The Rolling Stones in the park



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FUTEBOL, PAUL MACCARTNEY E ROLLING STONES NO HYDE PARK

   Tão tentando, e conseguindo, transformar estádio de futebol em arena de entretenimento. Tá um pé no saco. Nada mais de samba, nada mais de charanga, sem o urubú e sem a turma pobre da geral. Padronizaram tudo, a torcida do Arsenal é hoje idêntica aos bundões do Chelsea. Jogo na Itália ou na Alemanha parece o mesmo, Juve ou Borussia, só muda a cor. O futebol vira picolé de xuxú, coisa que a fórmula um se tornou faz tempo. Sem cor local, sem perigo, sem originalidade.
   Falei em perigo? E os shows de rock? Viraram o que? Festinha de quinze anos? Show em Vegas?
   A sujeira abunda no Hyde Park neste show de 69. O palco é tosco e o povo tem uma multidão de tipos em overdose de ácido. Na última música Jagger flerta com Dionisius. E tem um grupo folk da Jamaica que não é samba! ó ingleses... Paul MacCartney aparece em meio ao povo no gramado...sempre são...não é funny? Tempo em que o cara da banda mais popular via um show em meio aos simples mortais...
   Os Stones chegam dentro de um carro forte! Ou é uma carrocinha de cachorros? O camarim fica com as janelas cheias de fãs e o luxo dado às estrelas são duas dúzias de laranjas!!!
   Keith está quase morto e ainda não criou sua persona de palco. Portanto, Mick brilha sózinho. Lê Shelley como homenagem a Brian, que morreu dois dias antes. Soltam borboletas brancas no palco, centenas que saem de caixas de papelão...sim, é patético.
   Moças feias sobem ao palco e são expulsas. Tudo é mal feito e mal executado. Hells Angels fazem a segurança. Mick Taylor faz sua estréia aos 19 anos. O filho de Jagger e Marianne, Nicholas, parece adorar o tio Charlie Watts. ( Uma pesquisa diz que em 1967 Bill Wyman dormiu com 236 mulheres diferentes. Brian com 170 e Mick com 86. Keith com apenas 3 e Charlie apenas com sua esposa ).
  Sexo é perigo. O show é uma merda mas é fascinante por ser perigoso. Os Stones sempre foram sexys como uma banda black. Não é apenas diversão, é uma experiência. Se deu certo ou errado não importa. Há alí uma história para ser narrada.
  Hippies místicos se reúnem em Chelsea. Velhos very british pescam alheios a tudo. Atores pregam contra o capitalismo. E uma criança, da minha idade?, olha para a câmera com seu lenço vermelho amarrado no pescoço e a barriga gorda de fora.
  Shows hoje são limpos demais!
  O mundo está ficando tão clean, tudo tão bem feito, tão correto, que ver esse show, feito na Londres hiper-educada de 69, é como ver gente de outra raça e de outro planeta em ação. Mundo irreconhecível.
  Tem de ser visto e revisto.
  Como dizia o grande Ezequiel Neves, é descaralhante!

A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS- JULIO VERNE

    Bela edição ilustrada! Digna desse livro tão divertido. Fogg vai de Londres a Suez, para a India, para Hong Kong e Japão e cruza os EUA. Parada breve em Singapura, que é o lugar que parece mais interessante. O racismo abunda no livro. Raças não européias são tratadas por nomes como energúmenos ou bestas. É um racismo racional, o melhor humano é aquele que domina a técnica e a indústria. O primitivo é na melhor das hipóteses um idiota, na pior uma fera. Maldito século XIX.
   Frustra um brasileiro perceber que Verne foi um grande best-seller. Assim como dói saber que Walter Scott foi, em 1820-1840, o maior vendedor de livros de toda a história. Ou seja, estamos quase dois séculos atrasados, pois só agora, de poucos anos para cá, um autor consegue ficar rico com livros. Well...
   Verne conseguiu seu sucesso usando a ciência de então. A Europa estava no frenesi de descobertas, descobertas da ciência e descobertas geográficas. Verne une as duas coisas. E não se esquece da ação, que nunca cessa. É quase cinema.
   Não acho que um garoto de 12 anos irá gostar de Verne hoje como eu gostei. Talvez Twain e Stevenson tenham envelhecido melhor. Mas os livros de Verne ainda são base para livros de aventuras de agora. E filmes também. O herói frio, o ajudante atrapalhado, a mocinha salva, o cenário misterioso e exótico. A corrida contra o tempo que se encurta.
   É o modelo ainda usado em 2013. E não mostra sinais de abandono iminente. Verne deve estar rindo de onde estiver.

ELMORE LEONARD E A LITERATURA INFANTIL

   O estilo de Elmore Leonard nasceu com Dashiell Hammett e não com Heminguay. Heminguay tem umas quedas à filosofia e fatalismo romântico que inexistem em Elmore. Os diálogos dele, que para os jovens leitores vão recordar Tarantino, são 100% Hammett. Lendo Dashiel sempre imagino um filme de Quentin, lendo Heminguay penso em John Huston.
   Li um monte de livros de Elmore Leonard nos anos 90. Eles são todos bons e gostosos de ler. Fáceis de achar, em sebos voce acha muitos. Os melhores são os de western. Filmes vi todos. Nunca vi um filme ruim baseado em Leonard. Joe Kidd, de 1971, com Clint Eastwood é o menos bom. Hombre de Martin Ritt com Paul Newman talvez seja o melhor. Jackie Brown é muito bom. O filme de Soderbergh com Clooney e Lopez é maravilhosamente esperto.
   Se eu fosse escritor eu adoraria escrever como Elmore Leonard. É o melhor estilo para 2013. Curto e direto. Objetivo e muito visual. Sem bobagens, sem gordura e sem pretensão. Muita gente segue essa trilha, mas a maioria cai na pior das armadilhas que esse estilo apresenta: o tédio ou a superficialidade total. Confundem simplicidade com vazio, objetividade com superficialidade.
   Dá uma lida e me conta.
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   Comecei um curso de literatura infanto-juvenil. Maravilhoso.
   Tem certos chavões que são tão verdadeiros que ninguém percebe. Como é a professora? Maravilhosamente distraída, sorridente, cheia de ideias, viva. Curiosa, deslumbrada, parece que tem asas nos pés. Ou seja, é uma professora de literatura infantil que traz no corpo e na alma as marcas de Emilia, Peter Pan ou do Gato de Botas.
    Adoro.

UM SHOW RUIM E UM SHOW EXCELENTE...BLIND FAITH E THE FACES

   Assisti a 3 show em dvd recentemente. Sobre os Stones no Hyde Park falo depois. Antes, o Blind Faith, também no Hyde Park.
   Blind Faith foi considerado o primeiro super-grupo da história e com eles já se percebe, super-grupo não significa grupo bom. O Blind Faith nunca funcionou.
   O único disco deles saiu em 1969 e eu o comprei, em lançamento exclusivo do Museu do Disco, em 1981. Viajei no disco, viajei porque fui sempre fã de Winwood, Clapton e Ginger Baker, mas é um disco decepcionante. E no show a gente vê porque. A banda não se aquece, não solta faísca, parece com sono, sem vontade. Os caras se dão bem, não é inimizade, eles apenas não acontecem.
   Steve Winwood, recém saído do Traffic, com apenas 20 anos, parece ficar todo o tempo admirado com a presença de Eric Clapton. Eric, com apenas 25 anos, já era a tempos o deus da guitarra. Toca maravilhosamente bem, mas está sonado. E há Ginger Baker na bateria e ver Ginger tocar é sempre emocionante.
   O toque de Ginger é completamente original e até hoje não surgiu alguém que toque como ele. É uma mistura de beat apache, ritmo tribal africano e muito jazz. Uma figuraça! O que faltou? Alguém com fogo, com paixão.
   Paixão sobra nos Faces. Show de 1973, ele começa com troupe de garotas dançando can can. O video do tube cortou as moças, no dvd elas ficaram. A banda entra e bota pra capar. É a melhor banda de bar do mundo, um tipo de irmãos Marx do rock inglês.
  Rod Stewart começa com uma vaidade quase irritante, mas se esquenta e toma o show no colo. E que voz é essa? Lembro que em 1976 eu e meus bros da escola conversávamos sobre qual a best voz do mundo. Robert Plant vencia, mas Rod era melhor. Ao vivo ele arrasa!
  Ron Wood dá uma aula de slide e Ronnie Lane foi um puta contra-baixo. Em The Borstal Boys a banda atinge um pico de fogo. Ian MacLaglen se exibe no teclado e Kenny Jones vira punk estraçalhando a bateria. Ao final, uma canção a capella, a banda em êxtase e os fãs em orgasmos múltiplos.
  Tudo o que Blind Faith não conseguiu sobra nos Faces.
   Ou melhor, o que falta a 99% das bandas sobra nos Faces.
   Enjoy it!

The Faces - Live At Edmonton Sundown, London, UK (1973-06-04)



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A DOIS AMIGOS DOS ANOS 80

   Meu amigo
   Eu não tenho a coragem de ler aqueles cadernos que eu escrevia naquele tempo. Não sei porque, mas não rola. Então espero que um dia voce passe por aqui e os leia. Acontece que lembrei de um monte de coisas que eu não lembrava e minha memória foi acordada pelo Lloyd Cole tocando A Brand New Friend. Sei que nem é ou foi, dos seus favoritos. Mas sempre foi o meu.
   Os anos 80 foram uma bosta e não mudei de opinião. Mas, caramba, a gente tava lá e acho que não devíamos zombar tanto disso. Foram meus 20 anos...Foi real? Eu realmente fui tão apaixonado assim pela Patti Wonderful e pela Andreia?
   Amigo, fui, fui mesmo! E sei agora que ser feliz é conseguir amar. Para um cara mais ou menos normal de 20 anos amar é fácil. Para um quarentão amar é um exercício diário. É preciso matar o cinismo e mater o amor vivo. Crer no amor verdadeiro, falar nele, se jogar. Amigo, ele existe. E só ele vale.
   Lembrei de voce conversando com o Wilson José até de manhã, o dono do Madame Satã. E de uma menina chamada June que voce gostou.
   Lembro de seu sobretudo preto, estiloso pacas! De umas meninas de cabelos enormes pintados de roxo e de um negão dançando no porão. Na rua era muito legal. Deitei no capô, bêbado. Um doido de smoking ( dinner jacket ) me deu whisky. Era real? Aquilo era um clube de gente muito esquisita e decadente.
   Ouvindo Lloyd Cole lembrei de meu vômito jorrando escada abaixo. Devo ter molhado um monte de gente que subia. Ninguém ligou, só um cara riu. Devo ter amolado voce falando de Patty Blue Jean. Porra! Eu me apaixonava só por ter falado um "Oi". Eu era Charlie Brown?
   Bom....meus cadernos estão aqui, embrulhados numa sacola e não vou os ler. Misturei as lembranças de Dio com Percy e foi de propósito. Voces são os camaradas da década de 80. Mudamos todos, muito, mas os cadernos estão aqui.
   Ser feliz passa por poder incluir e aceitar tudo o que se fez.
   Até que não foi tão ruim.
   Um abraço. Que são dois.

MAIS UMA DESCOBERTA DA CIÊNCIA QUE TODO MUNDO JÁ SABIA DESDE SEMPRE

   Então a ciência descobriu que a cidade nos deixa nervosos? Que puuuuuxa!
   Através de experimentos descobriram que quando olhamos para coisas feitas pelo homem, que tenham a marca da mão humana, nosso cérebro fica excitado. Isso porque tudo que é humano é entendido como desafio e como coisa que deve ser "lida e entendida". A parte mais "para fora" de nosso cérero fica ativada e circuitos se acendem.
   Quando olhamos coisa da natureza, sem o toque humano, nosso cérebro repousa e se volta sobre si-mesmo. Ele entra em camadas mais profundas e passa a funcionar como por instinto e intuição.
   Algo de novo? A única novidade, como sempre, é que agora temos embasamento de algum doutor sobre alguma coisa que todo caipira como eu sempre soube.
   Abomino prédios, avenidas, carros, porque me obrigam a sair de mim, não no sentido egoísta do termo, mas a largar meu lado mais introspectivo, sensível, livre. Passo a ser assediado por apelos ásperos que me levam a ter de ficar alerta, ligado, rápido e superficial, Acordado. Vigilante.
    Para alguém que foi criado cercado por sons naturais ( cantos de pássaros, vento nas folhas, latidos, piados de galinhas, trote de cavalos, cigarras cantando ), sair desse mundo redondo é quase como morrer. Ou deixar morrer um tipo de mundo.
    Óbvio.

JOÃO PEREIRA COUTINHO E O MAL ( HITCHCOCK )

    João Pereira Coutinho escreve na Folha sobre o fascínio da obra-prima Os Pássaros de Hitchcock. Conta que por mais que críticos e psicólogos, filósofos e cinéfilos tenham discutido o filme, nunca ninguém conseguiu dar uma razão para a agressão das aves. Porque elas se tornam más? Coutinho aproveita para escrever sobre o mal. Hitchcock não dá pista alguma, ou melhor, afirma que o mal não tem motivos.
   Seja o "anjo negro", a sombra mal aceita, a pulsão de morte ou o equilíbrio Divino, todas essas pseudo-explicações para o mal nada explicam. São apenas nomes, e como todo nome, é arbitrário. São modos de se tentar pacificar aquilo que nos angustia, a inexplicável ocorrência da maldade. O mal acontece, nasce, domina e se vai. Porque? Matar como vingança não é O Mal, o Mal é matar sem motivo. Atacar sem provocação, e é isso que acontece no filme.
   Coutinho não resiste a dar a explicação mais usada, a de que os pássaros simbolizam a maldade feminina. Hitch, que temia as mulheres, faz deles arautos da mulher ( Tippi Hedren ) que chega a ilha do filme. Mas Coutinho mostra o quanto essa tese é arbitrária, depende de se desejar aceitá-la, ou não.
   Esse o segredo da modernidade eterna de Hitch, do fato dele ser o mais visto dos diretores clássicos. Ele nada explica, não dá motivos. Todos os personagens são neuróticos, todos agem de forma doida, mas nada tem explicação. Ele evita a ciência, evita toda cena explícita. Nada de gente lavando as mãos até sangrar, nada de drogas ou alcóol, o mal surge em meio a normalidade, a rotina é aparentemente normal, mas o mal, O Mal inexplicável sempre está lá, dando sua cor sombria a cada ato.
   Os Pássaros é considerado um Hitch de segundo nível. Não acho. Ele é tão grande quanto Vertigo ou Janela Indiscreta, tão divertido quanto Intriga Internacional ou Os 39 Degraus. Hitchcock é o maior dos mestres por conseguir unir, em doses iguais, a diversão Pop e a alta arte. Agrada ao povão e aos metidos.
   Mais um bom texto de Coutinho.

ROMANCES DE AMOR

   Como fiz vários posts sobre o Amor em música, falo agora de livros, poucos, que trazem memórias de amor.
   O primeiro de minha vida foi Tom Sawyer. Sim, isso mesmo, o amor de Tom e Becky, o primeiro beijo. Incrível mas eu lembro do exato momento em que li sobre esse beijo: aos 9 anos, debaixo de bananeiras no quintal de casa. Muito calor. Antevi aí meu futuro primeiro beijo. Só não pensei que fosse demorar tanto.
   Depois o namoro de Peter Parker e de Gwen Stacy e então os grandes romances.
   David Copperfield com Dora, quando ela morre, a primeira página que me fez chorar ( no quarto, lendo de madrugada ). Em seguida o mais perfeito dos romances sobre o amor, O Morro dos Ventos Uivantes, Heathcliff e Catherine, o amor como maldição, como sina, o amor que é dor para sempre. O máximo do romantismo fatalista, um cataclisma na minha mente e alma. O cenário perfeito ( vento frio em campos pantanosos ) a mulher perfeita e o homem "mal" que esconde sua ferida.
   Tudo que veio depois foi menos forte. Jake e Lady Brett no Heminguay de O Sol Também se Levanta, o amor impotente, amor irrealizável em meio a fiesta da Espanha. Os amores nas obras-primas de Stendhal, O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, amores irônicos, amores que são como atuações que convencem o próprio ator. E escritos com a maestria do maior estilista.
   O amor simples de Kitty e Lievin em Anna Karenina, pois o amor de Anna e Vronsky nunca foi para mim o centro da obra, mas sim o amor de Lievin, que descobre a perfeição na simplicidade de sua mulher. A felicidade nasce após a morte em vida do aturdido Lievin.
   Ofélia e Hamlet...Esse amor continua um enigma, pois é impossível saber quem foi Hamlet e porque Ofélia o amava. O desagradável Hamlet.
   Os amores dos livros de Jane Austen, tímidos, convencionais, trêmulos e hesitantes. A doce alegria de seus finais práticos, finais que na verdade são elogios ao pragmatismo. Ler Austen é amar suas heroínas e admirar os falsos tolos que são na verdade seus heróis.
   Gatsby e sua tragédia. O desajustado que não percebe seu desajuste. O amor como miragem de beleza. Impossível.
   Não posso negar a importãncia de A Insustentável Leveza do Ser. Hoje percebo suas falhas, mas na época, anos 80, Tereza foi musa para mim. Aliás, era esse seu nome? Well...Kundera foi por algum tempo um herói.
   Estranho....poucos livros me marcaram como 'livros de amor". Falar de Henry James como autor amoroso é absurdo. A questão amorosa é centro de suas obras-primas, mas aquilo é mesmo amor? São personagens tão auto-centrados que fica dificil levar aquele sentimento a sério. Amor? Será? Solidão seria mais correto dizer.
   Na verdade meus livros de 'amor" são os poetas. E deles ( Keats, Shelley. Blake, Lorca, Yeats, Rilke ) não vou falar. Estou discorrendo sobre a prosa.
   Então nada de Dante e Beatriz.
   Volto a Tom Sawyer. O beijo e amor por Becky é parte de um todo. Tom faz estrepulias, foge de casa, recupera dinheiro roubado, briga, se perde em mina abandonada. E ama à Becky cada vez mais. Esse é o roteiro ideal de uma boa história de amor. O arcabouço foi criado a mais de 3000 anos, na Grécia. E não se fez até aqui uma base melhor. O herói que ama e parte, prova sua grandesa e retorna ao amor.
   É isso.

POEMAS TRADUZIDOS POR PAULO VIZIOLI, WILLIAM BUTLER YEATS

   " Da briga do homem com outros surge a retórica, da briga dele consigo mesmo surge a poesia".
   A briga entre o sonho e a realidade. A briga entre a aristocracia e a democracia. A briga entre a eternidade e o tempo. Os temas de Yeats são esses. Ele parte da fantasia pura e chega ao realismo do banal. E então consegue a síntese.
   " O talento percebe as diferenças. O gênio vê a unidade."
   Yeats une a democracia a aristocracia e a fantasia a realidade. Consegue nos exibir a verdade da imaginação e a magia da banalidade. Aristocratas se fazem os homens do povo e democratas os nobres e os mitos. O poeta chegou onde sempre quis. "A síntese feita a marteladas".
    Tradução maravilhosa de Paulo Vizioli.

OS PUNS DE ANITTA

   Amigos no Facebook comentam indignados a matéria do Faustão sobre Anitta em que ela se revela a rainha do "Pun na Van".
   Eu já falei tanto sobre isso....vamos lá again!
   Em 1977 a Globo exibia na faixa nobre das 21 horas óperas de Wagner e peças de Gogol. Porque?
   O Brasil era então um país tão pobre, tão injusto, que a TV só mirava a elite. Simples assim.
   ( Otimistas gostam de dizer que a TV de qualidade se encontra em canais a cabo. Eu pergunto: Quais? O que vejo são séries banais, draminhas óbvios e muita violência. Downtown Abbey, que é legal, se comparada a Brideshead Revisited perde de lavada. Os canis HBO ou Fox não são absurdos como a Rede TV, mas estão longe de O Capote ou O Navio Fantasma ).
   Hoje TUDO é voltado a classe C e D. E mesmo o cinema americano se voltou para chicanos e o povo da China e India. Ah, mas há o cinema "de classe", aquele de Woody Allen, Scorsese, PT Anderson e fora dos EUA aquele de Von Trier ou de Almodóvar. Weeeellll....
   Woody Allen se vulgarizou. Seu último filme "adulto" foi Desconstruindo Harry. Depois ele só fez filmes Pop para teens. Alguns bons, como Todos Dizem Eu Te Amo ou Barcelona, mas nada com os riscos e a ousadia de Manhattan ou Hannah. Idem para Scorsese e nem preciso falar de Almodovar. Von Trier faz filmes "de arte" para jovens impressionáveis do cursinho pré-USP. Os títulos são peças de marketing planejado e tudo é cópia de alguma cópia copiada de outra cópia. Vazio de ideias, vazio de sutileza: Jeca.
   Anderson tenta bravamente, mas quem o vê?
   O público C e D quer filmes tipo Marvel, comédias com puns e mais 007.  Nem para comédias românticas eles possuem sensibilidade. Quanto ao outro público, no qual me incluo, temos filmes saudosistas ou filmes de "arte" sem arte nenhuma. Arte sem novidade, sem ousadia formal ou relevânca histórica. Veja a encruzilhada: como surgir uma nova geração original, se o público nada quer saber de história, de arte ou daquilo a que não está acostumado?
   Teremos cada vez mais puns e Anittas. O sensacionalismo de corpos dilacerados, frases sobre o vazio e cenas cheias de "dor e sofrimento". TV e Cinema que nos educam, nos educam para a vida como ela é: cruel e chata. ( Ela não é cruel e chata, mas fizeram dela essa chatice sangrenta ).
   Estou sendo amargo? Não, pois ainda me divirto, e muito, com um monte desse lixo. A sanidade está em não se deixar enganar. Distanciamento irônico. Adoro O Rei dos Patos, Downtown Abbey, Ronnie Von ou Kitchens Nightmare. Mas sei o que são: passatempos irrelevantes. O perigo está em formadores de opinião encantados com o lixo e o chamando de "arte". Pura babaquice.
   A democracia tem um preço. É bom ver toda a população com seus programas. Mas é esquisito pacas ver gente sem referência de comparação chamando Friends de clássico da nossa cultura ou Dr, House de obra-prima. São ok. Às vezes adoráveis. Mas devemos sempre ter em mente, são pobres e ralos.
   Resistir até onde der. Manter a cabeça fora da bosta. Ironizar. Não aceitar os puns, as cabeças decepadas e as neuroses esfregadas em sua cara. Manter o pudor.
    É isso.

VIOLÊNCIA

   A vida é violenta. Toda vida. Violência que tem sentido, a sobrevivência. O mundo do homem sempre foi violento, mas essa violência, pública ou privada, sempre foi sinal de um sentido. Voce pode discordar da feiticeira queimada em praça pública, pode abominar os cristãos comidos por leões em arenas romanas, mas toda essa dor, todo esse sangue tinha um sentido. Preservar um status quo. Violência que tinha seu ritual, suas regras. Isso se traduzia na guerra. Existia uma coisa chamada Campo de Guerra. Quando Hunos ou Godos ignoravam essas regras de guerra eram imediatamente considerados bárbaros. A guerra tinha um limite, como a violência tinha seu lugar.
   Quando o exército alemão aniquilou a cavalaria polonesa uma regra de ouro foi quebrada. Foram tanques e metralhadoras esmagando cavalos e sabres, uniformes de gala e estandartes. A violência deixa de ter ritual, ética e limite. Não se deseja mais a captura da posição inimiga. Não se deseja mais a captura do inimigo. Deseja-se a aniquilação absoluta.
   Hoje fomos completamente educados para a violência. Ela não nos deixa mais chocados. E pior, ela existe como um fim em si-mesma. Não a utilizamos a contragosto, ela faz parte da coisa. Observe este exemplo...Em filmes antigos a cena violenta só aparece em extrema necessidade. O sangue não precisa ser mostrado, o tiro é quase escondido. A violência está lá, mas nunca é o centro do evento. Hoje o centro é o sangue, a tripa que salta, a dor.
   Tudo então se torna violencia pura. O video-game não pede estratégia, ele apenas quer tiros e reflexo, adrenalina. As ruas têm cenas de violência que já nada produzem de indignação.
   Mudo o texto.
   Na sala ao lado acabo de ouvir que uma certa cantora novata fazia com que seus músicos na van escutassem seus puns. Isso é dito num programa em rede nacional. Isso é a tal violência não percebida. Não o ato da cantora, mas o fato de termos de ouvir tal história. Dessensibilização.
   Volto.
   É isso.

Day After Day (Original Video clip)



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