impossível na França ( apesar de logo se tornar um sucesso em Paris ), com suas fadas e ações irracionais. O que Voltaire não percebeu foi o humor inglês. Ele, como francês, tinha um humor ácido, destrutivo, cruel. O humor inglês é auto-irônico, carinhoso, tem pitadas de amor.
  Voltando a França ele logo lança sua obra de história, mais peças, contos, e com o tempo, e por ter tido a sorte de viver 82 anos, sua fama começa a se espalhar por todo o mundo. Já no fim da vida, Benjamin Franklyn vem da América e o visita. O filho de Franklyn lhe beija as mãos e diz que sua nação o ama. Voltaire percebe, espertamente, que a América consegue algo que ele sempre desejou. A união de Deus e da Liberdade. A divisa americana seria "God and Liberty".
  Há muito mais no texto de Bastide. A estada dele na Suiça, país que amava a liberdade mas que puritano, odiava o teatro. Suas relações com Frederico, rei da Prússia, monarca que desejava fazer de seu reino uma nova Atenas. E as mulheres, várias, variadas, usadas e descartadas.
  Voltaire viveu no auge da França. Tempo em que a razão era a rainha da vida. A ciência misturava-se com a filosofia e a arte com a politica. A vaidade imperava, a etiqueta. E Voltaire era muito vaidoso, esnobe, egoísta. Difamava sem remorsos quem o atacava, era agressivo, vingativo.
  Foi o primeiro escritor que chamei de ídolo. Teve enorme influência em minha adolescência. E desde então sempre peço a todo amigo que o leia. Se voce quer ser levado a sério, leia Voltaire. Depois a gente conversa. E nunca encontrei alguém que não gostasse de Candide, de Zadig ou de Micrômegas.
  Voltaire é pra sempre.

OS 17 DE HEMINGUAY

Um amigo me envia a lista dos livros que Heminguay preferia.
Fico feliz em saber que dos 17 títulos, 7 estão entre meus 17 favoritos e que 10 eu já li.
Os dezessete são:
ANNA KARENINA de Tolstoi. OS BUDDENBROOK de Thomas Mann. O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de Emilly Bronte. MADAME BOVARY de Flaubert. GUERRA E PAZ de Tolstoi.
CONTOS de Turgueniev. OS IRMÃOS KARAMAZOV de Dostoievski. HUCKLEBERRY FINN de Mark Twain. WINESBURG OHIO de Sherwood Anderson. RAINHA MARGOT de Alexandre Dumas. A PENSÃO TELLIER de Maupassant. AUTOBIOGRAFIA de Yeats. O VERMELHO E O NEGRO de Stendhal. A CARTUXA DE PARMA de Stendhal. DUBLINENESES de Joyce.
Há ainda um livro de W.H. Hudson, que desconheço e um livro de George Moore, que pelo que sei é autor jamais traduzido para o português.
Desses volumes, entre meus tops estão os dois de Stendhal e Anna de Tolstoi. O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é meu livro mais querido e a coletãnea de James Joyce, DUBLINENSES,  é das melhores coisas que já li.
A lista mostra o quanto Heminguay era bom leitor. Ele tem gosto impecável.
Sinto a falta de Proust e de Cervantes. Mas assim como Henry James, eles estão distantes demais do universo de Heminguay.
Posso depois me arrepender, mas esta é minha lista:
Anna Karenina de Tolstoi.
No Caminho de Swann de Proust.
Dom Quixote de Cervantes.
Retrato de Uma Senhora de Henry James.
O Morro dos Ventos Uivantes de Emilly Bronte.
O Vermelho e o Negro de Stendhal.
A Cartuxa de Parma de Stendhal.
Dublinenses de James Joyce.
O Sol Também se Levanta de Heminguay.
Contraponto de Aldous Huxley.
As Viagens de Gulliver de Swift.
Candido de Voltaire.
Scoop! de Evelyn Waugh.
As Cidades e a Serra de Eça de Queirós.
Brás Cubas de Machado de Assis.
O Planeta do Sr. Sammler de Saul Bellow.
Passagem Para a India de E.M. Foster.
   Felizmente a liste de Heminguay não engloba poesia e teatro. Peças de Shakespeare e poemas de Yeats, Keats, Pessoa, Eliot e Wallace Stevens já acabariam com qualquer ranking.
   E fica a dúvida: Montaigne é filosofia, diário ou o que?

PAUL GAUGUIN, O HOMEM QUE NASCEU HOJE

   Paul Gauguin fracassou. Os dois objetivos principais de sua vida não foram alcançados. Ele queria ser "o maior pintor vivo", e queria aprender com os taitianos a ser "um primitivo". Não foi aclamado como o maior de seu tempo ( essa honra era de Monet e de Degas ), e jamais deixou de ser um europeu típico.
 Mas a vida de Gauguin valeu a pena. E muito! Paul é invejado até hoje, ele é o modelo dos descontentes. E muito mais que isso, ele antecipou um tipo de caráter que se mantém até hoje. Paul Gauguin poderia ter nascido em 1970 ou 1990.
 Não poderia ser em seu tempo o maior pintor vivo, porque ele negava aquilo que os artistas famosos de seu tempo mais prezavam: o futuro. O impressionismo amava a técnica, a velocidade e o mundo que viria nascer no futuro. Eram otimistas. Na verdade pensavam como os burgueses que odiavam. Gauguin odiava a ciência, a técnica perfeita, o futuro. Ele valorizava o arcaico, o primitivo, o simbolo. Era então chamado de infantil, bruto, parvo.
 Não conseguiu ser primitivo como queria. Era sempre um europeu observando um taitiano. Como europeu lhe era impossível entender e participar do "fazer nada" taitiano. Explico. Todos os quadros feitos no Tahiti de Paul Gauguin exibem nativos indolentes, descançados. Observe isso: eles, assim como nossos indios, conseguem ficar sem fazer absolutamente nada. Como animais ( e nisso não vai nenhuma critica minha ), eles se deitam e passam a tarde parados, sem nada fazer e "sem se sentir culpado por isso". Para nós, como para Paul, isso é impossível. Um domingo em que nada fazemos é um domingo perdido. Nosso descanço é ativo. Lemos, caminhamos, vemos TV, dançamos, visitamos amigos para fazer alguma coisa. Até nossas conversas devem ter uma ação, um fim. Gauguin pintava, escrevia, sentia culpa por não estar produzindo. Hoje, em 2012, até nossas crianças não sabem mais o que seja ficar deitado no chão olhando as nuvens e fazendo o nada. Deitados na praia estamos nos bronzeando, fortalecendo ossos ou preocupados com o câncer de pele. Estar lá, simplesmente lá, sem objetivo, sem culpa e sem deprê, isso nos é impossível ( mas eu fui assim até os 13 anos ). Um taitiano em SP hoje seria chamado de vagabundo, idiota ou mais provável, deprimido.
 Paul Gauguin tinha raízes peruanas. Nasceu na França mas passou sua primeira infância no Peru. De volta aos 7 anos, foi marinheiro e após se casar aos 22 anos, enriqueceu. Foi corretor da bolsa, teve filhos e pintava de fim de semana. Aos 35 anos, despedido, resolveu ser pintor. Largou a familia e caiu na vida.
 Em 1890 países exóticos eram moda. Gauguin sabia disso e sua arte é uma mistura. Ele tenta ser famoso, fazer aquilo que sabe poder lhe dar fama, e ao mesmo tempo é um original. Seu ego é gigantesco. Deseja ser reconhecido. Logo viaja ao norte da França, em busca do primitivo e depois faz sua primeira viagem ao Tahiti. Mas atente: ele vai a uma colônia francesa. Gauguin é radical em parte. Fosse realmente radical iria para um local de lingua desconhecida, mais incivilizado, onde fosse um ninguém. No Tahiti ele é o colono, inclusive sendo recebido pelo governador no porto.
 Mallarmé e os simbolistas logo se encantaram com Paul. Sua pintura sempre tem uma mensagem simbólica. Nunca é pintura pura, ela narra. Mas é uma narrativa cifrada. Quem não souber a ler não gostará de Gauguin. Os trabalhos de Paul são do tipo em que se deve amar a primeira vista. Se voce nada sentir, desista.
 Morte, liberdade e religião, tudo nele está impregnado desses três valores. Não há um só quadro de Paul Gauguin que não fale da morte, da religião e da liberdade. Ele era irascível, nervoso, intenso.
 Não falarei do fiasco que foi sua relação com Van Gogh. Na verdade os dois passavam o tempo a se provocar. Penso que o holandês adorava o dom de vida que o francês tinha e Paul admirava a fé inabalável que movia Vincent. Tudo terminou em violência.
 Gauguin após sua primeira estada no Tahiti volta a França pensando que seus quadros tropicais serão um sucesso. Fracassa. Ele é considerado muito pouco exótico. Seus quadros são "pouco decorativos". Mais raivoso que nunca, volta ao Tahiti, para sempre. Nessa segunda estadia, além de continuar a amar suas nativas adolescentes e a passar doenças venéreas a todas elas, Gauguin entra em atrito com as autoridades francesas na ilha. Finalmente percebe que o paraíso se transforma em inferno. Que seus nativos são um tipo de brinquedo dos colonizadores. Que a vida idilica dos taitianos está a desaparecer. Ele passa a lutar por eles. O governador tenta o deportar.
 Sua pintura se enriquece. O colorido domina. Gauguin não é um desenhista, ele é um colorista. E um escultor. Suas pinturas tem um talento escultório. Elas são sólidas, parecem grandes. O principal: em Gauguin não há um centro. Não existe hierarquia. Tudo na pintura é importante, tudo é um mesmo, nada é destaque. Não existe um centro, um foco. Seu simbolismo religioso se torna prodigioso. Cada quadro é uma narrativa mistica.
 Tivesse vivido mais dez anos Paul Gauguin conheceria a fama que almejou. Mas morreu aos 54 anos, após ser preso por alguns meses, de gangrena. Era 1903. Em 1913 ele era o pintor mais amado pelos modernistas.
 Mas não vamos fazer romance. Gauguin vendeu quadros, não foi um Van Gogh. Teve uma certa fama entre os poetas e os rebeldes de Paris. Degas comprava seus quadros. E acima de tudo, Paul Gauguin viveu a vida que escolheu. Nunca foi uma vitima. Amou suas taitianas ( hoje seria um pedófilo ), e tentou, sem sucesso, ser um deles. Está vivo para sempre em pinturas, esculturas, livros que escreveu e na lenda de sua vida. Foi um existencialista antes do tempo. Um hippie 60 anos antes. Um ansioso de 2012.
 Aos 15 anos eu vi meu primeiro Gauguin. Amor eterno e de primeira vista. Cada cor conversa comigo. Eu entendo o que ele queria. Sinto o que ele sentia.

Paul Gauguin



leia e escreva já!

TODA ARTE É SUJA E DOENTE

   Inspirado pelo belo artiguete de Vladimir Safatle.
   O artista, assim como o filósofo, viu demais. Algo que aos outros é vedado ver. Para eles a vida é grande demais, terrível demais, sedutora demais. Ao perceber a vida em toda sua plenitude, o artista se defronta com seu maior mistério: a morte. Essa vida grande demais é o que lhe dá o aspecto de doença e de neurose. Doença e neurose que É A MARCA DE TODO ARTISTA E DE TODO FILÓSOFO.
   A frase acima é de Deleuze e Guattari.
   A doença é parte da arte. Não é um ônus ou uma sublimação, simplesmente ela faz parte da visão. Mas se vivemos numa época em que a doença e a neurose são indesejadas, mais que isso, odiadas, consequentemente a arte e a filosofia serão vistas como incômodos. Se tornarão fracas.
   O artigo me impressiona por tocar ( e confirmar ) duas sensações que sempre me acompanham.
   Primeiro. Quando vejo um filme de Clair ou de Mizoguchi ( entre muitos outros ), o que mais me impressiona é a sujeira. Nada neles é limpo, polido, hospitalar. Essa poderia ser uma visão romântica minha, mas na vida que levo percebo que a inquietação e criatividade estão sempre ligadas a desarrumação, a uma certa sujeira. Amigos muito organizados, limpos, com unhas bem feitas e roupas recém passadas costumam ser cegos a complexidade inexplicável da vida. Têm explicações para tudo, compartimentam suas emoções, vêem as coisas em alcance curto. E morrem de medo de coisas como loucura, drogas, desorganização, sexo promíscuo e morte. Veja, não defendo o sexo sujo ou a droga. É que para esses hiper-controlados, quase todo sexo é sujo. Por outro lado, amigos que vivem em apartamentos imundos, roupas amarrotadas e descontrole de vida, costumam ter muito mais criatividade e coragem perante a grande vida.
   É claro que existe a pose. Fácil observar o desarrumado criativo de butique. O que falo é do cara que realmente cria algo. O amigo que está sempre às voltas com grandes ideias. O sujo Dolce e Gabanna não me interessa.
   Voce também pode falar de artistas meticulosos. Gente como Henry James, bem arrumados e de vida sexual hiper-controlada. Mas interiormente James era um kaos. Hoje seria um tomador de pilulas e um eterno analisando. Sua rotina era febril, seus pensamentos incontrolados, suas obssessões absorventes. Um doente.
   Vladimir fala que hoje a doença e a neurose são considerados "momentos vazios", que devem ser aniquilados o mais depressa possível. Como aliás ocorre com a morte, que deve ser esquecida sempre. O que perdemos é o falar com a doença.
   A doença, fisica ou não, é sempre uma crise. E a crise é o sinal de que voce se tornou PEQUENO DEMAIS PARA UMA VIDA QUE EXIGE DE VOCE A GRANDEZA. Todo doente sabe, que após a doença prolongada vem uma nova vida. Um renascimento. Voce se sente grande e pronto para algo mais exigente. A moderna fixação na saúde faz de nós um SEMPRE O MESMO. É como se ser uma crisálida fosse uma doença e nos esforçássemos para jamais tornar-se borboleta.
   Mas a vida é crise constante. É impossível não se estar doente de alguma coisa todo o tempo. Dispendemos toda a nossa energia nessa luta em vão. Nosso asco a doença, nosso horror a morte faz de nós seres que não conseguem mais dialogar com a doença e com a neurose. Fugimos das duas crises. Corremos para a não-criação.
   A vida sempre encontra respostas para as questões que ela mesma coloca. Basta saber ouvir essa resposta. A doença é a vida. Estar vivo é viver em crise e em risco. E a vida produz doença e sujeira. Negar tudo isso é negar a vida. É querer ser máquina, querer ser equação, querer ser morto.
   Triste sina: mortos não sentem dor e não ficam mais doentes.
   Jacques Lacan: Neuroses são questões. A doença é um tensionamento da vida. Deve-se buscar o que ela tem a dizer.
   Daí vem a postura do artista. Ele sabe que a questão colocada pela neurose é uma grande questão. E se esforça em encontrar sua resposta. Ele sabe que a tensão da doença é uma prova grande. E se esforça em vencê-la. Mas o que se faz hoje é exatamente o contrário. Um esforço para se esquecer da morte, se apagar a neurose e se livrar inconscientemente da doença. Ignoram-se as questões.
   Conheço os dois lados e posso dar meu testemunho. Sei o que é ter uma neurose de morte aos 16 anos e passar meses tentando entender a morte, e melhor que isso, criando histórias, teses, desenhos, ações que me fizessem entender o que se passava comigo. Eu pintava quadros, escrevia contos, sonhava sonhos absurdos, dançava a tensão. Vivia sem parar, vivia grande e com uma dor imensa. Rememorava tudo, nunca parava de fazer coisas. E buscava a vida. Tinha de achar uma resposta.
   Mas conheço também o alivio do comprimido, da solução sem dor, do imediato. Livrar-se da neurose, do sintoma com um gole de água. Deixar a vida GRANDE morrer. Eu sei o quanto a vida pode ser pequena, o quanto ela pode se tornar modesta.
   Conheço gente como eu, que fez o mesmo caminho. Todos morrem de saudade da vida GRANDE, sentem que a vida após "a cura" ficou pequena, futil, sem cor. Nos tornamos "como todo mundo", perdemos aquilo que fazia de nós únicos. Mais um anabolizado espiritual ou siliconado da vida.
   Não irei jamais voltar a ser o que fui quando "doente". O mágico da VIDA GRANDE é que voce não a escolhe, voce vive nela como sina. Ninguém opta por ser doente, neurótico ou sujo. A vida vive em voce e voce procura solucionar o enigma. Mas ninguém escolheria voltar a dor. Sabemos que viviamos de forma mais rica, que aprendíamos mais e que nos sentíamos especiais, mas não podemos programar esse retorno. Programar já seria uma traição.
   Me incomoda a quantidade de filmes com gente doente. Com hospitais. A quantidade de apartamentos limpinhos, de atores saudáveis, sem gordura nenhuma, sem uma ruga, um sinal, uma cicatriz. São filmes com gente doente "limpa". Eles não são filmes doentes, são filmes que nos ensinam a superar a morte. A vê-la como ficção. Banalizar.
   Meu quarto hoje tem cada coisa em seu lugar. E tem uma TV, som e PC.
   Sinto uma saudade imensa de quando pilhas de cadernos ficavam no chão, livros se espalhavam pelas poltronas, pincéis e latas de tinta num canto e meus dois cães dormindo em minha cama. Absolutamente solto. Naquele quarto se respirava vida. E um monte de pó e de ácaros.
    No recente filme de Woody Allen o personagem de Owen Wilson desiste de seu sonho quando recorda que em 1920 se morria de tuberculose. É exatamente o medo da morte que mata seu delirio feliz..... Pensem nisso.
    Nossa época tenta algo de grotesco: produzir arte sem sujeira, arte util, artistas saudáveis. Nosso tempo odeia a arte tanto como odeia a religião ( igreja é outra coisa ). Arte  e religião só podem ser aceitas se forem uteis e lógicas. O Util e o lógico matam as duas.
    Faça um teste. Se imagine num tempo de grande arte e  filosofia. Talvez o tempo de Kant, Beethoven, Goethe e Keats. Observe como todo esse sonho será desfeito quando voce pensar: Eles fediam, tinham pulgas e se morria de gripe. Eis o pequeno mundo maculando a Grande Vida. O medo aniquilando a coragem. O util encurtando a visão do transcendental.
    Não existe arte sem doença?
    Mais que isso, não há vida sem dor.

EUGÊNIO ONEGUIN- ALEXANDR PUSHKIN ( O MAIS AMADO AUTOR RUSSO )

   Muito mais que Tolstoi, Dostoievski ou Tchekov, russos amam Pushkin. Eugênio Oneguin está para a literatura de lá como o Quixote para a Espanha ou Brás Cubas para o Brasil. É um centro, retrato de alma nacional. Dario Moreira de Castro Alves, tradutor do livro, diz que na Russia, taxistas, professores ou policiais, todos sabem trechos de Eugênio Oneguin na ponta da lingua.
   Pushkin é pouco traduzido. Esta tradução, de 2010, é a primeira para o português de sua obra-prima. Foi saudada com os louvores devidos. Dario foi diplomata. Aposentado, dedica-se a seu grande amor: as letras. Tem trabalhos sobre Eça e Camilo. E esta tradução trabalhosa. Trata-se de um romance em versos. É um romance por descrever ações, por conter personagens que agem no tempo; e é um poema, por ser todo escrito em versos de oito linhas, rimados.
   Pushkin é dos mais românticos dentre os românticos. Seu bisavô foi um negro etíope. Dado de presente a um nobre russo, esse antepassado foi educado e feito militar. O pai de Pushkin é neto desse etíope.
   Há um dito russo que fala que o czar Pedro lançou à Russia o desafio de se fazer moderna. E a Russia respondeu com Pushkin, o primeiro russo moderno. Nascido em 1799, é o poeta um homem da Europa. Cheio de ideais do romantismo, cheio de ansia por viver, e tombado pelo tédio/spleen. Mas ao mesmo tempo é Pushkin um russo. Para vencer esse nada, esse vazio existencial, ele mergulha nas raízes russas, no povo, no folclore, na alma única de seu país. Mais que europeu, um russo sempre.
   Viveu apenas 38 anos, foi morto em duelo. Deixou vários romances puros, sem verso, e este Eugênio.
    Eugênio é um nobre que descobre que a vida lhe é estranha. Tomado pelo tédio, ele ama as mulheres sem se envolver e acaba por tomar a decisão de se recolher. Irá viver só, estudando e observando. Tatiana é uma adolescente simples, mas jamais simplória, que se apaixona por ele. Lhe escreve carta onde se declara e ele lhe responde pessoalmente com frieza. Eugênio lhe explica que com alguém como ele, tão amargo, ela só poderá ser infeliz. Que ele não nasceu para casar-se. O tempo irá passar e ele se verá apaixonado por ela. Mas Tatiana já se casou então, e irá o rejeitar. A vida de Eugênio se resolverá em duelo.
   Como personagem Eugênio Oneguin é apaixonante. Imerso em Byron e Scott, tudo o que ele percebe da vida é sua própria face. Ele pensa apenas em si-mesmo, dialoga com seu coração, preocupa-se com sua vida. Mas não é um egoísta. Na verdade ele abre mão de tudo. Nada retém de seu, nada deseja, e acaba por se derrotar. Pior que isso, o livro mostra que Eugênio é um homem indesejado na sociedade russa. Seus questionamentos perturbam.
   Maravilhosamente romântico, todo o texto exala sensibilidade, consciência temporal, e aquela raiva contida, tão particular aos românticos de todos os tempos. Eugênio ama tanto ao amor que é incapaz de amar uma mulher. É tão ligado à vida que se abstém de viver. Livre, se prende ao seu mundo criado. É belo. É Pushkin.

O JORNAL MORREU E INSISTE EM FALAR

   Mas esse é o fim da picada.
   Um artigo sobre Peter Greenaway de uma superficialidade digna de um tweet. Depois uma coluna sobre Tv que é subitamente cortada. Pondé escrevendo mais um artigo sobre a mesma coisa de sempre ( bruxas ) e também encerrado às pressas. O que se passa com a Ilustrada???
   Enquanto isso o Estadão continua desenvolvendo seus temas e dando espaço a escrita. Quem está no caminho certo? E o que é O Certo?
   É óbvio que a Folha está assustada. Ela não escreve mais nada que não seja Teen. A impressão é que tudo é escrito com o medo de ser chato. Se tornou ilegível. Nada há pra se ler. São opiniões simples, redundantes, um rascunho de fanzine.
   O Estadão está longe de ser ideal, mas pelo menos ele ainda não rasteja. O texto não é picotado e alguns temas são desenvolvidos com calma.
   Não trabalho no meio, sou apenas um leitor. Meu primeiro jornal foi A Folha da Tarde, num tempo em que ainda existiam os jornais da manhã e as edições da tarde. Depois passei pro Jornal da Tarde, que tinha a melhor critica de cinema e rock. E desde de 1984 migrei pra Folha de SP. Que desde então, em cada reforma gráfica, se torna cada vez mais irrelevante. Perde colunistas que "escrevem" e criam colunas que apenas "dão um toque".
   Se depender da Folha, jornal impresso se tornará jornal pra se dar uma olhada. Quase analfabeto. Bom pra se embrulhar a sujeira do cachorro. É o fim.