O MELHOR ESCRITOR INGLÊS FOI POLONÊS
Bangcoc, Malacca, Bornéo, Saigon, Manilla, Hong Kong, Tahiti... esse é o mundo do polonês que se fez o melhor ( e mais influente e moderno ) escritor inglês. Ele nasceu com o nome de Josef Korniewicz e seus pais foram perseguidos pelas autoridades russas ( lutavam pela independencia da Polonia ), mortos os pais, foi criado por um tio que o colocou nas melhores escolas. Mas tudo mudou novamente, quando aos 17 anos ele se empregou na marinha mercante inglesa. Foram dez anos no mar, dez anos no oriente, entre ilhas perdidas e colonialismo ( 1900, tempo em que o mundo ainda tinha recantos misteriosos ). Apenas aos 40 anos, já na Inglaterra e em terra firme, rebatizado como Joseph Conrad, ele passaria a ser um escritor profissional. E estranhamente, apesar de polaco, se tornaria um mestre do idioma. Escrever nunca seria um prazer para ele, escrevia para fixar suas lembranças, e apesar de ser defendido por Henry James e HG Wells ( e depois amado por Heminguay ) os criticos de então o consideravam um mero autor de aventuras, um escritor superficial. Preferiam Thomas Hardy ou Virginia Wolff. O tempo sempre faz justiça na arte. Ao fim da vida, autor de montanhas de livros, Conrad se torna laureado e popular. E como sempre, honrado, jamais aceitou qualquer homenagem. Não esqueceu as ofensas. O mundo que ele retrata é maravilhoso ( e sempre trágico ). Europeus fracassados em sonhos de riquesa e poder, perdidos em ilhas abafadas e cheias de mosquitos, cheios de doenças e bebida, incapazes de fugir pois amam aquilo que os mata. Europeus inadaptados ao mundo mestiço dos trópicos, homens honrados que sempre afundam em medo e desencanto. Conrad é raro, é dos poucos autores que misturam aventura e arte em doses iguais. Um tipo de Akira Kurosawa das palavras. Tudo nele tem ação, as coisas acontecem no mundo real, mas ao mesmo tempo, as coisas acontecem dentro dos personagens, existencialmente. E que personagens! São trágicos grandiosos, se movem em ódios e paixões mesquinhas, são covardes e falsos, e às vezes muito nobres. Acima de tudo, são como eu e voce poderíamos ser se tivéssemos hoje o espaço para o ser. Pois naquele mar estagnado e naquelas ilhas mortas, eles podem se fazer inteiros, mesmo que essa inteireza seja podre e fétida. Li quatro livros de Conrad e agora estou embrenhado no quinto. Lord Jim foi o primeiro. A saga do homem covarde que tenta por toda a vida se redimir. Depois vieram Nostromo, O Coração das Trevas ( que originou o Apocalypse de Coppolla ), O Agente Secreto, que foi filmado por Hitchcock.... Todos são brilhantes, viciantes, ágeis e genialmente bem escritos. Ele mescla a ação com observações filosóficas profundas, surpreendentes, cínicas e poéticas. Mestre. Estranho país a Inglaterra. A partir de 1880, e apesar de vários bons escritores, seus gênios são todos estrangeiros. Irlandeses ( Yeats, Shaw, Joyce, Wilde, Synge ), americanos ( Henry James, Eliot ) e até um polonês, Joseph Conrad. Nasce dele toda a linha aventureira/existencial que tanto marcaria o século XX, de Heminguay a Malraux. Mas acima de qualquer critica, ler Conrad é uma diversão. Há coisa melhor que isso? Ler alta arte com um alto grau de prazer juvenil? É claro que toda arte genial dá prazer. Mas esse prazer pode ser árido, ou até mesmo custoso. Em Conrad não. Como, volto a dizer, no cinema de Kurosawa, temos aquele tipo de diversão de adolescência, direta e simples, mas misturada com a profundidade escura e terrível de Dostoievski ou do cinema de Dreyer. Esse é o ideal de todo escritor moderno. Quantos chegaram lá?
COMO VER "A LUZ" SENDO ATEU
Dentro dessa influência oriental, dessa revalorização do reprimido ( nosso imenso lastro pagão ), quero falar sobre o zero. Invenção hindú ( apesar do orientalizado Pitágoras ter tocado no problema ), o zero é um problema que afeta toda a ciência, incluindo a linguistica e a psicologia. Pois o zero existe, é 0, mas ao mesmo tempo não existe, é um vazio, um nada, uma ausência. Percebe o tamanho do problema? Como pode um símbolo ser um ente não existente? E como pode esse nada afetar o 1? Somente o pensamento abstrato superior poderia conceber esse aparente e ilógico absurdo. A ausência significando algo. Dito isso. Me é impossível crer em algo que meus sentidos não podem provar. Apesar do zero. Apesar de eu obter ontem a informação de que a ciência moderna desistiu de saber os porques e as origens, se focalizando agora apenas nos para que. A ciência entregou os pontos, nada pode ser explicado após a terceira questão ( a maçã cai por causa da gravidade, a gravidade existe por causa da massa, mas porque a massa atrai? O universo se expande por causa do big bang, fora do universo existe a não matéria, mas de onde surgiu o não vazio? ). Não posso crer porque nasci e estou imerso no pensamento de meia dúzia de gregos que criaram o único mundo que me é familiar. Portanto, por mais que eu ache sedutora a idéia de anjos ou de Buda, são idéias para mim inalcansáveis. Mas existem ateus e ateus. Explico. O ateu fechado em si, normalmente seco e sem criatividade, pensa o mundo como ação e reação, numa lógica que depende muito mais de fé do que ele imagina. Ele deseja crer na lógica, na razão, e jamais percebe que essa forma de pensar fecha portas e possibilidades sem nada dar em troca. A vida se torna quimica. Para o outro tipo de ateu, no qual me incluo, a vida também é quimica, mas não só quimica. A lógica existe em problemas matemáticos e a razão é uma parte do todo, nunca o todo. É um ateísmo que reconhece o limite do saber, que aceita o mistério e a transcendencia ( não como fé, mas sim como abertura de novas possibilidades de pensar e sentir ). Quando Jung fala de espirito é disso que ele fala: tudo o que há no ser fora da razão, do consciente, do ego. Nada tem a ver com Deus ou deuses. Muito tem a ver com o tal vazio oriental. ( Para Buda quando morremos, se tivermos sorte, morremos como ser individual, continuamos como centelha divina. Ora, se meu ego morre não mais sou ). Olhar para fora e reconhecer que quase nada sabemos, olhar para dentro e perceber que quase nada percebemos, saber que da vida não somos senhores e que nossa vontade é minúscula perante o que significa viver. Não creio em Deus ou milagres, mas sei o imenso valor ( central e definidor ) da experiência religiosa. O ateu que fecha os olhos para esse fato ( ele estranhamente e de forma medieval crê que se não pensar nela a religião deixará de ter valor!!!! ), se priva de uma fatia imensa da vida, joga fora a chance de enriquecimento da alma e amputa toda uma possibilidade de criação e de crescimento. Torna-se avestruz pensando ser um leão. Ainda acrescento que nossa herança ( genética? ) pagã está viva em todos nós. Foram milhares de anos de animismo, de comunhão com a natureza e apenas 3000 anos de ciência. Como asfixiar essa verdade? O homem que usava amuletos e falava com o sol ainda vive em mim. Poesia, lendas, música, dramas e sonhos tentam nos lembrar disso. Não consigo crer em Deus ou na vida pós-morte, mas não posso roubar de mim mesmo essa herança ( parte que justifica e dá sentido a vida ). O resto é brincadeira de cientistas.
CONTRAPONTO- ALDOUS HUXLEY
Reli este livro estes dias... Huxley tem as raízes de seu espirito no movimento romântico alemão de 1790. A insatisfação com o mundo em que se vive e a tentativa de mudar as coisas. Esse espirito rebelde está presente no simbolismo francês e no começo do século XX é preponderante em gente como Hesse, Mann, Jung, Joyce e Pound. O que os une é um desejo de suplantar a tradição de pensamento greco/cristão, uma busca por alternativas de arte/vida que em seu extremo leva a pregação de uma espécie de negação dos conceitos de tempo/filosofia do ocidente. Os celtas, os vikings, os trolls, e também os hindus e aztecas são visitados por todos esses artistas/escritores/pensadores. Conceitos de verdade, de objetivo e a própria forma de viver no mundo são repensadas. É tentada a liberação de conteúdos negados por mais de 3000 anos. Toda a contracultura, todo o cinema de autor, beberá nas fontes dessas primeiras décadas do século de 1900. O livro de Huxley nos entontece. Não há centro em sua narrativa. Não há linearidade. Todas as histórias, de todos os personagens, acontecem paralelamente. É o conceito sincrônico, conceito que nega causa e origem, conceito anti-grego, aplicado ao romance. Nada parece lógico, nada é consequencia de nada, a vida de cada ser é definida apenas pelo momento presente. Huxley consegue jogar com tudo isso sem jamais parecer estar jogando. As peças desse xadrez emocional se movem em regras atemporais, mas com uma lógica que é construída em cada frase. Tudo é vivo. Ao terminar essa releitura, sinto que o mundo de hoje está muito mais próximo de um novo paganismo que daquilo que meia dúzia de gregos nos legou. A imensa força intelectual que esses poucos áticos nos deram ( um feitiço? ) está desde os tempos de Contraponto em processo de putrefação. Coisas como história, politica, filosofia, causa e efeito, catarse e lógica linear têm desaparecido. Não era esse o objetivo de Huxley. Sua utopia feliz seria a de um mundo que unisse o bom dos dois mundos, mas o que temos vivido é o retorno de um tipo de relativismo pagão e de uma atitude anti-racional nada grega. Temos o isolamento oriental sem sua sabedoria, e a hiperatividade do ocidente sem seu sentido de história. Um tipo de hiperatividade "cada um no seu mundo particular", o nome disso é alienação, outro nome é psicose branda. Eu me movo sem motivo particular, voce se move sem motivo particular e ambos vivemos em mundinhos que remetem a mundinho próprio e sem fim. Huxley percebeu tudo isso oitenta anos atrás. Sua esperança era a de que cada um mergulhasse em suas trevas pagãs e descobrisse o gênio dentro de si-mesmo. Nada feito, a covardia venceu. Contraponto nos mostra, nos condena e nos remete ao começo. É livro terrível, soberbo e alucinógeno. Leia.
O MUNDO HOJE OU VALE QUEM VENDE MELHOR
Esta eu não sabia e foi discutida em aula: Na Grécia existiam os sofistas. Até aí tudo normal. Eles não acreditavam na existência real das coisas, portanto, tudo era relativo. Verdade, justiça, bem, beleza, ética, todos eram valores relativos, não reais. A única verdade seria a verdade imposta pelo convencimento. Verdade é aquilo que alguém me convence, com discurso bem elaborado, a aceitar. Platão se irritava muito com isso e toda a sua filosofia é refutação dessa idéia. Para Platão, verdade, bem e belo não são relativos, eles existem como idéias superiores, independentes de nossa vontade. Por mais que eu queira que George Lucas seja o melhor diretor de cinema da história, existe uma verdade: ele não é. Em nosso mundo ocidental a idéia sofista é tão vitoriosa que no debate que se instaurou em classe todos os alunos ( inclusive eu ) caíram em contradição. Todos execraram o relativismo que nos obriga a considerar tudo válido, tudo discutível e tudo um caso de crença pessoal. É mundo onde a filosofia verdadeira se torna impossível, porque tudo se reduz a um absoluto "cada um na sua". Se eu disser que Britney Spears é genial e criar argumentos que me apóiem voce será obrigado a aceitar minha tese, mesmo discordando, pois não existe no relativismo uma medida de genialidade ou sequer de valor. O discurso é sempre o mesmo: Eu penso assim e essa é a Minha Verdade. Segundo Platão, todo estado que vive nesse individualismo de idéias próprias tende a decair. Simplesmente por não haver coesão, união em um ideal. Toda a sala de aula sentiu aversão pelo relativismo, pela vitória do belo discurso ( mesmo que vazio ), pela prevalencia do cada um na sua. Mas ao ser exposto o que seria seu oposto fez-se mais uma aversão. O platonismo real seria a vitória da verdade, mas quem saberia qual a verdade? O líder ou o senso comum? O exemplo mais próximo de platonismo existe, e bem vivo, em todo o mundo do islã. Uma única verdade, um único bem, um conceito de belo e de ético. Fez-se o nó: aversão ao relativismo, total impossibilidade de aceitar que alguém pense e julgue por nós. Conciliação impossível. Eu sou, todos somos, sem o saber, sofistas. Tudo é relativo, tudo é um imenso talvez. Quando alguém diz que sem o facebook não vale a pena viver, acabamos por crer nisso. Se falam que café faz bem, acreditamos. Se disserem que Neymar é melhor que Pelé iremos apoiar. Desde que esse discurso seja sedutor, bem elaborado, convincente. Tempo em que não interessa a verdade, interessa o slogan. Dentro desse mundo me é impossível sequer imaginar uma alternativa. Para mim, o mundo parece ter sido sempre assim. E pensar que me imaginava platônico....
O DINHEIRO E O MAL ENTENDIDO. "RAZÃO E SENSIBILIDADE"- JANE AUSTEN
Jane Austen, segundo Harold Bloom, cria nos primeiros anos do século XIX o moderno romance inglês. Mais que isso, ela cria um certo tipo de padrão da alma inglesa. O fato de que em 2011 seus livros continuem a vender muito, filmes sejam adaptados de suas obras e fãs se devotem a seu culto, torna-a uma figura chave da história do romance. Ela é hoje mais cultuada que Balzac ou Flaubert, não é pouca coisa.
O dinheiro é o centro de seus textos e nisso ela é muito atual. Cada ação corresponde a um desejo de ascenção social e esse desejo é sempre insaciável. O amor "parece" ser o que motiva os personagens, eles sofrem por ele, lutam por ele e se enganam sempre em mal entendidos, fofocas, falsas expectativas. Mas por trás disso, sempre há a busca do conforto, do aumento de fortuna, do poder. As mulheres parecem, e acreditam ser, desinteressadas, idealistas, romanticas, mas todo o tempo elas se debatem em mundo que apenas repete a ladainha da fortuna, da segurança, do futuro. E esse dinheiro sempre acaba por prevalecer.
Austen faz uma critica suave, suave porém eficiente, a esse modo de vida. Exibe a afetação ridicula, a falta de contato com a realidade dessa classe ociosa que fez aquilo que conhecemos como "mundo moderno". Eles têm poder mas não sujam as mãos com trabalho. Vivem de renda, de aplicações, de negócios misteriosos. O dinheiro é amado, mas o ato de o produzir é escondido. Jane Austen percebe a tolice dessa classe snob, ociosa, entretida em festinhas, flertes, caçadas e conversas cheias de inverdades e mistérios ocos.
O estilo é limpo, simples, quase cinematográfico. Jane Austen não é narrador que se impõe, ela conta e nos deixa livres para pensar. E o que pensamos é que seu mundo não é tão diferente do nosso, seu modo de ver estava bastante adiante do tempo e sua popularidade é aquela de quem encontra a atemporalidade ao ser simples. Longe de ser tão genial como Flaubert ou tão rica como Balzac, Austen leva a vantagem de ser próxima, calorosa, confidencial.
O dinheiro é o centro de seus textos e nisso ela é muito atual. Cada ação corresponde a um desejo de ascenção social e esse desejo é sempre insaciável. O amor "parece" ser o que motiva os personagens, eles sofrem por ele, lutam por ele e se enganam sempre em mal entendidos, fofocas, falsas expectativas. Mas por trás disso, sempre há a busca do conforto, do aumento de fortuna, do poder. As mulheres parecem, e acreditam ser, desinteressadas, idealistas, romanticas, mas todo o tempo elas se debatem em mundo que apenas repete a ladainha da fortuna, da segurança, do futuro. E esse dinheiro sempre acaba por prevalecer.
Austen faz uma critica suave, suave porém eficiente, a esse modo de vida. Exibe a afetação ridicula, a falta de contato com a realidade dessa classe ociosa que fez aquilo que conhecemos como "mundo moderno". Eles têm poder mas não sujam as mãos com trabalho. Vivem de renda, de aplicações, de negócios misteriosos. O dinheiro é amado, mas o ato de o produzir é escondido. Jane Austen percebe a tolice dessa classe snob, ociosa, entretida em festinhas, flertes, caçadas e conversas cheias de inverdades e mistérios ocos.
O estilo é limpo, simples, quase cinematográfico. Jane Austen não é narrador que se impõe, ela conta e nos deixa livres para pensar. E o que pensamos é que seu mundo não é tão diferente do nosso, seu modo de ver estava bastante adiante do tempo e sua popularidade é aquela de quem encontra a atemporalidade ao ser simples. Longe de ser tão genial como Flaubert ou tão rica como Balzac, Austen leva a vantagem de ser próxima, calorosa, confidencial.
A SEGUNDA MELHOR ATRIZ, ELIZABETH TAYLOR JAMAIS MORREU
Desde a segunda guerra que Elizabeth Taylor é uma estrela. Na época estrela infantil, mas sempre com brilho majestoso. É muito tempo! Ela conseguiu fazer a transição de estrela infantil para estrela adulta sem jamais perder o status. Foi, e é, uma sobrevivente.
Meu pai a achava a mais bela mulher do mundo. Em alguns filmes ela faz justiça a esse título, em outros não. Nesses, onde ela se mostra gorda, deselegante, humana, ela é a segunda maior atriz de lingua inglesa da história do cinema. Melhor que Bette Davis. Perdendo só para Kate Hepburn ( perder para Kate é uma honra ). A segunda melhor na média, porque é de Taylor a melhor atuação que já vi: QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOLLF, de Mike Nichols, com Burton. O que ela faz nesse filme é inesquecível. Um milagre de voz, rosto e gestos. Coisa de deusa.
Desde criança eu ouço falar nela. Como Garbo, Dietrich, Marilyn, Sophia e Bardot, Elizabeth Taylor é um dos raros nomes que qualquer peão conhece. O cara pode jamais ter visto um filme na vida, mas já escutou esses nomes em algum lugar. De todas elas Liz era a única que realmente sabia interpretar.
Richard Burton foi sua grande paixão. Casaram-se e divorciaram-se um monte de vezes. Eram um exemplo tão ruim de comportamento que o papa Paulo VI chegou a os excomungar. Ele foi o veneno dela. Burton, gênio de ator, era auto-destrutivo. Destruiu sua carreira, sua saúde, sua beleza e quase que a destruiu. Álcool e deprê. Mas o grande amor de Liz foi Mike Todd, produtor gastador que vivia como um rei e morreu muito jovem. Burton veio depois. E o mundo falava deles como depois se falaria de Lady Di, Madonna e de.... Michael Jackson.
Jackson foi o negativo de Liz. Ele não foi feliz na mudança de criança estrela para adulto estrela. MJ continuou preso em Neverland. Até morrer. Como Diana Ross, Liz foi sua babá. Magnífica babá.
Uma pena Elizabeth Taylor ter parado de filmar tão cedo. Ou talvez não. Seria grotesco vê-la em telas tão chinfrim. Assim como Audrey e Ingrid Bergman, o cinema caipira não a comporta em seu mundo ( Taylor em filmes de Clint, Scorsese ou Tarantino seria ridiculo ).
Elizabeth Taylor não morreu neste mês e nem em mês nenhum. Estrelas desse tamanho parecem ter surgido do nada, parecem nunca ter nascido. E aqueles que não nascem não podem morrer. Se ela jamais foi uma criança de escola, se ela nunca soube o que é ser "comum", então ela nunca foi vulgar, banal, humana como todos nós. E esse é o mistério que define a estrela, ela não existe em nossa dimensão. Não vive a vida que vivemos. E não pode morrer a morte que morreremos. Liz é eterna então.
Meu pai a achava a mais bela mulher do mundo. Em alguns filmes ela faz justiça a esse título, em outros não. Nesses, onde ela se mostra gorda, deselegante, humana, ela é a segunda maior atriz de lingua inglesa da história do cinema. Melhor que Bette Davis. Perdendo só para Kate Hepburn ( perder para Kate é uma honra ). A segunda melhor na média, porque é de Taylor a melhor atuação que já vi: QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOLLF, de Mike Nichols, com Burton. O que ela faz nesse filme é inesquecível. Um milagre de voz, rosto e gestos. Coisa de deusa.
Desde criança eu ouço falar nela. Como Garbo, Dietrich, Marilyn, Sophia e Bardot, Elizabeth Taylor é um dos raros nomes que qualquer peão conhece. O cara pode jamais ter visto um filme na vida, mas já escutou esses nomes em algum lugar. De todas elas Liz era a única que realmente sabia interpretar.
Richard Burton foi sua grande paixão. Casaram-se e divorciaram-se um monte de vezes. Eram um exemplo tão ruim de comportamento que o papa Paulo VI chegou a os excomungar. Ele foi o veneno dela. Burton, gênio de ator, era auto-destrutivo. Destruiu sua carreira, sua saúde, sua beleza e quase que a destruiu. Álcool e deprê. Mas o grande amor de Liz foi Mike Todd, produtor gastador que vivia como um rei e morreu muito jovem. Burton veio depois. E o mundo falava deles como depois se falaria de Lady Di, Madonna e de.... Michael Jackson.
Jackson foi o negativo de Liz. Ele não foi feliz na mudança de criança estrela para adulto estrela. MJ continuou preso em Neverland. Até morrer. Como Diana Ross, Liz foi sua babá. Magnífica babá.
Uma pena Elizabeth Taylor ter parado de filmar tão cedo. Ou talvez não. Seria grotesco vê-la em telas tão chinfrim. Assim como Audrey e Ingrid Bergman, o cinema caipira não a comporta em seu mundo ( Taylor em filmes de Clint, Scorsese ou Tarantino seria ridiculo ).
Elizabeth Taylor não morreu neste mês e nem em mês nenhum. Estrelas desse tamanho parecem ter surgido do nada, parecem nunca ter nascido. E aqueles que não nascem não podem morrer. Se ela jamais foi uma criança de escola, se ela nunca soube o que é ser "comum", então ela nunca foi vulgar, banal, humana como todos nós. E esse é o mistério que define a estrela, ela não existe em nossa dimensão. Não vive a vida que vivemos. E não pode morrer a morte que morreremos. Liz é eterna então.
ROBINSON CRUSOE- DANIEL DEFOE
Inglaterra do começo da revolução industrial, nasce o livro como o conhecemos. Não mais texto para monges, para estudiosos, para nobres colecionadores. Não mais religião, epopéias míticas, poemas heróicos; agora são romances e poemas sobre o coração. Livros, agora vendidos aos montes, em lojas, em livrarias. O primeiro best-seller pode ser Crusoe ( ou Tom Jones, ou Clarissa, ou Gulliver ). E, ao contrário dos best-sellers de hoje, Robinson é para sempre.
Voce pensa ser ele infantil, voce pensa que o conhece, mas assim como Gulliver, Crusoe é adulto, e é muito mais que a simples história de náufrago e selvagem. Robinson Crusoe é uma critica a sociedade, é o medo da industrialização, mas é acima de tudo, um elogio ao engenho do homem, ode a criatividade.
É delicioso lê-lo. Há genuíno maravilhamento. Voce sente o retorno do encanto dos primeiros livros lidos. Quando, então, abrir um livro era viajar para longe. ( Meus primeiros foram A ILHA DO TESOURO, TOM SAWYER, O CONDE DE MONTE CRISTO e CARLOS MAGNO, Stevenson, Twain e Dumas... nada mal ). Voltando: tudo o que Crusoe faz e vê na ilha, nós vemos, e além disso sentimos a vida que ele vive lá. Após o desespero da solidão e da fome, a constatação: eis a aventura de viver! Quando Crusoe volta a Inglaterra, sua readaptação é impossível. A dor maior é ter perdido sua ilha.
Daniel Defoe viveu de letras. E essa é a maior das revoluções. Na Inglaterra de seu tempo ( século xviii ) já existia uma realidade que nós aqui ainda tentamos criar. Ele foi jornalista e romancista, contista e editor, ele foi imenso talento. Robinson Crusoe merece sua fama? Claro que sim! Pois ele é absoluto prazer, jóia de invenção e libelo por boas causas. É uma obra-prima.
Voce pensa ser ele infantil, voce pensa que o conhece, mas assim como Gulliver, Crusoe é adulto, e é muito mais que a simples história de náufrago e selvagem. Robinson Crusoe é uma critica a sociedade, é o medo da industrialização, mas é acima de tudo, um elogio ao engenho do homem, ode a criatividade.
É delicioso lê-lo. Há genuíno maravilhamento. Voce sente o retorno do encanto dos primeiros livros lidos. Quando, então, abrir um livro era viajar para longe. ( Meus primeiros foram A ILHA DO TESOURO, TOM SAWYER, O CONDE DE MONTE CRISTO e CARLOS MAGNO, Stevenson, Twain e Dumas... nada mal ). Voltando: tudo o que Crusoe faz e vê na ilha, nós vemos, e além disso sentimos a vida que ele vive lá. Após o desespero da solidão e da fome, a constatação: eis a aventura de viver! Quando Crusoe volta a Inglaterra, sua readaptação é impossível. A dor maior é ter perdido sua ilha.
Daniel Defoe viveu de letras. E essa é a maior das revoluções. Na Inglaterra de seu tempo ( século xviii ) já existia uma realidade que nós aqui ainda tentamos criar. Ele foi jornalista e romancista, contista e editor, ele foi imenso talento. Robinson Crusoe merece sua fama? Claro que sim! Pois ele é absoluto prazer, jóia de invenção e libelo por boas causas. É uma obra-prima.
DASSIN/ SCORSESE/ ARONOFSKI/ DEL TORO/ PETER BROOK/
LÁGRIMAS DO SOL de Antoine Fuqua com Bruce Willis e Monica Bellucci
Um grupo de soldados vai resgatar americanos em país africano. É um filme dos anos 80 com tintas de bom mocismo típicas dos anos 2000. A ação é banal e dá pra notar que Willis está desinteressado. Não é um filme ruim, é menos que isso. Nota 1.
O LABIRINTO DO FAUNO de Guillermo del Toro
Um filme infantil com cenas adultas. Tem um belo visual, mas a visão que ele tem da vida, seja politica seja sentimental, é de uma criança. Mas o filme não é sobre as fantasias de uma criança? Sim e não. Se fosse a visão de uma criança não teríamos certas cenas que traem um desencanto adulto. De qualquer modo, mesmo não sendo tão bom quanto alguns querem crer ( lhe falta densidade, há uma constante sensação de frustração nele ), é um filme interessante. Em alguns poucos momentos sente-se realmente o que é ser criança e viver nesse mundo dúbio, entre ver e intuir, pensar e sentir, criar e se conformar. Nota 6.
OLD BOY de Chanwook Park
Há um público gigantesco hoje que confunde apuro visual e ousadia superficial com arte. Vejam este exemplo: pega-se uma história simples, simplória até, e através de toda a perfumaria e maquiagem de modismos sem razão de ser, confunde-se tudo. Os tolos acreditarão nessa confusão com as "sacadas espertas" e o visual nervoso será chamado de "estilo". Necas! O filme é comum como qualquer porradaria de Charles Bronson ( prefiro Bronson ). Vazio, sem qualquer emoção, vive daquilo que George Lucas dizia:" É fácil criar sensação no cinema: pegue um gatinho e o esmague, eis a sensação-nojo e pena, revolta e asco; nada a ver com emoção". Old Boy é um lixo. Nota ZERO.
A ILHA DO MEDO de Martin Scorsese com Leonardo di Caprio, Ben Kingsley, Michelle Willians e Max Von Sydow
Frustrante. Quando descobrimos a verdade não nos sentimos surpresos, nos sentimos logrados. O roteiro é seu ponto ruim, e mesmo a direção de Scorsese, cheia de clima e de amor a seu tema trash, não consegue salva-lo. Os atores estão bem ( há algum ator hoje mais importante que Leo? E ainda há o bergmaniano Sydow, o cara que fez O Setimo Selo e O Rosto ). Nota 4.
ENCONTRO COM HOMENS NOTÁVEIS de Peter Brook
Filme sobre a juventude de Gurdjieff. Gurdijieff foi um russo que se tornou um tipo de divulgador de crenças orientais alternativas. Brook como diretor de teatro é figura central do século XX, como pensador é um grande homem, mas como cineasta é um ambicioso, um ambicioso que nunca chega lá. O filme está muito abaixo de sua ambição. Nota 4.
CORAÇÕES DESEPERADOS de Jules Dassin com Melina Mercouri, Romy Schneider e Peter Finch
O MacCarthismo fez bem a Dassin ( e a Losey ). Esse americano começou como um excelente diretor de amargos policiais nos anos 40. Ao ser expulso da América renasceu europeu, passando a fazer filmes muito modernos e muito ousados na França, Inglaterra e Grécia. Foi na Grécia que ele conheceu Melina, sua esposa. Este filme, maravilhoso, é uma homenagem a sua musa. Vemos na Espanha um casal em crise viajando com sua filha adolescente, e também com a amante do marido, que vai junto. A esposa ( Melina ) sabe de tudo e se martiriza com a situação. O filme acompanha 24 horas dessa viagem, de Toledo a Madrid. Noite de chuva forte e manhã de sol. Para quem quer saber o que é um filme adulto, eis aqui sua chance. Os três atores se batem com sutileza e se vêem presos numa vida boba, sem desejo e sem coragem. A fotografia é um primor: os telhados da velha Toledo na chuva, a aparição do Espanhol foragido, as ruas com sombras e a cena belíssima do amanhecer no campo nú. Eu havia visto este filme na tv Bandeirantes aos 12 anos de idade e só o revi agora, mais de trinta anos depois. Os telhados à chuva e o rosto de Melina ficaram em mim como minhas primeiras imagens do que seja o tal "filme de arte". O final, ruas vazias ao sol do meio-dia é para não se deixar de ver. Jules Dassin era duca!!!! Nota 9.
FONTE DA VIDA de Darren Aronofski com Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn
As 3 encarnações de casal que se ama. Ou também a sabedoria de uma mulher agonizante que descobre que viver é aceitar a morte. Morte que é transformação. Aronofski sempre tem boas intenções, é um cineasta que se interessa pelo que importa. Mas ao mesmo tempo, como todos nós, ele é filho de seu meio. E americanos têm uma enorme dificuldade em lidar com símbolos. A pragmática e não-simbólica igreja americana os isolou desse universo inconsciente. Quando se metem a tentar penetrar nesse universo não-racional acabam explicando demais, expondo demais, iluminando em excesso. Budismo, Jung e neurociencia são tocadas, mas de uma forma que se aproxima perigosamente da new-age. Mas não deixa de ser um filme louvável. Fico apenas chateado ao pensar no que um Kubrick ou um Tarkovski fariam com esse tema. Nos extras, na entrevista com um dos roteiristas, vejo que há um poster de Kurosawa em sua sala... Aronofski tem essa coisa niponica da morte sempre presente, mas lhe falta um pouco mais de discrição, rigor, menos disneylandia. Nota 6.
Um grupo de soldados vai resgatar americanos em país africano. É um filme dos anos 80 com tintas de bom mocismo típicas dos anos 2000. A ação é banal e dá pra notar que Willis está desinteressado. Não é um filme ruim, é menos que isso. Nota 1.
O LABIRINTO DO FAUNO de Guillermo del Toro
Um filme infantil com cenas adultas. Tem um belo visual, mas a visão que ele tem da vida, seja politica seja sentimental, é de uma criança. Mas o filme não é sobre as fantasias de uma criança? Sim e não. Se fosse a visão de uma criança não teríamos certas cenas que traem um desencanto adulto. De qualquer modo, mesmo não sendo tão bom quanto alguns querem crer ( lhe falta densidade, há uma constante sensação de frustração nele ), é um filme interessante. Em alguns poucos momentos sente-se realmente o que é ser criança e viver nesse mundo dúbio, entre ver e intuir, pensar e sentir, criar e se conformar. Nota 6.
OLD BOY de Chanwook Park
Há um público gigantesco hoje que confunde apuro visual e ousadia superficial com arte. Vejam este exemplo: pega-se uma história simples, simplória até, e através de toda a perfumaria e maquiagem de modismos sem razão de ser, confunde-se tudo. Os tolos acreditarão nessa confusão com as "sacadas espertas" e o visual nervoso será chamado de "estilo". Necas! O filme é comum como qualquer porradaria de Charles Bronson ( prefiro Bronson ). Vazio, sem qualquer emoção, vive daquilo que George Lucas dizia:" É fácil criar sensação no cinema: pegue um gatinho e o esmague, eis a sensação-nojo e pena, revolta e asco; nada a ver com emoção". Old Boy é um lixo. Nota ZERO.
A ILHA DO MEDO de Martin Scorsese com Leonardo di Caprio, Ben Kingsley, Michelle Willians e Max Von Sydow
Frustrante. Quando descobrimos a verdade não nos sentimos surpresos, nos sentimos logrados. O roteiro é seu ponto ruim, e mesmo a direção de Scorsese, cheia de clima e de amor a seu tema trash, não consegue salva-lo. Os atores estão bem ( há algum ator hoje mais importante que Leo? E ainda há o bergmaniano Sydow, o cara que fez O Setimo Selo e O Rosto ). Nota 4.
ENCONTRO COM HOMENS NOTÁVEIS de Peter Brook
Filme sobre a juventude de Gurdjieff. Gurdijieff foi um russo que se tornou um tipo de divulgador de crenças orientais alternativas. Brook como diretor de teatro é figura central do século XX, como pensador é um grande homem, mas como cineasta é um ambicioso, um ambicioso que nunca chega lá. O filme está muito abaixo de sua ambição. Nota 4.
CORAÇÕES DESEPERADOS de Jules Dassin com Melina Mercouri, Romy Schneider e Peter Finch
O MacCarthismo fez bem a Dassin ( e a Losey ). Esse americano começou como um excelente diretor de amargos policiais nos anos 40. Ao ser expulso da América renasceu europeu, passando a fazer filmes muito modernos e muito ousados na França, Inglaterra e Grécia. Foi na Grécia que ele conheceu Melina, sua esposa. Este filme, maravilhoso, é uma homenagem a sua musa. Vemos na Espanha um casal em crise viajando com sua filha adolescente, e também com a amante do marido, que vai junto. A esposa ( Melina ) sabe de tudo e se martiriza com a situação. O filme acompanha 24 horas dessa viagem, de Toledo a Madrid. Noite de chuva forte e manhã de sol. Para quem quer saber o que é um filme adulto, eis aqui sua chance. Os três atores se batem com sutileza e se vêem presos numa vida boba, sem desejo e sem coragem. A fotografia é um primor: os telhados da velha Toledo na chuva, a aparição do Espanhol foragido, as ruas com sombras e a cena belíssima do amanhecer no campo nú. Eu havia visto este filme na tv Bandeirantes aos 12 anos de idade e só o revi agora, mais de trinta anos depois. Os telhados à chuva e o rosto de Melina ficaram em mim como minhas primeiras imagens do que seja o tal "filme de arte". O final, ruas vazias ao sol do meio-dia é para não se deixar de ver. Jules Dassin era duca!!!! Nota 9.
FONTE DA VIDA de Darren Aronofski com Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn
As 3 encarnações de casal que se ama. Ou também a sabedoria de uma mulher agonizante que descobre que viver é aceitar a morte. Morte que é transformação. Aronofski sempre tem boas intenções, é um cineasta que se interessa pelo que importa. Mas ao mesmo tempo, como todos nós, ele é filho de seu meio. E americanos têm uma enorme dificuldade em lidar com símbolos. A pragmática e não-simbólica igreja americana os isolou desse universo inconsciente. Quando se metem a tentar penetrar nesse universo não-racional acabam explicando demais, expondo demais, iluminando em excesso. Budismo, Jung e neurociencia são tocadas, mas de uma forma que se aproxima perigosamente da new-age. Mas não deixa de ser um filme louvável. Fico apenas chateado ao pensar no que um Kubrick ou um Tarkovski fariam com esse tema. Nos extras, na entrevista com um dos roteiristas, vejo que há um poster de Kurosawa em sua sala... Aronofski tem essa coisa niponica da morte sempre presente, mas lhe falta um pouco mais de discrição, rigor, menos disneylandia. Nota 6.
PLATAFORMA- MICHEL HOUELLEBECQ
Ninguém é mais quente na França hoje que Houellebecq. Aos 54 anos, ele é o cara. Tem até um disco do Iggy Pop que homenageia seus livros. Plataforma fala de um funcionário público francês, chamado Michel, que pensa em sexo e sexo e às vezes em seu vazio. Ele conhece uma executiva bem sucedida e juntos eles fazem sexo e sexo e sexo. Ela trabalha com turismo. Eles vão à Tailândia. E fazem sexo e sexo e sexo. Mas porque Houellebecq é tão famoso?
As cenas de sexo são escritas como por um adolescente. Felação, sodomia, sadomasoquismo, bissexualismo, ménage à trois.... tudo aquilo que se tornou banal. Dá pra se notar que Michel leu Henry Miller e Bukowski. Mas ao contrário dos dois americanos, o ambiente é de grana, muita grana.
Houellebecq é famoso por ter a "coragem" de dizer o que pensa. Mas até que ponto isso não é calculado? Ele mira nos franceses, lugar onde todos se tornaram administradores burocráticos. Os italianos, o povo mais previsivel do mundo. Espanhóis, perigosos e ambiciosos. Americanos, puritanos e militaristas. Japoneses, um povo de gente ruim. São Paulo é descrita como uma cidade onde os carros são blindados, os bandidos te matam na rua com fuzis militares, ricos vivem ilhados sem jamais pisar na rua e a cidade é na verdade de bandidos, prostitutas e miseráveis. ( Ele descreve Paris como cidade de gangues e estupros ). A conclusão de Houellebecq: o mundo terminou. O capitalismo é o máximo a que o homem pode chegar, ou seja, este mundo de barulho e trânsito ruim, de solidão e sujeira é o céu do capitalismo. Os europeus, povo que nada sabe fazer de útil, vive apenas para viajar e morrer de tédio. Um europeu, segundo Houellebecq, se deixado sózinho em mundo destruído, nada saberia fazer de bom. Seria incapaz de plantar, de caçar, de construir uma casa ou de fabricar ferramentas. É um povo que vive cercado de seu glorioso passado, mas que no hoje e agora é absolutamente patético.
Mas as coisas não são melhores fora da Europa ( apenas mais reais ). No oriente ( Tailândia, Vietnã e Cambodja ) pelo menos ainda se faz sexo direito. Pois os europeus e americanos, mortos em seu desejo sempre satisfeito e sempre incompleto, perderam o interesse por sexo. Não sabem dar, porque vivem em egoísmo narcísico, e não sabem receber, orgulhosos que são. O sexo entre eles se tornou apenas um exercício higiênico. Daí a paixão pelas viagens. Na verdade o que o europeu quer ao viajar é encontrar sexo de verdade, sexo no terceiro mundo, mundo onde as mulheres ainda se submetem ao seu macho e onde as européias encontram homens que ainda pensam em se arriscar. Ilusão. Para esses seres do terceiro mundo um europeu é uma nota de euro. Já estão corrompidos, vendem o corpo por não ter mais nada a vender. ( E aqui ele faz um adendo interessante: Nike, Adidas, Vuitton, Chanel... são marcas que devem seu valor ao terceiro mundo. É no Brasil e na Costa Rica que se vê essas marcas como coisa de primeiro mundo. )
No mundo de Houellebecq, de todos esses virus, nada é pior que o islamismo. Ele chega a dizer que "não existe muçulmano que não seja um boçal", e os poucos que se salvam são ex-muçulmanos. Uma religião que começa por dizer "Deus é único e único é meu Deus", não dá espaço algum para a dúvida, a reflexão ou a criação humana. Houellebecq vê no catolicismo uma religião bastante mais humana, com sua trindade, santos, anjos e mártires, catolicismo que dá margem para a dúvida, a heresia e a complexidade. Ele fala do fato de o islã ter aniquilado a cultura do Egito e do Irã e não por acaso, o livro termina com ataque terrorista islâmico.
A melhor tirada de Houellebecq, e que justifica o livro, é aquela em que ele diz que o mal sempre existiu. Mas que os habitantes da Europa de 1700, por exemplo, sofriam e morriam, matavam e eram cruéis, mas ao mesmo tempo eles amavam aquela vida, aquela perspectiva, ilusória ou não, de se estar construindo algo de melhor para o futuro. Tinham amor a vida que era possível viver. Hoje detestamos o ambiente em que vivemos, o mundo em que existimos, a vida que nos obrigam a levar. Duvidamos do valor do futuro, nada há que mereça nosso sacrificio, nosso amor ou nossa fé. O que nos resta é nos fecharmos em casa, cheios de drogas ou vinhos finos, filmes e jogos, e sexo sexo sexo e sexo. O que nos rodeia só nos toca em situação extrema ( tragédias ), pois no dia a dia nada nos interessa.
Há como discordar?
As cenas de sexo são escritas como por um adolescente. Felação, sodomia, sadomasoquismo, bissexualismo, ménage à trois.... tudo aquilo que se tornou banal. Dá pra se notar que Michel leu Henry Miller e Bukowski. Mas ao contrário dos dois americanos, o ambiente é de grana, muita grana.
Houellebecq é famoso por ter a "coragem" de dizer o que pensa. Mas até que ponto isso não é calculado? Ele mira nos franceses, lugar onde todos se tornaram administradores burocráticos. Os italianos, o povo mais previsivel do mundo. Espanhóis, perigosos e ambiciosos. Americanos, puritanos e militaristas. Japoneses, um povo de gente ruim. São Paulo é descrita como uma cidade onde os carros são blindados, os bandidos te matam na rua com fuzis militares, ricos vivem ilhados sem jamais pisar na rua e a cidade é na verdade de bandidos, prostitutas e miseráveis. ( Ele descreve Paris como cidade de gangues e estupros ). A conclusão de Houellebecq: o mundo terminou. O capitalismo é o máximo a que o homem pode chegar, ou seja, este mundo de barulho e trânsito ruim, de solidão e sujeira é o céu do capitalismo. Os europeus, povo que nada sabe fazer de útil, vive apenas para viajar e morrer de tédio. Um europeu, segundo Houellebecq, se deixado sózinho em mundo destruído, nada saberia fazer de bom. Seria incapaz de plantar, de caçar, de construir uma casa ou de fabricar ferramentas. É um povo que vive cercado de seu glorioso passado, mas que no hoje e agora é absolutamente patético.
Mas as coisas não são melhores fora da Europa ( apenas mais reais ). No oriente ( Tailândia, Vietnã e Cambodja ) pelo menos ainda se faz sexo direito. Pois os europeus e americanos, mortos em seu desejo sempre satisfeito e sempre incompleto, perderam o interesse por sexo. Não sabem dar, porque vivem em egoísmo narcísico, e não sabem receber, orgulhosos que são. O sexo entre eles se tornou apenas um exercício higiênico. Daí a paixão pelas viagens. Na verdade o que o europeu quer ao viajar é encontrar sexo de verdade, sexo no terceiro mundo, mundo onde as mulheres ainda se submetem ao seu macho e onde as européias encontram homens que ainda pensam em se arriscar. Ilusão. Para esses seres do terceiro mundo um europeu é uma nota de euro. Já estão corrompidos, vendem o corpo por não ter mais nada a vender. ( E aqui ele faz um adendo interessante: Nike, Adidas, Vuitton, Chanel... são marcas que devem seu valor ao terceiro mundo. É no Brasil e na Costa Rica que se vê essas marcas como coisa de primeiro mundo. )
No mundo de Houellebecq, de todos esses virus, nada é pior que o islamismo. Ele chega a dizer que "não existe muçulmano que não seja um boçal", e os poucos que se salvam são ex-muçulmanos. Uma religião que começa por dizer "Deus é único e único é meu Deus", não dá espaço algum para a dúvida, a reflexão ou a criação humana. Houellebecq vê no catolicismo uma religião bastante mais humana, com sua trindade, santos, anjos e mártires, catolicismo que dá margem para a dúvida, a heresia e a complexidade. Ele fala do fato de o islã ter aniquilado a cultura do Egito e do Irã e não por acaso, o livro termina com ataque terrorista islâmico.
A melhor tirada de Houellebecq, e que justifica o livro, é aquela em que ele diz que o mal sempre existiu. Mas que os habitantes da Europa de 1700, por exemplo, sofriam e morriam, matavam e eram cruéis, mas ao mesmo tempo eles amavam aquela vida, aquela perspectiva, ilusória ou não, de se estar construindo algo de melhor para o futuro. Tinham amor a vida que era possível viver. Hoje detestamos o ambiente em que vivemos, o mundo em que existimos, a vida que nos obrigam a levar. Duvidamos do valor do futuro, nada há que mereça nosso sacrificio, nosso amor ou nossa fé. O que nos resta é nos fecharmos em casa, cheios de drogas ou vinhos finos, filmes e jogos, e sexo sexo sexo e sexo. O que nos rodeia só nos toca em situação extrema ( tragédias ), pois no dia a dia nada nos interessa.
Há como discordar?
CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS E POÉTICAS SOBRE UM VIDEO TOSCO QUE EXIBE A MELHOR MÚSICA DO PLANETA TERRA.
Eles são magros. Muito magros. E jogam bola. A gente logo percebe então: São magros porque é uma época sem hamburger e sem salgadinhos de pacote. Mais: de feijão com bife e sem supermercados. Nas roupas com que jogam bola não há uma só marca: sem grife nenhuma e sem tênis. É bola e pé. No que eles gastavam dinheiro? Não havia celular, internet, tv a cabo, pay per view, plano de saúde, seguro do carro, show caro de artista barato... no que se gastava dinheiro? Que dinheiro? Eles não tinham dinheiro e não trabalhavam em dois empregos pra pagar a nova tv 3D. Jogavam bola e tiravam um som.
Amigos que não vão em balada. Simplesmente se encontram pra jogar bola e fumar um. E fazer um som. Não há qualquer idéia de se construir uma carreira. Não se pensa em música como um emprego, um meio de vida. Faz-se música. Simples assim. O que vier é acidente, não meta. Pensamentos magros em gente magra. Música magra. Portanto, leve. Amigos fazendo um som. E esse som nasce sem um objetivo. Ele reflete apenas, reflete o som que seus avôs ouviam no rádio na hora de se levantar pra fazer o café. Misturado com o som das festas do campo e da praia. E com um toque de discos novos comprados na hora. Mas tudo misturado como peixada, como batida pra beber, como feijoada. Pra dar gosto, pra dar prazer, pra ser encontro. E mesmo com tanta mistura, magro, leve, simples, virtuoso.
Toda música devia ser uma fruta no pé. Uma grama pra jogar. Um gol em meta de paus velhos e tortos, mal medidos. Uma folia de camisetas sujas e de mistureba de times. E a música vem amistosa, doce, com gosto de goiabada com queijo e cheiro de bolo de fubá. E quando ela desliza ela é rio, e quando ela canta ela voa. É uma manhã onde tudo é certo e bom, onde eu me canto, e onde as ruas são sóis vagabundos. A barca corre, a vida corre e nada morre. E eu ia lhe chamar enquanto corria a barca...
Eu ia, eu fui, eu continuo a te chamar, vida.
Os caras magros jogam bola e fazem música e viver ainda me apaixona. Eta música boa demais que eu ouço faz tanto tempo!!!!!!!!!
Amigos que não vão em balada. Simplesmente se encontram pra jogar bola e fumar um. E fazer um som. Não há qualquer idéia de se construir uma carreira. Não se pensa em música como um emprego, um meio de vida. Faz-se música. Simples assim. O que vier é acidente, não meta. Pensamentos magros em gente magra. Música magra. Portanto, leve. Amigos fazendo um som. E esse som nasce sem um objetivo. Ele reflete apenas, reflete o som que seus avôs ouviam no rádio na hora de se levantar pra fazer o café. Misturado com o som das festas do campo e da praia. E com um toque de discos novos comprados na hora. Mas tudo misturado como peixada, como batida pra beber, como feijoada. Pra dar gosto, pra dar prazer, pra ser encontro. E mesmo com tanta mistura, magro, leve, simples, virtuoso.
Toda música devia ser uma fruta no pé. Uma grama pra jogar. Um gol em meta de paus velhos e tortos, mal medidos. Uma folia de camisetas sujas e de mistureba de times. E a música vem amistosa, doce, com gosto de goiabada com queijo e cheiro de bolo de fubá. E quando ela desliza ela é rio, e quando ela canta ela voa. É uma manhã onde tudo é certo e bom, onde eu me canto, e onde as ruas são sóis vagabundos. A barca corre, a vida corre e nada morre. E eu ia lhe chamar enquanto corria a barca...
Eu ia, eu fui, eu continuo a te chamar, vida.
Os caras magros jogam bola e fazem música e viver ainda me apaixona. Eta música boa demais que eu ouço faz tanto tempo!!!!!!!!!
PECKIMPAH/ WILLIAM WYLER/ GREGORY PECK/ YOSHIDA/ JAMES COBURN
MAJOR DUNDEE de Sam Peckimpah com Charlton Heston e James Coburn
O grande Peckimpah teve problemas sérios com os produtores ao fazer este filme. A gente percebe que ele não está a vontade, que falta alguma coisa. Mesmo assim é um western diferente, crispado. Trata de comandante do norte ( estamos em 1865 ) que obriga prisioneiros do sul a acompanhá-lo em perseguição de vingança contra apaches. Adentram o México e por aí vai. Richard Harris não compromete como um confederado e Heston, justiça seja feita, sempre foi bom ator. Coburn é um guia meio indio meio drunk, eu adoraria que ele tivesse feito mais filmes, eu adoraria que ele fosse Wolverine ou Nick Fury. Nota 6.
DA TERRA NASCEM OS HOMENS de William Wyler com Gregory Peck, Jean Simmons, Charlton Heston e Burl Ives
Um fato: nenhum diretor é melhor que Wyler. Alguns são mais "artistas", mas ninguém dirige melhor que ele. Nunca vi um filme ruim feito por esse alemão emigrado ( e já vi 16 ) e é ele o recordista, para sempre, de indicações os Oscar ( em vitórias só perde para John Ford ). Na era de Hitchcock, Hawks, Huston, Welles, Anthony Mann, Billy Wilder e George Cukor, Wyler era o verdadeiro rei. Aqui temos um soberbo western. Peck, com autoridade, faz um homem da cidade. Culto e da paz. Indo ao sul para se casar com filha de barão do gado, ele acaba se envolvendo nas lutas e trapaças do seu futuro sogro. O filme é um testemunho contra a violencia e a favor da inteligencia. Peck deve satisfações só a si-mesmo, é virtuoso, modesto. Heston é seu oposto, é só impulso e raiva. Este é o tipo de filme que mais sinto falta, cinema que é diversão popular e também arte refinada, respeita seu público. Sem afetação nenhuma. A trilha sonora é histórica, uma das melhores da história do cinema em qualquer época ou nação. Gregory Peck nasceu para encarnar o herói que os americanos gostariam de ter como lider. O filme é excelente. Nota 9.
OS MANUSCRITOS DE ZARAGOZA de Wojciech Has
Martin Scorsese e Coppolla bancaram a restauração deste clássico do cinema polonês. Houve um breve momento, entre 1960/1968 em que o cinema do leste europeu, gozando de relativa liberdade, foi o mais instigante e corajoso do mundo. Tchecos, húngaros, poloneses e iugoslavos fizeram filmes livres, sem regras definidas, otimistas e maravilhosamente criativos. Este é um tipo de obra-prima underground. Com mais de três horas, dividido em três blocos, ele fala de cavaleiro que se perde entre o mundo real e mágico, terrivel e sedutor, na Espanha de 1804. A primeira parte é uma obra-prima do horror. Cenários que parecem ter saido de um sonho ruim e cenas que se fixam e se desvanecem em delirio de inconsciencia. Feitiçaria e livros. Tudo com sensualidade ( o cinema do leste era o mais sensual da época ). Na segunda parte o filme cai um pouco e se faz uma quase comédia. E na parte final temos a volta da confusão onirica e de sua obssessiva beleza. Quando ele se encerra, queremos repetir a dose. Muito do cinema que se tenta fazer hoje já está aqui. Inspirador e um exercicio de liberdade em cinema. Nota 9.
MARKETA LAZAROVA de Frantisek Vlácil
É anunciado como o maior filme tcheco da história. Desconfio. Ou talvez seja o maior em tamanho ( quatro horas ). É sim, o filme mais violento que já assisti. Sua violencia é menor que a de qualquer policial de hoje, mas por parecer verdadeira, dolorosa, sem glamour, ela choca muito. O filme parece um documentário sobre a violencia na idade média feito em plena época. É como se alguém tivesse nos levado para dentro de um pesadelo de sangue e dor constante. Hoje eu sei que a idade média não foi assim. Esta é a visão século XX do que seria a idade média. Tudo errado. A era de Carlos Magno e de Henrique III foi época de religião, de sentimentos soltos, de exageros, mas não de bárbaros carniceiros como aqui se mostra. O filme é terrivelmente desagradável. Nota 2.
EROS + MASSACRE de Yoshishe Yoshida
A vida de um anarquista e libertino japonês contada em 4 horas e em várias épocas distintas. O filme, feito em 1970, espelha a época em que foi feito. O Japão de então vivia um tempo de convulsão social, terrorismo, violência de opiniões e de atos. O filme tem todos os tiques estilosos desse tempo: câmera na mão, atuações distanciadas, frases de revolução, anti-espetáculo, brechtianismos. E cenas de sexo bastante fortes. Quase incompreensível, ele sobrevive como momento único de juventude e anarquismo plenos. Adolescência. Sua fé é: Viva a revolução, é proibido proibir e sexo livre. Nota 5.
O grande Peckimpah teve problemas sérios com os produtores ao fazer este filme. A gente percebe que ele não está a vontade, que falta alguma coisa. Mesmo assim é um western diferente, crispado. Trata de comandante do norte ( estamos em 1865 ) que obriga prisioneiros do sul a acompanhá-lo em perseguição de vingança contra apaches. Adentram o México e por aí vai. Richard Harris não compromete como um confederado e Heston, justiça seja feita, sempre foi bom ator. Coburn é um guia meio indio meio drunk, eu adoraria que ele tivesse feito mais filmes, eu adoraria que ele fosse Wolverine ou Nick Fury. Nota 6.
DA TERRA NASCEM OS HOMENS de William Wyler com Gregory Peck, Jean Simmons, Charlton Heston e Burl Ives
Um fato: nenhum diretor é melhor que Wyler. Alguns são mais "artistas", mas ninguém dirige melhor que ele. Nunca vi um filme ruim feito por esse alemão emigrado ( e já vi 16 ) e é ele o recordista, para sempre, de indicações os Oscar ( em vitórias só perde para John Ford ). Na era de Hitchcock, Hawks, Huston, Welles, Anthony Mann, Billy Wilder e George Cukor, Wyler era o verdadeiro rei. Aqui temos um soberbo western. Peck, com autoridade, faz um homem da cidade. Culto e da paz. Indo ao sul para se casar com filha de barão do gado, ele acaba se envolvendo nas lutas e trapaças do seu futuro sogro. O filme é um testemunho contra a violencia e a favor da inteligencia. Peck deve satisfações só a si-mesmo, é virtuoso, modesto. Heston é seu oposto, é só impulso e raiva. Este é o tipo de filme que mais sinto falta, cinema que é diversão popular e também arte refinada, respeita seu público. Sem afetação nenhuma. A trilha sonora é histórica, uma das melhores da história do cinema em qualquer época ou nação. Gregory Peck nasceu para encarnar o herói que os americanos gostariam de ter como lider. O filme é excelente. Nota 9.
OS MANUSCRITOS DE ZARAGOZA de Wojciech Has
Martin Scorsese e Coppolla bancaram a restauração deste clássico do cinema polonês. Houve um breve momento, entre 1960/1968 em que o cinema do leste europeu, gozando de relativa liberdade, foi o mais instigante e corajoso do mundo. Tchecos, húngaros, poloneses e iugoslavos fizeram filmes livres, sem regras definidas, otimistas e maravilhosamente criativos. Este é um tipo de obra-prima underground. Com mais de três horas, dividido em três blocos, ele fala de cavaleiro que se perde entre o mundo real e mágico, terrivel e sedutor, na Espanha de 1804. A primeira parte é uma obra-prima do horror. Cenários que parecem ter saido de um sonho ruim e cenas que se fixam e se desvanecem em delirio de inconsciencia. Feitiçaria e livros. Tudo com sensualidade ( o cinema do leste era o mais sensual da época ). Na segunda parte o filme cai um pouco e se faz uma quase comédia. E na parte final temos a volta da confusão onirica e de sua obssessiva beleza. Quando ele se encerra, queremos repetir a dose. Muito do cinema que se tenta fazer hoje já está aqui. Inspirador e um exercicio de liberdade em cinema. Nota 9.
MARKETA LAZAROVA de Frantisek Vlácil
É anunciado como o maior filme tcheco da história. Desconfio. Ou talvez seja o maior em tamanho ( quatro horas ). É sim, o filme mais violento que já assisti. Sua violencia é menor que a de qualquer policial de hoje, mas por parecer verdadeira, dolorosa, sem glamour, ela choca muito. O filme parece um documentário sobre a violencia na idade média feito em plena época. É como se alguém tivesse nos levado para dentro de um pesadelo de sangue e dor constante. Hoje eu sei que a idade média não foi assim. Esta é a visão século XX do que seria a idade média. Tudo errado. A era de Carlos Magno e de Henrique III foi época de religião, de sentimentos soltos, de exageros, mas não de bárbaros carniceiros como aqui se mostra. O filme é terrivelmente desagradável. Nota 2.
EROS + MASSACRE de Yoshishe Yoshida
A vida de um anarquista e libertino japonês contada em 4 horas e em várias épocas distintas. O filme, feito em 1970, espelha a época em que foi feito. O Japão de então vivia um tempo de convulsão social, terrorismo, violência de opiniões e de atos. O filme tem todos os tiques estilosos desse tempo: câmera na mão, atuações distanciadas, frases de revolução, anti-espetáculo, brechtianismos. E cenas de sexo bastante fortes. Quase incompreensível, ele sobrevive como momento único de juventude e anarquismo plenos. Adolescência. Sua fé é: Viva a revolução, é proibido proibir e sexo livre. Nota 5.
WILLIAM BUTLER YEATS ( EM TEMPOS DE LAMA E DE GOTAS DE CHUVA )
...e nada vem como despreparo e tudo é um anúncio que é urdido ao mesmo tempo do que se foi antes. Ouço a voz de William Butler Yeats e vejo a pedra de sua tumba ao lado de sua esposa tardia. Cruz de São Patricio e entardecer celta e pedras sobre um verde que nunca se abala. Quando voce for velha eu já terei sido pó e minha passagem estará perdida? Nesta tela sem verde e sem frio e sem vela eu vejo a pedra onde se escreve o nome, William Butler Yeats. E sua voz lê, agora e ontem, Velejando a Bizâncio. Eu velejo. Para sempre.
Máscaras e Budas e Islã e ruínas de Portugal. O Japão é outra vez testado ( quantas mais? ) e outra vez se absorve em si para renascer em círculo infindo. Cantos de aborígenes, passos de hindus, o que me leva são os ilhados em terra e livres, sempre, em si. William Butler Yeats é meu xamã e surge, infalivelmente nas encruzilhadas de minha velejada. Quando a água escorre e a lama traz a promessa de um Adão. Renascer.
A vida é reta, eu desconheço seu circulo, mas isso não impede que eu lute por me encircular. Seios são redondos. Nada reto nos pode seduzir com suavidade. Serei mais virtuoso? Careço de coragem, de doçura, de gentileza. Mas sou fiel, sou devoto do amor e sei o justo preço do humor. E a compaixão é o emblema que trago em meu escudo. Compaixão ao que sofre e se vai.
Um animal morto sou eu que me morro ( é isso que os janistas crêem, pasmem, eu sempre senti-me assim ), um cão abandonado sou eu que me abandono-me. Quando o tigre sumir sou eu que me sumirei. E cada árvore morta eu morto estou mais um pouco. ( E cada nascimento eu nasço outra vez ). William Butler Yeats anuncia-me, anunciou-me, guarda-me, cantará.
Aborigenes pensam que o mundo foi criado em cantos. Que para uma pedra ou um pássaro existir ele precisa ser cantado. Assim, eles andam pelo deserto sem se perder, pois eles ouvem e sabem a canção de cada rastro, de cada monte, de cada réptil. E cada um deles é responsável pelo seu canto, canto que dá vida e mantém a vida de cada coisa e bicho. E eu te digo: O que esta atual civilização criou que se compare a riquesa dessa crença? Pois no ser que canta uma pedra e que se faz responsável por essa pedra e assim responsável por todos aqueles que cantam essa mesma pedra, eu digo, esse aborigene prescende de policia, de psiquiatra, de juiz e de bordel. Ele existe com seu meio e não apesar de seu meio.
William Butler Yeats foi o primeiro a me iniciar. E eu só com ele percebi que o que parece ser normalmente não é e o que nada anuncia pode ser tudo o que voce pergunta. Nuvens alardeiam seu relâmpago, mas existem algumas que apenas chovem. Nossa civilização é a do relâmpago. Eu amo a Irlanda, o Japão e Portugal. E mesmo os lusitanos vivem numa ilha. Três países sempre próximos do fim, de imigrantes e de fome e de sonho. Contidos, voltados para dentro do âmago, pedregosos e de solo ruim, calados no matraqueio do mundo. Ilhados como beduinos e como ciganos estão.
Na manhã em que me desviei do caminho à escola e penetrei na trilha de meus cantos secretos, onde lama e ratos viviam com meus livros de páginas amareladas, nas noites em que iluminava o nada com uma vela e me cegava com versos, nas tardes de música e de amor dado para ninguém e por isso para tudo, eu digo, quando meus pés conheceram as pegadas que me eram dadas, eu desentendi a reta e me afastei da roda. E então toda a mente podia ser uma formiga andando a minha frente. Pensei-me louco, criado em iluminismo pensei-me mal. William Butler Yeats de sua ilha fez-me ver inteiro. Por mais ruins e banais que minhas imagens sejam, eu trilho a trilha dele e deles todos antes. Questão de grau, de talento, mas a ilha é aquela também.
O mundo gira, o eixo fica. As ilhas permanecem.
Máscaras e Budas e Islã e ruínas de Portugal. O Japão é outra vez testado ( quantas mais? ) e outra vez se absorve em si para renascer em círculo infindo. Cantos de aborígenes, passos de hindus, o que me leva são os ilhados em terra e livres, sempre, em si. William Butler Yeats é meu xamã e surge, infalivelmente nas encruzilhadas de minha velejada. Quando a água escorre e a lama traz a promessa de um Adão. Renascer.
A vida é reta, eu desconheço seu circulo, mas isso não impede que eu lute por me encircular. Seios são redondos. Nada reto nos pode seduzir com suavidade. Serei mais virtuoso? Careço de coragem, de doçura, de gentileza. Mas sou fiel, sou devoto do amor e sei o justo preço do humor. E a compaixão é o emblema que trago em meu escudo. Compaixão ao que sofre e se vai.
Um animal morto sou eu que me morro ( é isso que os janistas crêem, pasmem, eu sempre senti-me assim ), um cão abandonado sou eu que me abandono-me. Quando o tigre sumir sou eu que me sumirei. E cada árvore morta eu morto estou mais um pouco. ( E cada nascimento eu nasço outra vez ). William Butler Yeats anuncia-me, anunciou-me, guarda-me, cantará.
Aborigenes pensam que o mundo foi criado em cantos. Que para uma pedra ou um pássaro existir ele precisa ser cantado. Assim, eles andam pelo deserto sem se perder, pois eles ouvem e sabem a canção de cada rastro, de cada monte, de cada réptil. E cada um deles é responsável pelo seu canto, canto que dá vida e mantém a vida de cada coisa e bicho. E eu te digo: O que esta atual civilização criou que se compare a riquesa dessa crença? Pois no ser que canta uma pedra e que se faz responsável por essa pedra e assim responsável por todos aqueles que cantam essa mesma pedra, eu digo, esse aborigene prescende de policia, de psiquiatra, de juiz e de bordel. Ele existe com seu meio e não apesar de seu meio.
William Butler Yeats foi o primeiro a me iniciar. E eu só com ele percebi que o que parece ser normalmente não é e o que nada anuncia pode ser tudo o que voce pergunta. Nuvens alardeiam seu relâmpago, mas existem algumas que apenas chovem. Nossa civilização é a do relâmpago. Eu amo a Irlanda, o Japão e Portugal. E mesmo os lusitanos vivem numa ilha. Três países sempre próximos do fim, de imigrantes e de fome e de sonho. Contidos, voltados para dentro do âmago, pedregosos e de solo ruim, calados no matraqueio do mundo. Ilhados como beduinos e como ciganos estão.
Na manhã em que me desviei do caminho à escola e penetrei na trilha de meus cantos secretos, onde lama e ratos viviam com meus livros de páginas amareladas, nas noites em que iluminava o nada com uma vela e me cegava com versos, nas tardes de música e de amor dado para ninguém e por isso para tudo, eu digo, quando meus pés conheceram as pegadas que me eram dadas, eu desentendi a reta e me afastei da roda. E então toda a mente podia ser uma formiga andando a minha frente. Pensei-me louco, criado em iluminismo pensei-me mal. William Butler Yeats de sua ilha fez-me ver inteiro. Por mais ruins e banais que minhas imagens sejam, eu trilho a trilha dele e deles todos antes. Questão de grau, de talento, mas a ilha é aquela também.
O mundo gira, o eixo fica. As ilhas permanecem.
VISLUMBRES DA INDIA- OCTAVIO PAZ
O mexicano Octavio Paz escreveu este pequeno e precioso livro em 1994. No ano seguinte venceria o Nobel, um dos mais justos laureados dos últimos 30 anos. Principalmente poeta, Paz é também um excelente cronista, historiador, narrador e filósofo. Aqui ele conta sua experiência indiana, país onde ele viveu por oito anos, como diplomata.
Começa falando da aparência visual da India. Cores e a arquitetura "musical" do país. E logo ele envereda pelo fato de que a India não existe como nação, não na forma como conhecemos. São centenas de línguas, milhares de divindades e as divisões internas em castas. Paz nos informa do porque das castas e faz com que não as condenemos preconceituosamente. Mérito de grandes mentes, Octavio Paz se aproxima de tudo com curiosidade pura, sem antecipações e sem ares de entendido. A India é uma criação inglesa. Antes da colonização, a ideia de nação não existia no continente. ( De passagem ele nos fala da ideia de América. Os EUA como nação criada pela força e pela ideia de um grupo de homens. Único país criado pela razão e sem passado. Nasce em 4 de julho de 1776. Todas as outras nações são desenvolvimentos da história. E penso no Brasil, nunca fundado e nunca nascido. Um país que nunca enterra passado nenhum, que se fez como continuação da monarquia lusitana, como continuação da Africa negra, um país que jamais rompe com nada, jamais funda coisa alguma. País sem história porque vive numa reta onde o passado não é seu, e onde o futuro é de outro. Sono eterno.)
A melhor parte do livro de Paz se inicia quando ele faz uma comparação da culinária mexicana e da indiana. A cozinha ocidental é um passar de pratos, um trem, uma reta, prato após prato até a sobremesa. A culinária indiana é um círculo: doce e salgado, azedo e refrescante, tudo misturado no mesmo prato. São duas visões de mundo: a ocidental, sempre cristã, que vê o mundo como reta, um começo ( seja Adão e Eva ou o big bang ) um meio ( o agora ) e um fim ( seja o apocalipse, seja o progresso ). Tudo no ocidente é retilineo, um agora que pressupôe ontem e que anuncia amanhã. Na India não havia história. Historiadores e figuras da história, datas de acontecimentos, isso só começa a acontecer a partir da dominação ocidental. Para os indianos, o tempo era uma roda, o amanhã será como ontem que é como hoje. A única forma de sair desse eterno agora é rompendo o circulo dos carmas, se fazendo sábio. Mas Octavio Paz, embora entenda o pessimismo budista ( a forma de pensamento mais racional possível, religião desprovida do milagre e de deuses ), embora estude e admire o hinduismo ( religião onde não existe a culpa e onde o sexo é um dos caminhos para a sabedoria, desde que seja feito sem egocentrismo ), ele não se esquece do islã, religião que foi a primeira a mudar o pensamento indiano, pois no islã o tempo é reto e tem começo e fim, o Deus é único e os infiéis são desprezados.
Paz fala de Ghandi com amor, mas não esquecendo seus erros. E nos conta algumas histórias de Krishna nos revelando a visão completamente desprendida que o hinduismo tem do sexo. O corpo visto como um caminho para o prazer, e o prazer como uma possibilidade de iluminação. Sexo no ocidente sendo posse, e na India, prazer. No Kama-Sutra a mulher se faz ativa e masculina, o homem se torna passivo e feminino, daí advindo a não-violação, a não-disputa, a ausência de violência.
E o livro fala do choque que os indianos tiveram ao conhecer os cristãos, um povo ansioso, preso ao passado e ao futuro, que não cessa de fazer coisas, de falar e falar e crê que o tempo existe e é de ouro. Mas esses ocidentais têm algo que sempre fascinou os indianos: ciência. A ciência não no sentido de produção e não no sentido filosófico, mas a matemática. A catalogação, a contagem, a observação fria, a abstração ( não por acaso foram eles que criaram o conceito do zero ). O hindu, sem perder sua circulariedade, sente-se em casa quando lida com a abstração do número. País enigma: sexo e karma, sujeira e refinamento, violência religiosa e desapego, sorrisos e indiferença a dor alheia ( caridade, um conceito cristão ausente nas ruas da India ).
Ao final do livro, Paz transcreve doze poemas clássicos indianos. Todos são eróticos. O corpo da amada como via de acesso ao prazer puro. E o ato sexual como esvaziamento do ego e crescimento do ser. Pobreza do ocidente: Octavio Paz percebe que uma cultura baseada na reta, no tempo que passa, no lembrar o que se foi e antecipar o que não é, leva necessariamente ao não-presente. O agora deixa de existir e de poder ser usufruido. O sexo se torna então um passado a ser chorado ou um futuro idealizado.
Como circulo de tempo, este texto, simples e belo, rico e sintético, não se esgota. É então dever de qualquer um lê-lo.
Começa falando da aparência visual da India. Cores e a arquitetura "musical" do país. E logo ele envereda pelo fato de que a India não existe como nação, não na forma como conhecemos. São centenas de línguas, milhares de divindades e as divisões internas em castas. Paz nos informa do porque das castas e faz com que não as condenemos preconceituosamente. Mérito de grandes mentes, Octavio Paz se aproxima de tudo com curiosidade pura, sem antecipações e sem ares de entendido. A India é uma criação inglesa. Antes da colonização, a ideia de nação não existia no continente. ( De passagem ele nos fala da ideia de América. Os EUA como nação criada pela força e pela ideia de um grupo de homens. Único país criado pela razão e sem passado. Nasce em 4 de julho de 1776. Todas as outras nações são desenvolvimentos da história. E penso no Brasil, nunca fundado e nunca nascido. Um país que nunca enterra passado nenhum, que se fez como continuação da monarquia lusitana, como continuação da Africa negra, um país que jamais rompe com nada, jamais funda coisa alguma. País sem história porque vive numa reta onde o passado não é seu, e onde o futuro é de outro. Sono eterno.)
A melhor parte do livro de Paz se inicia quando ele faz uma comparação da culinária mexicana e da indiana. A cozinha ocidental é um passar de pratos, um trem, uma reta, prato após prato até a sobremesa. A culinária indiana é um círculo: doce e salgado, azedo e refrescante, tudo misturado no mesmo prato. São duas visões de mundo: a ocidental, sempre cristã, que vê o mundo como reta, um começo ( seja Adão e Eva ou o big bang ) um meio ( o agora ) e um fim ( seja o apocalipse, seja o progresso ). Tudo no ocidente é retilineo, um agora que pressupôe ontem e que anuncia amanhã. Na India não havia história. Historiadores e figuras da história, datas de acontecimentos, isso só começa a acontecer a partir da dominação ocidental. Para os indianos, o tempo era uma roda, o amanhã será como ontem que é como hoje. A única forma de sair desse eterno agora é rompendo o circulo dos carmas, se fazendo sábio. Mas Octavio Paz, embora entenda o pessimismo budista ( a forma de pensamento mais racional possível, religião desprovida do milagre e de deuses ), embora estude e admire o hinduismo ( religião onde não existe a culpa e onde o sexo é um dos caminhos para a sabedoria, desde que seja feito sem egocentrismo ), ele não se esquece do islã, religião que foi a primeira a mudar o pensamento indiano, pois no islã o tempo é reto e tem começo e fim, o Deus é único e os infiéis são desprezados.
Paz fala de Ghandi com amor, mas não esquecendo seus erros. E nos conta algumas histórias de Krishna nos revelando a visão completamente desprendida que o hinduismo tem do sexo. O corpo visto como um caminho para o prazer, e o prazer como uma possibilidade de iluminação. Sexo no ocidente sendo posse, e na India, prazer. No Kama-Sutra a mulher se faz ativa e masculina, o homem se torna passivo e feminino, daí advindo a não-violação, a não-disputa, a ausência de violência.
E o livro fala do choque que os indianos tiveram ao conhecer os cristãos, um povo ansioso, preso ao passado e ao futuro, que não cessa de fazer coisas, de falar e falar e crê que o tempo existe e é de ouro. Mas esses ocidentais têm algo que sempre fascinou os indianos: ciência. A ciência não no sentido de produção e não no sentido filosófico, mas a matemática. A catalogação, a contagem, a observação fria, a abstração ( não por acaso foram eles que criaram o conceito do zero ). O hindu, sem perder sua circulariedade, sente-se em casa quando lida com a abstração do número. País enigma: sexo e karma, sujeira e refinamento, violência religiosa e desapego, sorrisos e indiferença a dor alheia ( caridade, um conceito cristão ausente nas ruas da India ).
Ao final do livro, Paz transcreve doze poemas clássicos indianos. Todos são eróticos. O corpo da amada como via de acesso ao prazer puro. E o ato sexual como esvaziamento do ego e crescimento do ser. Pobreza do ocidente: Octavio Paz percebe que uma cultura baseada na reta, no tempo que passa, no lembrar o que se foi e antecipar o que não é, leva necessariamente ao não-presente. O agora deixa de existir e de poder ser usufruido. O sexo se torna então um passado a ser chorado ou um futuro idealizado.
Como circulo de tempo, este texto, simples e belo, rico e sintético, não se esgota. É então dever de qualquer um lê-lo.
SIMONE WEILL E O AMOR
O que é este mundo senão a ausência de Deus, sua retirada, sua distância ( a que chamamos espaço ), sua espera ( a que chamamos tempo ), sua marca ( a que chamamos beleza ) ?
Deus só pode criar o mundo retirando-se dele, ou então só haveria Deus. Ou se nele se mantém é sobre a forma de ausência.
É preciso estar no deserto, pois aquele que é preciso amar está ausente. Mas por que essa ausência? Por que essa criação/desaparecimento? Só se pode aceitar a existência da infelicidade considerando-a uma distância. Por que o mundo? Por que a criação?
Deus criou por amor para o amor. Deus não criou outra coisa que não o amor e os meios para esse amor.
A criação é da parte de Deus um ato não de espansão de si mas de retirada, de renúncia. Deus aceitou essa diminuição, esvaziou de si uma parte do ser. Deus permitiu que existissem coisas diferentes de si. Diferentes dele, e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo como Cristo nos preservou nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor, para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele.
As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua secreta presença aqui em baixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande revelação.
Esse amor é o contrário da violência, da força que se exerce como poder que governa.
Os filhos são como água, ocupam todo o espaço disponível. Mas não Deus, senão só haveria Deus e não haveria o mundo. Mas os pais não, eles se retiram, recuam, não exercem todo o poder que têm. Por que? Por amor, para deixarem todo o espaço aos filhos, para lhes dar poder, para os ver crescer. Para deixa-los existir e não os esmagar com sua presença, com seu amor, com sua força. A fraqueza comanda então e é esse o amor divino. Amor que prefere dar a possuir, perder a ter poder, amor que recua e deixa o outro crescer.
Essa é a síntese do maravilhoso texto de Simone Weill. Texto que mexe comigo não por eu ser cristão ou budista, ateu ou celta, mexe por ser a mais alta e bela forma de amor possível. André Comte-Sponville, sendo materialista, traz esse amor ( Agapé ) para os casais possíveis... leia:
À força de ve-la tão bem, tão forte, tão feliz, a força de ve-la tão bela, tão inteira e livre, voce sente como que um cansaço, que voce mesmo deixa de existir cada vez menos, voce quer chorar ou melhor, ficar só. Se afasta por amor e por amor se entristece. Cesare Pavese tem uma frase: " Voce será amado de verdade, no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro aproveite-se disso para afirmar sua força". Esse é o mais raro e milagroso amor, o amor dos santos e dos sábios. Se voce recua um passo, ele recua dois. Simplesmente para lhe dar mais espaço, para não esbarrar em voce, para não o invadir. Para não lhe impor sua potência, sua força, nem mesmo sua alegria e seu amor, para lhe deixar crescer. Uma renuncia a plenitude do ego, renuncia ao poder.
Simone Weill: " Amor é renuncia e abnegação. O amor é fraco, Deus é fraco, embora onipotente, pois é amor." Frase do filósofo francês Alain: " Cabe dizer que Deus é fraco e pequeno, e sem cessar moribundo entre dois ladrões, pela vontade de uma insignificante policia. Sempre perseguido, esbofeteado e humilhado, sempre renascido em três dias. Amor contrário da força."
Fala agora Comte-Sponville: " Esse tipo de amor tão raro fala fundo com nosso cansaço, com nossa solidão, com nossa desesperança. Parece tão doce, tão puro, tão nobre que toca em um tipo de nostalgia, de ansiedade que todos temos. Amor que se retira, que dá sem esperar, que se abnega, que é fraqueza, é delicadeza, é ter tudo por nada querer e por tudo amar. Amor sem interesse, sem objetivo, sem orgulho, sem futuro e sem opressão. Deus nada tem a ganhar conosco pois nada lhe falta, Ele nos ama não pelo que somos ou pelo que fazemos, nos ama por ser Ele amor e o amor a tudo ama. O amor é injustificado. Espontâneo. O homem não é amável, Deus é que é o amor.
O amor que podemos viver, nós simples mortais, seria uma tentativa, pobre, de provar esse amor/agapé, de mais que amante, ser o amor, mais que amado, dar e amar, mais que ter e exigir, deixar viver e deixar crescer. Mas limitados por eros que ansia e deseja tudo completamente, e por phillia que é ação e é potência, nos debatemos e nos perdemos do pouco que podemos ser.
Será que sempre estive errado, e na verdade, em vez de existirmos para entender a vida, estamos aqui para amar e ser o amor?
Deus só pode criar o mundo retirando-se dele, ou então só haveria Deus. Ou se nele se mantém é sobre a forma de ausência.
É preciso estar no deserto, pois aquele que é preciso amar está ausente. Mas por que essa ausência? Por que essa criação/desaparecimento? Só se pode aceitar a existência da infelicidade considerando-a uma distância. Por que o mundo? Por que a criação?
Deus criou por amor para o amor. Deus não criou outra coisa que não o amor e os meios para esse amor.
A criação é da parte de Deus um ato não de espansão de si mas de retirada, de renúncia. Deus aceitou essa diminuição, esvaziou de si uma parte do ser. Deus permitiu que existissem coisas diferentes de si. Diferentes dele, e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo como Cristo nos preservou nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor, para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele.
As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua secreta presença aqui em baixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande revelação.
Esse amor é o contrário da violência, da força que se exerce como poder que governa.
Os filhos são como água, ocupam todo o espaço disponível. Mas não Deus, senão só haveria Deus e não haveria o mundo. Mas os pais não, eles se retiram, recuam, não exercem todo o poder que têm. Por que? Por amor, para deixarem todo o espaço aos filhos, para lhes dar poder, para os ver crescer. Para deixa-los existir e não os esmagar com sua presença, com seu amor, com sua força. A fraqueza comanda então e é esse o amor divino. Amor que prefere dar a possuir, perder a ter poder, amor que recua e deixa o outro crescer.
Essa é a síntese do maravilhoso texto de Simone Weill. Texto que mexe comigo não por eu ser cristão ou budista, ateu ou celta, mexe por ser a mais alta e bela forma de amor possível. André Comte-Sponville, sendo materialista, traz esse amor ( Agapé ) para os casais possíveis... leia:
À força de ve-la tão bem, tão forte, tão feliz, a força de ve-la tão bela, tão inteira e livre, voce sente como que um cansaço, que voce mesmo deixa de existir cada vez menos, voce quer chorar ou melhor, ficar só. Se afasta por amor e por amor se entristece. Cesare Pavese tem uma frase: " Voce será amado de verdade, no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro aproveite-se disso para afirmar sua força". Esse é o mais raro e milagroso amor, o amor dos santos e dos sábios. Se voce recua um passo, ele recua dois. Simplesmente para lhe dar mais espaço, para não esbarrar em voce, para não o invadir. Para não lhe impor sua potência, sua força, nem mesmo sua alegria e seu amor, para lhe deixar crescer. Uma renuncia a plenitude do ego, renuncia ao poder.
Simone Weill: " Amor é renuncia e abnegação. O amor é fraco, Deus é fraco, embora onipotente, pois é amor." Frase do filósofo francês Alain: " Cabe dizer que Deus é fraco e pequeno, e sem cessar moribundo entre dois ladrões, pela vontade de uma insignificante policia. Sempre perseguido, esbofeteado e humilhado, sempre renascido em três dias. Amor contrário da força."
Fala agora Comte-Sponville: " Esse tipo de amor tão raro fala fundo com nosso cansaço, com nossa solidão, com nossa desesperança. Parece tão doce, tão puro, tão nobre que toca em um tipo de nostalgia, de ansiedade que todos temos. Amor que se retira, que dá sem esperar, que se abnega, que é fraqueza, é delicadeza, é ter tudo por nada querer e por tudo amar. Amor sem interesse, sem objetivo, sem orgulho, sem futuro e sem opressão. Deus nada tem a ganhar conosco pois nada lhe falta, Ele nos ama não pelo que somos ou pelo que fazemos, nos ama por ser Ele amor e o amor a tudo ama. O amor é injustificado. Espontâneo. O homem não é amável, Deus é que é o amor.
O amor que podemos viver, nós simples mortais, seria uma tentativa, pobre, de provar esse amor/agapé, de mais que amante, ser o amor, mais que amado, dar e amar, mais que ter e exigir, deixar viver e deixar crescer. Mas limitados por eros que ansia e deseja tudo completamente, e por phillia que é ação e é potência, nos debatemos e nos perdemos do pouco que podemos ser.
Será que sempre estive errado, e na verdade, em vez de existirmos para entender a vida, estamos aqui para amar e ser o amor?
Assinar:
Comentários (Atom)