QUANDO UM TEXTO MUDOU UM SÉCULO....A VONTADE DE SENTIR, POR SCHILLER

    Vick-Vaporub, começo este texto com esse nome. Logo direi porque. Digo agora então que o texto de Friedrich Schiller, aula de estética, é um dos melhores e mais comoventes testemunhos que li em minha vida. Durante as 3 horas da aula eu fiquei profundamente comovido. Alguém em 1795 havia falado TUDO AQUILO QUE EU SINTO, BUSCO, SOFRO, DESEJO. 
   A professora deixa claro, o texto do alemão genial, melhor amigo de Goethe, contemporâneo de Schelling, Kant, Beethoven, Schubert e Holderlin, mudou o século. Poucas páginas que modificaram todo o mundo ocidental. Lembremos, a época de Schiller é o tempo em que o livro é rei único. Nunca antes ou depois se levou um escritor e sua obra tão a sério. Era um mundo da palavra, do discurso, da pena. Mas é hora de resumir. Do que trata a tão capital obra? 
   Falemos então do sublime...e não pense que esse assunto se restringe a poetas e músicos. Ele é o maior desejo de todos.  Já mostro como e porque.
   No mundo grego o sublime era valor cotidiano. O sentimento sublime era vivenciado na cidade em jogos, na arte e nas festas. Para eles, a função da arte era dar ao homem essa experiência. Por toda a história européia esse desejo permaneceu, às vezes em maior evidência ( idade média e renascimento ), às vezes quase extinto ( era iluminista e século XX ). Schiller ao escrever seu texto rompe com essa tradição iluminista anti-sublime. Demonstra o mecanismo do sublime, sua diferença do belo e prova que onde ele mais se encontra não é na arte mas sim na natureza.  O universo está impregnado do sublime, nossa razão é que o evita. Porque? 
   Primeiro porque ele é súbito e não programado. Segundo porque ele quase aniquila a razão ( mas nunca o eu ). 
  Nosso eu tem como maior desejo seu crescimento. Queremos ser maiores, mais inteiros, livres. Ser livre é ser maior, crescer sem amarras, sem tempo e sem espaço. O belo nos contenta, faz com que nos sintamos em paz com nosso eu, satisfeitos e em equilíbrio. O belo faz com que nos sintamos nobres. O sublime vai além disso. O sublime nos dá medo. O sublime nos desafia a enfrentar a vida. Diante do sublime nos encolhemos, nos apequenamos. Sentimos nosso eu em grave perigo. Vemos o que preferíamos não ver. Nos desequilibramos. Fosse só isso não haveria motivo algum para irmos atrás do sublime. Mas após o horror vem o prazer. Por vencermos o medo, sentimos nosso eu crescer, se fortalecer, prevalecer. No sublime o terrível se torna belo, a vida vence a morte, o medo é destruído pela vitória. O sublime nos move pois aumenta nossa percepção da vida. 
   Aqui faço uma pausa: Liotard e toda a intelectualidade de Paris postula o sublime como única saída possível para a arte em crise de nosso tempo. Para eles, só a volta do sublime poderá fazer a arte voltar a ser relevante e viva.
   A tese de Schiller tem uma história. Antes dele Joseph Addison já dizia que a "imaginação ama ser preenchida por algo que a força a ir além de seus limites".  Nossa mente ama a contemplação do mar, das montanhas, do céu, de tudo que signifique espaço aberto, força, poder, liberdade enfim. Sentimos atração pelo que é maior que nós e nos força a ir mais longe.
  Schiller pega essa tese e a reforça. Amamos o mar. A montanha e o céu. Mas, mais que o mar, amamos o mar tempestuoso, terrível, em vagalhões. Mais que a montanha amamos a avalanche, o vulcão, a tempestade de neve, e mais que o céu, amamos o raio, a chuva, as estrelas que caem. É o sublime, o perigo que ameaça e ao qual vencemos. 
  Edmund Burke antes de Schiller falará em beleza positiva e negativa. Positiva sendo pequena, doce, delicada. Negativa sendo grande, escuro e ácido. 
  Entra na história Immanuel Kant...."O modo como nos relacionamos com o mundo é ditado por nossas faculdades."  Ou seja, o sublime mora na natureza e como somos parte da natureza, mora em nós. Para Kant, o que importa não é o sublime fora de nós, mas sim "o modo como olhamos o sublime, o processo entre o olhar e o sentir."
  Porque certas pessoas, pobres desafortunadas, passam pela vida sem um só momento sublime? A resposta se encontra no tempo. É preciso tempo para se olhar, é necessária uma vida contemplativa, é primordial a experiência cotidiana do belo, é fundamental a educação dos sentidos e dos apetites. Saber ver, saber ouvir e saber ser livre. Mais Kant:
  "Veja: A obra de arte ( verdadeira ) é sem conceito, livre, jogo puramente estético. Imaginação em harmonia com a razão. A imaginação criando e a razão construindo. Nada aqui é conceitual ou lógico. O que se joga é o prazer. A arte é sempre um prazer."  
  Kant ainda afirma que a arte é universal, pois é como se qualquer um pudesse ser atingido pelo jogo. "Como se" é diferente de "é". Necessário um conhecimento para se fazer parte do jogo, o conhecimento do belo e a vivência da liberdade.  O belo nos coloca em harmonia conosco-mesmo, estimula nossa vida, vivifica nosso desejo de estar vivo.
  Voltando a Schiller:
  Se o belo nos harmoniza, o sublime nos coloca em conflito. No sublime a razão entra em guerra com a imaginação. O que é criado não se completa na razão, antes a desafia. A dor da desarmonia é o primeiro sentimento do sublime. 
  Nascem então dois tipos de sublime:
  O matemático e o dinâmico.
  O matemático tem a ver com tamanho e proporção. Diante do muito grande a imaginação sente sua impotência. Não consegue o apreender. A razão força a imaginação a se superar. Podemos então superar nossa própria imaginação. Surgem as ideias supra-sensíveis: Liberdade, Deus, Infinito.
  Só na arte o ser humano pode ser livre. Pois é na arte que todas as categorias lógicas são plenamente usadas, ou seja, o ser transcendental e o ser do conhecimento. Na arte vamos além do mundo sensível, além do conhecido e além do animal. Chegamos a plena liberdade.
  O sublime dinâmico lida com o movimento interno que nasce no sublime. Diante da força vital sentimos medo. Medo diante do que é forte demais, vivo demais. Dinâmico demais. Nossa vitória começa ao reconhecermos nossa ínfima pequenez diante dessa força. Ao mesmo tempo resistimos e aí começa nosso prazer. Nesse sublime sabemos todo o tempo sermos fracos e pequenos, mas resistimos e assim vencemos.  Vencemos porque possuímos nossa razão-moral. Razão-moral que é a liberdade. Liberdade por estarmos além do plano animal, por podermos resistir moralmente a nossos instintos, a nosso medos. O prazer vem do distanciamento diante da ameaça.

  Para Schiller, o desenvolvimento estético possibilita a liberdade. Dá a possibilidade da escolha moral. Aprendemos a usar nossas faculdades além do mundo da experiência. Nos tornamos mais do que aquilo que somos.

  Esse texto caiu como uma bomba. Por pouco mais de cem anos a busca pelo sublime ditou o comportamento de todo jovem. Viagens de aventura, experiências com sexo e com drogas, arte pela arte, andarilhos, voluntários em revoluções....A busca pelo sublime não tinha fim e se morria sublimemente. Acima de tudo o amor. A dor que causa prazer= sublime= amor.

  Vick-Vaporub. Em ano de absoluta solidão, sofrendo de asma e cheio de Vick no peito, eu lia, com insônia, ouvindo o vento do inverno de 1977 bater na janela. Ainda quase criança, descobria o desespero de Kafka e de Dostoievskie e amava a Jeanne, menina triste que se foi logo. Cercado pelo cheiro de Vick, nas sombras de meu quarto gelado, eu lia e sofria....e tinha um estranho prazer. Uma sensação de proibido, de perigo, de doença misturada com sensualismo, de vida real tingida por além da vida. Eu crescia, me expandia, ia além, e sofria. Sublime. Não foi belo, foi sublime.
  Como sublime foram meus amores exagerados, como sublime é toda vez que olho para a Serra do Mar: me sinto pequeno e então me sinto grande...pequeno e grande, pequeno e grande, medo e prazer, encolhimento e liberdade.

  Nosso mundo sem tempo e sem o culto do belo desprepara todos nós para a possibilidade do sublime. Pior ainda, quando ele se aproxima paramos assustados no medo e NÃO OUSAMOS IR ALÉM DELE. Ah.....Mas amamos o sublime mesmo sem o saber! O procuramos ao saltar de para-quedas, ao cheirar coca, ao chorar num show de Neil Young ao amar a menina "errada". Lemos poesia, mergulhamos no Caribe, bebemos até cair, tudo em busca desse momento de sublime, dessa queda para cima, dessa morte que dá vida. 

  Crescendo cercado de patos e coelhos, com ruas de barro e lagos limpos, cercado de primas e de pratarias e porcelanas, meu senso de belo foi despertado, meu desejo pelo sublime conhecido e reconhecido. 
  Não tenho feito outra coisa além de procurar esse momento. 
  Que às vezes vem num pote de Vick-Vaporub. Ou no mar ao amanhecer em dia gelado. Numa melodia do Roxy Music ( For Your Pleasure é o sublime no rock ), numa calçada diante da janela da menina amada.
  Na minha única fé verdadeira: A vida vale a pena por ser sublime. E é só isso que me move.

OS 100 MELHORES DISCOS DE ESTRÉIA PELA REVISTA ROLLING STONE ( JAMAIS EU ).

   Eu até posso compreender que o primeiro disco dos Beastie Boys seja o mais importante disco de estréia da história. Afinal ele trouxe o rap para os brancos e o rap é a última coisa inovadora criada no rock. Lembro em 1985 como a gente achava esquisito aquele sampler de John Bonham, roubarem os riffs de Eddie Van Halen e Jimi Page, os vocais que não cantavam. Era coisa nova, realmente nova. Mas...não era simples cópia de Public Enemy e de Run DMC? ...
   O segundo melhor disco de estréia é o Ramones. Ok, o modo de tocar a guitarra deles mudou o rock, mas em 1977 eles não causaram a menor comoção. A gente se ligava muito mais nos Pistols e no Clash. Segundo melhor? Acho que o critério de influência, de novidade começa a fazer água quando a gente vê que o disco de estréia de Elvis Presley está em 79...79!!! Se for por influência nenhum é mais importante e se for por qualidade...então Ramones não pode ser o segundo melhor.
   Jimi Hendrix, Are You Experienced?, é o terceiro. Aí sim, o disco une qualidade com influência. Hendrix fez com que todo guitarrista de repente ficasse velho e o disco é uma obra-prima em criação. Mas Guns and Roses em quarto lugar só pode ser piada. Ou pior, provocação boba. 
   O disco de estréia mais importante da história, o disco que criou de Radiohead a Rem, de Stooges a Bowie está em quinto lugar: Velvet Underground e o disco da banana. Esse seria o justo número um, pelo simples fato de que ele criou sózinho todo um modo de fazer e de ouvir rock. Da capa do disco às roupas dos caras, tudo no disco é influente. E atemporal. Axl estar à sua frente é uma piada.
   Depois temos NWA em sexto e na sequencia Sex Pistols ( pra mim é o segundo disco mais importante ), Strokes ( what? ), e que bela surpresa: o disco da estréia de The Band em nono lugar. Se o Velvet criou o rock artístico, o rock anti-pop e anti-social, The Band inventa em 1968 o rock suave da recuperação da sanidade. Fazem a ponte do folk com o pop, da música de bom gosto com a sinceridade da solidão. 
   O resto da lista? Em ordem: Patti Smith, Nas, Clash, Pretenders ( que beleza! O disco Pretenders I é uma bomba de criação e de raiva ), Jay Z, Arcade Fire, The Cars, Beatles, REM, Kanye West, Joy Division, Elvis Costello.... Lembraram do ótimo disco do B'52's e o colocaram em 28. The Doors, que seria o melhor pra muita gente, ficou em 34, The Police em 41 e Television em 40. 
   Se está a se pensar em influência o primeiro disco do Black Sabbath não mereceria melhor posição que a 44? Os Smiths surgem em 51 e o maravilhoso, arrojado, soberbo, enigmático e lindo Roxy Music I fica num 62. Vixe!!!! O Roxy é hors concours....
   Temos ainda Pink Floyd em 47, The Beat em 64, Stooges em 66 e o primeiro dos Talking Heads em 68.  Byrds em 80 e lembraram dos Flying Burrito Brothers, em 99. 
   Acima eu falei que o Velvet seria o melhor disco de estréia da história por ser o mais influente. Esquece! Led Zeppelin I é o mais influente disco de estréia da história. Um disco que mudou o modo como um guitarrista deveria solar e um baterista deveria tocar. Na lista da Rolling Stone ele é o 72. Quem assistiu o filme Quase Famosos sabe que por toda a década de 70 a revista RS ignorou o Led. Toda crítica de novo disco era negativa e as excursões eram cobertas por jornalistas novatos com pouco espaço nas páginas de uma revista que preferia apostar em Boston, Steely Dan ou Dr. Hook. 
   Certas coisas nunca mudam....

O PÁSSARO RARO- JOSTEIN GAARDER

   Caiu nas minhas mãos, uma amiga pediu pra eu ler. Li. O Mundo de Sofia é bom. Uma bela maneira de se entrar no mundo da filosofia. Ainda lembro da impressão que me causou o capítulo sobre Berkeley. Mas este livro, que é o primeiro de Gaarder, lançado em 1986, é beeem pior. Sorry.
   São contos filosóficos. Num deles uma mulher com câncer descobre o budismo. Em outro um homem com câncer quebra loja de porcelanas. Há um conto futurista sobre mundo interligado. E por aí vai. Todos falam sobre gente no limite, momento em que o interesse pela filosofia nasce. Claro, são todos filosóficos. Ok, mas Italo Calvino e Borges fazem esse tipo de conto de modo muito melhor, muito mais filosófico e com uma originalidade que Gaarder não chega nem a sonhar. Ele escreve mal. Muito mal. Belas intenções, pensamentos válidos, falta talento. 
   Num dos contos, Nietzsche comparece. É demonstrado um fato: Apolo venceu Dionisos e no mundo de hoje somos fracos e assistimos passivos a vida rolar. No século XIX ainda se faziam coisas, mas agora apenas as olhamos. Ok, tá certo, mas e daí Jostein? Falar isso não é fazer um conto. Onde sua criação? 
   Em outro conto o personagem descobre que o mundo é impossível. É impossível estarmos de pé num planeta que é uma bola, é impossível que o ar vire energia e queime dentro da gente, é impossível que uma explosão tenha do nada criado o tudo, é impossível que Deus exista e é impossível que a mente de carne e sangue produza pensamentos abstratos, a vida é impossível. Mas tudo isso é real. Nasce desse aturdimento, sentimento que só os acordados têm, a filosofia. Belo tema para um conto né? Necas! Gaarder escreve um conto moroso e xoxo. 
   Livros como filmes às vezes são profundos e geniais ao falar de férias na praia ou de um homem e seu cavalo. E às vezes são incrivelmente rasteiros ao falar de Nietzsche, Deus e Platão. Um artista verdadeiro transforma uma conversa em mesa de poker em arte, um fariseu consegue fazer do ouro, pedra. 
   O Pássaro Raro é um pedregulho.

ROGER EBERT

   Li alguns livros de Roger durante esta década. Ao contrário do que dizem os jornais, ele não foi o melhor crítico de cinema do mundo. Pauline Kael escrevia melhor que ele. Ebert foi o único a ganhar o Pulitzer. De qualquer modo, eu adorava ler suas opiniões. Em 90% dos casos elas batiam com as minhas. 
   Uma das melhores coisas que um critico pode ter é o dom de despertar no leitor a vontade de ver o filme. Ou fazer com que um filme já visto pareça ainda mais interessante. Roger fazia isso. Sua crítica de 2001 é uma obra-prima. O melhor em Roger Ebert era sua falta de preconceito. Ele amava Bergman e Peckimpah, achava Steve Martin tão bom ator quanto Sean Penn. Para ele o Coelho Pernalonga não era menos nobre que Kurosawa ou Bunuel ( não é mesmo! ). Não porque ele fosse um mero criador de caso. Não porque ele fosse um cara anti-intelectual. Afinal, ele adorava Dreyer e Godard. Roger era simplesmente um amante de cinema. E via a arte em Duro de Matar assim como em ET e Asas do Desejo. Ele não elogiava uma comédia de Mel Brooks com menos rigor que Fanny e Alexander. Ele a assistia com encanto, o encanto do amor. Para ele o cinema era dividido em filmes bons e ruins, mal feitos e bem feitos, sinceros e mentirosos. Simples assim.
   Quando ele achava um filme ruim esse filme era chamado de lixo, porcaria ou vergonha. Ebert não temia ser direto. E tudo isso seria mero palpite se ele não nos convencesse. Se um filme era ruim, ele nos explicava o porque de sua ruindade. E se era bom, normalmente ele nos fazia entender sua grandeza. 
    O que o guiava era o prazer de ver e de ouvir. Um filme deveria ser instigante. Despertar alegria ou saudade, questionar ou incomodar, mas jamais fazer o tempo se arrastar ou a bunda doer. Cinema é amor ao ato de se filmar. Cinema é dar ao público uma emoção que pareça nova, fresca, renovada. Grandes filmes sempre parecem novos. Filmes ruins já nascem velhos.
    Roger Ebert morreu ontem após uma longa luta com o câncer. E viu Hitchcock, Wilder e Kubrick até o fim. Disse que teve uma vida sem tédio. 
    The End.

CAMBRIDGE E OS SEM RÓTULO

   Tenho um professor que estudou em Cambridge. E em meio a aula ele fala da imensa variedade de tipos excêntricos que continuam a aflorar na universidade. Ao contrário de Oxford, muito mais "comum", Cambridge sempre foi famosa por atrair os tipos mais desajustados. Estranho o efeito que essa aula causou em mim. Um alivio súbito, um desafogo.
   Há uma tendência em mim, imposta pelo meio, óbvio, em me fazer invisível. Adotar um molde e passar então a crer na verdade desse molde. Desse modo, erro sempre ao tentar ser integralmente aquilo que me é sutilmente imposto. Lembro que meu terapeuta ( sim, já tive um terapeuta assim como um pai de santo ), dizia que o que nos outros normalmente se passa inconscientemente, em mim era sempre analisado. Meu vicio era o de analisar demais. Quando voce penetra nesse campo ( alô freudianos: penetra! ), a razão, essa ferramenta que teme tudo o que é vago e se ressente do que lhe escapa, passa a nomear aquilo que voce é. Assim passo a ser um rótulo, seja um dandy, um romantico, um moderno ou até mesmo um irracional. O rótulo se faz um alivio: "Óh! Eis o que sou!"  Triste armadilha, sempre que me vejo rotulado entro numa zona cinzenta onde nada acontece e os dias parecem ser todos iguais. Um tipo de depressão das possibilidades, a morte da minha "esquisitice". 
   Mas quando o professor fala dos cambridgeanos, e é claro que não estou me tornando um deles, não peguei emprestado mais esse rótulo, vejo diante de mim as imensas possibilidades de comportamento e de pensamento que existem na fauna humana. Porque seguir uma coerência e para que imaginar um perfil comportamental? A vida segue irrefletida e há uma multidão de seres sem rótulo que tentam e às vezes conseguem viver. Pessoas ilógicas, incongruentes, contraditórias, impulsivas e criativas. Pessoas que na verdade têm como único compromisso o erro, natureza e fim da vida. Errar em sua acepção original, que seja, tentar e nunca chegar a conclusão. Errar é viver, pois o acerto final, a conclusão é a morte, seja ela um fim-zero de tudo, ou um portal, conclusão e recomeço. Na vida que é sempre um erro e jamais uma certeza, tudo é tentado, tudo é modificado e reside nessa confusão de tolices e de quimeras a graça e a doçura de se estar aqui. A vida se escreve sem revisão, sem plano, sem autor. Erros sobre erros, acertos que nunca são conclusões e sim entradas para novas tentativas. 
   Ando pelas ruas, flanando, e observo os cinco ou seis tipos de gente que há ( aparentemente ): o moço de camisa xadrez e barba, o perfumadinho de polo, o careca de óculos e cafés, o funkeiro de calça skinny, o bonitão- bermudão e chinelo e o bombado de camiseta justa com frase gracinha. Muuuuita gente segue um desses perfis e uma das coisas mais chatas deste mundo que parece tudo permitir é a de que num show de rock ou no cinema, nunca tantos foram tão iguais. O moço do xadrez gosta da esquerda e da Vila, tenta ser bem brasileiro; o do polo ama New York e adora carros; o careca tenta ser liberal e vê todos os filmes "sérios" da Escandinávia; o funkeiro ri e só pensa em zuar; o do bermudão está sempre nas baladas e tem várias mulheres e o bombado faz pose e tem sempre uma turma. É só isso? Pior que muuuuuitas vezes é. Passivamente, sem perceber, pois todos se acham únicos, o molde se ajusta e o cara começa a falar e a pensar como aquele modelo de "homem". O tipo físico fazendo-ditando o espirito. Veja: Quantos gordos engraçados voce conhece? Quantos Johnny Depp ?
   O que essa aula Cambridge me deu é a certeza de que mesmo o careca de óculos que só fala em Hannah Arendt ou o barbudinho que só fala em cerveja, têm dentro de si uma vontade imensa de jogar essa bosta toda no lixo e se deixar errar. Rir de Hannah e deixar a cerveja ficar aguada. Duvidar de sua turma, ser incongruente, aloprar. Afinal, este professor é um surfista que dá aulas de ética e fala sânscrito. Irrotulável. 
   

MAIGRET EM NOVA IORQUE- GEORGES SIMENON

   É meu quarto livro sobre o inspetor Maigret. Simenon, autor popular que foi resgatado por autores ditos sérios, escrevia muito. Era capaz de fazer um livro em quinze dias. Alguns mais ambiciosos, outros não. Irônicamente os livros mais leves são aqueles que sobreviveram. 
   Livros policiais são maravilhosos. E muito dificeis de se escrever. Chandler, Thompson, Hammett, Cain, e os europeus Leblanc, Christie...dá até pra botar Poe e Chesterton no bolo. E nos anos 40/50, Simenon. O que nos seduz em seus livros é a mesma coisa que nos de Conan Doyle, a habilidade em criar ambiente. Lemos e vemos, sentimos aquilo que Maigret vê. O autor nos pega e nos leva a bares, ruas e hotéis, ao porto de New York, aos escritórios suspeitos. A trama, o mistério são secundários. Aqui, como em todo livro policial, o que ressalta é o clima. Por isso o cinema ama tanto esse tipo de literatura. Questão de décor, de movimento, de luz e de sombra.
   O caso, como em todo livro de Maigret, é intrincado e ao mesmo tempo simples. Ele parece complicado, é óbvio. E o óbvio sempre é o mais dificil de se perceber. Sim, muitos já disseram que Simenon foi um autor existencialista. Ora, os existencialistas foram hiper afetados pelos livros policiais! O herói vagando sem familia e sem lar, sem raiz e sem futuro pelas ruas escuras da cidade grande É Sempre um existencialista. Tão existencialista que ele faz, nunca escreve. Ele existe. Até hoje.
   Delicia!

LOLLAPALOOZA 2013- BUNDINHAS COM TALQUINHO

   Hot Chip. O que é isso? Um bando de fofuras de bundinhas talquinho espalhando piruetas de baby Johnson pelo palco....É pra rir? Antes que me chamem de homofóbico: AMO Bichas loucas como Bowie foi, Eno, Lou, Marc Almond , Mercury e um imenso etc. Adoro dandys dúbios como Marc Bolan ou Ferry. Mas esses meninos bonzinhos...vá dormir!
   Em meio a um imenso mar de covers de rock anos 80 ( nada de novo no ar, absolutamente nem uma nota original ), salvou-se a tentativa soul dos Alabama Shakes, banda que se ressente de não ter um baterista melhor; e um ar meio festivo dos Black Keys, esses errando por não ter mais groooove. O Queens é bom, mas toca em palcos errados. A platéia de mocinhos fofos e meninas gracinhas NADA têm a ver com os músculos de seu som.
   O Brasil matou a pau. Criolo teve todo o roll que 90% da gringolandia esqueceu. Foi sujo, suado, errado, barulhento e anárquico. E o Hemp instaurou  a alegria do mal comportamento. Sabe como é, gente do fundão e não os fofuretes da primeira fila. 
   Sacou?

POLIEDRO- MURILO MENDES

   Murilo Mendes é meu poeta brasileiro. Estou lendo sua obra em prosa. Mas a questão é: ele escreve prosa? Poliedro é verso? No livro ele descreve seres e coisas. Laranja, Bicho Preguiça. Uma Girafa. Tomate. E vai por aí.... Lembro criança. Sim, criança. Criança vê naturalmente e sem esforço o que o poeta vê aqui, em Poliedro. Eu fui criança bem criança e sei que é assim. O Limão é O Limão, único entre limões. E a gente o vê como aquilo que ele é: Coisa única e particular entre coisas que são todas únicas. A gente só coloca Tudo num lugar comum quando se cansa de ver e começa a ficar Velho. Enquanto o Olho é novo tudo é novo.
   Poliedro então voce lê vendo. Porque lendo voce olha as letras e vê nas palavras aquilo que está sendo visto por aquele que escreve. E fala. É prosa? Como pode ser prosa se a gente sente o cheiro das coisas e se cada palavra é investida de Vida? 
   Tem outros livros de Murilo aqui. Um é sobre lugares da Europa. Outro só para a Espanha. E um outro para a Itália. Ele viveu lá. E conheceu De Chirico, Arp, Moravia, Cocteau, Miró. 
   Murilo Mendes me pega porque ler Murilo é comer palavras. Elas surgem redondas e deslizam goela adentro. São ácidas, são doces, gordurosas ou refrescantes. Sempre frutas. Às vezes peixe. Nunca flores. Cozinheiro ele as prepara em caldeirão. Borbulham ao fogo da mente mineira. O aroma se espalha por montanhas e se deixa levar pelo vento. 
   Aqui no Caxingui eu as recolho. E engulo. E essas palavras-condimentos, que em outras cozinhas eram comida fria e esquecida, aqui nos Poliedros são novidades frescas das hortas e fazendas de Murilo Mendes. 
   Dizem os sábios que um dia, quando o homem era jovem ( agora somos velhos ), as palavras tinham essa força. Pouco usadas, ainda cantadas, elas eram veneradas por seu poder de trazer à mente-vida as coisas ausentes. Jogo de memória, feitiço, a palavra pedra fazia com que a pedra voltasse a sua presença anterior. Mas então a palavra desgastou-se e a pedra falada se fez apenas um som indistinto, pálida lembrança da lembrança de uma tradução do que fora um dia A Pedra. Pois Murilo faz da pedra vulgar de cada dia a Pedra original e jovem de tempos nunca perdidos. Com a voz e com a escrita ele dá vida.
   Poliedro é maternidade de sentidos.

SEXTA DA PAIXÃO, VAMOS AO SHOPPING COMPRAR UM CELULAR NOVO?

   Na TV Fátima Bernardes balança as cadeiras ao som do pagode. O mundo não pode parar, afinal, servos que somos do trabalho e do consumo, obedecemos às ordens do relógio e do calendário: Tempo de trabalhar, Tempo de Gastar. E isso é tudo. A vida resumida a dois atos que se complementam, o resto pode ser chamado de "sonho", "irrazão" ou "saudosismo".
   Antes desse tempo havia o calendário da religião. Éramos então servos da igreja e nosso tempo era por ela ditado. Hoje seria o dia do arrependimento, da dor, do silêncio. Pouco me importa se esse calendário era melhor ou pior, o fato é que não podemos mais ter um dia de recolhimento e de silêncio. É proibido. Penso outras coisas...
   Jovens "rebeldes" hoje irão gastar seu dinheiro em cerveja e no Lolla. Rebeldia né? Gastar mil reais, consumir bandas pop e posar de anti-capitalista. No dia em que era antes proibido ouvir música. Mais que "triste", o antigo mundo cristão condenava o consumo. O movimento ateu está intimamente ligado a "felicidade" de gastar. Situação insustentável de Roma: protestantes jamais tiveram problemas com o capital, católicos lidam com esse problema: como cultuar um Deus pobre e despojado e acumular bens ao mesmo tempo? 
   Houve o momento em que o centro de uma cidade era a catedral. Depois passou a ser o palácio do rei. No século XIX passa a ser o banco e a bolsa de valores. Hoje é o shopping center. Da catedral ao shopping center se fez um trajeto puramente racional. O trabalho e o consumo são os prazeres possíveis da razão. Sexta-Feira Santa não pode ser recolhimento. Tem de se gastar.
   Não creio, como Unamuno, em fé sem dúvida. Um ateu que não vacila ou um religioso que não faz exames de consciência nada valem. Estão mortos. ( E lembro da frase dita por Bob Dylan em 1965: Voces estão ocupados em morrer, eu me ocupo em nascer! ), bem, já fui um ateu radical, hoje sou um homem ocupado em tentar nascer. Não consigo crer. Não consigo descrer. É uma posição terrível. Conheço os dois mundos: O Ressentimento perante o crente, a raiva inconfessável que o ateu sente perante a certeza contente do crente, e o não querer discutir nada, o autoritarismo do carola. Me ocupo em nascer: Não me preocupo em conhecer Deus ou em saber sua não-existência. Procuro conhecer as coisas que são o que são. Tento não me fechar ao novo. E esse novo pode vir de 500 a/c ou de Toledo em 1600.  Questiono. E desprezo todo homem de certezas e de verdades.
   Um oriental não compreende como é possível um deus vir à Terra para se deixar matar. Porque ele não saiu da cruz e matou seus rivais? Eu também não sei. E pouco me importo em saber. O que me interessa é o fato de SER. Foi assim. Tendo Cristo existido ou não, foi assim. E é esse auto-sacrificio que chamamos de AMOR.  Jesus na cruz nega seu ego, sua máscara, e se dá em negação de si. Esse é um conceito oriental. Jesus nega a ilusão de seu Eu e se funde à vida morrendo. Surge na Páscoa revivido, livre de ilusão, unido ao Todo.  Até aí eu posso entender com minha razão. Daí para a frente preciso ter a humildade de confessar: Não sei, frase tão dificil de ser dita por um inteligentinho, Não sei. A razão entende o que é da razão. E o que não é de sua alçada que tenha a humildade de dizer sua incompetência.
   É Sexta-Feira Santa. Eu vou ouvir música, vou rir, vou gastar dinheiro. Mas pensem no que este dia já foi, no que poderia ser e naquilo que nos foi ROUBADO.  O recolhimento, a confissão, a negação, a fé.

ESPELHO DO MAR- JOSEPH CONRAD

   Conrad é sempre vasto. O texto é caudaloso, tempestuoso e filosófico. Ele navega entre vagalhões, desce, afunda, sobe, flui e se joga. Como pode um polonês ter tal dominio sobre o inglês? 
   Conrad foi marinheiro. Começa a escrever só aos 36 anos. Por vinte anos foi homem do mar. Saído da terra natal, fez-se súdito da marinha mercante inglesa. Conheceu o mundo: Àfrica, India, Taiti, Hawaii, EUA, Chile, Austrália. Mais que tudo, viu o mar.
   Ao fim da vida ele escreve este livro. Autobiografia que se recusa a falar de si-mesmo. Aqui ele conta o mar. Cada parte é um aspecto da vida marinheira: portos, estaleiros, velas, barcos novos, tempestades, âncoras, cordas, correntes, neblina, carga. Descreve. O livro é quase uma enciclopédia da vida ao mar. Termos técnicos, ele ensina. E pouco diz de si. 
   Na introdução ele conta: O livro é uma homenagem aos homens e aos barcos que ele conheceu no mar. Barcos a vela, nervosos, barcos que seguem o vento.
   Joseph Conrad define o que é arte: "Atividade em que não sabemos para onde vamos e se lá iremos chegar." Portanto, navegar a vela é arte, o navio a vapor não. O vapor segue horário, rota, rotina, ele é indústria e ciência exata. A vela é arte: improvisa, se arrisca, nunca sabe o que vai dar.
   Enigma Conrad. Um autor de livros de aventura que são tão complexos quanto Henry James e tão filosóficos quanto Thomas Mann. Para muitos é o maior escritor que a Inglaterra já teve. Polonês. Eslavo.
   Para quem ama o mar eis um livro obrigatório.

HOMENAGEM À ITÁLIA- PARTE DOIS

   Ingleses são comerciantes. Seu modo correto, sua voz parcimoniosa é aquela do vendedor de tecidos. Nunca pense que aquele modo reservado é timidez ou fineza. Eles são empregados de armarinhos: marinheiros mercantes, publicitários, astros pop: comerciantes. Já os franceses medem tudo. Esquadrinham o pensamento, dividem as ações. esperam colher novidades em data certa. São agricultores. A alma da França está sempre pensando nos melões, nos cogumelos e nas vagens. Alemães caçam. Farejam e armam o laço. Miram e atiram. Ficam quietos, aguardam. Pegam o javali e o transformam em linguiças. Portugueses são marinheiros-pescadores. Partem ao mar e desejam não ter ido. Sentem saudades. E nós, brasileiros, somos bandeirantes. Nosso sonho é topar com a mina de prata, nossa fortuna será a da sorte e não a do engenho. Exploramos. 
   E a Itália? 
   A Itália não é. Ela se afirma pela negação. E nesse "não sou e não quero" ela está sempre certa. Deixem a Itália ser a Itália! Ela não vende tecidos, os veste. Não planta, come. Jamais caça, pinta o bosque em telas coloridas. Não navega, canta ao mar. Não descobre minas, as inventa. Italianos....
   Doce Vida de Fellini.... cafés nas calçadas e máquinas estacionadas. Gente que flana, gente que vê. A fantasia como a maior e melhor das realidades. Vale a pena viver sem ser felliniano? Claro que não! A procura do amor e tudo terminando em ópera. 
   Não façam de Roma uma Berlin ! 
   Italianos pensam com a barriga: estômago, fígado e rins. Quem pode dizer que a vesícula é menos que a cabeça? Italianos são sempre grandes e trazem o rei na barriga.
   Uma questão: Existe a palavra simpatia na Inglaterra? Existe um alemão simpático? Para entender a Itália ou a latinidade é preciso saber o que seja "simpatia". Isso explica tudo, de Sophia Loren a Da Vinci, de Berlusconi a Monicelli e Totó. 
   Se o mundo fosse italiano e não americano teríamos a simpatia como conceito central e não a eficiência. Iríamos valorizar o prazer e não a vitória. Dolce far niente e jamais time is money.
   Há algo mais italiano que Mastroianni em Divórcio a Italiana? O homem latino apaixonado pela prima e tramando a morte da esposa. A vaidade do galo, sua comicidade hedonista. E o que falar de Gassman em Brancaleone? Os discursos pomposos que nada significam, a poesia de se crer em algo que se faz verdade. Os amigos de Eternos Desconhecidos, homens que perdem tudo por um prato de spaguetti.  ( Uma certeza: quem não ama o cinema italiano nada sabe de cinema. Pior, está morto para a vida: A Doce Vida ).
   Uvas na feira. E o pão estalando. O bambolear da morena farta que anda com seu vestido leve. Um elegante ajeita seu bigode. Roupas ao varal. Tomates e cheiro de limão. 
   Dante, Petrarca, Cavalcanti....O amor nasceu na Itália. O amor de Clara e Francisco, de Beatriz e Dante. Não qualquer amor. Não falo do amor grego que é amizade ou do amor celta que é familia. Falo de Amore. Que canta, espera, promete...
   A Itália nunca será Europa. Como a Grécia e a Irlanda, ela é uma ilha. E será sempre Roma: imperial, católica, auto-centrada, hedonista, vaidosa, contraditória, mafiosa. Lá a Mamma nunca ficará só.
   E quem pode dizer que eles não estão certos?
   Se voce sente que esquece o que seja Viver...Viva a Itália!

HANSON/ DIANE LANE/ DICKENS/ BIG WAVES/WESTERNS RUINS/ PARKER

   PARKER de Taylor Hackford com Jason Statham, Jennifer Lopez, Nick Nolte
Hackford é o tipo do profissional pra toda obra. Ele pouco se preocupa em "provar" sua inteligência ou seu talento artistico. Ele filma em função do roteiro, ele conta uma história, narra. Foi assim com Ray, com A Força do Destino ou Advogado do Diabo. Aqui, usando o carismático Statham, o que se narra é uma ótima história de malandragem. Ação, suspense e humor. Que mais voce quer? Eis o cinema ao estilo Curtiz, Hawks e Sturges. Pura eficiência. Vamos deixar de ser idiotas. Cinema também é e sobretudo é, circo. Amar o cinema é amar tudo o que ele tem de mais vital, de mais verdadeiro. A emoção, o objetivo alcançado, a alegria do fazer, a satisfação do público que ainda crê nessa arte tão mal entendida. Há quem procure num filme filosofia. Ora, deixe de ser preguiçoso e vá ler Kant ou Hegel. Há quem procure no cinema Anna Karenina ou Morte em Veneza. Deixe de ser preguiçoso e vá ler os livros de Mann e Tolstoi. Cinema é imagem em movimento, cinema é fantasia, magia que pode ser alegre, triste, perturbadora ou futil, mas que deve ser sempre movimento, cinema. Hawks, Hitchcock e Ford me ensinaram isso. Nota 8.
   O VALE DA VINGANÇA  de Richard Thorpe com Burt Lancaster e Robert Walker
Um faroeste ruim. E assim como acontece com musicais, um faroeste quando é ruim é o pior tipo de filme que há. O que é um faroeste ruim? É um filme sem ação, sem nada de mitológico, arrumadinho, limpo, higiênico. Burt está mal utilizado e o filme é um tédio. Nota 2.
   OBRIGADO A MATAR de Joseph H. Lewis com Randolph Scott
Outro mal faroeste. Nada acontece nesta pseudo-aventura sobre ex-matador agora da paz. Lewis foi um diretor B que os Cahiers adoravam. Ele não é aquilo que os franceses gostariam que fosse. Nota 1.
   HERANÇA SAGRADA de Douglas Sirk com Rock Hudson e Barbara Rush
Ross Hunter produz na Universal este western em que Hudson faz um indio pacifico. Sua luta é contra seus companheiros comanches, ainda em guerra. Sirk dirige e carrega no drama familiar, sua especialidade. A fotografia é belíssima. O filme acaba poe ser comum, indefinido entre ação e drama. Nota 4.
   O AMANTE DA RAINHA
Filme dinamarquês. Indicado ao Oscar 2012. Fala de um rei meio insano e de sua rainha inglesa, do bem. Ela se envolve com um médico moderninho. Hum... e daí? O filme é horrivelmente tolo. Nada consegue mostrar da época observada. O rei é um maluquinho de 2012, assim como a rainha parece saída de algum café de Copenhaguen. Pior é o médico: sociólogo da Vila Madalena, nada nele é de verdade. Iluministas não eram como esse bobinho, reis loucos não eram como esse tontinho e rainhas esclarecidas não se portavam como essa dondoca do Arouche. Queres conhecer de verdade a época retratada? Barry Lyndon de Kubrick ou Ligações Perigosas de Frears é vosso filme. Ah sim! Este filme poderia ser uma deleitosa fantasia como o Anna Karenina de Joe Wright, um show de técnica que nunca tenta ser retrato fiel de 1880. Mas esta tolice nada tem de deleite, muito menos de show. Zero.
   TUDO POR UM SONHO de Curtis Hanson e Michael Apted com Gerard Butler, Abigail Spencer
História real sobre um garoto dos anos 80 que se torna um surfista de big waves ( Maverick ). Na verdade o filme tem o esquema de um western: o veterano amargo que ensina o novato empolgado. Butler está bem como o rei veterano e anti-social das big waves. Ele produziu o filme com Hanson. É um filme modesto, simples e sincero. Nada de especial, mas tem cenas no mar incríveis e sem efeitos digitais. Hanson foi o grande diretor de Garotos Incríveis e de LA Confidential. Apted teve fama nos anos 80 de muito bom diretor. Porque dois diretores? Brigas? Filme ok. Nota 5.
   SOB O SOL DA TOSCANA de Audrey Wells com Diane Lane e Raoul Bova
Li o livro e gostei. O filme foge do livro, muda tudo. Coisas do cinema.... Lane, sempre adorável e bonita, ( a acompanho desde 1979!!! Ela começou em Pequeno Romance com Laurence Olivier aos 13 anos.... ) bem, aqui ela é uma mulher que leva um pé do marido e acaba na Itália, onde compra casa caindo aos pedaços. Assim como acontece com os livros de Peter Mayle, vemos uma americana em contato com uma cultura mais antiga, mais relax, muito mais sensual. O filme é lindo de se olhar e nunca ofende a inteligência. Nota 6.
   GRANDES ESPERANÇAS de Adolfo Cuáron com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Anne Bancroft
Assisti em 2000 e não gostei. Dei mais uma chance ontem...Em 1945 David Lean fez um belíssimo filme sobre este livro de Dickens. E quando Lean fazia um filme belo, bem, era um filme muito belo! Cuáron refilma o livro colocando-o no sul dos EUA nos tempos de hoje. Cuáron se humilha... coitado. O filme é muito, muito ruim. Pior ainda, ele é risivel. Quando a grande Anne Bancroft começa a dançar em sua casa de mulher louca tudo o que queremos fazer é rir e desligar o DVD. Robert de Niro também comparece como um ladrão fugitivo. Um dos maiores fiascos da história dos filmes.

   

POEMAS CLÁSSICOS CHINESES- LI BAI, DU FU, WANG WEI

   Fenômeno universal, como a música, a religião e a saga, não existe sociedade sem poesia. Fácil observar, povos vários desconhecem a prosa, todos praticam o verso. E aqui temos 3 poetas centrais da China: Li Bai, Du Fu e Wang Wei. Traduzidos do chinês, edição bilingue, preço acessível. 
   Escritos todos em torno dos anos de 700/800 de nossa era, eles apresentam imensas diferenças daquilo que se fazia/faz no ocidente. Os chineses são muito mais simples, diretos e depurados. Pouco mergulham em questões do céu ou da alma. Influenciados pelo budismo, observam seu redor e o descrevem. Na descrição da chuva, da folha que amarela ou da neve reside toda a simbologia da vida e da morte. São circulares, nada nesses poemas corre, não procuram algo de sensacional. A influencia de Confucio é ainda maior. Os poemas têm um pé plantado na sociedade. Estranho, todo poeta chinês, em oposição ao europeu que sempre procurou a glória, se afasta do mundo e como monge, vive na montanha em absoluta solidão. Pena Octavio Paz não ter analisado a poesia da China. Eles provam em definitivo a raiz comum de Deus e da musa poética. Vinte, trinta anos em absoluto isolamento, vivendo em estado de fome, de ansiedade e de súbitas iluminações. Escrevendo milhares de páginas. Acima de tudo, vendo, observando, saindo de si.
   Li Bai é o mais feliz. Du Fu é trágico e na China de hoje é conhecido como Shakespeare na Inglaterra. Wang Wei é a sintese dos dois.

   O cavalo empertigado
   Marcha
   Sobre as folhas caídas. 
   Meu relho no ar roça as nuvens.
   Bela, a menina que abre a cortina de pérolas.
   aponta ao longe, com um sorriso
   A casa vermelha
   É lá que eu moro.
                                     Li Bai.

    Não procure sentidos nesses versos. Eles nada mais simbolizam que aquilo que aparentam ser. Ao contrário da tradição da Europa, nada há escondido. Cavalo que é cavalo, menina que é menina. O que importa aqui é a sensação que sua leitura, calma e quieta, traz. Para serem lidos em voz alta, com atenção, eles existem como possibilidade de se produzir algo. Ou não. Como um peixe que pula no ar, cabe a você saber apreciar o peixe que salta, ou o ignorar.
   
   Gosto do monte Tong
    porque ele me deixa alegre.
   Fico por aqui bem uns mil anos.
   Danço ao meu gosto
   Minha manga solta roça de uma só vez
   Todos os pinheiros aqui de cima.
                                           
                                            Li Bai.

                                          

UNAMUNO, FORASTIERI E LIMOGES

   "Ninguém me convenceu racionalmente da existência de Deus, mas tampouco de sua inexistência. Os argumentos dos ateus me parecem de uma superficialidade e futilidade ainda maiores que de seus contraditores. A vida é dúvida e a fé sem a dúvida não é nada senão a morte."
   Miguel de Unamuno disse isso. O mais central dos intelectuais espanhóis do século XX ( 1864-1936 ), dono de imensa produção, reitor da universidade de Salamanca, perdeu o posto por obra do franquismo. Uma peça baseada em obra desse titã está em cartaz. São Manuel Bueno, Mártir, esse o nome do espetáculo que mistura bonecos, efeitos e magia. Para Unamuno a fé só tem valor se for constantemente posta em dúvida. Acomodar-se na fé, tê-la como indiscutível nada tem de válido. Torna-se um tipo de vicio, nunca virtude. O homem de fé vive em dúvida, sua sina é a insegurança. Essa a vida que vale a pena, a vida que é viva. O ateísmo seria uma licença para a superficialidade, um modo de levar a vida em infantilismo inconsequente. Não a liberdade, pois nada há de livre em ser dirigido pela biologia, mas sim um tipo de playground das ideias onde vale tudo pois tudo é uma brincadeira. Quando Unamuno diz que o ateísmo é futil ele fala que o ateu se ocupa daquilo que seria futil perante um valor maior: o dinheiro, a moda, a diversão, as explicações de ocasião. Negam-se as grandes questões: o que é a vida? Porque o nada criou o ser? Como se dá o infinito? O que é o movimento? 
   Mais um belo pensamento de André Forastieri no Face. Ele recorda o momento 1988/1993, toda uma geração que aprendeu a aceitar coisas que antes eram opostas. Gente que misturava Star Trek com Rimbaud, Husker Du e Poe, quadrinhos com Melville. André lamenta que hoje o compartilhamento esteja vencendo again. Desse modo, fãs de séries de TV só se ligam nesse mundo, assim como roqueiros só ouvem rock e caras que adoram quadrinhos não leiam mais Jack London ou  
Heminguay. É um fato. A diversidade durou muito pouco e foi um período maravilhoso. O povo misturava jazz com rap e cinema mudo com Ridley Scott. Isso acabou. Hoje é cada um em seu quadrado.
   Atenção: Mesmo com toda essa diversidade tem duas coisas que até a geração de André não aceitou: MPB e filmes musicais. Esses os párias da coisa. Um dia escreverei porque. 
   Mostra de Bowie no melhor museu de Londres bate recorde. David está e esteve sempre tão acima do nível intelectual dos rockers que isso não me surpreende. Seus fãs vão a museus. Os fãs dos outros vão a cafés ou baladas.
   Visita a casa de uma prima minha. Não ia a séculos. Frequentei muito quando era criança. Porcelanas de Limoges, bronzes ingleses, relógios do século XIX, móveis dos anos 20, prataria leve de Firenze. Muranos e Art Déco. Foram alguns de meus brinquedos aos 8 anos de idade. Vixe! Sou o conflito entre essa casa de luxo e calma ( quando cheguei ela ouvia ópera ) e my little rocknroll. 
   Hèllas!