A PO-ÉTICA CONTEMPORÂNEA- GILBERTO SAFRA

Ando pelas ruas fotografando. Fotografo casas antigas, ruínas, ruas congeladas no tempo, árvores. Estou a procura de alguma coisa.
Depois, a noite, andando pelas ruas desta cidade, sinto uma constante saudade do escuro. Esta cidade não tem mais lugares escuros. Me cai nas mãos um livro que fala o que eu sempre soube. Mas não falo, pois quem pode ouvir ?
No mundo de Bach, de Spinoza ou de Shakespeare, existem sentimentos de dor. Tristeza, desespero, falta de coragem, coração partido, decepção. Mas até a geração romântica, é desconhecido do homem o sentimento de vazio, e é só no final do século dezenove que nasce o desespero existencial, o sentimento de absurdo da própia vida. Porque ?
O livro de Safra verbaliza isso. É com a revolução industrial que se começa a destruição do ambiente, da praça, da floresta, da sua face. Como dizia Whitman, voce é seu companheiro, voce é sua rua, voce é sua casa. O progresso derruba tudo isso. Voce é o que ? Com a revolução, alemães e ingleses primeiro, assistiram a transformação de toda referência. Seus locais sagrados não eram mais seus, sequer existiam. Eles criaram o romantismo como grito de protesto contra a futilidade dos novos tempos, a mecanização da vida. No final do século xix, o grito se torna gemido, contra a coisificação do homem. Neste inicio de milênio, apenas aceitamos docilmente como fato único : somos máscara sobre máscara.
A máscara sofre o desespero de não poder sentir. De não existir. Da total virtualidade. Quando meu pai morreu fui uma face. Sofrimento puro, completo, sem disfarce ou modelo. Eu era eu-mesmo. Um sofrimento terrível, porém saudável, verdadeiro, inteiro. Eu me sentia construir. O sofrimento da máscara não constrói nada. Nem destrói. É inexistente.
Eu estive nos dois mundos, posso testemunhar.
Minha infância foi a abençoada infância da aldeia. Todo habitante sabia quem eu era, de onde eu vinha, do que eu gostava. Cada pedrinha no chão, cada árvore e cada córrego tinha um nome para mim. Tudo possuía sua história, seu nascimento e seu fim. A noite era escura e assustadora, com sapos e ratos e toda manhã parecia um novo momento de descoberta. E mais importante : as coisas não pareciam ser transitórias, eram para sempre.
A ruptura desse idílio veio com a mudança de casa. Todas as histórias foram abandonadas e as ruas que eu via não falavam comigo. Nesse novo árido mundo, eu precisei criar dentro de mim pontos de apoio, modelos e moldes para seguir, para poder ser e existir. Foi uma armadilha, e esquecí tudo o que eu era e tudo o que eu precisava ter. Deixei de ser ruas, árvores e gente que vivia comigo; me tornei o que eu quisesse, virtualmente potente, mas eternamente eu. Criei máscaras. Vazios.
Então voce pensa se tornar aquele cara que voce admira. Um ator, um personagem de filme, um rock star. Voce se torna a máscara de uma máscara que já nasceu como máscara de outra máscara. Quando essa coisa fantasiosa cai, o que voce percebe é que voce é um estranho para voce mesmo. Nasce um terrível horror : um sentimento sem nome, sem história, sem verdade, sem porque : o completo vazio. Voce não sofre por alguma coisa. Apenas sofre por não ter pelo que viver ou sofrer. Virtualmente.
A única referência de futuras gerações : imagens coloridas sem passado, raiz ou verdade. O que será delas ?
O livro fala mais. ( E é uma pena ele falar tanto de Dostoievski e passar ao largo de Tolstoi ).
O que é o sexo hoje ? Existe nele uma narrativa, um encontro de duas almas, um reencontro com a verdade ? Isso não está no livro, mas eu vejo cada vez mais que sexo é a única chance que ainda resta ao homem, de se tentar fazer alguma coisa puramente instintiva, animal, não racional. O que é uma bobagem ! Na maioria dos casos, suas transas são puramente racionais, tanto em escolhas como em ocasiões.
A sensação geral é : negamos nossas origens ( quando as temos ). Seguimos modelos que nos vendem ( mesmo os anti-modelos ). Vestimos máscaras sobre máscaras, falamos bobagens sobre bobagens. Viajamos para lugares que não escolhemos. Namoramos pessoas que nada têm a ver com nosso interior, negamos tudo em nós que não seja moderno, eficiente, bacana; nos obrigamos a vestir armaduras de vazio. Que vida é essa ?????
Voce tem amigos incapazes de fazer algo que não seja alguma coisa "divertida" vista em um bilhão de filmes ou séries de tv. Bebem, gritam, dão pulinhos alegrinhos e agarram a gostosa tipo série de tv ( desculpe a repetição, mas é assim ). Eles simplesmente são incapazes de escutar ou de parar de fazer alguma coisa. Ficam ligados, funcionam como maquininha. Têm uma função : são divertidos, bro !
Voce corre o caminho de Santiago. Mas nunca foi católico. Vai a Amsterdan, mas nada sabe de Rembrandt e nunca foi bem louco. Aluga um studio em Paris. Para tentar se sentir meio artista. E anda por Roma. Sem sentir nada da beleza ou da magia do lugar. Voce vai porque vai. E adora... Como adora Londres por ser moderna, Praga por ser romântica e Berlin por ser dramática. Voce ama o que pedem pra voce amar.
Ouve superficialmente o que foi criado para ser ouvido superficialmente. Assiste filmes que são a cópia da cópia da cópia da cópia. Luzes de máscaras em cenários falsos com personagens feitos de papel de jornal. Nada de vivo, nada de verdadeiro, nada de real. Mas ok. Voce pagou 25 reais e quase sentiu uma emoção. Uma mísera emoção. É tudo o que voce pede : uma mísera emoção. Inteira, redonda, envolvente, e que dure.
Trouxa ! Tudo na arte de hoje é conceitual. Nada de emoção. O que se procura é a sensação. A tv é uma sensação ( sinto que foi bom, sinto que foi válido, sinto que é engraçado, sinto vontade de rir, sinto vontade de chorar ). A arte verdadeira é emocional, pois lida com a raiz, a origem, a face. ( É trágico, é cômico, é patético, é maravilhoso, é péssimo... ).
Se o homem é sua cidade e seus companheiros ( é o que o livro diz ), que homem é esse com uma cidade em eterna mudança, e com companheiros ausentes ou virtuais ? Que homem é esse com rostos amigos em telas ( acredite, são imagens sempre falsas ), com vozes distantes em celulares que tocam a toda hora mas que nunca abraçam. O que há de humano em se passar por ruas que hoje são diferentes de ontem. Voce acaba tendo de se adaptar. E se torna tão fantasiado quanto a foto da tela do orkut, tão frio quanto a mensagem gracinha no celular, tão esperto quanto o personagem da série de tv e tão mutável quanto as ruas derrubadas e reconstruídas sempre. Anônimamente mais um. Sempre alegre e nunca feliz. Sempre moderninho e nunca eterno. Fazendo, não sendo.
Mas um dia ( e eu passei por isso ), voce perde a máscara. Cai. E tudo parece ser para voce aquilo que sempre foi e nunca esteve tão percebido : nada. Todas as suas referencias se vão. Pois elas nunca foram de verdade. Caem as certezas. Que certezas ? Voce se vê estrangeiro dentro de voce mesmo. Isso é ser moderno : um estrangeiro dentro de um vazio.
Daí voce procura se reconstruir. Vai atrás das pegadas, ver onde a coisa se rompeu. Procura os restos da aldeia, que são os vivos restos de voce mesmo, começa a assistir filmes que tenham algo de real, de vivo e que mesmo em sua mais louca fantasia, tenham a fantasia sonhada pela mente humana, e não planejada pelo grupo de marketing. Voce procura a face irretocada da vida, ou ao menos a máscara primordial.
E uma noite, ao olhar o espelho do banheiro, espelho que sempre lhe falou de vaidade ou de raiva; ao olhar esse espelho, voce não mais verá um rock star ou o ator com quem voce se parece. No espelho voce não mais verá o cabelo fashion ou o sorriso safo. Nesse espelho estará defronte a voce um homem. Homem que voce viu na aldeia, anos atrás. Homem que cheirava bem, que parecia de verdade, que era um mundo em sí. Voce se assustará em ver no espelho esse homem. E notará que ele sempre esteve alí. Obscurecido por máscaras.
Em voce verá seu pai. E isso eu chamo de a verdade. Triste e feliz, real.

ALTMAN/CORNEAU/JOHN WAYNE/ERA DO GELO

SIM SENHOR de Peyton Reed com Jim Carrey e Zooey Deschanel
Volto a falar deste filme para dizer algo assustador : o quanto um filme pode ser ruim. Um cara ( um Carrey apático em seu medíocre papel ), fala não para a vida. Após palestra ( dada por Terence Stamp ), começa a dizer sim a tudo. Fosse menos cretino, o filme o envolveria em confusões sexuais, confusões com patrões e com os amigos. Mas não. Para o roteirista, dizer sim é pagar bebidas aos amigos, pagar cursos e comprar coisas. Para se falar sim é preciso ter cartão de crédito dourado. Retrato de um tempo onde diversão é encher a cara e pagar algo de novo. O romance com a mocinha é inconvincente : ela canta em banda de rock tipo anos 80 mas é a imagem da caretice. E que amigos são esses ? Em todo o filme não dizem duas frases diferentes ! Um horror ! sem nota.
A ERA DO GELO 3 de Carlos Saldanha
Uma deliciosa comédia com personagens bem delineados, belo visual e que não tenta vender nada. É lógico que não procuramos arte aqui, mas ele faz algo que os filmes pop de hoje não sabem mais nos dar : uma alegre diversão que não nos agride, não nos chama de idiotas. nota 5.
MAC CABE & MRS. MILLER de Robert Altman com Warren Beatty e Julie Christie
O que primeiro salta aos olhos é a foto de Vilmos Zgismond. O filme é de uma plasticidade melancólica e gelada. Passa-se na fronteira EUA/ Canadá e estamos em 1890. Um cara otimista monta bordel em vila mineira. Ele tem bom coração e tudo que deseja é alguém que lhe dê afeto. Assistimos o que lhe acontece. O filme é difícil : lento. Talvez seja o mais triste filme americano já feito ( Pauline Kael o chama de " o mais triste e belo dos filmes " e Roger Ebbert de " um filme perfeito " ). Eu o assisti com dois sentimentos : quase irritado por sua lentidão, mas, ao final, apaixonado por sua magnífica beleza. O final, numa nevasca, é talvez o mais melancólico já visto. Tem uma beleza aterradora. Não tem trilha sonora : é pontuado por lindíssimas baladas desesperançadas de Leonard Cohen. É uma obra-prima da inocência poluída, da esperança destroçada, da solidão sem fim. Uma obra-prima de cinema ousado, sem nenhuma concessão, heróico. Nota DEZ.
IF... de Lindsay Anderson com Malcolm MacDowell
Um perfeito retrato da rebeldia e do desamparo adolescente. Eles tentam ser diferentes e não conseguem, tentam ser livres e não sabem o que é a liberdade. O que fazem então ? Destroem. Surrealista, cheio de significados e fácil de se assistir, é um filme manifesto, um poema à ira, um filme de ação. nota 9.
WEEK-END de Godard com Mireille Darc, Jean Yanne e Leaud
Não pode ser analisado a luz da razão. Ele vai contra tudo e todos. Do dinheiro ao sexo, de burgueses aos grupos extremistas, sobra pra todo mundo. Sem nota, pois um zero seria absurdo e um dez impossível.
NUNCA AOS DOMINGOS de Jules Dassin com Melina Mercouri
Um americano vai à Grécia atrás de respostas. Ele quer saber onde a Grécia errou. Lá, conhece uma prostituta que é a personificação da alegria grega. Mas ele tenta lhe dar cultura, filosofia, e a estraga. No fim, a alegria vence. Dassin foi um ótimo diretor. Na América fez alguns dos melhores policiais da história. Perseguido pelo MacCarthismo, teve na Europa uma segunda e excelente carreira. Aqui ele encontra a estrela grega Melina, com quem se casaria. Ela lutaria contra a ditadura grega e terminaria ministra da república livre de seu país. O filme, comédia bela e despretensiosa, encanta por sua alegria genuína e a bela paisagem grega. nota 7.
A TRÁGICA FARSA de Mark Robson com Humphrey Bogart e Rod Steiger
Último filme de Bogey. Fala do submundo do box. Um lutador tipo Maguila, inocente e manipulado, vence lutas arranjadas até um quase título. Bogey é o jornalista que manipula essa verdade falsa. Um derrotado. O filme é ok. nota 5.
MALPETIUS de Harry Kummel com Mathieu Carriere e Orson Welles.
Pretensioso e chato. Algo sobre deuses e mitos. Uma bomba! nota Zero!!!
TRUE GRIT de Henry Hathaway com John Wayne e Kim Darby
O filme que deu o oscar à Wayne ( vencendo maravilhosos Dustin Hoffman e Jon Voigt em Perdidos na Noite ). Ele está comovente como um justiceiro bêbado e amargo que ajuda mocinha a vingar a morte do pai. Belas paisagens, ação na medida exata, algum humor e o carisma do mito da aventura. Muito satisfatório. nota 7.
NO VELHO CHICAGO de Henry King com Tyrone Power, Don Ameche e Alice Faye
A primeira hora é um melô envelhecido sobre família irlandesa que enriquece na Chicago de 1870. Mas a meia hora final é um primor. Um incendio que devasta a cidade. Efeitos especiais que ainda impressionam e um senso de suspense e movimento soberbos. Os figurantes, centenas, estão maravilhosamente bem dirigidos e fotografados. Fogo, água e multidões se movendo sem cessar. Vale o filme. nota 6.
TODAS AS MANHÃS DO MUNDO de Alain Corneau com Jean-Pierre Marielle e Gerard Depardieu
A vida do músico Saint-Colombe ( que nunca ouví falar ) narrada por Marin Marais, seu aluno bem sucedido. O filme é tudo aquilo que Amadeus não pode ser : místico, reverente, artístico. Talvez por a arte de Mozart ser terrena, comunicativa e leve. O ambiente é o do Jansenismo do século xviii. O filme tem uma austeridade rígida, fria, severa. Marielle brilha. Vemos e sentimos sua dor. O filme quase faz um milagre : ele chega perto de nos comunicar o segredo da música. Há um diálogo final entre Marielle e Depardieu que é absoluto sublime. O aluno tenta obter o segredo do mestre. Nós o obtemos. O filme é também um manifesto de um mundo perdido : mundo em que se criava e se vivia para Deus, para a eternidade, para o atemporal. Corneau venceu 8 césares em 1991. Mereceu todos. Eis um corajoso e original ! nota 8.
COWBOY de Delmer Daves com Glenn Ford e Jack Lemmon
Nesta história de um atendente de hotel que quer ser cowboy temos tudo aquilo que pedimos : ação, emoção e boas atuações. Entramos na vida de bois, cavalos, índios, espaço aberto, poeira. A violência é constante e para sobreviver é preciso ser individualista e frio. Jack dá show, mas Ford, ator subestimado, impressiona mais. Seu cowboy é a imagem da vida na estrada. Belíssimo. Nota 8.

CANDIDO OU O OTIMISMO- VOLTAIRE

Foi aos 14 anos, numa madrugada, que lí este conto pela primeira vez. Termino hoje, tanto tempo depois, de o reler pela terceira vez. E continuo sentindo um prazer imenso em reencontrar Candido, Pangloss, Martinho, Cunegundes, Paquette e tanta gente mais. Ao contrário de livros que nos decepcionam numa segunda leitura, Candido permanece com o mesmo brilho, o mesmo encanto, dando tanto para quem o encontra.
Candido nasce rico, é expulso de casa e sofre castigos hilariantes na Bulgária, Portugal, Argentina, Paraguai, Colômbia, Suriname, Espanha, Veneza e Turquia. Tudo é possível e tudo acontece : guerras, inquisição, escravidão, enriquecimento, miséria, estupros, coincidências absurdas. A história, colorida e carnavalesca, tem a ação de um sonho frenético e o clima de uma lenda oriental. É absolutamente apaixonante.
Relendo-a, percebo que passei todos esses anos plagiando esta história, levando seu molde para peças e noveletas que escreví. Pois é um livro sobre estradas, filósofos encontrados em bosques, em mares, em estalagens. Frases simples que nortearam meus pensamentos, ações que são rememoradas em toda ação que faço. Voltaire se tornou meu guia. Por causa do adorável Candido.
O que motivou o gênio do século XVIII a escrever Candide foi o desejo de desbancar Leibniz. A pena de Voltaire, ácida, crua, pessimista, mostra a tolice do otimismo, dessa caduquice de se imaginar ser este " o melhor dos mundos ". É Pangloss, mestre de Candido, o filósofo otimista, que pensa ser tudo pura bondade, que toda ação é guiada para o bem geral, que a natureza é a própria perfeição. Mas Voltaire também joga farpas contra Rousseau e seu bom selvagem, contra a igreja católica, contra a nobresa, contra muçulmanos e judeus, contra a França e a Espanha e Veneza também. É um pessimismo orgulhoso, solar, ativo, cheio de humor, humor ácido, que faz pensar.
Voltaire crê na inteligência. Sua fé é a fé do século em que viveu : a fé no futuro, no triunfo da razão. Sabemos hoje que a razão jamais teve sua vitória. Que o século seguinte ao de Voltaire foi o século do trabalho infantil, da ilusão romântica, do colonialismo e da industrialização do mundo. E que o XX seria o da guerra sistemática, do terrorismo e da desumanização do homem. A razão nunca foi absoluta. Mas Voltaire acreditava em sua vitória. No racionalismo de se poder viver como se pode e de se deixar viver. Acreditava no fim de toda igreja, de toda tirania e da guerra. Não aconteceu. Bem...

Ele termina o conto de forma magnífica : Candido e Martinho ( o sempre pessimista ) abrem mão do filosofar. Ao homem compete cuidar de seu jardim.
Maravilhoso século que nos deu Voltaire ! E Newton, Mozart, Haydn, John Locke, Franklyn, Goethe, Jefferson, Swift e Sterne. Gigantes. Candido é gigantesco. Um conto ( 70 páginas ) que ecoa para todo o sempre. Que brilha, cintila, educa, diverte e faz rir. Candido justifica Voltaire, a literatura francesa, o século das luzes. Aprendemos a ler para poder penetrar em livros como este. Leia-o. Sempre e já.

da melancolia, da deprê, do trabalho...

A tristeza já foi chamada de melancolia. Hoje é depressão. Deprê é a tristeza sem poesia. Melancolia é uma nuvem de solidão. O melancólico sofre por perceber ser o mundo errado. O deprimido sofre por acreditar na alegria de todos e ele, pobre ser, não conseguir participar dessa ilusória festa geral. O melancólico critica a vida, o deprê se critica.
A melancolia é produtiva. Na pior das hipóteses nos dá chatos pretensiosos. A deprê não produz nada, é o vazio da fertilidade. Creia : nenhum verdadeiro deprimido torna-se artista. No máximo, ele é um orfão profissional. O melancólico constrói mundos alternativos. Feitos de lágrimas, saudades e rancor. Os dois são vistos como perdedores. O deprimido acredita ser um derrotado, o melancólico tem orgulho de sua derrota, para ele, quanto mais distante deste mundo, melhor. O deprê ansia por ser aceito. Consome. Consolos para uma tristeza que não se cura. Consome remédios, terapias, livros de auto-ajuda, filmes bacaninhas, canções que acalmam. Consome bebida, cigarro, festas sem sentido, baladas frustrantes, roupas novas que nunca usa, viagens sem aventura e aventuras sem viagens. E se entrega ao vazio da impotência. Da infertilidade.
O melancólico, com sua alma velha e romântica, desconfia de toda ciência. Pode até usar remédios, mas usa-os errado. Vai a terapia para desafiar a própria terapia. Cria sua crença. Se entrega a livros de poesia, de simbolismo místico. Viaja nas notas de canções que ninguém escuta, são só dele, e se alguém mais as ouvir, o melancólico melancolicamente deixa de apreciá-las. Os seus filmes são filmes sobre os sonhadores, os fora de lugar, os fora do tempo. Ele foge de baladas e de festas, foge de tudo que lhe pareça comum, banal, vulgar. A melancolia é incurável por ser amada pelo triste. Ele mantém esse doloroso orgulho. A potência de gerar desesperança.
A melancolia só é possível no mundo da arte e da religião. Tristeza que se espelha no santo e no poeta. A depressão é filha da ciência e da indústria. Tristeza que se espelha na funcionalidade e na utilidade. A pergunta do primeiro é : Porque o mundo é tão sem sentido ? O segundo pergunta : Porque eu sou assim ? O melancólico olha e sofre. O deprimido não olha, fecha-se em seu umbigo.
Aldous Huxley aqui no Brasil, em 1960, disse numa palestra que o mundo caminhava para a imagem exata do inferno dos hindús. Nos Upanishads, eles descrevem o inferno como o reino do desejo sem possibilidade de saciedade. Você quer, obtém, e continua desejando. O deprimido é o ex-desejante. Ele acredita que o erro foi dele. Crê nesse inferno. O melancólico culpa o mundo. Percebe a armadilha, mas fica sofrendo por ela existir.
O que pergunto é : Para quem você vive ? Seu trabalho é mero desejo de consumir, ou você trabalha por alguém ou para algum tipo de ideal ? Existe algum sentido em sua dor, ou sua dor é mera disfunção de um tipo de erro de fabricação ? Você crê na alegria do mundo ou procura a felicidade ? Percebe a diferença entre o alegre, sempre ligado, sorrindo, histéricamente falante, cheio de planos e truques; e o feliz, satisfeito, portanto, estável.
O mundo, hoje, ama o alegre e desencoraja o feliz. O alegre é otimista, mas ele precisa de coisas para continuar feliz. Ele se move, compra, agita. O feliz é realista. Ele sabe que sua felicidade independe do exterior. Ele vive. O alegre depende de fazer, o feliz precisa de paz.
O melancólico é velho como um campo devastado pela guerra, um coração partido pelo fim das coisas, uma alma aterrada pela imensa frieza do cosmos e dos deuses. O deprimido é moderno como um computador mal programado, uma metrópole devastada pela solidão, um medicamento que vicia, alma aterrada pela propaganda falsa e tendenciosa.
Com meus Bergmans, meus Vigo, meu Yeats e meu MORRO DOS VENTOS UIVANTES, vocês sabem qual meu partido. E eu amo esse partido... como o amo...

bem perto da costa- john updike

Mesmo os críticos que não morrem de amores por Updike, reconhecem a sua maestria como crítico e resenhista. Neste livro lemos o lado comentarista de cultura do autor americano. E ele se mostra ao nível de Wilson, Vidal e Tynan.
Primeiro uma observação : é surpreendente a maneira como, de acordo com o amadurecimento, mudamos a maneira de olhar a arte. Enquanto somos muito verdes, tudo o que procuramos em um livro ou filme é emoção. Sómente o ultra-aparente nos toca. Queremos criatividade pura e fogos de artifício da emotividade. Com a experiência notamos que é relativamente fácil ser "brilhante". Passamos a procurar algo além do brilho : estilo. A habilidade de se fazer bem passa a ser valorizada. Passamos a entender as dificuldades de se saber, de se dominar uma linguagem, a originalidade sutil dos mestres.
Updike nunca posssuiu o choque vulgar de Mailer ou Capote, e nunca foi modernista como Faulkner ou Dos Passos. Seu modelo é o da escrita perfeita, do saber fazer, da clareza objetiva.
Neste volume ele dá uma aula de observação, percepção e belo estilo. Updike nota o objetivo do autor por detrás do aparente, mostra suas falhas e aponta sua originalidade ( quando ela existe ).
Seu primeiro texto é uma bem-humorada queixa sobre o excesso de reverência da crítica americana em relação a Henry James. Ele concorda que James é um mestre, mas nos faz rir com os ridículos de idolatria de publicações sobre literatura que tratam tudo o que James escreveu ou falou como mensagens de um deus americano.
Em seguida vêm três textos de gênio. Os três fundadores da alma artística americana : Hawthorne, Melville e Whitman. Todos devedores de Emerson ( ele cita um texto de Emerson, adorado por Whitman, que é ponto de partida de tudo aquilo que Walt escreveu. ) De uma forma clara e cheia de leveza, John faz com que vejamos nos três o nascimento de tudo aquilo que fez a grandeza da América, e consequentemente, do século XX. O texto sobre Melville é antológico. Ele segue, obra a obra, tudo aquilo que Herman fez e viveu, toda sua estranheza arredia, exibindo esse caráter único dos EUA : uma nação profundamente religiosa e ao mesmo tempo, completamente materialista.
Vem então um emocionante comentário sobre James Joyce. O irlandês é visto como símbolo do autor comprometido com sua auto-satisfação, um exemplo de opção por sua fé em sí- mesmo, de integridade contra pressões externas. Fantástica a citação do único encontro de Joyce e Proust, encontro com testemunhas. Foi num chá. Joyce disse a Marcel : " Meu estômago ainda me mata! E estou quase cego ! Se minha cabeça parasse de doer !" E o francês replicou : " Meu fígado é minha cruz! E meus pulmões não suportam este ar empestiado ! " Os dois maiores gênios dos últimos cem anos, passaram seu único encontro falando de doenças !
Páginas sobre Heminguay e Edmund Wilson falam da crueldade pseudo-viril de Ernest, e da obsessão por sexo do grande crítico de esquerda americano. Muito melhor é a explanação sobre as cartas trocadas entre Wilson e Vladimir Nabokov. O russo, exilado pela revolução, se torna mestre do idioma inglês, humorista satírico, fino e ousado, e cultor de um aristocracismo muito snob. Updike toma o partido de Vladimir, colocando seu talento nas alturas e vendo em Wilson um certo egoismo e egocentrismo exagerados.
Uma crítica sobre um livro de John Cheever. Updike escreve o que penso : de 1960 para cá, Cheever ocupa um posto central. Mestre de criatividade original, cômico delicioso, estilista objetivo e surpreendente.
Como bela é sua apreciação de Beckett, visto como o criador do romance atual : aquele em que o único personagem é o autor. O romance da mente de quem escreve. Junto a esse escrito, vem outro grande autor da Irlanda : Flann O'Brien. De certo modo o oposto de Beckett. Flann permaneceu na velha terra verde, não emigrou, criou montes de personagens e manteve viva a tradição do nonsense irlandês. ( Nonsense que abunda em Beckett- que Updike adora, e Joyce ).
Celine e Gunter Grass são criticados. Os dois são mostrados como donos de personalidades ruins, de intenções dúbias e de um talento mal usado.
Mais positivo é o texto sobre Milan Kundera. Eu não sabia que Kundera fora professor de cinema em Praga e que Milos Forman fora seu aluno. Updike aponta como o sexo em Kundera é triste e o fato de Kundera ter apontado o fastio pelo corpo feminino, decorrente do excesso de exposição. Frase de Kundera : " A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento. "
Wallace Stevens. Melhor poeta americano desde Eliot. Updike reafirma isso, como Bloom não se cansa de dizer. Eu lí Stevens anos atrás. Se ele não me pega como Eliot é porque Stevens é mais discreto, sutil, engenhoso. Eliot te toca de primeira. A vida de Wallace foi fantástica. Família classe média do leste americano, tornou-se bem sucedido advogado. Escrevia nas horas vagas, muito, e teve uma vida familiar padrão. Elegante, bem apessoado, seus versos são musicais, brilhantes, simbólicos, cristalinos. " A realidade é um vazio. A verdade não importa." " Numa era de descrença, é o poeta quem nos recorda as satisfações da crença. No estilo." " Quando trocamos um prazer inferior por um superior, elevamos os homens na escala da existência." "O amor ao belo exclui o mal. A única fonte de transcendencia na vida é ser decente na vida privada." São frases de cartas de Stevens. Será que os autores ainda escrevem cartas ?
Outro grande poeta é Auden. Mas ao contrário do americano, este inglês foi muito famoso ainda vivo e decaiu em popularidade após sua morte. Updike mostra o lado infantil de Auden, um jeito de criança protegida, mimada, que ele sempre exibiu. Uma personalidade inescrutável.
Levi-Strauss. John Updike mostra o brilho de certas frases do famosíssimo antropólogo francês ( a melhor : "O homem civilizado é limpo, mas nesse estar limpo ele suja a natureza. O primitivo é sujo, mas tudo ao seu redor é imaculado. ) Quando mostra seu lado mais "viajante", Strauss exagera em seu deslumbre com o próprio intelecto, e chuta interpretações sobre a sociedade dos índios da América que são totalmente arbitrárias. Jamais saberemos o que uma lenda significava para um cheyenne do século xv. Sabemos o que significa para nós.
Borges. Updike glorifica a criatividade aterradora do argentino. Criatividade que é sempre baseada na lógica pura, na clareza, no saber escrever. Updike cita os autores que Borges amava: Orwell, Stevenson e Lewis Carroll. A forma como Borges depurava seu texto, até transformá-lo numa pequena jóia.
E por fim, um escrito sobre cinema. John Updike fala da maravilha que são os atores que nos fazem ser felizes por podermos os olhar. Atores que passam em seu gestual o prazer de viver, a alegria. Ele cita Erroll Flynn como o ícone desse tipo de astro ( eu penso o mesmo. ) e escreve sobre Doris Day, a atriz que personifica o sol e o sorriso feliz. É um texto afetivo, biográfico, e brilhante. John nos recorda que no cinema o que permanece é o ator que ao fazer um papel ( bem feito sempre ) consegue continuar sendo ele mesmo todo o tempo. Não é o canastrão, pois esse é menos que sí-próprio, é o ator que irradia uma personalidade tão fascinante que nos pegamos interessados no filme e nele mesmo, em seus gestos e sua voz. Quando esse carisma se une ao calor da felicidade, está feito o mito. Uma imagem na tela que nos faz o bem, todo o tempo e sem o saber. Doris tinha isso. Flynn tinha isso. ( E eu diria que Cary Grant era uma fonte inesgotável disso. )
Que pena que este livro tão prazeroso tenha acabado !!!!! Fica um sabor de quero muito mais ! John Updike é viciante.

IF...

Para se entender a Inglaterra é preciso ter sempre em mente seu amor, absurdo, cômico, surreal, pela tradição, pelos rituais e pela disciplina. Foi isso que garantiu a sobrevivência da família real, e é isso que você deve lembrar sempre, ao ver este filme.
Colégios de elite, ou de pretendentes a ser parte da elite. Eles precisam ser austeros, antigos e disciplinadores. Pois não é fácil ascender na sociedade inglesa. Todos querem um dia ser chamados de "Sir" e melhor, "Lord". Você pode ser rico, poderoso, mas só chegará ao degrau mais alto quando seu título chegar. Lembre que o que doeu, para eles, na morte de Lady Di, foi o fato de ela ter morrido ao lado de um milionário plebeu. E imigrante!!!!!!
Para ascender é preciso se ter estudado numa rigorosa escola britânica. E estudar lá, é ser feito soldado aos 7 anos. Isso fez a glória do império.
Tudo na Inglaterra se subjugava/ subjuga a isso. Todo ator, até Michael Caine surgir, precisava falar como um locutor da BBC, e mesmo as bandas de rock antigas tinham roupas e sotaque eduardiano. ( A excessão eram os Stones. Falavam com falso sotaque americano. ) Com a imigração as coisas mudaram, pouco, pois toda banda inglesa ainda afeta ares de "arte", de ironia nobre, de afetação sangue azul. Balançam o rabo para a rainha.
No festival de Cannes ( aliás ninguém rí mais dessa pose inglesa que os republicanos franceses ), em 1968, IF de Lindsay Anderson ganhou a Palma de Ouro. Foi o festival da anarquia : Godard e Truffaut se penduraram nas cortinas do Palácio do Cinema para impedir a continuação do festival : - Como ver filmes enquanto o mundo pega fogo ? Jean-Luc e François conseguiram; o festival foi interrompido.
IF tem uma frase lapidar : "- UM TIRO BEM DADO PODE MUDAR TODO O MUNDO. " Quem diz isso é o personagem de Malcolm MacDowell. Ele é um estudante rebelde, insolente, culto, sujo, que tenta preservar sua individualidade em ambiente que prega a submissão.
Por hora e meia, vemos todo o horror do sistema de opressão, do homossexualismo imposto, das pequenas fofocas, dos favores interesseiros daquela escola. Vemos o grotesco de seus mestres, de seu diretor, dos jogos de rugby, do jeito marcial de tudo.
E vemos a poesia ( real ou imaginária ? ) que tenta sobreviver em meio aqueles açoites e correntes. A cena da surra é das mais insuportáveis já filmadas.
Em sua meia hora final, tudo muda. O filme se torna surreal, não sabemos se o que vemos é verdade ou delírio. Os 3 rebeldes matam, indiscriminadamente, todo mundo : estudantes, professores, funcionários, religiosos, soldados. Revolução só é possível com sangue, advoga o filme, e se inocentes forem mortos, terão morrido por boa causa.
Lindsay Anderson advoga isso. Tem opinião, tem coragem. Penso se alguém produziria esse filme hoje. Não é um filme underground, Anderson era um dos mais famosos diretores ingleses : propagador do cinema raivoso - "Angry Young Cinema" - e na equipe do filme estão os futuros diretores Stephen Frears e Chris Menges.
O filme é forte. Toca pontos sensíveis de nosso senso de justiça e de dever. Defende teses libertárias, mas de uma forma inglesa : não chega a absoluta negação. Anderson quer a liberdade, Godard quer a destruição.
Podemos dizer ainda que este filme é um anti-SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. O filme de Peter Weir é a cara dos anos 80 : vai contra um sistema, mas não rompe nenhum limite. Pauline Kael falou bem : "COMO LEVAR A SÉRIO UM FILME QUE PREGA A LIBERDADE, FILMANDO TUDO DE UM MODO TÃO CONSERVADOR ? " O filme de Weir é tristezinho. O de Anderson é irado. Ele prega a liberdade e filma de modo livre. Tudo nele é aspiração a ser novo. Tudo nele é violência.
Maravilhosamente fotografado, soberbamente interpretado, cheio de alusões a Lacan, Ponty e Levi-Strauss, IF... é uma quase obra-prima do cinema revolucionário, um poderoso libelo pelo desejo. Sua última cena, Malcolm metralhando tudo e todos sobre o telhado da escola, a metralhadora em pose de falo, é de um comovente desespero.
Encontrei a palavra : IF... é o desespero.
Ps: Em ano de 2001 / IF... , O Oscar foi para o hiper-conservador OLIVER.
Ps II : Elefante é o IF de hoje. Violência entediada e sem filosofia alguma. UM TIRO BEM DADO MUDA O MUNDO. Elefante prova que não se sabe mais atirar. TIROS A ESMO QUE REAFIRMAM O QUE JÁ EXISTE. O tédio nos matará...

RETRATO DA LOUCURA, WEEK END- GODARD

Eu odiei, odiei, odiei este filme ! Nunca nada me deixou tão irritado, tão enojado, tão perturbado em um filme. Filme que faz todo o sentido, que esbanja talento, mas que me irrita por ser um filme MAU.
Filmes ruins me dão tédio. Despertam meu desprezo. Mas este, me dá ódio. Pois é um filme que vai contra TUDO aquilo que acredito.
Não procure uma história nele. Mas não é esse seu problema. O que me irrita é que em seu inicio este filme me seduz, para depois jogar em minha cara pura maldade. Sangue fake, mortes às dúzias ( inclusive algumas reais ), palavras de ordem. O filme prega, aberta e cruamente, a revolução. Mas não é uma revoluçãozinha, é a morte da burguesia. E para isso, Jean-Luc prega a validade de atentados, sequestros, bombas, sabotagem e guerrilha. Negros e árabes devem matar quem os oprimiu, pois a liberdade só nasce da violência.
O filme é todo nesse tom. Começa com um letreiro dizendo ter sido achado no lixo e que se trata de um filme de merda. O que vemos são burgueses, escravos dos carros e da moda, das marcas de roupas, perdidos em colossal e sanguinolento engarrafamento. Desastres e corpos abundam e mais ao final um grupo terrorista mata e come turistas ingleses. A revolução domina as imagens, que são tecnicamente brilhantes, mas que proclamam o FIM DO CINEMA.
E não foi da boca pra fora : após este filme, Godard ficaria anos sem fazer um filme "normal". Para ele, o cinema morria lá, em WEEK END.
Algumas tiradas: o casal burguês encontra Emily Bronte e Lewis Carrol na floresta. Os dois escritores falam por símbolos, de forma livresca, poética; mas tudo o que o casal quer ouvir é onde fica Orville ( cidade onde precisam ir para matar a mãe de um deles e receber uma herança ). Ateiam fogo em Bronte e pegam carona com imigrantes africanos. São momentos assim que fazem com que eu prossiga vendo o filme. Mas logo são jogadas mais palavras de ordem, mais revolução radical, mais fim-do-mundo.
Que caminho percorreu Jean-Luc ! De ACOSSADO, um policial existencialista, ainda pop, passando pelos maravilhosos filmes com ANA KARINA, até chegar na explosão criativa e genial de PIERROT LE FOU. Tudo nele era alegria, juventude, brilho e talento. Para então, após tantos filmes em tão poucos anos ( sete filmes em quatro anos ! ) ele explodir tudo, destruir o cinema, amputar sua carreira, berrar ódio aos quatro ventos, com este mau, odioso, repulsivo WEEK END.
Após isto, teríamos o incêndio : as barricadas, o caos, a anarquia, o vale tudo de 1968. REICH/ MAO/LACAN no poder. Nos anos seguintes perceberíamos que o exagero se instalara. A revolução, como toda revolução verdadeira, passara dos limites. Se tornara assassina. Reich era um charlatão, Mao um carrasco, Lacan um egocêntrico indecifrável. Os Baader Meinhoff, os Setembro Negro, os Exército Simbionês, os Brigadas Vermelhas, se mostrariam como grupos enlouquecidos, distantes dos ideais libertários ( e ingênuos ) de gente como Godard, Loach, Foucault e Pinter. Os inspirados slogans de 68 ( É PROIBIDO PROIBIR, FAÇA AMOR NÃO FAÇA A GUERRA e principalmente o genial A IMAGINAÇÃO NO PODER ) foram mortos e enterrados em 71/72. WEEK END é o início da morte, o grito da agonia, o erro que anuncia o caos.
Mas é preciso.
Para conhecermos o dinossáurico mundo histérico que foi dominante, antes da deprê radical se instalar e nos tornar caramujos de jardim cibernético. Um mundo onde existiam inimigos declarados, ódios totais e mortais, paixões pelas quais se morria e se matava. Opções, escolhas, vidas possíveis.
Hoje se morre por um celular e se mata por um par de tênis. Agora fingimos amizade e compreensão à todos, condenamos todo ato natural e não pensado e posamos de bonzinhos. Não gritamos, suspiramos. Não daríamos a vida por nada, e por isso, ninguém vai morrer por nós. Não pregamos maldades, mas transformamos o mundo numa bola de aço inox, liso, frio, impessoal, entediantemente uniforme.
WEEK END é odioso porque me mostra algo que perdemos : CORAGEM. A coragem de ser ruim, mau, de errar, de botar a cara pra bater, DE CRER NUMA IDÉIA E IR ATÉ O LIMITE COM ELA.
WEEK END é vivo. E eu, zumbi plugado em aparelhos moderninhos, odeio o que cheira e fede, e creia, este filme fede, como fede...

DEPP/SAURA/SISTER CARRIE/OZU

INIMIGO PÚBLICO de Michael Mann
Me fez recordar uma crítica sobre música pop, escrita por Ezequiel Neves. Zeca falava de sua tristeza. Ao se tornar crítico, ele perdera o prazer de escutar aquilo que realmente lhe agradava. Era obrigado a ouvir, toda semana, uma pilha de discos que as gravadoras lhe enviavam.
E eu penso : será que Inácio Araújo encontra tempo para rever os Hawks que ele tanto adora ? Eu, mero curioso, ultra-amador, me sinto, às vezes, na obrigação de espiar aquilo que está rolando. Ter como comparar, como ver para onde a história ruma. Posto isso...
O rosto de Depp. Tão modificado em digitalizações que nada transparece de sua face. Quase um cartoon. Mas não é a isso que o povinho pop se acostumou ? Rostos e lugares que remetem àquilo que foi visto na propaganda mais ilusionista possível ? Mundo onde nada recorda o mundo real, e uma vida ( a do povinho pop ) em que nada de verdade ocorre. O filme, de longe o pior do bom operário Mann, é um floco de algodão doce. Enjoa, é bonitinho, o vento leva, não mata fome alguma. Ideal para quem não tem paladar e odeia aquilo que tem peso.
Não vou comparar este filme à sua origem. Os filmes de gangster dos anos 30, com Cagney, Robinson ou Muni eram jornalísticos. Foram feitos ao mesmo tempo em que as balas voavam. Não vou comparar com Bonnie e Clyde, pois o filme de Penn foi dirigido com ambição artistica, senso de relevância e suprema inteligência. Bonnie existe no filme, Clyde é real. Temos política, sexo e humor. Aqui o que temos ? O absoluto zero. Nenhuma linha de diálogo demonstra algum sinal de trabalho refinado, todas as atuações são estereotipadas, o filme não possui verve, ambição, inteligência, nada. Mas dá aquilo que o moço da pipoca quer : rostinhos de bonecos, ambientes chics e estridência que adormeça, que não faça pensar. O filme me deu sono, muito sono.
Depp precisa voltar a viver. Ele adormeceu num tipo de limbo "Edward mão de tesouraiano ". Fazem séculos que ele não cria algo novo. Jack Sparrow foi uma excessão bem-humorada, uma brincadeira que deu certo. Em sua idolatria à Marlon Brando, Depp segue os passos do ídolo em sua preguiça, mas não em genialidade. Uma pena se Johnny não nos der seu "Ultimo Tango" ou seu "Poderoso Chefão". Acorde e se torne John !!!!! nota 3, pelo belo visual. È impossível um filme tratar dos anos 20/30 e não ser chic.
A QUEDA DA CASA DE USHER de Jean Epstein
Antes de dirigir seu primeiro filme, Bunuel foi assistente de Epstein neste filme tirado do conto gótico de Poe. O cenário é muito assustador e quem quiser saber de onde Tim Burton tira suas idéias, eis uma das fontes. Nota 6.
A LADRA de Otto Preminger com Gene Tierney
Que linda mulher era Tierney ! Traços de chinesa unidos a traços de irlandesa ! O filme é ok. O tipo de filme classe A, que Hollywood fazia às dúzias. Cleptomania, hipnotismo, roubo, tudo misturado numa diversão sem grandes erros ou acertos. Nota 6.
LARANJA MECÂNICA de Stanley Kubrick com Malcolm McDowell
Os outros diretores devem se sentir muito mal ao se lembrarem de Kubrick. Não é o melhor diretor. Mas sua inteligência é humilhante. Todos nós, um dia, fomos Alex, hoje somos o segundo Alex. Este filme, cheio de erros, chato em vários momentos, é um bofetão irado em nosso rostinho macio. Do cacete !!! Nota 9.
BODAS DE SANGUE de Carlos Saura com Antonio Gades
É necessário. Foi imenso sucesso nos anos 80 este filme do melhor diretor da Espanha antes de Almodovar e pós Bunuel. O que é o filme ? Um grupo de teatro se maquia, conversa, fuma. O diretor ensaia a peça de Lorca. O filme é o ensaio. Não há cenário, apenas um ambiente. Música flamenca e dança, sem diálogos. E uma súbita beleza estarrecedora. A cena da morte, duas facas em movimento contínuo, é uma das mais perfeitas já filmadas. Antonio Gades, belo-viril-enfeitiçante, rouba o filme para sí. Um gênio da dança cigana. A poesia de Lorca surge inteira, sem que se fale uma só linha de texto. Um milagre ! Nota 9.
ESPOSAS INGÊNUAS de Erich Von Stroheim
Houve um homem na Hollywood dos loucos anos 20 que insistia em fazer filmes de 9 horas de duração, com cenários imensos, extras aos milhares e meses de filmagem. Aqui está seu filme menos dispendioso. Ele constrói a Riviera francesa em LA, filma festas luxuosíssima, roupas caríssimas e faz uma cena de tempestade maravilhosa. Se ele foi um gênio ou um louco, até hoje se discute, mas este mastodôntico espetáculo é bastante assistível. 80 anos após sua premiere ! Em tempo: como ator, Von Stroheim está como o mordomo no CREPÚSCULO DOS DEUSES e é o general alemão em A GRANDE ILUSÃO. Seu lugar na eternidade está seguro. Nota 5.
HALLELUJAH ! de King Vidor
Maravilhoso Vidor. Em 1929, enquanto a KKK enforcava negros em árvores, ele, diretor famoso, faz este filme com atores negros, em favelas do sul, e cheio de gospel, jazz e spirituals. Um documento de uma era. O que me deixou boquiaberto é constatar como os negros americanos de 29 se parecem com aquilo que somos hoje. Se movem como nos movemos, falam com nosso sotaque e cantam rocknroll ! Quando vemos os atores brancos da época na tela, apesar de os amarmos, sentimos que são seres de outra era. Eles andam, falam, se vestem, atuam como gente de outro planeta. Aqui isso não ocorre. ( Como não ocorre quando vemos Louise Brooks ). Nota 7.
AS QUATRO PENAS BRANCAS de Zoltan Korda com John Clements, Ralph Richardson e June Duprez
Foi refilmado em 2000 com atores australianos ( Heath Ledger e Guy Pearce ). Este é o original. Desavergonhadamente colonialista, pinta os ingleses como arautos da civilização, um povo que deve salvar a Africa de sua ruína pré-histórica. O mundo mudou ? Hoje são as grandes multinacionais que salvam os povos atrasados de sua ignorância. Se voce esquecer sua caretice colonial, é uma cara e bonita produção. nota 5.
3 BAD MEN de John Ford
A fase muda de Ford já mostra tudo aquilo que ele sempre adorou filmar : casamentos, funerais, festas, camaradagem entre homens e mulheres corajosas. O filme é cheio de humor e tem uma corrida de carroças impressionante ! São centenas de carros, milhares de cavalos e burros, correndo numa planicie sem fim. Emociona muito, pois sabemos que alí estão homens e animais de verdade. Que eles se machucaram de verdade para fazer a cena, que eles têm um limite para aquilo que pode ser feito. Cada homem, cada cavalo tem seu detalhe próprio, seu movimento único, sua verdade concreta. A ação digital emociona menos porque sabemos que TUDO pode acontecer, e se não existe um limite, não existe a coragem em se superar esse limite. Sempre penso em DURO DE MATAR. Bruce Willis nos dois primeiros emociona porque o vemos sangrar e sabemos que ele não vai voar ou cair de 20 andares e ficar vivo. Algo razoávelmente crível terá de ser criado. No último DURO DE MATAR, ele ricocheteia andares abaixo, derruba um jato e sobrevive a viadutos desabando. Tudo pode e nossa crença se vai. O que resta é tédio.
Ah sim... a nota para este Ford é 7.
SISTER CARRIE de William Wyler com Laurence Olivier e Jennifer Jones
Caraca ! Drama pesado, sem açucar. Ninguém morre ou fica doente, mas como se sofre ! Olivier empobrece por amar a mulher errada, e Jennifer sofre por ser pobre. O filme foi um fracasso. Ele não alivia nada, o que está ruim, piora. Não tem final bonitinho, tem final nobre. Olivier dá um show. Seu sofrimento é feito de olhares, tom de voz, gestos das mãos. Um deus entre os atores. A cena final é aquilo que tinha de ser : perfeita. Wyler dirige com o dom de quem ganhou quatro Oscars - retidão e competência. Um exemplo de bom drama. nota 8.
CORAÇÃO CAPRICHOSO de Yasujiro Ozu
Bendito DVD ! Onde alguém poderia assistir tal raridade ? Estão lançando tudo de Ozu e este, pasmem, é mudo ! O estilo ainda não é totalmente Ozu : a câmera se move e abundam cortes. Mas o tema, o amor entre pai e filho, já é Ozu. Um diretor precioso. Um poeta do cotidiano simples, de familias comuns, amores normais, bairros como são todos os bairros. Ele mostrava a beleza dessa normalidade, a poesia da rotina, o heroísmo da vida amorosa. Aqui vemos o mestre ainda tateando, mas já acertando muito : o inicio tem humor abundante e o fim tem tristeza sublime. nota 7.
SIM SENHOR de Peyton Reed com Jim Carrey e Zooey Deschanel
Eu gosto de Jim Carrey. Numa Hollywood menos tirânica ele seria o cara. Mas não é. Sua carreira já mostra sinais de acomodação. ( Incrível, com a idade de Jim e de Depp - Clint Eastwood e Bogart estavam começando ! ). O filme tem um excelente tema, desenvolvido rasteiramente. Mas é ok. nota 6.

A BEM AMADA / KHADJI MURAT

Thomas Hardy teve uma longa carreira. Seu último livro é este, "A BEM AMADA", novela curta, reescrita várias vezes pelo autor. Após este título, Hardy se dedicaria apenas a poesia. E do que trata a novela ?
Um jovem de posses, escultor, passa sua vida atrás da alma da tal "bem amada", símbolo da mulher perfeita- sublime-ideal. Pensa várias vezes tê-la achado, mas esse espírito logo foge de sí, transferindo-se para outra forma feminina, outro corpo. Essa primeira parte da narrativa se chama " Um jovem de 20 anos". A segunda parte é "Um jovem de 40 anos".
Uma antiga amada vem a morrer e ele sente que era ela, então, seu grande amor. Agora que está morta e inacessível, nosso jovem de 40 vê o quanto a amava. Ato imediato, apaixona-se pela filha da falecida, imagem mais tosca da mãe. Eis a nova encarnação da bem-amada.
No terceiro segmento, "Um jovem de 60 anos", ele conhece a filha da filha de sua amada. A mãe dessa menina, sua ex- musa, tenta fazer com que eles se casem. Ele enfrenta esse ridículo, mas ela não o quer ( como a mãe não o desejou ).
Hardy se dá muito melhor quando é naturalista. Aqui, tentando ser também simbolista, ele se torna enfadonho. Apesar de curto, o livro não avança, não flui, não seduz. Uma pena, pois o tema é maravilhoso.
Falar de "Khadji Murat" é falar de seu autor, e falar de Leon Tolstoi é falar do maior de todos. Chamado por muitos de "o melhor conto de aventuras já escrito", aqui se fala de tudo que ainda importa. Heroísmo, familia, camaradagem, guerra, miséria, e até de ecologia, Tolstoi fala.
Khadji é um rebelde muçulmano que resolve lutar ao lado de seus antigos inimigos, os russos. O cenário é a rebelião na Tchetchenia ( vejam só... os problemas não mudam... ) e Khadji é orgulhoso, individualista, hábil e muito religioso. Em 120 páginas, lidas em poucas horas, dúzias de personagens surgem nítidos, vivos, a respirar. Tolstoi mostra com imagens simples e fortes a selvageria do homem, o ridículo que é a guerra, a traição pelo dinheiro, a violencia sem justiça, o absurdo e a futilidade da vaidade. Ele mostra, diz, pinta. Nos envolve no cenário gelado, sentimos o gosto da comida, respiramos a pólvora e a névoa. Os golpes que decepam, nós os sentimos.
Khadji não é bom. Ele é um homem grande. Tolstoi é um homem grande. E esta história, simples, curta e breve, soa vasta, imensa, de verdade plena.
Ler "Khadji Murat" é ver o espírito do homem, saborear o salgado gosto da vida e se tornar um pouco menos iludido com o brilho tolo do mundo. Tolstoi foi mais que um escritor, foi um guru.

respondendo aos amigos

Alguns amigos que encontrei recentemente apontaram certas falhas em coisas que andei escrevendo. O que mais os irritou foi o comentário sobre o texto de Walter Salles e o fato de eu ( e muitos outros ) termos dito que os anos 90 foram um tempo "Led Zeppelineano ".
Primeiro o Led.
Todos sabem que sou fã do Roxy Music, de Kevin Ayers e de Serge Gainsborg. Nada é menos Zeppelineano que esses caras. Mas também sou apaixonado pelo Led ( assim como por Rap, Mozart e Secos e Molhados ). Os anos 80 foram Roxy. O estilo era mais importante que o som. Tudo era dúbio, suave, tristonho, glacial. De Cure à Pet Shop Boys, de Bowie à Prince, a marca da época era a melancolia afetada, fake.
A década seguinte rompeu com isso. Rompeu via Pixies, Nirvana, Public Enemy, Jane's Addiction. Rompeu com shows ao ar livre, roupas largadas, guitarras e bateria "de verdade", maconha e hippismo de segunda mão. O Led deixou de ser ridículo e passou a ser cult. O pessoal do rap sampleava a batera de Bonham, assim como o povo do eletrônico cultuava "Kashmir" e sampleava tudo da banda. Me causa espanto ver gente que adora "Quase Famosos" não reconhecer tal obviedade. Queens of stone age, Foo fighters, Mettalica, todos têm a atitude "viking" do Led Zeppelin. Banda que considero a mais poderosa da história e consequentemente, a mais odiada pelas "tiazinhas do pop choroso". Tiazinhas que dominam o pop atual. ( Com belas excessões ).
Quanto a Salles, seu texto é um desabafo de quem viu o paraíso do cinema autoral e é obrigado a conviver hoje com falsos mercadores de imagens.
É claro que existem bons filmes sendo feitos ! Eu sou apaixonado pelos filmes dos Coen, de Tim Burton, os desenhos da Pixar, Almodovar, e um monte de outros. Mas o que acontece é que o cinema está estagnado. Não existe mais uma evolução. Cada filme bom é bom em sí-mesmo, não é parte de uma corrente, de um movimento ascendente ( e minha sensação é a de que todo bom filme é descendente, aponta a origem e nunca o futuro ). Os bons diretores de hoje estão acuados. Seus filmes não produzem ressonância. E ressonância é a marca do talento.
Faça uma experiência : Veja quantas vezes seus pais, tios ou avôs têm ido ao cinema. Pergunte ao garçom de seu restaurante, ao seu motorista, que filmes ele foi ver no cinema. Acredite-me, meus tios iam ver "Último Tango", "Laranja Mecânica" e "Taxi Driver", e o povão, prova maior de sucesso de bilheteria, fazia filas em "Tubarão" ou "Star Wars".
Os sucessos de bilheteria são sucessos de multiplex, e o povão não vai ao shopping. O shopping lhes deixa inibidos e frustrados. O cinema de rua era seu meio. Hoje, só a pirataria os atende.
Quanto a ressonância. Vá a sessão de cinema numa livraria e veja quais os títulos. Livros sobre Hitchcock, Audrey, Bogart, Ford e Truffaut. Porquê ? É óbvio que eles vendem. Mas é mais que isso. Eles são assunto. Dá para se escrever um livro sobre "Vertigo". Por mais que você adore "Pulp Fiction", bem, 30 páginas esgotam o assunto.
Se você vai escrever sobre Johnny Depp você acaba falando de fofocas sobre ele. Se você escreve sobre Brando, você escreve sobre a história do testro americano, a revolução de costumes, a solidão da fama, a esquisitice do egocentrismo, e o cinema autoral dos anos 70. E fofocas também. Há muito assunto. O que escrever sobre Paul Thomas Anderson ? Ele é bom e adora Robert Altman. Que mais ? E sobre Michael Mann ? Mesmo Spielberg não rende assunto. No fundo todos são fãs, nerds de salas escuras. A vida deles está nos filmes. Portanto suas experiências são citações do que viram na tela, não daquilo que viveram.
De Sica podia falar de pobreza e guerra porque viveu ao lado da guerra e da fome. Não a assistira num filme. Truffaut falava de crianças delinquentes porque fora um menino de rua. Godard podia falar de revolução, pois vivia ao lado de grupos maoístas revolucinários. Um diretor hoje, quando fala de sua vida real, falará de solidão e tédio. E da vida na escola. É tudo o que ele viveu. Quando fala de guerra, crime, miséria, está falando do que viu em De Sica, Truffaut ou Hawks. Por isso que Scorsese brilha ao falar de crime, Allen de neurose ou Almodovar de confusão sexual. Eles viveram isso. Tarantino, Coen ou Burton, por melhor que sejam ( e são ), pegam tudo de segunda mão. Eles dizem coisas que viram num filme. Quando voce vai falar deles, acaba falando de suas referências. O cinema do terceiro mundo encanta certos críticos do primeiro porque esses realisadores ainda viram alguma vida fora da tela. Viveram algo além da school. Mas mesmo esses, por falta de público, se tornam repetitivos, ratos de festivais, secam. Não dão cria. Não lançam um movimento.
Acho que respondí.

chet baker, aldous huxley e jornalismo cultural

Aproveito esses dias de folga e chuva para reorganizar minha coleção de recortes antigos de jornal. Sim, sou desses idiotas que recortam jornal. No meu caso recortava. Não há o que recortar hoje.
Viajando pelos recortes, alguns do JORNAL DA TARDE, outros do ESTADÃO, muitos da FOLHA; leio críticas de cinema da década de 70 ( TAXI DRIVER, ANNIE HALL, APOCALYPSE NOW, CASANOVA, DERSU UZALA ). Um tipo de crítica diferente. Não se falava em bilheteria. Se via muito o viés politico e social do cinema. Se cobrava muito do diretor.
Viajo aos guias de salas e me surpreendo. Muitas salas na avenida Santo Amaro, nas ruas de Santana, nas ruas de Pinheiros e até a avenida Francisco Morato tinha sua sala. Existiam dois cinemas para se ver cinema no carro ( auto-cine ) e salas imensas na São João, na Ipiranga, na Domingos de Morais.
Críticas de discos de meu critico favorito, Ezequiel Neves. Ele nunca era imparcial. Quando gostava de um grupo, tudo era "descaralhante". Quando era ruim, ele xingava e acabava com a raça da banda. Foi ele quem me instruiu sobre Roxy, Lou, Talking Heads, Blondie e Miles Davis.
Uma série do JT com a história do jazz. Isso mesmo, eles publicaram em várias edições toda a história do jazz. Foi lá que aprendi o que sei. Depois veio a história da ópera e da música sinfônica.
Os dez filmes favoritos de Inácio Araújo : Rio Bravo do Hawks é o primeiro. Depois vem A Palavra do Dreyer, Viagem à Tokyo de Ozu, Dr.Mabuse de Lang, O Beijo Amargo de Aldrich, Alphaville de Godard, A Marca da Maldade do Welles, Vertigo de Hitchcock, Pickpocket do Bresson e Tabu do Murnau. Os dez do Ruy Castro : Cantando na Chuva, Kane, Casablanca, A Montanha dos sete Abutres, A Malvada, Dr.Fantástico, Laura, Vertigo, Luzes da Cidade e O Homem que Matou o Facínora.
Os dez discos do Alvaro Pereira Jr. London Calling do Clash é o primeiro. E daí vem Mission of Burma, Sex Pistols, Velvet Underground, Joy Division, o Satanic dos Stones, Ramones, Beatles Revolver, Pretenders e Stooges. Os dez do Zeca Camargo : Prince Parade é o primeiro. E vem U2, Talking Heads, Velvet Underground, Sex Pistols, Malcolm McLaren, New Order, Jesus and Mary Chain, Bowie Low, e De La Soul. São listas de 1999.
Matéria de Antonio Callado sobre Aldous Huxley no Brasil. Fico sabendo que foi o avô de Huxley quem inventou a palavra Agnóstico. Que Huxley veio ao Brasil em 1960. Que encontrou Claudio Villas-Boas no Xingu ( não avisaram Claudio quem ele era. Mas Claudio assim que o viu disse : - Voce não é Aldous Huxley ? Adoro Contraponto ! ). Huxley era um sábio. O último talvez. Sabia muito sobre muitas coisas. Dizia que nós atingimos o nirvana se na hora da morte a aceitarmos com alegria. Tomava LSD, que era legal, para encontrar Deus. Tomou dois na hora de morrer. Ele pensava que o mundo se tornava o inferno descrito nos textos indús. Onde o desejo cresce sem cessar e jamais poderá ser satisfeito. Contraponto foi moda nos anos 30. Huxley se apaixonou pelas borboletas do Xingu. Huxley foi um intelectual que dizia : Não ouço ou leio algo por ser relevante. Leio e escuto só o que me dá prazer. E, por felicidade, Beethoven e Shakespeare me dão muito prazer.
Viajando pelos recortes encontro pilhas de textos sobre Yeats. A Folha em 1988 publicou cinco páginas sobre meu ídolo maior. Textos de Haroldo de Campos, Paulo Vizioli, João Moura Jr. Sua vida : ministro do estado livre da Irlanda, poeta, místico espiritualista, dandy simbolista, apaixonado por Maud Gonne, recusado e apaixonado pela filha de Maud Gonne. Autor de teatro. Estudante de pintura. Um homem que viveu a luta entre " seu eu e seu anti-eu. O ser e sua máscara."
Textos escritos nos dias das mortes de Laurence Olivier, John Gielgud, John Huston, Miles Davis, Peter Sellers, Rex Harrison ( escrito por Paulo Francis ), Audrey Hepburn, David Niven, Bob Fosse, Chet Baker.
André Forastieri escrevendo sobre o Led Zeppelin em 1989. Dizendo que a década de 90 será do Led ( acertou. Foi a década de Pearl Jam, shows em estádios, baterias pesadas, cabelos longos, Red Hot, Stone Roses lançando um segundo disco muito Led, Foo Fighters, Soudgarden, Stone Temple Pilots ). Uma frase genial de André : " Nos anos 80 o Led foi odiado porque a década de 80 foi a década de mentirinha. A década das falsas aparências, do cinzento. O Led é preto no branco, é rude, é verdadeiro. A década de 80 é Smiths, grupo frouxo para uma geração frouxa."
E mais André, em texto estupendo, longo ( página inteira com letra miúda ) sobre DIAMOND DOGS do Bowie. Descrição de faixa por faixa, de músico por músico, dos shows, da capa, de tudo. Informação completa. E ele faz justiça : é o melhor de David.
Páginas sobre Chagall, sobre Doisneau, sobre Matisse.
Entregas do Oscar. A de 78, a de 83. Tantas mais... páginas longas, pouca foto, muito texto. James Stewart, Olivier, Kurosawa, Fellini, Cary Grant, até John Wayne e Fred Astaire, vivos. A graça de ver o Oscar era ver esses caras vivos. Quem quer ver Tom e Julia na platéia ?
A derrota do Brasil na Espanha em 82. Eu guardei. A Manchete do título da Itália : Bravi Ragazzi ! e antes, no dia da derrota, a foto linda do menino chorando.
Miles Davis tocando aqui. Dizzy, Grapelli, Ella, Brubeck, e Sinatra no Maracanã. O primeiro show dos Stones : 10 páginas na Folha. Paul in Rio, um caderno inteiro.
Luis Antonio Giron analisando toda a obra do Roxy Music. Maravilhosamente bem informado. E Alex Antunes falando de Ferry.
Paulo Francis escrevendo sobre teatro inglês, sobre a Broadway, sobre politica. Eu recortei e guardei.

Mas não adianta eu ficar aqui, descrevendo meus recortes. Como voces vão poder lê-los ?
Termino com uma pequena jóia. Um texto da Folha, de 88, escrito no dia da morte de Chet Baker. Matinas Suzuki escreveu. Um estilo que desapareceu de nossos jornais. Perto disto, o que se escreve hoje é texto de telegrama. Reproduzo apenas alguns trechos :
" Me custa muito conviver com a idéia de que estás morto. Havia sinais no ar, mas eu me recusava a aceitá-los....Não sei bem porque, mas na volta de Roma comprei, na estação de trem, o jornal La Republica. É morto il jazzista Chet Baker. E foi como se o trem saísse dos trilhos e penetrasse no transparente mar verde que via por minha janela esquerda....Na verdade havia perdido minha razão pela viagem. Porque uma das coisas que me moviam a suportar a rotina de malas, trens e hotéis, era o fato de poder passar horas, dias, perseguindo lojas de discos de todo o mundo, nas quais ia direto a seção jazz e a letra b.... lá voce estaria cantando só para mim. E isso era tudo...... e ao fim de tudo, só consigo pensar em voce cantando alone together. Voce morreu numa sexta 13. Espero que alguém cuide de mim."
Pioraram as pautas, os jornalistas, o espaço encurtou, o que aconteceu ? Não importa o que houve. O que desejo é que alguém cuide de nós.

LARANJA MECÂNICA- STANLEY KUBRICK

O livro, do grande Anthony Burgess, é uma maravilhosa sátira sobre a falta de escolha. No livro, todos são dirigidos pelo meio, ninguém pode, ou pior, deseja, escolher. Kubrick mudou todo o enfoque e faz aqui, o mais imoral e perverso dos filmes.
Primeiro a sedução.
Os bares e casas têm a estridência dos anos 70, que hoje parecem chic. A trilha, a primeira trilha eletrônica do cinema, é muito envolvente, quase apelativa. E há a energia glam do Alex feito por Malcolm McDowell em momento muito inspirado. O filme, sucesso de bilheteria, influenciou toda a maneira de ser dos jovens ingleses da época. Alex era o cara. E, pasmem, Alex é um assassino. O filme é o mais imoral por antecipar "ASSASSINOS POR NATUREZA" e outros que tais.
Toda sua primeira parte é maravilhosa. Alex comete crimes "belos". Os estupros são ballets, os espancamentos são obras de arte, Alex nos seduz com suas gírias, seu chapéu e sua bengala. Quando ele canta "Singin in the rain", já é o Gene Kelly do futuro. Nosso ideal.
Mas o filme pode ser pior. Na prisão, Alex se torna nosso santo. Todo guarda, nazista, todo detento, pervertido, é nosso inimigo. Somos Alex, e não há como negar, se Kubrick queria isso, ele conseguiu. Quando Alex é destruído, vamos ao fundo com ele. Nessa hora somos NÓS que perdemos Beethoven.
Curado, ele volta para casa. É genial a cena com os pais. E é dilacerante a via-crucis de nosso herói sendo trucidado por suas ex-vitimas. Quando ele chega à casa do escritor vem a cena do vinho. Poucos atores nos seduziram de forma mais completa.
Ele quase morre e renasce. Somos poupados da volta do Alex inicial. Se Kubrick tivesse mostrado Malcolm novamente de chapéu e bengala, matando velhos e estuprando mocinhas cantando Singin'... bem, provavelmente nosso orgasmo seria tão profundo que teríamos saído do cinema matando crianças e estuprando cães.
Recordo que o filme demorou para ser liberado. Quando entrou em cartaz, corri para o assistir e consegui entrar, apesar de ser menor. Era engraçado ver tantas senhoras e senhores, em salas lotadas, vendo cenas de sexo e de violência. Eu saí da sala muito confuso. Eu queria bater em alguém, qualquer um, mas não tive a coragem. Eu queria vingar Alex.
O que Kubrick desejou ? Assistindo o filme hoje, após décadas de violência e cinismo, fico tentando crer que a mensagem era a seguinte : Alex somos todos nós. Todos somos violentos. Quando essa violência nos é suprimida nos tornamos o que Alex se torna após a reeducação : deprimidos e assustados. A civilização atual nos tirou o direito de ser violento, isso pode ser um preço necessário, mas ao abrir mão disso, abrimos mão de todo o resto : coragem, alegria, camaradagem e "Beethoven". Alex não pode mais ouvir Beethoven.
Será esse seu sentido ? Talvez. Mas o mais provável é que este seja o mais niilista dos filmes. Num tempo em que o IRA matava estudantes na Inglaterra, o ETA ateava fogo na Espanha, as Brigadas Vermelhas matavam industriais pacatos na Itália, o Baader Meinhoff tacava bombas na Alemanha e os Panteras Negras criavam um exército negro nos EUA ; Kubrick nos diz que tudo é violência. Que para interromper a violência é preciso mais violência. E que entre a porrada tonta e juvenil de Alex e a porrada planejada e científica do Estado, a de Alex ao menos é sincera, corajosa, HUMANA.
O mundo enlouqueceu entre 66/78. Hoje ele sofre de depressão. E na esquizofrenia daqueles tempos perigosos, nada é mais emblemático que LARANJA MECÂNICA. Sedutor, ruim, imoral, metido, rude, e completamente genial.
Corajoso.
Hoje somos todos Alex reeducado : medrosos, acomodados, tristes e não se permitindo ouvir a Nona Sinfonia sem desejar morrer. O que nos foi tirado ? O que perdemos ?
Kubrick foi o XAMÃ da sétima arte. O único. Sua perda foi irreparável.

DE PALMA/PANDORA/RENOIR/JAGGER/FEITIÇO DO TEMPO/

SAUDAÇÕES de Brian de Palma com Robert de Niro e Gerrit Graham
Primeiro filme de Brian. Recém saído da escola, ele faz um longa que é retrato de seu tempo : amador, livre, caótico, ousado. Todos os temas que ele desenvolveria pelos 40 anos seguintes se encontram aqui : paranóia, sexo, realidade e imaginário, limites da liberdade. De Niro, muito jovem, já mostra o carisma que faria dele um ícone de sua geração. Um filme irregular, muito feliz, cheio de esperanças e de rebeldia alegre. Filho de Godard, Truffaut e Malle. Veja os extras! Nota 5.
IMPÉRIO DO CRIME de Joseph H. Lewis com Cornel Wilde, Richard Conte e Jean Wallace.
Uma obra-prima do filme noir. Escuridão e muita sombra, personagens angustiados, violência e sexo. Tudo filmado com exemplar sentido de clima, de sugestão, de ritmo, pelo subestimado Lewis. O roteiro, que trata de traição, funciona como uma bomba relógio : você espera todo o tempo pela explosão. Conte está sexy, cruel e estranhamente simpático. Há uma cena de sugestão de sexo oral surpreendentemente despudorada para a época e Jean faz uma heroína muito atraente. Em termos de filme noir, este é dos maiores. Nota DEZ.
PANDORA de Albert Lewin com Ava Gardner, James Mason, John Laurie.
Lewin era um excêntrico. Fez apenas dois filmes : Dorian Gray e este Pandora. E que filme louco!!! Ele trata de espíritos apaixonados, mulher fatal, touradas, maldições e Espanha. Tudo com a fotografia maravilhosa de Jack Cardiff, um dos maiores da história. Todas as cenas se passam no amanhecer ou no anoitecer, e o filme tem um ar de irrealidade hiper-colorida. Ava está bela como nunca, alguns closes chegam a se parecer com pinturas da renascença. Mason, grande ator, transpira tristeza neste drama poético exagerado e fascinante. Nada aqui faz sentido, mas o filme nos vicia como morfina. Um filme muito original que quase cai para o ridículo todo o tempo, mas que vence no final. Impressionantemente bonito. Nota DEZ.
3:10 TO YUMA de Delmer Daves com Glenn Ford, Van Heflin e Felicia Farr.
É superior a sua refilmagem com Crowe e Bale. É superior por ser mais seco, simples, direto. A fotografia, um preto e branco metálico, é muito eficiente e Glenn Ford tem um cinismo mais aliciante que o de Crowe. Um bom western. Nota 7.
ONDE ESTÁ A LIBERDADE ? de Roberto Rosselini com Totó.
De todos os diretores cult da história nenhum é técnicamente mais pobre que Rosselini. Chega a impressionar sua falta de habilidade para dirigir atores, para posicionar a câmera e principalmente para cortar. Sua fama se deve a sua coragem. A coragem de fazer filmes que ninguém queria fazer. Este trata do velho tema do presidiário que opta por voltar a prisão. Totó é ator gênio. Seu rosto, extremamente cômico, transmite dúzias de informações ao mesmo tempo. O filme é salvo por seu talento sem igual. Nota 5.
CANINOS BRANCOS de Randal Kleiser com Ethan Hawke e Klaus Maria Brandauer
Quem assistir esperando ver Jack London irá se decepcionar. O livro trata do cão-lobo, fala de evolucionismo. O filme é puro Disney. Boa paisagem, belo cão. Nota 3.
O FEITIÇO DO TEMPO de Harold Ramis com Bill Murray e Andie MacDowell.
O melhor crítico americano de hoje chama este filme de genial ( Roger Ebert ). Nem tanto. Mas ele merece a fama que tem. È aquele filme do dia que se repete para sempre. Murray, vítima desse encanto ( e o filme tem o mérito de não o explicar ) reage a princípio com desespero, depois se diverte, entra em depressão e aprende por fim a usar esse tempo. Descobre o outro. Este é chamado de o melhor retrato já filmado do que seria uma análise freudiana bem feita : um reviver de momentos que se eternizaram, até sua resignificação e superação. Bill é perfeito para fazer tipos derrotados e Andie nasceu para ser a ingênua feliz. O filme é muito melhor do que parece, chega a ter significados cosmológicos e existenciais. É um filme típico de "cinema independente esperto e cult" antes da aparição de Charlie Kauffman. Nota 7.
O HOMEM DO OESTE de Anthony Mann com Gary Cooper, Lee J. Cobb e Julie London.
Ninguém fez westerns como Mann. Seus filmes, econômicos, simples, possuem sempre a ressonância do teatro grego. São seres gigantescos, arquétipos sofredores, que lutam em vão contra os deuses do destino. Seu tema é o do homem tentando superar sua sina. Um tema de coragem. Nesses temas, o ambiente é sempre o oeste vazio, o espaço de solidão, o vácuo da busca. Cooper está soberbo. Ele faz aqui tudo aquilo que Clint começaria a fazer quinze anos mais tarde. O fracasso impera nos filmes de Anthony Mann. Diretor que em westerns só tem Ford em sua altura. Soberbo. Nota DEZ.
A CADELA de Jean Renoir com Michel Simon.
Este filme me fez finalmente entender o porque de tanto diretor de cinema chamar Jean de "o maior". Renoir filma adolescentemente. Ele é brincalhão, irresponsável, livre. Mas tudo a custa de talento, de saber-fazer, de risonha sorte. Os filmes dele têm tudo para dar errado, e dão certo! Este, história de homem mais velho arruinado por vagabunda que é apaixonada por gigolô, é brilhante. E feliz, estranhamente feliz. Uma história tão trágica, e que se torna feliz pelo brilho de Jean. Renoir... deve ter sido duro ser filho do grande pintor Auguste. Mas Renoir venceu. Dizem que ele era muito alegre, amante de boa comida, vinhos, mulheres bonitas. Seus filmes passam isso. Sem esteticismo, sem pedantismo e nenhum ponto de intelectualismo. Renoir simplesmente filma brincando. Ele ama filmar. Quanto a Michel Simon... basta "L'Atalante" para dar à ele o nome de melhor ator da história. Aqui Michel faz o que sabe, ser um gênio. Nota 8.
VELVET GOLDMINE de Todd Haynes com Ewan McGregor, Christian Bale.
Um emblema de minha infância. Podia e devia ser muito mais!!!! Mas é ok. Leia o que escrevi abaixo. Nota 7.
O MISTÉRIO DA TORRE EIFFEL de Julien Duvivier
Quanta invenção! Julien liga a câmera e filma a Paris-mito, a Paris de antes da guerra, a cidade que não existe mais. O filme, aventura rocambolesca sobre herança, vai de Nice à Paris, de circos à mansões. Cheio de alegria, de humor, de agilidade. Uma bela surpresa. nota 7.
PERFORMANCE de Donald Cammel com James Fox, Mick Jagger e Anita Pallemberg
O glitter nasce aqui. Jagger, diferente de todo rock-star da época, diferente de todo rock-star de hoje, é um monstro de dubiedade. Ele não se parece com um homem e nem com uma mulher, é hermafrodita. O filme trata disso : um gangster do sub-mundo londrino se esconde na casa de um ídolo pop decadente. Lá, seduzido por sex-drugs e magia, ele se transforma em Jagger, e Jagger se torna ele. ( Na vida real isso ocorreu : o Mick de Jumping Jack Flash morre em 1971. E renasce como o Big Boss do circo do rock ). Fox ficou tão doidão nas filmagens que largou a carreira e foi viver na India. O diretor se suicidou nos anos 80 e a linda e muito perigosa Anita era a esposa de Keith Richards na época ( que a roubou de Brian Jones, provocando sua dèbacle ). O filme é cheio de falhas, principalmente na fraca meia hora inical, mas depois cresce muito ( quando Mick e Anita surgem ) e é profundamente inspirador. Nota 7.

VELVET GOLDMINE- TODD HAYNES

Assistir este filme é para mim, exercício de nostalgia narcisística e masoquista. Eu tinha 11 anos no auge do glam-rock, e creia, glam era feito para gente de 11 anos. Bowie, Roxy, T.Rex, David Essex, Eno, Lou Reed ( só por um ano ), Gary Glitter, Suzi Quatro, Sweet... a melhor época do pop, magnífico período de romantismo bobo, criatividade pupurinada, beleza travestida.
O filme funciona?
Quando o assisti pela primeira vez, sim. Revisto hoje, seu impacto diminui. Em 1999 não havia o filme sobre Dylan. Na comparação entre os dois, Velvet perde de longe. Porque ?
O glam-rock era bem mais do que o filme mostra. Dylan é o que o outro filme diz.
Vendo este filme, temos a impressão de que o movimento foi apenas um surto gay, nascido em boates de travestis e lançado por empresários suspeitos. Sim, foi tudo isso, mas foi bem mais. Seu lado mais perigoso, mais transgressivo, ficou de fora.
No início deste texto, eu escrevi que este filme é saudosista. Ele "precisa" ser, pois o glam-rock já nasce saudosista. E sua saudade é do simbolismo. Ele traz Rimbaud/ Wilde/ Yeats e Proust para o mundo caipira do rock. E isso foi muito revolucionário.
Até 1971, rock era coisa de macho. Seja Hendrix, Lennon, Cash ou Townshend, todos posavam de cowboy, de trabalhador. A genial excessão : Mick Jagger. Seu filme, PERFORMANCE, um tipo de Velvet Goldmine em LSD, é o ponto inicial do glitter. Tudo o que o glam-rock seria já se encontra lá : bissexualidade, luxo, cafonice e simbolismo afetado.
Em 1971, Hunky Dory de Bowie e Transformer de Lou Reed se juntam ao super sucesso de Electric Warrior de T.Rex e capturam a parada britânica. ( Observação : os EUA jamais engoliram o glam. ). Logo, durante quatro anos, tudo se torna glam. Gente que nada tinha a ver com o movimento ( até o Deep Purple tentou ser glam ) se maquia e se finge simbolista. Eu lembro de meu tio usando calças pink de boca sino e camiseta purpurinada e de uma prima com uma estrela pintada no olho, glitters sem saberem o que isso era.
O filme vence pela trilha sonora. Cinco músicas do Roxy ( tocadas pelos fãs : Thom Yorke, Johnny Greenwood, Bernard Butler e Michael Stipe ) e mais algum Eno e T.Rex. As versões, respeitosas, são exatamente iguais às originais. Bowie proibiu o uso de suas canções. Uma pena. Talvez um dia Todd faça sua biografia.
A relação entre Iggy e Bowie está muito bem explicada no filme, mas a loucura que rolava ao redor deles não é mostrada. Bowie é o mais diabólico, esperto, malandro, ladrão e genial entre os heróis do pop. Naquela época ele comia por todo lado : seus rocks eram chupados de seu rival- Marc Bolan; as baladas vinham de Lou Reed; sua persona era uma mistura de LARANJA MECÂNICA com mímicos ingleses; sua pose era a de um Oscar Wilde cibernético. A imensa ambição, a inteligência acima do seu meio, a frieza revolucionária e individualista de Bowie passam longe do filme. Bowie foi apaixonado por Iggy, mas foi muito mais que aquilo.
Lou Reed está ausente do filme. TRANSFORMER foi o melhor dos discos glitter. A relação de ´fã e de ídolo que havia entre os dois foi posta de lado. Bowie respeitava Lou e Dylan. Ele copiava Marc Bolan, mas sabia que o alcance do T.Rex era limitado. Bolan encontrou uma fórmula e não conseguiu dar o passo seguinte. Bowie guinou ( em 1976 ) para Eno e Roxy, e se renovou.
O retrato de Iggy redime qualquer erro que o filme cometa. Ewan McGregor brilha. Seu Iggy é aquilo que o verdadeiro Iggy Pop é : ADORÁVEL.
Um bando de pretensiosos. Bichas louquérrimas. Cafonas de propósito. Roupas para ofender o bom gosto e a caretice. Letras sobre gays, viagens espaciais e solidão. Isso tudo caiu como uma bomba sobre minha vida. Christian Bale, de certa maneira, faz o que fiz. Seguir esse arco-iris platinado pelo resto da vida. Cair de amor por cada menina dúbia e duvidosa encontrada na vida e ouvir Roxy/Bowie/Lou como um tipo de compromisso com o sublime. Quando Bale coloca o vinil para rodar, me vejo em 1974, ouvindo Bowie como se fosse um pecado. Caraca! Eu era uma criança !
É legal imaginar que certos nomes do pop atual tiveram a mesma relação sagrada que eu tive com os discos do glam. Imaginar que todos estão eternizados. O que me irrita é que eles não tiveram a coragem de BICHALOUCAR. São apenas meninos frescos.
Pensando melhor. Este filme é bem legal. Me faz divagar. Sonhar com o tempo em que ouvir um disco era um ato de relação íntima. Você e David, você e Bryan. Contra os hippies, contra os caretas, contra quase tudo.
Foi maravilhoso. Foi um privilégio. Foi divino.