leia e escreva já!
O REI DA RAÇA. ( ORGULHO DE MEU PAÍS ).
Era um verão triste. Fim de mais um romance, solidão e vontade de não estar onde se está. Janeiro de 1987? Ou seria 88? Era tarde de absoluto tédio. Então na TV tem uma entrevista com Caymmi. E eu lá queria saber de Caymmi?
Ia mudar de canal, mas antes olhei a cara de Caymmi e resolvi dar uma chance pra entrevista.
O homem tava de branco e com uma malinha na mão. E se falava da mania que ele sempre teve de andar com aquela malinha. O que há na malinha? Ele sorri. E ninguém no mundo sorri como Caymmi sorri. E então, na beira do mar, ele toca O Mar.... e eu recordo que num verão sublime, em 1973, eu ainda criança, cantara O Mar na praia de Santos. A letra estava no meu livro de português. ...Quando quebra na praia é bonito....
Virei fã e sorri durante toda a entrevista. Salvou meu verão ruim. Ter 70 anos e ser Dorival Caymmi... nada pode ser melhor. Espero chegar lá...
Todo país tem um cara que sintetiza o gênio da raça. Não falo do cara mais criativo ou importante, falo do melhor. O ser que é tudo aquilo que a nação tem de mais particular, de mais secreto, que é só dela. Caymmi é o Brasil em seu melhor. Tudo de bom que ainda se imagina ser o Brasil, é na verdade lembrança de Caymmi. Numa biografia que li sobre ele ( livro dado de presente por meu amor num dia de namorados caymmiano ), Caetano diz que as músicas de Caymmi parecem não ter autor, parecem ter existido desde sempre, como se fossem parte do lugar, coisas criadas pela natureza. Dorival Caymmi é a natureza do Brasil em seu melhor. Ele é a Serra e a praia.
Ele cresceu ouvindo sambas e Debussy, roda de capoeira e Ravel. E apesar do pai músico, aprendeu a tocar violão só. Em 1938 já era rei na Bahia, foi pro Rio e em meses era rei do Rio e do país. O QUE É QUE A BAIANA TEM? Estourou com Carmem Miranda nos EUA. Foi convidado por Disney em pessoa a ficar por lá. Não aceitou. Tempos mais simples e menos ambiciosos, não queria ficar longe do mar e dos amigos. Algumas músicas de Caymmi rodam o mundo. MARACANGALHA tem versões em alemão, em francês e até existe uma gravação israelense.
Dizem que Caymmi é preguiçoso, lento, que compôs pouco. É verdade. Levou oito anos para finalizar uma música. Mas suas letras são depuradas ao extremo. Cada sílaba é cuidadosamente casada à melodia. EU VOU PRA MA RA CAN GA LHA EU VOU, tudo matemáticamente ajustado, a sonoridade da letra percutindo na boca, sendo parte do ritmo. O MAR QUAN DO QUE BRA NA PRA IA É BONI TO É BO NI TO.
Acabo de reouvir EU VOU PRA MARACANGALHA, o quarto disco de Caymmi. Sambas baianos malemolentes, a rica tessitura de arranjos com violinos e metais, vocais de fundo quentes e malandros. E a voz grave, articulada, solar de Dorival Caymmi. Voz que causou espanto nos anos 40 por não ser um "vozeirão", por ser natural. Como são naturais VATAPÁ ( UM BO CADINHO MAIS...), 365 IGREJAS, O SAMBA DA MINHA TERRA ( QUEM NÃO GOS TA DE SAM BA, BOM SU JEI TO NÃO É ), SAUDADE DA BAHIA ( AH QUE SAU DA DE EU SIN TO DA BA HIA...AH SE EU ESCU TA SSE OQUE MAMÃE DI ZIA ... ) e a estupenda ACONTECE QUE EU SOU BAIANO. Todas essas canções, inexplicáveis, parecem ser parte do folclore nacional, são como o Corcovado e o Pantanal, estão lá, imensas, invencíveis, eternas, filhas de Deus. Voce as escuta e lembra de quem voce é, de onde vem e onde está. Pandeiros macios, o violão cheio de marés e sais, a voz que parece de pajé, de gurú e de irmão mais velho que sabe tudo. Os pescadores e as moças bonitas, os fins de tarde e a noite sem fim, a comida e a Bahia...É tudo tão bonito que até dói. Mas é dor boa, dor de beleza, dor de amor. Um disco que nos ensina a viver relembrando o que na verdade sempre somos.
EU VOU SÓ EU VOU SÓ EU VOU SÓ....
Li ontem no jornal que no futuro todos viverão sós, serão auto-suficientes e ensimesmados. Esse já é meu mundo. Ah... Quanta saudade teremos da Bahia... Ah se escutassemos o que mamãe dizia....
Dorival Caymmi nunca mais. O Brasil era um bairro e vinte ruas. A rua Rio, a rua Bahia a rua São Paulo... Todo mundo se conhecia, se visitava, se via. Mulher, Mar e Canção. Eu realmente amo esse tal de Caymmi. O risonho, feliz, malandro e muito zen Dorival. Que os deuses do mar e do tempo me concedam a graça de ser cada vez mais próximo a sua verdade.
Ia mudar de canal, mas antes olhei a cara de Caymmi e resolvi dar uma chance pra entrevista.
O homem tava de branco e com uma malinha na mão. E se falava da mania que ele sempre teve de andar com aquela malinha. O que há na malinha? Ele sorri. E ninguém no mundo sorri como Caymmi sorri. E então, na beira do mar, ele toca O Mar.... e eu recordo que num verão sublime, em 1973, eu ainda criança, cantara O Mar na praia de Santos. A letra estava no meu livro de português. ...Quando quebra na praia é bonito....
Virei fã e sorri durante toda a entrevista. Salvou meu verão ruim. Ter 70 anos e ser Dorival Caymmi... nada pode ser melhor. Espero chegar lá...
Todo país tem um cara que sintetiza o gênio da raça. Não falo do cara mais criativo ou importante, falo do melhor. O ser que é tudo aquilo que a nação tem de mais particular, de mais secreto, que é só dela. Caymmi é o Brasil em seu melhor. Tudo de bom que ainda se imagina ser o Brasil, é na verdade lembrança de Caymmi. Numa biografia que li sobre ele ( livro dado de presente por meu amor num dia de namorados caymmiano ), Caetano diz que as músicas de Caymmi parecem não ter autor, parecem ter existido desde sempre, como se fossem parte do lugar, coisas criadas pela natureza. Dorival Caymmi é a natureza do Brasil em seu melhor. Ele é a Serra e a praia.
Ele cresceu ouvindo sambas e Debussy, roda de capoeira e Ravel. E apesar do pai músico, aprendeu a tocar violão só. Em 1938 já era rei na Bahia, foi pro Rio e em meses era rei do Rio e do país. O QUE É QUE A BAIANA TEM? Estourou com Carmem Miranda nos EUA. Foi convidado por Disney em pessoa a ficar por lá. Não aceitou. Tempos mais simples e menos ambiciosos, não queria ficar longe do mar e dos amigos. Algumas músicas de Caymmi rodam o mundo. MARACANGALHA tem versões em alemão, em francês e até existe uma gravação israelense.
Dizem que Caymmi é preguiçoso, lento, que compôs pouco. É verdade. Levou oito anos para finalizar uma música. Mas suas letras são depuradas ao extremo. Cada sílaba é cuidadosamente casada à melodia. EU VOU PRA MA RA CAN GA LHA EU VOU, tudo matemáticamente ajustado, a sonoridade da letra percutindo na boca, sendo parte do ritmo. O MAR QUAN DO QUE BRA NA PRA IA É BONI TO É BO NI TO.
Acabo de reouvir EU VOU PRA MARACANGALHA, o quarto disco de Caymmi. Sambas baianos malemolentes, a rica tessitura de arranjos com violinos e metais, vocais de fundo quentes e malandros. E a voz grave, articulada, solar de Dorival Caymmi. Voz que causou espanto nos anos 40 por não ser um "vozeirão", por ser natural. Como são naturais VATAPÁ ( UM BO CADINHO MAIS...), 365 IGREJAS, O SAMBA DA MINHA TERRA ( QUEM NÃO GOS TA DE SAM BA, BOM SU JEI TO NÃO É ), SAUDADE DA BAHIA ( AH QUE SAU DA DE EU SIN TO DA BA HIA...AH SE EU ESCU TA SSE OQUE MAMÃE DI ZIA ... ) e a estupenda ACONTECE QUE EU SOU BAIANO. Todas essas canções, inexplicáveis, parecem ser parte do folclore nacional, são como o Corcovado e o Pantanal, estão lá, imensas, invencíveis, eternas, filhas de Deus. Voce as escuta e lembra de quem voce é, de onde vem e onde está. Pandeiros macios, o violão cheio de marés e sais, a voz que parece de pajé, de gurú e de irmão mais velho que sabe tudo. Os pescadores e as moças bonitas, os fins de tarde e a noite sem fim, a comida e a Bahia...É tudo tão bonito que até dói. Mas é dor boa, dor de beleza, dor de amor. Um disco que nos ensina a viver relembrando o que na verdade sempre somos.
EU VOU SÓ EU VOU SÓ EU VOU SÓ....
Li ontem no jornal que no futuro todos viverão sós, serão auto-suficientes e ensimesmados. Esse já é meu mundo. Ah... Quanta saudade teremos da Bahia... Ah se escutassemos o que mamãe dizia....
Dorival Caymmi nunca mais. O Brasil era um bairro e vinte ruas. A rua Rio, a rua Bahia a rua São Paulo... Todo mundo se conhecia, se visitava, se via. Mulher, Mar e Canção. Eu realmente amo esse tal de Caymmi. O risonho, feliz, malandro e muito zen Dorival. Que os deuses do mar e do tempo me concedam a graça de ser cada vez mais próximo a sua verdade.
A MAIS ODIADA DAS MÚSICAS
Tom Smucker dá uma versão perfeita do porque de a disco music ter sido a mais odiada das formas musicais. Sim meu menino inocente, voce pode odiar rock progressivo, country, axé ou funk do Rio, mas saiba que em 1978 as pessoas faziam cerimônias para a queima de vinis de discoteque. Num estádio de beisebol, em Cleveland, milhares de fâs do The Who levaram toneladas de discos e os destruíram. Odiar disco music era uma atitude politica, voce era o tanto de ódio que tinha.
Entrando na adolescência, comigo acontecia algo de muito esquizo. Eu amava rock como jamais amei de novo. Vivia para ele. Mas ao mesmo tempo, e morrendo de vergonha, eu adorava SATURDAY NIGHT FEVER, aprendia passos de disco e me sentia feliz ao escutar YOU AND I ou DISCO INFERNO. Vergonha, vergonha, vergonha...
A versão de Tom Smucker a tanto ódio é certeira.
Primeiro: Disco é o primeiro tipo de música, surgida desde o nascimento do rock, que nada tem a ver com o meio rural. Não tem nenhuma raiz aparente em blues ou country, é urbana, tem cheiro de asfalto, neon e calçadas.
Segundo: Tudo no rock e derivados sempre teve a marca do sofrimento e da raiva. Nada no disco é triste ou raivoso. A alegria no rock sempre tem um jeito de "paz após a tempestade", na disco essa alegria se parece com puro hedonismo. É uma alegria desde sempre. Quanto a raiva, até as canções de amor no rock têm algo de superação do ódio, na disco não existe ódio, o amor é apenas sexo e sexo é celebração. Essa alegria da disco music é insuportável para o rocknroll.
Terceiro e mais importante: A disco nasce do gueto urbano, num meio que mistura negros, chicanos e gays. O rock sempre foi negro, mas o que os brancos amavam é que eram negros revoltados, sofridos, segregados, aqui, como no funk de Sly Stone, há uma negritude feliz, sem raiva, e mais estranho, misturada. A disco music é a primeira música a misturar raças e sexos, a pregar a promiscuidade total. Isso para o rigido e crispado mundo do rock era inaceitável.
Quarto: Smucker diz que a atitude básica do rock é sempre a do macho selvagem. É um comedor enlouquecido ou um macho impotente, mas a visão é sempre centrada na potência. Vikings, cowboys e poetas boêmios, não importa a máscara, a atitude diante das mulheres é sempre a do conquistador. Na disco isso não existe. É surpreendente, mas aqui o homem se feminiliza e tenta seduzir sem conquistar. Ele nunca pega uma mulher, ele a envolve.
Em 1980 comemoraram o aparente fim da disco e não perceberam que ela era pra sempre. Os discos com versões de meia hora se tornaram os remix de sempre, o euro-disco se transformou em Madonna e suas clones, a ênfase na dança e na boate se fez o mundo das raves, e a mistura de raças e sexos fez nascer o pop de agora e de sempre.
Se o punk acelerou e fez simplificar o rock ( mas sendo ainda rock ), a discoteque ignorou todo o rock e deu vida a um novo mundo. Lembrou a todos que música é pra dançar e pra celebrar. Lembrou que ela é festa da taba, da aldeia, é voodoo. Dando toda a ênfase em baixo e arranjos, ela se fez inimiga dos cintura dura e dos cabeças pensantes. Só podia ser eleita inimiga.
Como tudo que vende muito e se faz sempre presente, toneladas de lixo foram produzidas. Mas em meio a todo aquele material insuportável, existe muita coisa genial e que dura desde então, é música de altíssimo nivel. O que me faz lembrar de uma história.
Em 1977, Eno e Bowie viviam em Berlin onde começavam a pensar em gravar. Um dia Eno liga para Bowie e pede para ele sintonizar a rádio .... Bowie sintoniza e Eno lhe diz: "-Preste atenção nisso...esse é o som do futuro". O que Eno e Bowie ouviam era I FEEL LOVE de Giorgio Moroder com Donna Summer.
Nunca um músico teve um palpite tão certeiro.
Entrando na adolescência, comigo acontecia algo de muito esquizo. Eu amava rock como jamais amei de novo. Vivia para ele. Mas ao mesmo tempo, e morrendo de vergonha, eu adorava SATURDAY NIGHT FEVER, aprendia passos de disco e me sentia feliz ao escutar YOU AND I ou DISCO INFERNO. Vergonha, vergonha, vergonha...
A versão de Tom Smucker a tanto ódio é certeira.
Primeiro: Disco é o primeiro tipo de música, surgida desde o nascimento do rock, que nada tem a ver com o meio rural. Não tem nenhuma raiz aparente em blues ou country, é urbana, tem cheiro de asfalto, neon e calçadas.
Segundo: Tudo no rock e derivados sempre teve a marca do sofrimento e da raiva. Nada no disco é triste ou raivoso. A alegria no rock sempre tem um jeito de "paz após a tempestade", na disco essa alegria se parece com puro hedonismo. É uma alegria desde sempre. Quanto a raiva, até as canções de amor no rock têm algo de superação do ódio, na disco não existe ódio, o amor é apenas sexo e sexo é celebração. Essa alegria da disco music é insuportável para o rocknroll.
Terceiro e mais importante: A disco nasce do gueto urbano, num meio que mistura negros, chicanos e gays. O rock sempre foi negro, mas o que os brancos amavam é que eram negros revoltados, sofridos, segregados, aqui, como no funk de Sly Stone, há uma negritude feliz, sem raiva, e mais estranho, misturada. A disco music é a primeira música a misturar raças e sexos, a pregar a promiscuidade total. Isso para o rigido e crispado mundo do rock era inaceitável.
Quarto: Smucker diz que a atitude básica do rock é sempre a do macho selvagem. É um comedor enlouquecido ou um macho impotente, mas a visão é sempre centrada na potência. Vikings, cowboys e poetas boêmios, não importa a máscara, a atitude diante das mulheres é sempre a do conquistador. Na disco isso não existe. É surpreendente, mas aqui o homem se feminiliza e tenta seduzir sem conquistar. Ele nunca pega uma mulher, ele a envolve.
Em 1980 comemoraram o aparente fim da disco e não perceberam que ela era pra sempre. Os discos com versões de meia hora se tornaram os remix de sempre, o euro-disco se transformou em Madonna e suas clones, a ênfase na dança e na boate se fez o mundo das raves, e a mistura de raças e sexos fez nascer o pop de agora e de sempre.
Se o punk acelerou e fez simplificar o rock ( mas sendo ainda rock ), a discoteque ignorou todo o rock e deu vida a um novo mundo. Lembrou a todos que música é pra dançar e pra celebrar. Lembrou que ela é festa da taba, da aldeia, é voodoo. Dando toda a ênfase em baixo e arranjos, ela se fez inimiga dos cintura dura e dos cabeças pensantes. Só podia ser eleita inimiga.
Como tudo que vende muito e se faz sempre presente, toneladas de lixo foram produzidas. Mas em meio a todo aquele material insuportável, existe muita coisa genial e que dura desde então, é música de altíssimo nivel. O que me faz lembrar de uma história.
Em 1977, Eno e Bowie viviam em Berlin onde começavam a pensar em gravar. Um dia Eno liga para Bowie e pede para ele sintonizar a rádio .... Bowie sintoniza e Eno lhe diz: "-Preste atenção nisso...esse é o som do futuro". O que Eno e Bowie ouviam era I FEEL LOVE de Giorgio Moroder com Donna Summer.
Nunca um músico teve um palpite tão certeiro.
BURT LANCASTER/ GEORGE CLOONEY/ EWAN MCGREGOR/ BURT REYNOLDS/ KIM NOVAK/ CHRISTOPHER PLUMMER
SERVIDÃO HUMANA de Ken Hughes com Laurence Harvey e Kim Novak
Baseado no famoso livro de Somerset Maugham, eis um filme onde tudo dá errado. O diretor teve todas as chances em sua carreira e nunca as aproveitou e Harvey é um dos piores atores da Inglaterra. A história fala do jovem estudante de medicina que se apaixona por uma mulher falsa e interesseira. Ele procura ver só o lado bom dela, mas isso se faz cada vez mais dificil. O filme é completamente desinteressante, chato, arrastado. E tem um visual muito feio. Kim Novak, a deslumbrante beleza de Vertigo e de Pic Nic, está irritantemente deslocada. Não é papel para ela, força um sotaque cockney tolo. A carreira dela começava a desabar. O filme é nada. Nota ZERO.
A FILHA DA PECADORA de Lewis Allen com Lizabeth Scott, John Hodiak e Burt Lancaster
No recente livro de entrevistas de Scorsese, ele e o entrevistador elogiam este obscuro filme de 1947. É um dos mais esquisitos filmes que já vi. Com certeza muito adiante de seu tempo, ele se parece com coisas que Douglas Sirk faria dez anos mais tarde e tem ecos de Almodovar e de Lynch. A história já é bizarra. Uma garota rica e mimada, que tem relação estranha com a mãe divorciada, se enamora de misterioso e durão forasteiro. Esse homem vive a anos com um "amigo", amigo este que cuida dele e morre de ódio da tal garota. Lancaster, em começo de carreira, é um policial impotente. Como a censura rígida de 47 deixou passar este filme é um mistério. É óbvio que os dois forasteiros são gays, como é claro que a garota não gosta de homens. O diretor foi sempre de classe B, mas aqui ele faz um filme perturbador e de colorido maravilhoso ( Charles Lang ). Mary Astor, no papel da mãe rouba o filme. Lancaster já tem todo o jeitão do astro que viria a ser: o sorriso vibrante, a postura elegante, a simpatia esfuziante. Nota 7.
COLOMBIANA de Olivier Megaton com Zoe Saldana
Produzido por Luc Besson, é um filme de Jason Statham sem Jason Statham. O que faz com que não tenhamos nínguém para torcer. Tem tudo aquilo que Besson sempre usa: velocidade nas cenas, gente com cara de HQ, ambientes sombrios e metálicos. Mas a mocinha é um zero e os vilôes não nos dão raiva. Ah sim... fala sobre tráfico na Colombia e menina que vai vingar o pai. Nota 1.
OS DESCENDENTES de Alexander Payne com George Clooney
Procurei mas não achei uma só crítica que demonstrasse ter entendido o filme. Visões ralas, superficiais, tolas até. A maioria dos criticos, assim como o público, começa a só entender o que é explicito. A forma dissociada do conteúdo é algo que desapareceu da critica. Quando topam com um filme como este, discreto, elegante, todo centrado no formato e não no conteúdo, os criticos se perdem. Preguiçosos, não se dão ao trabalho de pensar. O filme de Payne é primoroso. Uma aula de bom cinema, ele evita todas as armadilhas do óbvio e jamais cai na tentação do modernismo afetado. Sabe mostrar e sabe conduzir. Clooney brilha em papel sem grandes lances. É um homem perdido. Me causa espanto ninguém ter falado do fato de termos um conjunto de personagens adultos. Aqui ninguém parece personagem de cartoon ou tipo de manual de casos psiquiátricos. Gente, gente como eu e como voce. Isso ainda existe. Nota 9.
TODA FORMA DE AMOR ( BEGINNERS ) de Mike Mills com Ewan McGregor e Christopher Plummer
É o filme que provávelmente dará a Plummer um merecido Oscar de coadjuvante. A não ser que o mito Max Von Sydow estrague sua festa. Plummer faz um homem de 75 anos que assume sua condição gay após a morte da esposa. Ewan é o filho desse homem, que sofre com o câncer do pai. Um cãozinho comenta o filme. Uma ruiva esquisita se torna o amor desse filho. Weeellll..... eis um filme que é a cara destes tempos frouxos. Ele é tristinho, fofinho, bacaninha, delicado, moderninho e antenadinho. Tem até hospital e imagens que lembram clips de cantores folk. Ewan fala baixinho e ama a menina como se tivesse 12 anos ou menos. Já a mocinha, tão alternativa, vive como se fosse uma fadinha num mundo tristonho. Milhares de filmes são como este. É feito para os fãs de Michel Gondry. Mas ele tem duas coisas que o salvam da absoluta chatice. O cão, que é a coisa mais inteligente do filme, e a atuação de Plummer. O pai se torna o único humano viril de todo o filme. Ele sabe escolher, sabe decidir, luta para ser feliz. É um homem de outra época em tempos de cinzas passivos e flores pálidas. Ah geração Morrissey..... O filme serve como retrato da atual geração de vampiros bonzinhos que infesta o planeta e de filmes fofinhos e docinhos que são como coisas de outro planeta para alguém como eu. Devo estar muito velho, esses seres me são completamente incompreensíveis. Seu modo de falar e de viver são como lingua marciana pra mim. Nota 4.
ENCONTROS E DESENCONTROS de Alan J. Pakula com Burt Reynols, Jill Clayburgh e Candice Bergen
Burt leva um pé na bunda de Candice, que é uma cantora bem sucedida e bonita. Deprimido, ele conhece Jill, um tipo de Annie Hall de Boston. Burt fica na dúvida quando Candice volta. O roteiro é de James L. Brooks. E ele é que deveria ter dirigido. Brooks é o cara que na TV fez Mary Tyler Moore, Cheers, Taxi e os Simpsons. No cinema dirigiu Laços de Ternura e Melhor é Impossível, campeões de Oscar. Pakula era um diretor triste. O filme é todo escuro, silencioso, travado. Jill Clayburgh era a atriz da moda em 1979. Uma Diane Keaton mais feinha. Burt tentava se tornar um ator "sério". Pra quem não sabe, na década de 70 ele e Clint Eastwood eram os astros campeões de bilheteria. Com Charles Bronson e Steve McQueen formavam a nata dos atores de ação. Nos anos 80 seriam suplantados por Harrisson Ford, Bruce Willis e a dupla Stallone/ Schwarza. Este filme, completamente chato, não fez de Burt um "novo" ator. Nota 2.
Baseado no famoso livro de Somerset Maugham, eis um filme onde tudo dá errado. O diretor teve todas as chances em sua carreira e nunca as aproveitou e Harvey é um dos piores atores da Inglaterra. A história fala do jovem estudante de medicina que se apaixona por uma mulher falsa e interesseira. Ele procura ver só o lado bom dela, mas isso se faz cada vez mais dificil. O filme é completamente desinteressante, chato, arrastado. E tem um visual muito feio. Kim Novak, a deslumbrante beleza de Vertigo e de Pic Nic, está irritantemente deslocada. Não é papel para ela, força um sotaque cockney tolo. A carreira dela começava a desabar. O filme é nada. Nota ZERO.
A FILHA DA PECADORA de Lewis Allen com Lizabeth Scott, John Hodiak e Burt Lancaster
No recente livro de entrevistas de Scorsese, ele e o entrevistador elogiam este obscuro filme de 1947. É um dos mais esquisitos filmes que já vi. Com certeza muito adiante de seu tempo, ele se parece com coisas que Douglas Sirk faria dez anos mais tarde e tem ecos de Almodovar e de Lynch. A história já é bizarra. Uma garota rica e mimada, que tem relação estranha com a mãe divorciada, se enamora de misterioso e durão forasteiro. Esse homem vive a anos com um "amigo", amigo este que cuida dele e morre de ódio da tal garota. Lancaster, em começo de carreira, é um policial impotente. Como a censura rígida de 47 deixou passar este filme é um mistério. É óbvio que os dois forasteiros são gays, como é claro que a garota não gosta de homens. O diretor foi sempre de classe B, mas aqui ele faz um filme perturbador e de colorido maravilhoso ( Charles Lang ). Mary Astor, no papel da mãe rouba o filme. Lancaster já tem todo o jeitão do astro que viria a ser: o sorriso vibrante, a postura elegante, a simpatia esfuziante. Nota 7.
COLOMBIANA de Olivier Megaton com Zoe Saldana
Produzido por Luc Besson, é um filme de Jason Statham sem Jason Statham. O que faz com que não tenhamos nínguém para torcer. Tem tudo aquilo que Besson sempre usa: velocidade nas cenas, gente com cara de HQ, ambientes sombrios e metálicos. Mas a mocinha é um zero e os vilôes não nos dão raiva. Ah sim... fala sobre tráfico na Colombia e menina que vai vingar o pai. Nota 1.
OS DESCENDENTES de Alexander Payne com George Clooney
Procurei mas não achei uma só crítica que demonstrasse ter entendido o filme. Visões ralas, superficiais, tolas até. A maioria dos criticos, assim como o público, começa a só entender o que é explicito. A forma dissociada do conteúdo é algo que desapareceu da critica. Quando topam com um filme como este, discreto, elegante, todo centrado no formato e não no conteúdo, os criticos se perdem. Preguiçosos, não se dão ao trabalho de pensar. O filme de Payne é primoroso. Uma aula de bom cinema, ele evita todas as armadilhas do óbvio e jamais cai na tentação do modernismo afetado. Sabe mostrar e sabe conduzir. Clooney brilha em papel sem grandes lances. É um homem perdido. Me causa espanto ninguém ter falado do fato de termos um conjunto de personagens adultos. Aqui ninguém parece personagem de cartoon ou tipo de manual de casos psiquiátricos. Gente, gente como eu e como voce. Isso ainda existe. Nota 9.
TODA FORMA DE AMOR ( BEGINNERS ) de Mike Mills com Ewan McGregor e Christopher Plummer
É o filme que provávelmente dará a Plummer um merecido Oscar de coadjuvante. A não ser que o mito Max Von Sydow estrague sua festa. Plummer faz um homem de 75 anos que assume sua condição gay após a morte da esposa. Ewan é o filho desse homem, que sofre com o câncer do pai. Um cãozinho comenta o filme. Uma ruiva esquisita se torna o amor desse filho. Weeellll..... eis um filme que é a cara destes tempos frouxos. Ele é tristinho, fofinho, bacaninha, delicado, moderninho e antenadinho. Tem até hospital e imagens que lembram clips de cantores folk. Ewan fala baixinho e ama a menina como se tivesse 12 anos ou menos. Já a mocinha, tão alternativa, vive como se fosse uma fadinha num mundo tristonho. Milhares de filmes são como este. É feito para os fãs de Michel Gondry. Mas ele tem duas coisas que o salvam da absoluta chatice. O cão, que é a coisa mais inteligente do filme, e a atuação de Plummer. O pai se torna o único humano viril de todo o filme. Ele sabe escolher, sabe decidir, luta para ser feliz. É um homem de outra época em tempos de cinzas passivos e flores pálidas. Ah geração Morrissey..... O filme serve como retrato da atual geração de vampiros bonzinhos que infesta o planeta e de filmes fofinhos e docinhos que são como coisas de outro planeta para alguém como eu. Devo estar muito velho, esses seres me são completamente incompreensíveis. Seu modo de falar e de viver são como lingua marciana pra mim. Nota 4.
ENCONTROS E DESENCONTROS de Alan J. Pakula com Burt Reynols, Jill Clayburgh e Candice Bergen
Burt leva um pé na bunda de Candice, que é uma cantora bem sucedida e bonita. Deprimido, ele conhece Jill, um tipo de Annie Hall de Boston. Burt fica na dúvida quando Candice volta. O roteiro é de James L. Brooks. E ele é que deveria ter dirigido. Brooks é o cara que na TV fez Mary Tyler Moore, Cheers, Taxi e os Simpsons. No cinema dirigiu Laços de Ternura e Melhor é Impossível, campeões de Oscar. Pakula era um diretor triste. O filme é todo escuro, silencioso, travado. Jill Clayburgh era a atriz da moda em 1979. Uma Diane Keaton mais feinha. Burt tentava se tornar um ator "sério". Pra quem não sabe, na década de 70 ele e Clint Eastwood eram os astros campeões de bilheteria. Com Charles Bronson e Steve McQueen formavam a nata dos atores de ação. Nos anos 80 seriam suplantados por Harrisson Ford, Bruce Willis e a dupla Stallone/ Schwarza. Este filme, completamente chato, não fez de Burt um "novo" ator. Nota 2.
LET'S GET IT ON- MARVIN GAYE, NASCER/TRANSAR E MORRER
Para Marvin Gaye, sexo é vida e viver é transar. Todo o resto é sombra e pó. Se em WHAT'S GOIN' ON, disco anterior, Gaye analisava a luta das ruas, aqui ele prega a paz do sexo. Em tempo, nos anos 80 WHAT'S foi considerado pelos ingleses o maior disco já gravado.
LET'S GET IT ON é sedução do começo ao fim. Lembro de um crítico que disse em 1995 que ainda não nascera uma mulher que resistisse ao apelo sexual de Marvin Gaye neste disco. A voz, sempre no cio, se enrola no corpo da mulher, a embala em camas de violinos, guitarras, baixos sinuosos, percussão, gemidos e multidões de notas. Música de motel? Muito mais que isso. Gaye leva a música ao sexo e sabe que isso é mais que cama e lençol, é questão existencial. Ele tem o talento para isso.
Bryan Ferry, Rod Stewart, David Bowie, Rolling Stones... todos tentaram ser Marvin Gaye. Todos erraram o alvo, mas conseguiram no processo refrescar seu som. Ferry criou aquele tipo de som cheio de detalhes, miríades de instrumentos transitando pela canção e correndo ao redor da voz, Rod se pacificou e se fez um tipo de sedutor insaciável, Bowie se enamorou da dance music e rearranjou sua carreira e os Stones ficaram ainda mais negros com Jagger incorporando o falsete a sua voz. Nenhum deles conseguiu ser Marvin Gaye. Ferry não tem voz pra isso, Rod não tem finésse, Bowie é frio demais e Jagger se exalta onde deveria ser elegante. Mas tiveram todos a percepção de entender que em Gaye havia, mais uma vez, um caminho a ser seguido. A geração dos anos 80 também se apaixonou por seu som. De Paul Weller á George Michael, uma legião de branquelos ingleses sonhou em ser Marvin Gaye.
A maravilhosa beleza do som negro.... As pessoas, inconscientemente centradas em sua raça ( não é bem racismo, é algo muito mais profundo ), ficam falando bobagens do tipo "qual o melhor cantor", "qual o cara mais influente" etc e tal. E se esquecem de que o melhor cantor nunca foi Plant ou Rod ou Paul ou Roger ou Van. Sempre foram os negros Ray Charles, Otis Redding, Wilson Pickett e Marvin Gaye. E que o cara mais influente é James Brown, mas poderia também ser Sly Stone ou George Clinton. A coisa é lógica, a opinião de um critico que se "esquece" dos artistas negros não tem valor. Perto do poder transformador que o Rap possuiu, coisas como Brit-Pop e Grunge são apenas surtos de saudades. E nada é menos saudosista que o som dos blacks. Eles não têm do que ter saudade.
As pessoas inclusive erram ao dizer que os rivais dos Beatles eram os Beach Boys ou os Stones. Paul MacCartney já disse em "N" entrevistas que os discos que os "assustavam" eram aqueles que a Motown produzia às toneladas. Eles ficavam bestificados com os arranjos, os vocais, e Paul cita James Jamerson como o melhor baixo do planeta ( James é o cara do som de Gaye ). Mas tendemos a esquecer disso, e voltamos a falar a ladainha de Beatles X Beach Boys.
A Motown tinha além de Marvin, Aretha Franklyn, Stevie Wonder, Temptations, Supremes, Miracles, Smokey Robinson, e quando os caras de Liverpool terminaram soltaram um tal de Jackson Five. Comandada por negros, era uma gravadora hollywoodiana, luxuriante, chique, e muito sensual. Nela, Gaye, casado com a filha do dono, era o Rei. Desde 1962 lançava hit sobre hit e era regravado por Van Morrison, Who e Stones. Aliás, o primeiro disco dos Beatles tem faixa da Motown.
Acabei me alongando e deixei de falar do disco em si. LET'S é da fase cabeça da Motown, de quando os artistas da casa se lançaram em aventuras mais autorais, tocados que foram pelo clima barra pesada do começo dos anos 70. Após este disco Gaye começaria uma lenta decadência. Cocaína, depressão e falência financeira. Seu público descobriria Al Green como o novo Marvin Gaye ( Green era excelente, mas nunca foi Gaye ). Em 1984, de volta ao sucesso e prestes a ser feito o gurú da nova geração inglesa, Marvin Gaye foi morto pelo próprio pai...
Em 1986, num número da revista Bizz, citava-se uma matéria britânica em que se dizia que o pop havia deixado apenas seis coisas que viveriam para sempre. Marvin Gaye era um dos seis. Ouvir seus discos é ser feliz.
PS: Cometi um erro nesta postagem que faço questão de não apagar. Aretha Franklyn e Otis Redding NÃO eram da Motown!!!! Eles eram da Stax, gravadora do sul dos EUA que foi o outro lado da música negra da época. Se a Motown era Hollywood ( luxuosa, sexy, glamourosa ), a Stax era mais "crua". O som da Motown tem como marca registrada os arranjos "ricos". A Stax dava ênfase maior a bateria e guitarra. O engraçado da história é que esse som "crú" da Stax, que a princípio parece mais "negro", era na verdade feito por alguns músicos brancos com origens country ( gênios como Steve Cropper e Duck Dunn ). Já o som da Motown, que poderia parecer mais pop, é 100% black.
LET'S GET IT ON é sedução do começo ao fim. Lembro de um crítico que disse em 1995 que ainda não nascera uma mulher que resistisse ao apelo sexual de Marvin Gaye neste disco. A voz, sempre no cio, se enrola no corpo da mulher, a embala em camas de violinos, guitarras, baixos sinuosos, percussão, gemidos e multidões de notas. Música de motel? Muito mais que isso. Gaye leva a música ao sexo e sabe que isso é mais que cama e lençol, é questão existencial. Ele tem o talento para isso.
Bryan Ferry, Rod Stewart, David Bowie, Rolling Stones... todos tentaram ser Marvin Gaye. Todos erraram o alvo, mas conseguiram no processo refrescar seu som. Ferry criou aquele tipo de som cheio de detalhes, miríades de instrumentos transitando pela canção e correndo ao redor da voz, Rod se pacificou e se fez um tipo de sedutor insaciável, Bowie se enamorou da dance music e rearranjou sua carreira e os Stones ficaram ainda mais negros com Jagger incorporando o falsete a sua voz. Nenhum deles conseguiu ser Marvin Gaye. Ferry não tem voz pra isso, Rod não tem finésse, Bowie é frio demais e Jagger se exalta onde deveria ser elegante. Mas tiveram todos a percepção de entender que em Gaye havia, mais uma vez, um caminho a ser seguido. A geração dos anos 80 também se apaixonou por seu som. De Paul Weller á George Michael, uma legião de branquelos ingleses sonhou em ser Marvin Gaye.
A maravilhosa beleza do som negro.... As pessoas, inconscientemente centradas em sua raça ( não é bem racismo, é algo muito mais profundo ), ficam falando bobagens do tipo "qual o melhor cantor", "qual o cara mais influente" etc e tal. E se esquecem de que o melhor cantor nunca foi Plant ou Rod ou Paul ou Roger ou Van. Sempre foram os negros Ray Charles, Otis Redding, Wilson Pickett e Marvin Gaye. E que o cara mais influente é James Brown, mas poderia também ser Sly Stone ou George Clinton. A coisa é lógica, a opinião de um critico que se "esquece" dos artistas negros não tem valor. Perto do poder transformador que o Rap possuiu, coisas como Brit-Pop e Grunge são apenas surtos de saudades. E nada é menos saudosista que o som dos blacks. Eles não têm do que ter saudade.
As pessoas inclusive erram ao dizer que os rivais dos Beatles eram os Beach Boys ou os Stones. Paul MacCartney já disse em "N" entrevistas que os discos que os "assustavam" eram aqueles que a Motown produzia às toneladas. Eles ficavam bestificados com os arranjos, os vocais, e Paul cita James Jamerson como o melhor baixo do planeta ( James é o cara do som de Gaye ). Mas tendemos a esquecer disso, e voltamos a falar a ladainha de Beatles X Beach Boys.
A Motown tinha além de Marvin, Aretha Franklyn, Stevie Wonder, Temptations, Supremes, Miracles, Smokey Robinson, e quando os caras de Liverpool terminaram soltaram um tal de Jackson Five. Comandada por negros, era uma gravadora hollywoodiana, luxuriante, chique, e muito sensual. Nela, Gaye, casado com a filha do dono, era o Rei. Desde 1962 lançava hit sobre hit e era regravado por Van Morrison, Who e Stones. Aliás, o primeiro disco dos Beatles tem faixa da Motown.
Acabei me alongando e deixei de falar do disco em si. LET'S é da fase cabeça da Motown, de quando os artistas da casa se lançaram em aventuras mais autorais, tocados que foram pelo clima barra pesada do começo dos anos 70. Após este disco Gaye começaria uma lenta decadência. Cocaína, depressão e falência financeira. Seu público descobriria Al Green como o novo Marvin Gaye ( Green era excelente, mas nunca foi Gaye ). Em 1984, de volta ao sucesso e prestes a ser feito o gurú da nova geração inglesa, Marvin Gaye foi morto pelo próprio pai...
Em 1986, num número da revista Bizz, citava-se uma matéria britânica em que se dizia que o pop havia deixado apenas seis coisas que viveriam para sempre. Marvin Gaye era um dos seis. Ouvir seus discos é ser feliz.
PS: Cometi um erro nesta postagem que faço questão de não apagar. Aretha Franklyn e Otis Redding NÃO eram da Motown!!!! Eles eram da Stax, gravadora do sul dos EUA que foi o outro lado da música negra da época. Se a Motown era Hollywood ( luxuosa, sexy, glamourosa ), a Stax era mais "crua". O som da Motown tem como marca registrada os arranjos "ricos". A Stax dava ênfase maior a bateria e guitarra. O engraçado da história é que esse som "crú" da Stax, que a princípio parece mais "negro", era na verdade feito por alguns músicos brancos com origens country ( gênios como Steve Cropper e Duck Dunn ). Já o som da Motown, que poderia parecer mais pop, é 100% black.
MÚSICA DE CINEMA
Em 1962, MOON RIVER de Henry Mancini, em 63, CHARADE, em 64 MY KIND OF TOWN com Sinatra, 1965 tem WHATS NEW PUSSYCAT de Bacharach com Tom Jones, em 1966 temos BORN FREE de John Barry e ainda ALFIE de Bacharach, em 1967 vem SOMENTE O NECESSÁRIO de Mowgli e ainda THE LOOK OF LOVE de Bacharach, 1968 tem THE WINDMILLS OF YOUR MIND de Michel Legrand e em 69 RAINDROPS KEEP FALLIN ON MY HEAD, 1970 tem LET IT BE dos Beatles e em 1971 o TEMA DE SHAFT, 72 tem THE MORNING AFTER e ainda BEN com Michael Jackson, em 1973 temos THE WAY YOU WERE e ainda LIVE AND LET DIE de MacCartney. Em 1974 WE MAY NEVER LIKE THIS AGAIN e em 1975 I'M EASY e ainda o TEMA DE MAHOGANY com Diana Ross. 1976 traz EVERGREEN com Barbra Streisand e 77 YOU LIGHT UP MY LIFE e NOBODY DOES IT BETTER com Carly Simon. Em 1978 vem LAST DANCE com Donna Summer e mais as músicas de GREASE, e em 79 IT GOES LIKE IT GOES. Vem 1980 e temos FAME e ainda NINE TO FIVE com Dolly Parton. Em 81 TEMA DE ARTHUR com Christopher Cross e ENDLESS LOVE com Lionel Ritchie. 1982 tem UP WHERE WE BELONG com Joe Cocker e ainda IT MIGHT BE YOU de Tootsie e o EYE OF TIGER de Rocky III . Em 1983 WHAT A FEELING de Flashdance mais MANIAC. 1984 é um absurdo: vence I JUST CALL TO SAY I LOVE YOU com Stevie Wonder, mas ainda há TAKE A LOOK AT ME NOW com Phil Collins, GHOSTBUSTERS com Ray Parker, FOOTLOOSE com Kenny Loggins e PURPLE RAIN com Prince.
Em 1985 SAY YOU SAY ME com Lionel Ritchie e THE POWER OF LOVE de De Volta Para o Futuro e em 1986 TAKE MY BREATH AWAY além de GLORY OF LOVE de Karate Kid e em 1987 THE TIME OF MY LIFE de Dirty Dancing, em 88 veio LET THE RIVER RUN da Secretária de Futuro e em 1989 a música da Pequena Sereia... E de repente, o fim.
Desde então nós temos a música de Titanic ( Celine Dion ), uma do Guns para um filme do Schwarza e só. Vem Pulp Fiction com sua trilha de sucesso mas toda com músicas velhas e fim. O cinema deixa de tornar big hit uma canção feita para aquele filme específico. Temos velhos rocks e pops regravados, rearranjados, revividos, mas não sucessos de rádio nascidos em um filme.
É claro que essa lista não se preocupa com qualidade, falo de sucesso. A primeira música citada é a vencedora do Oscar daquele ano, e a que cito depois esteve entre as 5 finalistas de então.
Poderia ainda citar um monte músicas de James Bond que não chegaram a concorrer ou ao tema da Pantera Cor de Rosa, que também nunca foi indicado. O que aconteceu? Será que até na canção de um filme a preocupação é tanta que só se joga no já testado????
Em 1985 SAY YOU SAY ME com Lionel Ritchie e THE POWER OF LOVE de De Volta Para o Futuro e em 1986 TAKE MY BREATH AWAY além de GLORY OF LOVE de Karate Kid e em 1987 THE TIME OF MY LIFE de Dirty Dancing, em 88 veio LET THE RIVER RUN da Secretária de Futuro e em 1989 a música da Pequena Sereia... E de repente, o fim.
Desde então nós temos a música de Titanic ( Celine Dion ), uma do Guns para um filme do Schwarza e só. Vem Pulp Fiction com sua trilha de sucesso mas toda com músicas velhas e fim. O cinema deixa de tornar big hit uma canção feita para aquele filme específico. Temos velhos rocks e pops regravados, rearranjados, revividos, mas não sucessos de rádio nascidos em um filme.
É claro que essa lista não se preocupa com qualidade, falo de sucesso. A primeira música citada é a vencedora do Oscar daquele ano, e a que cito depois esteve entre as 5 finalistas de então.
Poderia ainda citar um monte músicas de James Bond que não chegaram a concorrer ou ao tema da Pantera Cor de Rosa, que também nunca foi indicado. O que aconteceu? Será que até na canção de um filme a preocupação é tanta que só se joga no já testado????
OS DESCENDENTES- ALEXANDER PAYNE
Alexander Payne. É um diretor que acompanho desde 1998. Não faz parte do hype, portanto não tem a fama pop de Nolan, Fincher e Trier. Com Payne, nada de psicoses diabólicas, firulas de câmeras moderninhas ou temas ousadinhos. Payne conta histórias, de um modo elegante, adulto, simples. E voce sabe, ser simples é a mais dura das artes.
Barcinski acertou ao dizer que este filme lembra os filmes dos 70's de Hal Ashby. A mesma sutileza. Mas como estamos em 2012, ele não tem a intenção reformista dos filmes da década da inquietação. Payne é um pacificador. Seus filmes são sempre do bem. Mas não o bem idealizado, é o bem que nos resta, o possível.
Com os irmãos Coen, mais Tarantino, Curtis Hanson e PT Anderson, ele é dos poucos cineastas atuais que despertam minha curiosidade. Se Coen é o cineasta da surpresa e Tarantino o da diversão, Payne é o da finura. Veja este filme:
Voce pensa que a mãe em coma será o centro do filme. E que teremos mais um lixo em que o pai ausente passará todo o filme em crise de consciência e a mãe será vista em flash-backs como um tipo de musa. Não. Payne, sem grandes alardes, inverte as expectativas. A mãe é apenas um objeto inanimado e o pai não é um homem ruim em crise para ser bom. A mãe é que errou e ele é apenas um homem tentando acertar. O mesmo sucede com as duas filhas. Pensamos que vamos ter de aturar mais um filme com uma pequena criança geniosa e chorona, não, a criança apenas vive sua vida de criança. E quando surge a adolescente achamos que haverá uma série de crises entre ela e o pai. Não, ela ajuda o pai. É assim todo o filme. Uma expectativa é não-confirmada, sempre. Mas tudo sem grandes lances autorais, sem tiques de "olha como sou criativo", sem frescuras de "artista".
O centro não é a mãe, aliás. É a ilha. Ao contrário do que é dito, lá existe um paraíso sim. Eu amo aquela humidade, as plantas brotando de cada canto, a vida abundante. Mas assim como a mãe está morrendo, nós sabemos que todas as ilhas estão em coma. O centro do filme é a visão do imenso terreno que está a venda. É o paraíso. Quando a filha diz: -Mas eu quero acampar...", entendemos que a dor de Clooney pela infidelidade da esposa é supérflua. Essa raiva o moverá para fazer o certo. Não vender o paraíso.
George Clooney é o grande ator deste inicio de século. Apesar de detestar seu apreço por politica, é um ator que tem tudo. Sabe fazer drama sem parecer patético e tem um dom fantástico para comédia. Dom que Payne também tem. O filme não tem uma só cena de pastelão, mas o diretor/roteirista consegue extrair humor das situações mais dramáticas. Além de tudo raras vezes eu vi neste século a morte ser tratada de modo tão adulto. Jean Dujardim tem uma atuação de mais "gênio" em O Artista, mas se Clooney for premiado nada haverá de injusto nisso.
Destaque também para a maravilhosa trilha sonora feita de canções havaianas. São o contraponto daquilo que os homens vivem e daquilo que a ilha é.
Delicioso, bonito, simples, elegante. Alexander Payne deveria filmar mais. Faz poucos filmes, mas todos são interessantes e discretos. Os dois primeiros são os melhores, mas este é o mais ambicioso. Elegantemente ambicioso. Alexander Payne ainda crê na vida.
Sem familia, sem religião, sem aventuras e sem heróis, tudo o que fazia da vida uma experiência transcendente nos foi tirado. A única coisa que se colocou no lugar foi a ciência. Mas a ciência não pode nos ensinar a viver. No máximo ela nos ajuda a não morrer. Clooney é esse homem sem nada. Ele não sabe ser pai, não tem religião, nada percebe de aventuroso em seus dias e está longe do mundo de heróis. Tudo o que lhe resta é o frio caminho racional: deixar morrer, deixar vender. Mas mesmo assim, ao ser tomado pela ira, pela surpresa, pela dor, ele faz algo. E esse algo é a última das transcendências, ele protege a vida, nega o caminho óbvio, faz sua escolha.
Como aconteceu no ano passado com O DISCURSO DO REI, as pessoas desacostumadas a pensar não irão perceber a complexidade embutida na simplicidade. Verão aqui como lá, apenas um filme comum, bem feito, quase banal. Mas se no filme de Tom Hooper e Colin Firth havia uma profunda reflexão sobre a fragilidade humana; neste filme de Payne e Clooney temos uma visão sobre tudo aquilo que ainda pode nos salvar.
Em meio a crimes em série, heróis mascarados e efeitos sensacionais, é mais do que ótimo. É uma esperança.
Barcinski acertou ao dizer que este filme lembra os filmes dos 70's de Hal Ashby. A mesma sutileza. Mas como estamos em 2012, ele não tem a intenção reformista dos filmes da década da inquietação. Payne é um pacificador. Seus filmes são sempre do bem. Mas não o bem idealizado, é o bem que nos resta, o possível.
Com os irmãos Coen, mais Tarantino, Curtis Hanson e PT Anderson, ele é dos poucos cineastas atuais que despertam minha curiosidade. Se Coen é o cineasta da surpresa e Tarantino o da diversão, Payne é o da finura. Veja este filme:
Voce pensa que a mãe em coma será o centro do filme. E que teremos mais um lixo em que o pai ausente passará todo o filme em crise de consciência e a mãe será vista em flash-backs como um tipo de musa. Não. Payne, sem grandes alardes, inverte as expectativas. A mãe é apenas um objeto inanimado e o pai não é um homem ruim em crise para ser bom. A mãe é que errou e ele é apenas um homem tentando acertar. O mesmo sucede com as duas filhas. Pensamos que vamos ter de aturar mais um filme com uma pequena criança geniosa e chorona, não, a criança apenas vive sua vida de criança. E quando surge a adolescente achamos que haverá uma série de crises entre ela e o pai. Não, ela ajuda o pai. É assim todo o filme. Uma expectativa é não-confirmada, sempre. Mas tudo sem grandes lances autorais, sem tiques de "olha como sou criativo", sem frescuras de "artista".
O centro não é a mãe, aliás. É a ilha. Ao contrário do que é dito, lá existe um paraíso sim. Eu amo aquela humidade, as plantas brotando de cada canto, a vida abundante. Mas assim como a mãe está morrendo, nós sabemos que todas as ilhas estão em coma. O centro do filme é a visão do imenso terreno que está a venda. É o paraíso. Quando a filha diz: -Mas eu quero acampar...", entendemos que a dor de Clooney pela infidelidade da esposa é supérflua. Essa raiva o moverá para fazer o certo. Não vender o paraíso.
George Clooney é o grande ator deste inicio de século. Apesar de detestar seu apreço por politica, é um ator que tem tudo. Sabe fazer drama sem parecer patético e tem um dom fantástico para comédia. Dom que Payne também tem. O filme não tem uma só cena de pastelão, mas o diretor/roteirista consegue extrair humor das situações mais dramáticas. Além de tudo raras vezes eu vi neste século a morte ser tratada de modo tão adulto. Jean Dujardim tem uma atuação de mais "gênio" em O Artista, mas se Clooney for premiado nada haverá de injusto nisso.
Destaque também para a maravilhosa trilha sonora feita de canções havaianas. São o contraponto daquilo que os homens vivem e daquilo que a ilha é.
Delicioso, bonito, simples, elegante. Alexander Payne deveria filmar mais. Faz poucos filmes, mas todos são interessantes e discretos. Os dois primeiros são os melhores, mas este é o mais ambicioso. Elegantemente ambicioso. Alexander Payne ainda crê na vida.
Sem familia, sem religião, sem aventuras e sem heróis, tudo o que fazia da vida uma experiência transcendente nos foi tirado. A única coisa que se colocou no lugar foi a ciência. Mas a ciência não pode nos ensinar a viver. No máximo ela nos ajuda a não morrer. Clooney é esse homem sem nada. Ele não sabe ser pai, não tem religião, nada percebe de aventuroso em seus dias e está longe do mundo de heróis. Tudo o que lhe resta é o frio caminho racional: deixar morrer, deixar vender. Mas mesmo assim, ao ser tomado pela ira, pela surpresa, pela dor, ele faz algo. E esse algo é a última das transcendências, ele protege a vida, nega o caminho óbvio, faz sua escolha.
Como aconteceu no ano passado com O DISCURSO DO REI, as pessoas desacostumadas a pensar não irão perceber a complexidade embutida na simplicidade. Verão aqui como lá, apenas um filme comum, bem feito, quase banal. Mas se no filme de Tom Hooper e Colin Firth havia uma profunda reflexão sobre a fragilidade humana; neste filme de Payne e Clooney temos uma visão sobre tudo aquilo que ainda pode nos salvar.
Em meio a crimes em série, heróis mascarados e efeitos sensacionais, é mais do que ótimo. É uma esperança.
ELLA E LOUIS, UMA QUESTÃO DE SABER OUVIR
Nos anos 50 Norman Granz produziu uma série de discos clássicos do melhor jazz. Se a Blue Note e a Prestige lançavam o jazz mais de vanguarda, Granz gravava standards em versões definitivas. Louis Armstrong se juntou a Ella Fitzgerald para gravar este disco com canções irretocáveis da tradição americana. Mais que um item de classe e de perfeição musical, o disco é uma aula de audição.
Aqui tudo é sutileza. Desde a voz de menina que Ella sempre manteve, até a rouquidão de Louis. Mas é ainda mais. A respiração de Louis é audível nas faixas que são como cristal. Voce percebe o ar entrando pela garganta de Louis e a voz saindo, suave, grave, rouca, do mais profundo vazio do diafragma. E ao mesmo tempo há a dicção impecável de Ella, cada sílaba tinindo e sibilando, letra e melodia sendo emitidas e produzidas dentro de nossos ouvidos. É um disco que nos salva da surdez.
Oscar Peterson traz seu piano delicado e Herb Ellis dedilha uma guitarra harmônica. Na batera o mítico Buddy Rich, aqui contido. Isn't This a Lovely Day vale sózinha por toda uma carreira. Canção lançada em filme de Fred Astaire, ela transmite a sensação de frescor e de luxo que os filmes de Astaire e de Ginger passam. É uma alegria absoluta. Mas há também Cheek to Cheek, talvez a mais sublime das canções americanas. Linda como amar, inspiração altíssima de Irving Berlin.
Impossível saber qual a melhor faixa, They can't Take That Away From Me poderia ser ela. Dos Gershwin, tem uma melodia tão bonita que o prazer de a escutar faz com que nos enamoremos dela para sempre. Aliás é bom eu ter citado a palavra prazer. Valor tão desvalorizado nos dias de hoje ( há quem goste de discos que fazem sofrer e sentir dor ), é esse prazer o objetivo e o ganho da carreira tanto de Ella como de Louis. Eles cantam com prazer, e nos oferecem o mesmo prazer. Após uma noite perfeita ( ou mesmo média ), colocar este disco para tocar é amplificar esse momento vivido e usufrui-lo por tempo maior.
Como acontece com os bons musicais de Hollywood, saber apreciar esta obra é mostra de se saber escolher. Um presente dado a si-mesmo. Generosamente feliz.
Aqui tudo é sutileza. Desde a voz de menina que Ella sempre manteve, até a rouquidão de Louis. Mas é ainda mais. A respiração de Louis é audível nas faixas que são como cristal. Voce percebe o ar entrando pela garganta de Louis e a voz saindo, suave, grave, rouca, do mais profundo vazio do diafragma. E ao mesmo tempo há a dicção impecável de Ella, cada sílaba tinindo e sibilando, letra e melodia sendo emitidas e produzidas dentro de nossos ouvidos. É um disco que nos salva da surdez.
Oscar Peterson traz seu piano delicado e Herb Ellis dedilha uma guitarra harmônica. Na batera o mítico Buddy Rich, aqui contido. Isn't This a Lovely Day vale sózinha por toda uma carreira. Canção lançada em filme de Fred Astaire, ela transmite a sensação de frescor e de luxo que os filmes de Astaire e de Ginger passam. É uma alegria absoluta. Mas há também Cheek to Cheek, talvez a mais sublime das canções americanas. Linda como amar, inspiração altíssima de Irving Berlin.
Impossível saber qual a melhor faixa, They can't Take That Away From Me poderia ser ela. Dos Gershwin, tem uma melodia tão bonita que o prazer de a escutar faz com que nos enamoremos dela para sempre. Aliás é bom eu ter citado a palavra prazer. Valor tão desvalorizado nos dias de hoje ( há quem goste de discos que fazem sofrer e sentir dor ), é esse prazer o objetivo e o ganho da carreira tanto de Ella como de Louis. Eles cantam com prazer, e nos oferecem o mesmo prazer. Após uma noite perfeita ( ou mesmo média ), colocar este disco para tocar é amplificar esse momento vivido e usufrui-lo por tempo maior.
Como acontece com os bons musicais de Hollywood, saber apreciar esta obra é mostra de se saber escolher. Um presente dado a si-mesmo. Generosamente feliz.
O FUTURO DO CINEMA É AGORA
O crítico do Estadão, LC Merten, excelente, publicou uma bela análise sobre O Artista. Elogiosa, diz que o filme levou 12 anos para ser iniciado, que ninguém queria produzir. Fico sabendo que Robert de Niro é fã do filme ( agradeceu em Cannes pelo prazer que lhe foi dado ), e que Jean Dujardim é desde muito uma estrela na França ( o que atesta nosso desconhecimento sobre o país do filme ).
Mas o mais interessante é que Merten faz um paralelo entre o momento que o filme mostra, a mudança do cinema silencioso para o sonoro, e o momento atual.
O cinema sonoro encerrou a época aventurosa do cinema. Produtores improvisadores, diretores cowboys e atores "deuses" desaparecem. Estúdios vão a falência, astros se tornam desconhecidos e o público muda. Ao mesmo tempo, críticos e a maioria dos envolvidos desaprovava o cinema sonoro. O público logo se apaixonou por filmes falados, mas diretores e produtores pensavam ser aquilo um tipo de vulgarização do meio. Merten diz que hoje vivemos um momento idêntico. É o fim da película, o que faz com que a fotografia não seja mais tão preciosa; o fim das grandes companhias, que torna toda produção muito mais arriscada ( a Paramount por exemplo, ao produzir setenta filmes podia se dar ao luxo de arriscar em dez, ganhava no atacado. Hoje a produção tem de lucrar em 100%, cada filme é como se fosse o primeiro ). Mas a maior mudança é a digital. O futuro se apresenta com a não-necessidade do trabalho de centenas de técnicos ( figurinistas, carpinteiros, iluminadores, sonoplastas ) e mais que isso ( e já falei isso aqui ), o cinema tende a não mais precisar de atores ( o que seria o sonho de Hitchcock ).
Ninguém mais vai ao cinema só para ver "um filme de Jim Carrey ou de Brad Pitt". Eles têm muitos fãs, mas sózinhos não garantem um sucesso. Precisam de história, produção e principalmente de divulgação. Antes qualquer lixo de John Wayne ou Gary Cooper tinha a garantia de lucro, pois já faz tempo que não há um ator que garanta seguramente o sucesso de um filme. Quem precisa deles? TinTin anuncia o futuro.
Não demorará dez anos para que clones de Bogart ou de Steve McQueen sejam usados. Veremos um sonho realisado: Audrey Hepburn contracenando com Cary Grant mais uma vez. Atores que não serão vistos farão movimentos imitativos de Bogey ou de Marlon Brando e digitalmente as feições do "personagem" James Dean ou Bette Davis serão inseridas sobre os modelos. Bonito e simples assim.
Vamos mais longe: festivais de cinema, Oscar, não têm mais respeitabilidade. Perderam a décadas seu caráter de "Nobel". Apelativos, se fazem show de TV por saber de sua leviandade. Perderam a realeza no momento em que sua nobreza morreu ( o Oscar era sagrado porque era a única chance de vermos James Stewart ou Akira Kurosawa ao vivo. Hoje vemos na festa atores desconhecidos e estrelas cada vez mais raras e banais ).
O Artista nos recorda então da outra grande mudança, que também parecia temporária, mas que se mostrou definitiva. Já existem pessoas que não se interessam mais por filmes normais, e isso será regra. Pessoas que não suportam takes com menos de dez cortes, cãmera parada ou cenários reais. Gente que está pouco se lixando para os atores ou a fotografia do filme. Que só procuram aquilo que lhes recorda o mundo onde vivem: o mundo digital. O filme deve se parecer com imagens de câmara de celular, video-game e internet. Histórias fracionadas, sem grandes pausas, frenéticas e não-sutis. Adrenalina eterna e em doses cada vez maiores. Cavalo de Guerra é um filme anti-novo mundo. A Arvore da Vida já vive dentro desse novo universo. É o tipo de ousadia que ainda será possível. Uma salada pseudo-filosófica cheia de imagens digitais. A pausada narração de Spielberg jamais encontrará público.
O medo desse novo mundo faz com que a nostalgia de O Artista seja desejável. Quem vive do cinema, ou ama os filmes se sentirá grato ao filme francês. Mas todos sabemos que a arte que nos deu narrações poderosas como aquelas de Kurosawa, Ford ou Wyler está morta e enterrada. O que nos resta é torcer por mais Wall E e por menos Matrix e Spirit.
Felizmente existem os DVDs...
Mas o mais interessante é que Merten faz um paralelo entre o momento que o filme mostra, a mudança do cinema silencioso para o sonoro, e o momento atual.
O cinema sonoro encerrou a época aventurosa do cinema. Produtores improvisadores, diretores cowboys e atores "deuses" desaparecem. Estúdios vão a falência, astros se tornam desconhecidos e o público muda. Ao mesmo tempo, críticos e a maioria dos envolvidos desaprovava o cinema sonoro. O público logo se apaixonou por filmes falados, mas diretores e produtores pensavam ser aquilo um tipo de vulgarização do meio. Merten diz que hoje vivemos um momento idêntico. É o fim da película, o que faz com que a fotografia não seja mais tão preciosa; o fim das grandes companhias, que torna toda produção muito mais arriscada ( a Paramount por exemplo, ao produzir setenta filmes podia se dar ao luxo de arriscar em dez, ganhava no atacado. Hoje a produção tem de lucrar em 100%, cada filme é como se fosse o primeiro ). Mas a maior mudança é a digital. O futuro se apresenta com a não-necessidade do trabalho de centenas de técnicos ( figurinistas, carpinteiros, iluminadores, sonoplastas ) e mais que isso ( e já falei isso aqui ), o cinema tende a não mais precisar de atores ( o que seria o sonho de Hitchcock ).
Ninguém mais vai ao cinema só para ver "um filme de Jim Carrey ou de Brad Pitt". Eles têm muitos fãs, mas sózinhos não garantem um sucesso. Precisam de história, produção e principalmente de divulgação. Antes qualquer lixo de John Wayne ou Gary Cooper tinha a garantia de lucro, pois já faz tempo que não há um ator que garanta seguramente o sucesso de um filme. Quem precisa deles? TinTin anuncia o futuro.
Não demorará dez anos para que clones de Bogart ou de Steve McQueen sejam usados. Veremos um sonho realisado: Audrey Hepburn contracenando com Cary Grant mais uma vez. Atores que não serão vistos farão movimentos imitativos de Bogey ou de Marlon Brando e digitalmente as feições do "personagem" James Dean ou Bette Davis serão inseridas sobre os modelos. Bonito e simples assim.
Vamos mais longe: festivais de cinema, Oscar, não têm mais respeitabilidade. Perderam a décadas seu caráter de "Nobel". Apelativos, se fazem show de TV por saber de sua leviandade. Perderam a realeza no momento em que sua nobreza morreu ( o Oscar era sagrado porque era a única chance de vermos James Stewart ou Akira Kurosawa ao vivo. Hoje vemos na festa atores desconhecidos e estrelas cada vez mais raras e banais ).
O Artista nos recorda então da outra grande mudança, que também parecia temporária, mas que se mostrou definitiva. Já existem pessoas que não se interessam mais por filmes normais, e isso será regra. Pessoas que não suportam takes com menos de dez cortes, cãmera parada ou cenários reais. Gente que está pouco se lixando para os atores ou a fotografia do filme. Que só procuram aquilo que lhes recorda o mundo onde vivem: o mundo digital. O filme deve se parecer com imagens de câmara de celular, video-game e internet. Histórias fracionadas, sem grandes pausas, frenéticas e não-sutis. Adrenalina eterna e em doses cada vez maiores. Cavalo de Guerra é um filme anti-novo mundo. A Arvore da Vida já vive dentro desse novo universo. É o tipo de ousadia que ainda será possível. Uma salada pseudo-filosófica cheia de imagens digitais. A pausada narração de Spielberg jamais encontrará público.
O medo desse novo mundo faz com que a nostalgia de O Artista seja desejável. Quem vive do cinema, ou ama os filmes se sentirá grato ao filme francês. Mas todos sabemos que a arte que nos deu narrações poderosas como aquelas de Kurosawa, Ford ou Wyler está morta e enterrada. O que nos resta é torcer por mais Wall E e por menos Matrix e Spirit.
Felizmente existem os DVDs...
CLINT/ BOB FOSSE/ FORD/ WILLIAM POWELL/ SPIELBERG/ STEVE MARTIN
O DESAFIO DAS ÁGUIAS de Brian G. Hutton com Richard Burton e Clint Eastwood
Tudo dá errado. Pelo menos este filme serve pra valorizarmos ainda mais a Dirty Dozen. Fala sobre grupo de soldados que deve invadir a Alemanha para resgatar general. Burton está passivo, com expressão de completo tédio. Clint nada tem a fazer. Seu personagem é apenas um enfeite, um americano bonitão zanzando pelo set. Uma aventura que não tem suspense, não tem humor, não tem nada. Nota 1.
LENNY de Bob Fosse com Dustin Hoffman e Valerie Perrine
A vida do humorista Lenny Bruce é contada como uma febre de jazz. Em luxuoso P/B, Dustin Hoffman dá uma interpretação frenética, se entrega ao personagem. O filme tem uma falha: não revela a alma de Lenny. Mas suas qualidades, a criativa ousadia de Fosse, homem que conhecia o ambiente de cabaret onde Lenny viveu. Valerie Perrine tem uma atuação à altura, sexy e vulnerável. Belo filme. Nota 8.
SANGUE POR GLÓRIA de John Ford com James Cagney
Talvez seja o pior filme de Ford. Não se decide entre drama e comédia. Passado na guerra, brinca com situações espinhosas, nunca convence. Nota 3.
O RAPTO DA MEIA-NOITE de Stephen Roberts com William Powell e Ginger Rogers
O diretor é fraco, mas Powell e Ginger são excelentes, e então se torna um prazer ver o filme. Feito em 1935, ele lembra muito Thin Man, sucesso de Powell na época. Ele é um advogado que desvenda um rapto. Ginger é sua namorada. Powell desfila seu humor fino, sua classe, a voz que baila pelos diálogos. Ginger, o rosto cheio de ironia, é sexy em todas as cenas. Os olhos zombeteiros e a voz em desafio constante. O filme é para os dois. Nota 6.
O ARTISTA de Michel Hazanavicius com Jean Dujardim e Bérenice Bejo
Ele é corajoso, excêntrico e tem uma atuação genial de Dujardim. Ele faz uma mistura de Douglas Fairbanks com Gene Kelly que é comovente. Mas tem suas falhas, a foto em P/B é pobre e a história é simplória. De qualquer modo, é um filme realmente diferente, que ousa não apostar em efeitos, em sexo e violência. O Oscar 2012 toma partido, tenta valorizar filmes de bons sentimentos. Missão inglória, nosso tempo é de bad feelings. Nota 7,
O GRANDE ANO de David Frankel com Steve Martin, Owen Wilson e Jack Black
O diretor fez o Diabo veste Prada e Marley e Eu. Se esses dois filmes eram ainda agradáveis, este é irritante. Consegue se deslocar do Alasca até o Texas e mesmo assim não ter uma só imagem memorável. Isso porque tudo é feito em close e com uma insistência ridicula em cortar e cortar e mover o foco. Todos os cortes são exagerados, eles são errados todo o tempo. E tome movimento, tome mudança de cena, tome narração de fundo ( pelo Monty Python John Cleese ). Histerismo, nulidade. A história, que fala sobre 3 homens apaixonados por observar pássaros, é desperdiçada. O que dizer de um filme sobre a natureza que exibe muito mais celulares e carros que paisagens e bichos? Steve Martin, que foi um talento imenso, destruiu seu rosto: as plásticas eliminaram seu talento facial. Jack Black faz as mesmas caras e bocas de sempre e Owen é o mais esforçado, o que não significa muito aqui. Eis um filme que demonstra o tipo de cinema televisivo que está matando o cinema cinema. Nota ZERO.
CAVALO DE GUERRA de Steven Spielberg
Careta, conservador, pouco ousado, e delicioso. Um mestre fazendo um filme de mestre. Há idiotas que reclamaram da guerra ser "mal mostrada"... Como? É coisa daquela gente que só consegue se emocionar às porradas. Precisa de visceras e sangue para sentir. Coitados.... Outra crítica é ao encontro do soldado inglês com o soldado alemão. Para mim é uma cena belíssima. Fantasiosa, hilária, corajosa. Viagem de Steven? Sim! Que bom! É um prazer assistir esta história. Plenamente satisfatória, seu não-sucesso atesta a decadência do público de cinema e não de seu diretor. Ele nos relembra o prazer de se ver e ouvir uma história bem contada. Nota 9.
Tudo dá errado. Pelo menos este filme serve pra valorizarmos ainda mais a Dirty Dozen. Fala sobre grupo de soldados que deve invadir a Alemanha para resgatar general. Burton está passivo, com expressão de completo tédio. Clint nada tem a fazer. Seu personagem é apenas um enfeite, um americano bonitão zanzando pelo set. Uma aventura que não tem suspense, não tem humor, não tem nada. Nota 1.
LENNY de Bob Fosse com Dustin Hoffman e Valerie Perrine
A vida do humorista Lenny Bruce é contada como uma febre de jazz. Em luxuoso P/B, Dustin Hoffman dá uma interpretação frenética, se entrega ao personagem. O filme tem uma falha: não revela a alma de Lenny. Mas suas qualidades, a criativa ousadia de Fosse, homem que conhecia o ambiente de cabaret onde Lenny viveu. Valerie Perrine tem uma atuação à altura, sexy e vulnerável. Belo filme. Nota 8.
SANGUE POR GLÓRIA de John Ford com James Cagney
Talvez seja o pior filme de Ford. Não se decide entre drama e comédia. Passado na guerra, brinca com situações espinhosas, nunca convence. Nota 3.
O RAPTO DA MEIA-NOITE de Stephen Roberts com William Powell e Ginger Rogers
O diretor é fraco, mas Powell e Ginger são excelentes, e então se torna um prazer ver o filme. Feito em 1935, ele lembra muito Thin Man, sucesso de Powell na época. Ele é um advogado que desvenda um rapto. Ginger é sua namorada. Powell desfila seu humor fino, sua classe, a voz que baila pelos diálogos. Ginger, o rosto cheio de ironia, é sexy em todas as cenas. Os olhos zombeteiros e a voz em desafio constante. O filme é para os dois. Nota 6.
O ARTISTA de Michel Hazanavicius com Jean Dujardim e Bérenice Bejo
Ele é corajoso, excêntrico e tem uma atuação genial de Dujardim. Ele faz uma mistura de Douglas Fairbanks com Gene Kelly que é comovente. Mas tem suas falhas, a foto em P/B é pobre e a história é simplória. De qualquer modo, é um filme realmente diferente, que ousa não apostar em efeitos, em sexo e violência. O Oscar 2012 toma partido, tenta valorizar filmes de bons sentimentos. Missão inglória, nosso tempo é de bad feelings. Nota 7,
O GRANDE ANO de David Frankel com Steve Martin, Owen Wilson e Jack Black
O diretor fez o Diabo veste Prada e Marley e Eu. Se esses dois filmes eram ainda agradáveis, este é irritante. Consegue se deslocar do Alasca até o Texas e mesmo assim não ter uma só imagem memorável. Isso porque tudo é feito em close e com uma insistência ridicula em cortar e cortar e mover o foco. Todos os cortes são exagerados, eles são errados todo o tempo. E tome movimento, tome mudança de cena, tome narração de fundo ( pelo Monty Python John Cleese ). Histerismo, nulidade. A história, que fala sobre 3 homens apaixonados por observar pássaros, é desperdiçada. O que dizer de um filme sobre a natureza que exibe muito mais celulares e carros que paisagens e bichos? Steve Martin, que foi um talento imenso, destruiu seu rosto: as plásticas eliminaram seu talento facial. Jack Black faz as mesmas caras e bocas de sempre e Owen é o mais esforçado, o que não significa muito aqui. Eis um filme que demonstra o tipo de cinema televisivo que está matando o cinema cinema. Nota ZERO.
CAVALO DE GUERRA de Steven Spielberg
Careta, conservador, pouco ousado, e delicioso. Um mestre fazendo um filme de mestre. Há idiotas que reclamaram da guerra ser "mal mostrada"... Como? É coisa daquela gente que só consegue se emocionar às porradas. Precisa de visceras e sangue para sentir. Coitados.... Outra crítica é ao encontro do soldado inglês com o soldado alemão. Para mim é uma cena belíssima. Fantasiosa, hilária, corajosa. Viagem de Steven? Sim! Que bom! É um prazer assistir esta história. Plenamente satisfatória, seu não-sucesso atesta a decadência do público de cinema e não de seu diretor. Ele nos relembra o prazer de se ver e ouvir uma história bem contada. Nota 9.
CAVALO DE GUERRA- SPIELBERG, CINEMA PURO
Como é bom assistir um mestre em ação! Um diretor que sabe desenvolver sua história, sem atropelos, pausando as imagens, mostrando as paisagens, longe de qualquer estética que não seja a da tela grande. Gente filmada à distância, corpos inteiros, grandes multidões, cenas com vários personagens agindo ao mesmo tempo, céu e chão no mesmo take. Ah.... que coisa boa....um filme que se parece com cinema!
Steven Spielberg adora David Lean, mas apesar de alguns criticos muito mal informados falarem que este filme lembra Lean, ele na verdade é puro "Hollywood Clássica". David Lean faria cenas muito mais longas, colocaria a ênfase no pacifismo e usaria menos diálogos. O que vemos aqui é um filme como os de Clarence Brown ou Sam Wood, competência e entertainment.
O filme é lindo e satisfatório. O fato de não ser um big sucesso mostra onde estamos. Hoje ET seria um fiasco. Bons sentimentos não fazem mais bilheteria e Spielberg ainda acredita no ser-humano. Ele insiste em ver beleza na vida e em tentar compreender as pessoas. Não tem medo de parecer careta ( sempre foi ), infantil ou piegas. Ele é tudo isso, e hoje em tempos de cinismo chique, Spielberg se torna um original, um diferente. Daí seu não-sucesso. Seu filme, hiper-pop, parecerá de outro planeta para quem cresceu com video-games e Guy Ritchie. Ele fala de familia, de bondade e de nobreza. Alguém se importa?
Plasticamente o filme é o mais belo do ano. Não há sovinismo, ele mostra e sabe mostrar. Poucos closes, sem efeitos modernosos, sem frescuras. Desde a primeira cena voce sabe do que se trata: uma narrativa, uma clássica e bela narrativa, com começo, meio e fim, simples e bem contada, e eu percebo: como isso é hoje raro!
Adorei o filme! Fiquei absorvido por cada minuto. Queria que ele durasse mais. Mas vamos à história.
Ela vai de uma fazenda pobre da Inglaterra à França durante a primeira guerra. E tudo é brilhantemente mostrado. O cavalo, que jamais é humanizado, é testemunha passiva da loucura dos homens. Vítima. Como também são os alegres soldados. Aquela guerra foi a pior por ter sido a primeira guerra mecanizada. Foi uma guerra em que os soldados e as defesas eram ainda de 1880, mas o armamento e as crueldades já eram as do século XX. Quando os soldados ingleses avançam à cavalo, de surpresa, contra as metralhadoras alemãs, vemos toda a tragédia. A quebra de um código de conduta ( ataque sem aviso ), e o absurdo de se usar espada e cavalo contra metralhadora e canhões. É um massacre. É patético. Spielberg consegue ser veemente sem mostrar uma só cena de sangue jorrando ou de membros voando. Isso é arte.
O cavalo vive então quatro etapas: na fazenda com arreios, na guerra, numa fazenda francesa e na guerra de novo. Em todas ele sofre como um animal. Mas repito, nada há de humano nele, é sempre um cavalo, e isso faz dele algo de muito mais terrível: ele nos acusa. Seu olho natural nada pode entender, ele apenas sofre, e vai em frente. Ao contrário de O ARTISTA, que é um filme nobre mas com uma história muito pobre; aqui temos nobresa com história, o roteiro é bem articulado, sabe criar tipos críveis, sabe avançar. E temos o belo animal.
Fato estranho acontece no Oscar deste ano. Temos dois filmes radicalmente antiquados, que optam corajosamente por não ser "como se deve ser agora". Nada de cortes e mais cortes e de cenas com dois personagens no máximo. Bennet Miller e o filme sobre beisebol com Brad Pitt é a antitese deste filme. Mundo minúsculo, pobre, nervoso e labirintico, versus o universo vasto, rico, observador e observado, cheio de história.
Volto a dizer: Como é bom ver um filme assim. Observe a casa onde Joey, o potro, nasce. Como ela é rica em detalhes e em como Spielberg a exibe com calma, carinhosamente. Depois veja as trincheiras, os jovens soldados. Eles têm chance de se tornar gente, o diretor permite que eles falem, que seus rostos sejam conhecidos. O mesmo com a fazenda na França. Vemos a menina e seu avô por apenas vinte minutos. Mas Spielberg consegue fazer com que os conheçamos, entendemos quem são e o que fazem. Como Steven Spielberg consegue isso? Porque ele ama os personagens, ama aquele cavalo, ama o cinema. Onde a câmera toca ele cria vida. O filme se torna admirável.
Há uma cena ao final. A silhueta do cavalo e do jovem, finalmente de volta pra casa. O que vemos é um imenso horizonte amarelo. Isso me lembrou John Ford. É o tipo de cena que um diretor televisivo jamais fará. É o tipo de cena que fica grudada na memória de quem a vê.
CAVALO DE GUERRA não ganhará o Oscar. Mas ficará como etapa belissima da história do cinema. Um dos últimos filmes a contar um conto à beira da fogueira. Tem de se ver. É de verdade.
Steven Spielberg adora David Lean, mas apesar de alguns criticos muito mal informados falarem que este filme lembra Lean, ele na verdade é puro "Hollywood Clássica". David Lean faria cenas muito mais longas, colocaria a ênfase no pacifismo e usaria menos diálogos. O que vemos aqui é um filme como os de Clarence Brown ou Sam Wood, competência e entertainment.
O filme é lindo e satisfatório. O fato de não ser um big sucesso mostra onde estamos. Hoje ET seria um fiasco. Bons sentimentos não fazem mais bilheteria e Spielberg ainda acredita no ser-humano. Ele insiste em ver beleza na vida e em tentar compreender as pessoas. Não tem medo de parecer careta ( sempre foi ), infantil ou piegas. Ele é tudo isso, e hoje em tempos de cinismo chique, Spielberg se torna um original, um diferente. Daí seu não-sucesso. Seu filme, hiper-pop, parecerá de outro planeta para quem cresceu com video-games e Guy Ritchie. Ele fala de familia, de bondade e de nobreza. Alguém se importa?
Plasticamente o filme é o mais belo do ano. Não há sovinismo, ele mostra e sabe mostrar. Poucos closes, sem efeitos modernosos, sem frescuras. Desde a primeira cena voce sabe do que se trata: uma narrativa, uma clássica e bela narrativa, com começo, meio e fim, simples e bem contada, e eu percebo: como isso é hoje raro!
Adorei o filme! Fiquei absorvido por cada minuto. Queria que ele durasse mais. Mas vamos à história.
Ela vai de uma fazenda pobre da Inglaterra à França durante a primeira guerra. E tudo é brilhantemente mostrado. O cavalo, que jamais é humanizado, é testemunha passiva da loucura dos homens. Vítima. Como também são os alegres soldados. Aquela guerra foi a pior por ter sido a primeira guerra mecanizada. Foi uma guerra em que os soldados e as defesas eram ainda de 1880, mas o armamento e as crueldades já eram as do século XX. Quando os soldados ingleses avançam à cavalo, de surpresa, contra as metralhadoras alemãs, vemos toda a tragédia. A quebra de um código de conduta ( ataque sem aviso ), e o absurdo de se usar espada e cavalo contra metralhadora e canhões. É um massacre. É patético. Spielberg consegue ser veemente sem mostrar uma só cena de sangue jorrando ou de membros voando. Isso é arte.
O cavalo vive então quatro etapas: na fazenda com arreios, na guerra, numa fazenda francesa e na guerra de novo. Em todas ele sofre como um animal. Mas repito, nada há de humano nele, é sempre um cavalo, e isso faz dele algo de muito mais terrível: ele nos acusa. Seu olho natural nada pode entender, ele apenas sofre, e vai em frente. Ao contrário de O ARTISTA, que é um filme nobre mas com uma história muito pobre; aqui temos nobresa com história, o roteiro é bem articulado, sabe criar tipos críveis, sabe avançar. E temos o belo animal.
Fato estranho acontece no Oscar deste ano. Temos dois filmes radicalmente antiquados, que optam corajosamente por não ser "como se deve ser agora". Nada de cortes e mais cortes e de cenas com dois personagens no máximo. Bennet Miller e o filme sobre beisebol com Brad Pitt é a antitese deste filme. Mundo minúsculo, pobre, nervoso e labirintico, versus o universo vasto, rico, observador e observado, cheio de história.
Volto a dizer: Como é bom ver um filme assim. Observe a casa onde Joey, o potro, nasce. Como ela é rica em detalhes e em como Spielberg a exibe com calma, carinhosamente. Depois veja as trincheiras, os jovens soldados. Eles têm chance de se tornar gente, o diretor permite que eles falem, que seus rostos sejam conhecidos. O mesmo com a fazenda na França. Vemos a menina e seu avô por apenas vinte minutos. Mas Spielberg consegue fazer com que os conheçamos, entendemos quem são e o que fazem. Como Steven Spielberg consegue isso? Porque ele ama os personagens, ama aquele cavalo, ama o cinema. Onde a câmera toca ele cria vida. O filme se torna admirável.
Há uma cena ao final. A silhueta do cavalo e do jovem, finalmente de volta pra casa. O que vemos é um imenso horizonte amarelo. Isso me lembrou John Ford. É o tipo de cena que um diretor televisivo jamais fará. É o tipo de cena que fica grudada na memória de quem a vê.
CAVALO DE GUERRA não ganhará o Oscar. Mas ficará como etapa belissima da história do cinema. Um dos últimos filmes a contar um conto à beira da fogueira. Tem de se ver. É de verdade.
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