Ainda é mais moderno que os muderninhos. Basta dizer que Tarantino não se cansa de o homenagear. Gus Van Sant, Soderbergh (às vezes ), Reittman.
Primeiro: dois caras andam de carro falando abobrinhas. Eles planejam roubo. Para isso irão envolver uma muito tola menina. Mas os três são de uma idiotice absurda. O filme não tem "inteligência". Tudo que é chavão em filmes de roubo : planificação, esperteza, charme e elegância; é aqui subvertido.
Segundo: Surge a menina. Linda como Anna Karina é. A mais bela. Mas é uma tolinha ingênua que se deixa levar. Seu caso de amor com um dos ladrões é o contrário de todo caso de amor em cinema: é estúpido e sem poesia.
Terceiro: A casa da família rica onde ela trabalha. É mal decorada e feia. O filme é cheio de cenários sujos. O carro dos bandidos nada tem de cool. Mas atenção: essa inversão de expectativas não é uma sátira. Nem é a tal "vida real". É apenas a carinhosa brincadeira de um cineasta de gênio que ama o cinema. E a vida. Em Jean-Luc a vida é sempre valorizada.
Quarto: Cena em bar. Falta assunto e eles fazem um minuto de silêncio. O filme começa a virar anarquia. Uma dança dos 3 ( que foi homenageada voce sabe onde ). O avesso de uma cena de musical: não tem ensaio, ninguém sabe dançar, não há cenário. Mas é um momento dos mais "cinematográficos" da arte visual. Aqui se inventa o video-clip bacaninha. A saia xadrez de Anna, com meias pretas, é tão atual quanto é todo mangá.
Quinto: O crime é o contrário de todo crime em filme. Começa pelo cão amigo. Tudo dá certo e tudo é errado. Nada de suspense, nada de ação, nada de nervosismo. Uma violência sem crueldade. O fim é um fim sem final.
Para se amar Godard é preciso amar o cinema. Ele não fala nada que não seja filme. Tudo em sua obra é homenagem a cinemas e a películas. Cada fotograma é exibição de talento, esbanjamento de um dom. Ele tem prazer em ir sempre contra a expectativa, ele brinca, sorri, e nos convida a não levar o filme a sério. Ele quer que amemos os personagens e o ato de filmar.
E é isso que sinto e vejo em seus filmes: sinto o prazer que houve em o fazer, e vejo Godard detrás da cãmera, brincando de filmar e soltando idéias ( novas então ) atrás de idéias.
Ele foi grande enquanto teve Anna a seu lado. Quando ela parte, seus filmes se tornam sérios demais. Perde o humor.
Se vão os closes no rosto de Anna Karina, os imensos olhos que sabem se mover e olhar para o lado, se vão as piscadelas que ela dá à câmera, se vai o corpo ágil e flexível de Anna, a boca que sorrí delicadamente. A mais bela.
Este é o mais árido dos oito filmes iniciais de Godard, mas talvez seja o mais genial. É um caderno de rabiscos de um grande artista. Coisa assim, jamais.
EXCALIBUR, FILME DE JOHN BOORMAN ( JUNG E O MUNDO DO MITO )
Quando assistí este filme ( que sepultou a carreira do ambicioso Boorman ) no cinema, aos 18 anos de idade, achei-o apenas um muito metido e muito escuro filme de aventuras medievais. Revi-o anos depois, na TV, convalescendo de uma apendicite, e pensei ser então um dos filmes de visual mais belo já feito ( percebi nele muito de Kurosawa e um pai do Senhor dos Anéis ). Guardei o filme em dvd para mais tarde e passados mais dez anos e vários filmes depois, eis que o reassisto. Deslumbrante.
Como já diz o título, trata-se da saga de Arthur e da Távola Redonda. Mas hoje eu sei que Boorman e Rosco Pallemberg ( roteiristas ) dão, propositalmente, uma aula sobre Jung no filme. John Boorman, diretor sempre eficaz, mergulha nesse universo de simbolo e de mito, e nos dá uma visão muito próxima daquilo que vive em nosso inconsciente. Atenção: toda frase do filme, todo diálogo, é uma chave para nosso mundo onírico.
A maior diferença entre Freud e Jung reside no modo de abordar o sonho. Para Freud, aquilo que sonho é meu e fala de mim para mim-mesmo. Para Jung, nós sonhamos juntos. Não sou eu quem sonha, é o mundo que sonha em mim. Meu inconsciente não é meu, é nosso. Nosso inconsciente está enlaçado, amarrado em bilhões de visões unidas em símbolos comuns.
Para Jung. minha psicose é a psicose do mundo, minha neurose é uma neurose comum. Eu, enquanto ser inconsciente, sou uma fração de um todo. E perceba: esse todo do qual sou parte não é o todo de agora, é o todo de sempre. Nosso mundo inconsciente é o mundo que o filme mostra.
O que vemos na rua, prédios, celulares, telas, rostos e vozes, é tão somente uma tênue fumaça, um mundo mutável, e por ser mutável, sem grande valor.
Vamos aos personagens do filme ( e já aviso que é impossível sintetizar o que acontece, o filme pode ter centenas de interpretações ).
Merlin é a mais fascinante. Ele possui o segredo da magia por ser hermafrodita. Ele opera os extremos: ele é homem e é sua ânima. Tem humor e tem o olhar do drama. Racional e sem razão. Merlin une a natureza e o humano. Quando ele sai de cena começa a decadência de Camelot. É dita então uma frase crucial : " O homem era parte. Agora ele está fora." Merlin é o homem como parte da vida e não como ser estrangeiro. Todo sofrimento humano vem da inadaptação do homem à vida.
Outra frase de Merlin : "Saio da vida e passo a viver no sonho."
Morgana é a prostituição da genuína magia de Merlin. Se nele o dom é nato, ela aprende a ser feiticeira. Ela usa objetos, poções e receitas. Morgana visa à um fim, o poder. Ela é uma espécie de charlatã. No incesto dela com seu irmão ( ela é irmã de Arthur ) nasce Mordred, o filho que irá afrontar o pai ( e será morto ao matá-lo ).
Nada de edipiano aqui. O que move o filho não é o desejo pela mãe. Mordred é o desejo da mãe. Ele é o novo mundo que mata o velho mundo. O mundo humano assassinando o mundo natural e sendo morto com ele.
Arthur é filho de Uther, o rei. Mas Uther é um rei ativo, violento, lascívio, que perde tudo pelo desejo. Merlin obtém Arthur de Uther e o cria. Arthur tirará Excalibur da rocha e será rei.
Arthur é um tipo de pai. E como pai, ele se torna um tipo de deus. Tudo nele é desejo de justiça, tudo nele é coragem, e ele quer crer no bem. O único homem digno de Excalibur arranca da Terra um objeto que é paz e morte, engenho e magia, força e bondade.
Mas Arthur é traído por Guinevere, sua esposa. Traído por Lancelot, o mais puro dos puros. Temos aqui ( pena que tão rapidamente ) o nascimento do amor cortês. Lancelot ama como quem ama a Deus. Seu amor é feliz enquanto projeto de desejo, ao ser realizado vem a morte. Todo nosso amor pelo trágico está nascido aqui. Eles traem o bondoso Arthur e nós ficamos tristes com essa sina. Continuam nobres a nosso olhar: o amor é mais forte que eles. Lancelot tentará a morte e se tornará um ermitão cristão; Guinevere será freira. Um Arthur ancião, também ele, confessará seu amor por ela ( e lhe pedirá perdão ).
O mundo desaba.
Merlin se retira e Camelot se torna caos. Nasce nosso mundo.
Perceval parte para buscar o Santo Graal, símbolo que poderá reabilitar Camelot. As cenas em que Perceval ( o mais religioso dos cavaleiros ) viaja atrás do Graal, são as mais belas e as mais terríveis do filme. O Graal, símbolo de muito difícil decifração, é para mim exatamente isso: um símbolo. Quando Perceval consegue o objeto sagrado ( num sonho ), e o dá a Arthur, fazendo com que o rei renasça em fé, Perceval dá vida aos símbolos, força que reanima a existência de Arthur.
Mas nada pode ser como foi. A morte vence. Merlin vive apenas nos sonhos agora e Arthur é morto pelo filho incestuoso que é morto.
Perceval devolve Excalibur a Senhora do Lago e repito, nasce este mundo onde vivemos.
Há muito mais para ser dito. Existem infinitos momentos de simbologia. E quem já tentou, como eu, penetrar nesse mundo atemporal, sabe que interpretar um símbolo é ler o infinito.
Enquanto eles viverem em nossos sonhos a vida ainda valerá.
Como já diz o título, trata-se da saga de Arthur e da Távola Redonda. Mas hoje eu sei que Boorman e Rosco Pallemberg ( roteiristas ) dão, propositalmente, uma aula sobre Jung no filme. John Boorman, diretor sempre eficaz, mergulha nesse universo de simbolo e de mito, e nos dá uma visão muito próxima daquilo que vive em nosso inconsciente. Atenção: toda frase do filme, todo diálogo, é uma chave para nosso mundo onírico.
A maior diferença entre Freud e Jung reside no modo de abordar o sonho. Para Freud, aquilo que sonho é meu e fala de mim para mim-mesmo. Para Jung, nós sonhamos juntos. Não sou eu quem sonha, é o mundo que sonha em mim. Meu inconsciente não é meu, é nosso. Nosso inconsciente está enlaçado, amarrado em bilhões de visões unidas em símbolos comuns.
Para Jung. minha psicose é a psicose do mundo, minha neurose é uma neurose comum. Eu, enquanto ser inconsciente, sou uma fração de um todo. E perceba: esse todo do qual sou parte não é o todo de agora, é o todo de sempre. Nosso mundo inconsciente é o mundo que o filme mostra.
O que vemos na rua, prédios, celulares, telas, rostos e vozes, é tão somente uma tênue fumaça, um mundo mutável, e por ser mutável, sem grande valor.
Vamos aos personagens do filme ( e já aviso que é impossível sintetizar o que acontece, o filme pode ter centenas de interpretações ).
Merlin é a mais fascinante. Ele possui o segredo da magia por ser hermafrodita. Ele opera os extremos: ele é homem e é sua ânima. Tem humor e tem o olhar do drama. Racional e sem razão. Merlin une a natureza e o humano. Quando ele sai de cena começa a decadência de Camelot. É dita então uma frase crucial : " O homem era parte. Agora ele está fora." Merlin é o homem como parte da vida e não como ser estrangeiro. Todo sofrimento humano vem da inadaptação do homem à vida.
Outra frase de Merlin : "Saio da vida e passo a viver no sonho."
Morgana é a prostituição da genuína magia de Merlin. Se nele o dom é nato, ela aprende a ser feiticeira. Ela usa objetos, poções e receitas. Morgana visa à um fim, o poder. Ela é uma espécie de charlatã. No incesto dela com seu irmão ( ela é irmã de Arthur ) nasce Mordred, o filho que irá afrontar o pai ( e será morto ao matá-lo ).
Nada de edipiano aqui. O que move o filho não é o desejo pela mãe. Mordred é o desejo da mãe. Ele é o novo mundo que mata o velho mundo. O mundo humano assassinando o mundo natural e sendo morto com ele.
Arthur é filho de Uther, o rei. Mas Uther é um rei ativo, violento, lascívio, que perde tudo pelo desejo. Merlin obtém Arthur de Uther e o cria. Arthur tirará Excalibur da rocha e será rei.
Arthur é um tipo de pai. E como pai, ele se torna um tipo de deus. Tudo nele é desejo de justiça, tudo nele é coragem, e ele quer crer no bem. O único homem digno de Excalibur arranca da Terra um objeto que é paz e morte, engenho e magia, força e bondade.
Mas Arthur é traído por Guinevere, sua esposa. Traído por Lancelot, o mais puro dos puros. Temos aqui ( pena que tão rapidamente ) o nascimento do amor cortês. Lancelot ama como quem ama a Deus. Seu amor é feliz enquanto projeto de desejo, ao ser realizado vem a morte. Todo nosso amor pelo trágico está nascido aqui. Eles traem o bondoso Arthur e nós ficamos tristes com essa sina. Continuam nobres a nosso olhar: o amor é mais forte que eles. Lancelot tentará a morte e se tornará um ermitão cristão; Guinevere será freira. Um Arthur ancião, também ele, confessará seu amor por ela ( e lhe pedirá perdão ).
O mundo desaba.
Merlin se retira e Camelot se torna caos. Nasce nosso mundo.
Perceval parte para buscar o Santo Graal, símbolo que poderá reabilitar Camelot. As cenas em que Perceval ( o mais religioso dos cavaleiros ) viaja atrás do Graal, são as mais belas e as mais terríveis do filme. O Graal, símbolo de muito difícil decifração, é para mim exatamente isso: um símbolo. Quando Perceval consegue o objeto sagrado ( num sonho ), e o dá a Arthur, fazendo com que o rei renasça em fé, Perceval dá vida aos símbolos, força que reanima a existência de Arthur.
Mas nada pode ser como foi. A morte vence. Merlin vive apenas nos sonhos agora e Arthur é morto pelo filho incestuoso que é morto.
Perceval devolve Excalibur a Senhora do Lago e repito, nasce este mundo onde vivemos.
Há muito mais para ser dito. Existem infinitos momentos de simbologia. E quem já tentou, como eu, penetrar nesse mundo atemporal, sabe que interpretar um símbolo é ler o infinito.
Enquanto eles viverem em nossos sonhos a vida ainda valerá.
KIERKEGAARD, UM LONGO CAMINHO
A popularidade de Nietzsche explica a falta de ibope de Soren Kierkegaard.
O alemão nos dá o consolo de podermos culpar gerações remotas por nossa falta de potência ou de valor. O dinamarquês não. Cabe a nós mesmos, de agora e para frente, construir uma história. Ninguém tem culpa por nossos erros, apenas aquele que erra e vive agora é o responsável.
Kierkegaard escreve sobre as quatro etapas do desenvolvimento humano:
Se sua vida tiver valor ( e se uma sociedade souber crescer ) a primeira fase é a da beleza. Voce abre os olhos e começa a observar a vida. Percebendo a riqueza vital, dando valor ao equilíbrio da existência do planeta, voce passa a se guiar pelo belo, pelo que é agradável, por aquilo que seduz o olhar. Se voce estiver no caminho da evolução, esse senso de beleza o levará a valorizar a harmonia e a paz; se voce estiver no retrocesso, voce valorizará apenas a beleza das aparências, o brilho fugaz.
Subindo o caminho voce atinge via beleza a etapa da moralidade.
Aqui o bem e o certo passam a ser o valor maior. Voce passa a não admitir a injustiça, a ingratidão, o mal e a violência. Todo ato passa a ser sentido em sua consequencia e a beleza torna-se tudo o que é moralmente justo.
Nessa etapa, se o caminho for de subida, essa moral visa o outro. Cada ato é diálogo com o todo. Tudo possui o peso de sua história. Voce indaga e se pergunta: para que e o que será. Mas se voce estiver em descida essa moralidade se torna mero formalismo. A boa moral passa a ser a moral de uma casta e o que é bom torna-se bom apenas para sua casta e para seu momento.
Devemos aqui observar que essa teoria de Kierkegaard se aplica a perfeição à história atual. Temos uma imensidão de nações que vivem fora de qualquer evolução. Sem nenhum senso estético e muito menos de moral. Depois existem algumas nações que vivem esse período de "beleza". Países que prezam sua aparência turística, mas que acima disso, tentam preservar o que os faz "belos". Penso em Noruega, Suécia, Nova Zelândia, como nações que talvez estejam na etapa moral. Pensam na segurança e no bem-estar de seus filhos, mas acima de tudo, implantaram um senso de justiça que se tornou parte de seu modo de ser.
As duas etapas seguintes são inalcançáveis ( por países ) em nosso tempo.
A terceira é a etapa do riso. E aí a coisa começa a se refinar.
Falando de cinema, não seria o riso da comédia ( mesmo que genial ). Seria o riso felliniano, o riso de quem viu o feio e o belo ( e conseguiu fazer o belo vencer ), viu o amoral e conseguiu ainda crer na moral. É o riso de quem conhece a vida e aprendeu que tudo é absurdo ( se visto em escala humana ) e magnífico ( visto em escala sobre-humana ). É a etapa do riso calmo, amoroso, quente, convidativo.
Uma equação: belo`+ moral = alegria.
Isso se estivermos em subida. Descendo esse riso se faz escárnio, deboche, desespero. Deixa de ser riso vital e se torna riso de morte. Frio, é uma risada caricatural, uma risada que desvaloriza a vida, que pisa no outro, que se nutre de feiúra e de amoralidade. É 99% do humor que se faz hoje.
Passada a fase do riso nasce a serenidade e com ela o período da sacralidade.
Compreende-se então que tudo é sagrado, que em cada coisa e em cada dia existe algo de grandioso, de imutável e de misterioso. Nessa fase não se pergunta mais, a intuição fala e ela sabe antes de criar a dúvida. A pessoa não mais é ator na vida, ela se vê como parte do autor que a escreve. Há nesse momento a compreensão.
Mas, se o movimento for de descida, essa sacralização torna-se igreja ou seita. O homem passa a adorar "coisas sagradas" e instaura-se o fetichismo.
É preciso agora dizer o que significa estar subindo ou descendo.
Todos nós nos deparamos com momentos na vida que nos lembram dessas etapas de evolução. Mas somos livres para escolher. Ou penetramos na fase da beleza e subimos com ela rumo a moralidade, ou entramos num tipo de transe voyeur e descemos cada vez mais baixo. Desse modo, o homem que atinge a quarta fase ( do sagrado ) mas cai em dogmas ou imagens mágicas, despenca para a fase do riso, risada que será de agressão e de descaso com tudo.
Soren Kierkegaard pensava sempre em moralidade e em responsabilidade. Se Nietzsche, quando lido superficialmente, parece nos liberar da moral e do bem, o dinamarquês nos recorda todo o tempo que somos seres morais e que o que nos justifica é o bem comum. Se o século XX tivesse sido mais feliz, teria sido tempo de Kierkegaard e de Karl Jaspers e não época de Nietzsche e de Karl Marx.
O alemão nos dá o consolo de podermos culpar gerações remotas por nossa falta de potência ou de valor. O dinamarquês não. Cabe a nós mesmos, de agora e para frente, construir uma história. Ninguém tem culpa por nossos erros, apenas aquele que erra e vive agora é o responsável.
Kierkegaard escreve sobre as quatro etapas do desenvolvimento humano:
Se sua vida tiver valor ( e se uma sociedade souber crescer ) a primeira fase é a da beleza. Voce abre os olhos e começa a observar a vida. Percebendo a riqueza vital, dando valor ao equilíbrio da existência do planeta, voce passa a se guiar pelo belo, pelo que é agradável, por aquilo que seduz o olhar. Se voce estiver no caminho da evolução, esse senso de beleza o levará a valorizar a harmonia e a paz; se voce estiver no retrocesso, voce valorizará apenas a beleza das aparências, o brilho fugaz.
Subindo o caminho voce atinge via beleza a etapa da moralidade.
Aqui o bem e o certo passam a ser o valor maior. Voce passa a não admitir a injustiça, a ingratidão, o mal e a violência. Todo ato passa a ser sentido em sua consequencia e a beleza torna-se tudo o que é moralmente justo.
Nessa etapa, se o caminho for de subida, essa moral visa o outro. Cada ato é diálogo com o todo. Tudo possui o peso de sua história. Voce indaga e se pergunta: para que e o que será. Mas se voce estiver em descida essa moralidade se torna mero formalismo. A boa moral passa a ser a moral de uma casta e o que é bom torna-se bom apenas para sua casta e para seu momento.
Devemos aqui observar que essa teoria de Kierkegaard se aplica a perfeição à história atual. Temos uma imensidão de nações que vivem fora de qualquer evolução. Sem nenhum senso estético e muito menos de moral. Depois existem algumas nações que vivem esse período de "beleza". Países que prezam sua aparência turística, mas que acima disso, tentam preservar o que os faz "belos". Penso em Noruega, Suécia, Nova Zelândia, como nações que talvez estejam na etapa moral. Pensam na segurança e no bem-estar de seus filhos, mas acima de tudo, implantaram um senso de justiça que se tornou parte de seu modo de ser.
As duas etapas seguintes são inalcançáveis ( por países ) em nosso tempo.
A terceira é a etapa do riso. E aí a coisa começa a se refinar.
Falando de cinema, não seria o riso da comédia ( mesmo que genial ). Seria o riso felliniano, o riso de quem viu o feio e o belo ( e conseguiu fazer o belo vencer ), viu o amoral e conseguiu ainda crer na moral. É o riso de quem conhece a vida e aprendeu que tudo é absurdo ( se visto em escala humana ) e magnífico ( visto em escala sobre-humana ). É a etapa do riso calmo, amoroso, quente, convidativo.
Uma equação: belo`+ moral = alegria.
Isso se estivermos em subida. Descendo esse riso se faz escárnio, deboche, desespero. Deixa de ser riso vital e se torna riso de morte. Frio, é uma risada caricatural, uma risada que desvaloriza a vida, que pisa no outro, que se nutre de feiúra e de amoralidade. É 99% do humor que se faz hoje.
Passada a fase do riso nasce a serenidade e com ela o período da sacralidade.
Compreende-se então que tudo é sagrado, que em cada coisa e em cada dia existe algo de grandioso, de imutável e de misterioso. Nessa fase não se pergunta mais, a intuição fala e ela sabe antes de criar a dúvida. A pessoa não mais é ator na vida, ela se vê como parte do autor que a escreve. Há nesse momento a compreensão.
Mas, se o movimento for de descida, essa sacralização torna-se igreja ou seita. O homem passa a adorar "coisas sagradas" e instaura-se o fetichismo.
É preciso agora dizer o que significa estar subindo ou descendo.
Todos nós nos deparamos com momentos na vida que nos lembram dessas etapas de evolução. Mas somos livres para escolher. Ou penetramos na fase da beleza e subimos com ela rumo a moralidade, ou entramos num tipo de transe voyeur e descemos cada vez mais baixo. Desse modo, o homem que atinge a quarta fase ( do sagrado ) mas cai em dogmas ou imagens mágicas, despenca para a fase do riso, risada que será de agressão e de descaso com tudo.
Soren Kierkegaard pensava sempre em moralidade e em responsabilidade. Se Nietzsche, quando lido superficialmente, parece nos liberar da moral e do bem, o dinamarquês nos recorda todo o tempo que somos seres morais e que o que nos justifica é o bem comum. Se o século XX tivesse sido mais feliz, teria sido tempo de Kierkegaard e de Karl Jaspers e não época de Nietzsche e de Karl Marx.
EU E EU- PERSONA- BERGMAN- EU MAIS NADA
Cenas que parecem não fazer sentido. Farão. Quero não ver. Vejo.
Aridez. Um menino se ergue de cama. Um rosto imenso na parede. O toque. Tudo é branco. Tudo é vazio. Ingmar sabe como é nosso inconsciente. Desolado e sem tempo. Eterno agora.
Atriz ficou muda. Enfermeira cuida dela. Quando vão para a praia o filme começa.
( Ignácio Araújo disse que hoje indicar Morangos Silvestres para alguém é considerado ofensa pessoal. Tristes tempos em que pensar é desejar o mal ).
Na praia. É uma ilha?
Somente a enfermeira fala. Bibi Andersson. Liv Ullman está muda por todo o filme.
Mas não há uma cena em que ela fala?
( Pauline Kael diz que a cena em que Bibi descreve uma transa na praia é "a única cena em cinema que entende o erotismo" ).
O filme começa a penetrar fundo, muito fundo em minha mente.
Sinto medo.
( Bergman foi filho de pastor. O pai lhe batia e depois exigia beijo na mão. A mãe variava entre frieza extrema e calor amoroso. Foi assim que Bergman aprendeu a observar rostos esperando o que viria a seguir. Ninguém filma faces como ele. E segundo Isabela Boscov, só ele tem a altura de seus temas- o sentido da vida. )
Começo a viajar no filme.
Seria Liv Deus? A enfermeira somos nós falando com Deus? Ele estaria mudo? Com Sua face de calma e indiferença? O sofrimento atroz de Bibi seria nossa dor? Onde Ele está?
Talvez não.
O filme se rompe literalmente. Precisamos ver sem a película.
Chega um homem que conhece a enfermeira.
Mas então as duas são uma? Ela seria a máscara e a outra a alma? Mas sendo assim a solidão deste filme é insuportável. Nossa vida nada mais seria que um diálogo entre eu e minha persona. Pior: diálogo onde um dos dois é mudo.
Falar com Deus também é falar com um mudo.
Mas há o rosto.... Bergman é o menino e as duas são sua mãe.
O desespero do filme é o desespero de um menino ( desprezado ) que tenta se comunicar com a mãe e falha sempre.
Mas é um filme apenas, vemos Sven Nykvist filmando.
O não e o nunca encerram o filme.
-----------------------------------------------------------------------------------------
Quando penso em diretor de cinema genial eu penso em Hitchcock ou Kurosawa.
Quando penso em gênio no cinema, penso em Bergman.
Está longe do cinema. Seu mundo é o de artes mais individuais, mais profundas, não espetaculosas.
Em seu alcance existencial, bergman só tem pares na literatura.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O filme termina ( não termina )
Continua a se passar inteiro dentro da minha cabeça.
Tenho medo de dormir. Sinto uma solidão de gelo.
Acordo com ele dentro de mim.
Persona.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O novo diretor japonês que também se chama Kurosawa ( e que é muito bom ) diz que na época de Ozu, Akira Kurosawa e Mizoguchi o mundo era mais feliz. Porque se acreditava no cinema. Hoje, tempos de finais, em nada se crê. )
Eu creio em Ingmar Bergman.
Aridez. Um menino se ergue de cama. Um rosto imenso na parede. O toque. Tudo é branco. Tudo é vazio. Ingmar sabe como é nosso inconsciente. Desolado e sem tempo. Eterno agora.
Atriz ficou muda. Enfermeira cuida dela. Quando vão para a praia o filme começa.
( Ignácio Araújo disse que hoje indicar Morangos Silvestres para alguém é considerado ofensa pessoal. Tristes tempos em que pensar é desejar o mal ).
Na praia. É uma ilha?
Somente a enfermeira fala. Bibi Andersson. Liv Ullman está muda por todo o filme.
Mas não há uma cena em que ela fala?
( Pauline Kael diz que a cena em que Bibi descreve uma transa na praia é "a única cena em cinema que entende o erotismo" ).
O filme começa a penetrar fundo, muito fundo em minha mente.
Sinto medo.
( Bergman foi filho de pastor. O pai lhe batia e depois exigia beijo na mão. A mãe variava entre frieza extrema e calor amoroso. Foi assim que Bergman aprendeu a observar rostos esperando o que viria a seguir. Ninguém filma faces como ele. E segundo Isabela Boscov, só ele tem a altura de seus temas- o sentido da vida. )
Começo a viajar no filme.
Seria Liv Deus? A enfermeira somos nós falando com Deus? Ele estaria mudo? Com Sua face de calma e indiferença? O sofrimento atroz de Bibi seria nossa dor? Onde Ele está?
Talvez não.
O filme se rompe literalmente. Precisamos ver sem a película.
Chega um homem que conhece a enfermeira.
Mas então as duas são uma? Ela seria a máscara e a outra a alma? Mas sendo assim a solidão deste filme é insuportável. Nossa vida nada mais seria que um diálogo entre eu e minha persona. Pior: diálogo onde um dos dois é mudo.
Falar com Deus também é falar com um mudo.
Mas há o rosto.... Bergman é o menino e as duas são sua mãe.
O desespero do filme é o desespero de um menino ( desprezado ) que tenta se comunicar com a mãe e falha sempre.
Mas é um filme apenas, vemos Sven Nykvist filmando.
O não e o nunca encerram o filme.
-----------------------------------------------------------------------------------------
Quando penso em diretor de cinema genial eu penso em Hitchcock ou Kurosawa.
Quando penso em gênio no cinema, penso em Bergman.
Está longe do cinema. Seu mundo é o de artes mais individuais, mais profundas, não espetaculosas.
Em seu alcance existencial, bergman só tem pares na literatura.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O filme termina ( não termina )
Continua a se passar inteiro dentro da minha cabeça.
Tenho medo de dormir. Sinto uma solidão de gelo.
Acordo com ele dentro de mim.
Persona.
-------------------------------------------------------------------------------------------
O novo diretor japonês que também se chama Kurosawa ( e que é muito bom ) diz que na época de Ozu, Akira Kurosawa e Mizoguchi o mundo era mais feliz. Porque se acreditava no cinema. Hoje, tempos de finais, em nada se crê. )
Eu creio em Ingmar Bergman.
CABARET/ POLANSKI/ WILL SMITH/ REED/ SIRK/ ZEFFIRELLI
DESEJOS HUMANOS de Fritz Lang com Gloria Grahame
Não funciona. Talvez por eu ter visto o original de Renoir. Falta alguma coisa neste drama noir sobre ferroviário traído pela esposa. Apesar da excelente Gloria os personagens estão perdidos. Não nos envolve. Uma pena. Nota 4.
EU SOU A LENDA de Francis Lawrence com Will Smith e Alice Braga
Refilmagem simplificada de um cult com Charlton Heston. Gostei muito ( apesar do final cretino ). Will é a grande estrela de nossa época. Em recente pesquisa foi descoberto ser ele o único ator vivo que garante bilheteria. Esta aventura cumpre tudo o que se propõe. E melhor: não se estica. O final bobíssimo estraga muito. Mas é bom dvd para tarde de chuva. Nota 7.
TARAS BULBA de J. Lee Thompson com Tony Curtis e Yul Brynner
Voce espera uma aventura e o que vem é um desajeitado filme romantico cheio de musica. Não tem clima, suspense e as cenas de batalha são mal filmadas. A canastrice de Yul é mal usada e Curtis não tem o que fazer. Nota 2.
OS PRIMOS de Claude Chabrol com Gerard Blain e Jean-Claude Brialy
Primeiro sucesso de Chabrol. Mas é um filme árido. Vemos um primo inocente que vem do campo. Vai morar com primo rico e depravado em Paris. Logo se apaixona por prostituta e assistimos sua lenta destruição. O final é cruel e perfeito, mas o filme não nos dá prazer nenhum. O que vemos são bebedeiras sem fim, sexo casual e gente mal caráter em geral. Nota 3.
IRMÃO SOL, IRMÃ LUA de Franco Zeffirelli
Deveria ser a história de São Francisco e de Santa Clara. Não é. Zeffirelli, como sempre, joga mel em tudo e o que temos é um muito colorido e belo festival de hippies sendo bons e canções pop ( sem inspiração ) de Donovan Leitch. Nada acontece no filme, e pior que isso, não há emoção nenhuma. São Francisco surge anódino, fraco, sem carisma. Um fiasco. Nota 1.
O ESCRITOR FANTASMA de Roman Polanski com Ewan McGregor e Pierce Brosnan
Ewan ficou maduro. E sua carreira não aconteceu. Seus grandes papéis não vieram. Aqui temos um típíco Polanski. Paranóia e medo. A história é meio boba, mas Roman salva o roteiro banal e sem bons diálogos, enchendo tudo com névoas, frio e seu velho Polanski touch. É um filme que nunca decola, e tem um final bastante previsível ( tipo Chinatown ). Nota 5.
WILD ANGELS de Roger Corman com Peter Fonda, Nancy Sinatra e Diane Ladd
Hells Angels andam de moto e fazem suas arruaças. O filme, tolo, é só isso. Peter Bogdanovich foi o assistente de direção. É um filme que mostra como Hollywood está sempre dez anos atrás das outras artes. Nota Zero.
TRAPÉZIO de Carol Reed com Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida
Aula de direção em cinema. História banal de trapezista ferido que ensina profissão a novato e briga com esse pupilo pelo amor de mulher ambiciosa. Mas essa baboseira funciona! E muito. Há algum mistério aqui e logo sentimos atração pelo herói veterano ( o sempre soberbo Lancaster ) e começamos a gostar daquele circo. O cenário parisiense é tudo aquilo que queríamos que Paris fosse e o filme se deixa ver com admirável prazer. O inglês Reed sabia tudo sobre filmes! Palmas pra ele!!!! Nota 8.
CABARET de Bob Fosse com Liza Minelli, Michael York, Joel Grey e Marisa Berenson
Gênio. Fosse, com simplicidade, consegue mostrar o clima nazi na Berlin de 1931. Mais que isso, nos convence que nosso mundo ainda é aquele. E, milagre, nos diverte! O filme é belíssimo. Fotografia de Geoffrey Unsworth, e músicas inesquecíveis de Kander e Ebb. Há uma cena com garoto nazista cantando que explica o porque da Alemanha ter caído nessa praga. Todos os atores estão excelentes. Mas a Sally de Liza brilha glamurosamente. É bíblia gay. Todo seu mundinho está criado neste filme glitter. Fosse, gênio bailarino hétero, sabia criar movimentos sexy, coreografias que contam o filme, tiradas demoníacas. Joel Grey é um mestre de cerimonias antológico. Filme obrigatório inclusive para quem não gosta de musicais. O final é pura genialidade. Nota UM MILHÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ALMA EM PÂNICO de Otto Preminger com Robert Mitchum e Jean Simmons
Jean caminhava para ser uma super-star quando fez este filme produzido por Howard Hughes. Ao não seder a cantada de Hughes teve sua carreira truncada. Não valeu a pena. Jean e Mitchum são maravilhosos, mas o filme não funciona. É pesado, não flui. Tornou-se famoso pelo bom final ( ele melhora nos últimos vinte minutos ). Nota 2.
PALAVRAS AO VENTO de Douglas Sirk com Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack e Dorothy Malone
História: dois amigos, um trilionário, se apaixonam por moça. O mais rico casa com ela. Ele é alcoólatra e impotente. O mais pobre talvez seja gay. A irmã do milionário é apaixonada pelo pobre e é ninfomaníaca. Tudo termina em morte. Isso é Sirk, rei do melô. Mestre de Almodovar, Fassbinder, Haynes, Lee e Kar Wai. Cores exageradas, cenários fake, atuações canastronas, música dramática. Funciona maravilhosamente. O filme nunca deixa de correr. Coisas acontecem, voce se envolve, se diverte, vibra. Assistir este filme é um enorme prazer. Mas atenção : se em sua época o público o amava e a crítica o detestava, hoje é o público normal que não gosta e são os cinéfilos que vibram. Porque? Após anos de TV, o público verá nele apenas mais um Dallas ou Dinastia, enquanto o cinéfilo perceberá sua ironia macabra e seu deboche sutil. È um filme perfeito. Não tem um só minuto ruim. Nota DEZ!!!!!
Não funciona. Talvez por eu ter visto o original de Renoir. Falta alguma coisa neste drama noir sobre ferroviário traído pela esposa. Apesar da excelente Gloria os personagens estão perdidos. Não nos envolve. Uma pena. Nota 4.
EU SOU A LENDA de Francis Lawrence com Will Smith e Alice Braga
Refilmagem simplificada de um cult com Charlton Heston. Gostei muito ( apesar do final cretino ). Will é a grande estrela de nossa época. Em recente pesquisa foi descoberto ser ele o único ator vivo que garante bilheteria. Esta aventura cumpre tudo o que se propõe. E melhor: não se estica. O final bobíssimo estraga muito. Mas é bom dvd para tarde de chuva. Nota 7.
TARAS BULBA de J. Lee Thompson com Tony Curtis e Yul Brynner
Voce espera uma aventura e o que vem é um desajeitado filme romantico cheio de musica. Não tem clima, suspense e as cenas de batalha são mal filmadas. A canastrice de Yul é mal usada e Curtis não tem o que fazer. Nota 2.
OS PRIMOS de Claude Chabrol com Gerard Blain e Jean-Claude Brialy
Primeiro sucesso de Chabrol. Mas é um filme árido. Vemos um primo inocente que vem do campo. Vai morar com primo rico e depravado em Paris. Logo se apaixona por prostituta e assistimos sua lenta destruição. O final é cruel e perfeito, mas o filme não nos dá prazer nenhum. O que vemos são bebedeiras sem fim, sexo casual e gente mal caráter em geral. Nota 3.
IRMÃO SOL, IRMÃ LUA de Franco Zeffirelli
Deveria ser a história de São Francisco e de Santa Clara. Não é. Zeffirelli, como sempre, joga mel em tudo e o que temos é um muito colorido e belo festival de hippies sendo bons e canções pop ( sem inspiração ) de Donovan Leitch. Nada acontece no filme, e pior que isso, não há emoção nenhuma. São Francisco surge anódino, fraco, sem carisma. Um fiasco. Nota 1.
O ESCRITOR FANTASMA de Roman Polanski com Ewan McGregor e Pierce Brosnan
Ewan ficou maduro. E sua carreira não aconteceu. Seus grandes papéis não vieram. Aqui temos um típíco Polanski. Paranóia e medo. A história é meio boba, mas Roman salva o roteiro banal e sem bons diálogos, enchendo tudo com névoas, frio e seu velho Polanski touch. É um filme que nunca decola, e tem um final bastante previsível ( tipo Chinatown ). Nota 5.
WILD ANGELS de Roger Corman com Peter Fonda, Nancy Sinatra e Diane Ladd
Hells Angels andam de moto e fazem suas arruaças. O filme, tolo, é só isso. Peter Bogdanovich foi o assistente de direção. É um filme que mostra como Hollywood está sempre dez anos atrás das outras artes. Nota Zero.
TRAPÉZIO de Carol Reed com Burt Lancaster, Tony Curtis e Gina Lollobrigida
Aula de direção em cinema. História banal de trapezista ferido que ensina profissão a novato e briga com esse pupilo pelo amor de mulher ambiciosa. Mas essa baboseira funciona! E muito. Há algum mistério aqui e logo sentimos atração pelo herói veterano ( o sempre soberbo Lancaster ) e começamos a gostar daquele circo. O cenário parisiense é tudo aquilo que queríamos que Paris fosse e o filme se deixa ver com admirável prazer. O inglês Reed sabia tudo sobre filmes! Palmas pra ele!!!! Nota 8.
CABARET de Bob Fosse com Liza Minelli, Michael York, Joel Grey e Marisa Berenson
Gênio. Fosse, com simplicidade, consegue mostrar o clima nazi na Berlin de 1931. Mais que isso, nos convence que nosso mundo ainda é aquele. E, milagre, nos diverte! O filme é belíssimo. Fotografia de Geoffrey Unsworth, e músicas inesquecíveis de Kander e Ebb. Há uma cena com garoto nazista cantando que explica o porque da Alemanha ter caído nessa praga. Todos os atores estão excelentes. Mas a Sally de Liza brilha glamurosamente. É bíblia gay. Todo seu mundinho está criado neste filme glitter. Fosse, gênio bailarino hétero, sabia criar movimentos sexy, coreografias que contam o filme, tiradas demoníacas. Joel Grey é um mestre de cerimonias antológico. Filme obrigatório inclusive para quem não gosta de musicais. O final é pura genialidade. Nota UM MILHÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
ALMA EM PÂNICO de Otto Preminger com Robert Mitchum e Jean Simmons
Jean caminhava para ser uma super-star quando fez este filme produzido por Howard Hughes. Ao não seder a cantada de Hughes teve sua carreira truncada. Não valeu a pena. Jean e Mitchum são maravilhosos, mas o filme não funciona. É pesado, não flui. Tornou-se famoso pelo bom final ( ele melhora nos últimos vinte minutos ). Nota 2.
PALAVRAS AO VENTO de Douglas Sirk com Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack e Dorothy Malone
História: dois amigos, um trilionário, se apaixonam por moça. O mais rico casa com ela. Ele é alcoólatra e impotente. O mais pobre talvez seja gay. A irmã do milionário é apaixonada pelo pobre e é ninfomaníaca. Tudo termina em morte. Isso é Sirk, rei do melô. Mestre de Almodovar, Fassbinder, Haynes, Lee e Kar Wai. Cores exageradas, cenários fake, atuações canastronas, música dramática. Funciona maravilhosamente. O filme nunca deixa de correr. Coisas acontecem, voce se envolve, se diverte, vibra. Assistir este filme é um enorme prazer. Mas atenção : se em sua época o público o amava e a crítica o detestava, hoje é o público normal que não gosta e são os cinéfilos que vibram. Porque? Após anos de TV, o público verá nele apenas mais um Dallas ou Dinastia, enquanto o cinéfilo perceberá sua ironia macabra e seu deboche sutil. È um filme perfeito. Não tem um só minuto ruim. Nota DEZ!!!!!
FREUD x DOUGLAS SIRK
No cinema dos anos 50 Freud era rei. Os filmes ditos sérios eram todos freudianos. Impulsos, obssessões, traumas de infância, pulsões de morte, ninfomania. Todo drama humano era explicado pela cartilha freudiana, e nesses filmes "de conteúdo", nada nunca era inocente. Tudo tinha um porque, um sentido traumático, tudo era solene.
Peças de Tennessee Willians e de William Inge eram idolatradas e os filmes de George Stevens, Elia Kazan e William Wyler eram amados pelo público analisado, culto e sofisticado. Eram filmes que mostravam a tal vida real.
Douglas Sirk estava pouco se lixando para tudo isso. Seus filmes eram berrantemente coloridos e jogavam fora toda a cartilha freudiana. Ele exagerava traumas, idolatrava absurdos, amava frases pomposas e dispensava a verossimilhança. O negócio dele era o melodrama e nesse melô, como ninguém antes, ele escancarava a doença da elite americana. Sirk inventou a novela. Toda série séria bebeu em sua fonte e as novelas da Globo ainda o seguem. Mas ele, por ser o mestre, foi além: ele gargalhava com essa profusão de homos não assumidos, ninfo desesperadas e pais incestuosos. Canastralizava as atuações e falsificava os cenários. Fazia de tudo um grande fake e exibia assim o fake geral da América.
O público-povão da época o amava. Seus filmes estouravam bilheterias e os críticos o odiavam. Viam nesses filmes apenas a superficie: atuações caricatas e roteiros sem sentido. Não tinham o humor para ir além da aparencia.
Hoje ele é desprezado pelo público. Esse público vê nele apenas um autor de dramas bregas. E é amado por cinéfilos e cineastas, que vêem nele um mestre inteligentíssimo, sutil, ferino, letal.
Fassbinder dizia ter aprendido tudo com ele, e Almodovar diz amar seus filmes. Diz Pedro: "- Já assisti Palavras ao Vento milhares de vezes. E mal posso esperar pela próxima!"
Ainda se percebe sua influência nos filmes de Todd Haynes, Ang Lee e de Wong Kar Wai. Ontem assisti um filme seu pela primeira vez. E confesso, é viciante. O drama, divertidissimo, vai acontecendo sem ceder, coisas ocorrem sem parar, tudo é rápido, grandiloquente e colorido. Lindo. Entretenimento puro e perfeito.
Douglas Sirk começou na Alemanha dirigindo teatro sério. Fugiu de Hitler e em Hollywood fez faroeste, musical e noir, até se especializar em dramas da Universal. Super sucessos que foram atacados pelos criticos dos anos 50/60. A partir dos anos 80 foi reabilitado e hoje é considerado chic e genial.
Viciei. Uma delicia proibida que "não fica bem gostar". Um Almodovar americano/alemão. E ainda tem Rock Hudson! Haja ironia........
Peças de Tennessee Willians e de William Inge eram idolatradas e os filmes de George Stevens, Elia Kazan e William Wyler eram amados pelo público analisado, culto e sofisticado. Eram filmes que mostravam a tal vida real.
Douglas Sirk estava pouco se lixando para tudo isso. Seus filmes eram berrantemente coloridos e jogavam fora toda a cartilha freudiana. Ele exagerava traumas, idolatrava absurdos, amava frases pomposas e dispensava a verossimilhança. O negócio dele era o melodrama e nesse melô, como ninguém antes, ele escancarava a doença da elite americana. Sirk inventou a novela. Toda série séria bebeu em sua fonte e as novelas da Globo ainda o seguem. Mas ele, por ser o mestre, foi além: ele gargalhava com essa profusão de homos não assumidos, ninfo desesperadas e pais incestuosos. Canastralizava as atuações e falsificava os cenários. Fazia de tudo um grande fake e exibia assim o fake geral da América.
O público-povão da época o amava. Seus filmes estouravam bilheterias e os críticos o odiavam. Viam nesses filmes apenas a superficie: atuações caricatas e roteiros sem sentido. Não tinham o humor para ir além da aparencia.
Hoje ele é desprezado pelo público. Esse público vê nele apenas um autor de dramas bregas. E é amado por cinéfilos e cineastas, que vêem nele um mestre inteligentíssimo, sutil, ferino, letal.
Fassbinder dizia ter aprendido tudo com ele, e Almodovar diz amar seus filmes. Diz Pedro: "- Já assisti Palavras ao Vento milhares de vezes. E mal posso esperar pela próxima!"
Ainda se percebe sua influência nos filmes de Todd Haynes, Ang Lee e de Wong Kar Wai. Ontem assisti um filme seu pela primeira vez. E confesso, é viciante. O drama, divertidissimo, vai acontecendo sem ceder, coisas ocorrem sem parar, tudo é rápido, grandiloquente e colorido. Lindo. Entretenimento puro e perfeito.
Douglas Sirk começou na Alemanha dirigindo teatro sério. Fugiu de Hitler e em Hollywood fez faroeste, musical e noir, até se especializar em dramas da Universal. Super sucessos que foram atacados pelos criticos dos anos 50/60. A partir dos anos 80 foi reabilitado e hoje é considerado chic e genial.
Viciei. Uma delicia proibida que "não fica bem gostar". Um Almodovar americano/alemão. E ainda tem Rock Hudson! Haja ironia........
ANTOLOGIA POÉTICA- CECILIA MEIRELES- VOCAÇÃO PURA
Existem poetas que não são poesias. São aqueles escritores que parecem fazer poesia de fora. Eles conseguem mergulhar na poesia, mas nunca se parecem poesia. Escrevem sobre algo que não está neles. Desejam a poesia.
Eliot, Wallace Stevens, Pound são eruditos da palavra, são filósofos da vida, são poetas da existência e do tempo. Mas não são poesia. E o fato de serem sublimes ( considero Eliot o maior poeta dos últimos 200 anos ) mostra que não estou julgando talento, estou tentando explicar um estado de alma. Talvez os poetas que não são poesia sejam mais filosóficos.
Assim como Keats ou Rilke, Cecilia Meireles é pura poesia. Tudo em que ela emprega sua atenção se faz verso. Ela é encantadora.
Como elogiar o bastante esses versos que sinto serem perfeitos? Frases que me dão lágrimas e fazem com que brote vida no papel e na tinta. O que posso dizer?
Leia.
Leia Cecilia. Leia essa elegia que ela fez para a avó morta, uma sucessão de imagens belíssimas e de uma dor de verdade. de saudade, de solidão. Ela consegue ver a poesia ao redor de tudo, ela canta a dor de saber que os olhos não mais verão as coisas.
Mas há tanto mais. A poesia em que ela chora a morte de uma borboleta, aquela que louva uma cigarra, a amorosa canção para jumentos, para cães, para amigas.
Cecilia escreveu um poema sobre sua primeira infancia que é tudo aquilo que pode ser sentido sobre todas as infancias. E ela não se perde, ela avança em cor e em música, a gente lê com gosto, com emoção, com felicidade.
Maravilhosa Cecilia, me digam, quem foi essa mulher? Voces entendem agora? Ela não fazia poesia, ela não escrevia versos, ela é poesia. Cecilia me lembra árvore.
Há muito de Lorca nela. Luas, verdes, rios, galos. Mas ela é mulher. Ela é fértil. As coisas nascem nela, suas palavras fazem brotar vida.
Mas Cecilia fala muito de morte. E a morte em Cecilia é passagem, é despedida, é mistério. Transcende.
Eu adoraria citar versos e versos, transcrever sua obra, inteira. Ela não tem poema fraco, ela é sem erros. É incapaz de não fazer luz.
Como a borboleta ela é lagarta e voa, como o jumento ela é nobre, e como a água ela traz e leva embora. Lua grande em céu pequeno.
Eu amo Cecilia.
Eliot, Wallace Stevens, Pound são eruditos da palavra, são filósofos da vida, são poetas da existência e do tempo. Mas não são poesia. E o fato de serem sublimes ( considero Eliot o maior poeta dos últimos 200 anos ) mostra que não estou julgando talento, estou tentando explicar um estado de alma. Talvez os poetas que não são poesia sejam mais filosóficos.
Assim como Keats ou Rilke, Cecilia Meireles é pura poesia. Tudo em que ela emprega sua atenção se faz verso. Ela é encantadora.
Como elogiar o bastante esses versos que sinto serem perfeitos? Frases que me dão lágrimas e fazem com que brote vida no papel e na tinta. O que posso dizer?
Leia.
Leia Cecilia. Leia essa elegia que ela fez para a avó morta, uma sucessão de imagens belíssimas e de uma dor de verdade. de saudade, de solidão. Ela consegue ver a poesia ao redor de tudo, ela canta a dor de saber que os olhos não mais verão as coisas.
Mas há tanto mais. A poesia em que ela chora a morte de uma borboleta, aquela que louva uma cigarra, a amorosa canção para jumentos, para cães, para amigas.
Cecilia escreveu um poema sobre sua primeira infancia que é tudo aquilo que pode ser sentido sobre todas as infancias. E ela não se perde, ela avança em cor e em música, a gente lê com gosto, com emoção, com felicidade.
Maravilhosa Cecilia, me digam, quem foi essa mulher? Voces entendem agora? Ela não fazia poesia, ela não escrevia versos, ela é poesia. Cecilia me lembra árvore.
Há muito de Lorca nela. Luas, verdes, rios, galos. Mas ela é mulher. Ela é fértil. As coisas nascem nela, suas palavras fazem brotar vida.
Mas Cecilia fala muito de morte. E a morte em Cecilia é passagem, é despedida, é mistério. Transcende.
Eu adoraria citar versos e versos, transcrever sua obra, inteira. Ela não tem poema fraco, ela é sem erros. É incapaz de não fazer luz.
Como a borboleta ela é lagarta e voa, como o jumento ela é nobre, e como a água ela traz e leva embora. Lua grande em céu pequeno.
Eu amo Cecilia.
OH! DIVINA DECADÊNCIA!- CABARET, UMA OBRA DEFINITIVA DE BOB FOSSE
Às vezes penso que se Deus existisse e Ele me desse a graça de um novo papel nesta vida, eu iria querer ser Gauguin ou Heminguay. Penso que diria isso a ele. Mas não, mais que Clint ou John Wayne, eu queria ser Bob Fosse!
Na entrega dos Oscars de 1972 ele concorria com O Poderoso Chefão. E Cabaret levou melhor direção, atriz, ator coadjuvante, fotografia e edição. Nesse ano Fosse bateu um recorde que jamais será batido: levou no mesmo ano o Tony, por Pippin, o Emmy por Liza com Z, e o Oscar por este soberbo Cabaret. Quem se habilita?
All That Jazz mostra bem quem foi Fosse. Mas é Cabaret o filme feito para se descobrir esse gênio do visual e da dança. Para quem não gosta de musicais, eis o filme que mudará seu conceito.
Baseado em textos de Christopher Isherwood, o filme, de produção independente, se passa na Berlin de 1931. Tempo de sexo, de medo, de glamour decadente, de ilusões. Vemos um inglês que chega a essa cidade-mito. Lá, ele conhece americana que tenta ser atriz e que na verdade é uma dançarina de cabaret. Os dois se envolvem com gigolô, com judia rica e com milionário gastador. A história parece banal, jamais é. Fosse insere nesse enredo toda a maldade latente do período, toda a histeria da diversão a qualquer preço, a cegueira de uma elite devassa. Gays, lésbicas, travestis, muita bebida, música, sexo sujo, e os jovens nazistas pairando como abutres.
O filme visto hoje ( havia o visto anos atrás, em especial de Natal da Globo ), impressiona. É um retrato perfeito do período. Há uma cena em que jovens alemães cantam uma patriótica ode à nação alemã que explica em dois minutos o porquê do nazismo. É aterrador, e pior que isso; voce entende os jovens arianos. Só essa cena justifica o filme. Mas há mais.
Em 1972 Cabaret era obrigatório para os modernos de então. E fica lógico de onde o movimento glitter ( incluindo Ney Matogrosso ) tirou seu visual e seu espírito de "decadência diáfana". O que hoje voce vê em clubes gays, os cabelos, as poses, o modo de falar, está todo na Sally Bowles de Liza Minelli. Ela é a mãe da parada gay da Paulista.
A atuação de Liza ( atriz de que nunca gostei ) é mágica. Seu personagem parece raso a princípio, mas vemos lentamente sua transformação, seu desabrochar, e ela acaba nos pegando. Sally é o glamour fracassado, o sexo sem amor, o desejo pelo falso. E então notamos coisa bela e maldita:
O mundo de Cabaret é o nosso mundo. A vida deste século de desejo vazio e histeria feliz é nosso mundo desde então. Este filme confirma mais uma vez que nosso tempo nasceu em Vienna e Berlin. Há o mesmo sexo livre e os mesmos entorpecimentos baratos, diversões podres, corpos aviltados e dessacralizados. Mas quais são os nazis de hoje? Qual a nuvem que paira sobre nós?
Os números musicais são antológicos. Money é de rever para sempre. Mas Willkommem, Cabaret e Two Ladies também. Repare no estilo Fosse: mãos que dançam, braços torcidos, cintura em cópula, jazz nos rostos ferinos. Mais sexy é impossível. Tudo mudou com Bob.
O filme diverte, enoja, emociona muito e é de uma beleza plástica inspiradora. Fosse coloca o mestre de cerimonias do cabaret como um tipo de Lucifer apresentador. Os pequenos flashs em que o vemos rindo ou piscando são maravilhosos. São toques de pimenta que fazem toda a diferença.
E temos ainda um dos melhores finais da história do cinema. Final que não comento, mas que é de uma simplicidade e de uma contundência infalível. O silêncio impera.
Cabaret é o tipo de filme que dignificava o Oscar e é um exemplo do tipo de cinema que se torna cada ano mais raro: artístico sem ser chato, divertido sem ser tolo, pop e ao mesmo tempo complexo, alternativo e ao mesmo tempo simples.
A vida é um Cabaret meu velho, e isso voce tem de saber.
PS saudades de tempo em que a Globo passava isto como especial de natal....
Na entrega dos Oscars de 1972 ele concorria com O Poderoso Chefão. E Cabaret levou melhor direção, atriz, ator coadjuvante, fotografia e edição. Nesse ano Fosse bateu um recorde que jamais será batido: levou no mesmo ano o Tony, por Pippin, o Emmy por Liza com Z, e o Oscar por este soberbo Cabaret. Quem se habilita?
All That Jazz mostra bem quem foi Fosse. Mas é Cabaret o filme feito para se descobrir esse gênio do visual e da dança. Para quem não gosta de musicais, eis o filme que mudará seu conceito.
Baseado em textos de Christopher Isherwood, o filme, de produção independente, se passa na Berlin de 1931. Tempo de sexo, de medo, de glamour decadente, de ilusões. Vemos um inglês que chega a essa cidade-mito. Lá, ele conhece americana que tenta ser atriz e que na verdade é uma dançarina de cabaret. Os dois se envolvem com gigolô, com judia rica e com milionário gastador. A história parece banal, jamais é. Fosse insere nesse enredo toda a maldade latente do período, toda a histeria da diversão a qualquer preço, a cegueira de uma elite devassa. Gays, lésbicas, travestis, muita bebida, música, sexo sujo, e os jovens nazistas pairando como abutres.
O filme visto hoje ( havia o visto anos atrás, em especial de Natal da Globo ), impressiona. É um retrato perfeito do período. Há uma cena em que jovens alemães cantam uma patriótica ode à nação alemã que explica em dois minutos o porquê do nazismo. É aterrador, e pior que isso; voce entende os jovens arianos. Só essa cena justifica o filme. Mas há mais.
Em 1972 Cabaret era obrigatório para os modernos de então. E fica lógico de onde o movimento glitter ( incluindo Ney Matogrosso ) tirou seu visual e seu espírito de "decadência diáfana". O que hoje voce vê em clubes gays, os cabelos, as poses, o modo de falar, está todo na Sally Bowles de Liza Minelli. Ela é a mãe da parada gay da Paulista.
A atuação de Liza ( atriz de que nunca gostei ) é mágica. Seu personagem parece raso a princípio, mas vemos lentamente sua transformação, seu desabrochar, e ela acaba nos pegando. Sally é o glamour fracassado, o sexo sem amor, o desejo pelo falso. E então notamos coisa bela e maldita:
O mundo de Cabaret é o nosso mundo. A vida deste século de desejo vazio e histeria feliz é nosso mundo desde então. Este filme confirma mais uma vez que nosso tempo nasceu em Vienna e Berlin. Há o mesmo sexo livre e os mesmos entorpecimentos baratos, diversões podres, corpos aviltados e dessacralizados. Mas quais são os nazis de hoje? Qual a nuvem que paira sobre nós?
Os números musicais são antológicos. Money é de rever para sempre. Mas Willkommem, Cabaret e Two Ladies também. Repare no estilo Fosse: mãos que dançam, braços torcidos, cintura em cópula, jazz nos rostos ferinos. Mais sexy é impossível. Tudo mudou com Bob.
O filme diverte, enoja, emociona muito e é de uma beleza plástica inspiradora. Fosse coloca o mestre de cerimonias do cabaret como um tipo de Lucifer apresentador. Os pequenos flashs em que o vemos rindo ou piscando são maravilhosos. São toques de pimenta que fazem toda a diferença.
E temos ainda um dos melhores finais da história do cinema. Final que não comento, mas que é de uma simplicidade e de uma contundência infalível. O silêncio impera.
Cabaret é o tipo de filme que dignificava o Oscar e é um exemplo do tipo de cinema que se torna cada ano mais raro: artístico sem ser chato, divertido sem ser tolo, pop e ao mesmo tempo complexo, alternativo e ao mesmo tempo simples.
A vida é um Cabaret meu velho, e isso voce tem de saber.
PS saudades de tempo em que a Globo passava isto como especial de natal....
PROVA DE QUE A PAIXÃO MATA: EXILE ON MAIN STREET- THE ROLLING STONES
Comento o dvd recém lançado.
Scorsese, Benicio del Toro, Black Eye Peas, Liz Phair, Jack White, Kings of Leon, Don Was nos comentários. Primeira surpresa: foi o primeiro disco gravado fora de estúdio. Isso, em 1971, foi considerado tontice. E foi. Uma apaixonada, apaixonante e definitiva tontice.
É dificil para mim falar deste disco. Ele é o enigma, o nó e a morte. O enterro dos anos 60 e desde então o desafio para todas as bandas.
Entenda. Na história do rock todo cara tenta uma vez fazer seu Sgt. Peppers ou seu Exile. Bandas mais metidas a besta tentam um Peppers, bandas carregadas de raiva tentam um Exile. Ninguém chega lá, mas é bacana tentar.
E estranhamente, todas morrem nesse processo. Ou voce duvida que os Stones terminaram após Exile on Main Street ?
( Assim como o Clash morre com London Calling, os Pumpkins com Mellon Collie e o Led com Graffitti ).
Vamos lá....
Naquele tempo o governo trabalhista de Wilson resolveu taxar fortunas acima de um milhão de libras. Se voce ganhasse seu milhão, ficava com setenta mil libras!!!! Nesse processo, várias bandas inglesas fugiram da ilha. Mais fácil dizer quem ficou: Faces ( até 1975 ) e Paul MacCartney ( na Escócia ). Todos aqueles que fugiram foram chamados de anti-povão e passaram a ser esnobados pela classe operária inglesa ( e foi isso que abriu as portas para o punk ). Alguns adoraram ir para New York ou LA, outros morreram de saudades e perderam a inspiração. Na primeira parte do dvd ficamos sabendo que os Stones eram extremamente britânicos e detestaram sair da ilha. Sentiam falta do chá, do leite, das casas, dos jardins e do clima. Foram para Nice, onde Keith alugou uma mansão.
Resolveram gravar um novo disco, e como os studios franceses eram péssimos, transformaram o porão da mansão em estúdio. Detalhe: o imenso porão era quente, úmido, cheio de mofo, de goteiras e escuro. Eis o clima de Exile.
Pessoas começaram a ir pra lá. Tudo gente boa: mafiosos italianos, traficantes de Marselha, prostitutas da Cote d'Azur, astros do rock, amigos ingleses, desconhecidos da França, ladrões. Gente entrava e saía e crianças ( filhos dos Stones ) brincavam pelos corredores enquanto seus pais bebiam, se drogavam e tocavam. Foram nove meses nessa vida de sol, doideira e música. E esse é outro lado de Exile.
O dvd é cheio de fotos em p/b da época. Jamais houve banda mais fotografada e mais fotogênica. Muito do sucesso dos Stones se deve ao visual. Eles sabiam captar o clima do tempo e transformar isso em desafio visual. O Jagger de 1966 é uma linda bicha glamurosa. Em 1972 ele é um playboy do alto mundo. Keith, ainda muito jovem e muito belo, já é o pirata bandido, o rebelde cowboy....mas a surpresa: eles são tãaaaao ingleses!
E vemos as fotos de Anita Pallemberg.
Anita foi paixão minha de adolescencia. Eu queria ser Brian Jones e queria encontrar a Anita do Brasil. Jamais a achei. Anita Pallemberg namorou Brian e o largou por Keith. Foi isso que começou a destruir Brian Jones. Keith e Anita ficaram juntos por dez anos e tiveram dois filhos. No dvd vemos confirmada a lenda: se Anita fez de Brian Jones-Brian Jones, ela fez de Keith, Keith Richards. Ela era a loucura verdadeira, ela é que se drogava com heroína, ela é que fazia sexo livre. E ela era maravilhosamente linda. Com seu cabelo louro à Brian, seus vestidos listrados e seu corpo magro e atlético. E um sorriso capaz de matar de paixão.
Mas acontece uma coisa mágica. Há uma entrevista com a Anita de hoje. E é assustador!!!!! Como sempre suspeitei, ela é uma bruxa!!!!! Tornou-se uma ruína de sexo indefinido, assustadoramente sólida, marcada, rouca, endiabrada. Lembra o velho Miles Davis e mais que isso TORNOU-SE KEITH RICHARDS!!!!! Separados desde 1980, são a imagem de duas almas gêmeas. Idênticos. Amor verdadeiro diante de seus olhos. Wild Horses foi pra ela.
O processo de gravação era puro estilo jazz. As pessoas iam ao porão sem nada em mente. Começavam a tocar e viam o que saía. Se a coisa prometesse, gravavam. O estilo Keith era começar as dez da noite e ir direto até as três da tarde. Jagger parava a meia-noite. Nove meses nisso, para se gravar nove músicas.
Estou evitando falar dessas músicas. Liz Phair fala exatamente o que sinto: Exile é meu e não gosto de dividi-lo com ninguém. Da febre demoníaca de Rocks Off até o desespero ateu de Soul Survivor, tudo nele é como uma febre, uma possessão e também uma viagem pelo melhor da América. Soul, rock, blues e country. As melhores músicas da melhor das bandas.
Quando o disco saiu a crítica não entendeu nada. Era um som muito sujo, mal gravado, cheio de ecos e de agudos. Não tinha hits. Não parecia um disco de uma super banda.
Lentamente ele foi se tornando um mito e é hoje considerado um dos 3 melhores discos de todos os tempos. E é o fim de uma paixão.
Aqui morre a relação íntima entre Jagger e Keith. Jagger se casa com Bianca e se torna adulto. Aqui morre a relação dos Stones com o sub-mundo. Eles se dispersam por NY, Paris e Nice, cada um com sua vida. Aqui morre a revolução dos anos 60.
A primeira vez que o escutei, já fã de Let It Bleed e de Beggars Banquet, o odiei. Me deu medo, angústia, vazio. O disco me pareceu feio, desesperado, sem "beleza". Demorou para o aceitar. Quando aceitei, entendi. Há algo de muito profundo nele. Algo de ancestral, de vudu. Ele é uma luta entre o paganismo e o cristianismo. Ele é ateu e tenta deseperadamente crer. Exile é sim um exílio.
Se um dia voce passar na frente de minha casa e ouvir Happy sendo tocada a alto volume, saiba que isso significa que estou apaixonado outra vez. Eu nunca havia notado, mas sempre que começo a amar ponho Happy pra rodar e rodar e rodar.
E se um dia voce for a meu enterro, coloque Sweet Virginia.
Bem, o dvd termina e quando saio de casa estou diferente. Lembro então o porque de eu ter amado Brian, Mick, Keith, Charlie, Marianne e Anita com tanta intensidade. Lembro do porque de eles terem salvado minha vida aos 15 anos e me iluminarem desde então.
Saio de casa e me sinto completamente solto. Livre de qualquer medo. Estou pouco me lixando. Estou dizendo foda-se para a morte, para a solidão ou para voce. Estou deixando sangrar, deixando ir, deixando rolar. E esse foda-se é a atitude saudável que a banda de mr. Jagger trouxe ao mundo. Foda-se.
Se voce está nessa este dvd é só seu.
Scorsese, Benicio del Toro, Black Eye Peas, Liz Phair, Jack White, Kings of Leon, Don Was nos comentários. Primeira surpresa: foi o primeiro disco gravado fora de estúdio. Isso, em 1971, foi considerado tontice. E foi. Uma apaixonada, apaixonante e definitiva tontice.
É dificil para mim falar deste disco. Ele é o enigma, o nó e a morte. O enterro dos anos 60 e desde então o desafio para todas as bandas.
Entenda. Na história do rock todo cara tenta uma vez fazer seu Sgt. Peppers ou seu Exile. Bandas mais metidas a besta tentam um Peppers, bandas carregadas de raiva tentam um Exile. Ninguém chega lá, mas é bacana tentar.
E estranhamente, todas morrem nesse processo. Ou voce duvida que os Stones terminaram após Exile on Main Street ?
( Assim como o Clash morre com London Calling, os Pumpkins com Mellon Collie e o Led com Graffitti ).
Vamos lá....
Naquele tempo o governo trabalhista de Wilson resolveu taxar fortunas acima de um milhão de libras. Se voce ganhasse seu milhão, ficava com setenta mil libras!!!! Nesse processo, várias bandas inglesas fugiram da ilha. Mais fácil dizer quem ficou: Faces ( até 1975 ) e Paul MacCartney ( na Escócia ). Todos aqueles que fugiram foram chamados de anti-povão e passaram a ser esnobados pela classe operária inglesa ( e foi isso que abriu as portas para o punk ). Alguns adoraram ir para New York ou LA, outros morreram de saudades e perderam a inspiração. Na primeira parte do dvd ficamos sabendo que os Stones eram extremamente britânicos e detestaram sair da ilha. Sentiam falta do chá, do leite, das casas, dos jardins e do clima. Foram para Nice, onde Keith alugou uma mansão.
Resolveram gravar um novo disco, e como os studios franceses eram péssimos, transformaram o porão da mansão em estúdio. Detalhe: o imenso porão era quente, úmido, cheio de mofo, de goteiras e escuro. Eis o clima de Exile.
Pessoas começaram a ir pra lá. Tudo gente boa: mafiosos italianos, traficantes de Marselha, prostitutas da Cote d'Azur, astros do rock, amigos ingleses, desconhecidos da França, ladrões. Gente entrava e saía e crianças ( filhos dos Stones ) brincavam pelos corredores enquanto seus pais bebiam, se drogavam e tocavam. Foram nove meses nessa vida de sol, doideira e música. E esse é outro lado de Exile.
O dvd é cheio de fotos em p/b da época. Jamais houve banda mais fotografada e mais fotogênica. Muito do sucesso dos Stones se deve ao visual. Eles sabiam captar o clima do tempo e transformar isso em desafio visual. O Jagger de 1966 é uma linda bicha glamurosa. Em 1972 ele é um playboy do alto mundo. Keith, ainda muito jovem e muito belo, já é o pirata bandido, o rebelde cowboy....mas a surpresa: eles são tãaaaao ingleses!
E vemos as fotos de Anita Pallemberg.
Anita foi paixão minha de adolescencia. Eu queria ser Brian Jones e queria encontrar a Anita do Brasil. Jamais a achei. Anita Pallemberg namorou Brian e o largou por Keith. Foi isso que começou a destruir Brian Jones. Keith e Anita ficaram juntos por dez anos e tiveram dois filhos. No dvd vemos confirmada a lenda: se Anita fez de Brian Jones-Brian Jones, ela fez de Keith, Keith Richards. Ela era a loucura verdadeira, ela é que se drogava com heroína, ela é que fazia sexo livre. E ela era maravilhosamente linda. Com seu cabelo louro à Brian, seus vestidos listrados e seu corpo magro e atlético. E um sorriso capaz de matar de paixão.
Mas acontece uma coisa mágica. Há uma entrevista com a Anita de hoje. E é assustador!!!!! Como sempre suspeitei, ela é uma bruxa!!!!! Tornou-se uma ruína de sexo indefinido, assustadoramente sólida, marcada, rouca, endiabrada. Lembra o velho Miles Davis e mais que isso TORNOU-SE KEITH RICHARDS!!!!! Separados desde 1980, são a imagem de duas almas gêmeas. Idênticos. Amor verdadeiro diante de seus olhos. Wild Horses foi pra ela.
O processo de gravação era puro estilo jazz. As pessoas iam ao porão sem nada em mente. Começavam a tocar e viam o que saía. Se a coisa prometesse, gravavam. O estilo Keith era começar as dez da noite e ir direto até as três da tarde. Jagger parava a meia-noite. Nove meses nisso, para se gravar nove músicas.
Estou evitando falar dessas músicas. Liz Phair fala exatamente o que sinto: Exile é meu e não gosto de dividi-lo com ninguém. Da febre demoníaca de Rocks Off até o desespero ateu de Soul Survivor, tudo nele é como uma febre, uma possessão e também uma viagem pelo melhor da América. Soul, rock, blues e country. As melhores músicas da melhor das bandas.
Quando o disco saiu a crítica não entendeu nada. Era um som muito sujo, mal gravado, cheio de ecos e de agudos. Não tinha hits. Não parecia um disco de uma super banda.
Lentamente ele foi se tornando um mito e é hoje considerado um dos 3 melhores discos de todos os tempos. E é o fim de uma paixão.
Aqui morre a relação íntima entre Jagger e Keith. Jagger se casa com Bianca e se torna adulto. Aqui morre a relação dos Stones com o sub-mundo. Eles se dispersam por NY, Paris e Nice, cada um com sua vida. Aqui morre a revolução dos anos 60.
A primeira vez que o escutei, já fã de Let It Bleed e de Beggars Banquet, o odiei. Me deu medo, angústia, vazio. O disco me pareceu feio, desesperado, sem "beleza". Demorou para o aceitar. Quando aceitei, entendi. Há algo de muito profundo nele. Algo de ancestral, de vudu. Ele é uma luta entre o paganismo e o cristianismo. Ele é ateu e tenta deseperadamente crer. Exile é sim um exílio.
Se um dia voce passar na frente de minha casa e ouvir Happy sendo tocada a alto volume, saiba que isso significa que estou apaixonado outra vez. Eu nunca havia notado, mas sempre que começo a amar ponho Happy pra rodar e rodar e rodar.
E se um dia voce for a meu enterro, coloque Sweet Virginia.
Bem, o dvd termina e quando saio de casa estou diferente. Lembro então o porque de eu ter amado Brian, Mick, Keith, Charlie, Marianne e Anita com tanta intensidade. Lembro do porque de eles terem salvado minha vida aos 15 anos e me iluminarem desde então.
Saio de casa e me sinto completamente solto. Livre de qualquer medo. Estou pouco me lixando. Estou dizendo foda-se para a morte, para a solidão ou para voce. Estou deixando sangrar, deixando ir, deixando rolar. E esse foda-se é a atitude saudável que a banda de mr. Jagger trouxe ao mundo. Foda-se.
Se voce está nessa este dvd é só seu.
AMOR AGORA
Na escola uma menina me fala que deve ter sido melhor "o meu tempo".
Ela diz que a mãe lhe disse que no meu tempo as meninas se apaixonavam com um beijo e os meninos nunca esqueciam esse beijo.
Lhe conto que eu ficava feliz com o calor da mão de uma menina. Nossa timidez nos garantia acesso ao paraíso.
Penso depois...
Que mais que isso era bom ouvir uma banda nova que a nada remetia. Que quando peço por novidades, o que desejo é um novo tipo de música e não um bando de americanos com 15 anos imitando os Beastie Boys ou os Byrds.
Que deve ter sido lindo acompanhar o nascimento do cinema ou a criação do cubismo. Mais que isso, a invenção do futebol ou do surf.
Quanto tempo sem que se invente um novo esporte!!!!!
A alegria de uma nova ciência, de uma nova ideologia, de um novo modo de viver.
Os primeiros hippies, os primeiros existencialistas, os romanticos alemães......
Me cansa essa repetição "novidadeira" de beijos já beijados.
Esse cinema que de novo tem só a maquiagem, pois os roteiros e a forma de produção são velhos de oitenta anos.
Não precisamos de um novo Rimbaud ou de outro Keats. Necessitamos é de um mundo novo onde a inocência viva.
Ela diz que a mãe lhe disse que no meu tempo as meninas se apaixonavam com um beijo e os meninos nunca esqueciam esse beijo.
Lhe conto que eu ficava feliz com o calor da mão de uma menina. Nossa timidez nos garantia acesso ao paraíso.
Penso depois...
Que mais que isso era bom ouvir uma banda nova que a nada remetia. Que quando peço por novidades, o que desejo é um novo tipo de música e não um bando de americanos com 15 anos imitando os Beastie Boys ou os Byrds.
Que deve ter sido lindo acompanhar o nascimento do cinema ou a criação do cubismo. Mais que isso, a invenção do futebol ou do surf.
Quanto tempo sem que se invente um novo esporte!!!!!
A alegria de uma nova ciência, de uma nova ideologia, de um novo modo de viver.
Os primeiros hippies, os primeiros existencialistas, os romanticos alemães......
Me cansa essa repetição "novidadeira" de beijos já beijados.
Esse cinema que de novo tem só a maquiagem, pois os roteiros e a forma de produção são velhos de oitenta anos.
Não precisamos de um novo Rimbaud ou de outro Keats. Necessitamos é de um mundo novo onde a inocência viva.
MUSICA
Musica deve ser caminho para algo maior.
Mas ela tem sido, desde sempre, estradinha repetida e conhecida.
Não levo a sério o gosto musical de quem só escuta rock inglês atual. Mas também desgosto daqueles que dizem que bom é Beatles e Stones.
Passar a vida com Caetano e Gil é pouco. Viver com Miles e Cole Porter é pouco.
Tem gente que se contenta com Bach e Beethoven. Tem gente que reescuta Sinatra indefinidamente.
Musica nunca deveria ser preconceito.
Já chorei com Tonico e Tinoco.
Música francesa ( ne me quitte pas e Aznavour ), musica flamenca e sinfonias de Haydn.
Jimi Hendrix com Beyoncé, Johnny Cash e Roberto Carlos ( nada se compara a Detalhes ).
Incredible String Band e Iggy Pop, Rap com Tom Jobim ( nada é como Wave )
Thelonious e Arthur Lee, Willie Nelson mais Cauby Peixoto.
LULA PENA.
Fado português de Portugal.
A cura do Brasil está na terrinha. No pequenino Portugal. Pedrinha a beira mar.
Ela canta e eu morro um pouco. De paixão.
A maior cantora deste e doutros mundos.
Musica foi feita pra isso. Pra abrir.
Mas ela tem sido, desde sempre, estradinha repetida e conhecida.
Não levo a sério o gosto musical de quem só escuta rock inglês atual. Mas também desgosto daqueles que dizem que bom é Beatles e Stones.
Passar a vida com Caetano e Gil é pouco. Viver com Miles e Cole Porter é pouco.
Tem gente que se contenta com Bach e Beethoven. Tem gente que reescuta Sinatra indefinidamente.
Musica nunca deveria ser preconceito.
Já chorei com Tonico e Tinoco.
Música francesa ( ne me quitte pas e Aznavour ), musica flamenca e sinfonias de Haydn.
Jimi Hendrix com Beyoncé, Johnny Cash e Roberto Carlos ( nada se compara a Detalhes ).
Incredible String Band e Iggy Pop, Rap com Tom Jobim ( nada é como Wave )
Thelonious e Arthur Lee, Willie Nelson mais Cauby Peixoto.
LULA PENA.
Fado português de Portugal.
A cura do Brasil está na terrinha. No pequenino Portugal. Pedrinha a beira mar.
Ela canta e eu morro um pouco. De paixão.
A maior cantora deste e doutros mundos.
Musica foi feita pra isso. Pra abrir.
O AMOR E O OCIDENTE- DENIS DE ROUGEMONT
Leia esta segunda parte após o texto postado abaixo.
Volto ao tema por considerá-lo fascinante. E aproveito para contar duas histórias reais.
Me apaixonei em 1998. De forma fulminante. E fui maravilhosamente correspondido. A nossa história se desenvolve de uma forma que confirma tudo o que é descrito no livro de Rougemont. Atenção: em 98 eu não conhecia o livro.
Eu e essa menina começamos a sair. Primeiro obstáculo, a idade. Segundo, ela era amada por amigo meu. Terceiro, o estilo de vida dela. Mas saíamos sem planejar nada. Simplesmente íamos ficando juntos após as aulas, conversando e rindo. Jantávamos e entrávamos no carro dela. Mais conversas e então adormecíamos. Dormíamos juntos, no carro, sem nos tocar, sem nada saber. Depois de uma semana assim, começamos a dormir abraçados. Acordávamos na rua, vidros molhados, em absoluta castidade.
Posso dizer, com certeza, que jamais fui tão feliz. Ir para a escola após dormir ao lado dela era adentrar o céu. E uma noite a beijei. Apenas beijo, longo e faminto beijo. E se fez o namoro. Apaixonado e infernal.
Todo dia havia uma briga, toda hora um motivo criado para o medo de perdê-la. Todo dia a reafirmação da paixão. Choro, loucura, muita bebida, perda absoluta de controle. Neste nosso mundo só havia eu e ela, e meu único desejo era estar com ela, mesmo no inferno em que nos enfiávamos.
O sexo era bizarro. Eu não a penetrava. Ela gozava com infindáveis preliminares. Eu segurava meu prazer. Eu estava a anos de saber que essa é uma técnica hindú. Eu pensava ser apenas neurose ( é fantástico como dizemos "é neurose" e tudo está respondido ).
E como dois amantes do século XII, sem o saber, e portanto perdidos em atos sem simbolismo, em movimentos inconscientes e cegos, começamos a flertar com a morte.
Hoje eu saberia que toda paixão leva a morte. A morte da própria paixão ou a morte simbólica daquele que voce era. Eu saberia que a paixão foi um movimento real, religioso, que via nesse sentimento uma ascese. Já que o mundo era o mal, a paixão nos levaria a "morte maravilhosa", ao encontro com Deus através da mulher amada. Se o mundo material é de Lucifer, é o amor-paixão nossa vingança.
Mas eu não tinha toda essa chave. Eu me debatia em sentimentos que nada significavam. Apenas o desejo de tê-la e o impulso de profanar esse amor. Pensei que fosse morrer. Na verdade eu queria e pensei em morrer. O sentimento era tão forte que me levava ao absurdo. E ela, pobre menina, caminhava comigo rumo à dissolução.
Tudo morreu em mistura de ódio, tristeza, sangue, vazio absoluto e saudade. Daria um milhão de histórias e está o sentimento vivo, em algum canto de mim.
Para sempre.
A confirmação de Tristão.
Mas existe o casamento cristão. Um outro modo de ter amor. Um modo oposto a paixão.
Conheci uma menina. E por ela ser nobre, ser bonita, ser alegre e amorosa, eu escolhi amá-la.
Conscientemente e dono de mim-mesmo ( como um cristão, ser que não é guiado por magia, que não crê em Eros ) eu decidi que ela seria minha companheira para sempre. Eu planejei ter filhos e casar. Eu resolvi fazê-la feliz e ser dela. Agape. Me doei.
Não há o que contar. Não foi Tristão e Isolda. Wagner não faria a música. Mozart a faria. Foi feliz, sem dramas, com humor e leveza. Mas terminou.
Terminou também sem dramas, por motivos reais, sem loucura. Foi um amor cristão.
Nós tendemos a não dar valor a herança cultural que trazemos em nós. No máximo admitimos o inconsciente freudiano e a influência da sociedade e do mercado. Esquecemos dos milhares de anos de paganismo e de religiões exotéricas em que todos vivemos. Esquecemos.
Mas tudo está lá, em nós. Guiando nossos atos e nosso destino. Fazendo com que vejamos imagens e falemos palavras que já não têm seu significado original. Mas que ainda são vistas e ouvidas. Somos como macacos treinados, usamos coisas sem saber o que significam.
Dou um exemplo clássico:
Todos pensam no Édipo como o desejo do filho pela mãe e a proibição dada pelo pai. O que esquecemos é que entre os celtas o incesto era tolerado. E não pensamos mais no que essa mãe simbolizava.
A mãe é a volta ao antes de nascer. O impulso é o de voltar ao éter, volta ao estado de não-nascimento. Para o homem, a mulher sempre significará essa possibilidade: sair do mundo material e através do amor voltar ao mundo do espírito. O pai é o dono da clava, o que obriga-nos a aceitar a vida, a respeitar a missão, a não se entregar a morte.
Verdade? Fantasia? Quem sabe?
Outro belo dado do livro.
Tendemos a super-valorizar o oriente como terra da sabedoria. Sem dúvida eles têm muito a nos ensinar. Mas perdemos o hábito de pensar no que o ocidente é diferenciado. Explico.
No Iran se apedrejam adúlteras e na Arábia cortam a mão de ladrões. È claro que aqui vivemos em meio a crueldades e abominações, mas hã uma diferença: o conflito. O cristianismo, movimento que define o ocidente, dá pela primeira vez ao homem a idéia do bem.
Tanto a indiferença budista como o fatalismo islamico não se preocupam radicalmente com o amor ao próximo. Se nós ainda torturamos e matamos, sofremos como um todo com isso. Antes do cristianismo, a crueldade era ato de indiferença. Amor ao próximo foi momento de maior revolução. Radicalismo absoluto.
Vivemos desde então nesse embate entre um lado nosso que é obscuro, pagão, misterioso. Esse lado vê o mundo como treva, reino do mal e dá a cada ato a irresponsabilidade de ato inconsciente. Foi um deus ou um fado que nos fez fazer aquilo. Esse nosso lado crê na absoluta dualidade. E a paixão é aquilo que nos deixou de herança. Apaixonados somos pagãos todo o tempo. Passamos a viver num inferno terrestre com olhos para o céu ideal. Flertamos com a morte e nos dsligamos do mundo. E principalmente: cremos que tudo foi um destino, uma flecha de Eros, uma fatalidade.
O nosso outro lado, cristão ( mesmo para ateus ), cuida do jardim de Deus. Aceita o sacrifício do casamento e sabe que tudo se resolve aqui e agora, não no além. Além do amor ao outro, o cristianismo nos deu esse conceito de tempo: a vida é para ser vivida. Não se deve ser indiferente a ela, não se deve desperdiçar esse dom dado por Deus. Se no Japão o sucidio é um nobre ritual, aqui é um crime, jogar fora um presente divino. No cristianismo a vida é valorizada como jamais antes.
O primeiro mandamento: Amai a Deus como a si mesmo.
Qual o primeiro verbo? Amai. Amar a Deus ( aquele que te criou, ou seja, amar o ato criativo ) e amar a si mesmo ( valorizar sua vida e seu próprio amor ).
Ateu ou não, ninguém inventou melhor conselho desde então.
Volto ao tema por considerá-lo fascinante. E aproveito para contar duas histórias reais.
Me apaixonei em 1998. De forma fulminante. E fui maravilhosamente correspondido. A nossa história se desenvolve de uma forma que confirma tudo o que é descrito no livro de Rougemont. Atenção: em 98 eu não conhecia o livro.
Eu e essa menina começamos a sair. Primeiro obstáculo, a idade. Segundo, ela era amada por amigo meu. Terceiro, o estilo de vida dela. Mas saíamos sem planejar nada. Simplesmente íamos ficando juntos após as aulas, conversando e rindo. Jantávamos e entrávamos no carro dela. Mais conversas e então adormecíamos. Dormíamos juntos, no carro, sem nos tocar, sem nada saber. Depois de uma semana assim, começamos a dormir abraçados. Acordávamos na rua, vidros molhados, em absoluta castidade.
Posso dizer, com certeza, que jamais fui tão feliz. Ir para a escola após dormir ao lado dela era adentrar o céu. E uma noite a beijei. Apenas beijo, longo e faminto beijo. E se fez o namoro. Apaixonado e infernal.
Todo dia havia uma briga, toda hora um motivo criado para o medo de perdê-la. Todo dia a reafirmação da paixão. Choro, loucura, muita bebida, perda absoluta de controle. Neste nosso mundo só havia eu e ela, e meu único desejo era estar com ela, mesmo no inferno em que nos enfiávamos.
O sexo era bizarro. Eu não a penetrava. Ela gozava com infindáveis preliminares. Eu segurava meu prazer. Eu estava a anos de saber que essa é uma técnica hindú. Eu pensava ser apenas neurose ( é fantástico como dizemos "é neurose" e tudo está respondido ).
E como dois amantes do século XII, sem o saber, e portanto perdidos em atos sem simbolismo, em movimentos inconscientes e cegos, começamos a flertar com a morte.
Hoje eu saberia que toda paixão leva a morte. A morte da própria paixão ou a morte simbólica daquele que voce era. Eu saberia que a paixão foi um movimento real, religioso, que via nesse sentimento uma ascese. Já que o mundo era o mal, a paixão nos levaria a "morte maravilhosa", ao encontro com Deus através da mulher amada. Se o mundo material é de Lucifer, é o amor-paixão nossa vingança.
Mas eu não tinha toda essa chave. Eu me debatia em sentimentos que nada significavam. Apenas o desejo de tê-la e o impulso de profanar esse amor. Pensei que fosse morrer. Na verdade eu queria e pensei em morrer. O sentimento era tão forte que me levava ao absurdo. E ela, pobre menina, caminhava comigo rumo à dissolução.
Tudo morreu em mistura de ódio, tristeza, sangue, vazio absoluto e saudade. Daria um milhão de histórias e está o sentimento vivo, em algum canto de mim.
Para sempre.
A confirmação de Tristão.
Mas existe o casamento cristão. Um outro modo de ter amor. Um modo oposto a paixão.
Conheci uma menina. E por ela ser nobre, ser bonita, ser alegre e amorosa, eu escolhi amá-la.
Conscientemente e dono de mim-mesmo ( como um cristão, ser que não é guiado por magia, que não crê em Eros ) eu decidi que ela seria minha companheira para sempre. Eu planejei ter filhos e casar. Eu resolvi fazê-la feliz e ser dela. Agape. Me doei.
Não há o que contar. Não foi Tristão e Isolda. Wagner não faria a música. Mozart a faria. Foi feliz, sem dramas, com humor e leveza. Mas terminou.
Terminou também sem dramas, por motivos reais, sem loucura. Foi um amor cristão.
Nós tendemos a não dar valor a herança cultural que trazemos em nós. No máximo admitimos o inconsciente freudiano e a influência da sociedade e do mercado. Esquecemos dos milhares de anos de paganismo e de religiões exotéricas em que todos vivemos. Esquecemos.
Mas tudo está lá, em nós. Guiando nossos atos e nosso destino. Fazendo com que vejamos imagens e falemos palavras que já não têm seu significado original. Mas que ainda são vistas e ouvidas. Somos como macacos treinados, usamos coisas sem saber o que significam.
Dou um exemplo clássico:
Todos pensam no Édipo como o desejo do filho pela mãe e a proibição dada pelo pai. O que esquecemos é que entre os celtas o incesto era tolerado. E não pensamos mais no que essa mãe simbolizava.
A mãe é a volta ao antes de nascer. O impulso é o de voltar ao éter, volta ao estado de não-nascimento. Para o homem, a mulher sempre significará essa possibilidade: sair do mundo material e através do amor voltar ao mundo do espírito. O pai é o dono da clava, o que obriga-nos a aceitar a vida, a respeitar a missão, a não se entregar a morte.
Verdade? Fantasia? Quem sabe?
Outro belo dado do livro.
Tendemos a super-valorizar o oriente como terra da sabedoria. Sem dúvida eles têm muito a nos ensinar. Mas perdemos o hábito de pensar no que o ocidente é diferenciado. Explico.
No Iran se apedrejam adúlteras e na Arábia cortam a mão de ladrões. È claro que aqui vivemos em meio a crueldades e abominações, mas hã uma diferença: o conflito. O cristianismo, movimento que define o ocidente, dá pela primeira vez ao homem a idéia do bem.
Tanto a indiferença budista como o fatalismo islamico não se preocupam radicalmente com o amor ao próximo. Se nós ainda torturamos e matamos, sofremos como um todo com isso. Antes do cristianismo, a crueldade era ato de indiferença. Amor ao próximo foi momento de maior revolução. Radicalismo absoluto.
Vivemos desde então nesse embate entre um lado nosso que é obscuro, pagão, misterioso. Esse lado vê o mundo como treva, reino do mal e dá a cada ato a irresponsabilidade de ato inconsciente. Foi um deus ou um fado que nos fez fazer aquilo. Esse nosso lado crê na absoluta dualidade. E a paixão é aquilo que nos deixou de herança. Apaixonados somos pagãos todo o tempo. Passamos a viver num inferno terrestre com olhos para o céu ideal. Flertamos com a morte e nos dsligamos do mundo. E principalmente: cremos que tudo foi um destino, uma flecha de Eros, uma fatalidade.
O nosso outro lado, cristão ( mesmo para ateus ), cuida do jardim de Deus. Aceita o sacrifício do casamento e sabe que tudo se resolve aqui e agora, não no além. Além do amor ao outro, o cristianismo nos deu esse conceito de tempo: a vida é para ser vivida. Não se deve ser indiferente a ela, não se deve desperdiçar esse dom dado por Deus. Se no Japão o sucidio é um nobre ritual, aqui é um crime, jogar fora um presente divino. No cristianismo a vida é valorizada como jamais antes.
O primeiro mandamento: Amai a Deus como a si mesmo.
Qual o primeiro verbo? Amai. Amar a Deus ( aquele que te criou, ou seja, amar o ato criativo ) e amar a si mesmo ( valorizar sua vida e seu próprio amor ).
Ateu ou não, ninguém inventou melhor conselho desde então.
O AMOR E O OCIDENTE- DENIS DE ROUGEMONT
Porque acreditamos que só a dor ensina? E pensamos que tudo o que vale a pena vem com sofrimento? Porque toda paixão é insolúvel e infeliz? E principalmente, porque amamos essa dor de amor e lembramos com saudade aquela que nos fez mal maior? O que significa viver de verdade? Porque casar e ser feliz não rende filme, livro ou música e sofrer de amor rende admiração e 99% dos romances? De onde vem essa dor?
O homem ser masoquista não responde nada. O instinto de morte também nada diz. Quero saber porque esse instinto ( anti-natural ) existe. Denis de Rougemont, em 1938 lança este livro e em 1957 o revisa. É hoje tese irrefutada. Obrigatório.
Ele começa demonstrando a maior revolução psíquica da história: o século XII, o momento em que o casamento entra em crise e nasce o amor cortês. Primeiro os sintomas:
Antes a paixão era vista como doença, o casamento como a paz, a infidelidade era permitida e o homem se interessava sobretudo por política e guerra. O principal: a sabedoria viria pela vida. Viver era aprender.
A partir do século XII se instaura a crença de que se apaixonar é viver de verdade. O apaixonado é um herói. O casamento se torna a morte da paixão. O homem passa a se interessar por amor e poder e o saber nasce da dor, do sofrimento. Viver de verdade é sofrer e renascer.
Para explicar o porque dessa transformação ( que nada tem de cristã e sim de pagã ), Rougemont nos conta a saga de Tristão e Isolda, nascimento de todo romance e o movimento dos cátaros, irmandade herética que foi aniquilada pela igreja católica.
A saga de Tristão conta a história de cavaleiro que é enviado por rei a terra distante. Lá ele deverá escoltar princesa prometida a seu rei. Caindo vítima de feitiço, os dois se apaixonam, mas não realizam esse amor. Criam motivos para não se amarem e Tristão acaba por se casar com outra mulher, também chamada Isolda. A verdadeira Isolda casa-se com o rei e percebemos que o que os move é o amor ao amor e acima de tudo, UM IMENSO DESEJO DE MORTE. Apaixonados flertam com a morte. Eles enfrentam reis/maridos/noivos/tabús/perigos físicos; apaixonados bebem, tentam se matar, não comem, se desligam da vida, evitam amigos, evitam a família, se jogam. Apaixonados jamais se saciam e se um dia se saciam, MATAM esse sentimento. Tristão, no mágico século XII nos mostra tudo isso. Toda a tradição do romance está lá exposta. Mas, porque foi e é assim?
No tempo de Tristão a igreja cristã ainda lutava por se estabelecer. O casamento, base da sociedade, estava em crise. E seitas heréticas orientais apareciam. O europeu ainda estava próximo do paganismo. E principalmente: as pessoas ainda sabiam o porque de seus símbolos e de suas palavras. Ainda se sabia o porque da paixão e o porque de palavras como agonia, luz, noite, almas gêmeas, sede de corpo, sacrifício e doação.
Os CÁTAROS surgem no sul da França e falam provençal. Logo se espalham pelo norte da Itália e pela Ibéria. Fazem música e poesia. E têm uma visão dualista da vida. A igreja cristã irá os perseguir com furor e nada de seus passos restará. Mas, que ironia, inconscientemente carregamos sua herança. A poesia e a paixão, tal como a conhecemos nasce com eles. Suas imagens sobrevivem em nós, mas de modo cada vez mais pobre, cada vez mais vulgar, pois perdemos a chave de seu significado.
Eles acreditavam que o mundo foi criado por duas entidades. Deus criou o mundo do espírito. Lúcifer o mundo da matéria. Como homens, sentimos um grande desconforto em nosso corpo material e ansiamos de saudades pelo espírito, que vive no céu. A mulher é a guardiã das almas, ela através da maternidade faz nascer o corpo de Lúcifer/material, mas é ela também que pode levar o homem ao reino espiritual.
O amor é Deus, pois é espírito. O mundo é o mal, pois é Lúcifer. Sua igreja passa a se chamar A IGREJA DO AMOR.
Zombam do casamento cristão, pois o casamento abençoa a fornicação, e pregam a castidade, como única forma de amar espiritualmente. Mas fazem sexo carnal, SEM AMOR. Caminham pelas estradas cantando. Instituem a anima: saudade da perfeição.
Fato notável : é nesse tempo, onde a mulher deixa de ser banal e passa a ser mágica, que se modifica o jogo de xadrez. Surge a rainha, peça acima do rei. E nasce também uma crença bem conhecida: o mundo tem milhões de putas e apenas duas puras: a mãe e a amada.
Rougemont nos fala de uma crença da India. Para fazer a paixão nascer, voce deve dormir junto sem fazer sexo, depois beijar sem se tocar, e por fim transar, sem ejacular. Para a paixão se manter viva, sempre alguma coisa deve faltar. Há muito disso no amor cortês.
Com os cátaros, a poesia deixa de ser épica e se torna drama interior.
Para eles o pecado maior, base do casamento, É FAZER SEXO SEM AMOR com a benção da igreja!!! Violação de espírito e de alma. Sexo sem amor é descer ao nível mais material da vida. O bem maior é SEXO COM AMOR, encontro do eu com o outro eu, momento de ver que "eu sou voce". Mas esse momento só pode se dar na exaltação máxima do desejo, após todo um ritual galante, que visa aumentar a paixão, mantê-la. Sexo com amor é momento ápice de vida e entrada no reino noturno da morte, o encontro final com Deus.
Pois bem, essa é toda a criação mística do amor cortês. Cada sentimento e cada gesto tendo um significado profundo. Mas, com o tempo, toda essa mística se perdeu, porém tanto a linguagem como o hábito ficaram. Então sentimos " a agonia", "a dor", "o morrer em vida", "o prazer que dói", sem saber o porque de falarmos isso. Pior, nada tiramos dessa dor. Não mais sabemos para que serve a paixão, nada sabemos do sentido místico da união de espíritos que se unem para morrer.
Rougemont, que cita Freud várias vezes, diz que misticismo não é sublimação de impulso sexual, que arte não é sublimação, ao contrário, o sexo é que é um consolo, uma sublimação de um impulso místico. A vida da alma, ela exista ou não, é muito mais crucial e importante que o simples impulso sexual.
O século XIX, do qual somos ainda filhos obedientes, criou a "sabedoria" de que ser inteligente é REDUZIR O SUPERIOR AO INFERIOR. O significado ao significante, o espírito à matéria, o que é significativo ao que é insignificante. È um movimento que traduz o pensamento burguês: o que não compreendo não pode ter valor. É o ódio burguês ao poeta e ao aristocrata, dois parasitas que nada produzem.
Pois bem, se todo impulso sexual é um impulso rumo a alma, todo erotomaníaco é um MÍSTICO QUE NÃO SABE DE SUA CONDIÇÃO. Sua obssessão sexual, sempre insatisfeita, é uma ansiedade por transcendencia, por vida espiritual, por paixão; paixão que ele não sabe fazer viver, por matá-la todo dia em seu gozo imediato.
Do século XII até nossos dias, a história da paixão é a história do amor cortês cada dia mais profanado. TENTATIVAS CADA VEZ MAIS DESESPERADAS DE EROS SUBSTITUIR A TRANSCENDENCIA MÍSTICA POR UMA INTENSIDADE COMOVIDA.
Frase de La Rochefoulcauld : "Quantos homens se apaixonariam se jamais tivessem ouvido falar do amor?"
Mandamentos da Igreja do Amor:
Descrença na trindade
Alegria resplandescente.
Negação do casamento
Negação da guerra
Anticlericalismo
Vegetarianismo
Igualitarismo
Amor a mulher
Chegamos então a época carnal do homem: o século XVIII, época de luz, de racionalismo, de matéria. O amor se torna encontro de peles, contrato de bens, o flerte é um elaborado jogo de mentiras cujo único objetivo é a posse do corpo.
Mas é preciso SER para poder TER. Tristão tem uma mulher por ser um amante completo. Ele pode ter Isolda. No século XVIII Don Juan é amado por todas as mulheres, mas na verdade não pode ter nenhuma. Ele perdeu o dom do amor e passa a vida na busca, inconsciente, desse poder. Don Juan deixa de ser.
Juan procura a volúpia, Tristão realiza a suprema proeza: permanece casto. Pela não profanação, o amor de Tristão se eterniza e permanece jovem. Don Juan o profana e o mata.
Tristão é livre. Foge das regras, do pecado da carne ( não profana) e da obrigação do casamento. Não é religioso, pois não segue os rituais.
Don Juan está preso a seu instinto. Mais: ele precisa da sociedade para poder aviltá-la. Juan está preso a matéria.
ATENÇÃO! A castidade de Tristão não é a castidade dos padres. Tristão é casto por decisão de nobreza. Ele se dá esse compromisso. A castidade cristã é por imposição moral. Vem de fora.
Após o cínico século iluminista vem o romantismo.
O romantismo, já sem a chave mística do século XII, é sentimental, jamais espiritual. Usam todas as palavras, mas em sentido errado. Perdem a ingenuidade. Sentem que há algo por detrás da paixão, não sabem o que. Morrem ( literalmente ) pela amada, não pela alma.
Stendhal surge como o primeiro homem realmente moderno. Sente o vazio e o desejo de amar. Mas sua razão lhe diz que tudo é corpo, tudo é um DESEJO DO FÍSICO. Ele vive na angústia de ter de JUSTIFICAR RACIONALMENTE AQUILO QUE NÃO É RACIONAL.
Dá-se a invasão de romances, filmes, melodias de amor. Mas é um amor profanado, pobre, sem significado, vazio de mito, fadado a angústia do vazio.
Esse doce romantismo trai mais um desejo burguês: O DESEJO DE SE TER SEM SE PAGAR. Passamos a querer amor, mas sem abrir mão de nada, sem risco algum, sem morte.
Rougemont passa então a fazer algo que me deixou espantado: faz o paralelo entre a guerra e a paixão. E demonstra que o modo de se fazer a guerra sempre reflete a sociedade que a faz e a paixão que a inspira.
No século XII a guerra era ritual. Cavaleiros marcavam local e data para resolver a batalha. Não se lutava por um país. Lutava-se por um líder. Cada guerreiro tinha seu traje e seu brasão. Seu valor estava em sua alma: habilidade, fé e nobreza.
No século XIV a guerra se torna um negócio. Guerras são resolvidas por embaixadores. Soldados são comprados e às vezes a guerra se resolve so se comprar o exército inimigo. Há um horror pela morte: tenta-se matar o mínimo possível. Essa forma de guerrear termina com o canhão. Arma que é considerada covarde e imoral. Arma que torna o combate inútil.
No racional século XVIII se civiliza a guerra. Táticas, cidades abertas que não podem ser atacadas, movimentos matemáticos de tropas, campos de batalha escolhidos por seu bom ar, regras de captura. Até então o objetivo de toda guerra é a captura do chefe inimigo.
A partir da Primeira Guerra o objetivo deixa de ser capturar o chefe rival ou adquirir território. O objetivo é DESTRUIR COMPLETAMENTE O INIMIGO. Toda regra é jogada ao lixo. O soldado torna-se máquina de matar e resto de batalha. Não se deseja vencer para ter, deseja-se destruir.
Toda a evolução do modo de se ver e fazer a guerra acompanha toda a relação do homem com sua paixão. Desde a guerra como ideal nobre e de fidelidade, passando pela guerra como exercício de elegancia racional, até a GUERRA EXERCIDA SEM QUALQUER SIMBOLISMO. Apenas a captura e destruição do oposto.
Já na parte final do livro, Rougemont faz uma jogada de mestre ao defender o casamento!!!!
Como? Mas ele não demonstrou a verdade simbólica da paixão? Sim. Ele passa 3/4 do livro nos seduzindo com a beleza da paixão e da cortesia. Mas ele é inteligente demais para não perceber que essa paixão, CHEIA DE SIGNIFICADO, é irrecuperável. Jamais poderemos voltar à paixão como encontro com a morte gloriosa. Essa paixão hoje é apenas um impulso desprovido de sentido. Perdeu-se seu código, e isso está morto e esquecido. Para sempre.
Rougemont passa a dizer então o que realmente significa o casamento.
O cristianismo surge como única religião que se propõe a viver o real.
Esse é o milagre do cristão. O mundo real não é a ilusão de que fala o budismo e nem o mal de que falam os cátaros e os orientais. Não é mundo de fadas como dizem os celtas. E mais que isso, o mundo real é criação de Deus.
Pois então é a religião cristã, e só ela ( e é fácil verificar isso ) que pressupõe o crescimento da ciência e da tecnologia. Se Deus criou a matéria, cabe a nós nos interessarmos por ela, amá-la e aperfeiçoá-la. Ao contrário do Grego, que estudava o real com interesse frio, o cristão ama o real como parte de Deus. Seu semelhante torna-se parte também desse Deus, e é então no cristianismo que surge um conceito que SUBSTITUE A PAIXÃO: A COMPAIXÃO. Ao contrário da paixão que só enxerga o ser amado, a compaixão vê o todo, e ao contrário da paixão que pensa estar a felicidade apenas na morte com o amor, na compaixão a felicidade pode estar aqui e a salvação pode ser agora.
O casamento é então um estar junto em compaixão. Um caminhar no mundo real, um tentar se adaptar ao mundo verdadeiro. Servir e se apacientar.
Se para o cortês se apaixonar é morrer dia a dia ( em felicidade trágica ), para o cristão, amar é viver. Se o compromisso da paixão é com a amada e mais ninguém, o compromisso do casamento é com este mundo.
O casamento é uma escolha.
A paixão é um feitiço.
Não há melhor definição da diferença entre o paganismo e o cristianismo.
Rougemont ainda discorre sobre Wagner e o ponto máximo da paixão em música, do amor de Romeu e Julieta e dos poetas alemães.
Livro indispensável para quem pensa em amor e paixão, para quem já amou com Eros e com Ágape, para quem, como eu, já morreu de paixão pagã e já amou de ágape cristã ( mesmo não o sabendo ).
Um clássico.
O homem ser masoquista não responde nada. O instinto de morte também nada diz. Quero saber porque esse instinto ( anti-natural ) existe. Denis de Rougemont, em 1938 lança este livro e em 1957 o revisa. É hoje tese irrefutada. Obrigatório.
Ele começa demonstrando a maior revolução psíquica da história: o século XII, o momento em que o casamento entra em crise e nasce o amor cortês. Primeiro os sintomas:
Antes a paixão era vista como doença, o casamento como a paz, a infidelidade era permitida e o homem se interessava sobretudo por política e guerra. O principal: a sabedoria viria pela vida. Viver era aprender.
A partir do século XII se instaura a crença de que se apaixonar é viver de verdade. O apaixonado é um herói. O casamento se torna a morte da paixão. O homem passa a se interessar por amor e poder e o saber nasce da dor, do sofrimento. Viver de verdade é sofrer e renascer.
Para explicar o porque dessa transformação ( que nada tem de cristã e sim de pagã ), Rougemont nos conta a saga de Tristão e Isolda, nascimento de todo romance e o movimento dos cátaros, irmandade herética que foi aniquilada pela igreja católica.
A saga de Tristão conta a história de cavaleiro que é enviado por rei a terra distante. Lá ele deverá escoltar princesa prometida a seu rei. Caindo vítima de feitiço, os dois se apaixonam, mas não realizam esse amor. Criam motivos para não se amarem e Tristão acaba por se casar com outra mulher, também chamada Isolda. A verdadeira Isolda casa-se com o rei e percebemos que o que os move é o amor ao amor e acima de tudo, UM IMENSO DESEJO DE MORTE. Apaixonados flertam com a morte. Eles enfrentam reis/maridos/noivos/tabús/perigos físicos; apaixonados bebem, tentam se matar, não comem, se desligam da vida, evitam amigos, evitam a família, se jogam. Apaixonados jamais se saciam e se um dia se saciam, MATAM esse sentimento. Tristão, no mágico século XII nos mostra tudo isso. Toda a tradição do romance está lá exposta. Mas, porque foi e é assim?
No tempo de Tristão a igreja cristã ainda lutava por se estabelecer. O casamento, base da sociedade, estava em crise. E seitas heréticas orientais apareciam. O europeu ainda estava próximo do paganismo. E principalmente: as pessoas ainda sabiam o porque de seus símbolos e de suas palavras. Ainda se sabia o porque da paixão e o porque de palavras como agonia, luz, noite, almas gêmeas, sede de corpo, sacrifício e doação.
Os CÁTAROS surgem no sul da França e falam provençal. Logo se espalham pelo norte da Itália e pela Ibéria. Fazem música e poesia. E têm uma visão dualista da vida. A igreja cristã irá os perseguir com furor e nada de seus passos restará. Mas, que ironia, inconscientemente carregamos sua herança. A poesia e a paixão, tal como a conhecemos nasce com eles. Suas imagens sobrevivem em nós, mas de modo cada vez mais pobre, cada vez mais vulgar, pois perdemos a chave de seu significado.
Eles acreditavam que o mundo foi criado por duas entidades. Deus criou o mundo do espírito. Lúcifer o mundo da matéria. Como homens, sentimos um grande desconforto em nosso corpo material e ansiamos de saudades pelo espírito, que vive no céu. A mulher é a guardiã das almas, ela através da maternidade faz nascer o corpo de Lúcifer/material, mas é ela também que pode levar o homem ao reino espiritual.
O amor é Deus, pois é espírito. O mundo é o mal, pois é Lúcifer. Sua igreja passa a se chamar A IGREJA DO AMOR.
Zombam do casamento cristão, pois o casamento abençoa a fornicação, e pregam a castidade, como única forma de amar espiritualmente. Mas fazem sexo carnal, SEM AMOR. Caminham pelas estradas cantando. Instituem a anima: saudade da perfeição.
Fato notável : é nesse tempo, onde a mulher deixa de ser banal e passa a ser mágica, que se modifica o jogo de xadrez. Surge a rainha, peça acima do rei. E nasce também uma crença bem conhecida: o mundo tem milhões de putas e apenas duas puras: a mãe e a amada.
Rougemont nos fala de uma crença da India. Para fazer a paixão nascer, voce deve dormir junto sem fazer sexo, depois beijar sem se tocar, e por fim transar, sem ejacular. Para a paixão se manter viva, sempre alguma coisa deve faltar. Há muito disso no amor cortês.
Com os cátaros, a poesia deixa de ser épica e se torna drama interior.
Para eles o pecado maior, base do casamento, É FAZER SEXO SEM AMOR com a benção da igreja!!! Violação de espírito e de alma. Sexo sem amor é descer ao nível mais material da vida. O bem maior é SEXO COM AMOR, encontro do eu com o outro eu, momento de ver que "eu sou voce". Mas esse momento só pode se dar na exaltação máxima do desejo, após todo um ritual galante, que visa aumentar a paixão, mantê-la. Sexo com amor é momento ápice de vida e entrada no reino noturno da morte, o encontro final com Deus.
Pois bem, essa é toda a criação mística do amor cortês. Cada sentimento e cada gesto tendo um significado profundo. Mas, com o tempo, toda essa mística se perdeu, porém tanto a linguagem como o hábito ficaram. Então sentimos " a agonia", "a dor", "o morrer em vida", "o prazer que dói", sem saber o porque de falarmos isso. Pior, nada tiramos dessa dor. Não mais sabemos para que serve a paixão, nada sabemos do sentido místico da união de espíritos que se unem para morrer.
Rougemont, que cita Freud várias vezes, diz que misticismo não é sublimação de impulso sexual, que arte não é sublimação, ao contrário, o sexo é que é um consolo, uma sublimação de um impulso místico. A vida da alma, ela exista ou não, é muito mais crucial e importante que o simples impulso sexual.
O século XIX, do qual somos ainda filhos obedientes, criou a "sabedoria" de que ser inteligente é REDUZIR O SUPERIOR AO INFERIOR. O significado ao significante, o espírito à matéria, o que é significativo ao que é insignificante. È um movimento que traduz o pensamento burguês: o que não compreendo não pode ter valor. É o ódio burguês ao poeta e ao aristocrata, dois parasitas que nada produzem.
Pois bem, se todo impulso sexual é um impulso rumo a alma, todo erotomaníaco é um MÍSTICO QUE NÃO SABE DE SUA CONDIÇÃO. Sua obssessão sexual, sempre insatisfeita, é uma ansiedade por transcendencia, por vida espiritual, por paixão; paixão que ele não sabe fazer viver, por matá-la todo dia em seu gozo imediato.
Do século XII até nossos dias, a história da paixão é a história do amor cortês cada dia mais profanado. TENTATIVAS CADA VEZ MAIS DESESPERADAS DE EROS SUBSTITUIR A TRANSCENDENCIA MÍSTICA POR UMA INTENSIDADE COMOVIDA.
Frase de La Rochefoulcauld : "Quantos homens se apaixonariam se jamais tivessem ouvido falar do amor?"
Mandamentos da Igreja do Amor:
Descrença na trindade
Alegria resplandescente.
Negação do casamento
Negação da guerra
Anticlericalismo
Vegetarianismo
Igualitarismo
Amor a mulher
Chegamos então a época carnal do homem: o século XVIII, época de luz, de racionalismo, de matéria. O amor se torna encontro de peles, contrato de bens, o flerte é um elaborado jogo de mentiras cujo único objetivo é a posse do corpo.
Mas é preciso SER para poder TER. Tristão tem uma mulher por ser um amante completo. Ele pode ter Isolda. No século XVIII Don Juan é amado por todas as mulheres, mas na verdade não pode ter nenhuma. Ele perdeu o dom do amor e passa a vida na busca, inconsciente, desse poder. Don Juan deixa de ser.
Juan procura a volúpia, Tristão realiza a suprema proeza: permanece casto. Pela não profanação, o amor de Tristão se eterniza e permanece jovem. Don Juan o profana e o mata.
Tristão é livre. Foge das regras, do pecado da carne ( não profana) e da obrigação do casamento. Não é religioso, pois não segue os rituais.
Don Juan está preso a seu instinto. Mais: ele precisa da sociedade para poder aviltá-la. Juan está preso a matéria.
ATENÇÃO! A castidade de Tristão não é a castidade dos padres. Tristão é casto por decisão de nobreza. Ele se dá esse compromisso. A castidade cristã é por imposição moral. Vem de fora.
Após o cínico século iluminista vem o romantismo.
O romantismo, já sem a chave mística do século XII, é sentimental, jamais espiritual. Usam todas as palavras, mas em sentido errado. Perdem a ingenuidade. Sentem que há algo por detrás da paixão, não sabem o que. Morrem ( literalmente ) pela amada, não pela alma.
Stendhal surge como o primeiro homem realmente moderno. Sente o vazio e o desejo de amar. Mas sua razão lhe diz que tudo é corpo, tudo é um DESEJO DO FÍSICO. Ele vive na angústia de ter de JUSTIFICAR RACIONALMENTE AQUILO QUE NÃO É RACIONAL.
Dá-se a invasão de romances, filmes, melodias de amor. Mas é um amor profanado, pobre, sem significado, vazio de mito, fadado a angústia do vazio.
Esse doce romantismo trai mais um desejo burguês: O DESEJO DE SE TER SEM SE PAGAR. Passamos a querer amor, mas sem abrir mão de nada, sem risco algum, sem morte.
Rougemont passa então a fazer algo que me deixou espantado: faz o paralelo entre a guerra e a paixão. E demonstra que o modo de se fazer a guerra sempre reflete a sociedade que a faz e a paixão que a inspira.
No século XII a guerra era ritual. Cavaleiros marcavam local e data para resolver a batalha. Não se lutava por um país. Lutava-se por um líder. Cada guerreiro tinha seu traje e seu brasão. Seu valor estava em sua alma: habilidade, fé e nobreza.
No século XIV a guerra se torna um negócio. Guerras são resolvidas por embaixadores. Soldados são comprados e às vezes a guerra se resolve so se comprar o exército inimigo. Há um horror pela morte: tenta-se matar o mínimo possível. Essa forma de guerrear termina com o canhão. Arma que é considerada covarde e imoral. Arma que torna o combate inútil.
No racional século XVIII se civiliza a guerra. Táticas, cidades abertas que não podem ser atacadas, movimentos matemáticos de tropas, campos de batalha escolhidos por seu bom ar, regras de captura. Até então o objetivo de toda guerra é a captura do chefe inimigo.
A partir da Primeira Guerra o objetivo deixa de ser capturar o chefe rival ou adquirir território. O objetivo é DESTRUIR COMPLETAMENTE O INIMIGO. Toda regra é jogada ao lixo. O soldado torna-se máquina de matar e resto de batalha. Não se deseja vencer para ter, deseja-se destruir.
Toda a evolução do modo de se ver e fazer a guerra acompanha toda a relação do homem com sua paixão. Desde a guerra como ideal nobre e de fidelidade, passando pela guerra como exercício de elegancia racional, até a GUERRA EXERCIDA SEM QUALQUER SIMBOLISMO. Apenas a captura e destruição do oposto.
Já na parte final do livro, Rougemont faz uma jogada de mestre ao defender o casamento!!!!
Como? Mas ele não demonstrou a verdade simbólica da paixão? Sim. Ele passa 3/4 do livro nos seduzindo com a beleza da paixão e da cortesia. Mas ele é inteligente demais para não perceber que essa paixão, CHEIA DE SIGNIFICADO, é irrecuperável. Jamais poderemos voltar à paixão como encontro com a morte gloriosa. Essa paixão hoje é apenas um impulso desprovido de sentido. Perdeu-se seu código, e isso está morto e esquecido. Para sempre.
Rougemont passa a dizer então o que realmente significa o casamento.
O cristianismo surge como única religião que se propõe a viver o real.
Esse é o milagre do cristão. O mundo real não é a ilusão de que fala o budismo e nem o mal de que falam os cátaros e os orientais. Não é mundo de fadas como dizem os celtas. E mais que isso, o mundo real é criação de Deus.
Pois então é a religião cristã, e só ela ( e é fácil verificar isso ) que pressupõe o crescimento da ciência e da tecnologia. Se Deus criou a matéria, cabe a nós nos interessarmos por ela, amá-la e aperfeiçoá-la. Ao contrário do Grego, que estudava o real com interesse frio, o cristão ama o real como parte de Deus. Seu semelhante torna-se parte também desse Deus, e é então no cristianismo que surge um conceito que SUBSTITUE A PAIXÃO: A COMPAIXÃO. Ao contrário da paixão que só enxerga o ser amado, a compaixão vê o todo, e ao contrário da paixão que pensa estar a felicidade apenas na morte com o amor, na compaixão a felicidade pode estar aqui e a salvação pode ser agora.
O casamento é então um estar junto em compaixão. Um caminhar no mundo real, um tentar se adaptar ao mundo verdadeiro. Servir e se apacientar.
Se para o cortês se apaixonar é morrer dia a dia ( em felicidade trágica ), para o cristão, amar é viver. Se o compromisso da paixão é com a amada e mais ninguém, o compromisso do casamento é com este mundo.
O casamento é uma escolha.
A paixão é um feitiço.
Não há melhor definição da diferença entre o paganismo e o cristianismo.
Rougemont ainda discorre sobre Wagner e o ponto máximo da paixão em música, do amor de Romeu e Julieta e dos poetas alemães.
Livro indispensável para quem pensa em amor e paixão, para quem já amou com Eros e com Ágape, para quem, como eu, já morreu de paixão pagã e já amou de ágape cristã ( mesmo não o sabendo ).
Um clássico.
A FITA BRANCA/ PECKIMPAH/ LANG/ A ESTRADA/ CHABROL
SMOKING/NO SMOKING de Alain Resnais
Dois atores fazem todos os papéis neste irregular filme de Resnais. Cansa a artificialidade. Azéma está excelente como sempre, é uma atriz sem limites. Longe de ser tão bom quanto os geniais Medos Privados ou Mariembad. Mas Resnais é sempre invulgar. Nota 6.
KUNG FU FUTEBOL CLUBE ( OU KUNG FUSÃO ) de Stepehen Chow
Tolíssimo, breguíssimo e infantilíssimo. Mas simpáticamente assumido. Não tenta ser mais do que pode ser. Nada de cores tristonhas e de complicações afetadas, é diversão pop e fim. E nisso ele é perfeito. Engraçado, bem dirigido, cheio de ação. Fuja se não tiver senso de humor. Relaxe e divirta-se se o tiver. Foi recorde de público na Ásia. Chow é o cara! Nota 7.
JORNADA AO TERROR de Norman Foster com Joseph Cotten e Dolores del Rio
É o noir que Orson Welles dirigiu por telefone. Ele estava no Rio, fazendo um documentário, e tentou manter o controle deste filme via fone e telex. Apesar de tudo e da assinatura de Foster, o estilo é todo Welles, soturno e fatalista. Bom exemplo de noir. Nota 7.
CLIFFHANGER de Renny Harlin com Sylvester Stallone e John Lithgow
Uma das várias tentativas de Sly de come back. É aquele filme em que ele é um alpinista. A ação é muito boa, toda com dublês e em abismos reais. Dá pra ver com prazer. Nota 6.
CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ de Zucker, Zucker e Abrahams com Leslie Nielsen
Quantas vezes voce já viu???? Trinta? Mas ainda dá pra rir. É um pequeno clássico. Leslie está genial e o roteiro não teme a completa tolice. Me lembra muito a velha revista Mad, mas nos extras os roteiristas citam Os 3 Patetas, Os Irmãos Marx e Jacques Tati como influências. Esta comédia é exatamente aquilo que sempre tentei escrever, puro prazer. Nota 8.
ASSASSINOS DE ELITE de Sam Peckimpah com James Caan e Robert Duvall
É sobre uma empresa particular que defende pessoas em risco de assassinato. Caan, que foi traído por Duvall, busca sua vingança. Mas o filme mostra que nenhuma vingança é possível, os dois são marionetes. Peckimpah, já em sua fase junkie-terminal, faz um filme sujo. Há um ar de falencia em toda cena. Nada tem glamour, nada tem alegria. O visual é seco, cafona, árido. Falta ar ao filme. Longe das obras-primas do genio Sam Peckimpah, mas é um filme de macho e dos melhores. Desagradável, mas que te prende. Tarantino assinaria. Nota 8.
AUSTIN POWERS de Jay Roach com Mike Myers e Elizabeth Hurley
A trilha sonora é um show. Tem de Bacharach à Nancy Sinatra. Myers é tão vaidoso que quase estraga tudo e o roteiro parece escrito por alguém com 11 anos de idade. Mas eu adoro o visual ( baseado em Michael Caine ) e os trejeitos de Powers. Adoro o sotaque britanico e as gírias ( groooovy yeah!!!! ). Este é um dos filmes que tenho vergonha de gostar. Nota 6.
OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM de Fritz Lang com Brian Donlevy e Walter Brennan
Roteiro de Bertolt Brecht. Um filme corajoso. Na Praga ocupada, vemos a crueldade nazi e a resistência tcheca. O roteiro tem maravilhosas reviravoltas e falas sobre a liberdade muito agudas. Os atores estão inspirados e sentimos, vendo o filme, toda a opressão da Gestapo. Delações, interrogatórios, medo constante, covardias. O filme não adoça nada. Lang faz aqui mais um grande filme. Todo seu estilo, cruel e seco, esparrama-se pela ação. Cada cena é primor de técnica e de economia. Maravilhoso. Nota Dez.
LE BEAU SERGE de Claude Chabrol com Jean-Claude Brialy, Gerard Blain e Bernadette Lafond
Chabrol, crítico dos cahiers, recebeu uma herança e a torrou neste seu primeiro filme. É então o primeiro filme da Nouvelle Vague. A história é simples: um jovem doente volta a sua cidadezinha para reencontrar sua origem. Lá ele toma contato com Serge, amigo que se tornou alcoólatra. Namora a vagaba do lugar e no fim encontra o que procurava. Chabrol vai fundo: todos são derrotados. O campo é visto como lugar de miséria e de gente estúpida. Tudo é frio, pobre, sujo e todos estão no limite. A moral não existe. Inacreditável ser este um primeiro filme. A direção é sublime e a fotografia de Henri Decae é inventiva. Excelente. Nota 8.
A FITA BRANCA de Michael Haneke
Sómente uma época deprimida para produzir este filme. Nunca, em toda a história do cinema, houve um tempo com tantos filmes deprimentes, flácidos, fatalistas. A moda é ser o mais negativo possível. Este filme, de fotografia belíssima, condena toda a humanidade. Tudo é desapontamento, horror e medo. Adoro filmes tristes, detesto filmes deprimidos. A diferença é imensa. Um diretor que filma a tristeza consegue fazer viver a película. Um diretor deprimido não dá vida a nada. Mas esta é época em que até as comédias têm cenários tristinhos e musiquinhas chorosas. É isto que minha geração deu ao mundo? O prazer de se ver o fim de tudo o que tem valor? Deplorável.
A ESTRADA de John Hillcoat com Viggo Mortensen, Robert Duvall e Charlize Theron
Continuamos a saga. O roteiro é tão falso que chega a ser cômico. Tudo morre menos as pessoas. Então tá... Mas logo penso: talvez seja um filme simbólico! Bem, se for, seus símbolos são primários. O menino é Cristo e a Terra se tornou bíblica. Não dá pra engolir. Isto é mais um exemplo de aventura boba ( é Mad Max para metidos a besta ) que luta para ser intelectual. Coisa de Jeca. Cores cinzas, falas amargas, trilha sonora minimalista, idas e vindas. Quanto chavão!!!!!! Em tempo de deprê ( até os teens são pessimistas ) e de coraçõesinhos tímidos, isto é retrato do fim de feira geral. Nota Um ( pelos bons atores ).
Dois atores fazem todos os papéis neste irregular filme de Resnais. Cansa a artificialidade. Azéma está excelente como sempre, é uma atriz sem limites. Longe de ser tão bom quanto os geniais Medos Privados ou Mariembad. Mas Resnais é sempre invulgar. Nota 6.
KUNG FU FUTEBOL CLUBE ( OU KUNG FUSÃO ) de Stepehen Chow
Tolíssimo, breguíssimo e infantilíssimo. Mas simpáticamente assumido. Não tenta ser mais do que pode ser. Nada de cores tristonhas e de complicações afetadas, é diversão pop e fim. E nisso ele é perfeito. Engraçado, bem dirigido, cheio de ação. Fuja se não tiver senso de humor. Relaxe e divirta-se se o tiver. Foi recorde de público na Ásia. Chow é o cara! Nota 7.
JORNADA AO TERROR de Norman Foster com Joseph Cotten e Dolores del Rio
É o noir que Orson Welles dirigiu por telefone. Ele estava no Rio, fazendo um documentário, e tentou manter o controle deste filme via fone e telex. Apesar de tudo e da assinatura de Foster, o estilo é todo Welles, soturno e fatalista. Bom exemplo de noir. Nota 7.
CLIFFHANGER de Renny Harlin com Sylvester Stallone e John Lithgow
Uma das várias tentativas de Sly de come back. É aquele filme em que ele é um alpinista. A ação é muito boa, toda com dublês e em abismos reais. Dá pra ver com prazer. Nota 6.
CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ de Zucker, Zucker e Abrahams com Leslie Nielsen
Quantas vezes voce já viu???? Trinta? Mas ainda dá pra rir. É um pequeno clássico. Leslie está genial e o roteiro não teme a completa tolice. Me lembra muito a velha revista Mad, mas nos extras os roteiristas citam Os 3 Patetas, Os Irmãos Marx e Jacques Tati como influências. Esta comédia é exatamente aquilo que sempre tentei escrever, puro prazer. Nota 8.
ASSASSINOS DE ELITE de Sam Peckimpah com James Caan e Robert Duvall
É sobre uma empresa particular que defende pessoas em risco de assassinato. Caan, que foi traído por Duvall, busca sua vingança. Mas o filme mostra que nenhuma vingança é possível, os dois são marionetes. Peckimpah, já em sua fase junkie-terminal, faz um filme sujo. Há um ar de falencia em toda cena. Nada tem glamour, nada tem alegria. O visual é seco, cafona, árido. Falta ar ao filme. Longe das obras-primas do genio Sam Peckimpah, mas é um filme de macho e dos melhores. Desagradável, mas que te prende. Tarantino assinaria. Nota 8.
AUSTIN POWERS de Jay Roach com Mike Myers e Elizabeth Hurley
A trilha sonora é um show. Tem de Bacharach à Nancy Sinatra. Myers é tão vaidoso que quase estraga tudo e o roteiro parece escrito por alguém com 11 anos de idade. Mas eu adoro o visual ( baseado em Michael Caine ) e os trejeitos de Powers. Adoro o sotaque britanico e as gírias ( groooovy yeah!!!! ). Este é um dos filmes que tenho vergonha de gostar. Nota 6.
OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM de Fritz Lang com Brian Donlevy e Walter Brennan
Roteiro de Bertolt Brecht. Um filme corajoso. Na Praga ocupada, vemos a crueldade nazi e a resistência tcheca. O roteiro tem maravilhosas reviravoltas e falas sobre a liberdade muito agudas. Os atores estão inspirados e sentimos, vendo o filme, toda a opressão da Gestapo. Delações, interrogatórios, medo constante, covardias. O filme não adoça nada. Lang faz aqui mais um grande filme. Todo seu estilo, cruel e seco, esparrama-se pela ação. Cada cena é primor de técnica e de economia. Maravilhoso. Nota Dez.
LE BEAU SERGE de Claude Chabrol com Jean-Claude Brialy, Gerard Blain e Bernadette Lafond
Chabrol, crítico dos cahiers, recebeu uma herança e a torrou neste seu primeiro filme. É então o primeiro filme da Nouvelle Vague. A história é simples: um jovem doente volta a sua cidadezinha para reencontrar sua origem. Lá ele toma contato com Serge, amigo que se tornou alcoólatra. Namora a vagaba do lugar e no fim encontra o que procurava. Chabrol vai fundo: todos são derrotados. O campo é visto como lugar de miséria e de gente estúpida. Tudo é frio, pobre, sujo e todos estão no limite. A moral não existe. Inacreditável ser este um primeiro filme. A direção é sublime e a fotografia de Henri Decae é inventiva. Excelente. Nota 8.
A FITA BRANCA de Michael Haneke
Sómente uma época deprimida para produzir este filme. Nunca, em toda a história do cinema, houve um tempo com tantos filmes deprimentes, flácidos, fatalistas. A moda é ser o mais negativo possível. Este filme, de fotografia belíssima, condena toda a humanidade. Tudo é desapontamento, horror e medo. Adoro filmes tristes, detesto filmes deprimidos. A diferença é imensa. Um diretor que filma a tristeza consegue fazer viver a película. Um diretor deprimido não dá vida a nada. Mas esta é época em que até as comédias têm cenários tristinhos e musiquinhas chorosas. É isto que minha geração deu ao mundo? O prazer de se ver o fim de tudo o que tem valor? Deplorável.
A ESTRADA de John Hillcoat com Viggo Mortensen, Robert Duvall e Charlize Theron
Continuamos a saga. O roteiro é tão falso que chega a ser cômico. Tudo morre menos as pessoas. Então tá... Mas logo penso: talvez seja um filme simbólico! Bem, se for, seus símbolos são primários. O menino é Cristo e a Terra se tornou bíblica. Não dá pra engolir. Isto é mais um exemplo de aventura boba ( é Mad Max para metidos a besta ) que luta para ser intelectual. Coisa de Jeca. Cores cinzas, falas amargas, trilha sonora minimalista, idas e vindas. Quanto chavão!!!!!! Em tempo de deprê ( até os teens são pessimistas ) e de coraçõesinhos tímidos, isto é retrato do fim de feira geral. Nota Um ( pelos bons atores ).
Assinar:
Comentários (Atom)