O VALOR DA VIDA, UM SABIÁ

   Ontem  na Mangueira que dá manga, cinco jovens Sabiás voaram seu primeiro voo.Saltaram do meio das folhas e tomaram coragem sobre um fio de luz. Pousaram no chão e depois voaram. Todos os cinco. Entenderam que eram Sabiás e Sabiás voam. Tudo como deve ser.
   E homens olham pássaros e se encantam com eles.
   Meu pai ao fim da vida se enamorava desse Sabiá que o acompanhava na noite sem sono. Ele era seu sonho. Me toca perceber como na Natureza tudo é certo e tudo é sempre. Esses novos Sabiás são corretos e agora, neste meu sonho acordado são cantos que me dizem ser a vida certa. Quatro horas, escuro, e eles cantam.
   Lembro ainda que nos anos 70 Sabiá só em gaiola. Ao fim da tarde milhares de pardais e de andorinhas se aninhavam e piavam em coro. Mas nada de Sabiás. E recordo com clareza do primeiro Bem Te Vi, foi em 88, ele veio e pousou no meu quintal, bravo, livre, decidido. E cantou seu Bem Te Vi. Desde então voltaram todos. E neste século ocorreu o milagre das Maritacas. A alegria de sua folia aos fins de tarde.
   Voltaram por falta de espaço nos campos? Ou por melhoria na cidade? Bem, não são mais caçados, isso eu sei. Menino com estilingue sumiu. E arapuca não vejo. Se topar com uma eu piso e sumo com os pedaços.
   Agora amanhece e mais alguns se juntam ao canto. Trazem este dia pra mim. Anunciam.
   O que vale a vida sem tudo isto?

VENTO, AREIA E AMORAS BRAVAS- AGUSTINA BESSA-LUIS. UMA MENINA BACANA.

   Gente. Parentes em que cada um interessa por ser único. É uma menina que narra e ela é feinha. E tudo olha. Casa rica na praia com multidão de empregados. Tias, avós. Gente excêntrica. Surpresas em toda página. Vida. Ela descobre a vida. Bichos e gostos. As cores cheiram. Perfume vivo que ri.
   Como ela escreve bem!!! As palavras são comidas por quem as lê. Nada acontece no livro que é um livrinho. A vida cresce. Dá pena quando acaba.
   Filosofia. A autora foi central no Portugal de todo século XX. Escreveu muito. Para adultos. E pouca coisa para crianças. Do que ela fala? Do vento que irrita. Da areia que incomoda. Das amoras bravas lá do mato. Ela faz a gente estar lá. E as frases? São redondas, rolam dentro da gente. Iluminam também. E aquecem.
   Pode marcar. Já me conquistou.
   A menina sabe que cresce. E sente aquela dorzinha dentro que nunca se sabe de onde vem. Cresce e não quer. Cresce e quer que cresça logo. A irmã vaidosa e linda, o irmão que some em caçadas. Tem uma tia doida. E um monte de solteirões. Gente que não se casa porque não necessita de alguém que lhes diga que são amados. Se amam. Avó calada e que morre como se em sonho. O pai que joga e a mãe que é puritana. A igreja. Festas! E as comidas boas. Os campos sem fim, pinheirais, fragas, serras...
   Viver!

AS NAUS- ANTÓNIO LOBO ANTUNES, Portugal, este pesadelo.

   Quando era um miúdo, lá por 1975, lembro de uma portuguesa ir fazer faxina em casa. E de minha mãe comentar com meu pai como era triste esse povo que fugia corrido de Moçambique para não ser estripado pelos negros. Faz tempo.
   Lobo Antunes toca nessa ferida. Num tempo que voa entre 1500 e 1977, Pedro Alvares Cabral, Diogo Cão, Vasco da Gama, Luis de Camões, entre outros, voltam da África e tentam sobreviver na Lixboa setentista e socialista. Tudo lhes parece sujo e louco e agora eles são anônimos. A narrativa, eliptica, tonta, é cheia de adjetivos, de imagens de pesadelo, de becos sem saída, imagens de sujeira, de sexo, doenças, fedor e uma melancolia quente e desesperada.
   Portugal é o lugar onde todos pensam e querem crer ter sangue de fidalgo. E seus heróis andam sem saber onde estão, onde ficar, o que fazer. Miragem. Sofrem de saudades africanas. Querem as mulatas e o verão sem fim. O mar cheio de pestes, a fome e a violência.
   Ler Lobo Antunes não é fácil. Ele exige muito do leitor. Quer atenção e quer cultura. Escrita espinhosa, complicada, exagerada, tortuosa. Quase barroca. Barroquismo ateu.
  

FERNANDO PAMPLONA E ANDRÉ BARCINSKI

   Parece que não mas uma nota se liga a outra.
   Leio no blog do Barcinski que nem unzinho jornalista brazuca chegou no Bruce Springsteen e perguntou o porque do Raul. Pior ainda, ficaram surpresos com a excelência do show!!! Leio as cartas enviadas ao blog e noto o estado de miséria do jornalismo feito hoje. É tudo na base do press release. Ninguém vai atrás de nada e ninguém opina sobre nada.
   Fernando Pamplona morreu. Foi o cara que mudou o carnaval do Rio e um dos caras mais cultos do país. O conheci como comentarista dos desfiles das escolas de samba pela tv Manchete. E vem aí a coisa que liga com o texto do Barcinski. Quando o desfile era ruim Pamplona metia o pau. E se o carnaval daquele ano era um lixo ele dizia, o carnaval tá um lixo! Falava com conhecimento, foi o carnavalesco que lançou João Trinta e Arlindo. Para ele carnaval tinha de ser coisa de preto, sempre. Desfile sem Pamplona opinando não tem graça.
  O mundo vai acabar em tédio e preguiça. Arre!!!

ALBERTO SORDI/ JEAN DUJARDIM/ JOHN LE CARRÉ/ PI/ RICHARD BURTON/ CLAIRE BLOOM

   AS AVENTURAS DE PI de Ang Lee
Resiste muito bem a uma segunda olhada. É um vencedor de Oscar que vai sobreviver. Tem aventura, humor e imagens de sonho. Mais, instiga interpretações. Na verdade ele fala do valor da narrativa como alma da vida. Nesta minha segunda visita meu prazer foi maior. Esse é o sinal do bom filme, na segunda assistida ele cresce. Nota 9.
   O ARTISTA de Michel Hazanavicius com Jean Dujardim, Berenice Béjo, John Goodman, Malcolm McDowell
Minha mãe tentou ver este filme e eu o revi com ela. Ela adormeceu, eu gostei mais que na primeira visita. Agora vejo algo mais que apenas sua coragem. Aqui se usa toda a linguagem que o amante de filmes conhece e guarda no peito. Citações da história da arte usadas modernamente. Sim, a forma é a de 1928, mas a mensagem, a narrativa é a de 2012. Dujardim tem uma atuação histórica. Ele seduz, varia, cresce, faz rir, hipnotiza. É uma estrela, um grande ator! Que belo filme!!! Nota 9.
   VIAGEM FANTÁSTICA de Richard Fleischer com Stephen Boyd, Donald Pleasence, Raquel Welch
Uma equipe é diminuída e colocada dentro do corpo humano. O objetivo é destruir um coágulo no cérebro. Os efeitos especiais são pueris, mas até que o filme sobrevive. Foi malhado quando de seu lançamento. Houve um tempo em que temas ridiculos eram ridicularizados a priori. Lembro de assisti-lo na TV com 11 anos de idade e passar mal. Agora me diverti. Nota 5.
   MEU PÉ DE LARANJA LIMA de Marcos Bernstein
Até tú José Mauro? Botaram um monte de tiques de arte nesta história simples e transformaram isto num trambolho frio e sem porque. Apagaram a poesia, limaram as lágrimas e deixaram um filme ruim. Nota Zero.
   DEEP IN MY HEART de Stanley Donen com José Ferrer e Merle Oberon
Conta a vida do austríaco Romberg, que apesar de suas pretensões eruditas se tornou uma estrela da Broadway. O filme tem um problema central, a vida dele é desinteressante. Nada acontece. Donen dirige sem capricho e até sua leveza mágica está ausente. Tem números com Gene Kelly e seu irmão, Fred. Além de Howard Keel. Nem eles salvam o filme da banalidade. José Ferrer, queridinho da critica na época, transpira antipatia. Nota 4.
   TO THE WONDER de Terrence Malick com Ben Affleck, Olga Kurilenko, Rachel McAdams
Um erro sério de Malick. O tema é sublime, o amor como dom da alma, como condição de vida, como alma do mundo. Mas o modo como isso nos é passado é desastroso. O filme tenta nos levar ao sonho hipnótico com o uso de cortes ritmados e movimentos de câmera dançados. Os atores rodopiam e o ângulo mais usado é do alto e de costas. Isso cansa, produz tédio. O filme é muuuuito chato! Nota 1.
   42, A HISTÓRIA DE UMA LENDA de Brian Helgeland com Chadwick Boseman e Harrison Ford
Em 1947, o dono dos Brooklyn Dodgers contrata o primeiro jogador negro da história, Jack Robinson. O filme é quadrado, básico, mas é impossível não se deixar levar pelo tema. Robinson, que era briguento, suporta as provocações com frieza e vence. Hoje ficamos revoltados com aquilo que ele viveu. Xingamentos no campo de jogo, ameaças das arquibancadas, preconceito do próprio time. Ford está maravilhoso como o dono do time. Digno e muito real. Um bom filme que acho que não será exibido aqui. Procurem em dvd. Vale a pena. Nota 7.
   O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO de Martin Ritt com Richard Burton, Claire Bloom, Oskar Werner
Meu Deus, que mundo era esse! Todos tinham de se posicionar, esquerda ou direita. Um mundo rigidamente dividido. Este magnífico filme fala disso. Burton é um agente inglês. Ultra desiludido. É usado numa tortuosa trama para salvar um colaborador na Alemanha Oriental. Num preto e branco frio e fascinante, obra do genial Oswald Morris, o diretor americano Ritt, grande nome da esquerda de então, faz um filme inesquecível. Não espere aventura e galmour. O livro de John Le Carré desmistificou a vida de James Bond. A espionagem é trabalho de entediados, de homens sem alma. Burton tem uma atuação de mestre. Um monstro de ressentimento, de dor fria e sob controle. O filme é brilhante. Nota DEZ.
   UM AMERICANO EM ROMA de Steno com Alberto Sordi
Sordi cria uma personagem hilária: um italiano que pensa ser americano. Vive falando frases em inglês macarrônico, canta como Gene Kelly e dança sapateado. Pensa ser cowboy, gangster, playboy. Alguns momentos de sua atuação beiram o sublime. Mas há um problema: o roteiro se perde ao final. Parece que não se sabe o que fazer com personagem tão louco. Uma pena... Nota 5.

QUE QUEREM OS HOMENS DAS MULHERES?...INSPIRADO POR PONDÉ.

   Os homens querem mulheres que os admirem. Simples assim. Fui feliz enquanto sentia ser admirado. E ao mesmo tempo essa era uma admiração que me relaxava. Eu podia ser infantil, frágil e bobo, ela me dava essa colher de chá. Contanto que eu continuasse a ser admirável.
   O que era ser admirável? Ser diferente do comum. A mulher procura um homem que demonstre força. Mulheres perdem o tesão ao se deparar com a fraqueza. Essa força não significa bíceps. Significa poder, decisão, coragem, algo que recorde heroísmo. Simples assim.
   No mundo do trabalho é bacana valorizar a delicadeza, os bons sentimentos, a mansidão. Faz de conta então que as mulheres gostam disso. Até gostam,,, num amigo. E algumas confundem isso com amor. Mas não. O amor quer o herói, seja o herói completo ou o anti-herói. Como diz Pondé, O Fodão.
   Em minha vida fui fodão e fui doce. Äs vezes ao mesmo tempo. Perdi sempre ao insistir na fraqueza. Ao hesitar. Ao ser gracinha. E sempre ganhei quando decidido, forte, solitário, original. A imagem do homem solitário que sabe se virar e ir sempre em frente é irresistível para uma mulher.
   O resto é papo furado.
   Daí o apelo de ricos vencedores. E ao mesmo tempo do mal aluno, do skatista, do cigano, do cowboy ou do marujo. Todos parecem fortes ao seu modo. Claro que são mais e são menos que isso. Mas o tesão feminino nasce nessa imagem. A do fodão.
   Mulheres que não gozam ou que humilham seus maridinhos delicados...A noite na cama em quem elas pensam? Naquele aluno do fundão de 1985, Naquele jogador de futebol do time vencedor. No salva-vidas calado da praia, no guitarrista de blues do bar da esquina ( que o maridinho pensa ser um fodido ). E até no bicheiro que anda de camisa aberta na rua.
   O desejo é do predador. O resto é ilusão.

TO THE WONDER- TERRENCE MALICK

   O amor consagrado no lugar onde ele nasceu. Ao alto da catedral o mais fantástico espetáculo se abre a vida. O mar pleno cinzento. A maravilhosa. Sim, o Milagre é sempre o Amor. E todo amor é como Ver.
   Para sempre. O Amor morre? Como pode morrer a maior das forças?
   Procurando Deus, procurando o Amor. Encontrando o amor e deixando ele partir. Não encontrando Deus e jamais O vendo partir.
    Do mar de onde menestréis cantaram o Amor a terras devastadas pela sujeira. A angustia da América de espaços que não se acabam. O imenso céu vazio. Como preencher?
    A câmera segue os corpos. Roda por entre. Capta. Ocasionalmente Asas do Desejo. Mas este filme de Malick é um pecado, pois é chato, quase insuportável. Asas nunca é chato. Nos eleva. Este nos aborrece.
    Os cortes hipnóticos falham e assim não encontramos.
    O Amor faz de dois Um. Deus sempre Um. Eu me torno ela quando a amo. Eu deixo de importar, vale somente ela. Deus como Tudo e Todo.
    Pena.

AOS VERMES, STERNE, MACHADO E A SINA DO BRASIL

   No Largo de Pinheiros as obras do metrô fizeram nascer uma nova praça em frente a igreja. Recém construída, ela já se degradou. Placas de cimento no chão se descolam. As árvores jovens estão mortas. A nova praça faleceu antes de nascer.
   Todo um estardalhaço de protestos que mudaram o país... nada mudaram. E o julgamento se arrasta e faz teatro absurdo e nada resolve de fato. As coisa mudam para que jamais mudem, como disse Lampedusa.
   Machado de Assis adorava o Tristam Shandy de Sterne. E percebeu que na Forma do livro nonsense do gênio inglês havia a forma Trágica de um lugar chamado Brasil. O livro de Sterne é pura digressão. A narraçõa anda em espirais e a surpresa leva ao riso. O Brás Cubas de Machado leva ao buraco. A vida se perde em coisas não feitas ou feitas pela metade. Brás Cubas se diverte e se adapta ao momento. O que em Sterne é excentricidade em Brás Cubas é jogo.
   Terrível aula na USP. Então o livro de Machado é isso...O retrato perfeito de um país que insiste em ser Fidalgo. Brás Cubas, rico, nada faz. Tem mil planos, todos falham e ele se auto-glorifica por cada um de seus quase sucessos. Tem nojo de trabalhar com as mãos, é amigão dos escravos, ama sem se dar e se dá apenas a sua vaidade. Mente todo o tempo, principalmente para si-mesmo. E é feliz, pois conseguiu ao fim da vida tudo o que realmente queria, não trabalhar, não se comprometer, nada deixar para os outros. Realizado em sua volubilidade. Volubilidade. Machado, gênio, une a forma ao conteúdo. A forma é o conteúdo. O livro é volúvel em seu estilo porque Cubas é volúvel. Quando deve ser romântico ele o é. Quando precisa da ciência se faz técnico. É sério e é alegre conforme a conveniência. É falso. É tolo. Se vira.
   Machado de Assis percebeu Sarney, Collor, percebeu Dirceu, Lula, Serra, percebeu tudo e viu que nada mudaria porque tudo parece mudar sempre. O Brasil faz e faz e inaugura e refaz e reinaugura e muda e funda. E vive sempre o mesmo.
   E Brás Cubas continua com suas mocinhas do povo bonitinhas, suas herdeiras bacanas, seus planos de novas invenções e suas glórias imaginárias. E continua morrendo sem deixar filhos. Aos vermes. E fim.
  

FIM DO ROMANCE?

   A revolução industrial nasce e com ela nasce o romance como o conhecemos. Não a toa ele nasce na Inglaterra. Sim, voce pode dizer que Dom Quixote ou Gargântua já seriam romances, mas não. São prosa romanesca, não tratam de lugares e de gente pretensamente reais. Porque o romance tenta, mesmo quando alegórico, falar do mundo do aqui e do agora. E dá aos personagens uma identidade, os faz ser Moll Flanders ou Tom Jones, e não Pantagruel ou Quixote. Mas porque?
   O fim de uma civilização agrária, de um estilo de vida de mais de 2000 anos fez com que fosse preciso fixar de alguma forma a vida que se fazia volátil. O homem passou a tentar entender aquilo que não mais era reconhecível, a vida e si-mesmo. Antes do romance o tema era religioso ou politico, agora, com o romance, é existencial. Se olha para dentro de cada individuo. Isso era inédito. Shakespeare havia antecipado isso já em 1600, mas era teatro e era um semi-deus.
   Pois bem. A VEJA em sua edição histórica, fala de uma capa que a TIME deu para Johnathan Frazen. Que isso causou estranheza, não por Frazen, que é ótimo, não merecer uma capa, mas sim por ele ser um escritor. Porque escritores, hoje, são irrelevantes. Se em 1982, uma capa da TIME para John Updike era óbvia e bem comemorada, hoje uma capa para Frazen nada diz. Porque?
   A revista dá uma explicação que nada explica. Fala da internet mas e daí??
   O fato é que hoje ninguém mais, ou quase ninguém, está interessado em análise. Vivemos a nova época, tempo de diversão. De certo modo nos acostumamos, a duras penas, ao mundo da velocidade e da efemeridade, e o que tentamos é não pensar, exatamente o oposto do que todo romance propõe.
   Lembro que em 1985, por exemplo, Drummond, Garcia Marquez ou Borges eram semi-deuses. Oráculos da verdade e guias de pensamento. Mais que isso, em outros campos o mesmo ocorria. Kurosawa ou Lennon, Bowie ou Bergman, todos eram capa de Times eternas. Mais ainda, todo mundo ia a gurús ou psicólogos não para ser feliz ou para perder o medo de elevador, mas para se encontrar, para se conhecer. Quantos clientes de terapeutas hoje os procuram para entender quem eles são?
   As pessoas não querem mais entrar dentro de si e ver o que acontece, o movimento hoje é oposto, ir para fora e se conectar a tudo que acontece agora, neste exato instante. Onde o romance se encaixa nisso?
   Que fique claro, quando falo de gente em 1985 que se guiava por Borges, não falo de estudantes de letras ou de filósofos, falo do leitor médio. E quando falo de gente querendo se achar, não falo de gente com grilos na cuca, falo de adultos com poder aquisitivo para isso. Gente dita normal.
   Romances dão trabalho. Nossa cultura é do não-esforço. Da diversão simples, da sensação. Nossa sede de narrativa, de histórias é genética. Ela sempre viverá. Precisamos de contos, de sagas. Era assim em Creta, em Bizâncio ou na China de 3000 a/c. Mas o romance não. O livro ao estilo Flaubert, ou Joyce, ou Heminguay, London, Hammett, De Lillo, esse tem apenas 250 anos mais ou menos. É fruto de uma sociedade em transição, assustada e perdida. Do tempo do trabalho duro. Da busca de sentido. Da ansiedade.
   Nosso tempo varia entre depressão e hiper-atividade. Livros precisam ser úteis e divertidos. Ter um porque, um sentido. Onde o romance?