PARAÍSO INFERNAL ( ONLY ANGELS HAVE WINGS ), O MUNDO DE HOWARD HAWKS

   Em dois minutos de filme estamos dentro do mundo de Howard Hawks: vemos um país fictício, uma praia que existe só em Hollywood, gente que não se parece com gente de lugar nenhum e um navio que chega ao porto, um navio que traz mais gente de ficção ao país da imaginação. Esse é o mundo do Howard Hawks maduro, aquele dos últimos vinte anos de vida. Este filme, de 1939, foi feito muito antes dessa fase em sua carreira, mas ele já anuncia o que seria o mais constante Hawks style.
  Uma americana desce do navio. Jean Arthur. E ela faz a típica mulher Hawksiana: Tem um passado meio marginal. É forte e independente. Fala o que pensa. E está sempre alegre, apesar da sombra que lhe faz companhia. Essa mulher conhece um grupo de homens. Neste filme, um grupo de aviadores. Eles arriscam a vida entregando cartas numa rota perigosa. É o mundo do melhor livro de Saint Exupéry, Correio Sul. Temos então mais outra marca de Hawks: o grupo de amigos que enfrenta o perigo estoicamente. E por ser um filme típico desse diretor, o filme não terá um alvo. Ele meio que se espalha em pequenos acontecimentos do dia a dia. Um dia a dia excepcional, mas é cotidiano para aqueles homens. Mundo masculino, porém sacudido por uma mulher tão forte quanto eles. Dentro desse mundo há um veterano em decadência física, Thomas Mitchel, um piloto acusado de covardia que deverá se redimir, Richard Barthelmess ( soberbo ), a esposa sexy desse piloto, Rita Hayworth ( nunca mais tão bonita ), e o chefe do grupo, o mais estoico e mais amargo entre eles, Cary Grant ( num papel pouco Cary Grant, e atuando de uma forma contida que convence e muito ).
  Se eu contar o que acontece no filme irei falar várias coisas. Mas nenhuma delas poderei chamar de o centro do filme. Howard Hawks não faz filmes com um centro. Rio Lobo, Rio Bravo, Red River, Hatari!, todos são filmes sem um centro, sem um enredo central. Todos são sobre grupos de homens. Todos são tratados sublimes sobre a amizade e a lealdade. John Ford, o diretor que mais invejava e admirava Hawks, tem sempre O Tema. Rastros de Ódio é sobre um cowboy indo resgatar uma menina. E assim são todos os seus filmes. Por isso Tarantino lembra tanto Hawks em modo de pensar um roteiro: ele também não tem um tema definido. São temas. Ou, para quem não gosta, é um monte de papo furado.
  Fala-se muito nos filmes de Hawks. Ele ama o diálogo. E essas falas não carregam mensagem alguma. É conversa. Apenas conversa. O sentido não está no que se fala. Ele está em como se fala e com quem se fala. O sentido é o ato de falar, não a palavra. Por isso eu amo tanto seus filmes. Ele não explicita nada, mas também não esconde. Seus filmes são o que vemos e só o que vemos. E que prazer eu sinto em os ver!
  A maior beleza é poder ver aquelas pessoas existirem. Alguém disse que em Hatari! sentimos amor por um café da manhã. A melhor cena do filme é ver John Wayne e seus amigos tomando café todas as manhãs. Concordo plenamente. Somos convidados àquele grupo. E nos sentimos bem dentro dele.
  Eu seria desonesto se falasse que Hawks nos ensina a ter coragem, a ser viril, a ter estoicismo. Isso é para Ford ou Huston. Hawks não quer ensinar, ele quer deixar um testemunho. Esses aviadores nos apaixonam. Antes o apaixonaram.
  Durante o filme, foi a segunda vez que o vi, a cópia é perfeita, cheguei a pensar: Que coisa! Este talvez seja agora meu filme favorito! Nenhum filme de Hawks será o favorito de ninguém. Isso porque eles não são SENSACIONAIS.  Mas vários filmes dele estarão entre os mais queridos. Pois eles são um remédio. Nos fazem bem.
  Eu realmente amo esse diretor.

ADMIRE O MUNDO NOVO

   Convivo com pessoas bastante pobres. E com a faixa etária entre 11 e 20 anos. 80% do meu tempo é passado com essas pessoas. E devo dizer que mesmo elas, graças ao mundo fantasioso em que vivemos, acreditam poder viver sem trabalhar, sem arcar com o preço das coisas, sem sofrer as reações daquilo que é feito. Voce ficaria impressionado ao saber que para eles, o mundo digital é muito mais importante que ter onde morar ou a própria saúde. Selfies são a identidade. Todo o resto é acessório.
  Apesar de ter crescido em mundo sem net, eu hoje vivo interligado. Posto muito, discuto muito, vivo muito dentro do virtual. E sinto na pele as armadilhas, o vício, a mentira. Penso que meu conflito NÃO É o conflito dos teens. Eles não conhecem o mundo que conheci. O MUNDO QUE CONTINUA EXISTINDO. Eu vivo nos dois. Eles nem sabem que há um outro.
  Nos conflitos atuais, Black Lives, Antifas etc, tudo nasce dentro da net e é jogado como vômito no colo do mundo sólido, das ruas. Surge o conflito óbvio entre dois mundos: No mundo real, as coisas têm existência independente de seu desejo. No outro mundo, voce pode montar seu perfil e controlar seu ambiente. A raiva surge nesse choque.
  Se em 1966 já houvesse a rede mundial virtual, os hippies teriam ido ainda mais longe. A virtualidade deles existia apenas em discos, shows e revistas alternativas. E claro, na cultura das drogas. Na vitória de Nixon em 1968 e no mal estampado em Charles Manson, eles sofreram seu choque de realidade. Ao contrário daquilo que muitos pensam, mesmo no mundo de 2100 ou 2200, a realidade sempre vence. Pelo simples fato de que somos seres biológicos. A biologia é a realidade final. Morremos e apodrecemos.
  Os meninos que ateiam fogo e derrubam estátuas estão sempre postando selfies. O tempo todo on line. O objetivo não é apenas reportar. É muito mais prestar contas ao universo digital. Como se falassem: Veja! O mundo deles está sendo destruído! O real agora é meu!
  Tola brincadeira de crianças. O virus continua existindo. Seu estômago sentirá fome. E as rugas em sua face irão nascer. Derrubar a estátua de Washington não faz com que ele deixe de existir como figura emblemática. Tudo o que ele fez está feito. Voce não pode deletar Churchill da comunidade do planeta Terra. Sinto muito bb. Quando voce faz isso, é voce que se auto deleta da história.
  O medo do virus, completamente desproporcional e terrivelmente covarde, é o medo de uma geração que instalou anti virus no pc e não admite que não haja um anti virus para as ruas. Cada vez mais veremos esse tipo de comportamento, a revolta mimada contra tudo que fuja ao controle. É um império medroso. Se um disco voador posasse no centro do planeta todos correriam para buracos. E meia dúzia iria com flores e bandeiras de paz cantar Beatles para os ETs. São dois comportamentos incrivelmente tolos e infantis. Adultos ainda existem, muitos, mas eles não estão no palco da internet. Estão recolhendo os cacos das estátuas. E estudariam a nave dos ETs antes de tomar qualquer decisão.
  Tenho um amigo que é muito competente em inteligência artificial. Ele realmente crê na criação de uma mente artificial que seja idêntica a nossa mente. Eu diria a ele que na verdade o processo é contrário: nossa mente é que se tornará artificial. Simplificaremos tanto a história, a psicologia, a arte e a filosofia, que passaremos a pensar a  agir como autômatos. Máquinas bastante mimadas por sinal.
 
 

NÃO HÁ ANTI VIRUS NO MUNDO REAL

   João Pereira Coutinho escreve sobre os "jovens classe média" que derrubam estátuas. Ele faz uma bela comparação com 1984 de Orwell e com o filme de Sean Penn sobre o menino que se isola do mundo. Ele diz que há uma tentativa de se diminuir a história, diminuir o vocabulário, para assim se diminuir o pensamento. Tudo aquilo que possa trazer "problemas" é calado. Para meu espanto, descubro que até o livro de Harper Lee, To Kill a Mockinbird está sendo censurado. O filme com Gregory Peck, uma maravilha, cairá em ostracismo. É o novo mundo: limitado, purificado, homogêneo.
   Eu concordo com tudo que Coutinho fala, mas vou mais longe.
   Imagine que voce cresceu em uma realidade onde não existem fotos ruins. Toda foto voce pode retocar até transforma-la em imagem perfeita. Ou então a apagar. Imagine que nesse mundo só existe quem voce aceita, todo aquele que pensa diferente é deletado. Imagine que voce só faz parte de comunidades que pensam como voce. Onde toda a verdade é a criada pelo grupo. Imagine isso ok?
   Agora imagine que essa pessoa, um dia, vai ao mundo real. O mundo da natureza, dos instintos, do desejo não realizado. Onde imagens feias não podem ser deletadas. Onde um presidente que não é do seu grupo é eleito. Onde o passado existe, aconteceu, e é muito complexo.
  O que voce faz então?
  Tem três caminhos:
  Volta ao seu mundo virtual e se tranca no quarto.
  Procura acordar e encarar a realidade.
  Luta pela instauração do virtual dentro do real. Como? Deletando estátuas feias que não fazem parte do grupo. Apagando posts-livros que negam o grupo. Surrando pessoas que insistem em existir fora do grupo. E achando que o presidente é deles, não nosso.
   Entenda. É o mesmo tipo de pessoa que enlouqueceu ao descobrir com a Covid que a morte existe. E que não há parede ou anti virus contra ela. É aquela que acha que cortar os órgãos sexuais faz de voce uma mulher. Que ser gordo é somente estética e não questão de saúde. É a classe média hiper protegida, que hoje vive numa bolha virtual-mental e que não consegue aceitar nada que vá contra aquilo que ela deseja.
  Derruba-se o passado, pois ele não é bonito.
  Tira-se o livro da prateleira, pois ele é mal.
  Lembro de uma entrevista de emprego que tive, anos atrás, em que um menino dizia gostar muito de ler. Mas que não lia livros de homens mortos. A entrevista era para uma editora. Todos ficaram constrangidos. A entrevistadora perguntou por que. Ele respondeu que livros de gente morta falavam de coisas mortas, portanto eram irrelevantes. Todos seguraram o riso. Isso foi em 2008. Penso que hoje ninguém iria rir.
   Quando voce nega o passado, voce nega aquilo que voce é. Porque voce é fruto da árvore que brotou séculos atrás. Sem história voce é apenas uma coisa que late e abana o rabo. Sim, um cão não tem história. Seu cão é hoje aquilo que os cães foram sempre. Não há passado nos animais. Portanto negar o passado é ser menos que humano. Negar a história é desejar viver no presente eterno. No virtual.
   Como consequência temos o nada.
   Mas isso fica pra outra postagem.

SARGENTO YORK, O FILME MAIS VELHO DO MUNDO

   Em 1941 SARGENTO YORK tirou de Cidadão Kane o prêmio de melhor ator para Orson Welles. Graças a Deus. Gary Cooper ganhou e a crítica nunca perdoou o filme por isso. Howard Hawks também concorreu contra Welles pelo troféu de direção, mas ambos perderam. Ontem vi o filme. Adorei. Me diverti muito. Mas é possivelmente o filme mais velho hoje. Conto a história e voce vai entender por quê.
  O filme começa numa igreja. Dentro dela há a pregação de um pastor. É 1916. A história de York, por incrível que pareça, é uma história real. York existiu e fez o que o filme mostra. Pois bem....a pregação é atrapalhada por tiros lá fora. Alvin York e seus amigos, bêbados, dão tiros à toa. A mãe de York sente vergonha.
  Vemos a casa da família. Absurdamente pobres. É o Tennesse. Ripas de madeira. Chão de terra. York usa o arado numa terra pobre. Flerta com a vizinha. Briga num bar. Caça raposas. Resolve casar. Trabalha feito doido para comprar terra. Vence concurso de tiro. Mas é enganado pelo vendedor. Perde a terra e o dinheiro.
  Revoltado, ele pensa em matar. Mas aí acontece um milagre. Não o contarei. Mas é bastante crível. York começa a seguir a igreja, lê a Bíblia, segue a fé.
  Vem a primeira guerra e ele não quer matar. O Livro proíbe isso. No exército ele se revela um fenômeno no tiro. Tem uma crise moral. E é enviado ao front francês. Se torna um herói ao vencer sozinho uma brigada alemã. Ele captura 128 inimigos e mata 29 numa só batalha. Ao fim da guerra, famoso, cheio de propostas, inclusive de Hollywood, ele volta à sua família, pobre, para trabalhar.
  Alvin York é um matuto. Um redneck, um zé ninguém. Mas é ao mesmo tempo um coração bom, uma simples homem da natureza, um bom filho. Gary Cooper era muito velho para o papel, mas ele consegue o tornar caipira sem ser idiota e bom sem ser piegas. O atraso da sua cidade é tanta que York nunca ouvira falar de uma coisa chamada metrô e se espanta com a eletricidade. Mas...porque é o mais velho filme do mundo?
  Porque ele dá valor supremo a tudo aquilo que a modernidade mais odeia: mãe, lar, compromisso com o país, trabalho duro, religião organizada, Bíblia, Deus, vizinhança. Longo, lento, sem qualquer pressa, o filme não corre, não passa, ele flui como um rio lamacento. Hawks ama York, óbvio. O super sofisticado Hawks ama o matuto York. Sabemos que Hawks serviu na primeira guerra. Parece que ele conheceu o York real. E o admirou muito. Cada segundo de filme mostra esse amor.
  Meu pai amaria este filme.
  Pena não o termos visto juntos.

WINSTON GRAHAM - ABISMOS DO CORAÇÃO

 Um amigo me chama à sua casa. Ele irá se mudar para um apartamento pequeno e os livros que seu recém falecido pai deixou não caberão na nova residência. Meu amigo pede para eu pegar o que quiser. São mais de 500 livros, mas os bons eu já os tenho. Pego alguns, menos de 10. Este peguei sem querer. Como sem querer? Distraído, olhando livros e conversando ao mesmo tempo, li na lombada do livro o nome Graham e imaginei que fosse Graham Greene. Pois é...Noto o engano em casa e pesquiso quem foi Winston Graham. Viveu por todo o século XX. Ganhou alguns prêmios menores. Escreveu Marnie, que virou filme de Hitchcock. Autor de uma série best seller de livros de aventuras medievais. Um George RR Martin de seu tempo. Este livro que peguei é de 1955 e a edição nacional é de 1958. Começo a leitura...
  Leio as 250 páginas em dois dias. Que engraçado isso! Não, nada de obra prima etc etc etc...mas como é gostoso ler um livro POP bem escrito! Um inglês vai à Amsterdan investigar a morte de seu irmão. Ele não aceita o fato de ter sido suicídio. Tenta provar que foi assassinato. Depois ele vai à Itália, Capri. A história se passa em meios muito chiques e o tipo de enredo poderia ser aquele de Agatha Christie. Mas não é. O herói não é frio e muito menos cerebral. Ele se engana. Ele erra, Ele perde o controle.
  Este livro jamais será reeditado. Jamais será resenhado. Jamais haverá um renascimento Winston Graham. Mas o fato de um cara em 2020 o ler...isso é literatura, não é?

20TH CENTURY, A PRIMEIRA SCREWBALL COMEDY DA HISTÓRIA

   Feito em 1932, por Howard Hawks em apenas 3 semanas, este filme, 20th Century, continua brilhando como se feito a apenas 3 dias. É incrível como este roteiro, de gênio, não envelheceu um só dia, e mais impressionante ainda é a direção de Hawks e dois atores que merecem o nome de gênios.
   O filme é simples, muito simples. Ele trata de um casal. Um produtor de teatro hiper vaidoso e histérico e sua ex namorada, uma atriz sem talento que ele lançou ao estrelato. Rompidos, ela se torna estrela de cinema, e ele um falido. Ambos se encontram em um trem, o 20th Century e gritam um com o outro sem parar. Não espere amor romântico aqui. Eles interpretam o tempo todo. A vida real é para eles um palco, tudo que eles sentem e falam é exagerado, canastrão, fake. Hawks dirige do seu modo invisível, ele nunca tenta chamar atenção sobre si mesmo, o filme existe em função do roteiro e dos atores. Hawks é o oposto de Hitchcock, nada de truques, nada de surpresas, nada de grife.
  Assisto mais uma vez, e novamente sinto a euforia alegre que o filme emana. Mais ainda, há algo de profundamente inteligente em cada cena. Não a inteligência arrogante e insegura do teen, mas a tranquila inteligência confiante do profissional. Todas as falas não tentam ser engraçadinhas, elas são cômicas por serem histéricas. Não há um só ângulo de câmera ousado, esquecemos que isto é um filme, o vemos como uma história sendo contada. Nasce aqui a screwball comedy, típica comédia dos anos 30, que no brasil é chamada de comédia maluca, um erro de tradução ridículo.
  A screwball comedy é alegre. E é amalucada, não louca. Loucos são os Irmãos Marx e eles não fazem parte do gênero. Louco é W.C. Fields, e ele também não é do estilo screwball. Esse amalucado é aquele da menina emancipada que entra num escritório a 300 km por hora falando vinte frases em dois segundos. Primeira característica: É um estilo feminista. Não existe sem uma mulher forte, inteligente e ousada. Segunda característica: Todo filme se passa em um mundo claro, leve, sem pobreza explícita. Jejum de Amor, talvez o melhor do estilo, até fala de pobres, mas a pobreza não é filmada. São filmes para pessoas em crise sentirem alívio. Esse o objetivo. Terceiro fato: Não há casais casados. São ex casados, ex noivos, ex namorados ou desconhecidos. O centro é sempre o amor, mas é um amor irresponsável, solto, sem mel, sem melodrama, sem futuro.
  Podemos dizer que a comédia dos anos 40 passa a ser uma comédia de família, de casal, e nos anos 50 ela se torna farsa, troca de papeis, confusão de valores estabelecidos. Voce sabe que nos anos 80 ela é a comédia de escola, de universidade, de grupo social que se anarquiza, e nos anos 90 se torna a comédia dos imbecis, dos idiotas de bom coração, dos bebês adultos.
  20th Century é a primeira comédia à anos 30. E mais ainda, é a comédia que provou que o gênero não dependia mais daquilo que se usava no cinema mudo: o atletismo dos atores, quedas, tombos e murros.
  John Barrymore faz o produtor. Se voce já viu um dia, aqui no Brasil, Paulo Autran, Ney Latorraca, fazendo um tipo egocêntrico, voce agora sabe de onde eles pegaram cada expressão facial e cada trejeito de corpo. O que Barrymore faz é simplesmente uma das duas ou três maiores atuações em comédia da história. Não há como não se apaixonar por ele. Possesso, ele vive aquele ego imenso, maníaco, louco, feroz, melodramático e canastrão. Que tal conhecer ele mais um pouco?
  John Barrymore é descendente de uma família de atores que remonta ao século XIX. Irmão de Lionel Barrymore e Ethel Barrymore, todos lendas no teatro, dos 3 ele foi o mais famoso e o único que não ganhou seu Oscar. No cinema mudo John Barrymore foi super star ao nível Douglas Fairbanks e Valentino. Atuava em capa e espada e em dram como Jeckyl and Hyde. Passou ao cinema sonoro sem problema. No teatro era considerado o único americano digno de atuar em Hamlet ( opinião dos ingleses ). Dominou a Broadway, entrou em Hollywood como rei e mito. Entre 1932-1935 ele tem várias atuações fantásticas em filmes. Mas...havia a bebida. Morre alcoólatra e ao fim da carreira passa a fazer papeis indignos do seu gênio. Se voce quer o conhecer, é este o filme.
  Carole Lombard faz a atriz. E nada pode ser mais elogiável que o fato dela enfrentar Barrymore sem ser engolida. Lombard foi casada com William Powell e depois com Clark Gable. Morreu num desastre de avião em 1942. Era a atriz de comédias número um do mundo. Gable jamais a esqueceu.
  O filme, como toda boa história, completa um círculo perfeito. Ele termina onde começa. Eu adoraria que filmes como este voltassem á moda. Mas isso é impossível pelo fato de que não há mais quem tenha o gosto de os ver. Graças aos deuses estão vivos em fitas, dvds, blu rays ou memórias digitais.
  Como dizia Paulo Francis, enquanto houver inteligência no planeta, ele resistirá.

Peter Bogdanovich Recommends: Howard Hawks' Twentieth Century



leia e escreva já!

VAMOS FALAR DE ERROL FLYNN

   20 de junho é aniversário de Errol Flynn e eu vou falar um pouco desse ator.
   Ele foi o maior nos anos 30, e hoje está bem mais esquecido que Cary Grant ou Bogey. Não vou dizer que ele foi maior que qualquer um dos dois, James Stewart, Gary Cooper e Clark Gable são mitos maiores. Merecidamente. Mas mesmo Cary Grant, dono de uma vida fascinante, não tem uma biografia mais rica que a dele. Tristemente eu constato que a campanha feita contra Flynn nos anos de guerra surtiram efeito. Até hoje.
   Errol Flynn nasceu na Tasmânia. Cresceu se exercitando. E tudo indica que se tornou ator apenas por acidente. Fez um filme na Austrália, gostou da coisa, e foi para Hollywood pra ver o que acontecia. Rapidamente foi contratado pela Warner e sem sequer fazer uma ponta, estreia como big star em Capitão Blood. Só Audrey Hepburn teve um começo tão por cima. De repente Flynn era maior que James Cagney.
   Durante oito anos ele foi um dos cinco grandes do cinema. Grant, Cooper, Gable, Stewart e Cagney.  Mas, ao contrário dos outros, que esticaram sua fama pela década de 40 e até 50, Flynn teve uma súbita e fulminante queda a partir de 1944-1945. Humphrey Bogart toma seu lugar entre os cinco grandes, e essa mudança faz todo o sentido.
   Muita gente já disse que os anos da segunda guerra mudaram o cinema americano muito mais do que se fala. Diretores e atores serviram no front, e ninguém vai à guerra e volta o mesmo. George Stevens, Frank Capra, Howard Hawks, Leo McCarey nunca mais fazem o tipo de filme que faziam nos anos 30. E os atores mudam também. Humphrey Bogart é a cara dos novos tempos: feio, seco, frio, duro, feito de aço. Subitamente, James Stewart e Clark Gable parecem saltar anos e se transformam em adultos perdidos. Gary Cooper deixa de fazer comédias e aventuras, se estabiliza como o americano calado. James Cagney se afasta do cinema por anos. Cary Grant envelhece e se torna um tipo de tio boa vida. Todos parecem menos juvenis, mais comprometidos com algum tipo de realidade, não há mais espaço para o glamour e o escapismo surreal dos anos 30. Errol Flynn não muda. Mesmo nos filmes de guerra, e ele fez um dos melhores, Objetivo Burma!, ele permanece o cara dos anos 30. Suave. Nada agressivo. Bons modos. Urbano. O olhar é de quem quer ser amigo, a voz, inconfundível, é polida, educada, em tom baixo, sempre a beira do sorriso. Percebo agora que não há ator mais oposto a Bogart que ele. Bogey era chumbo, Flynn era uma brisa, Bogey era pouco ou nada atlético, Flynn era um modelo de nadador, Bogey falava como quem cospe, Flynn falava sorrindo. Bogey era anos 40. Flynn, assim como William Powell e John Barrymore, anos 30.
   Mas a queda foi grande demais e não apenas uma mudança no gosto explica isso. A vida pessoal de Errol Flynn o sabotou. Ele bebia, ele fazia muito, muito sexo, e ele se achava imortal. Brigou com a principal colunista de Hollywood, ela começou uma campanha de difamação, ele não se ajudou, e em dois anos ele já era passado. De superstar passou a Quem?
   Flynn se casou um monte de vezes e nenhum durou muito. Seu último casamento foi com uma fã e jovem estrela ( menor de idade, o que não o ajudou nada ). Foi nos braços dela que ele morreu do coração, em 1958, ainda com menos de 50 anos, mas parecendo ter mais. Ironicamente, no fim da vida ele se tornara um ótimo ator. Como coadjuvante ele brilha em O Sol Também se Levanta, roubando o filme de Ava Gardner e Tyrone Power, e fez ainda um filme com John Huston, Raízes do Céu, onde ele é a melhor coisa. Mas a bebida não lhe deu uma chance. Sua turma nos áureos tempos tinha a nata dos bêbados de Hollywood, seu modelo era John Barrymore.
  ( Há uma história de que Barrymore quando morreu teve o corpo roubado por Flynn. Ele levou o corpo à casa de David Niven. Colocou o corpo à lareira com um copo na mão. Niven ficou horas conversando com Flynn e Barrymore até notar que ele estava morto ).
  Andei vendo alguns filmes de Errol nestes dias. Robin Hood. Westerns. Burma. É impressionante como ele é soft. Mesmo em seus filmes de pirata, ele nunca parece bruto ou agressivo. Ele vence por lutar bem, não por ser forte. É leal. É um desportista. Nos westerns, ele fez vários, ele nunca vence por atirar bem. Ele vence por falar bem. É um cowboy educado. Gentil. E que usa artimanhas. Eis uma boa palavra: Flynn é manhoso. E vence com prazer. É a definição do savoir faire e do joie de vivre.
  Não houve e não há ator que tenha conseguido seguir sua estrada. Todos que tentaram não vingaram. Stewart Granger foi o que chegou mais longe. Johnny Depp tentou a vida toda. E errou miseravelmente. A mistura de suavidade com humor, educação com charme, heroísmo leal, bem...se já parecia estranha em 1948, imagina em 2020.
  Sempre que voce vir em um filme algum herói sorrir enquanto briga, fugir da violência se possível, emitir palavras como se fossem miados, e erguer as sobrancelhas ao ver toda e qualquer mulher, isso é o Flynn Style. Ele não se impõe, ele rodopia. Ele não ameaça ninguém, ele tece teias.
  Seria fantástico ver um filme onde Flynn e Cary Grant estivessem juntos. Isso nunca aconteceu. Talvez porque seria um filme tão leve que se desmancharia em luz.

Great Expectations



leia e escreva já!

DOIS FILMES PERFEITOS

   Falo de cara: Voce não vai encontrar dois filmes em preto e branco com fotografia mais fantástica. GREAT EXPECTATIONS e OLIVER TWIST são dois filmes que David Lean fez no começo da carreira, 1947 e 1948, e ambos são considerados as mais brilhantes adaptações de Charles Dickens já produzidas para a tela. ( E não há autor mais adaptado que ele ). Guy Green é o nome do genial diretor de fotografia e Oswald Morris o camera man. Green se tornaria diretor de cinema nos anos 60 e Morris venceria Oscar no futuro. Seria o fotógrafo favorito de Huston.
  Jamais esqueço os primeiros minutos dos dois filmes. Em ambos há uma mistura de medo e beleza, horror e estética sofisticada, som e sombras que anunciam tudo o que virá a seguir. Grandes Expectativas é considerado mais perfeito, eu não consigo escolher. No primeiro se conta a história do menino pobre que enriquece graças à uma doação anônima. No segundo, todos sabem, é a história do menino de rua, Oliver. O que vemos? Rostos acima de tudo. Rostos expressivos, fortes, caricaturais, faces que contam uma narrativa, rostos de gente de verdade, sujos, marcados, vivos, muito vivos. Ao redor desses rostos temos os cenários. Labirintos de barracos em Oliver, a mansão cheia de teias e pó em Expectations. Lean usa o expressionismo alemão nos cenários e na luz, mas de um modo muito maior, mais rico, detalhista. Janelas, pisos, escadas, velas, andrajos, canecas, garrafas.
  Expectations é quase surrealista. Há nele o espírito dos sonhos. Já Oliver é um filme de horror. Tudo assusta, tudo causa medo. Os atores são brilhantes. John Mills, Francis Sullivan, Martita Hunt, Robert Newton, Jean Simmons...e também essa força da natureza Alec Guiness.
  Reli recentemente a auto bio de Guiness e o livro de Kenneth Tynan sobre ele. Na bio o mais bonito é a conversão religiosa de Guiness. Ele se torna católico num processo detalhista e lento. Fora isso, Alec Guiness, um eterno disfarçado, fala sobre quem ele conheceu e não sobre si mesmo. Tynan diz que ele foi o primeiro ator moderno da Inglaterra. Ao contrário das estrelas Olivier, Gielgud e Redgrave, Guiness fazia um papel, não se exibia, se escondia atrás do personagem. Laurence Olivier ( assim como Anthony Hopkins e Daniel Day Lewis ) é sempre Olivier fazendo Hamlet, Olivier fazendo Shaw, Olivier fazendo comédia. Alec Guiness não. É o personagem sendo feito por um ator. O Fagin que ele faz em Oliver Twist é um milagre de criação. Ele não tinha 35 anos ainda. Veja o que ele fez.
  Eu vi Oliver Twist pela primeira vez aos 11 anos, na TV, com meus pais. Jamais esqueci o choque. A cena da morte de Nancy se gravou na minha mente como a coisa mais violenta e revoltante que já assisti. Revisto, após tantas cenas gore em tantos filmes mais novos, ela ainda choca. Por que? Pelo uso que Lean faz do cão berrando, da cara de Newton e do porrete. Não vemos nada, mas imaginamos. Ele nos faz ver sem ter visto. Por isso fica gravado em nós.
  É preciso ver os dois filmes.

MTV 2020

   Um dos chavões dos anos 60 mostra pais de 40 anos, nascidos nos anos 20, olhando hippies de 18 anos e chamando-os de sujos. Depois, nos anos 70, os velhos nascidos nos anos 30, chamam os jovens de 18 de bichas, ou de frouxos. É doloroso pensar que me tornei um velho nascido nos anos 60, que pode estar sendo injusto com uma geração que se revelará brilhante. Por outro lado seria absurdo eu não me revelar em meu próprio blog. Portanto, este texto muito breve, poderá ser injusto, preconceituoso, burro, mas jamais dissimulado.
  Tenho alunos de 11, 14 e até 22 anos. Gosto da maioria e não tenho problema algum de comunicação com eles. Para mim, eles são como fui um dia. Pessoas inseguras que tentam se definir. Seres cheios de esperança que topam, todo dia, com um muro de realidade. Ouvem funk. Ouvem pop. E isso pouco me importa. Música para eles não é tão importante como foi pra mim.
  Posto isso, vejo hoje MTV. E me sinto completamente ultrapassado. Não entendo nada do que é exibido. O som é o de sempre: Pop anos 80 ou black music pós Madonna. Vocais hiper profissionais e impessoais, instrumental simples. Nada disso me choca, é banal. O que me deixa pasmado é a cara das pessoas. QUE GENTE É ESSA?
  Um teen branco com rosto de deprimido radical canta um rap desanimado onde ele chora a namorada perdida. Um gordinho com cara de deprimido radical canta a saudade da infância. Um cabeludo desanimado e mal nutrido canta em ritmo de Pet Shop Boys a desalegria em viver. Uma menina esquelética dança um pretenso funk sexy que mais parece uma desanimada dança da morte eslava. E por fim a big ídola, Bille Einlish Einglish, English, ou coisa assim, surge com sua cara pós suicida pingando sangue enquanto exibe seu corpo sem sexo sem vida e sem vontade. O que penso?
  Que se em 60 o que irritava os mais velhos era a droga e o sexo, que se em 70 era a transsexualidade e o cinismo, hoje o que me deixa irritado é sua absoluta falta de fibra. Todos parecem adolescentes em crise e essa crise é aquela do teen que não supera ter perdido seu ursinho. Eles cantam com voz tristonha, querem cama e silêncio, olham entre lagrimas e despertam bocejos. Nasceram para não nascer. Abortos vivos.
  Prefiro meus alunos.

A FÁBRICA DE PECADOS

   Roger Scrutton diz numa palestra que a esquerda se tornou uma espécie de fábrica de reivindicações. O menu de pedidos cresce sem parar e nada indica que tenha um limite. Como exemplo ele dá a questão gay. Qualquer outro assunto pode ser utilizado.
  Primeiro se pedem direitos iguais. Justíssimo. Depois o casamento gay civil. Justo. Então o casamento religioso. Aí já parece coisa estranha. Pra quê? Mudar uma tradição dentro de uma instituição que existe em função da manutenção da tradição? Então o que acontece? Antes, se voce era a favor dos direitos civis LGBTS, ok, voce era deixado em paz. Mas agora se voce não é a favor do casamento gay na igreja, igreja que era até ontem o mal, voce é homofóbico. Mesmo que seja a favor de todo o resto da agenda. Então voce é obrigado a estar em constante reciclagem, aceitando de forma passiva reivindicação sobre reivindicação. Na verdade a filosofia da esquerda é uma só: Observar até onde o tecido social resiste. Puxar o limite ao máximo. Como desejo de criança mimada, os pedidos jamais terão um fim, porque não pedem satisfação, pedem subversão.
  A vigilância sobre todos é constante. Tudo que voce faz ou aprecia hoje, poderá amanhã ser considerado pecado. Este livro pode ser denunciado como machista ou racista, este compositor poderá ter viés fascista e sua postura poderá ser considerada errada. O denuncismo, palavra bonita para dedo durismo, impera.
  Meu avô caçava lebres em Portugal e meu tio serviu o exército na África. Hoje meu tio seria um colonialista assassino ( ele não chegou a matar ninguém, mas levou uma granada no lombo e ficou sem o baço ). Meu avô seria um assassino de lebres. Que Moçambique deveria ser livre é óbvio. Mas uma análise mais profunda revela que meu tio não esteve lá porque quis. Mais ainda, nenhum ser humano pode ser reduzido ao que ele fez durante um ano de sua vida. Por isso a pena de morte é injusta. Meu tio pagou qualquer erro com a quase morte no hospital e a invalidez consequente. E se voce usar a tese do nazismo, de que então um soldado nazista pode ser absolvido, eu digo que sim, foi isso o que aconteceu. Os comandantes não podem ser absolvidos, pois eles tinham o massacre como objetivo de vida, o soldado não. 99% deles mal sabiam onde estavam e em quem estavam atirando. A guerra é confusa para o soldado. Isso poucos filmes mostram. Eles atiram como autômatos. O bom soldado não pensa, reage. Veja como o tema é difícil e inconclusivo. Muito mais fácil dizer: Soldado colonialista = assassino, e durma em paz.
   Pare e imagine que em 2050 todos nós seremos considerados primitivos. Comedores de pobres bichos indefesos. Poluidores. Gente que queimava combustível, usava madeira e plástico. Seremos tão massacrados quanto o povo que vivia no tempo da escravidão e nada fazia contra esse crime. Iremos ser rotulados. Nossa vida será vista como um pecado sem fim. Nosso legado será podado.
   Chesterton tem uma bela imagem que é mais ou menos assim: Imagine que um colibri, um belo dia, começasse a fazer pequenas estátuas de um colibri. E depois passasse a anotar como foi seu dia. O que voce pensaria? Que ali estava acontecendo um milagre. E que aquele colibri era um tipo de deus, ou um enviado dos seres superiores. Então me diga porque voce acha que o ser-humano, que é esse colibri, é uma animal tão nocivo e inferior?
  Chesterton disse isso como denúncia da mania moderna de condenar o homem como o grande mal do planeta. Hoje, em 2020, essa tendência aumentou muito. A natureza é vista como mundo perfeito e o homem seria o vírus que veio botar fim à tudo. Será?
  Estrelas morrem todo dia e pelo que se sabe, não há nenhum humano lá. A primeira dificuldade é aceitar que o fim é parte da natureza. Tudo termina, mesmo sem o homem. Tigres comem cervos ainda vivos. Leões matam filhotes de elefantes órfãos. Leopardos não dividem a água com zebras doentes. Macacos cruzam com todas as fêmeas. Se somos parte da natureza, somos assim. Egoístas. Mas somos mais que isso. Sinto dizer algo tão pouco da moda, mas somos melhores. Melhores pelo simples fato de esticarmos a mão para puxar um cervo fora do rio cheio de jacarés. Por ajudarmos quem não é de nossa espécie. De nossa tribo. De nossa família.
  OH! mas o homem, miserável, pode destruir o planeta! Sim. Ele pode. E ele é tão maravilhoso que ainda não fez isso. Mesmo podendo fazer. Animal que tem livre arbítrio. Animal que é o único a apreciar não só o que ele fez, o que lhe pertence, mas até mesmo aquilo que jamais será dele. Ser que se interessa pelo que não é ele mesmo. Um milagre. Único bicho que se distrai da luta por comida. Que ousa não comer. Ousa não cruzar. Ousa ser não animal.
  O homem cria. Eis seu milagre. Faz da pedra uma enxada e da terra, tinta. Faz do inanimado um foguete, uma vacina, música. Ele cria. Ele modifica. Ele se vê. Vasculha sua alma.
  Mas hoje é moda dizer que não. A Terra não precisa de nós. Os bichos vivem sem nós. Modo simplório de pensar. Pouco trabalhoso. Sem nós a Terra nem Terra seria. Um pedaço de pó com umas coisas vivas repetindo por tempo indefinido atos sempre iguais. Esses bichos seriam extintos mesmo sem nossa ajuda. Como foram dinossauros. Esses bichos morreriam em secas. Morreriam em nevascas. Morreriam na queda de meteoros. Sem nossa ajuda.
  Estamos aqui. E apesar do meu avô caçar lebres e meu pai ter tido pássaros em gaiolas, somos o milagre. Somos o único milagre na Terra. E isso não é um erro.