RIO

   Quem tem menos de quarenta anos vai achar esquisito, mas o Rio pra mim será sempre lugar de aristocracia. A cidade onde as pessoas são mais educadas, mais interessadas em arte e onde se valoriza mais a educação e a beleza da vida. Eu sei, sei que estou errado, mas essa é a cidade que existiu até 1982, juro que é verdade!
   Mas o mundo muda, as coisas pioram e melhoram e o Rio mudou porque o Brasil mudou. Estou relendo "Ela é Carioca", pra mim é o melhor livro do Ruy Castro, uma enciclopédia, com verbetes e tudo, sobre Ipanema, e só Ipanema. Eu cheguei a conhecer o fim dessa idade de ouro carioca, e ler esse livro me dá uma grande alegria e ao mesmo tempo uma sensação de que aquilo tudo foi um sonho, nada de verdade. Caraca, eu tou ficando velho!
    Todo mundo queria ser carioca nos anos 70, tanto queria que quem não podia odiava o Rio com uma paixão de amante cornudo. Namorar uma carioca era ser invejado por todos os amigos. Passar um fim de semana lá era in e todas as girias elegantes nasciam em Ipanema. Assim como a moda. Da Company à Richards todas as marcas bacanas vinham daquelas areias. E que moda!!!! Muita pele morena, muito cabelo queimado, muito adereço, muita roupa branca e nudez total. Um verão que era pra sempre. Séculos antes de sertanejos, calypsos e axés, música nascia no Rio, seja samba, bossa, romântico e até rock. São Paulo tinha Rita Lee e a Bahia tinha um monte de baianos...que moravam no Rio.
    O que mais sobressai, e Ruy fala disso, é que havia um culto à beleza. Um hedonismo saúde total. Todos queriam ser bonitos, queriam coisas bonitas e belo era a saúde, a pele escura e um jeito de leveza natural. Sem maquiagem, sem retoques, sem remédios. Daí o culto ao Rio, a praia, a nudez sem operações e botox. Indios civilizados. Luxo, calma e muita volúpia.
   A gente acreditou naquilo tudo. Lembro de carnavais em que senti estar no melhor lugar do universo em todos os tempos. Que o Rio era o exemplo do máximo dos máximos. Muita alegria, muita festa, e tudo muito free. Dava pra crer na felicidade, que é muito mais que alegria. E como toda aristocracia, o Rio tinha centenas de duques, condes e rainhas. Gente que parecia nunca trabalhar, cujo único motivo de vida era ser "carioca". A anos-luz da influência protestante do trabalho-como-dignidade-humana, ser um come-dorme era motivo de orgulho. Playboys detonando dinheiro, deslumbradas queimando heranças... e daí? Como esse povo era bonito!!! E como se vestiam bem!!! Era um despojamento chique, uma simplicidade equilibrada que dava dor de cotovelo em paulistas e gaúchos.
   O Rio tinha a praia e não precisava mais nada. Milênios antes dos arrastões. Sol e choppe e carnaval e reveillon ( ainda se falava muito francês ), e ainda o deboche e o domingo no Maracanã. A vida como a arte de se brincar e rir de tudo.
   Mas veio a década de 80 e a coisa quebrou. O medo do sol, o medo da favela, o medo da aids, o medo do desemprego, o medo de ser ridiculo, o medo do medo. O feio então se tornou um bem, o sério se fez confiável e o que era bonito se fez inutil. A aristocracia morreu ou foi relegada a papéis de palhaços. Desandou o Rio, desandou Ipanema, e o Brasil passou a ter sonhos mesquinhos, o maior deles o de ser Miami.
   Este livro, que é mágico, lindo, colorido, eufórico e belo é uma ode de amor a Ipanema, ao Brasil, a tudo.

SODERBERGH/ JACKIE CHAN/ TONY CURTIS/ ROBERT RODRIGUEZ/ BRAD PITT/ OLIVIER

   VIVO PARA CANTAR de Frank Ryan com Deanna Durbin
Em 1999 Haley Joel Osment, eu juro, foi chamado de gênio. O menino do Sexto Sentido era tido como "o maior talento infantil da história do cinema". Anna Paquin recebera a mesma dádiva alguns anos antes e na época Matrix era considerado na Set "o maior filme da história dos filmes". Nada como o tempo para colocar tudo nos eixos. Matrix é encalhe de sebos, Paquin luta por papéis na TV, e Joel.... sei lá. Atores infantis costumam quebrar a cara quando crescem. Judy Garland, Natalie Wood e Jodie Foster são os únicos que tiveram como adultos o mesmo sucesso de crianças. Roddy MacDowall também teve uma boa carreira adulta, mas como criança ele era bem mais. Deanna Durbin foi uma big star aos 14 anos. Cantava e tinha uma imagem simpática, calorosa, do bem. Mas aqui, já adulta, dá pra se notar a proximidade do fim. Ela se tornou "comum". Sem grande diferencial. Sabiamente ela largou o cinema e foi viver na França. Poupou seus fãs de assistir seu ocaso. Ela era ótima, mas este filme é um lixo. Nota 1.
   O ESCUDO NEGRO DE FALWORTH de Rudolph Maté com Tony Curtis, Janet Leigh, Herbert Marshall e Barbara Rush
Finalmente lançam este DVD no Brasil!!! Um dos mais reprisados filmes da Sessão da Tarde dos anos 70, é surpreendentemente bom. Maté foi um grande diretor de fotografia. Começou com Dreyer e foi para Hollywood onde dirigiu alguns filmes médios. Este é seu melhor. Tony Curtis era lançado a época como a nova estrela da Universal. Ele funciona em aventuras muito bem. Faz aqui um tipo estourado, meio bronco. O filme fala de jovem, estamos na idade média, que é o filho de um nobre arruinado sem o saber. Vai para a corte, onde é hostilizado por jovem nobre e ajudado por velho mestre de espadas. Eu não sei porque o filme me lembrou muito Star Wars. De qualquer forma, ele é alegre, movimentado, muito colorido. Boa amostra do antigo filme juvenil, do antigo filme "B", que hoje seria tratado como filme "A". Nota 7.
   EL MARIACHI de Robert Rodriguez
Eis o primeiro filme de Rodriguez, famoso na época por ter sido feito com a grana de um carro. Ele é pobre, claro, tem uma fotografia miserável, mas é cheio de ação, clima e promete aquilo que seu diretor faria em seguida. Filmes pop levados com leveza e rapidez. Vale conhecer. Nota 5.
   FÚRIA DE TITÃS de Desmond Davis com Judi Bowker, Laurence Olivier, Claire Bloom e Maggie Smith
Não se empolgue com os nomes veneráveis de Olivier, Bloom e Maggie Smith. Muito menos com os efeitos de Ray Harryhausen. É uma insuportável aventura mitológica sobre Perseu etc... Incrivelmente ruim, até os efeitos de Ray estão ridiculos. A magia que ele criava antes, aqui está perdida. O ator central é um dos piores já vistos. A câmera insiste em dar close de seu rosto e tudo o que ele faz é ajeitar os cachos dos cabelos e aumentar seu biquinho. Olivier é Zeus. Porque, ao fim da carreira, ele aceitava filmes tão ruins? Vaidade? Grana? Pior: este lixo foi refilmado no ano passado com o mesmo nome. Pra que? ZERO!!!!
   HORA DO RUSH 2 de Brett Ratner com Jackie Chan e Chris Tucker
O cinema americano não soube usar os talentos de Chan e de Chris. Assim como ocorreu com Jim Carrey, os executivos os rotularam de "astros para filmes ligeiros" e fim. Jackie Chan merecia aventuras mais caras, mais ambiciosas ( mas talvez nessas aventuras ele fosse sufocado em efeitos digitais ) e Chris merecia filmar mais, muito mais. Este filme, delicioso, é aquele que voce já sabe: os dois vão para Hong Kong, se envolvem com máfia e depois tudo se resolve nos EUA. Eu queria mais, mais lutas, mais piadas, mais duração. Mas é um filme legal para dias de tédio. Nota 6.
   SET UP de Mike Gunter com 50 Cent, Ryan Philippe e Bruce Willis
Muito rap, massacres, vida de cão na prisão, guitarras, tiros e mal caratismo. Que lixo é isto? Como é possível que uma coisa que já foi tão nobre como o cinema, possa agora, como uma rameira sifilica ou um traficante de veneno produzir algo tão do mal, com intensões tão ruins. Ele glorifica a bandidagem, a violência, a vida sem moral alguma. Depois não venham reclamar do rumo que o mundo toma. Bruce se especializou em pequenos papéis "especiais" de chefões do crime. Morro de saudades do "bom e velho" Duro de Matar. Ali tínhamos ação com boas intenções, humor e tiros, explosões e suspense. Nada disso aqui. ZERO!!!!!!
   PÁGINA OITO de David Hare com Bill Nighy, Rachel Weisz, Judy Davis e Michael Gambom
Bom filme inglês. Bill, sempre sério e elegante, é um velho funcionário da segurança britãnica. Ele descobre que o primeiro-ministro tornou-se conivente com a politica americana de tortura e combate ao terror. Mais que isso, que há uma outra agência de segurança dentro do governo, mais imoral, mais corrupta, para agenciar as coisas desse ministro. O filme mostra sua intenção: a Inglaterra é agora apenas um apêndice dos EUA. Bill Nighy é um agente à velha moda, ético, trabalha para o país, para o defender de inimigos e não para acomodar interesses globais. Amargo e com final dúbio, é um digno veículo para um bom ator. Rachel faz uma vizinha ativista da causa árabe. Seu papel, melhor do que parece, é que faz com que Bill se mova. Não sei se esse filme foi exibido aqui. Nota 7.
   ONZE HOMENS E UM SEGREDO de Steven Soderbergh com George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Julia Roberts, Elliot Gould e Andy Garcia
Revejo-o após dez anos. O filme tem poucas semelhanças com o original de Sinatra. O que fica de mais próximo é o aspecto cool da produção. Temos um fascinante desfile de roupas elegantes, cenários bonitos e figurantes bem dirigidos. A trilha sonora de David Holmes é exuberante, ninguém hoje faz trilhas sonoras melhores. Vejo o filme, excelente, e penso que ele é uma bela amostra daqueles filmes espertos feitos por volta de 1960, com seus ladrões amorais e seu clima chique. Nos extras do DVD, Soderbergh fala de Golpe de Mestre ( um espetacular filme com Paul Newman e Redford que ganhou melhor filme em 1973 ), e mais, atrás de Soderbergh há um poster de um filme: Bande a Part de Godard. Um filme com Anna Karina que trata de roubo. O que tem Bande a Part? É o nome da produtora de Tarantino e agora surge no escritório de Soderbergh...filme influente é assim que se revela... Voltando, dá pra notar um monte de furos no roteiro, o plano não é assim tão genial; mas a coisa é muito bem dirigida e tudo o que sentimos durante o filme é prazer. George Clooney está em casa, nasceu para esse tipo de papel. Mas Brad Pitt está ainda melhor. Seu rosto é pura diversão. É este filme que exibe melhor o tipo de filme pop que eu adoraria ver mais na Hollywood de hoje. Absolutamente sem erros. Nota 9.

FEBRE DE BOLA- NICK HORNBY

   Este é meu livro favorito de Hornby. Alta Fidelidade foi lido logo em seguida a um fora que levei, não tinha como ter boas lembranças dele. Grande Garoto eu gosto bastante ( talvez seja o melhor ), mas me identifico muito com o cara que narra esta "saga", que é Nick, aqui escrevendo seu primeiro livro. Ele é 7 anos mais velho que eu, e como aqui nos brasis sempre estivemos dez anos atrás, acabamos eu e Nick sendo da mesma geração. Ou voce nunca notou que nossa década de 60 foi a de 70, a de 70 foi a de 80 e nossos anos yuppies foram no governo FHC, em plena década de 90?
   Em 1968, o jovem, o muito jovem Nick Hornby, aos 11 anos, é levado pelo pai a um jogo do Arsenal. Contra o Stoke City. Os pais dele haviam se separado, ele estava down, e cansado de ir nas visitas do pai a zoos, lanchonetes e cinemas. No futebol ele descobriu um mundo insuspeito até então. Um mundo de homens, de palavrões, de multidões. Das enormes massas de torcedores de então. Mas foi somente alguns jogos mais tardes que ele se tornou um obsessivo, um fanático pelo Arsenal. E foi numa muito dolorosa derrota. Para o Swindon, exatamente o jogo que postei abaixo. Nick chega a uma conclusão: ninguém vai ao futebol para ter prazer. Futebol não é uma diversão, um passatempo e muito menos uma arte. Só pensa isso quem não torce. Voce sofre num jogo, tem medo, e JAMAIS espera que seu time jogue bonito, o que voce quer é vencer, vencer sempre. Jornalistas e intelectuais falam do jogo artístico, uma besteira!!!! Se futebol fosse uma arte voce vibraria ao ver Zidane exibir sua arte e destruir seu time. NÃO! Futebol é outra coisa.
   Cada capítulo do livro é um jogo e cada jogo é uma lembrança daquilo que ele vivia. O colégio, a faculdade, os primeiros amores. O futebol muda, o mundo muda, Nick admite nunca ter mudado. O futebol, como o rock, faz da pessoa um eterno crianção. Ele continua sendo o garoto que chorou ao perder uma final contra um time da segunda divisão.
   Ficamos sabendo o que é o futebol inglês. Hornby se lamenta de ter se apaixonado logo pelo Arsenal. Porque não o Tottenham, um time que tem fama de jogar bonito sempre, ou o WestHam, que é considerado um time de gente especial. Mas não, ele foi gostar do time que sempre teve a fama de ser violento, defensivo, maldoso, o mais odiado time da Inglaterra, o Arsenal. E lá vai ele, indo a Plymouth, debaixo de chuva e frio, numa noite de quarta, para ver um jogo que nada vale. Porque? Pra que? Ele admite, é uma obsessão e seu time, um perdedor na maior parte do tempo, é sua paixão.
   Highbury com seus cantos, suas ruas, as brigas. A raiva do Chelsea, do Leeds e do Tottenham, os amigos de torcida, as gozações nas derrotas, a raiva da seleção inglesa ( os ingleses têm o costume de abominar sua seleção, torcem apenas pelos clubes ), os sotaques de cada cidade, cada bairro, cada canto de Londres e dos subúrbios. Os times medíocres do Arsenal, as várias humilhações.  E as mudanças.
   A explosão da violência nos anos 80, violência que obrigou a mudanças, a diminuição das multidões, as grades de segurança, as câmeras. Nada disso havia em 68, as torcidas se misturavam, disputavam espaço e onde cabiam dois se metiam quatro. ( Eu cheguei em 1981 a ir a um Morumbi com 135.000 pessoas, sei o que é isso...e posso dizer? Era puro suicidio, mas era very fun ). Nick Hornby diz que o futebol tem matado seu verdadeiro amante, e sem ele não pode haver esporte. Ele explica. O sonho dos times agora é fazer do futebol um tipo de teatro, ingresso caro e super conforto. Mas há um problema: esse tipo de "show da Broadway" comporta apenas um tipo de torcedor vip, que enche o estádio num United e Liverpool, mas que jamais irá até Newcastle ou Cardiff para acompanhar seu time num jogo de segunda rodada. Sem o povo fanático teremos apenas a copa dos campeões e mais nada. ( E os ingressos em 1969 custavam a metade de um ingresso de cinema ). Outra coisa. Entre 68 e 88 o campeonato inglês teve como campeões: Liverpool, Arsenal, Leeds, Nottingham Forest, Manchester United, Aston Villa, Derby County e Everton. Oito campeões diferentes!!!!  Se a tendência se mantiver, teremos apenas um campeonato de quatro times: United, Liverpool, Arsenal e Chelsea. O que fará com que todas as outras torcidas se encolham, os estádios fiquem às moscas e toda a atenção se volte apenas para dez ou onze jogos ao ano. Isso não é futebol de verdade!!! Dez anos nessa rotina destruirá qualquer chance de que Forest ou Villa voltem um dia a contar. ( Acho esse processo irreversível e chatíssimo! A linha de títulos seguidos do United tirou a graça de um campeonato que era tão imprevisível quanto o brasileiro ).
   Ao final do livro, Hornby já quase quarentão, começa a perceber que seus hábitos mudaram. A idade faz com que ele queira conforto, mais segurança e menos apuros. Mas fica um gosto nostálgico, saudades dos passes de Brady e mesmo das jogadas ridiculas de Ian Ure. Pra quem como eu, gosta muito de futebol e cresceu vendo suas transformações, é obrigatório.

AGORA EU FALO DA INGLATERRA PARA NICK HORNBY

   Se no seu ótimo livro Hornby elogia o Brasil, deixa agora eu elogiar a Inglaterra.
   Os brasileiros vão me xingar mas em 1970 a Inglaterra não deveria ter perdido. Ela teve mais chances de gol e um zagueiro brasileiro deveria ter sido expulso. Um empate seria justo e o saldo de gols resolveria a chave e quem teria de pegar a Alemanha nas oitavas. Assim como em 2002, em que num jogo bem pior que o de 70, o Brasil venceu os ingleses na sorte. Mas Nick Hornby sabe que o azar combina com o futebol inglês. Com o verdadeiro futebol inglês, e creia-me, isso ainda existe.
   Eu odeio, abomino o Manchester United e mais ainda o Chelsea. Por um motivo simples: eles transformaram o futebol britânico numa competição entre os donos de clubes. Como diz Hornby, as multidões de 100.000, 130.000 loucos-insanos dos anos 30/70 foram substituidas por 50.000 confortáveis torcedors vip. Mais que isso, o jogo se tornou uma bolsa de apostas onde as contratações são mais noticia que os jogos. Jogadores mimados, técnicos-burocratas, acionistas ávidos por lucro, torcida selecionada. Las Vegas. O futebol que era tipo Small Faces ou The Who, virou George Michael ou Beyoncé. Bonito, clean e frio. Voce investe 100 milhões e leva a taça. Quem gastar 20 não leva nada. Um mercado de ações com público.
   Postei um jogo em Highbury, 1969. O campo absurdamente lotado. Aquela multidão de cabeças brancas em meio a escuridão da arquibancada. Dá pra ver o lugar onde Nick ficava então, aos 13 anos de idade ( ele estava nesse jogo ), o lugar dos "estudantes", junto a bandeira do corner, na altura do chão. Eles viam só os pés dos jogadores, apertados, xingando todo o tempo, com uma sensação de júbilo na cabeça. E aguentavam o grotesco Arsenal, com seu jogo de chutões e correria, de gols tomados por pura estupidez. Um futebol feio, mas profundamente emocionante. Apaixonante. Dionisíaco.
   Em 1976 assisti a meu primeiro jogo inglês ao vivo. Não sei que Tv transmitiu, sei que era um sábado ( aos domingos não se jogava futebol nas ilhas, era o dia sagrado do cricket ), o que sei é que Ray Clemence era o goleiro e o jogo foi em Wembley hiper lotado. Inglaterra e Escócia? Me lembro que o jogo era a antítese do futebol que se jogava no Brasil da época. Aqui o jogo era lento, pensado, armado e malicioso; lá em Londres o que vi era um futebol muito corrido, instintivo, sem qualquer armação e levado na empolgação. Chutes do goleiro ao ataque e chuveirinhos, montes de carrinhos, e uma quantidade absurda de gols perdidos. A bola pingava nas duas áreas, sem dono, livre e solta, e ninguém a colocava pra dentro. A bola era matada no joelho, os passes eram rápidos e sempre "pra correr", o meio campo não existia ( parece que descrevo o futebol do Brasil de hoje ). No rosto de cada jogador, em meio aos cabelos sujos, às costeletas mal feitas e as camisas sem patrocinio, havia determinação, vontade de dar o sangue, luta. E risos ( não era futebol Felipão ). Os jogadores riam muito e Hornby diz que o futebol inglês dos 70 é considerado o auge dos cantos engraçados das torcidas. O Brasil todo detestou aquele jogo. Eu adorei cada chutão.
   Desde então, e para sempre, times como Tottenham, Aston Villa, Newcastle e Ipswich Town ( tem time mais inglês que Ipswich Town? ), se tornaram meus times. E principalmente o Arsenal.
   No futuro eu iria ver o Arsenal se tornar um time francês com tipo de jogo francês e resultados à francesa. Mas ainda era melhor torcer pelo Arsenal que pelo hiper-profissional United ou o artificial Chelsea. Havia uma história tosca naquela camisa. Uma torcida de patinhos feios.
   Acho que é isso que tenho pra dizer. E saiba Hornby, que aqui as coisas caminham igual. O estilo próprio do país também foi pro espaço e desde 1982 caminhamos para a "Milanização" de todos os clubes. Nossa opção não foi pelo Ajax ou pelo Barcelona, foi pelo Milan e Juve. Deveria ter sido pelo Brasil mesmo. Assim como fico triste ao ver que o estilo inglês só se mantém em times mais pobres, o estilo Brasil só existe em uns poucos jogadores e nunca em um clube ( o mais brasileiro dos times, o Flamengo, a anos é uma bagunça indefinida entre um passado de toque e classe e um "futuro" à la Grêmio ).
   É isso.
   PS: Vai Arsenal !!!!

1969-03-15 Arsenal vs Swindon Town



leia e escreva já!

NICK HORNBY E O FUTEBOL DO BRASIL

   Estou relendo Febre de Bola de Nick Hornby. É tão bom quanto eu lembrava. Falo do livro inteiro em outra postagem. Esta é só pra falar de um momento do livro. Quem leu sabe, Febre de Bola é um livro em que Hornby divide sua vida ( o livro é uma auto-bio ), em jogos do Arsenal. Cada jogo é um momento em sua vida.
   O Arsenal, um fracasso na década de 60, tem seu espirito. É time tosco, de jogo feio, grotesco, de jogadas ridiculas. Não ia falar disso agora mas falo: que Arsenal é esse? Tem uma hora em que ele diz que o Chelsea era o time dos artistas, a arquibancada cheia de stars, de modelos, de jovens alternativos. E do outro lado o Arsenal, um bando de sujos abnegados. O que quero dizer é: Na globalização existe um Arsenal? Na verdade não se tornaram todos o mesmo? Milans ou Bayerns, todos são times sem espirito. Weeelll..... Como brasileiro, o que me emociona mais é ler o que ele escreve sobre junho de 1970, Brasil x Tchecoslováquia. Transcrevo trechos para voces....
   "Até 1970, quem tinha a minha idade, ou era pouco mais velho que eu, sabia mais sobre Ian Ure que sobre o maior jogador do mundo.  A copa do mundo de 1970 inaugurou uma nova era do futebol. O esporte sempre fora global, no sentido de que ele era jogado em todo o mundo, mas em 1962 quando o Brasil fora bicampeão no Chile a TV ainda era um luxo e não uma necessidade. E em 1966 Pelé fora expulso da copa pelas botinadas dos portugueses. 1970 é na verdade a primeira copa em que se dá o confronto Europa x América do Sul testemunhado pelo mundo inteiro.
   Quando a Tchecoslováquia abriu o placar, David Coleman na BBC comentou: "As previsões sobre o Brasil se confirmam", ele falava sobre a defesa desleixada do Brasil. Nos 80 minutos seguintes tudo o que ouvíamos falar sobre aquele time também se confirmou. Igualaram numa falta batida por Rivellino em que a bola veio descaindo, virando e deslizando ( alguma vez eu já vira um gol de falta? Não lembro de nenhum ). ..... Venceram por 4 x 1, e lá na nossa vizinhança ficamos literalmente assombrados.
   Não foi só pela qualidade daquele futebol, foi pelo jeito como eles encaravam as firulas mais engenhosas e desconcertantes como se fossem tão funcionais e necessárias como um lateral ou um escanteio. .... até a maneira brasileira de comemorar os gols, uma corrida de quatro passos, um pulo no ar, a mão para o alto, era esquisita, engraçada, invejável, tudo ao mesmo tempo.
   ....num torneio que forneceu dúzias de superlativos- o melhor time de todos os tempos, o melhor jogador de todos os tempos, até os melhores gols perdidos de todos os tempos- tivemos duas contribuições próprias, a melhor defesa de todos os tempos ( Banks contra Pelé, claro ) e o melhor e mais elegante desarme de todos os tempos ( Moore contra Jairzinho ). É significativo que nossa contribuição a esse carnaval de superlativos se deva à excelência defensiva, mas não importa- durante 90 minutos a Inglaterra jogou tão bem quanto o melhor time do mundo. Chorei depois do jogo....
    De certa forma o Brasil estragou a festa de todos nós. AQUELE TIME REVELOU UMA ESPÉCIE DE IDEAL PLATÔNICO QUE NINGUÉM, NEM OS PRÓPRIOS BRASILEIROS, SERIA CAPAZ DE ATINGIR NOVAMENTE. PELÉ PENDUROU AS CHUTEIRAS, E NAS COPAS SUBSEQUENTES ELES SÓ MOSTRARAM PEQUENOS LAMPEJOS DAQUELE FUTEBOL, COMO SE 1970 FOSSE UM SONHO SEMI-ESQUECIDO QUE UM DIA TIVERAM DE SI-MESMOS.
   Um sonho semi-esquecido que tiveram de si-mesmos... é preciso que venha um inglês doido por futebol para nos lembrar desse sonho.
   Neste mundo em que só um único time tenta jogar diferente, bonito, voces podem, brasileiros chatos, estar pensando: Ora, não foi tudo isso.... E eu recordo da final com a Itália. Alguém já viu alguma final em que a seleção perdedora, após um 4x1, corre para os adversários, e como fãs pede por favor uma camisa, um autógrafo?
   Nick Hornby, louco pelo Arsenal, lá nos frios bancos da zona norte de Londres, escreveu o que foi uma visão de sonho para ele. Cabe a nós aplaudi-lo.

UMA ESTRELA CHAMADA HENRY- RODDY DOYLE

   Um casal, Melody e Henry têm um filho na Irlanda do começo do século XX. Melody aos 20 anos já parece velha. Miséria, filhos mortos, doenças, ignorãncia. Henry, o pai, é leão de chácara de um bordel. Ocasionalmente ele mata alguém. A arma que ele usa é sua perna mecânica. O Henry filho vai crescer em meio a guerra contra a Inglaterra. Essa é a trama geral deste livro, o mais ambicioso de Doyle, mas não o melhor. Paddy Clarke Ha Ha Ha é bem melhor.
   Mesmo assim este livro, apesa de seus erros, é obviamente obra de um grande escritor. O modo como ele descreve os ambientes tem a marca de bela observação, de humor hiper negro, de argúcia. Por outro lado não convence o modo como os persoangens pensam. Em meio a tanta sujeira e miséria eles pensam às vezes "bem" demais. Pode ser preconceito meu, de repente estou subestimando aquele povo, mas Henry raciocina demais para quem cresceu em tais condições.
   Muita gente se pergunta o porque de a literatura conseguir ser tão forte. Mesmo quando artes como a pintura ou o cinema se mostram em baixa, a literatura continua produzindo bons escritores e bons livros. Me parece que a explicação é a de que o homem tem uma necessidade vital de contar sua experiência, de criar personagens, de narrar. É ao lado da música a mais básica das artes. Mas ao mesmo tempo me incomoda essa falta de sutileza de Doyle, o modo como ele carrega na dor, as descrições de violência, de sujeira, de fedor. Pra que? Pra que repetir mil vezes a desgraça que já conheci, já entendi como foi, já me foi oferecida. Cansa a quantidade de camisas sujas, de mangas imundas e de narizes escorrendo. Isso não é um excesso de sensibilidade minha, é um excesso de bater na mesma tecla dele.
   Entre 1850 e 1900 a Irlanda perdeu um terço de sua população. Desse um terço, metade imigrou para a América, metade morreu de fome. Os irlandeses, vivendo num país sem solo e sem clima ameno, morriam tentando comer casca de árvore e capim. Os ingleses, patrões orgulhosos, estavam ocupados com a India para perder tempo com os "ignorantes e sujos" irlandeses. Este livro revisita esse universo. Mais um a fazer isso. São livros, filmes, músicas, poemas...creio que é chegada a hora não de esquecer, jamais, mas de diminuir a exploração dessa dor. Há o risco de se transformar a luta pela independência numa mera aventura ousada de um bando de "irlandeses doidos".
   Irlandeses não são doidos, não são sujos, não são geniais. São tão somente um povo que nada tinha de seu, que foi subjugado, pisoteado e tentou reagir como podia. Se pareceu doido, era de ira; se pareceu sujo era de fome e se pareceu genial, era uma forma de tentar sublimar a dor de nada ter. Existiram milhares de Henrys e eu acho, em que pese Doyle ser um belo escritor, repito; que eles mereciam um livro melhor.

PEANUTS COMPLETO ( DEVE SER DIFICIL CRESCER NO MEIO-OESTE )

   Vale muito a pena gastar 300 reais na edição da LPM das tiras de Peanuts. São livros em edição de luxo, capa dura, dignos da obra de um dos caras mais influentes do século. Quanto mais eu leio sobre Charles M. Schulz mais eu o admiro. O livro 1 tem uma bio dele e melhor, uma longa entrevista feita em 1987. Apesar da melancolia que sempre o acompanhou, Schulz teve uma vida abençoada.
    Schulz cresceu na era da depressão, em St.Paul, naquele tipo de cenário com muita neve e muito gelo. O pai era um barbeiro, e os pais, que ele sempre adorou, estudaram apenas até a terceira série primária. Schulz cresceu muito inseguro. Sentia-se amado em casa, mas desamparado na escola. Achava-se feio, desajeitado e pouco inteligente. Mas tinha algum jeito em esportes com bola e desenhava bem. Foi office-boy e entregador. Tinha a fama de ser "pouco viril" na rua. Filho único. Então veio a grande tragédia, a mãe, ainda jovem, teve um câncer e ao mesmo tempo ele foi convocado para a segunda guerra. Na véspera do dia em que ele deveria partir, a mãe se despediu dele "para sempre". Schulz embarcou para o front logo após o enterro da mãe.
   O garoto "pouco viril" se destacou na guerra e se fez sargento. Chegou a liderar um pelotão de metralhadoras. Quando voltou aos EUA pensou: - "Se isso não é ser um homem não sei o que será". Publicou sua primeira tira num jornal local, foi despedido!!!! e conseguiu na sequencia ser aceito em New York!!! Chegamos ao trabalho de Schulz....
   Quem gosta superficialmente de quadrinhos não tem a menor ideia da importância de Peanuts ( nome que Schulz detesta ). Ele criou, sózinho, tudo o que se entende por tira de quadrinho moderna. É o primeiro a lidar com crianças como seres complexos, o primeiro a ser desenvolvido e criado em progresso, o primeiro a exibir neuroses, o primeiro a não ter o menor traço de heroísmo ou humor chulo... e poderia ficar até amanhã enumerando as ousadias modestas de Schulz. Mas talvez a principal criação seja a depuração, a extrema simplicidade do traço de Schulz. Todo grande artista almeja a pureza, o refinamento final, a simplicidade que diz tudo. Charles M. Schulz chegou nessa depuração, estágio a que só os grandes conseguem ir. E tudo sem grandes malabarismos intelectuais, Schulz chegou a sua arte pela intuição, pelo faro, fazendo apenas aquilo que desejou sempre fazer.
   Ao contrário de vários mercenários dos cartoons, Schulz nunca permitiu que Charlie Brown crescesse, mudasse ou seguisse os ventos da moda. Sempre fez questão de desenhar todos os cartoons ( Schulz trabalhava só, sem assistentes ), e nos desenhos de TV, exigiu a técnica de semi-animação, o que deixava os personagens iguais aos cartoons ( Charlie Brown se movendo hiper-animado é impensável ). Já bastante doente, em 2000, Schulz continuou desenhando seus cartoons todo dia. Menos em sua última noite. Pela primeira vez em 50 anos ele não conseguiu fazer Peanuts e foi deitar. No dia seguinte, sua última tira, feita um dia antes, foi publicada. Ao mesmo tempo em que essa tira, que ninguém sabia ser a última, estava nos jornais, Charles M. Schulz morria. Era o fim, para sempre, de novas tiras dos Peanuts.
   Recordo de um amigo na faculdade me avisar da morte de Schulz. Fui pra casa e li a matéria no jornal. Lembro com clareza que me surpreendi. Eu imaginava que Schulz ia viver para sempre. Chorei.
   Ele era o tipo de americano, filho de imigrantes, que fez a fortuna da América. Era econômico, idealista, modesto porém muito teimoso, trabalhador incansável ( ele nunca tirou férias em toda a vida ). Ia a igreja, agradecia a Deus por sua sorte, amava os filmes de John Ford e as aventuras passadas em desertos ou em selvas. Ouvia música country e lia Tolstoi.
   Charlie Brown em 1950 é muito diferente daquilo que veio a ser. Linus, Lucy e Schroeder ainda não existiam. Snoopy era magrinho e não pensava. E Charlie tinha um lado violento, adorava tirar uma da cara dos outros. Mas já tinha momentos de total deprê e era um zero nos esportes. Duas frases que eram muito repetidas em 1950 acabaram por ser abandonadas: ele era chamado pelas pessoas de "o bom e velho Charlie Brown", e "Eu também dou minhas risadas", que Charlie falava ao aprontar uma pegadinha com alguém. Nessas tiras uma das inovações de Schulz fica bem nítida, os personagens evoluem, não são figuras acabadas e prontas.
   Eis a primeria tira:
   Shermy e Patty estão na rua. Charlie Brown vem andando. Shermy diz: Lá vem o bom e velho Charlie Brown! No quandrinho seguinte ele repete: Sim senhor! O bom e velho Charlie Brown! No terceiro quadro ele fala novamente: O bom e velho Charlie Brown! E no último quadro, com Charlie já ido, Shermy diz: Como eu odeio ele!
   Falsidade, agressividade, isolamento, ingenuidade, pronto, eis a apresntação de Charlie Brown.
   Na terceira tira nasce Snoopy. Ele anda pela rua com uma flor na cabeça. Patty rega essa flor. Ela murcha. Apenas isso. Ainda não é O Snoopy, o cão que de todos os personagens é o único criativo, o único personagem que imagina saídas, que colore com fantasia seu mundo cinza; mas já é um Snoopy extra-cool, na dele, que tem sua vida de observador reservado das tolices dos outros.
   Em novembro de 1950 vejo a primeira tira que revela todo o gênio de Schulz. Nela, Shermy e Charlie Brown estão sentados na calçada. Nada é dito, eles olham pro chão. Por três quadros ninguém se mexe e ninguém fala nada. No fim, Shermy diz: "É...então....é assim que as coisas são!"   O que mais se pode dizer? Está tudo aí, em oito palavras, em duas figuras paradas. O máximo de concisão, de depuração, a simplicidade sendo atingida no alvo.
   As tiras logo foram adotadas pelos beatnicks, pelos hippies, pelos defensores dos direitos civis. Filósofos começaram a ver milhares de significados em Peanuts, artistas divagavam sobre mensagens ocultas. Snoopy e Charlie Brown se tornaram as duas figuras mais pop do planeta e até à Lua foram enviados ( a Apolo 10 tinha um módulo Snoopy ).  E em meio a tudo isso, Schulz continuou o mesmo. Trabalhando todo dia, rindo dos sentidos que os filósofos davam a toda frase dita pelos cartoons, fazendo a única coisa que ele realmente amava: desenhar.
   Percebo agora, escrevendo isto, que Peanuts também antecipa a infantilização do mundo. É como se hoje o máximo de maturidade que pudéssemos ter fosse aquela de Charlie Brown e Linus. Nas tiras de Schulz jamais apareceu um adulto. E nelas, um cão era rei. Intuitivamente, Charles M. Schulz previu nosso pequeno mundo de crianças/adultos desamparados e neurotizados.
   O que mais alguém deve fazer pra ser chamado de gênio?

Red Hot Chili Peppers - Yertle the Turtle - nozems-a-gogo



leia e escreva já!

FREAKY STYLEY- THE RED HOT CHILI PEPPERS ( A DÉCADA DE 80 COMEÇAVA A DEFINHAR EM 1985 )

   Eu ouvi muito este disco ( e o seguinte dos caras, o que tem Fight Like a Brave ). Devo ter escutado umas mil vezes em três anos. Mas vamos a uma historieta....
   A década de 80 começou a mil. Em 1980 o que rolava era new wave e ska e deixa eu dizer o que era isso. Ska voce sabe, é aquela delicia, musica pra pular a vida inteira; e new wave nada mais era que um pop adrenalinizado, isso porque após uma bela safra entre 70/74, desde 1975 que a música pop tava uma mixórdia sem tesão e bem deprê. Tinha o funk e o disco, mas tou falando de música de branquelos. Então a new wave recuperava o pop do fim dos anos 60 e dava um mix com a urgência do punk e mais uma dose de cinismo wit. Tudo embalado com luxo e bom humor. Ok? Mas tudo isso durou muito pouco tempo e já em 1983 a coisa tava muito estranha. Um monte de bandas se achava a última bolacha do pacote, ou pior, posavam de salvadores do planeta. Até que...
  Na época eu ainda não tinha preguiça. Lia a Rolling Stone gringa, a Trouser, a Spin e a MM. Andava com um bando de modernetes que amavam se vestir de preto e escutar Bauhaus, Dead Can Dance e Cocteau Twins. Eu e eles viviamos numa hiper deprê de luxo e pensávamos estar em Berlin 1930 ou Tokyo 2030. Até que um dia eu mostrei pra eles o que eu disse ser o "som do futuro". Era o segundo disco dos Red Hot, o tal de Freaky Styley. Eles acharam que eu estava brincando e riram, todo mundo sabia que o som do futuro era Laurie Anderson !!!! E que no ano 2000 todo mundo ia vestir um tipo de terno de plástico com gravata que muda de cor. E vinha eu dizer que o futuro era uma banda de americanos, logo americanos!, que vestiam bermudas e camisetas!!!! E tênis!!! Que coisa mais antiga!!! Ninguém em 2000 irá ser assim!!! Não tenho o menor pudor em dizer: eu acertei povo! Disse que a moda do futuro seria toda baseada naquilo que os skatistas usavam em 1985 e que a coisa mais moderna de então era essa mistura geral, essa geléia de funk com punk com psicodelia e surf; skate com HQ mais rap e solos de guitarra. Riram, pensaram que o que viria seria um tipo de frieza Kraftwerk.
   Freaky Styley me absolveu de meu amor, que continuava em 1985, mas escondido, pelas coisas hippies, pelos doidos de Venice Beach, pelas tatoos e pelos cabelos compridos. O disco explodiu na minha cabeça e me liberou para ser maloqueiro de novo, para ser preto e branco e amarelo, para me jogar. Eles não tinham vergonha, não faziam pose e não tentavam ser artistas. O melhor, não sofriam, celebravam. Eles anteciparam o começo da década seguinte e racharam a geladeira de cristal da década de 80. Com eles, e mais a chegada do rap, a década Armani  começava a terminar. De repente o Duran Duran pareceu muito velho e eu, que aos 19 me sentia com 35, agora aos 21 me sentia com 15.
   George Clinton produziu o disco e de tudo que eles gravaram é de longe o mais negro. Tem até cover de Sly Stone. Flea nunca tocou com tanto groove, suas linhas de baixo são de fazer qualquer um se balançar inteiro. Anthony Kiedis nem tenta cantar, é grito e rap todo o tempo. Eles não fazem balada, nada de violão, e os metais são aqueles de James Brown: Fred Wesley e Maceo Parker. Impossível dizer qual a melhor faixa, mas eu adoro Catholic School, Yertle The Turtle, American Ghost Dance.... Foi ao som delas que grafitei meu quarto, mudei de amigos, voltei a brincar com meu velho skate ( um fracasso ), fui pra rua e crei um grupo de teatro beeeeeem relax na faculdade. Eles tinham atitude e foi com eles que percebi que na história do rock o hype do momento é sempre inglês, mas depois de uma década é na América que as influências sobrevivem. ( De Velvet a Iggy Pop, passando por Neil Young, Talking Heads, MC5, Television, Strokes, Beastie Boys, Nirvana, Pumpkins, Sonic Youth e um vasto etc ), que o rock inglês sempre "parece" moderno, mas o novo sempre vem de uma banda da América que pouca gente conhece.
   Quando chegou 1990 o skate ditava a moda e sexy passou a ser tudo ligado a esportes radicais, então esses mesmos amigos usavam seus tênis Adidas e vestiam camisetas da Quiksilver. Estavam ouvindo Husker Du e Pixies. O mundo dá voltas e eu fazia questão de lhes recordar aquilo que eles falaram de Freaky Styley: que era tosco, brega e "coisa de americanos". Sempre desconfie de bandas modernas eu lhes dizia, de agora em diante o futuro será das ruas e das praias e não mais das cabeças de alguns novos Bowies. O futuro não nascerá no triste quarto de algum artista inocente, mas das coloridas doideiras mestiças das ruas sujas e de portos perdidos. Freakey Styley me anunciou tudo isso e até hoje, em que não mais me interesso por "novas bandas únicas", quando sem querer noto alguma coisa que parece realmente jovem, livre, descompromissada, é ao espírito de Freaky Styley que peço conselho.
   Ouça e pule muito, hoje ele não mais parece original claro, foi copiado por vinte anos, mas sinta o groove, o humor, a mistura de gêneros.... é um clássico, um fertilizador. Enjoy it.

SHERLOCK HOLMES- ARTHUR CONAN DOYLE ( O MUNDO VITORIANO )

   Watson está calmamente tomando chá com sua esposa. Um mensageiro chega e lhe avisa que seu amigo, Sherlock Holmes o convida para ir ao Sussex, desvendar um caso de morte. A esposa permite que ele se ausente e então Watson parte. É ele que irá nos relatar a aventura. As histórias de Conan Doyle, em sua maioria, começam assim. E a cada vez que lemos esse inicio invariável ( já devo ter lido quarenta histórias de Holmes ), sentimos renovado prazer. Porque? Eu não sei e nenhum fã de Holmes saberia dizer.
   Li gente comentar que seria o encanto da Londres vitoriana em seu apogeu. As carruagens, o fog, as pedras no calçamento, as damas em perigo. Outros dizem que é a forma como Holmes desvenda o crime. Ele quase nada faz de físico, raciocina, segue aquilo que é dado, não imagina nada, apenas deduz sobre as bases do real. É um pensamento matemático, hiper-racional. Tudo o que ele olha são números que formam uma equação.
   Eu prefiro crer que o motivo principal do sucesso de Doyle é a criação da personalidade de Sherlock Holmes. Ele é um solteirão que toca violino, fuma cachimbo, aplica cocaína na veia e lê romances vitorianos. Segundo Watson, Holmes é fraco em filosofia, razoável em fisica e excelente em quimica. Com esse perfil, que une rigor e excentricidade, o que nos resta a não ser admirá-lo?
   Descobri seus livros tarde na vida. Só após os 40 anos comecei a ler. O primeiro foi o Estudo em Vermelho. Logo na terceira página o virus já me contaminara: era um Holmesmaníaco. O que me prende não é o desejo de desvendar o crime, não é a escrita clara e simples, elegante, de Conan Doyle, o que me prende é o prazer em estar no mundo de Sherlock Holmes. Eu gostaria de conhecer o grande homem, de ser amigo de Watson e de correr num fiacre com eles. A vida vitoriana, uma ilusão criada após a segunda-guerra, uma ilusão formada de chá quente, poltronas de couro e lareiras acesas, uma fantasia que continua a vender mobilia e filmes de amor, um mundo ideal que foi inventado em contraposição aos horrores reais demais dos últimos 70 anos, esse mundo é que seduz. O mundo vitoriano que nos deu de Peter Pan a Virginia Woolf, de Alice em seu país das maravilhas a My Fair Lady, mundo que pensamos sempre como reino de excentricidade temperada com humor e conforto, seguro. Mundo que nunca existiu ( o mundo vitoriano era na verdade um universo militarizado e silencioso ).
   Sherlock Holmes faz parte desse universo. Lê-lo é comungar dessa fé. E eu digo, se a Londres de 1900 não foi exatamente o que lá está, que me importa? Que se creia na lenda!

Incredible String Band - Keeoadi There



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THE HANGMAN'S BEAUTIFUL DAUGHTER- THE INCREDIBLE STRING BAND ( NO MUNDO SECRETO DAS FLORES )

   Na Londres hype de 1968, Beatles eram tão velhos como Byrds ou Dylan, o que era muito in e só para poucos privilegiados eram os sons obscuros que bebiam nas fontes da canção folclórica das ilhas Britânicas. Essa corrente ia desde o pop meio fool de Donovan Leitch até o Fairport Convention e passava por Caravan, Steeleye Span, Pentangle e por que não? Traffic e Van Morrison. Todos têm em comum o desprezo pelo pop, a vida campestre, o excesso de drogas naturais e o absoluto fracasso nas paradas americanas. E lógico, um bando de fanáticos seguidores em Canterbury, Sheffield e Glasgow. Fãs que se espalharam logo por toda a GB e mais Holanda, Alemanha e França. O que fazia deles impossíveis para países fora da Europa é seu aspecto muito medieval, muito raiz celta, sem nada de africano.
   Dentre todos esses nomes, a Incredible String Band é a mais pura. Ingênua inclusive, hippie. A trilha sonora de 68/72 é ISB. ( Eles inclusive tocaram em Woodstock e ficaram no chão da sala de edição. Foram cortados do filme, como o foram The Band, Johnny Winter, Creedence Clearwater e Grateful Dead. Penso que o que foi cortado é mais excitante que o que restou ).
   Aviso para quem quiser escutar este disco que ele não é nada fácil de ouvir. Todas as canções começam perdidas, vagas, desagradáveis e de súbito, depois de um minuto ou dois, brilham e crescem se tornando maravilhosas. Se existissem ciganos ingleses seriam os ISB. Na capa do disco vemos árvores feias ao fundo num outono gelado. Sentados nas folhas caídas, dez pessoas muito ciganas...ou talvez leprechauns. Veludos sujos, chapéus esquisitos, mantos coloridos, máscaras da Oceania, um cachorro, duas crianças, barbas, cabelos sujos. O som é exatamente isso, rico, uma obra de complexa beleza acústica, quase sem nada de elétrico, plácido, perdido, enigmático.
   Joe Boyd produziu o disco e devo dizer que Boyd produziu tudo de melhor que essa turma acima fez. Em 1985 Joe Boyd produziu o disco mais viajante do REM, Fables of Reconstruction. Michael Stipe sempre foi fã deste album. Vamos ao disco.
   Antes devo dizer que o ISB é formado por Robin Williamson e Mike Heron. Os dois continuam juntos até hoje. Na alma de seu som há sempre uma procura pela pureza. Eles ansiam pela infância, por encontrar a fonte da inocência. Shelley, Keats, Burns podem ser sentidos em seu som, mas William Blake está mais forte nas entrelinhas. O ISB tem a mesma comunhão com a Lua e o profano, e procura saudosamente uma reunião, reencontro com o paraíso. Eles cantam as estrelas, a brisa da noite, a água dos lagos e dos riachos, as névoas da madrugada. É impossível ouvir este disco de dia, ele é madrugada, silêncio, vela acesa, janela sem paisagem, é das sombras, mas sem medo, sem susto, a noite é dos mistérios e os mistérios para eles são bons.
    Koeeadi There é o nome da primeira música. Tensão no inicio, tensão que logo se resolve. Surge a beleza após a dúvida, e depois vem a alegria. A música faz com naturalidade esse circuito: tensão dúvida, beleza e alegria. E então vem o sonho bom. Lewis Carroll habita este espaço. Se voce penetrar este labirinto, cuidado, voce pode não mais sair.
   The Minotaur's Song. É um hino de humor. Maravilhosa, foi usada pelo genial Monty Python como base de sketch. Uma sinfonia hippie espetacular.
   Witches Hat. Começa hesitante, triste, mas então ela brota como vegetal ao som de uma flauta. Outra voz vem ao fundo, tudo começa a girar e a fazer sentido, lentamente a canção se ilumina, torna-se Lua no céu. O que começou vago afirma-se, brotam magias, uma obra-prima doida, uma aula de som acústico.
   A Very Cellular Song. Voce sente o frio. A neve e o gelo. E então voce percebe que é uma canção religiosa! A luz vem em meio ao escuro do frio e da Lua negra. William Blake está aqui. Mas também John Donne. É a velha Inglaterra.
   Mercy I Cry City. Uma afirmação de crença e de força. A alegria desliza, voa em meio a esta música. Vem uma gaita e a musica cai na estrada. Tem algo de festa aqui, de ciranda, de tempo que é celebrado. Linda.
   Waltz On The New Moon. Uma vela na noite. Um local nú. Sombras de árvores na janela. Harpas na canção, e anjos. É uma canção perigosa, ela pode realmente te tocar fundo. Então algo se ergue, a chama da beleza se faz irresistível. Não temo o ridiculo em falar que existem fadas nesta canção, e poesia e flores e sementes alucinógenas.
   The Water Song. Órgão e flauta. Água. Sons de água. Mas nunca o mar. São córregos. Ele canta a água. A fluidez, a cor e o cheiro, que existe, da água. A vida que é sempre e só, a água.
   Three Is A Green Crown. O pecado. Uma prece verde. Como andar sózinho no mato, de noite. Tudo fala com voce, mas voce não quer escutar. As copas são vivas, as folhas falam.
   Swift As The Wind. É a única que não consigo penetrar. Para mim ela estraga a perfeição do disco. Muito oriental ela desanda e quebra a sequência. Mas há quem veja nela a raiz do disco.
   Nightfall. O nome diz tudo. Reflexão. Respiração. Beleza que eleva.
   Este é o disco dos ciganos do norte. Ele é como uma promessa e uma prece. De cristal.
  

LORD JIM- JOSEPH CONRAD

   Teodor Korzeniovski nasceu na Polônia. Sedento de vida, foi à marinha francesa, depois à inglesa. Aprendeu tão bem o inglês que se tornou para muitos o melhor autor moderno da língua. Lord Jim é ao lado de Coração das Trevas seu mais famoso livro. Considero Nostromo o mais fascinante, mas vamos à Jim.
   Em tempos, hoje, de capitão italiano omisso, o mote de Lord Jim vem a calhar. Jim é um jovem inglês que serve como segundo imediato numa velha embarcação. Ela transporta centenas de peregrinos muçulmanos. Numa noite quente e que ameaça chuva, Jim vê a parede do porão do navio ceder, avisa o capitão. O capitão foge com a tripulação em bote, e após titubear, Jim se junta aos fugitivos. Os peregrinos são abandonados a própria sorte. Os náufragos são resgatados, mas quanta ironia! o velho barco não afunda e os peregrinos são encontrados perdidos no mar. Jim e todo o resto vão a julgamento.
  Quem nos conta a história é Marlow, velho marujo que conhece e se apieda de Jim no julgamento. Então, no livro, jamais saberemos dos pensamentos de Jim. Veremos esse jovem personagem pelos olhos de Marlow. Após o julgamento, Marlow faz amizade com esse torturado Jim e lhe arruma emprego. Mas Jim foge desses trabalhos sempre que descobre que seus companheiros sabem de seu passado. Ele é visto por todos como um tipo de tolo, pois seu crime não foi tão grave assim.  Aqui faço uma pausa em minha narração e passo a tentar explicar Jim.
  Jim é um romântico. Típico jovem do fim do século XIX, ele ansia por aventura. Dá a si-mesmo um rigido código de honra, de moral. Na noite do acidente a vida lhe pega desprevenido. Diante da morte ele fraqueja e foge. Jim desde então não pode mais viver. Ele se encolhe e passa a perceber que não é aquilo que gostaria de ser. Pior que isso, ele é algo que ele despreza. Lord Jim joga com várias ideias perturbadoras: a vida como barco sem rumo, a alma como depósito de escuridão insuspeita, nosso próprio ser como algo desconhecido a nós mesmos.
  A longa cena do naufrágio é a melhor do livro. Conrad, mestre do sutil, mostra nuvens negras, ferrugens, lamentos, ondas, orações, somos envoltos no medo, na escuridão, no buraco. Pois bem... quando é julgado, Jim irrita e surpreende a todos. Ele deseja punição. Toda a tripulação parte para longe, cinicos, na tentativa de reerguer a vida. Não Jim. Jim carrega a vergonha.
  Na parte final, Marlow lhe arruma um dos piores trabalhos possíveis ( Jim quer o pior ), administrar os negócios de um tal de Stein numa ilha isolada no Indico. Em meio a nativos hostis, enfrentando um encarregado traiçoeiro, Jim, estranhamente conhece a paz. Lentamente ele se torna um tipo de lider das tribos, de figura tabu, de grande irmão branco. Encontra inclusive o amor.
  Mas Conrad é sempre um pessimista e na figura de um ambicioso ladrão europeu, o destino encontra Jim. Seu mundinho isolado e perfeito se desmorona, mas não ele. Quando morre Jim está redimido. Ele purgou sua culpa, se esquece do que errou.
  Joseph Conrad escreve aventuras, sempre. Ele conhece aquilo que narra. Conhece o mar e sabe o efeito que ele causa nos homens. Sabe onde ficam as ilhas, as correntes e como são os portos. Ele viu vários Jims e vários Marlows. Mas, apesar de narrar uma aventura, seu texto nunca é fácil. Conrad é um estilista, se exibe. Seu texto se enrola em pensamentos, em abismos de ideias, em descrições de estados de alma. Não é do tipo de autor que descreve salas e paisagens; é do tipo que disseca motivações e medos. Por isso seus livros pouco se prestam ao cinema. Popular como é, ele foi pouco filmado. Apocalypse Now de Coppolla só muito de leve é Coração das Trevas, e há um Lord Jim de Richard Brooks com Peter O'Toole que já assisti e não gostei. ( Pauline Kael dizia que em Lawrence da Arábia O'Toole fizera Lord Jim ).
   Ler Conrad é sempre uma experiência profunda. Ele nos coloca dentro de Marlow e ao lado de Jim. Estamos no barco que parecia afundar, vivenciamos aquele engano. Juro que senti cheiro de mar enquanto o lia.

TYRONE POWER/ HENRY FONDA/ ROBERT RODRIGUEZ/ JERRY LEWIS/ BRUCE WILLIS/ DEANNA DURBIN/ RED DOG/ LANTERNA VERDE

   PRIMEIRO AMOR de Henry Koster com Deanna Durbin e Robert Stack
No começo da década de 30 todos os estúdios de Hollywood, com excessão da MGM, estavam no vermelho. Reflexo da crise de 29 e dos salários absurdos dos deuses do cinema silencioso. A Paramount, que foi a companhia mais ameaçada, foi salva graças a De Mille e aos musicais de Jeannette MacDonald. A Warner se salvou com seus filmes de gangster com James Cagney ou Edward G. Robinson, a Columbia se safou com os filmes de Frank Capra, a Fox com westerns baratos e temos a Universal que deveu sua salvação a filmes de monstros, tipo Drácula e Frankenstein e a descoberta da estrela juvenil Deanna Durbin. Eu nunca havia visto um filme dela, este é meu primeiro. Deanna me conquistou só com um olhar. Ela não é bonitona ou glamurosa, é comum, banal, simples, mas é simpática. O que a define é uma simpatia doce, sem nada de forçado, anti-artificial. Voce olha pra Deanna e sente uma imensa vontade de a proteger. Dizem que foi ela quem criou essa coisa chamada de "teen americana", que antes dela adolescente era pequeno adulto. Não sei e não creio muito nisso. O que interessa é que este filme, uma atualização da história de Cinderela, é muito agradável, gostoso de ver, encantador até. Ele é como um bom sofá, uma lareira, um amigo, nos dá paz, tranquila fruição. Existe algum tipo de filme hoje que ainda procura ser essa coisa calma, plácida e feliz? Deanna Durbin foi uma das maiores estrelas dos anos 30. Começou aos 14 anos sempre em filmes que exibiam seus dotes vocais ( ah, ela canta divinamente ). Quando começou a ficar adulta teve a inteligência de largar o cinema, casou-se e foi morar na França. Viveu mais de 90 anos, e espero que tenham sido anos muito felizes. Deanna mereceu. Nota 7.
   DÚVIDAS NO CORAÇÃO de Sidney Lanfield com Tyrone Power e Sonja Henie
No cinema hiper pop dos anos 30, quando surgia um campeão do esporte logo se pensava em transformá-lo em star. Assim foi com Weissmuller como Tarzan, com Buster Crabbe como Flash Gordon, Esther Willians e suas piscinas musicadas e com a campeã de patinação Sonja Henie, uma norueguesa muito má atriz, mas que por ter uma imagem tão sorridente e pouco pretensiosa, deu muito certo por alguns anos. Aqui ela é uma professora que sem querer se torna uma estrela do cinema. O legal do filme é que ele mostra o processo de construção de uma estrela: os romances forjados, a falsidade das biografias. Tyrone Power ao contrário de Sonja, foi uma estrela no cinema do começo ate´sua morte nos anos 50. Tyrone era um ator apenas razoável, mas era bonito, elegante e podia tanto ser um industrial de Boston como um cowboy do Texas. Seu rosto, meio latino meio irlandês ( na verdade ele era totalmente irlandês ), comportava uma gama imensa de caracteres. Aqui, bastante jovem, ele faz um tipo que James Stewart faria alguns anos depois, o jovem ambicioso e atrapalhado que se revela um bom coração. Um filme que se deixa ver, exemplo da linha de produção dos anos 30/40. Nota 6.
   BLOQUEIO de William Dieterle com Madeleine Carroll e Henry Fonda
Fonda tinha uma caracterísitca que às vezes me irrita: ele era sério demais. Parece que tudo nele tinha de ser relevante, comprometido, nobre. Em filmes como O Jovem Lincoln ou Consciências Mortas esse modo de Henry Fonda ser, casa a perfeição com a obra. Mas em outros filmes esse seu jeito bom demais, correto demais parece fora de lugar. Este filme, uma bagunça esquisita, uma produção sem rumo, que fala sobre a revolução espanhola, é muito desagradável. Madeleine, que era um atriz deliciosa, é uma espiã dos fascistas, Fonda é um comunista que luta pela  causa. O filme, feito durante a própria revolução, termina com um apelo ao mundo. Fonda se volta ao público e pergunta: Onde está a consciência do mundo? A mensagem do filme é clara, o mundo deixou que a Espanha fosse massacrada, mal sabia o mundo que a consequencia seria Hitler. Que a Espanha era um campo de treino para o exército nazi. Mas em que pese sua visão e o fato de Dieterle ser um ótimo diretor, as coisas aqui são tão sérias e tão politicas que a diversão vai pro espaço. Nota 4.
   O QUINTO ELEMENTO de Luc Besson com Bruce Willis, Gary Oldman, Chris Rock, Ian Holm e Milla Jovovich
Claro que já vi este filme N vezes. E após alguns anos o revi nesta semana. E mais uma vez me diverti. É uma comédia juvenil ao estilo dos seriados bobos dos anos 40. Nada é sério e tudo é uma fantasia sem compromisso com nada. Toda produção de HQ deveria ter este espírito. Besson dá um belo visual cafona a tudo, é um futuro colorido, gay, festivo, purpurinado. Gaultier cuidou do visual e se percebe em sua mistura de cafonice com luxo tecno espacial. Os efeitos digitais aqui ( 1995 ) ainda não haviam dominado toda a produção, então há algo de humano neste mundo brilhoso. Bruce Willis sabe unir tudo, sabe ser engraçado e heróico ao mesmo tempo. Ele tempera o filme com olhares de ironia e atitudes de bronco. Inteligente, ele sempre foi um ator muito mais inteligente do que os críticos perceberam. Chris Rock faz um DJ baseado em Prince. Comediante maravilhoso, até hoje ninguém entendeu porque sua carreira não engrenou. Talvez ele seja amoral demais. Asssistir este filme bobíssimo é como ver um grande desfile de escola de samba ou um belo jogo de futebol, uma baita diversão. Nota 7.
   MOCINHO ENCRENQUEIRO de Jerry Lewis
Um amigo escreveu reclamando da critica que fiz a Jerry postagens atrás. Acho que não deixei claro que gosto muito de Jerry. Cresci vendo seus filmes na TV. Tardes em que eu, meu irmão, minha mãe e minha tia chorávamos de rir vendo seus filmes. Para mim, então, os criticos franceses estavam certos, Jerry era um gênio. O cara produzia, escrevia, interpretava um ou dois filmes por ano, e sempre era engraçado. Os americanos iam ver seus filmes, mas achavam risivel os franceses, Jerry na América era apenas um humorista, jamais um gênio. Pois bem, vendo seus filmes agora percebo que as duas visões são corretas e erradas. Jerry não era apenas um humorista, era um muito criativo cineasta. Seus filmes são criações de uma mente original. Então, sim ele é um autor. Mas ao mesmo tempo ele erra muito. Demais até, e piadas que poderiam ser excelentes são estragadas por sua ambição sem freio. Minha critica é a de que Jerry hoje não tem graça, mas, sobrevive como um diretor original e cheio de boas ideias. De qualquer modo, este filme, sobre um empregado de estúdio de cinema, nos dá a chance de ver a Paramount em seus interiores e tem ao menos uma piada hilária, a cena no elevador é muito boa. Nota 6.
   RED DOG de Kriv Stenders
Nos anos 70 um cão se tornou famoso no norte da Austrália. Era um cão sem dono, que vagava por meio continente e que era adotado por toda cidade. Essa história real foi filmada em 2010, produção australiana que ganhou prêmios locais. É óbvio que não passou no Brasil, mas vale muito a pena baixar. Todo mundo sabe que sou louco por cães. Mas me revolta a ruindade da maioria dos filmes com cachorros. Eles humanizam os bichos, fazem com que eles falem, tenham expressões faciais de humanos, se tornem crianças espertas ou pior, santos sofredores. Não é este caso. Red Dog é todo o tempo um cão. Nada de gracinhas, nada de olhares de gente. O filme, passado entre mineradores do sertão, é como cinema um filme muito bom. E em seu final, sem apelar muito, é profundamente emocionante. Não me recordo de filme com cachorro melhor que este. É ao mesmo tempo um filme estradeiro, uma comédia sobre broncos, uma descrição de uma região do mundo que ninguém conhece e uma lição sobre amizade. Adorei. Nota 8.
   O INCRIVEL HOMEM QUE ENCOLHEU de Jack Arnold
Clássico cult de sci-fi. Baseado num conto de Richard Matheson, acompanhamos a saga de  um homem que ao sofrer radiação no mar, começa a encolher dia a dia. O filme é muito, muito triste. O desespero do pobre sujeito nos desespera. Não há cura e ele se torna um anão, um boneco e logo um inseto. Até o final do filme, belissimo, em que ele chega ao nivel das bactérias e encontra a paz. Dá sim pra chamá-lo de pequena obra-prima. Não faz a menor concessão, nada ali pode o salvar. Filme barato que é hoje um dos gigantes de seu tempo. Nota 9.
   WINTER, O GOLFINHO de Charles Martin Smith com Harry Connick Jr., Ashley Judd, Kris Kristoferson e Morgan Freeman
Smith foi ator nos anos 80, Conta Comigo por exemplo. Tem se revelado um muito bom diretor. Sensível sem nunca parecer apelativo. É outra história veridica. Aqui é sobre golfinho ferido que é ajudado por equipe de aquário na Flórida. Há menino timido que encontra seu lugar no mundo, mãe abandonada, doutor bonachão. Tudo cliché, mas nada disso atrapalha a beleza das imagens e o encanto da história. O golfinho verdadeiro está vivo e pode ser acompanhado pela internet. A proteção animal é uma das melhores coisas do nosso mundo tecnológico. Se voce tem filhos este é o filme certo! Nota 7.
   LANTERNA VERDE de Martin Campbell com Ryan Reynolds
Vou falar do porque dos efeitos digitais me incomodarem. Vejo um stuntman dirigir um carro num filme. Me emociono e fico ligado. Vejo um carro digitalizado correr, não consigo atingir o mesmo nivel de adrenalina, Porque? Preconceito meu? Tenho uma teoria. Quando vejo uma cena de luta em filme chinês, ou Statham numa cena de carros, sei que ali há um limite. O limite humano. E a emoção está em ver até onde vai esse limite. Mesmo que existam efeitos digitais ali ( e os há ), a ênfase é na habilidade do homem. Existe suspense porque existe um limite. Isso não ocorre, nunca, em filmes cem por cento em digital. Tudo pode acontecer, e se tudo pode acontecer não existe um limite a ser desafiado. Em Os Eleitos, obra-prima de Philip Kauffman sobre entre outras coisas aviões, vemos Chuck Yeager voar. Ele sobe e sobe e sobe e nosso nervos enlouquecem. Aqui sabemos que o piloto Hal Jordan pode voar até o sol, e daí? Ele pode vencer um destruidor de mundos como quem dá um chute numa bola.  O bom do filme é o visual do espaço, mas o que dizer de uma aventura sem emoção? E ainda com todo aquele cliché de herói que se humaniza, de bandido que é enlouquecido pelo poder, de menina que ama o cara mas não admite isso....quantos bocejos!!!! E de humor, de fantasia pura, de inesperado, nada.... Nota 2. ( há piores ).
   A BALADA DO PISTOLEIRO de Robert Rodriguez com Antonio Banderas, Salma Hayeck, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Joaquim de Almeida e Danny Trejo
Adoro Robert. Adoro a trilha sonora, adoro as cores, as mulheres, a loucura, o humor escrachado, a atitude rocknroll. E adoro esse lado humorista de Banderas, um ator que nasceu para ser engraçado e que pouco encontrou papéis a sua altura. Ele pode fazer uma coisa que é das mais dificeis, ser engraçado e ao mesmo tempo sedutor, ser ridiculo sem perder a elegancia. Nesta terceira revisão o filme me lembrou muito Yojimbo de Kurosawa. Aliás, acho que Yojimbo se gravou no sub-consciente de Rodriguez e Tarantino. Salma nunca esteve tão bonita e o filme é uma deliciosa diversão. Explosão de sangue, elegancia e muito sol. Nota 7.
  

Rod Stewart - Mandolin wind (live).avi



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GASOLINE ALLEY- ROD STEWART ( MULHERES, VIOLÕES E CHEIRO DE GASOLINA )

   Em 1970 Rod Stewart vinha marcando passo como uma jovem promessa que não conseguia estourar. Este é seu segundo disco solo e sómente em 1971 ele subiria ao topo com Maggie May, das poucas canções inglesas até 2012 a ficar em primeiro lugar na Inglaterra e nos EUA ao mesmo tempo. ( Muitos ingleses foram top nos dois países, mas não ao mesmo tempo. Como exemplo da época, Rocket Man de Elton John foi top 1 nos dois países, mas foi primeiro na Inglaterra em fevereiro de 1972 e nos EUA em agosto do mesmo ano ). Gasoline Alley é então o segundo disco de Rod a não dar certo. Paralelamente ele seguia nos Faces, banda que nunca deu certo em tempo algum ( falo em termos de vendas. The Faces eram do cacete!!!!! )
   Alley abre com a faixa Gasoline Alley e já arrepia em coisa de dois segundos. É violão e uma slide-guitar, puro clima de ruela suja e vazia, úmida. Rod dialoga com esse lamento da guitarra de Ron Wood. É tão sómente e apenas isso, um lamento, mas QUE lamento! Para esse tipo de canção sobre a dor é primordial ter convicção e voz. Por incrível que pareça, o Rod pobre e jovem tinha muuuuita convicção, tinha alma e tinha tesão. A voz voce conhece, com vinte e cinco anos de idade ele podia mover montanhas ou abrir o mar com um simples murmuro.
   It's All Over Now é uma festa na garagem, apenas o bom rocknroll de sempre. Mas a diferença é que a bateria soa como cavalo louco e os erros não são polidos. O disco inteiro tem um jeito de ensaio, de deixa rolar. Estamos longe da pasteurização.
  Nick Hornby naquele seu livro sobre canções favoritas diz que Rod não pode ser um completo babaca, pois ele gravou uma música de Dylan melhor do que qualquer outro cara. Não me lembro se a tal canção de Dylan é Only a Hobo, mas pode ser. Onde Dylan fez um lamento country crispado, Rod Stewart faz uma obra-prima de folklore britânico. A canção é levada ao interior da Escócia e ao escutá-la voce vai se sentir numa encruzilhada escura, com frio e sem saber pra onde ir. Há aqui beleza imensa, a beleza que justifica todo ato, a beleza que dura. Só isto vale uma carreira.
  My Way of Giving é dos Small Faces. Uma canção pop mal ensaiada e levada na empolgação, mas daí vem Country Comforts.
   Em 1970 existiam mais dois ingleses que não conseguiam estourar: David Bowie e Elton John. Elton escreveu esta Country Comforts. Uma balada que leva nossa imaginação pra longe. Não me lembro quem disse que o período entre 70/75 é o auge da canção dita romântica. É quando cantar amor perdido ou amor encontrado era fashion. Nesse ramo, Elton foi catedrático. Esta canção, estupenda, demonstra. Tem um refrão que nunca mais voce vai esquecer.
   Eu podia ficar um ano falando sobre Cut Across Shorty. É das minhas cinco canções favoritas. Uma sinfonia que usa apenas três violões, um baixo e um violino e mais uma bateria ensandecida. Ao final, Ron Wood detona um solo elétrico de matar. É uma música estranha, ela é vazia, oca, e ao mesmo tempo tem muita raiva, tem medo e é uma fuga. Mistura um tipo de romantismo século XVIII com puro e verdadeiro rocknroll. É profundamente adolescente em sua angústia e tem a alegria de um desafio. Musicalmente é um monumento ao som acústico, o modo como a bateria entra no inicio da canção é das coisas mais emocionantes já gravadas. Ouvi-la ao volante é sempre um prazer, um hino a liberdade. Mas ela é tanta coisa mais, é o rosto de uma menina ruiva, é carona na chuva, é uma faca enferrujada, é grito e é sol que nasce.
   Lady Day é uma pausa sweet. O disco todo tem pequenos detalhes inventivos que nos seduzem. Aqui, por exemplo, há esse violino que surge ao fim da canção que a modifica e a faz crescer e brilhar. Jo's Lament traz a síntese do disco: uma elegia acústica a beleza da voz, a alegria de se tocar, a eternidade do amor. É linda. E ao final You're My Girl, fecha o disco em clima de garagem e de bateria solta e a mil.
   Gasoline Alley em seu tempo foi um fracasso de vendas. Ninguém percebeu seu lançamento. Rod continuava a ser apenas o ex-cantor da banda de Jeff Beck. O tempo, único crítico infalível lhe fez justiça. Gasoline Alley continua brilhando e muito vivo.

AS MIL E UMA NOITES, O PRAZER DE ESCUTAR

   Imaginemos que não exista mais TV. Nem rádio, jornal e revista. Que todos os livros foram apagados e que a internet esteja extinta. Que todas as narrativas que acompanhávamos nesses meios se foram. Poderíamos sobreviver sem história nenhuma? A vida ainda seria "A Vida" se não mais fosse acompanhada como história? Se TV, rádio, imprensa e livros fossem um nada, mesmo assim continuaríamos necessitando de algum tipo de conto, de história, de narrativa. Imediatamente todos nós iríamos à fogueira para ouvir alguém contar seu conto. Provávelmente ninguém teria a habilidade de capturar nossa atenção, mas com o tempo esse hábito, mais que um hábito, essa necessidade humana voltaria a ser o que era nos tempos pré-imprensa. 
   Em que pese o maravilhoso e a criatividade sem fim das Mil e Uma Noites, o que esse monumento à mente do homem diz com mais força é o fascínio que aquele que sabe narrar exerce. Amamos quem conta a façanha do herói tanto quanto esse herói e nos enfeitiçamos por aquele que narra a história de um feitiço.
   As Mil e Uma Noites não tem um autor. É uma compilação de histórias. De onde vieram? India, Pérsia, Iraque ou Egito? Quem sabe.... o que se pode dizer é que foram colhidas por volta do ano 900 e vieram à Europa no século XVII. Logo se fizeram febre, moda, uma descoberta e uma influência. Lê-las hoje, 2012, é acima de qualquer outra consideração, um prazer. Porque? O que há de tão prazeroso nessa montanha de lendas?
   Um rei é traído por sua esposa. Desgostoso, ele resolve se vingar do gênero feminino sacrificando uma mulher por dia ( após passar a noite com ela ). Scherazade arquiteta um plano: contará a cada manhã uma história para esse nobre. Ele irá poupá-la, pois irá sempre desejar saber o que virá a seguir. Esse motivo, essa parte da obra todos conhecem. Mas a grande surpresa vem quando começamos a ler aquilo que Scherazade diz. Assim como o pobre rei, ficamos completamente nas mãos da bela mocinha. Precisamos saber onde termina aquela história, e quando ela acaba já estamos enredados na próxima.
   A artimanha usada por Scherazade é brilhante. Os contos são curtos, mas eles vêem enredados em histórias dentro de histórias. Por exemplo, se um homem encontra um pássaro numa floresta e esse pássaro se revela um emir da India, saberemos aquilo que esse emir tem a dizer, e dentro do conto desse emir virá outro conto contado por um personagem desse novo conto. São como caixas dentro de caixas dentro de caixas. Uma lenda leva a uma história que contém um conto e que enseja uma anedota. Mas tudo isso seria mera técnica se não fosse o brilho fértil de suprema criatividade.
   Tudo nessas narrativas são surpresas, Nada há de esperado, cada ato é uma invenção. As pessoas nunca são aquilo que parecem ser, os lugares se transformam sem parar, cada caminho leva ao horror ou ao maravilhoso. Ficamos deliciados, surpresos, admirados e ansiosos por mais e mais. Queremos que ela jamais termine sua narração. Precisamos de Scherazade.
   Livros canônicos são os mais dificeis de escrever sobre. Os elogios se tornam óbvios, falar de seus possíveis defeitos se torna pedante, ou pior, ataque gratuito. Como falar algo de relevante sobre Shakespeare, Cervantes ou Dante? E o que posso dizer mais sobre As Mil e Uma Noites? É um monumento à criatividade humana, ao maravilhamento, portanto à vida. Ler esse livro não é apenas "ler um livro", é como ter nas mãos um fenômeno da natureza, uma obra que não foi feita por um homem, uma obra que, assim como o mar ou as nuvens, sempre existiu.
   O que é, afinal, a principal característica da obra canônica. Ela nunca parece ser de uma época ou de um autor. Ela sempre parece ter se auto-escrito, sido parte dos homens desde quando eles se fizeram homens. É como se ela fosse o código genético do espírito, da inteligência, do saber.
   E se Hamlet ou Lear são o código genético da inteligência humana, As Mil e Uma Noites são o código da criatividade, do poder da imaginação, da criação sem fim. Que seja uma mulher a depositária desse dom maravilhoso, e que ela conquiste o rei não por sua beleza, mas sim por sua fertilidade mental, muito pode ser dito. Ela vence não apenas um homem, ela vence sua morte, vence a lei e derrota a vingança e o ódio. Com a simples habilidade de imaginar, fixar e contar.