THE LIMEY - Trailer - HQ



leia e escreva já!

O MELHOR FILME DE STEVEN SODERBERGH...O ESTRANHO.

   Ele começa com o som de The Seeker by The Who. E voce sabe, é um dos melhores rocks da história do mundo. Na letra Roger Daltrey diz: Perguntei à Bob Dylan, Perguntei aos Beatles, Perguntei à Timothy Leary, mas ninguém me responder, eles me chamam The Seeker.
 Vemos TERENCE STAMP num avião, no aeroporto, e quando há Stamp, há maldade no ar. ( O irmão de Stamp foi empresário do WHO nos anos 60 ).
 Primeiro fato: Este filme é uma aula de ritmo. Ele é lento, nunca chato, ele tem cortes atemporais, mas jamais é confuso. Este filme nos hipnotiza. Completamente.
 Vamos a algumas informações:
 Terence Stamp foi, nos anos entre 1964-1969, o ator mais quente da Inglaterra. Em um tempo que tinha Sean Connery, Michael Caine, Alan Bates, Peter O'Toole, John Hurt, Richard Burton, era Stamp o mais fascinante, o mais sexy, o mais perigoso, o mais querido pelas meninas mais doidas. Mas ele deu uma bela pirada no fim da década e sumiu na India. Retornou oito anos depois, já bem esquecido. Com fama de doidão, sua carreira não engrenou mais, e para quem não sabe, ele é conhecido apenas como um ator mal humorado e esquisito. Um coadjuvante. Não sabem que ele já foi uma big estrela. Pois bem, Steven o escolhe como ator central. Mais que isso, o filme inteiro é uma homenagem à ele. Logo a gente saca que aqui, em plenos anos 2000, vemos uma amarga lembrança dos anos 60. Stamp é o lado podre do tempo hippie, é um ladrão, é violento, é mal. E ele vem à California em busca de vingança.
 O filme tem Peter Fonda. E aqui ele é o outro lado do tempo hippie. É o cara de boas, o ex hippie sempre sorrindo, saudável, da paz, rico, que se deu bem com a onda paz e amor. Mas Peter cometeu um erro: é um covarde. Na vida real Peter também se deu mal e também pirou.
 O filme ainda tem Barry Newman, o ator de Vanishing Point, Joe Dalessandro, o ator dos filmes de Andy Warhol e Lesley Ann Warren, a atriz da serie Missão Impossível. Mas...nada há de saudosista aqui. O filme é uma crítica aos anos 60. E passado hoje, ele é moderno, muito moderno.
 É o melhor filme de Soderbergh. O mais enxuto. O mais sincero. O mais emocionante. O final é absolutamente perfeito. Soberbo.
 ( PS: Soderbergh intercala algumas cenas com outro filme, um original de 1966 com o jovem Terence Stamp. Sacada ótima e homenagem carinhosa ).

LIVRARIA, LIVRO E UM CARA CHAMADO FRANCO.

   Estive esses dias em duas livrarias Cultura. O dono errou feio. Não sei onde ele estava com a cabeça.  Criar aqueles dois monstros no começo do século XXI foi de uma ingenuidade estúpida. Um amigo me afirma que é culpa do "liberalismo bolsonarista"...oh God...esse amigo é usuário de Amazon.com e tem um aparelhinho que baixa livros. Zomba de mim porque eu ainda compro livros. E a culpa é do liberalismo...
   Na unidade do shopping Iguatemi o aspecto de pobreza é pior. As prateleiras estão com espaços vazios. Os lançamentos são relançamentos. Nada atrai, não sinto vontade nenhuma de gastar dinheiro. Na Paulista o ar é de fim de feira. Hora da Xepa. DVDs ridículos ocupando espaços vagos. Meia dúzia de CDs. E livros que não causam nenhuma impressão.
   Acabou. O mundo mudou. Já é 2020.
   O fim do DVD pode ser pior para o cinema que o fim do DVD foi para a música. Isso porque o colecionador sobrevive no meio musical, com sua coleção de LPs e seus CDs de luxo. É esse cara que anima o ouvinte não fissurado a valorizar gente como Chet Baker ou Arthur Lee. Já o cinema, sem o DVD, perde a figura do colecionador. Não há como ter um acervo de filmes da Netflix ou de obras baixadas na net. Sem o colecionador apaixonado, morre a divulgação entre amigos das obras raras. E assim o cinema fica cada vez mais dependente, financeiramente e amorosamente, das grandes corporações. Disney. E ainda a Warner.
   O livro ainda sobreviverá. Mas em pequenas livrarias, sebos, casas de editoras. Acho isso ótimo. O modelo FNAC sempre foi uma farsa. Voce irá na livraria que vende best sellers ou na que vende edições pequenas. Supermercados de livros nunca foi boa ideia.
  Sinto mais que isso. O cara tipo "Franco" está no fim. Franco foi um amigo que tive. Estudava sociologia na PUC e vendia blusas na Vila Madalena. Nunca foi empregado de ninguém, nunca passou dificuldades, mas posava de proletário. Tinha, em 2009, uma bandeira da Venezuela na sala. Aos 21 anos, não escutava nada gravado após 1980. E não via filmes com menos de 30 anos. Sempre sorridente, namorava meninas maconheiras de Pinheiros. Lia apenas coisas latinas e achava esquisito um ex estudante de publicidade falar de política. Não era minha area.
  Esse tipo de pessoa ainda existe. Mas hoje ela é mais radical, mais feroz, mais mal humorada e, felizmente, muito mais restrita. Franco era como um hippie de 1967. Hoje esse tipo de militante parece um bicho grilo irritado de 1975. Somem na poeira dos anos. Cada vez mais deprimidos. Cada vez mais sem público que os escute.
  Cinco anos atrás eu achava que seria triste ver a Cultura fechar. Hoje penso que seria a melhor coisa para os livros. Saio de seu espaço vazio com alívio. Sem olhar para trás. Dentro dela um grupo vocal canta Chico em ritmo de velório. Ex alunas da PUC, média de 65 anos, aplaudem. Maggie mudou a Inglaterra para sempre. Até hoje há quem chore a velha nação falida. O mesmo rola no Brasil hoje. Não sei se vai dar certo como deu lá. Mas a mudança é irreversível.
  Feliz 2020.

NATAL

   O fato de ser escolhido um homem como Jesus Cristo já é por si só um tipo de milagre.
   Não vou escrever nada sobre fé, escrevo apenas sobre aquilo que um ateu pode saber se assim o quiser. Há mais ou menos 2000 anos, no lugar mais pobre do mundo conhecido pelo que seria o Ocidente, um filho de carpinteiro nasce. E é Ele o escolhido para simbolizar e dar significado aos novos tempos.
   Não era filho de nobres. Não era rico. Não foi discípulo de nenhum filósofo influente. Esteve sempre caminhando longe de Roma e longe de Atenas. Não era forte e não manejava espada ou flecha. Percorria o deserto e tinha meia dúzia de seguidores. Era, visto em seu tempo, insignificante.
   Então porque ele? Mesmo não sendo filho de Deus, mesmo não sendo um profeta original, se assim voce preferir pensar, por que ele? Se os evangelhos forem ficção, quem criou uma personagem tão radicalmente original?
   Voce, ateu, pode dizer que Buda já pregara a paz. Mas o Buda falara que o mundo era sonho, ilusão, e este Cristo dizia o contrário, que o mundo era a realidade. O pacifismo de Jesus é oposto ao de Buda. O de Cristo é atuante e vive dentro do mundo. O budismo nega a realidade da vida. Tudo é o que é. Em Cristo tudo é aquilo que fazemos.
  Mais radical ainda, esse é um Deus que morre. Sim, muitos morreram antes, houve deuses despedaçados ou desaparecidos em combate. Mas este Cristo morre como gente. E morre voluntariamente. Mas isso é a Paixão e hoje é dia de Nascimento, da Natalidade.
  Nesse nascimento nasce um mundo onde a bondade é viril, onde a caridade é ativa e onde perder pode ser uma vitória. É a primeira religião que coloca o Amor como centro. Se pensa hoje que toda religião é Amor, mas falar de amor no zoroastrismo, na religião do Olimpo ou nos deuses vikings é absurdo. Nessas religiões, e em todas as outras, o centro da crença é a coragem, a força e o erotismo. Não há sinal de amor. Zeus não ama seu povo. Ele exige respeito e homenagens. Por ser vaidoso e só por isso. O mesmo vale para os deuses astecas ou celtas. São ciumentos. São possessivos. São vaidosos.
  A imagem desta noite é uma estrela no deserto. E uma manjedoura iluminada. Um burrinho, uma vaca e um casal. E uma criança. Todo nosso futuro está aí representado. A criança, a pobreza, os animais. A estrela no deserto. E o casal.
  Então mais uma vez eu te digo: Em meio aos presentes ou a dor de não ter presentes. Em meio aos amigos ou a dor de ter perdido pai e mãe, olhe para o céu e veja a estrela. E nasça mais uma vez.
  Pouco importa se 25 de dezembro era data pagã. O que vale é sua herança cultural. E para nós, todos nós, 25 de dezembro é uma data invulgar.
  Nasça. E deixe-se guiar pela estrela.

O MUNDO DE HOJE TEM HANNAH?

   Revi quatro filmes de Woody Allen. CELEBRIDADES me surpreendeu por sua confusão. É um filme que tenta revisitar A Doce Vida de Fellini, mas jamais alcança sua grandeza. Já O DORMINHOCO, que eu tanto gostava, revisto hoje me pareceu apenas confuso. Porém, e esse é o motivo de eu escrever isto, HANNAH E SUAS IRMÃS e MANHATTAN pareceram ainda melhores do que eu lembrava.
  Nada há de sensacional na vida das duas irmãs de Hannah. A mais nova tem um caso com Max Von Sydow e se apaixona pelo marido de Hannah. Michael Caine é um marido de meia idade patético. Não há charme algum em seu personagem e seu caso não nos causa simpatia. Sabemos que Hannah não merece aquilo. Mia Farrow ganha de presente um dos mais belos personagens da vasta galeria feminina de Allen, Hannah, ao descobrir que seu casamento naufraga, espelha uma dor muda que nos toca fundo. Desejamos salvar aquela mulher. Escrever um roteiro que nos leva a tanta empatia é trabalho de mestre.
  Mas há mais. Dianne Wiest levou seu Oscar aqui. Um caco de personalidade hiper frágil, vejo nela várias mulheres dos anos 80, cheias de cocaína, fracassos afetivos, artistas sem arte. O rosto dessa imensa atriz fala um milhão de coisas em cada frame. E temos Woody, naquele que pode ser seu segundo melhor personagem. Sua crise hipocondríaca que se torna uma crise existencial é maravilhosa. Não se engane: o filme é um drama. Nada aqui do tipo caricato do judeu intelectual frágil. É um homem sem Deus. Que deseja crer em algo. Que precisa acreditar.
  Manhattan não é tão agradável. E talvez seja ainda mais duro.
  Ele namora uma menina de 17 anos e vemos que eles são felizes. Mas por ela ter apenas 17, ele não consegue leva-la a sério. Ele pede para que ela conheça outros caras, ele não quer que a coisa dure. Várias vezes ele usa a palavra ridículo.
  Então ele se envolve com Diane Keaton, a ex de seu amigo. Ela é seu número: neurótica, adulta, um tanto esnobe, indecisa. O caso não dá certo. Ela volta ao ex namorado. É só isso o filme. Ah...Meryl Streep é a ex esposa que virou lésbica. Ela lança um livro sobre a vida dos dois quando casados.
  A história é de uma simplicidade absoluta, enxuta. Mas o filme vai fundo no vazio de um homem que começa a perceber que não há lugar para ele no mundo. Isso porque ele não confia nos outros. Ele pensa demais e pensa muito mal. Com prazer estético, acompanhamos sua pequena saga. No final ele descobre que era feliz com a menina, que eles riam juntos, mas é tarde, ela vai para Londres.
  Destaco a cena na lanchonete, quando ele termina com ela. Um momento absolutamente verdadeiro, muito mais raro em cinema do que nos damos conta. A menina desmonta e ele simplesmente é incapaz de empatia por ela.
  Em 1979 Manhattan foi saudado como uma obra prima completa. Lembro de críticas eufóricas, falando da fotografia, da música de Gershwin, da maturidade de Woody Allen. E hoje?
  Temo que em 2020 as pessoas parem no fato de ser um homem de 42 com uma menina de 17. Parem por aí e simplesmente bloqueiem todo o resto. Pior, temo que a megera feita, logo por quem, Meryl Streep, se torne a heroína e Woody o vilão. Se isso acontece é sintoma de uma burrice absoluta, da completa incapacidade de ver a complexidade de tudo. Woody escreve maravilhosamente bem para mulheres. Não ver isso é cegueira intelectual.
  Por fim digo que tanto Hannah como Manhattan seriam impossíveis hoje. Em Hannah o personagem de Caine teria de ser mais ridículo e grotesco, haveriam cenas de drogas e Hannah fugiria de casa. Já Manhattan seria um fiasco de bilheteria, perseguido por lésbicas e por defensores de menores. Mais que isso, um ator e diretor como Woody Allen não existiria se fosse 40 anos mais novo. Ele colocaria faixas de rock em seus filmes, aumentaria o humor pastelão e em vez de citar Bergman e Fitzgerald, citaria Batman e Stan Lee. Manhattan se chamaria New Jersey e Hannah seria algo como Daphne e suas Sisters do Barulho. Pior ainda, em moldes alternativos, Hannah seria catatônica, o marido viciado em heroína e o personagem de Woody encontraria Deus em um filme de Almodóvar.
 

The Doors - Break On Through HQ (1967)



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JIM MORRISON E AS CALÇAS DE COURO

   Jim Morrison é o mesmo caso psico que acometeu Kurt Cobain, um rapaz talentoso e idealista que se viu subitamente transformado em algo que ele jamais quis ou imaginou poder ser. No caso de Kurt, ele tinha ideais punk. Já Jim era filho de seu tempo, ele tinha os ideais beatniks.
   Morrison era bonito, era sexy e era muito cool. E coroando tudo isso, ele tinha voz. Morrison é a melhor voz branca do rock. Ele grita como um cantor de heavy metal e é suave como um astro pop. Sua dicção é perfeita e o timbre jamais falseia. Quanto a presença de palco, é ele quem cria o performer de palco realmente perigoso, sexy, ofensivo. É o inventor de Iggy Pop e de David Bowie.
   Mick Jagger poderia ter esse posto, mas além de cantar menos, Jagger é irônico. Ele mesmo não se leva a sério e de certo modo foi isso que salvou sua sanidade. Jagger sempre parece rir de si mesmo, ele macaqueia. Jim era absolutamente sério e esse era seu ponto fraco. Jim Morrison se achava um poeta. Ele era solene. Chato às vezes. Incapaz de rir das besteiras que fazia ocasionalmente. Suas letras são ótimas para uma banda de rock de LA, mas como poesia simbolista, são infantis. Jagger sabia disso e ria. Morrison não queria saber e sofria por não ser levado a sério. Todo astro pop se afunda ao se levar a sério. De Lennon à George Michael, não há um só que não tenha afundado em auto piedade ou hostilidade burra ao não aceitar o fato de que seu trabalho é dirigido a semi analfabetos ou a jovens estudantes idealistas e ingênuos. Quando eles começam a se ver como novos William Blakes ou Nietzsches revividos a coisa entra em curto.
   O primeiro disco dos Doors é muito bom. Ele sacoleja e é um prazer ouvir o teclado de Ray rodopiar pelo balanço jazz de Robby e John. A voz de Jim é brilhante. E tudo o que ela transmite é a angústia pura do desejo sexual. É apenas isso. E isso é fantástico. No segundo disco, ainda melhor, eles acrescentam o medo como tempero. É um disco sobre o pesadelo do desejo sem objeto. Strange Days é um album perfeito. Mas então o ingênuo Jim Morrison começou a brigar com seu status pop. Queria ser artista. Queria ser Rimbaud. E como não tinha o dom para tanto, jogou o que tinha no lixo.
   Falei em Iggy e em Bowie.
   Iggy, que é um grande leitor, sempre soube que rock é primitivismo. E foi realista o bastante para dar ao rock o que ele quer: sangue. Inteligente ao extremo esse Iggy. Já Bowie foi o artista que Jim quis ser e não pode. Bowie criou um artista pop. Uniu o pop mais pré fabricado à arte possível em meio tão simplório. Nunca houve cara mais astuto.
   As pessoas gostam de dizer que Morrison teve sorte ao morrer. Que gordo e careca ele seria patético. Bem....Van Morrison é gordo e careca e não é patético. Talvez Jim fosse feliz ao saber que sua voz era o que o mantinha e não sua aparência. Talvez.
   De todo modo, era preciso ser muito homem para usar calças de couro em 1966.

PALAVRAS DIZEM O QUE?

   Já viveu isso Wittgeinstein: há um momento na vida de uma pessoa em que as palavras perdem o valor. E hoje, mais ainda, neste universo cheio de textos, frases, blogs, posts, memes. As pessoas falam, escrevem, tentam comunicar-se, demais, muito, em excesso. E eu aqui, neste blog, com agora uma imensa dificuldade para escrever, postar, me convencer e te convencer.
  Penso que sempre tive um radar razoável para sentir o espírito do tempo. E sinto que o silêncio é hoje o bem mais precioso. Neste ano, 2019, perdi o amor absoluto que eu sentia pela palavra. Por isso escrevo menos. Por isso escrevo pior. Não há paixão aqui. Eu não sei precisar quando, mas houve um dia em que eu senti que a frase, a sentença são falsas. Elas são apenas palavras, e palavras são brinquedos, só transmitem jogos de sentidos. Palavras mentem. Mesmo quando não queremos e não pensamos mentir, elas mentem.
  Isso porque elas jamais dizem exatamente o que se deseja dizer. E, pior, a pessoa que escuta entende o que ela pode e deseja entender. Não há ouvido neutro. Não há sentença inofensiva.
  Sinto algum respeito pelo amor que senti um dia, e por isso estou aqui escrevendo. Mas é passado, mundo morto, ido e partido. Minha inocência sobre a escrita se perdeu. É irrecuperável. Eu poderia escrever sobre a morte de Anna Karina. Sobre um filme qualquer. Um autor do século XX. Mas a questão que coloco é: Pode-se fazer isso sem mergulhar no labirinto da vaidade?
  Talvez tudo seja uma questão de politica, e hoje no Brasil o texto parece ser monopólio da esquerda. Daí a crise. Nada mais antigo e zumbi que a esquerda, ela nada tem de novo a oferecer e nada de sincero a professar. Já a direita nada escreve que possua algo de instigante. Seu discurso é realista. Seco. Cru.
  Ainda sinto algum resto de paixão pelo texto científico. Meu coração se excita com um artigo sobre física ou química. Nesse tipo de texto não há a tola pretensão de se fazer arte escrita. É apenas um pretenso fato sendo comunicado em palavras. E o autor sabe que o verbo comunica o fato de modo muito pior e falho que os números.
  Desconfio de gente que tem orgulho em dizer "sou de humanas, não sei contar". Pode ter certeza que ele também não sabe falar. As humanidades foram sublimes enquanto artistas e filósofos sabiam matemática. Quando sentiram despeito e passaram a esnobar a ciência, as humanidades se tornaram apenas campo para preguiçosos e vaidosos. Nada hoje é mais ridículo que um filósofo.
  Por isso meu pudor em escrever. Não quero fazer parte desse povo que desprezo.
  Obvio que continuo amando os autores de sempre. Mas os amo em silêncio. O que eu podia dizer sobre eles já foi dito. Meu amor foi alardeado aqui. Agora sinto em silêncio.
  Não me comparo à eles, mas todo autor tem seu dia. A hora em que ele sente que o texto não tem mais o que falar. E então ele passa a viver. Viver o mundo fora do texto.
  Não, isto não é o fim deste blog. Acho que ainda irei publicar alguma coisa. Breve, curta, simples.  A paixão virou amizade.
 

VELEJANDO O BRASIL - GERALDO TOLLENS LINCK

   O veleiro sai do Rio Grande do Sul e sobe todo o litoral brasileiro. São várias paradas e a viagem aconteceu nos anos 80. Minha edição é de 1996, e vejo que até então eram 9 edições publicadas. Ora, eis um clássico nacional de aventuras!
  O texto é bom, a aventura é leve e sem grandes dramas, os perigos são não tão perigosos. Mas o livro é lindo! Lendo em 2019 vejo que as coisas mudaram muito em 30 anos. Ainda se caçavam baleias, alguns bichos estavam quase extintos, o mar era mais limpo. O trecho do litoral norte de São Paulo é mágico. A partir de Bertioga um espaço limpo, deserto, em vias de sofrer um crescimento veloz nos anos seguintes. Conheci Bertioga e onde hoje é a tal Riviera havia um pântano que nada valia. Terreno ali meu pai não quis nem quase de graça. Cem metros valiam um Fusca velho. Isso em 1986.
  Este é mais um livro que releio e garanto que vocês deveriam procurar em algum site ou sebo. Nada melhor para o verão e as férias.

Bing Crosby & Frank Sinatra Well, Did You Evah



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NATAL?

   O símbolo é esse: Mesmo que voce seja ateu, o mundo que formou sua mente é cristão. O fato de voce ser contra Deus ou contra Jesus já te coloca dentro da civilização cristã. Então, ateu, leia isto que não vai te fazer mal algum...
   Faz uns 2020 anos, mais ou menos, que no dia 25, talvez, nasceu um homem que se disse filho de Deus. Ele era judeu e pobre. Até aí nada demais. Montes de profetas nasciam na Galileia todo dia. Mas houve algo de muito, muito novo e ousado no que veio depois: Ele não era um super herói.
  Jesus Cristo fez milagres, é o que dizem, mas foram apenas mágicas ou magias modestas se compararmos ao que os deuses faziam até então. Deuses explodiam mundos. Faziam chover fogo. Matavam todos os inimigos. Viravam chuva de ouro ou boi potente. Deuses ficavam invisíveis. E principalmente, jamais provavam a morte. Um deus é imortal. Ele não morre, e portanto, não ressuscita.
  A revolução, a maior revolução da história, é a que diz, pela primeira e única vez, que a fraqueza é uma força. Que amor e caridade são tudo aquilo que Deus quer. E surge na Terra um Deus que é homem e é divino. Jesus dá ao homem o estatuto da dignidade. Não mais a divisão em castas. Não mais a espada como valor supremo. Não mais o culto da morte. E, em ato definitivo, esse Deus morre. Morre não como herói, não na guerra, Ele morre na cruz, como ladrão, como indigente. Uma morte suja, feia, sem glamour. Morre para mostrar assim que mesmo a morte é digna de um Deus, e que ela não é o fim. Que mesmo nós, mortais, podemos vence-la.
  Toda nossa civilização se baseia, filosoficamente, nessa base. Mesmo ao negar e ao trair esse Deus, estamos o tempo todo inseridos nessas ideias. A caridade, o amor, a doação, o auto sacrifício. Olhar o outro, olhar a criação divina, olhar a vida. Pela primeira vez eis uma religião que olha a realidade ao redor como um bem de Deus. Toda religião temia a natureza ou a olhava como ilusória. O cristianismo fala do mundo e do universo como coisas sagradas, coisas reais, coisas divinas. A ciência nasce desse interesse pelo real. No cristianismo a realidade se torna Real de fato.
  Surpreso? Sim, está no cristianismo a base e a liberação da ciência. A estrela e o átomo se fazem dignos de Deus, pois são Dele. E o homem, amorosamente, se debruça sobre o universo.
  Dia 25 é Natal. E cada vez mais vemos pacotes e luzes, e menos presépios e imagens do aniversariante. Nosso mundo caminha para a indiferença, a absoluta falta de paixão. O desinteresse por Deus leva ao desinteresse pelo universo como coisa digna, criação divina. Caminhamos para ver o mundo como abstração. Ilusão. Um tipo de armadilha.
  Acenda uma vela e pense, nem que por um segundo, no aniversariante. Mesmo sendo ateu, reconheça alguma importância histórica nesse "mito", nessa "mentira". O pensamento de Cristo está ao redor de tudo que voce vê e faz.
  Um pouco de modéstia te fará muito bem.

Gols de Zico com narrações originais e música



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Bjorn Borg vs John McEnroe | The 1980 tie-break in full



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AMOR AOS 15 ANOS

   Um homem falando de futebol diz que o time que a gente ama aos 15 anos passa a ser o time que vamos amar a vida toda. Assim, as pessoas que hoje têm por volta de 50 anos vão sempre amar a tal seleção de 1982. Será?
 Lembro então de meus 15 anos e de meus amores nessa idade...
 O time sempre foi o Santos, mas como era fraco nesse tempo, só tinha Pita e João Paulo, eu admirava o Flamengo de Zico, Junior e Adílio, e a seleção francesa de Plantini, Tigana e Giresse.
 Pode ser verdade essa teoria, pois continuo achando que Bjorn Borg foi o melhor tenista do mundo, que a seleção de basquete da Iugoslávia era imbatível ( Petrovic e Kikanovic ), e que Gilles Villeneuve foi o herói da F1.
 Aninha não foi meu maior amor, mas é o amor mais bonito.
 Aos 15 meus discos favoritos eram Let It Bleed dos Stones e Viva do Roxy Music. Amava também, muito, o Physical Graffitti, do Led. Não sei se mudou meu amor. Foi nessa idade que comecei a ouvir Vivaldi e Mozart.
 Eu lia Dickens, Dostoievski e Thomas Hardy e meu livro do ano foi O Morro dos Ventos Uivantes.
 O filme que mais revi no cinema, no velho cine Gazeta e no Vitrine, foi Embalos de Sábado a Noite. E foi aos 15 que descobri Fellini e Truffaut, Cary Grant e Audrey.
 Usava cabelo longo e meu quarto estava atulhado nas paredes de fotos de surf e skate. Ir para a praia era a coisa que mais me dava prazer. Eu nem dormia no dia anterior.
 Amava chuva forte, manhãs geladas e o sol na cara.
 Andava a toa pelas ruas do bairro. E ficava entrando no mato fechado, só pra ver os bichos. Ainda havia bichos.
 Penso então que o homem tava certo. Posso ter tido amores maiores ou mais "sérios", mas aos 15 anos eles são pra sempre, nunca serão esquecidos ou desvalorizados.