The Band Wagon - Fred Astaire and Cyd Charisse



leia e escreva já!

E O PARAÍSO EXISTE! - A RODA DA FORTUNA, FILME DE VINCENTE MINELLI, DIVERSÃO DE LUXO.

   Betty Comden e Adolph Green escreviam filmes. Escreviam bem. Para demonstrar que Fred Astaire faz aqui um ator em decadência, nada de se mostrar uma notícia, nada de voz em off, nada de Fred andando sózinho pela rua; a primeira cena do filme é de um leilão de objetos hollywoodianos em que a cartola e a bengala de Fred Astaire não recebem um só lance. Em seguida dois executivos em viagem de trem comentam por onde andará Fred. Ele está na cabine, lendo jornal e os escutando. Tudo é demonstrado de forma simples, leve e sem forçar. Habilidade e elegância dos escritores.
  As três primeiras cenas do filme já são do mais alto requinte, sofisticadas  em sua pureza, em sua concisão, na habilidade de dizer muito com um mínimo de meios. Fred desce do trem e encontra seus amigos. Mas antes cantarola By Myself, e então, após o encontro, anda pela avenida cheia de gente, cores e brinquedos. Vem um número de dança com um engraxate negro. O público está ganho, The Band Wagon ( A Roda da Fortuna ) é uma festa.
  O roteiro trata desse ator velho e esquecido, que é convidado por seus amigos, um casal de roteiristas de teatro, a estrelar sua nova produção. Para esse show eles convidam o melhor diretor da Broadway e uma bailarina clássica. O filme irá satirizar diretores que se acham gênios e defender a arte para as massas, o musical.
  Cada cena é uma explosão de cor e de bons diálogos. Vemos os ensaios desastrosos ( o diretor teima em transformar tudo em Fausto de Goethe ), as reuniões com os patrocinadores, a estréia trágica e a aproximação de Fred e da bailarina. Todas essas cenas são sem música, e aqui explico pela enésima vez como se aprecia uma cena de musical ( quando ela é bem feita ).
  Fred leva Cyd Charisse para um passeio no Central Park. É noite e casais dançam. Os dois caminham sem falar e sem se tocar. A música entra e Fred arrisca dois passos, Cyd tenta mais dois... e então eles começam a dançar. Por que? Pra que?
  Cenas como essa demonstram o tipo de sensibilidade que se perdeu no cinema popular. As pessoas entendiam imediatamente que todo movimento de dança era a simbolização daquilo que acontecia no interior da pessoa, era o desejo explícitando-se e se fazendo exterior. Quando a música tem letra e se faz canção, tudo o que é dito demonstra o diálogo poético e direto de duas almas que se tocam. A música é desse modo a verdade mais verdadeira da vida. Nunca é mera fantasia, é a realidade interna da história narrada. Isso em bons musicais, nos ruins a música é arbitrária e nada conta.
   Toda a parte final do filme é em música. A cena dos Triplets é das coisas mais perfeitas e divertidas já feitas em filme. A letra se encadeando no humor da situação, e os três atores atuando com o máximo de prazer. ( Outro segredo de musicais: os atores têm de estar no limite todo o tempo. ) Mas é a cena que brinca com os contos "pulp" policiais que se tornou uma das mais famosas do cinema.
   Fred faz um detetive e tenta desvendar um crime. Tudo isso faz parte do novo show montado dentro do filme. Cyd Charisse, famosa por ter as pernas mais bonitas do cinema, é a mulher fatal. Ela abre a capa e exibe seu vestido vermelho. Para mim, uma das mais belas cenas da história. Se algum ser-humano quiser saber em profundidade o que é "jazz", basta assistir esta cena. Se um marciano quiser saber o que os seres-humanos fazem de melhor, que veja este filme.
  Não falarei sobre Astaire. Nem sobre Minelli, o diretor. Direi que no elenco há Jack Buchanan, como o diretor egocentrico, e que Buchanan foi um grande entertainer do West End londrino em seu auge. As músicas, nenhuma menos que ótima, algumas de gênio, são de Howard Dietz e Arthur Schwartz. Dancin in the Dark e That's Entertainment bastam para demonstrar seu alcance.
  Assistir um filme como este é um prazer. Um presente dado a si-mesmo. Assiti-o a primeira vez na TV Manchete, em 1990, numa madrugada de sábado muito deprimente. Quando o filme terminou eu estava completamente de bem com a vida. Isso é magia, isso é um musical.

QUEM É TELMO?

   O festival de Gramado está tomando providências. Vai contratar aviões líbios para o transporte de filmes e de críticos para o seu concurso anual. O festival de Gramado está impressionado com a tranquilidade e desfaçatez com que esses aviões transportam bombas e outros explosivos pelos ares.
   Fernando Henrique Cardoso, o pavernu do palanque já mandou engomar e polir seu melhor blazer. Ele aguarda o convite que insiste em não chegar. É que um jornal paulista fará debate com politicos negros. FHC está magoado com tanto esquecimento. Ninguém se lembrou de sua recente declaração, na qual se anunciava, sestroso e orgulhoso, como um autêntico senateur mulâtre.
   Fernando Gabeira, o único escritor do mundo que ao escrever seu primeiro livro escreveu suas obras completas.
   Maluf e seus quarenta Ali-Babás....
   Carla Camuratti é a única atriz da Globo que dá a certeza de que aquilo é mesmo a Globo. Todas as outras só nos faz lembrar os motivos que levaram a Tupi a falência.
   Franco Montoro, o último fã de Zazu Pitts, perdeu toda uma noite lendo livros sobre cucos, queijos e fondues. Enganado por mais uma distração, ele estava convencido de que iria receber os reis da Suiça. Já ia começar a falar sobre chocolates quando notou uma total falta de garbo entre seus assessores. Como garbo é associável a Greta, Franco Montoro só então se deu conta de que aquele era o rei da Suécia.
   Elba Ramalho, a frajola do flagelo, está desnorteada. Apesar de todo seu jogging joazeiro, ela deixou de ser a rainha do Palace. Foi destronada por Caetano Veloso. Caetano em São Paulo está atraindo um público que ainda não o conhecia. São as dames cultivées que resolveram prestigiar a turma do jábá e jabô. As dames cultivées vão e ficam encantadas. Com muita eau de vie na joie de vivre, elas deliram com entusiasmo: - É o Mallarmé do afoxé! É o Cocteau do agogô!
   Washingtan Olivetto, o golden boy da publicidade, esteve no Rio. Foi para um daqueles festivais em que publicitários se confraternizam em autocelebração, e dizem uns aos outros como são geniais.
   O jantar que Abilio Diniz ofereceu aos politicos foi um retumbante sucesso. Tancredo Neves, Ulysses Guimaraens e Franco Montoro até repetiram a papinha.
   Alguns jornalistas estão adorando a greve dos correios. Não recebem mais convites para peças de Antonio Abujamra no Lira Paulistana. Nem para lançamentos de livros de contistas mineiros.
   Feliz Ano Velho já virou peça de teatro. Agora vai virar filme. Quem sabe um dia não vire livro?
   Desde que lhe cobraram mais conhecimento de periferia, FHC, o senateur mulâtre, tem sempre o mesmo pesadelo. Ele caminha, caminha e caminha e nunca chega a Etoile, a Concorde ou a Passy.
   Patti Smith escrevia poemas e ninguém lia. Depois de se lançar no rock, agora todos querem seus poemas. Mario Chamie está tendo aulas de new wave.
  
   Eis alguns trechos curtos de Telmo Martino publicados no JT.
   Seus textos longos são ainda mais melhores. Estes petiscos são apenas para que voce entenda do que falo.
   Enjoy it.

MONICELLI/ KAZAN/ BILLY WILDER/ MARILYN/ GASSMAN/ SWEET SWEETBACK...

   GREMLINS de Joe Dante
No auge de seu poder juvenil Spielberg produziu para seu amigo Dante este estranho filme divertido. Acho que todo mundo já viu um dia. O roteiro é de Chris Columbus e é preciso dizer que Chris tem um estilo. A gente sente que é coisa dele. Os atores são impagáveis: ruins, perdidos, sem expressão. Mas tudo se compensa pela graça dos bichos, são simples, mal feitos até, e geniais. Pena os atores tão inaptos e um começo que demora a engrenar. Nota 5
   A GRANDE GUERRA de Mario Monicelli com Vittorio Gassman, Alberto Sordi e Folco Lulli
Ninguém fazia comédias como os italianos dos anos 50/60. Eram engraçadas, mas também eram tristes, poéticas. O segredo era esse dom para fazer humor sem perder nunca o pé da realidade. E ter à disposição a melhor safra de atores do mundo. Vejam Gassman. O rosto de nobre-pé rapado que ele tem. A vaidade misturada a mais desamparada miséria. A voz ( Gassman foi ator shakespeariano, dos melhores ), clara e alta, dando entonações de tolice e de pretensão a esse personagem patético. A história? Dois soldados na primeira guerra. A incompetência do exército italiano, a crueldade da violência fria e matemática, o espírito humanista tentado respirar nas trincheiras. Eles são covardes, são sonhadores, se envolvem com prostitutas e com contrabando, e ficam felizes ao poder comer. O filme, imenso, é um tipo de afresco sobre a luta, é cheio de graça, de leveza, de beleza suja. Monicelli havia acabado de fazer uma obra-prima ( OS ETERNOS DESCONHECIDOS )  e na sequencia nos dá mais um filme histórico. Maravilhosa diversão e arte de primeira categoria. Nota 9.
   A CANÇÃO DE BERNADETTE de Henry King com Jennifer Jones
Jennifer ganhou o Oscar com este filme. Filme que é praticamente sua estréia. Fala das aparições de Nossa Senhora para a muito simples ( burrinha até ) Bernadette Soubirous, em Lourdes, no século XIX. O filme tenta ser comedido e consegue. Exibe o clima hiper-racional da época e jamais deixa de insinuar que tudo pode ter sido uma alucinação. Mas para quem tem fé será filme de profunda emoção. Para os descrentes, é um belo conto sobre o que poderia ter sido. Atenção: nada é mostrado como lenda cor-de-rosa. Defeito grave: é longo demais! Nota 6.
   BABY DOLL de Elia Kazan com Carroll Baker, Karl Malden e Eli Wallach
Tennessee Willians escreveu esta história sobre uma mulher-criança que apesar de casada não tem relações sexuais com o marido. Isso ocorre porque o marido empobreceu e ela se sente lesada. O casamento, já em seu primeiro ano, ainda não teve sua lua de mel. O cenário é a vastidão do "sul". Negros desocupados comentam e riem do marido ridiculo. O casarão cai aos pedaços. E surge um "latino", rico, que seduz a menina. As cenas de sedução são das coisas mais eróticas já filmadas. Sem trocar um beijo, sem nenhuma nudez, há uma hiper volatização do desejo. Eli Wallach, como o sedutor, está excelente. Um cafageste ambicioso, mentiroso, vaidoso. Malden faz o marido, tolo, bronco, impotente em seu desejo, ansioso. Baker poderia ter sido uma estrela. Não foi. Linda, faz aqui o que a Lolita de Kubrick não fez, excita. Mas é um dos filmes mais fracos de Kazan. O texto de Tennessee é limitado. Perdemos o interesse no terço final. Daria um bom filme de hora e meia. Apesar dos atores, a nota não pode ser mais que 6.
   O PECADO MORA AO LADO de Billy Wilder com Tom Ewell e Marilyn Monroe
É estranho ver MM. Ela foi tão imitada e caricaturada que vê-la é como ver um cartoon, ela não parece real. É o primeiro personagem virtual da história. Billy, dos grandes diretores de Hollywood é o que menos me agrada. Há algo de muito grosseito nele que me incomoda. O filme, sempre interessante, raramente engraçado, fala de marido que sózinho em casa no verão, passa a se imaginar em caso com a vizinha. É aqui que há a famosa cena da saia de MM se erguendo na rua. O cinema tem 3 cenas emblemáticas, essa, Gene Kelly cantando na chuva e Ingrid Bergman pedindo para tocar As Times Goes By. É um filme de cores fortes, envelhecido, mas que ainda pega pela sua agilidade e pelas boas falas. Nota 6
   O ÚLTIMO DUELO de Budd Boetticher com Audie Murphy
Se hoje existe o terror de rotina e o filme de tiros, antes esse lugar era ocupado pelo western classe B. Quando o western decaiu, seu posto de filme POP, foi ocupado pela ficcção científica. Mas com o encarecimento da sci-fi, hoje esse posto POP é do horror em série e do policial tipo Statham. Este filme, sobre ladrão bonzinho que não consegue se regenerar é ok. O problema é que Audie não me convence. Budd é adorado por alguns críticos. Não é meu caso. Nota 4.
   TIROS NA BROADWAY de Woody Allen com John Cusak, Dianne Wiest, Jennifer Tilly, Chazz Palmintieri, Jack Warden
Um autor de teatro dos anos 20 aceita ajuda de mafioso para produzir sua nova peça. A namorada do gangster passa a fazer parte do elenco e o guarda-costas reescreve o texto, para melhor. Woody de 1994, momento dificil em sua carreira. Cusak é o pior Woody Allen de todos que já o fizeram. Ele exita, se apaga, é como um nada em cena. O filme perde por não termos por quem torcer. Kenneth Branagh foi o melhor ( em Celebridades ). Mas o resto do elenco é excelente ( ele sabe dirigir atores como ninguém ), destaque para Jim Broadbent, que faz um ator inglês que engorda muito. O filme flui bem até sua metade, mas de repente começa a enjoar e seu final é muito ruim. Mesmo assim ele vale pelos belos cenários e pela classe que todo filme de Woody tem. Nota 5.
   SWEET SWEETBACK BAAAADAAASSSS SONG de Melvin Van Peebles com Comunidade Negra
Vamos lá.... Ele subverte tudo e faz um filme que vai contra o que se chama "bom gosto" ou "bom cinema". Cores berrantes, cenas de sexo explícito que nada têm de erótico, perseguições policiais sem climax, escatologia... tudo filmado de improviso, com cenários reais e atores amadores. Sexo com adolescentes, gente no banheiro, shows pornô, música black. Essa é uma visão do filme. Filme mítico que encanta ainda hoje os Tarantinos e que tais. Mas.... ele é irritantemente sem sentido, sem história, gratuito, feio, sujo, nojento e odiável. Qual o porque de se ver alguém no vaso sanitário defecando? Pra que tanta nudez grotesca? Efeitos de cor, qual o sentido? Se Shaft ou Superfly são ainda divertidos em sua tolice cafona e sua vivacidade black, este é um filme antes de tudo ruim, muito ruim. Nota ZERO

WITTGENSTEIN, O FIM DA FILOSOFIA

   Quando Bertrand Russel conheceu Wittgenstein pensou que ele fosse um louco. Russel, maior lógico do século XX, não percebeu de primeira mão o alcance do pensamento de Ludwig. E nem o perigo que havia naquela mente. Pois em Witt ( me permitam o chamar assim ) morava o fim da filosofia. Pouco depois desse primeiro encontro, Russel reconheceria que em Wittgenstein havia um gênio. O inglês se maravilhava com a clareza do pensamento do austríaco.
   Ludwig herda uma fortuna então. Vai para uma floresta na Noruega e lá constrói uma cabana. É nessa cabana de madeira que ele escreve seu "Tratado..."
   Vem a primeira guerra e ele combate. É feito prisioneiro. Após a guerra, em 1920, lê Tolstoi, que o deixa profundamente tocado. Influenciado pelo gênio russo, estuda os evangelhos e distribui sua fortuna aos parentes.
   Torna-se um professor primário na Austria e desenha para sua irmã a primeira casa modernista do país.  Conhece o círculo de Viena, círculo que o endeusa. Em 1929 está em Cambridge, onde se torna professor. Na Inglaterra, pobre, rompe definitivamente com Russel. Com Russel, renega todo racionalismo.
   Vai à Irlanda onde escreve as "Pesquisas Filosóficas". Converte-se ao catolicismo. Naturaliza-se inglês em 1938. Falece de câncer em 1951.
   Seu pensamento permeia todo o pensamento do século. Vai da linguística ao racionalismo matemático, depois vai da lógica ao intuitivo. Mais que tudo, ele VIVEU o que pensou.
   Critica a filosofia tradicional.
   A filosofia desconhece o símbolo. E, portanto, não sabe usar a linguagem. Wittgenstein, nesse primeiro momento, tenta criar uma linguagem perfeita, lógica.
   Mas, o que há de comum entre a linguagem e o ser não pode ser dito, mas apenas mostrado. Pois tudo o que pode ser dito participa da estrutura da linguagem, que é artificial.
   A maior parte das questões e proposições filosóficas não é própriamente falsa, mas desprovida de sentido. Não podemos responder tais questões, mas apenas afirmar sua falta de sentido.
   As proposições filosóficas são apenas má gramática. Uma discussão filosófica é sempre um erro.
   A FILOSOFIA NÃO É UMA TEORIA, É UMA ATIVIDADE, DEVE ESCLARECER A LINGUAGEM.
   É impossível dizer o que quer que seja em relação ao mundo enquanto totalidade, e tudo o que se diz e se pode dizer se refere a partes do mundo, pois não se está fora, mas dentro dele.
   O QUE NÃO PODE SER PENSADO NÃO PODE SER DITO. TUDO É INEXPRIMÍVEL E O INEXPRIMÍVEL COMPREENDE A TOTALIDADE DA LÓGICA E DA FILOSOFIA.
   Esse um resumo dos resumos do pensamento de Witt.
   Depois disso, dizer mais o que?

EXISTEM PALAVRAS ESQUECIDAS. SOFISTICAÇÃO É UMA DELAS. TELMO MARTINO É O REI DA SOFISTICAÇÃO. LEIA.

   O que voce lê aos 12 anos é muito importante! Mesmo os Cebolinhas e Tio Patinhas de sua cabeceira irão, para sempre, ser parte de sua cabeça. Vivo dizendo que tudo começou com Paulo Francis pra mim. Claro que após Recreio, Zorro, Ilha do Tesouro e Tom Sawyer. E montanhas de Pato Donald e Mad. Mas antes de Francis houve TELMO MARTINO, e a união dos dois deu em Tony Roxy. Meu melhor lado é discípulo da união de Paulo e Telmo. Francis Martino.
   Telmo escrevia no JT. Era uma coluna gigante, onde ele falava daquilo que queria. Mas o que mais fazia era jorrar veneno. Telmo odiava os anos 60 e TUDO o que havia neles. Estávamos em 1977, e pra ele, nada era mais velho que 1968. Mal sabia, pobre Telmo, que 68 seria pra sempre.
   Estou relendo o livro que saiu em 2005, SERPENTE ENCANTADORA, textos de Telmo no JT, 1975/1985. Uma deslumbrante delícia. Existem palavras que saem de circulação. Sofisticado é uma delas. Fazem anos que não leio uma crítica chamando um filme novo de sofisticado. Música então, nunca mais. Pois Telmo é ultra-sofisticado, inteligente e chic, wit e muito esperto.
   Nasceu no Rio, rico e belo, aprendeu francês aos 4 anos, estudou no mesmo colégio que Paulo Francis. Se mandou pra Paris, fazer história da arte, fez direito e jornalismo na USP, morou cinco anos em Londres, e só então começou a trabalhar. Londres é sua paixão. Para Telmo, existe Londres e a periferia. Nós somos, e ele não se cansa de dizer, o interior, a terra virgem. E não pense que pra ele as coisas mudaram, nós não melhoramos, o mundo civilizado é que voltou às cavernas.
   Telmo é do mundo de Noel Coward. Lendo-o eu me sofistiquei. E me surpreendo ao perceber, décadas depois, que várias opiniões e frases que ainda uso são dele. O gosto estético grudou em mim. Para Telmo, como para mim, o auge da cultura POP do século XX é MY FAIR LADY e fim de papo.
   Telmo é sempre Pop. Ele fala de TV, de cine, de livros, de teatro. Da forma como ele escreve, seria hoje processado. Não mede seu humor, dá estocadas, mas sempre com classe. Tem elegância, é britânico, of course.
   Não há como ficar aqui citando frases de Telmo sem desmerecê-lo. Seu texto é cheio de meandros, de frases em francês, de ironia e duplo sentido, de inesperado. Deve ser lido inteiro. Caetano, Chico, Glória Menezes, Tony Ramos, FHC, Sarney, Maria Bethânia, Glauber, Cacá Diegues, Di Cavalcanti, Jorge Amado.... todos recebem suas estocadas movidas a champagne e porcelana azul.
   Fico pensando como seria Telmo escrevendo hoje. Provávelmente não escreveria. Telmo falar de um mundo em que vivem Ivette, Rafinha, Sandy e Mulher Melancia seria como escutar funk do Rio no Convent Garden.

HENRIQUE IV - SHAKESPEARE ( PRA QUE SERVE SHAKESPEARE? )

   Uma das coisas mais idiotas dos tempos que correm é a burrice de certas pessoas "inteligentes" que crêem na "utilidade prática" da arte. Bláaaaaah! São aqueles asnos que assistem uma série da HBO apenas e tão somente porque ela fala de algo "relevante". São os mesmos caras que fazem a glória de Michael Moore, de livros "sérios" sobre a crise moderna ou a questão "mais relevante" de agora. Esses tipinhos confundem jornalismo com arte, pensam que arte é a manchete do dia, e pior que tudo, empobrecem sua própria vida ao enxergar na existência apenas a concretude do jornal do dia, do pão quente, do último blá blá blá da aldeia. Mas também, a pobreza deles não lhes é justa?
   Essa é a questão central: cada um tem aquilo que lhe é de justo tamanho. Não adianta nada meus professores bradarem que o livro "velho sobre gente velha e morta" de Stendhal ou de Balzac tem tudo a ver com a vida de hoje. Não adianta tentar demonstrar que o velho filme de Murnau ou de Carné tem tudo a ver com aquilo que voce vive agora. Com sua visão míope de galinha de granja o tipinho inteligente nada poderá perceber. Azar dele. Eu nada tenho a ver com esse mundinho granjeiro.
   Pois pegue esta peça. Nesta bela tradução de Barbara Heliodora. Fala de uma rebelião contra um rei. E da relação de um herdeiro do trono com um gordo malandro de rua e de boteco. O galinho castrado de granja irá ler isto e nada, nada compreender. Vai ler a história de uma disputa por trono, um filho que assume seu destino e umas trapalhadas de um gordo bêbado. E só. Será incapaz de perceber que ali está nosso mundo interior de sempre, os embates entre dever e prazer, entre responsabilidade e medo, entre se deixar viver e tomar a vida nas mãos. Mais até, não sentirá a elevação da linguagem, linguagem que faz com que voce PENSE MELHOR, com mais clareza, e que faz com que esse pensar claro lhe conduza a sentimentos mais nítidos, mais definidos. Falstaff é o inglês medieval, amoral, meio ateu, que só quer se dar bem; Hal é o inglês que fará a glória da nova nação, determinado, cheio de senso de dever, orgulhoso. Um é nossa alma ansiosa e secreta, outro é nossa máscara social. Quem venceu?
   Estranho pensar que nos tempos de Shakespeare um ingresso de teatro custava o preço de um pint de cerveja preta. Era a ralé de comerciantes pobres e de soldados de segunda que assistiam a essas peças. Vibravam, uivavam, vaiavam e aplaudiam em cena. Entendiam. Dificil de acreditar que isto foi um dia diversão popular.
   Pensamos com palavras e vivemos aquilo que conseguimos pensar. Textos de lingua elevada enriquecem nosso palavreado, nosso pensamento se expande, e consequentemente nossa vida se enriquece. É esse tipo de ração refinada que as galinhas da granja jamais conseguirão engolir.
   Tá dito.
  
  

PLATÃO E WITTGENSTEIN E CANÇÕES DE AMOR ( AOS CINCO ANOS )

   Há uma teoria platônica que diz que nascemos com sabedoria e morremos sem nada saber. Bem, é quase isso o que a tal teoria diz. Que a gente vem à vida com a mente ligada ao espírito e que quanto mais a gente aprende coisas ( e falar é a primeira e mais fatal delas ), mais a gente perde essa conexão e se perde daquilo que é VERDADEIRO. Isso bate com aquilo que Wittgenstein dizia na sua maturidade ( tão curta ), que a lingua obscurece tudo, que a lingua é capaz de expressar apenas MENTIRAS. Que a vida é inalcansável pela linguagem ( e pela razão, que é lingua ). E não me importa saber se Plato ou Witt estavam certos. Nem eles se preocuparam com isso. Pensar não é disputa ou esporte, pensar é fome.
   Mas pra que eu estou dizendo tudo isso? Ah.... é pra falar que eu sei na carne ( e saber na carne é o que importa ) que Platão chegou perto da coisa. Que desde minha infância eu fixei na memória um monte de coisas, mas que de todas essas coisas as únicas que me valem são as que têem uma conexão com aquilo que eu já sabia aos 5 anos. Como é este disco.( e ele não tem a canção 5x20 ).
   Mais que amor. Deixar ir. O ar de dentro sair e ir embora e se misturar. Mais que amor-mistura geral. A sabedoria da criança é fazer parte do que está por aí. Ir-se. Quem não lembra disso tá bem morto.
   O disco começa com Love The One. Alegria de estar vivo. Eu cantava aos gritos e não sabia se estava cantando por estar muito feliz ou desesperado. Tava lá, botando os coisos pra fora. Depois vem mais: é uma coleção de canções sobre facetas/fases de amar e amor. Sei que Stills adora velejar e o disco sempre me lembrou praia, corrente marinha, vento salgado. Tem uma fração desse mistério, da chegada ao sopé da Serra, da primeira onda.
   Os hippies tentaram uma coisa muito simples: jogar o relógio no lixo. Hoje nós somos um relógio. Este disco existe de antes do tic tac. É lento, calmo, suave e nada frouxo.
   Ele me lembra também o mundo de Kevin Arnold e de Winnie. E se voce não sabe quem eles são, esqueça-o. Grama, muita grama, e sol de manhã cedo. Mas é o coração na boca quando ela vem.
   Escuta que é legal. Falar mais é ser adulto. E a gente sabe né? Deus me salve dos adultos.
   Stepehen Stills I.

CSNY - Stephen Stills - 4+20 (Big Sur, CA 1969)



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ALAIN DE BOTTON E A RELIGIÃO ( UM ATEU QUE PENSA )

  Eu não gosto de Alain de Botton. Mas gostei um dia. Hoje seus livros me parecem escritos para aquelas pessoas que gostariam de ler mas não conseguem. Ele escreve exatamente para o povo de que ele reclama, os desatentos, os filhos da internet, zumbis incapazes de atenção e concentração.
  Ontem saiu um artigo no Estadão com ele. Mais um livro. Aos 41 anos ele já escreveu dúzias. Botton é ateu convicto, e nesse novo livro ele fala de religião. Apesar de ateu, ele discorda da ferocidade anti-religiosa de certos intelectuais ingleses. Mais que isso, ele constata ( coisa que já percebi várias vezes ) que hoje é muito fácil ser ateu, a coragem é necessária para se ter uma verdadeira religião ( e falo de religião, não de igreja ). Botton diz que as pessoas NÃO QUEREM NEM PENSAR EM RELIGIÃO. Para elas é um assunto resolvido e acabado. O que mostra a covardia e a cegueira dessas pessoas.
   Sou obrigado a admitir que concordo com Alain. Mesmo os ateus vivem em um mundo criado pela religião. Seus valores internos, seus sentimentos foram criados por culturas religiosas e mesmo seu ateísmo é uma reação religiosa. Fugir disso, se recusar a pensar sobre isso é negar uma porção imensa de vida interior e de história social. O modo como a sociedade inglesa nega qualquer pensamento religioso hoje é sinal de algum tipo de problema muito mais grave do que uma mera "luz iluminista". Botton passa então a escrever sobre o porque da necessidade da religião, não como negação, mas sim na procura de que necessidade é essa.
   Eu faria diferente. Eu pesquisaria do porque da religião ter entrado em colapso no capitalismo. Não pode ser coincidencia o fato de a revolução industrial ter matado o mundo espiritual do homem. Mais que isso, eu faria a análise do porque hoje somos obrigados a ser ateus, pois se não o formos seremos considerados burros ou no mínimo ingênuos. De onde nasceu essa lei? A questão aqui não é saber se Deus existe, a questão é do porque ter-se jogado ao lixo o que de melhor havia no homem ( e o que nos diferencia do animal ) a religião, mãe da arte e da filosofia. O porque de crermos em qualquer bobagem que venha com a cancela de ciência.
   Alain diz ter impedido seus filhos de acessar o facebook. E de que agora compreende o porque das celas dos mosteiros. O homem necessita de períodos de silêncio, de isolamento, de comunhão consigo mesmo. O novo mundo que se avizinha, de hiper-atividade e nenhuma privacidade lhe parece o fim da cultura individual.
   Faço então uma ponte com a coluna de ontem de Pondé. Ele fala de sua irritação com a vulgarização do turismo, da profanação de lugares sagrados, da transformação de Jerusalém em Disneylandia. O principal é ele intuir que no futuro os homens sofisticados e cultos não viajarão, viverão isolados. Acorde Pondé, as coisas já são assim! Conheço gente que é incapaz de ler ou assistir qualquer coisa que não faça parte de um certo hype "chic". Esse tipo de "consumidor de cultura moderna e relevante" é o que há de mais conformista. Lêem livros úteis, assistem filmes novos e sérios e se dizem ateus, realistas e alternativos. No futuro serão considerados tão impessoais quanto os positivistas do século XIX são hoje.
   Escrevi que ser diferente seria ser velho ( pois tudo TEM de ser novo ), alegre ( pois tudo pede por melancolia ) e isolado ( pois devemos ser ligados ). Cada vez mais creio nisso. Precisamos de monges, como a idade média deles precisou. Disciplina, solidão e fé numa missão.
   Voltando a Botton, ele diz que os saques em Londres foram das coisas mais tristes que ele já viu. Os jovens desconectados de tudo, sem pertencimento, sem interioridade. Intuo que a religião tem muito a ensinar a esses jovens. Mas a chance de eles admitirem isso é a mesma de que eu um dia creia em um Deus pessoal.
  

WYLER/ JACK NICHOLSON/ AL PACINO/ LUMET/ HAWKS/ RITT/ WOODY ALLEN/ HUSTON

   REBELIÃO NA INDIA de Henry King com Tyrone Power
Sobre um soldado mestiço, que na India inglesa tem de lutar contra seu irmão, irmão que organiza rebelião anti-colonial. Aventura de primeira. King foi um daqueles diretores pau-pra-toda-obra, um tipo de diretor que a partir da nouvelle vague deixou de existir. King mais de vinte sucessos, e mesmo assim continuou a fazer filmes como este: despretensiosos, bem feitos, inteligentes, eficientes. Nota 7.
   OS PINGUINS DO PAPAI de Mark Waters com Jim Carrey e Carla Gugino
Waters surgiu como promessa de bom diretor. Parece que já se perdeu. Carrey um dia teve ambição, já se foi. Eu sempre preferi o Jim Carrey sem pretensão, mas as comédias excelentes que ele fazia não existem mais. Os pinguins são simpáticos, mas o filme é um lixo. Chega a ser revoltante como um profissional pode escrever algo tão idiota. Nota ZERO.
   BEN-HUR de William Wyler com Charlton Heston
Houve um tempo que o filme tipo 'Avatar" era assim: uma aula de história com tinturas de ação e lição de moral. Caríssima produção, longuíssimo, imenso sucesso, montes de Oscars. Heston, apesar dos ataques de um certo idiota, foi um belo ator. Passa credibilidade a um papel muito dificil. A história todos sabem: os amigos que brigam: um é judeu, outro é romano. A ênfase não é na ação, é na lenda. Bonito. Nota 7.
   A HONRA DOS PODEROSO PRIZZI de John Huston com Jack Nicholson, Kathleen Turner, Anjelica Huston e William Hickey
Uma visão meio cômica/ meio trágica da máfia. Nicholson é um matador apadrinhado pela máfia. Ele se apaixona e se casa com uma matadora polonesa. Mas a vida é cheia de surpresas... O roteiro é brilhante, e Huston, aos setenta anos dirige como um garoto. O filme recuperou o sucesso para sua carreira, concorreu a vários Oscars e fez dinheiro. Nicholson está engraçado e melancólico, faz um ítalo-americano meio burro e muito bom profissional. Turner foi uma sex-symbol de verdade. No meio dos anos 80 ela era o máximo. Mas há ainda Anjelica, fazendo a ex-esposa vingativa e o absurdo Hickey, um velhíssimo chefão, numa caracterização irresistível. Fantástico vê-lo babar e gaguejar. Nota 8.
   SERPICO de Sidney Lumet com Al Pacino
Na suja NY dos anos 70, Pacino é Serpico, um cara que sempre sonhou em ser um policial. Mas, ao começar a trabalhar ele se depara com a corrupção no meio. Al Pacino em uma de suas grandes atuações. Serpico é um tira que usa barba, brinco, faz ballet e veste batas indianas. O filme começa como uma quase comédia ácida maravilhosa, mas Serpico vai pirando e Lumet quase se perde. No final o filme se reergue e seu fim é bastante amargo. Na sequencia Sidney Lumet faria Um Dia de Cão e a obra-prima Network. Que grande diretor ele foi ! Nota 7.
   DUELO NA CIDADE FANTASMA de John Sturges com Robert Taylor e Richard Widmark
Ótimo western. Fala de ex bandido, agora xerife, que é sequestrado por seu ex comparsa. A fotografia em cores de Robert Surtees é estupenda. As paisagens são de tirar o fôlego. Sturges teve quinze anos de sucesso, sabia fazer filmes de ação. Um western que indico para fâs e para aqueles que desejam aprender a gostar deste tipo de cinema viril e sincero. Nota 8.
   E AGORA BRILHA O SOL  de Henry King com Tyrone Power, Ava Gardner e Errol Flynn
Versão da Fox para O Sol Também se Levanta de Heminguay. É bacana o retrato da festiva Paris de 1926, a Espanha aparece cheia de sol, de touros e de fiestas, mas nada há no filme do senso de tragédia de Heminguay. Mesmo assim é um filme bom, fácil de ver e sempre interessante. Ava faz uma bela Lady Brett e Errol está ótimo como o escocês bêbado. Este filme seria a salvação de sua carreira se ele não tivesse morrido pouco depois. Nota 6.
   BOLA DE FOGO de Howard Hawks com Gary Cooper e Barbara Stanwyck
É um filme de Hawks que não se parece com Hawks. E é fácil saber porque: o roteiro é de Charles Brackett e de Billy Wilder. O filme tem muito mais o estilo grosso de Wilder que o modo fluido de Hawks. Fala de inocente linguista que se envolve com moça de boate e seu cafetão. O filme é ok, mas tem um ar de conto da carochinha para adultos que jamais funciona. Uma pena.... Nota 5.
   TESTA DE FERRO POR ACASO de Martin Ritt com Woody Allen e Zero Mostel
Na época do MacCathismo, um caixa de bar é convencido por seu amigo escritor -erseguido a ser seu testa de ferro. É a melhor interpretação da vida de Allen. O seu caixa de bar que vira "autor" em nada se parece com sua persona ( embora ele solte às vezes uma piada à Woody Allen ). Ritt era um famoso diretor do bem, seus filmes sempre falavam de injustiças. Foi perseguido pelo MacCarthismo na vida real, assim como vários componenetes deste filme. É uma obra desigual, tem bons momentos e outros fracos. O final é perfeito, ao ser interrogado pela comissão do senado Woody Allen lhes dá a única resposta cabível. Por essa cena vale o filme. Nota 5.
   O SEGREDO DAS JÓIAS de John Huston com Sterling Hayden, Sam Jaffe e Louis Calhern
Uma obra-prima. Há quem o considere o melhor filme de Huston. Não sei se é, mas é tão bom quanto Sierra Madre. Aula de ritmo, fotografia, posição de câmera, atuação. O filme termina e voce já sente vontade de o rever. Foi satirizado pela obra-prima da comédia italiana, Os Eternos Desconhecidos. Caso único de obra-prima satirizada por outra obra-prima. Deu cria ainda a ao menos um grande filme: Rififi de Jules Dassin. Sensacional. NOTA DEZ.

UM FILME PERFEITO: O SEGREDO DAS JÓIAS de JOHN HUSTON. A ARTE DA VIRILIDADE.

   Existem filmes que são obras de gênio, mas são imperfeitos. Têm cenas inesquecíveis, fortes, originais, mas no todo passam uma impressão de imperfeição. E isso não lhes tira a beleza ou sua importância. Fellini, Bresson, Bunuel ou Hawks fizeram obras-primas imperfeitas. Mas suas imperfeições talvez aumentem ainda mais seu status, sua originalidade.
   John Huston está longe de ser um cineasta perfeccionista. Sua carreira tem vários filmes imperfeitos, alguns ruins e muitos bons filmes. Entre os imperfeitos existem alguns maravilhosos, filmes como The African Queen ou Beat The Devil ( talvez o mais "errado" dos grandes filmes ). Mas Huston tem dois filmes que além de geniais, ou seja, criativos e arrojados, têm a marca da perfeição absoluta: O Tesouro de Sierra Madre e este estupendo Segredo das Jóias.
   Porque perfeito? O que é um filme perfeito?
   Simples responder. O filme perfeito é aquele que não tem uma só cena errada. Mais, nada parece em excesso. Cada segundo de fita é exata, correta, e todo o tempo em sua exatidão nada transparece frieza. É uma perfeição quente, emocionada, cenas que pegam sua atenção e não largam mais seus olhos e ouvidos.
   Toda a parte técnica é perfeita. Temos a fotografia em P/B de Harold Rosson, as ruas com seu asfalto molhado, os brilhos sobre os carros negros, os ambientes sórdidos. Mas não é só isso que faz a perfeição deste filme. São os atores também. Todos com exatas expressões, e ao menos dois em atuações absolutas ( Sam Jaffe chega a ser mágico ). E há o roteiro, de Huston e WR Burnett. O primeiro filme da história do cinema a tratar de um assalto em seus detalhes, visto por dentro.
   Temos a tendência a achar que tudo no cinema existiu desde sempre.  Esquecemos que alguém criou aquilo que hoje parece natural. Houve o primeiro western, o primeiro filme de suspense, o primeiro gore e o primeiro filme de acidente. Até este filme não se mostrava o assalto como foco de um filme, se dava ênfase a fuga, a captura ou não do ladrão. Pois aqui nasce toda a linhagem de filmes que tratam de planos de roubo, de sua execução e das consequências desse assalto. De Missão Impossível aos filmes de Soderbergh, todos nasceram aqui. E devo dizer, este é ainda o melhor.
  Vemos o nascimento da ideia do roubo, a formação da equipe, o ato e o destino dos assaltantes. Tudo sem qualquer glamurização, sem nada de engraçadinho, sem facilidades. Há um ambiente de constante medo, de desconfiança, de vazio. Lugares sombrios, sórdidos, gente feia. Huston acerta em cada escolha, jamais nos deixa relaxar, tem tudo sob controle, se empenha e consegue fazer o que quer, o que planeja, faz gol atrás de gol. Da primeira até a última excelente cena, não há nada que desabone o filme. Eis a perfeição.
  Quanto a virilidade, coisa cada vez mais rara no cinema flácido que hoje se faz, é um filme muito sério sem qualquer cena de sofrimento ou de poesia forçada. As coisas acontecem, o destino castiga, e ninguém pode perder tempo em se lamentar. Eles jogam, falham, e seguem adiante. Não querem ser simpáticos, não almejam ser belos ou sofridos, são o que são, inteiros.
   São o que são... não há descrição melhor ao cinema de Huston. Seus filmes tratam de jogadores, de quem apostou, correu riscos e perdeu. Huston ama os derrotados, mas são derrotados que não se lamentam, que não culpam ninguém, derrotados que por não se lamentar acabam vencendo de certa forma, não desistem, avançam. Nada de heróico aqui, pensam apenas em si-mesmos, nada de bonitinho, a beleza mora no terrível da situação, nada de bondade, se ela existe deve ser encontrada em outro lugar.
  Nenhum diretor foi mais macho. Huston criou Eastwood e Peckimpah, Leone e Tarantino. E de certo modo, ele abriu meus olhos ao que é ser um homem. Não é pouca coisa. Foi o primeiro diretor que chamei de ídolo. E rever seus filmes ainda é um prazer visceral. Mais que um grande diretor. Foi um homem. Um grande homem.

ALÉM DO PLANETA SILENCIOSO- C.S. LEWIS ( O PLANETA MUDO É ESTE E ELE ESTÁ MUDO PORQUE? )

   Ás vezes a grandeza dos gênios nos é dada pela comparação com o pequeno alcance dos meros talentosos. O hábito de ler coisas brilhantes faz com que o gosto se apure, e sem perceber voce passa a notar a diferença entre o verdadeiro criador e um mero "talento". Lewis está longe de ser um grande escritor. Mas sempre tive a curiosidade de ler algo do autor de 'Nárnia". A filosofia que ele usa muito me interessa ( cristianismo puro ), e lê-lo era para mim uma questão de tempo.
   Mas sinto dizer que sua escrita é banal. E entenda bem, estou falando de seu "estilo", não daquilo que ele pensa e tenta nos passar. Este livro fala de um linguista ( na verdade é seu amigo, Tolkien ), que é raptado por dois ex-colegas de Cambridge. Os dois o levam em nave para um planeta onde, em que pese a aparência primitiva dos seres e das coisas, há um enorme desenvolvimento filosófico, o que os leva não só a paz, como também a serena aceitação da morte e da extinção. Poderia ser um grande livro, mas Lewis escreve mal. Aborrece em descrições infindáveis da paisagem, não consegue criar encanto, empatia, e sua linguagem é óbvia, redundante, banal.
   Porém, existe um pensamento, ensinado pelos seres intergaláticos, que é de bela complexidade. A de que o verdadeiro prazer da vida reside na memória. Mas não a memória saudosista, que é a vontade de voltar ao que foi vivido, mas sim a memória que tem a sabedoria de saber que tudo de bom na vida dura uma hora ou um dia, e que na lembrança que permanece, esse momento dura toda uma vida. É no lembrar que reside a verdadeira alegria. O momento feliz é apenas isso, um momento, mas a recordação é uma alegria para sempre.
  Há um outro pensamento, este dado pelo tipo de "deus" do planeta. A de que o fato de na Terra só haver um ser racional ( nós ), cria uma grande pobresa de vida e de entendimento. Como aqui só existe um tipo, uma única forma de pensamento, não temos com quem, ou com o que trocar experiências, não temos onde aprender, onde conceber novas formas de razão. É um único ser falando, eternamente, consigo mesmo. Nenhuma troca. Nada. No planeta visitado existem três formas de razão, três seres inteligentes, três modos autônomos de ver, sentir e pensar. O diálogo entre eles os enriquece, eles são três vezes mais complexos.
  É um livro mais ou menos, mas esses pensamentos são grandes. Muito grandes.

A LEBRE COM OLHOS DE ÂMBAR- EDMUND DE WAAL, UM BEST-SELLER PARA HOJE.

   Conhecido como grande ceramista, o inglês De Waal, após pesquisas, viagens, dores e relembranças, escreve um livro, este. Nele ele fala dos netsuquês de sua familia. Primeiro: o que é um netsuquê? São minúsculas estátuas de madeira ou marfim, ricas de detalhes, feitas no antigo Japão. São feitas para o toque, para se levar nas mãos, no bolso, em cinto. A familia de De Waal tem mais de 200 netsuquês. Segunda questão: que familia?
 Começa o livro. A familia de Edmund é a familia Ephrussi, judeus de Odessa que se tornaram milionários no século XIX no comércio de grãos. Charles, tataravô de Edmund é o primeiro herói do livro. Vive em Paris e tem um palácio que existe ainda hoje. Hoje transformado em escritórios, lógico. Charles financia a arte de Renoir, de Degas e de Pissarro, torna-se personagem de Proust e coleciona com avidez. O luxo em que Charles vive nos é irrecuperável. O livro de De Waal tem muito de proustiano. Charles compra pinturas da renascença, prata e cristal, tapetes, os móveis mais raros e vive em seu palácio de ouro e de mármore, coberto por vidro, cercado de festas e lacaios. Charles vive para o belo.
 A França é tomada pela moda do japonismo. Tudo o que é japonês é chic. Charles compra os netsuquês e um armário de laca para os exibir. Os bonecos de marfim são felizes naquela casa. Apesar do anti-semitismo francês.
 Na segunda parte do livro estamos na Viena de 1900. Para lá vão os netsuquês. Dados como presente de casamento para a bisavó de Edmund. Viena de Karl Krauss, de Schiele e de Klimt, mundo de café e chocolate, de soldados bem vestidos, de rituais, de um rei que jamais poderia morrer. Nessa Viena, mais que o luxo, há a sensação de que a vida é boa, de que tudo pode ser feito, desde que feito com classe. Os netsuquês ficam no quarto da senhora. E lá, em meio a todo aquele ouro e seda, eles se tornam brinquedos. O império austro-húngaro tem muito de terra da carochinha, e as crianças da familia ( familia agora de banqueiros ) brincam com os bonecos: tigres, ratos, samurais, lebres.
 O nazismo surge lentamente e a familia passa pelo inferno em vida. Desapropriação, violência física, roubos, humilhação. Todos se desperçam. EUA, Inglaterra, México. A fortuna se esvai. Os palácios viram escritórios de nazistas. Edmund lê cartas, vê fotos, viaja até os lugares onde tudo ocorreu. Os netsuquês são escondidos pela empregada da familia, um a um, e vão para Londres, onde se tornam posse do avô de Edmund, Iggie.
 Edmund nasce nos anos 60 e estuda cerãmica. Vai ao Japão fazer estágios e lá convive com seu avô, Iggie. Conhece os netsuquês.
 O livro fala então do Japão pós-segunda guerra, da reconstrução, do milagre. E de Iggie, casado com um japonês, vivendo em Tokyo, apaixonado pelo país, e com seus netsuquês em lugar de honra.
 ......
 Li artigo sobre este livro no Estadão. Fenômeno na Inglaterra, trata-se de um livro cada vez mais raro: best-seller que tem qualidade, que é relevante. No artigo se diz que há influência de Proust e de Sebald. Resolvo ler.
 Nada há aqui da melancolia de Proust ( melancolia luminosa de Proust ), ou da profundidade filosófica de Sebald. Mas é sim, um belo livro. Que se lê com prazer, com curiosidade e com sofreguidão. De Waal não teme mostrar a decadência da civilização pós-Hitler, de exibir tudo aquilo que perdemos. E o que perdemos?
 Acima de tudo perdemos nossos objetos. Todas as coisas que nos cercavam eram parte de nós e com elas dialogávamos. Objetos que eram vivos, pois em nosso esbanjamento de tempo e de vida, lhes doávamos essa sobra, essa história, esse afeto. Um mundo em que tudo ao redor tinha a certeza da permanência, daquilo que lá está para nos acompanhar, para ser nosso. Os netsuquês são personagens centrais, estão vivos, são a familia em sí-mesma.
 Há tempo hoje para se vivificar as coisas? Olhe ao seu redor e tente encontar algo que lhe seja único. Um pedaço de coisa que possua história, narrativa, que conte algo, que respire. O livro possue essa conciência da perda, da luta contra a perda, da recusa a se deixar morrer. Luta judaica, sem dúvida, mas é a luta de todos aqueles que amam a cultura, a história, o pensamento, as "coisas".
 Leiam. Leiam. Leiam. Leiam.