HITCHCOCK- SACHA GERVASE, UMA EXPLICAÇÃO SOBRE UM GÊNIO

   Para aqueles que amam o cinema, é um filme emocionante. Para fâs de Hitchcock, obrigatório. O filme, discretamente dirigido, fala dos bastidores da produção de Psycho. Ao mesmo tempo revela a relação de Hitch com sua esposa, Alma. Para quem conhece Hitch, a coisa é uma delicia.
   Tudo começa com o sucesso de INTRIGA INTERNACIONAL. O  mais divertido dos filmes do mestre. Em seguida ele recebe a oferta de dirigir o primeiro filme de James Bond, que seria então Casino Royale. Hitch não aceita, não quer fazer sempre o mesmo filme. A Paramount, e essa é uma das delicias do filme, não quer um novo Hitch diferente, não quer mais Vertigo ou O Homem Errado, grandes fiascos de bilheteria. Ela quer mais Intriga Internacional. A Paramount briga com Hitch e ele tem de fazer em produção independente Psycho, um filme que ninguém quer produzir. Se o filme não der lucro Hitch estará quebrado.
   Essa a base do filme, mas ele tem muito mais. Alma, frustrada no casamento frio e sem sexo, se envolve com um escritor banal. É ela quem salva Psycho na sala de edição e insiste em ter a música de Bernard Herrman na cena do chuveiro. Este filme revitaliza a música. Quando ouvimos a melodia das facadas sentimos o quanto Herrman era genial. Se sua trilha de Vertigo é a obra-prima das trilhas de cinema, os acordes de Psycho são os mais marcantes. No fim do filme, quando um Hitch tenso, espia a reação da platéia à cena do chuveiro, e observa que eles reagem exatamente como ele queria, nós, público de hoje, após mais de 50 anos de imitações de Psycho, sentimos toda a carga de emoção que deve ter havido naquela noite de 1960. Só por essa cena o filme já vale muito.
   James D'Arcy faz Anthony Perkins. A atuação de Perkins como Norman Bates é uma das cinco ou seis mais icônicas dos últimos 50 anos. Perkins é uma figura comovente em sua mistura de fragilidade e crueldade. D'Arcy em suas poucas cenas dá um show. Ele é Anthony Perkins! O andar hesitante, a voz reprimida, o homossexualismo reprimido, a ansiedade, é uma atuação imitativa, não criativa, mas para quem como eu adora Perkins, é um prazer vê-lo vivo outra vez. Scarlet Johanssen está calorosa como Janet Leigh. Simpática, simples e sexy, como Leigh era. E fazer Scarlet parecer humana já é por si um mérito. O filme tem ainda em seu elenco sublime Toni Colette, Jessica Biel e o filho de John Huston, Danny, que tem filmado muito.
   Anthony Hopkins é da velha escola inglesa de atuação. O estilo inglês não permite o surgimento de um Heath Ledger ou de um De Niro. O ator não se torna o personagem. Jamais deve se emocionar com a atuação. O controle sobre a atuação, essa é a lei. No estilo criado nos EUA por Brando, Dean e Montgomery Clift, o ator busca dentro de si o personagem. Ele mergulha dentro de suas emoções, encontra o personagem e passa a ser dominado por ele. No estilo inglês, sua inteligência observa o personagem "de fora", cria as peculariedades desse tipo e doma esse caráter. Hopkins é assim. Ele nunca foi Hannibal Lecter, ele criou Hannibal Lecter. Seu Hitch nunca é caricato. E não é Hitch. É sempre um ator, brilhante, fazendo o que seria um Hitchcock possível. Perfeito. Helen Mirren é da mesma escola. Acho que ela é a única atriz a ter trabalhado com Michael Powell e que ainda está viva. Dizer o que? Helen é tão perfeita aqui que não percebemos sua atuação. Nada parece dificil, forçado, sofrido. Ela é Alma Reville. Discreta, reprimida, dura, decidida. E que quase fraqueja com o escritor ruim vivido por Danny Huston. Nos últimos quinze anos nenhuma atriz tem a coleção de grandes atuações que Mirren tem. Não levará o Oscar, mas tem minha torcida. Sempre.
   Ao final Psycho é um grande sucesso. E um corvo pousa no ombro de Hitch anunciando seu próximo filme, Os Pássaros. Que será mais uma obra-prima. Para quem conhece pouco a história do cinema, devo dizer que Hitch é tão importante por ter sido o criador do cinema como "emoção dirigida". Alfred Hitchcock foi o primeiro mestre a pensar, planejar e obter a emoção e reação que ele desejava. Antes dele o que guiava um diretor era o desejo de contar uma boa história. Com Hitch passa a ser o desejo de conseguir reações. E nesse processo ele criou todo o cinema feito de 1960 em diante. Uma busca incessante por reações, por emoções, por respostas imediatas.
   Como diz o filme, ele não era levado a sério. Os críticos preferiam Elia Kazan, George Stevens ou John Huston. O público o amava. Truffaut e Chabrol foram os primeiros a observar que o que ele fazia era unir a alta arte ao popular. E nisso ele foi também um pioneiro. Ele expunha taras, frustrações, doenças, medos, e mesmo assim conseguia divertir.  Apesar de Ford, Murnau, Kurosawa, ninguém chegou onde ele chegou.
   PS: ele nunca ganhou um Oscar. Como Orson Welles, Kubrick, Michael Powell, Anthony Mann ou Tarantino. A seleção dos derrotados é tão boa quanto dos vencedores.
   PS: E nos EUA de hoje ainda se fala de Jerry Lewis como exemplo de mal cinema!!! Que saco! Jerry era bom e não tinha culpa de ser o rei da Paramount. Esqueçam Jerry Lewis! Viva Jerry Lewis!
   PS: Vertigo é hoje considerado o maior filme americano da história. Desbancou KANE. É a história de um impotente que força uma mulher a se tornar a ex-amada que morreu. Ele acaba por levar essa mulher à morte. Um dos mais trágicos filmes já feitos. E quase sem diálogos. Hitchcock riu por último.

NA TRILHA DE ADÃO- THOR HEYERDAHL, MEMÓRIAS DE UM FILÓSOFO DA AVENTURA

   Thor foi feliz. Claro, ele foi humano, viveu alguns momentos ruins. Mas foi feliz, sempre feliz.
   Nasceu na Noruega, no começo do século XX e faleceu no começo do XXI. Filho único de uma familia da classe média alta, aprendeu a ser só e passou a infância entre a super-proteção dos pais e as escapadas para o mato. Logo uma ideia se formou na mente de Thor: Tornar-se um homem. Colocar-se a prova e vencer. E então, desde cedo, ele escapava. Escalava montanhas, acampava de noite nas piores tempestades de neve, observava os bichos. Mas atenção! Estamos falando de 1925, 1930, esportes radicais não existiam. Acampar no mato, sózinho, em um iglú, era um ato muito excêntrico.
   Mulheres só na faculdade. Thor cursa zoologia. Mas estuda também geografia, antropologia, história. Sua vida foi uma luta contra o saber acadêmico, o saber muito sobre muito pouco. Casou-se três vezes, o primeiro foi com Liv, a moça que foi com ele viver na Polinésia.
   Não havia um só europeu na Polinésia de então. Ele e a esposa viveram nús, comendo cocos e peixe, sem comunicação com o mundo, sem remédios, sem rádio. Sair da ilha só era possível uma vez ao ano. O paraíso? Não, claro que não. Insetos e muita chuva. Se nunca foi um paraíso, o que Thor buscava lá?
   Ele jamais duvida: Deus está de seu lado. É impressionante como Thor tem sempre a certeza de que tudo vai dar certo e de que o paraíso vive dentro de cada um de nós. Junto com o inferno. Thor vai á Polinésia porque sua voz interior manda que vá. Ele abomina tudo que é falso, que cheira a não-vida, vai viajar como quem busca a vida. E vive. Muito. E feliz.
   Mesmo ao passar fome. No kaos da segunda-guerra ele e a segunda esposa estão em New York, loucos de fome, sem amigos e sem trabalho. Esse um momento de dor, mas nunca de dúvida. Assim como na Noruega, quando ele luta contra os nazis ou no Canadá, quando ele trabalha em fábrica quimica e conhece a destruição do progresso.
   Thor se torna famoso em 1947, com sua viagem, o Kon-Tiki. Mas para sua surpresa é terrivelmente atacado. A comunidade científica não aceita o que ele fez. Dizem que a viagem foi uma farsa, dizem que ela nada prova, o chamam de "simples marinheiro". Thor fica surpreso e logo percebe a cegueira da comunidade científica. Eles são incapazes de aceitar algo vindo de fora de seu meio. Thor nunca foi um marinheiro, era um cientista, um estudioso, seu "pecado" era o de ir para fora, botar a mão na massa. Marinheiro nunca foi. Nada sabia de mar, aliás, nem nadar sabia.
   Aos poucos ele dobra as resistências e empreende outros projetos. Viaja da África a Tenerife em barco de papiro, visita a Amazônia, não pára de dar conferências. Seus livros vendem muito, seu documentário ganha um Oscar. Casa-se pela terceira vez.
   Este livro não é seu relato sobre o Kon-Tiki. É uma coleção de lembranças escritas na década de 90. Ele recorda seu cão Kazan, com o qual ele arriscava a vida em expedições a geleiras e montanhas no inverno. A mãe, uma atéia que amava a verdade e lhe deu o senso de honestidade. O pai, religioso e sensível, que lhe dava a liberdade de se ir, de tentar, de prosseguir sempre. E ele como criança, um menino calado, que não conseguia ficar entre muros, que via o sagrado em cada grão de poeira e que desde sempre indagava o que era o tempo, a vida, o homem, a história. Ele foi sempre feliz porque conseguiu conciliar dentro de si a fé em Deus, Adão, no Dilúvio, e ao mesmo tempo a crença em Darwin, na razão e na paz como alvo possível. Ele não via um fato como algo que exclui outro fato, ele via todo fato como possível confirmação de um outro fato. Interligava conhecimentos, nada jogava fora. Dessa forma ele abria ouvidos para toda narrativa ancestral e abria os olhos para os textos eruditos também. Tudo lhe interessava e tudo era parte da verdade. Foi um sábio a moda antiga, nunca um dogmático especialista, antes um homem que pesquisa tudo e nada descarta. Daí sua felicidade.
   Thor nunca teve uma casa. Ele acampava em hotéis, em cabanas, em casas também. Sua alegria era a de não precisar de nada. E de ter tudo.
   Thor foi um dos últimos heróis possíveis.

ESTAMOS CHORANDO A BEIRA MAR

   Nunca tivemos tanto. Temos roupas, temos comida e remédios. Um homem assalariado, comum, tem hoje coisas que seriam impensáveis em 1950. Não falo de celulares ou PCs, eu falo do básico. Mas, estranhamente, nunca fomos tão "sem nada". Sigo o raciocínio de Olgária Mattos e da poesia de Kaváfis, perdemos a liberdade e a criatividade, com isso perdemos a viagem.
   As coisas existem em certa proporção e para ter uma nova coisa é preciso perder uma outra. Troca-se. Nossa fartura ocupa o espaço de outras coisas que se vão. A liberdade de nada ter trazia a liberdade de poder partir sem olhar para trás. E essa liberdade, mesmo que apenas sonhada, trazia consigo o dom de sonhar e de tentar. A criatividade. Temos coisas e não sabemos o que fazer com elas, ou pior, não sabemos também o que fazer sem elas. Nunca fomos tão dependentes do trabalho de outros. Não conseguimos sobreviver a sós. Precisamos de celulares, de carros, de protetor solar e de enlatados. A sós ao lado de um rio morreríamos de fome e com dor de barriga não saberíamos que chá fazer.
   Nossas crianças perdem o dom de imaginar. Não sabem mais inventar brincadeiras e construir brinquedos. As mãos perdem sua magia e com elas se vai a criação. Adultos, não mais temos um ideal e ficamos passivos a espera de alguém que nos dê ou venda uma invenção. Nova. Nunca tivemos tanto e nunca tivemos tão pouco.
   Jamais iremos saber cultivar, domar, fazer, ser outra vez? Coisas sagradas se tornam jogos ou brinquedos. Sexo é hoje um brinquedo e a guerra um jogo. A morte uma cerimônia vazia de sentido e o casamento uma chatice sem porque, uma lingua que esquecemos da tradução. Esquecemos. Vamos apagando da memória o que significa familia, amor, religião, arte, beleza. E então falamos sem pensar que tudo isso é um nada sem sentido. Na verdade não conseguimos lembrar do sentido, não entendemos mais essa linguagem. Nossa memória se ocupa de outras coisas... do que mesmo?
   Perder a lembrança de familia ou de religião seria aceitável se fôssemos felizes sem elas. Mas não é o que ocorre. Terapias, drogas, armas e vicios provam o contrário. A vida tem se desvalorizado. Dizer que uma vida é "mistério sagrado" parece hoje uma bobice.
   Vivemos um tempo em que até mesmo a poesia é não-poética.
   Ulysses lutou dez anos em Tróia. E levou outros dez para voltar para casa e para sua esposa. Nessa volta ele foi amante de uma feiticeira e viveu com ela na mais linda das ilhas. Nessa ilha tudo havia e nada era ruim. O mais lindo sol, o mais lindo mar e a ausência de dores e de doenças. Sexo, comida, prazer. Mas toda noite, escondido, Ulysses ia à praia e chorava. Ansiava por partir. Voltar à feia, pobre e triste Ítaca.
   Então um dia Ulysses parte. Sem saber se irá sobreviver a viagem, sem saber quanto tempo irá gastar no mar, ele se vai e abandona a ilha da felicidade. Ulysses se lança a dúvida, ao precário, e volta a ser ele-mesmo. De volta a aventura, ele readquire sua criatividade, sua independencia e suas opções. Mais que tudo, ele espera...Espera retornar, Ulysses é feliz, Ulysses volta a ter fé, ele espera e confia.
   Veja bem, Ulysses volta a ser feliz mas não a ser contente. Ele foi contente na ilha, no mar ele é sério, ele é feliz.
   Não é preciso que eu diga que vivemos na ilha. E que Homero teve a intuição divina da armadilha que o futuro nos preparava. Estamos contentes. Estamos chorando a beira mar.

LES MISERÁBLES/ CLINT/ DE MILLE/ ELVIS/ TIM BURTON/ STAR WARS

   OS MISERÁVEIS de Tom Hooper com Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway e Amanda Seyfried
Li o livro de Victor Hugo aos 15 anos e lembro de ter ficado muito impressionado com seu realismo. Das versões do cinema não vi nenhuma, e agora tive o prazer de assistir esta versão da peça da Broadway. Primeiro toque para aqueles muitos que não têm intimidade com musicais: este filme nada tem a ver com o musical clássico de Hollywood. Aqui ninguém dança, não há aquele alegre sabor jazzístico de Kelly, Astaire e etc. Os Miseráveis está muito mais próximo da ópera que do sapateado. No musical típico há diálogos, as canções entram para expor aquilo que se passa dentro dos perosnagens. As músicas são as emoções que se explicitam. Aqui tudo é cantado. O filme não tem um só diálogo, como na ópera, os atores falam cantando. É estranho até para mim que amo musicais, imagino um tradicional expectador de Arkansas o que sentirá vendo este filme ( nada, ele não o verá ). Porém, passado o choque do começo, tudo deslancha. Tom Hooper, o ótimo diretor de Malditos United e do oscarizado Discurso do Rei, entrega um filme repleto de emoção.
Antes de mais nada quero falar sobre e homenagear Hugh Jackman. Nas quase 3 horas de filme, em nenhum momento, ele deixa de passar a dor terrível que acomete Jean Valjean. Jean roubou para comer e vai pagar por isso para sempre. Ele foge da lei, tenta  ser um outro, e nessa fuga ele vive só, sempre só. Jackman consegue passar essa dor com olhares, modos de andar e com sua voz. Hugh Jackman canta muito bem e as canções, todas, são ótimas ( algumas excelentes ). Eis um ator completo! Hugh sabe fazer aventuras, comédia, drama, e musical. Completo. Juro que não quero ser "diferente", mas não gostei de Anne Hathaway. Ela exagera e passa do ponto. Sua personagem mais que sofre, ela hiper-atua. Anne é da escola Heath Ledger, atuação como sintoma. Já Amanda Seyfried dá um show. Exata, complexa, rica em conflitos. Russell Crowe destoa. Não canta mal, mas não atua, apenas posa. 
Gostei muito do filme, cheguei a chorar ao final, mas ele tem algumas falhas, falhas que se devem mais ao cinema feito hoje que a Hooper. Closes demais, cores pobres, câmera tremida, excesso de cortes. O visual do filme, que "parece" ser exuberante, quase se perde nessa confusão de estilos televisivos. Quando a pressa se abranda, temos cenas belíssimas como aquela do começo no cais, ou a cena das barricadas.
O tema é rico, o filme fala do momento crucial em que o povo toma definitivamente o poder. O poder não financeiro, mas o poder de fazer com que a história saia dos palácios e dos gabinetes e passe a ser contada nas ruas. A terrível miséria da França de 1830 é mostrada sem disfarces e todas as revoltas são perdidas. O povo perde, mas a história dá sua guinada. É nos esfarrapados que vive o futuro. O futuro é de Jean Valjean. O futuro seria de Victor Hugo, o primeiro intelectual-artista "de esquerda". Quem deixar de ver o filme irá imaginar que ele trata de amor, que engano! Os Miseráveis é sobre a miséria e a injustiça. O filme nunca foge disso.
Em que pese o belo PI e o divertido DJANGO, nada vi de melhor entre os indicados ao Oscar. Nota 8.
   CURVAS DA VIDA de Robert Lorenz com Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake e John Goodman
Um velho que está ficando cego. Ele é olheiro de beisebol. A filha, advogada de sucesso, tenta uma reaproximação. É dificil pois o velho é duro como...Walt Kowalski ! Um filme simpático, familiar e completamente banal. Nada nele surpreende, tudo o que acontece é esperado. Clint está cansado e Amy é uma atriz muito interessante. Não é um filme ruim, nem bom, é antes opaco. Nota 5.
   COISAS DA COSA NOSTRA de Steno com Carlo Giuffré, Pamela Tiffin, Jean-Claude Brialy e Vittório de Sica
Entre 1955 e 1975 a Itália chegou a ameaçar seriamente o poderio do cinema dos USA. Os italianos faziam filmes de arte melhores que os americanos e além disso tinham uma grande produção industrial de comédias, aventuras, terror e até westerns. Em 1962 e 63 quase fizeram tantos filmes/ano como Hollywood. Esta comédia representa a produção banal da época, o tipo de filme vulgar, que era dirigido ao povão, aos cinemas de subúrbio. Eram filmes como este que financiavam os Bertolucci e os Taviani. Fala da máfia Siciliana em estilo chanchada. Nota 3.
   O IMPOSSÍVEL de Bayona com Naomi Watts e Ewan MacGregor
Lixo. Naomi concorre ao Oscar por este papel.. Well....ela sofre pacas! Mas o prêmio se vier deveria ir para a maquiagem, são boas bandagens. Talvez seja o filme mais aborrecido do ano. Masoquistas vão adorar. Nota 1
   CORNERED de Edward Dmytryck com Dick Powell e Walter Slezack
Uma complicada trama sobre soldado americano que caça francês que lutou ao lado dos nazis. O filme é bom, mas decepciona. Dmytryck e Powell podiam bem mais. Nota 5.
   SANSÃO E DALILA de Cecil B. de Mille com Victor Mature e Hedy Lamarr
De Mille nunca errou por superestimar o público. Ele fazia um cinema carnaval, seus épicos eram desfiles opulentos. Se numa cena houvesse a necessidade de elefantes, De Mille punha logo uma dúzia... e mais tigres e leões. Misturava sexo com a Bíblia e tudo ficava com cara de show da Broadway. Foi o rei da Paramount e num tempo em que ninguém estava nem aí pra diretores, ele foi um superstar. Já vi quase todos seus filmes e gostei de todos, menos deste. Ele erra. Porque? Porque tanto Sansão como Dalila são dois malas. Groucho Marx comentou este filme na época:" Jamais veria um filme em que o peito do ator é maior que da atriz". Nota 2
   O BACANA DO VOLANTE de Norman Taurog com Elvis Presley, Nancy Sinatra e Bill Bixby
Quando eu era criança, lá por 1974, a Globo passava tudo de Elvis na Sessão da Tarde. E eu odiava. Em 74 nada era mais velho que Elvis. Fico surpreso ao perceber hoje que este filme, por exemplo, tinha apenas seis anos em 1974. O mundo mudara demais entre 68 e 74 e esses jovens de cabelo curto, alegrinhos correndo atrás de garotas groovy pareciam então a coisa mais careta do universo. Revisto hoje o filme me deu um choque...ele é pior do que eu lembrava. Quer dizer, ainda pior, quase um pesadelo!!! O tempo é mesmo relativo...um filme de William Powell feito em 1935 parece mais vivo que um Elvis de 1968...Bem, hoje Matrix já cheira a mofo... Nota ZERO
   FRANKENWEENIE de Tim Burton
E Burton pode ganhar afinal seu Oscar!! Com esta animação dark que fala de menino que traz seu cachorro de volta a vida. Burton homenageia os Gremlins e ainda Frankenstein, Drácula, e uma multidão de pequenos filmes trash. Há algo de muito triste neste desenho. É um retrato acabado de uma alma inadaptada, tão inadaptada que recusa a morte e o tempo. Tim Burton é um poeta. O desenho é muito bom. Nota 7.
   O IMPÉRIO CONTRA-ATACA de Irvin Kershner
Lançado em 1980, um big big big hit. Aventura pura. Um ícone para minha geração é um filme incriticável. Lucas misturou Flash Gordon com Kurosawa e New Age. Mais Han Solo, que é 100% um cowboy. De toda a saga este é o melhor. Kershner foi um bom diretor dos anos 60. Dirige melhor que Lucas. Sabe dar voz aos atores. E que beleza rever R2, Yoda e Chewey!!!

PEDRO JUAN GUTIÉRREZ, HANEKE, VERMEER E LUCY

   Então Haneke disse que usa seus filmes para dar um soco no estômago de seu público? Diz ele que seu povinho só reage a base de socos...Well....É por isso que estou fora desse clubinho. Não quero que me soquem e não preciso de socos para reagir. Sou daqueles que ainda possuem sensibilidade fina. Ainda sei o que significa estética, beleza e ironia. Não preciso do soco. A visão da mão e a consciência de meu estômago já me bastam. Seu cinema é publicitário. Ele entope seus fãs com produtos: socos no estômago. Coisas do tipo: hey! A vida é um lixo! Somos especiais por sabermos disso!
   Minha resposta a esse cinema fake: Blá!
   Um amigo afirma que sou contra psicólogos, filósofos e sociólogos. A priori não sou. Apenas penso que eles são hiper-valorizados. Por eles mesmos! Desconfio de quem vomita certezas. Tenho amigos psicólogos. Admiro aqueles que botam a mão na lama. E duvidam de tudo. Filósofos são boçais quando apenas brincam com palavras. Só creio em filosofias de vida. Sociologia jamais!
   Dá pra resumir tudo assim: Se o sujeito engoliu um dogma sem o desafiar tem meu desprezo. Se ele foi à vida verificar o dogma, bem, aí começamos a nos entender. Frases feitas, mesmo as "profundas", never!
  Vermeer criou cor. Todos nós, e mesmo os artistas apenas "bons", passam pela vida sem criar nada de novo. Os excelentes apenas misturam coisas que já existiam. Gênios como Vermeer são como um deus. Criam alguma coisa nova a partir do inexistente. Milagres.
  O tom daquela pele só existe em Vermeer. 300 anos podem se passar, aquela pele continuará a ser irrepetível. A dobra do tecido é obra da mão de Vermeer. Nenhum outro poderá repetir aquela dobra. Mais do que tudo, esse quadro vive. Vive por falar comigo ( o que aqui escrevo veio de uma conversa com a obra ), ele influencia, escuta, muda ao passar do tempo e se reproduz. O Vermeer que vejo não é aquele que voce vê. Eles são vários.
   Pedro Juan Gutierrez. Releio O Ninho da Serpente. Falam que ele lembra Bukowski. Sei lá. Pedro é latino. Ele tem prazer com o sexo. É sempre uma festa. E Pedro não é niilista. Ele crê em vudu, em olho-gordo, em macumba. No mundo de Pedro tudo é questão de destino. Voce tem sorte ou não. Gosto dele...Durante trinta páginas. A partir dái me entedia. Merda, bundas, pinga e fome. Tudo se repete sem parar. A voz do cara é boa. Ele pensa fundo e pensa bem.
   Pedro Juan morreria de tédio na Avenida Paulista.

HITCHCOCK-O MELHOR DA TERRA/ TARANTINO/ PETER JACKSON/ NICOLAS CAGE/ RZA

   KON-TIKI de Joachim Ronning e Espen Sandberg
Concorre a melhor filme estrangeiro no Oscar. E é melhor que Lincoln. Conta a história de Thor Heyerdahl, o antropólogo norueguês que em 1947 cruzou o Pacífico para provar sua teoria. Escrevi texto sobre o filme abaixo. Simples e bem narrado, é um filme bonito, inspirador. Nota 8.
   O HOBBIT de Peter Jackson
O filme tem alguns problemas de planejamento. O livro é curto, Jackson resolveu fazer o filme em 3 partes. Dará um total de sete horas. Isso faz com que a narração seja lenta, feita de longas cenas de conversas. Ou seja, as crianças ficarão entediadas. Quanto aos adultos, bem, o filme é bastante infantil, então vá preparado para isso. Os cenários são lindos, as cenas de batalha excessivas, os diálogos infantis. Não é o lixo que alguns gostam de dizer, mas é aborrecido. Nota 3.
   O HOMEM DOS PUNHOS DE FERRO de RZA com RZA
RZA escreveu, produziu, fez a trilha sonora, dirigiu e atuou. Vixe! Estamos diante de um novo Godard? Um novo Welles? Chaplin? Talvez seu ego ache isso, mas só seu ego ( e suas mocinhas ). O filme é risivel. Fala algo sobre a China de antigamente, misturado com rap, vingança e etc. O texto é tão babaca que parece piada. Os diálogos são dignos das piores letras de funk do Rio. É o pior filme do ano.
   DJANGO de Tarantino com Jamie Foxx, Christoph Waltz e Leo di Caprio
Escrevi sobre ele abaixo. É uma boa diversão Pop. Cheio de humor, de boa ação e alguns diálogos afiados, tem atuações fantásticas de Waltz e de Leo. Os coadjuvantes também brilham, mas, que pena, Foxx não segura o personagem. O herói tem zero de carisma. E Tarantino estica o final, a meia hora derradeira podia ter sido eliminada. Mesmo assim temos o padrão Tarantino de diversão: boas músicas, frases bem sacadas e tipos interessantes. Divirta-se!!! Nota 7.
   O RESGATE de Simon West com Nicolas Cage, Josh Lucas, Danny Huston e Malin Akerman
Bom filme de ação. Um cara rouba um banco e é preso. Após oito anos, solto, tem sua filha sequestrada. Adoro filmes de ação! São muito dificeis de fazer. É uma arte conseguir manter o suspense, a ação não parecer ofensivamente tola, saber quando cortar e quando deixar rolar. West é um bom diretor desse estilo. Assistimos o filme com prazer, torcemos, nos emocionamos. Cinema é arte de ação. Isto é cinema. Cage se diverte, e Malin Akerman é uma das mais bonitas atrizes de agora. Nota 6.
   FRENESI de Alfred Hitchcock com Jon Finch, Alec McCowen e Vivien Merchant
Voce assiste os indicados ao Oscar deste ano. Tenta gostar deles, ver alguma arte naquilo tudo. Se convence de que o cinema ainda tem relevãncia. Mas daí vem o velho Hitch e acaba com as ilusões. Voce assiste Frenesi e lembra então de como um filme podia ser bom, do quanto o cinema era mágico. É até covardia!!! Hitchcock foi o maior cineasta da história! Veja este filme: Feito em 1972, é o penúltimo filme da carreira do mestre. Aqui Hitch volta a filmar em Londres, após 34 anos de USA. Nessa época, Hitchcock vinha de dois fracassos e era chamado de decadente. Mas com Frenesi ele ressuscita e volta ao sucesso. E que filme maravilhoso este é! Em Londres, mulheres são estranguladas com uma gravata. A policia procura o assassino. Ao mesmo tempo, acompanhamos um inocente que é acusado. Ou seja, tipico roteiro à la Hitchcock. Aqui escrito por Anthony Shaffer, um dos grandes teatrólogos ingleses de então. Este filme quebra alguns paradigmas de Hitch. As mulheres são todas feias, há cenas de nú e a violência é mais explícita. O filme é perfeito. Tem suspense, humor, e algumas cenas são aulas de direção. Veja aquela do estupro. A forma como a câmera foca os rostos, um seio, as pernas, os olhos. Veja a cena do segundo assassinato, a câmera saindo pelo corredor, descendo as escadas, e os sons da rua aumentando. São assinaturas de genialidade, são toques de estilo que Lincoln, Django ou PI não conseguem ter. A simplicidade refinada, o inesperado. As conversas do inspetor com a esposa são também obras-primas de humor, de inteligência artesanal. E o final, conciso, exato, matemático, sem apelação. Alfred Hitchcock, como não o venerar? Frenesi, que eu não revia a mais de 25 anos é absolutamente perfeito. Humilha a maioria dos filmes. Um maestro! NOTA UM MILHÃO.

DJANGO LIVRE

   Os letreiros são de western-spaguetti e a trilha sonora usa temas de Bacalov e de Morricone, dois gênios das trilhas sonoras ( vi recentemente um documentário na tv Cultura, com a participação de Dave Holmes e da dupla Air, sobre trilhas sonoras. Eles diziam que as melhores trilhas foram feitas entre 65 e 75: John Barry, Henry Mancini, Lalo Schiffrin, Quincy Jones, John Willians, Michel Legrand, Nino Rota, Georges Delerue e Bacalov-Morricone ). Django é nome de um filme da época, um western-spaguetti com Franco Nero. Não se iluda, do Django original só ficou a trilha sonora e uma participação de Nero como um italiano que perde de Di Caprio no Mandingo.
   A unanimidade americana em torno deste filme é merecida, é um filme maravilhoso, mas ela expõe uma crise. Filmes como este, em 1965 ou em 1973, eram feitos de forma sucessiva. O que reafirma minha tese de que Dirty Dozen ou The Great Escape seriam hoje filmes de Oscar. Os amantes de cinema sentem saudades de grandes filmes divertidos, de filmes que misturam arte e Pop, que são inteligentemente entertainment. Fazer filmes de arte sobre o nada se tornou banal, fazer diversão soberba é cada vez mais raro. E a carreira de Quentin mostra isso, ele sabe filmar e sabe narrar.
  Entre os cinco filmes favoritos de Tarantino, pelo menos dois são obras-primas do diálogo: Onde Começa o Inferno de Hawks e Jejum de Amor, também de Howard Hawks. Outro fato mostrado em Django: Tarantino mantém viva a arte do diálogo. O filme tem cenas longuíssimas de diálogo. A amizade entre o alemão e Django é como a de Wayne e Dean Martin em Hawks, toda feita em longos e calmos diálogos. Como em Hawks, temos um mestre e um discípulo em bela interação.
  Alguns podem se incomodar pelo mundo que Tarantino mostra. O mundo dele é o mundo Pop. Nenhum filme dele mostra aquilo que se chama "mundo real". Bem, eu gostaria de perguntar: alguém mostra o mundo real? Dou exemplo. O mundo de Cosmópolis é real? Nunca vi ou vivi naquele mundo. O mundo dos filmes de Wes Anderson é real? O que é o mundo real? Todo filme não é a visão particular de um homem, ou de uma equipe, sobre um mundo que ele imagina? O mundo real de Tarantino, e de seus fãs, é o cinema. Como acontece com Hitchcock, ele cria um mundo baseado em suas paixões internas. E essas paixões são Pop. Para quem é fã, como eu sou, é o mundo onde vivo e onde me formei. O mundo colorido da cultura popular de consumo.
   O filme tem duas falhas, duas grandes falhas que quase o destroem. Uma é sua metragem. Ele termina e vai adiante mais meia-hora que são esquisitas. Parece que Quentin perde o tesão no final. Isso acontece por causa da segunda falha: o elenco.
   Christoph Waltz está magnifico! A criação dele é uma das coisas mais geniais que já vi. É um personagem que ficará na história. Day-Lewis levará o Oscar, mas Waltz está melhor, bem melhor. E temos Di Caprio, compondo um tipo dúbio, feito de sutilezas, de movimentos de sobrancelha, de gestos das mãos. E então, essas duas atuações desequilibram o filme. O herói, Django-Jamie Foxx, não está a altura dos dois. Quando Waltz morre o filme acaba.
   Mas é um grande filme, cheio de cenas memoráveis. Momentos como aquele da KKK, com um Don Johnson hilário, são jóias de diálogo, de criação de tipos e de filmagem. Tarantino não erra uma tomada. Repare como não ficamos reparando nos ângulos de câmera, nas bossas da direção. Esse é o estilo Hawks, a direção que conta a história sem jamais chamar a atenção sobre si-mesma ( estilo esse cada vez mais raro no cinema ). Nos ligamos na história, não na "obra".
   Por fim...o filme é um western, mas é um western-spaguetti. Tem o descompromisso com a veracidade, tem a violência estilizada e falsa, tem o humor dos westerns made in Italy.
   PS: Quentin Tarantino já falou de gangsters, de lutadores de kung fu, de mercenários da segunda-guerra, de vampiros...Ele está pronto para fazer um filme sobre suas raízes made in Italy. Mal posso esperar pra ver.

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UMA CRÔNICA SOBRE O AMOR: DE LONDRES 1977 ATÉ SP 2013- IN YOUR MIND, DISCO CHAVE DE BRYAN FERRY

   Existem discos que ficam mofados. Acabo de tentar escutar Avalon do Roxy. Que coisa! Como pode um disco que gostei tanto parecer agora tão vazio? Nenhuma emoção consigo capturar. Faz dançar, é bonito, mas está distante de mim. É isso, o cara que vibrava com Avalon talvez seja hoje muito pouco eu.
   Não é o caso de In Your Mind. O disco é de 1977, mas comprei-o apenas em 1993. Na época pré-cd e muito pré-internet, certos discos eram muito raros. Este era um deles. Vendeu tão pouco que nunca foi lançado no Brasil. E o fato de ter vendido pouco foi uma surpresa.
   Em 1976, com o ego inflado, Bryan Ferry encerra o Roxy Music e se dedica apenas a carreira solo. Com o Roxy acontecera um fato que também ocorrera na mesma época com The Faces: o cantor dar mais atenção a sua carreira fora da banda, e acabar por deixar os companheiros de grupo de lado. Rod Stewart lançava todo ano um disco solo e um disco com The Faces. Ao mesmo tempo, todo ano, Ferry lançava um disco com Roxy e um solo. E ambos,  Rod em 1975, Ferry em 1976, dão um chute final na banda.
   Então em 1976 Bryan Ferry lança seu primeiro disco solo com o Roxy desintegrado ( é seu quarto album solo na verdade ). Let's Stick Together é um disco excelente e é um big hit na Inglaterra ( nunca na América ). Com Rod Stewart cada vez mais longe de seus fãs, Bowie gravando soul music e Elton John começando a decair, Bryan Ferry se torna o nome mais IN de Londres. Todas as modelos querem ele, os fotógrafos lhe perseguem e até cinema ele faz. Escolhe Jerry Hall como namorada, se apaixonam ( a texana Hall era a top model number one do mundo ). Mas, voce sabe, ele é Bryan Ferry, as coisas tinham de se melancolizar.
    Em fins de 1976 Mick Jagger vai assistir um show de Ferry, e nos camarins conhece a namorada de Bryan, Jerry Hall. Fulminante paixão! Mick e Hall serão marido e mulher por mais de vinte anos. Bryan Ferry entra numa dor de cotovelo abissal e há quem diga que seu estilo até hoje é esse: abandonado por Jerry Hall.
   In Your Mind é gravado nesse espirito. Todas as faixas falam de Hall e as vendas foram as piores de sua vida. Era 1977, Londres só tinha ouvidos para disco, punk e ska, reggae e new wave. Em questão de meses Bryan Ferry passou a parecer careta, saudosista, velho. ( Ele estava com 31 ). In Your Mind é soberbo.
   Existem discos que são "bíblias" sobre o amor. São poucos esses discos. Consigo lembrar de Forever Changes do Love, Rattlesnakes de Lloyd Cole, o disco Steve McQueen dos Prefab Sprouts... São albuns que mergulham na paixão amorosa, dialogam com nossos corações, narram os começos e os finais de histórias, nos consolam e nos guiam. In Your Mind é assim.
   This is Tomorrow abre em alto-astral. E tem um solo de guitarra espetacular de Chris Spedding. O som é rico: sinos, teclados, sax e trompete, guitarra, percussão e montes de vozes. É o Pop perfeito, o Pop refinado de Mr.Ferry. All Night Operator começa a mudar o clima e quando entra One Kiss entramos na coisa. One Kiss é um baladão. Uma canção épica de amor comum. O vocal é sublime. Ela é triste mas jamais deprimida. Bryan Ferry sempre chora como Homem, nunca como menino.
   Love Me Madly Again é uma obra-prima. Tem um arranjo de violinos no final que é coisa de gênio. Há tanto para se dizer e tanto para se ouvir nessas canções...
   Tokyo Joe foi a faixa que chegou mais perto do sucesso. É esperta, dançável, muda de andamento toda hora, cheia de barulhinhos à La Eno. E vem Party Doll.
   Party Doll é uma balada-culto. Ferry canta como se estivesse num púlpito, e não a toa ela termina com um "Amém". Tudo nessa canção tem a simplicidade dos clássicos e a complexidade dos eternos. A voz está afirmativa, se impõe e todos os instrumentos soam em coesão. É um desses momentos em que o Pop surpreende. Há muita perfeição aqui.
   Rock of Ages é uma canção que empurra a vida avante e o disco fecha em ponto sublime com In Your Mind. A sequencia dessas duas jóias poucas vezes foi igualada.
   Quando ouvi o disco a primeira vez, numa tarde de dezembro em 1993, eu estava apaixonado. Eu e a menina que amava havíamos combinado: em Janeiro ela terminaria seu noivado e ficaríamos juntos então. Claro que nada deu certo e ela ficou com o cara. Mas em dezembro eu não sabia. Eu apenas sabia que a dividia com outro. In Your Mind caiu feito uma bomba nesse momento. Era a voz certa e a música certa. O disco me consolava e me fazia esperar.
   Hoje, quase vinte anos depois, ele poderia ser mofo, como Avalon. Ser apenas uma lembrança de um amor passado. Bonito. E distante. Mas não. In Your Mind está vivo. Cada acorde dessa multidão de instrumentos, dos baixos sinuosos às percussões fortes, cada palavra da voz de Ferry estão vivos como estavam em 77 e em 93.
  Amém.

MALICIA NEGRA, UM LIVRO MUITO MUITO CRUEL DE EVELYN WAUGH

   Tudo se passa na África oriental. Uma revolução. Imagens de crueldade e personagens ridiculos. Um armênio que só pensa em negociatas. O novo rei, que por ter estudado em Oxford pensa ser um homem muito acima da média. O povo do país, que tem hábitos como os de comer carne de brancos e fazer filhos sem parar. O embaixador da França, que vê tramóias da Inglaterra em tudo. O general do exército do país, um mercenário irlandês bêbado, casado com uma mulher da África, mulher esta que tem por nome "Black Bitch". E no meio de tudo, os ingleses.
   Na embaixada inglesa todos se preocupam com o que é "civilizado". O chá, os cavalos, o correio, os jogos e o jardim. Isso é importante, não essas tais de revoluções, ou guerras ou seja lá o que for... Assim, o embaixador passa o tempo se escondendo do trabalho. A esposa cuida das rosas e a filha pensa em sexo, em homens e em...mais sexo. Enquanto isso, na Inglaterra, um jovem sujo e sexy, aproveitador falido cansado de pegar dinheiro emprestado da mãe e de ir em festas que duram três dias, resolve ir para a África. E vai.
   O novo rei logo o faz seu ministro, o ministro da modernização. O rei baixa novas leis todo dia: proibe o uso de saias para os homens, inaugura um museu, faz uma estrada de ferro, pensa em metrô, proibe a matança de animais, obriga o uso de botas...Explode uma nova revolução. O povo não aceita a obrigatoriedade de se usar camisinha.
   O livro é mirabolante, enfeitiçante e politicamente incorretíssimo. Voce dá gargalhadas com esse mundo duro, absurdo e muito real ( infelizmente ), lugar em que o terceiro mundo se obriga a crescer e a se civilizar, onde reis vaidosos dão titulos de condes e duques a canibais mentirosos. Mundo onde os europeus pouco se importam com o que acontece desde que sejam deixados com suas festas e seus palácios. E não precisem se misturar aos selvagens. Nada é sério e tudo é fatal. Os africanos nada compreendem dessas coisas como democracia, educação ou bons modos brancos; e os brancos nada querem com os africanos. Vivem no país como em sonho.
   Como o livro termina? O que posso falar é que um deles é comido e um outro nada aprende com a história.
   Uma lição que fica: a Inglaterra, como todo império, deveu sua grandeza a algumas gerações de ousados aventureiros e espertos homens de dinheiro; no começo de seu final, uma casta de mimados sem iniciativa e sem ideias passa a dirigir o país. Que funciona ainda graças aos dividendos da riquesa acumulada pelos heróicos primeiros anos. Sempre é assim na história de todo império, seja EUA ou seja Roma, e este livro exibe essa casta em toda sua mediocridade.
   Waugh era uma víbora.

The Kon-Tiki expedition-color film



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New Kon Tiki Trailer 2012



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EXPEDIÇÃO KON-TIKI, FILME DE RONNING E SANDBERG

   Chuck Yeager é um dos meus heróis. E ele foi tema de uma obra-prima do cinema: Os Eleitos de Philip Kauffman. Sam Shepard interpretou Yeager. Agora meu outro grande herói, Thor Heyerdahl, ganha um filme, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. EXPEDIÇÃO KON TIKI é um belíssimo filme da Noruega. Simples, emocionante, discreto, como Thor.
   Em 2005 li em duas semanas dois livros de Heyerdahl: NA TRILHA DE ADÃO e A EXPEDIÇÃO KON TIKI. Digo sem medo de errar, que são dois dos livros que li com mais prazer em minha vida. Cheios de fotos, texto maravilhoso, eles conseguem fazer com que fiquemos plenos de alegria, de fé na vida e principalmente curiosos. Viver é ser curioso, ser inteligente é ter curiosidade, querer conhecer aquilo que não se conhece. Thor é um desses e por isso eu o venero.
   O filme conta a história sem enfeites. Heyerdahl estuda antropologia e lança a teoria ( ridicularizada ) de que os nativos da Polinésia tiveram sua origem não na Asia, mas sim na América do Sul. Ora, diziam todos, como os peruanos poderiam ter povoado as ilhas? Eles não sabiam fazer barcos, só jangadas, e uma jangada jamais poderia cruzar 8000 km no Pacifico. Heyerdahl insiste na ideia, junta uma equipe e parte. Sim, parte! Quase sem recursos vai ao Perú e lá constrói uma jangada, usando os mesmos materiais que os peruanos de 1500 anos atrás teriam a disposição. E parte.
   Detalhe importante: Thor Heyerdahl nada sabia de navegação, e pasmem, não sabia nadar! Forma uma equipe onde um é vendedor de geladeiras, outro é herói de guerra ( é 1947 ) e dos sete homens apenas um já esteve no mar. Fazem a jangada : troncos de madeira, cordas e uma cabana de folhas. Uma vela e nada de leme ou de remos. As correntes do mar irão os guiar, soltos, do Perú até a Polinésia. Essa é a certeza de Thor. E eles se jogam.
   O mar neste filme á mais belo que em PI. Não tem enfeites. E quando eles chegam a ilha, após 101 dias, voce chora com o riso de Thor Heyerdahl. Ele tinha apenas uma certeza, baseada apenas numa fé, sem qualquer evidência, e chegou. Nada pode ser comparado a bela aventura desse não-aventureiro. Nada se compara a alegre jornada desse grupo. Isso se chama heroísmo: um homem e sua certeza se dirige a seu destino sem ajuda de nada mais que sua fé. Obstinadamente ele prova sua verdade e jamais deixa de acreditar naquilo que o move. Se para mais alguém crer naquilo que ele crê era preciso refazer a viagem, ele a refez.
   O filme termina falando do destino da tripulação, e é com alegria que vejo que todos morreram velhinhos, se aventurando em outras paragens.
   Tenho neste momento em minhas mãos os dois livros. Preciso reler. Preciso novamente estar nesse mar. O filme, feito apenas de momentos claros, apenas daquilo que importa, sem firulas e sem exibições, é delicioso. Provávelmente jamais será exibido por aqui. Corram atrás! Voces irão adorar!