Zózimo - De Lá Pra Cá- 23/10/2011



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Zózimo



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ENQUANTO HOUVER CHAMPANHE, HÁ ESPERANÇA - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS. UMA BIOGRAFIA DE ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL

   Seiscentas páginas sobre um colunista social? Há tanto assunto assim? Se for o Zózimo, há. Não que a vida dele tenha sido uma aventura. Ele nasceu rico, na zona sul do Rio, em 1941. Cresceu entre Jockey Clube e Gávea, Lagoa e Ipanema. Dinheiro novo? Não. Ele era chique. Falava francês como quem fala português. Voz educada, sempre bem vestido. Bonito. O livro começa bem, fala das origens da família, fala do pai, apelido Boy. Aquele tempo que adoro ler: Rio de Janeiro anos 50, a ilusão de que aquela era a cidade mais civilizada do mundo. Boy aprontava muito! É divertido de ler.
  Depois o livro cai um pouco. O autor entra na armadilha. Mais um jornalista com saudade da bossa nova de daquele povo do começo da ditadura. Enche o saco ler de novo como aqueles caras eram legais. " A gente era preso mas dava risada"...Pois é.
  Mas volta a ficar legal, o livro, quando volta à história do Zózimo. Coluna social era Ibrahim Sued. Quem é da minha geração sabe: Ibrahim era tão famoso quanto Chacrinha. Nasceu pobre e turco, ralou muito, virou rico e orgulhoso. Falava dos jantares. Das festas. E às vezes uma fofoca sobre grana de política. Antes ainda houve Jacintho de Tormes. Uma delícia. Mega esnobe. Texto à Oscar Wilde. Culto pacas.
  Então em 1969 veio Zózimo. De berço nobre. Falava dos amigos. Carmen Mayrinck, Baby Pignatari, Guinle, Duda, dinheiro velho, dinheiro muito, alta educação. O diferencial de Zózimo? Ele fazia o povo sorrir. Sua coluna era pra começar do dia com um sorriso na boca. Além do que, ele falava do Rio inteiro, de como se devia viver, era guia de estilo. No JB. O livro é cheio de textos dele, o melhor escritor brasileiro em 3 linhas.
  Fico feliz ao saber que Telmo Martino, meu jornalista favorito, era amigo e ídolo de Zózimo. Eu li Telmo no JT aqui em SP. De 1977 a 1981. Não houve nada melhor. Ele me civilizou. Telmo nos fazia rir e ao mesmo tempo nos fazia querer ser como ele: witty. Muito do que penso, escrevo e gosto tem a marca dele. Telmo Martino e Paulo Francis, meus gurus forever.
  Voce acha que a rivalidade esquerda direita é muito forte hoje? Sabia que Millôr disse que não confiaria no Chico Buarque nem pra ir na esquina com seu cachorro? E que Chico cuspiu em Millôr? Pois é. Tá no Zózimo. Para ele, Brizola matou o Rio. Era um homem que odiava tudo que o Rio tinha de bom, e em seu governo desconstruiu a cidade. O Rio pós Brizola era outra. Suja, quebrada e sem identidade. Refém do tráfico. Zózimo não era direita. Nem esquerda. Era liberal. Circulava pelos dois lados.
  No elenco do livro tem Miriam Leitão ( chamada de gata e de conservadora...??? ), Ricardo Boechat ( sim, ele mesmo, foi assistente de Ibrahim e de Zózimo ), Elio Gaspari, Augusto Nunes, Fred Suter ( uma figuraça, carioca e malufista, super esnobe, engraçado e mal humorado ), e mais aquela turma de playboys estrangeiros, atores e atrizes, milionários discretos e deslumbrados bregas.
  Daí um dia, nos anos 80, Zózimo cansa. As festas agora são pobres. A bebida é de segunda, a comida é comum, as pessoas não sabem conversar. O trabalho vira um porre. Tudo sempre igual, as mesmas caras nos mesmos lugares. Muita cocaína nas festas. O pó tomou o lugar do caviar. As reuniões não eram mais nas casas, eram em boates. Surge a celebridade, o famoso, e Zózimo começa a beber, muito. Os capítulos finais são de decadência física. Vai para O Globo a peso de ouro. 45 mil dólares de salário. Mas o Rio morreu e ele com a cidade. Chega a dizer o impensável: Que cidade feia é esta? Zózimo vai morar em....Miami. ( Ele antes odiava Miami, ia 12 vezes por ano à Paris. Mas então, em 1992, viu que havia uma região na cidade americana que era exatamente aquilo que o Rio poderia ter sido... )
  Houve um tempo em que jornalista tinha estilo, voce começava a ler e sentia: é texto de Francis. Isto é Telmo. É puro Sergio Augusto. Preciso dizer que isso acabou? Voce sabe quem é o colunista por suas opiniões, não pelo modo como ele escreve. Os textos são todos padrão, um robot escreveria tudo aquilo. O JB faliu. O Dia faliu. O JT faliu. A Folha da Tarde faliu.
  Zózimo faria um site? Uma página no youtube? Sim. E faria muito sucesso. Seria seu sonho, poder publicar do bar. Sem ninguém amolando.
  Por fim, em justiça ao Zózimo, não cito texto nenhum dele. Quero que voce pesquise. Ou melhor, compre o livro. Ótima leitura de tempos sem elegância.
 

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS - WINSTON CHURCHILL

   Frequento sebos a já trinta anos. Meu primeiro foi o velho Bagdá Books, que ficava na rua Joaquim Floriano. Foi fechado em 2010. Desde sempre eu via nesses sebos a coleção dos Prêmios Nobel, da editora Delta em capa dura. Um volume para cada vencedor do prêmio sueco, tendo no livro a biografia do autor e uma obra do contemplado. Essa coleção se encerrou em 1968, portanto Kawabata foi o último livro.
  Minha primeira compra foi o volume de Yeats, adquirido em 1993. Com o correr desses anos, essa coleção variou de encalhe de sebo, onde cada volume valia 10 reais, ao que é hoje, item difícil de achar. Um dos sebos que frequento comprou a coleção inteira de um particular e levo um susto ao ver que o Yeats que possuo vale agora 100 reais. O mais caro é Camus, 300 reais. Dois Churchill, dos quais falarei agora, custam 160 reais, 80 cada um. Churchill é o único na coleção que saiu em dois livros.
  Muita gente não sabe que ele ganhou o Nobel de literatura. Foi em 1953. Antes de Heminguay portanto. Claro que houve muito de homenagem ao herói de guerra, mas Churchill foi um grande autor e escrever foi sempre um de seus mais dedicados trabalhos. Além de vários livros biográficos, Winston lançou uma história da civilização de língua inglesa, monumental, e uma história da segunda guerra. Aqui temos os discursos que ele fez entre 1938-1940, os anos onde ele preparou a Inglaterra para a guerra.
  Parece chato? Discurso de político? Pois é...esquecemos a arte do discurso. Churchill nos faz lembrar o que isso foi um dia.
  No mundo grego e romano, a arte da oratória era a maior de todas. Saber falar em público, saber se dirigir ao público, era uma arte que requeria dom e aprendizado. Eles colocavam esse prazer acima do teatro e da escultura. Cicero, Seneca, Marcial, todos foram mestres da retórica, a arte de falar. Nós perdemos esse dom em algum ponto do século XIX. No século XX o orador já era visto como caricatura. Churchill foi em tudo um homem do século XIX ( apesar de ter vivido até 1954 ). Ler seus discursos é mais que ler algo de belo, é aprender a raciocinar. Ele expõe, argumenta, defende sua tese e convence. Então passa a unir em uma ideia quem o escuta. E carrega avante um povo. Não, nada de discurso de filme de guerra, não! Ele jamais é apelativo e muito menos emocional. Nada de chantagem ao patriotismo. Isto não é Hollywood. Churchill é aristocrata. Sua voz é sempre fria, quase impessoal. Ele ergueu a nação usando a elegância, e afirmando a identidade de todo cidadão. Em sua totalidade os discursos são um rememorar. Nós europeus somos assim. Nunca se esqueçam disso. Devemos defender nossos valores. São nosso maior tesouro. Essa a base de toda sua oratória.
  Lendo os discursos acompanhamos tudo que aconteceu no mundo entre 1938-1940. E eis a prova: Sim, Churchill nesses anos pregou sozinho. Vemos incrédulos a Alemanha tomar a Austria e a Tchecoslovaquia, e a Europa, passiva, tentar fazer acordos diplomáticos com Hitler. Vemos a Polonia sendo cercada e depois repartida entre alemães e russos ( sim, Russia já em 40 ), enquanto o presidente dos EUA, Roosevelt, mandava mensagens para Hitler ter bom senso! Bom senso! Causa espanto ver em 1940 o congresso americano aprovar um adendo de neutralidade. Os EUA se afirmavam NEUTROS em relação à Europa.
  Vemos a Bélgica cair enquanto seu rei se entregava alegremente. Vemos a França perder a guerra em UM MÊS! Um mês! Lemos o magnífico discurso de Churchill sobre Dunquerque, afirmando que não há o que comemorar, uma retirada jamais é motivo para comemoração. Atrapalhados, os ministros ingleses esperaram até o último instante para crer na guerra. Causa hoje asco perceber como eles nunca acreditaram que Hitler fosse um perigo, quiseram crer que a Alemanha jamais iria querer correr o risco da guerra, tentaram BAJULAR Hitler todo o tempo. A filosofia mundial era: Oh...deixe Adolf pegar a Austria, talvez ele se acalme...deixe Adolf pegar a Noruega, quem sabe ele pare por aí....
  Churchill clamava desde  1938: Vamos unir a Europa contra a Alemanha. Eles não atacarão a Noruega se souberem que a Suecia e a Dinamarca lutarão juntas. Não irão invadir a Bélgica se souberem que a França e a Inglaterra irão a defender. Ninguém ouviu. Ele ainda falava algo que hoje é  provado estar certo e que na época parecia mentira: a paz pode ser garantida com uma nação fortemente armada. Não se consegue a paz em acordos assinados, Hitler rompeu todos eles, a paz se consegue quando há o temor do revide. URSS e EUA jamais entraram em guerra só por esse motivo. Israel não foi riscado do mapa por isso. A India nunca aniquilou o Paquistão por temer as bombas do vizinho. Churchill, sempre pragmático, dizia que a democracia e a liberdade só poderiam ser defendidas com um exército forte, e que cabia à Inglaterra, único país europeu a jamais em sua história ter tolerado um tirano, a defesa do direito mundial. Mussolini tomava Etiópia e Albânia, Hitler tomava a Polonia, Franco reinava na Espanha, a Russia era uma ditadura bolchevique, cabia ao povo inglês salvar a liberdade ameaçada. Esse o apelo central: Lembrar do que eles foram e se armar para continuar a ser o que se é. Retórica base do conservadorismo saxão: Ódio à tudo que signifique ameaça aquilo que voce é. Essa mensagem calou fundo na mente dos britânicos. Todos logo se alistaram.
  PS: Se no século XX a arte da retórica foi extinta, devo dizer que no XXI é a arte da conversação que morre. A conversa, que nos século XVII era chamada de a mais fina das artes, desaparece agora de nosso mundo. Não há conversa quando não se escuta.
 

GÊNIO?

   Andei lendo uma série de críticas musicais de Robert Christgau. Ele diz numa delas que Paul MacCartney jamais foi um gênio. Mente aberta que sou, parei para pensar nisso, e discorro brevemente sobre a genialidade agora.
   Primeira consideração: O que seria um gênio? Vamos então à renascença, período onde esse conceito foi criado. Da Vinci. Michelangelo. Shakespeare. Eis os 3 moldes de genialidade. O que todos os 3 têm em comum?
   Absoluto domínio de sua arte. O que já derruba por terra nossa mania ( não minha ), de chamar de genial uma obra mal feita. Um diretor de cinema que não sabe dirigir, um artista plástico que não tem habilidade, um escritor que escreve toscamente. São no máximo provocadores. Podem ser originais, mas a originalidade não é genialidade. Metal Machine Music de Lou Reed é provocador, não passa nem perto de genial. Beuys era provocador, nada de gênio. O gênio é original sempre, óbvio, mas também é um criador perfeito. Nossa mente fica atordoada por sua maestria.
  Segunda característica: Produção febril. Há no gênio a liberdade do daimon. Ele faz. Faz muito e faz o tempo todo. Michelangelo demorava anos para fazer uma obra, mas ele passava todos esses anos fazendo essa obra. Horas e horas todos os dias. O gênio é sempre um obcecado.
  Terceiro: Inconsciência. O gênio pode saber que é genial, mas ele nunca produz algo pensando: farei uma obra genial. Quando ele chega a esse ponto sua genialidade já se perdeu. Esse é o Picasso dos últimos anos. Milhares pensam isso e jamais foram gênios.
  Voltemos ao mundo do rock e pop. É Paul um gênio? Não, não é. Musical ao extremo, talento natural, lhe falta a característica mais dominante da genialidade: arrogância. Todo gênio é egocêntrico e por isso, arrogante. Não a arrogância do adolescente inseguro, mas a arrogância de quem sabe ser muito superior a tudo que o cerca. O gênio pode posar, às vezes, de bonzinho, mas ele é sempre uma ilha. Ao lado de John Lennon provavelmente Paul atingia as margens da genialidade, separados eles se diminuíram. Para um faltou o talento musical instintivo, para outro a excentricidade.
  Afinal, há algum gênio no mundo já quase secular do rock? Digamos que existem momentos, breves, em que um artista chega às margens da genialidade. Por uma soma de circunstancias, pelo acaso de um time que se completa, por intuição, mas é apenas um ano, uma produção do acaso feliz, depois a coisa se esvai. Bowie nunca foi um gênio, mas talvez Low seja genial. Lou Reed jamais foi um gênio, nem perto disso, mas os dois primeiros discos do Velvet Underground são geniais. Posso citar dezenas de acasos como esses. O que todos têm em comum: são obras de equipe. Produção, co-autoria, músicos certos em momento perfeito. Depois que isso passa, o artista passa o resto da vida sofrendo da nostalgia desse momento genial. No melhor dos casos não tenta o repetir. Quando tenta, se torna um patético pastiche de si mesmo.
  É muito provável que daqui a mais 30 anos o rock tenha morrido de vez. Como movimento social hoje ele está no mesmo patamar do jazz: não existe. É música de grupo de fãs. Viverá assim para sempre. Shows de rock são maiores que shows de jazz ou blues, mas significam a mesma coisa, música, nada mais que música. E caso voce não saiba, assim como em seu tempo aconteceu com a pintura ou o teatro, houve um momento em que rock era muito mais que música. Era força social. Filosofia de vida. Rio central de transformação da arte em geral. A arte central.
  Quando isso ocorrer, quando olharem para o rock como hoje se olha o jazz, e o jazz tem seus gênios, John Coltrane foi um, então nesse momento talvez pensem que apenas Bob Dylan possuiu a dignidade e o individualismo do gênio. Não estranhem se assim for. E não achem errado.

TimesTalks: Michael Caine: Five Favorite Films | The New York Times



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MAX PERKINS, UM EDITOR DE GÊNIOS - A. SCOTT BERG

   As primeiras 150 páginas deste livro são fascinantes. O autor conta a história das duas famílias que se uniram para formar Max Perkins. Depois se fala sobre seu casamento e o começo de sua carreira na Scribners. Mas, lá pela página 200, voce começa a se sentir muito, muito cansado. Por um motivo simples: a própria vida de Max caiu numa repetição cansativa. Ele jamais deixou de amar aquilo que fazia, mas ao mesmo tempo, destruiu sua saúde pela repetição mecânica de seu trabalho. Editar gente como Thomas Wolfe ou Scott Fitzgerald era desesperador.
  O trio principal da editora era Wolfe, Scott e Heminguay. 90% do livro fala deles, e eu queria que se falasse mais dos outros autores. Dentre os 3, a maior parte é dedicada a Thomas Wolfe, e Thomas é um porre!
  Eu li Thomas Wolfe anos atrás e pra mim ele era um completo maluco. Max Perkins teve de pegar manuscritos de mais de 1000 páginas, incoerentes, caóticos, e dar um jeito de transformar aquilo em algo legível. Sem Max, o livro não diz isso, mas nós notamos, Thomas Wolfe não existiria. Abusivo, ele privou da casa e da comida de Max, irritou seus amigos, destruiu seus nervos.
  Fitzgerald lhe deu outro tipo de trabalho. Scott foi um autor que se tornou rico e famoso aos 23 anos. E isso acabou com ele. Ele tinha um dom refinado e um texto belíssimo, mas não aceitava o fato de estar ficando "velho". Como acontece com todo rock star hoje, ele não queria que a beleza e a alegria de seus 23 anos morressem. Sua esposa Zelda, completamente doida, era um peso em sua vida, e fraco de saúde, Scott era um poço de medo. Se afundou na bebida. Max o ajudava lhe dando dinheiro, confiança, fé.
  Já Heminguay era o oposto dos dois citados acima. O texto já vinha quase pronto, era hiper ativo, confiante, e o único problema que ele dava a Max era de censura. Perkins tinha de refrear sua agressividade e cortar palavrões em seu texto. Foi o único que sobreviveu à Max Perkins. Wolfe morreu de tuberculose cerebral ainda jovem. Scott morreu no começo dos anos 40 de infarto. Max Perkins morreria em 1946, aos sessenta e poucos anos. Literalmente de cansaço.
   Nós não temos a tradição americana de editor. Aqui um editor lê o texto, julga e corrige erros de gramática. Lá, um editor dá ideias, rumos, corta capítulos inteiros, elimina personagens. Faz uma parceria com o autor. Ajuda, empurra, ampara. Este livro é uma enorme história de amor. Max, que teve 5 filhas, via em cada escritor um filho. Wolfe foi o filho rebelde, Scott o filho frágil e Heminguay o valentão. Max Perkins era um pai dedicado, protetor, paciente, um gigante.
  Leia este livro se voce gosta muito de livros.
  A. Scott Berg tem um texto claro e objetivo, consegue fazer com que amemos Perkins sem jogar confete nele. Apenas descrevendo seu trabalho duro e exigente.
  

Peter Bogdanovich on John Wayne in "Red River"



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Red River (1948) ORIGINAL TRAILER



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RED RIVER. UM DOS MAIORES FILMES DA HISTÓRIA.

   Diz a lenda que Howard Hawks não move a câmera. Que ele monta a cena e pede sempre que o cinegrafista grave sem se mover. Há também outra lenda que fala que Hawks nunca pensava em fazer dois filmes parecidos ( isso até 1959 ). A segunda é fato, mas a primeira é desmentida por Red River. Feito em 1947, ele tem dois movimentos de câmera que ainda hoje, época da steady cam, são raros: um giro de 360 graus, onde todo o set e todo o grupo de atores é mostrado; e uma travessia de rio, onde vemos a ação de dentro de uma carroça. São dois momentos "não hawksianos" em um filme, brilhante e majestoso, onde toda a filosofia é 100% Hawks. Thanks God.
  John Wayne abandona uma caravana para se estabelecer no Texas. Há um salto de 12 anos, e agora, dono de um rebanho imenso, ele tem de levar o gado até St. Louis, 1.600 km de distância. No caminho ele começa a ficar muito agressivo, e seu pupilo, Montgomery Clift, entra em atrito com ele. Mais não conto, embora vontade não falte.
  A maioria dos leigos acha que "o novo modo de atuar" nasceu com Brando ou Dean. Na verdade nasceu com Montgomery Clift, aqui. Observe como ele nunca atua como Wayne. Assim como Marlon faria, ele emite as falas enquanto enrola um cigarro, brinca com o chapéu, pega algo do chão. Sua voz está sempre um tom abaixo, ele se esforça para não parecer atuar. Caso voce não saiba, Monty ainda tem um fã clube imenso, era amado por Brando e Dean, e teve sua carreira destruída pelo álcool e seus conflitos sexuais. Trabalhou com todos os grandes: Hitchcock, Kazan, George Stevens, John Huston, Zinneman, William Wyler, George Cukor. Em sua época, apenas John Ford e Billy Wilder nunca o usaram. Uma carreira de apenas 15 anos. Em 1963 ele já estaria destruído.
  Estranhamos no começo sua presença. Monty era pequeno, delicado, suave demais para um western. Parece que Hawks errou na escolha. Mas aos poucos percebemos o acerto. Nenhum ator da época era mais anti John Wayne que Clift. Inclusive no modo de atuar. O filme pedia por essa oposição. Hawks acertou no alvo. Wayne é pura força, virilidade, expansão, raiva explosiva; Monty é educado, completamente educado. Observa o modo como ele atira. A arma em sua mão é quase como uma raquete de tênis ou melhor, um florete. A mesma arma na mão de Wayne é um canhão.
  Dizem que John Ford tinha inveja de Hawks. Por causa deste filme, o único western que não era de Ford que Ford queria ter feito. Mais ainda: Ford dizia que John Wayne aprendera a atuar com Hawks e não com ele. Há fontes que dizem que ao assistir Red River, Ford comentou: " O filha da puta sabr atuar! ".  Rastros de Ódio só existe porque Red River existiu antes.
  Muita gente diz, e eu mesmo já falei isso, que os filmes de Hawks passam a sensação de que apenas se conversa, de que não há ação física de fato. Por isso Tarantino sempre o cita como diretor apreciado. Mas em RED RIVER a verdade fica mais evidente: A ação acontece, há muito movimento sim, mas os personagens são tão bem desenvolvidos e os diálogos são tão bons, que temos a sensação de que a ação não é tão importante. O que mais lembramos são dos tipos, dos caracteres, dos homens lá envolvidos. O filme tem estouro de boiada, ataque de índios, duelos, surras, correrias, travessias. Mas o que fica é Wayne esbravejando, Walter Brennan comentando a ação, Monty sendo diplomático com a troupe, e todo o resto, cada um com sua alma muito bem definida.
  Há bom humor em todo o filme. Hawks amava viver e ele é incapaz de ser pessimista. O filme não passa nem perto de ser uma comédia, porém ele crê no homem, faz fé em amizades, entende que o bem sempre dá um jeito de retornar. O final do filme não poderia ser melhor. Sorrimos com ele.
  Termino falando do feminismo real de Hawks. Até em seus westerns Hawks enfia uma mulher na história. E elas são sempre fortes, independentes, bocudas, e resolvem as bobagens onde os homens se perdem. Nenhum diretor explicita melhor o poder de civilizar que a mulher tem.
  Outro fato é a diferença entre os westerns de Ford e Hawks. Ford parece ter estado lá. Hawks é urbano, um gentleman. Ford é portanto muito mais crente, duro, machista, poético, ele crê no que filma. Para Ford um western é a vida real. Hawks é o contrário. Ele é sempre irônico, leve, democrático, nunca poético, evita o aspecto de saga naquilo que filma. Para ele, um western é um espelho da vida.
  RED RIVER é um filme imenso.
 

ENSAIOS CÉTICOS - BERTRAND RUSSELL

   Leio este volume de vários ensaios de Russell. Editado em 1928, é um apanhado não especificamente da filosofia desse homem admirável, mas sim o modo como ele via a política, a história e a crença dos homens. Russell não é do meu time, digamos assim. Ele era inimigo de Chesterton, de Tolkien e de Lewis. Mas lê-lo faz bem a todos que amam a inteligência. Russell foi uma das figuras centrais da cultura inglesa no século XX. Em sua longa existência, 1872- 1968, ele sempre foi atuante, um homem de ação. Aos quase cem anos de idade, ainda frequentava passeatas em Londres em pró do pacifismo. Tornou-se famoso no fim do século XIX, como lógico e matemático, e depois, já no século seguinte, como socialista light e pacifista hard. Foi professor de Wittgeinstein em Cambridge ( é Russell quem diz que Witt era "um gênio ou um completo idiota" ). Seu modo de pensar é científico. Ou seja, tudo aquilo que não pode ser provado deve ser visto com absoluto ceticismo. Seja política, psicologia, história ou costumes, só é verdade o que pode ser 100% conferido. Russell nos convida a duvidar de tudo. Mas sem pessimismo, de modo positivo.
  Esse modo de pensar é de absoluta urgência neste 2020. Russell teria muito o que dizer contra a persistência de nossas superstições. Seja ela crer em um pedaço de pano na boca como garantia de saúde, seja crer num mapa astrológico como indicador de talentos. O ceticismo não deve poupar nada. O paninho não garante cientificamente nada, o mapa astral idem. Não há distinção. 60% ou 1% de possiblidade, tanto faz. Ciência é verdade absoluta, ou apenas hipótese. Para Russell é a crença o maior inimigo do homem. Cremos que nossos inimigos são ruins, para assim termos o prazer de nos sentirmos bons. Não há evidência alguma em que nosso lado é o certo, mas, desejosos de bondade, de absolvição, desejosos de crença, nos convencemos que eles são o mal, nós somos o bem. Conclusão? Ódio. Guerra. Dissolução. Apesar de socialista, Russell percebia na teoria de Marx um tipo de igreja do ódio. Ela prometia o céu futuro, e para isso unia seus fieis no ódio à classe média. Marxismo sem ódio é inconcebível. Bolcheviques, crentes em sua boa intenção, comungam no rancor mortal ao inimigo. Sem esse combustível a coisa se desfaz. O Capital é um manual de guerra. Frase de Russell.
  No capitalismo ele sentia a mesma fé cega. Mas, invés de voltado ao ódio ao inimigo, voltado ao individualismo competitivo. Eu creio que irei vencer. E quem concorre comigo irá perder. Nesses seus escritos, era 1928, vinte anos antes da guerra fria, Russell já previa o choque entre os gigantes. URSS e USA tendiam a dividir o mundo em dois. Um lado oprimido por um partido e uma burocracia infinita, o outro lado oprimido por meia dúzia de empresas e uma sede infindável por progresso. Ele previa que o único modo dos USA perderem seria se o nível financeiro médio de seu operário ficasse abaixo do soviético. Já a URSS cairia se o estado perdesse sua auto confiança e seu poder de esmagar vozes dissidentes.
  Falemos agora de filosofia pura. Na verdade, a melhor parte do volume.
  Russell, como eu já sabia, considera Bergson um mero "poeta" e nunca um filósofo. Diz ele que Bergson faz apenas propaganda, não tenta provar nada. Que na verdade tudo que o francês fala é aquilo que seu leitor quer crer que seja verdade. Como exemplo ele cita a memória.
  Bergson diz que a memória jamais morre. Que aquilo que vivemos permanece vivo em nossa vida. Para Bergson não é apenas uma questão de recordar, é muito mais que isso, o que vivemos, 100% do que vivemos, permanece tão vivo e forte como no momento em que foi vivido pela primeira vez. Russell discorda radicalmente. Para ele, lembrar uma viagem à China é apenas rever uma série de imagens embaçadas. Por mais que algumas dessas fotos nos emocionem, essa emoção é saudade, nostalgia. No tempo que decorreu entre o fato acontecido e a lembrança tudo mudou. Nossas memórias são objetos desgastados pela nossa vivência.
  Concordando ou não, é fascinante o modo como Russell enfrenta a tese. Sua abordagem é sempre a da ciência. E ele vive a repetir que, como inglês, vê tudo de um ponto de vista apaziguador. Sem paixão.
  Sobre as máquinas, tem Russell uma opinião límpida: sem o trabalho braçal ficamos à mercê de qualquer líder que canalize nossa energia frustrada. Uma pessoa que não se cansa fisicamente é uma pessoa com superávit de energia. Se não houver uma educação para o esporte ou para o uso dessa força, a represa arrebenta. A anarquia e a destruição são as válvulas de escape de jovens que não precisam mais se destruir no trabalho ( o que é ótimo ), mas não sabem o que fazer com o misto de ansiedade, energia não gasta e tempo livre ao seu dispor. Russell teria muito o que dizer sobre nosso mundo. Não é mais o da máquina. É o da virtualidade. Não vemos mais, como ele aponta em 1928, a vida como mecanismo. Vemos a vida como programa, sistema, rede.
  Ao final da obra Russell se arrisca a fazer algum futurismo. Acerta ao prever que no futuro as pessoas irão ler cada vez menos, receberão informação de canais os mais diversos e serão facilmente formadas pela propaganda. A ditadura de meia dúzia de veículos tende a cair por terra, mas por outro lado, slogans e frases de efeito terão poder como jamais visto.
  Russell defende bastante Freud, William James e Einstein. Diz que a psicanálise tem potencial para mudar todo o mundo ( ela mudou ), e que Einstein revolucionou nossa maneira de pensar. Quanto à James, ele criou o pragmatismo radical, aquele que fala que a verdade é o que funciona, credo de todo o mundo desenvolvido. O ser deseja crer e assim ele crê naquilo que dá certo. O que dá certo será então a verdade. Eis aí, em William James, toda a filosofia que construiu os EUA. Eu quero crer, escolho crer na democracia. A democracia é os EUA. Os EUA vencem todas as guerras. Os EUA vencem a Europa no comércio e na indústria. Logo, a democracia é a verdade. ( Observe como bastou uma única derrota, Vietnã em 1972, para essa crença começar a ruir ).
  Eu não penso como Russell, mas eu gosto de ler Russell.
  Eis um ato democrático, tão fora de moda hoje.
  Se eu fosse dar um nome à nossa cultura atual a chamaria de cultura do self, do espelho, do palanque. Narcisismo levado ao paradoxo. Somos autores, atores e público de nós mesmos. Fechamos nosso teatro àqueles que não são de nossa tribo. E ao mesmo tempo sofremos da nostalgia de algo que se perdeu e não tem nome. Russell chamaria de saudade da razão. E é essa a delícia de o ler. Relembrar o que significa razão.

O QUE VALE

   Postei um clip de John Lennon abaixo. E já aviso que este post é muito mais mal escrito que meu habitual. Lets go...
   John Lennon em seus melhores momentos é de uma simplicidade absoluta. Ao contrário de Paul, ele não é um melodista natural. E portanto, não tem a mania de Paul de harmonizar tudo, colocar uma coisinha a mais. Simples, porém...
   Um amigo me diz que a emoção em John era tão real que ele conseguia fazer algo de muito raro: passar emoção verdadeira em dois acordes. Isso acontece nos primeiros toques no piano em Jealous Guy. E acontece aqui. Os primeiros acordes de Watching the Wheels transmitem automaticamente a emoção que John sente. Acordes simples, emoção complexa. As teclas falam: O tempo passa. Nada é fácil. Mas vamos levando. Ele achou a paz.
  John Lennon envelheceria lindamente. O tipo de música que ele sabia fazer encaixaria perfeitamente em sua maturidade. Perdemos o cara que iria fazer as melhores canções sobre envelhecer.
  Quando a canção acaba me sinto aberto. E escrevo isto só pra dizer que o que vale é amar. Neste meu blog tenho falado de amor todo o tempo, caso voce não perceba.
  Filmes que amo, discos, escritores, lembranças de dias em minha vida plenos de amorosa memória. Todos esses amores são reais, mas nenhum se compara ao amor romântico, o amor por sua companheira. O amor por seu amor.
  Alguns artistas, poucos de fato, me fazem lembrar disso. Da centralidade do amor erótico. Yeats, Bryan Ferry, Keats...e John Lennon, um cara com o qual tenho uma relação de ódio-amor. ( Por sua vaidade e pretensão que tanto o estragou ).
  Já começo a racionalizar, o momento já passou.
  Este o modo de ser do amor. Ele passa. É impermanente. Mas deixa o rastro da memória. E a memória, queridos, é aquilo que nos constrói.

Watching The Wheels - John Lennon (official music video HD)



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GEORGE BERKELEY E DAVID HUME.

   Andei lendo esses dois filósofos britânicos, Berkeley irlandês e Hume da Escócia. São considerados pragmáticos, Berkeley teve seu apogeu por volta de 1710 e Hume 1740. Falo agora, do forma bem superficial sobre aquilo que li.
 Diz-se hoje, em 2020, que Berkeley tornou-se bastante atual. Ele sofreu um longo tempo de semi esquecimento, injusto. Essa sua renascença se deve ao centro de seu pensamento: tudo aquilo que conhecemos e sofremos na vida, são apenas e tão somente aquilo que pensamos. Ele não nega a realidade sólida das coisas, mas afirma que não temos como conhecer uma mesa ou uma árvore como ela é. O que conhecemos é aquilo que pensamos e sentimos que ela seja. Indo adiante, a mesa não existe enquanto não é observada, e se voce tem lido essa teoria em um ramo da física quântica, não, voce não está enganado.
 Para Berkeley, nosso olhar e nosso pensamento organizam a realidade, realidade que ao não ser pensada, é uma outra. Não há ordem na natureza ou no cosmos a priori, o que os organiza é nossa atenção. Olhando construímos o universo em nossos pensamentos. Um bom exemplo é seu bicho de estimação. Voce o olha como um amoroso membro de sua família. Para voce ele é o querido Buster, ou o amado Rex, mas nunca será conhecido como aquilo que ele é. Sua realidade cachorral não existe.
 Mas então somos apenas ignorantes? Nem é esse o caso. Pois sem nossa observação, esse cão nem mesmo existiria.
 Vem então a questão Divina. O pensamento de Berkeley é construído, na verdade, para provar a existência de Deus. O que ele diz: Deus se torna necessário, pois é Seu pensamento que faz com que a realidade FORA DE NOSSO PENSAMENTO possa existir. Tudo o que há seria uma ideia Divina.
 Perco o interesse por Berkeley nesse ponto. Essa conclusão me parece forçada. MAS... eis aí a Matrix, um mundo ilusório onde pensamos ver uma realidade, realidade que na verdade é uma construção de uma mente maior que a nossa. Berkeley intuiu em 1710 algo que nos é familiar, que é até mesmo uma moda, 300 anos depois.
 Falei intuiu? Não. Ele não intuiu. Falo agora do muito mais brilhante Hume, e então voce irá entender o que acontece hoje e sempre.
 Lanço de cara duas frases minhas: HUME VENCEU. HUME MANDA.
 O mundo de 2020 é filho do pensamento pragmático britânico. E tudo aquilo que vivemos hoje é previsto naturalmente se soubermos ler seus escritos.
 Hume é radicalmente ateu. Deus não só não existe como não é mais necessário. Então nada em seu pensamento leva à Deus ou a qualquer tipo de religião. A mente humana sabe aquilo que vê, nada mais que isso. A prova é que coisas abstratas como infinito, Deus ou eternidade, só podem ser imaginadas como algo que experimentamos na vida cotidiana. O infinito como o céu amplificado, Deus como um rei hiper poderoso e a eternidade como um correr de estações que jamais terminam. Por mais que tentemos ter ideias originais, criar coisas fora da experiência concreta, tudo o que podemos fazer é misturar objetos, conceitos e fatos JÁ VIVIDOS.
  Observe que em 2020 nossos mais loucos filme de sci fi não conseguem deixar de imaginar ETs como seres humanoides, sempre com membros e olhos, e o futuro mais distante é sempre uma mistura de fábricas com laboratórios. Somos incapazes de pensar a vida como algo radicalmente diferente de uma planta ou uma bactéria. Nossos ETs são seres que poderiam viver na Terra. Sempre.
  Hume manda porque ele sabe que tudo o que uma pessoa quer é viver em paz. Apenas isso. E impressiona a maneira como ele quase nunca erra. Em 1740, antes da criação dos USA, ele já dizia que nos tempos modernos, um país só seria rico se fosse livre e garantisse os direitos de seu povo. A Inglaterra era o modelo do futuro e jamais a Espanha ou a Holanda. O progresso estaria ligado à propriedade privada, à garantia de que a propriedade seria sua e só sua. Pois assim se cria o amor por aquilo que voce tem, e o desejo de se obter mais. Em nações como a Espanha TUDO é do rei ou da igreja, desse modo o povo se torna oprimido e perde o amor pelas coisas. David Hume fala muito de política e eu, que nunca gostei de ler sobre esse assunto, me delicio com seu texto.
  Filósofos geralmente escrevem mal. Lemos montes de frases sem sentido até topar com uma que justifique a obra. Hume não. Ele é um verdadeiro escritor. Seu texto é delicioso, fácil sem jamais ser simples. Conversa conosco, convence, nos ensina a pensar.
  Volto então ao que disse: Berkeley não teve intuição. Hume não pensou o futuro. O mundo anglo saxão é que os seguiu sempre. Mesmo quando não tinha consciência disso. Ao imaginar uma Matrix, um americano segue a linha de imaginação de Berkeley e ao lutar pelo direito de ser feliz, um jovem está repetindo Hume. O pragmatismo britânico deixou uma marca tão forte na mente de seu povo como os jesuítas deixaram aqui na América Latina e os idealistas na Alemanha. Quando Hume diz que a beleza é relativa ou que a tirania não se faz entre um povo que está em constante comunicação ( eis a internet...para Hume um povo que se comunica, que sabe ter partidários entre sua população, se organiza em resistências...a tirania se faz entre pessoas que vivem isoladas sem poder se comunicar ), quando diz essas coisas, Hume está dando as coordenadas do modo anglo de viver. Inclusive ao dizer que um povo armado não pode ser subjugado por um ditador e nem dominado pelo vizinho.
  David Hume tira o pó da nossa mente. Ele é luz. Tudo o que sabemos é tudo o que vivemos e conhecemos. E tudo o que podemos fazer é combinar e recombinar essas informações. Se voce pensou agora na mente da informática acertou. Para Hume, a falta de liberdade impede que essas informações sejam usadas. Interrompe o circuito. Substitui a experiência real pela superstição e pela crença irreal.
  Deixei de crer em Deus? Provável que não. Mas minha crença não me impede de admirar o pensamento claro de Hume. Em um mundo ideal, Hume seria matéria obrigatória em escolas ( obrigatória? ). Sua filosofia é aquela que te dá amor pela própria filosofia.