O DESEJO DE PINTAR - CHARLES BAUDELAIRE

   Mario Vale, pintor e desenhista, executa belas imagens e ainda traduz o poeta francês, primeiro homem de nosso tempo, neste livreto bonito e puro. São textos em prosa com alma de poesia, ou poemas não acabados. Vale pega-os, verte-os e pinta-os. Nós os lemos. E se os lermos com vagar, entramos na coisa.
   Baudelaire foi o primeiro flanêur. Como costumo fazer em meus dias tontos, ele andava pelas ruas de Paris, aterrado, abismado e maravilhado. Em meio a podre febre moderna, recolhia fragmentos de beleza, e eternizava essa beleza secreta e morta em textos que propunham o spleen. Duende. Doente.
   Chineses usam gatos como relógios. Percebem as horas nas pupilas brancas dos felinos quietos. Porque o tempo é uma pupila de gato chinês: sempre o mesmo e só usa o relógio-nosso quem é escravo do tempo.
   E o amor faz de nós, enfim, livres do senhor das horas.
   Um anjo-poeta perde a sua aura. Rico poema prosado, em que há reflexos da atual teoria Benjaminiana da perda da aura da arte e ainda dos anjos de Asas do Desejo, o mais Baudelaire dos filmes, feito estranhamente pelo hiper-alemão Wenders. O anjo perde a aura e contente vive a sujeira do mundo real.
   Baudelaire tinha medo e asco do pó e da velocidade. Era um dandy. Cáspite!!! O homem era um dandy, um poeta sem asas e um flanêur!!!! Ele era o nobre possível em tempos que abominam tudo o que é especial.
   Vê paisagens em janelas fechadas e ama a morte. Foi Baudelaire a base de Freud para o impulso da morte. Para o poeta, a morte é amor, amor é desejo de morrer sob o olhar de quem amamos. Todo apaixonado é um suicida. Crer em psicanálise é acreditar em Baudelaire.
   Para ele, voce cria a verdade ao criar a fantasia. Fantasia que é muito mais real que aquilo que vive fora de nós. Porque na verdade o fora não vive. Quem pode provar a verdade de qualquer coisa que não seja nossa?
   Então ele anda pela vida recolhendo imaginações e vendo a si-mesmo em tudo. Sua poesia é desejo de provar a vida. Impossível. Quem nunca desejou pintar....viveu?

A HISTÓRIA DAS AVENTURAS DE JOSEPH ANDREWS E SEU AMIGO O SENHOR ABRAHAM ADAMS - HENRY FIELDING

   Momento do nascimento do romance, a Inglaterra de 1750 via em meio a revolução industrial, o surgimento da classe média. Povo que era alfabetizado e que com algum tempo livre adquiria o hábito da leitura. Se hoje tememos que os livros se tornem passado, é aqui que eles surgem como objeto cotidiano. Mas o que é o romance?
   Romance é o relato que narra a evolução de um ser, e ele se faz exatamente na Inglaterra por ser ela a nação de Locke. A filosofia do papel em branco, do homem não como ser predestinado, mas sim como ente em formação. Ou seja, o homem como personagem daquilo que seria um romance. Lendo o romance o leitor lê a vida de outro que poderia ou pode vir a ser sua vida também. Esses livros se tornam febre e Fielding é um dos grandes. Um profissional, pois também é aqui que nasce o autor como profissão.
   Tom Jones é o grande livro de Fielding e este Joseph Andrews surge antes. Mas é um tipo de ensaio de Tom, ensaio que homenageia o Quixote de Cervantes e ataca com humor os livros lacrimosos de Richardson. Sempre um humorista, aqui são narradas as aventuras de Andrews, jovem muito belo, que ao ser assediado sexualmente por senhoras ricas, foge para salvar sua castidade e leva consigo sua amada Fanny e seu amigo, o pastor Adams. Adams se torna então o centro do livro. Um ingênuo.
   Estalagens, estradas campestres, brigas, cerveja, duelos, o livro tem o clima britânico de então. Mas atente, nada de psicologismos. Os personagens de Fielding são tipos, nunca pretendem a profundidade. O autor fala pelos personagens, não cria gente real, exibe ação.
   Bela edição de luxo, ilustrada, da editora Ateliê Editorial, digna da importância do livro.

OLIMPÍADAS 2012

   As Olimpíadas melhoraram muito.  ( Voces acham que eu penso que o agora é sempre pior ? Não. Existem coisas que melhoraram e o esporte é junto à medicina o mais evoluído ).  Nos anos 80 as Olimpíadas eram assustadoras. Os grandes esportistas cheiravam à falsidade. Eram arrogantes, agressivos, neuróticos ao extremo. Ainda havia a rivalidade USA URSS e isso contagiava os jogos. E principalmente, o doping corria solto. Todos os recordes eram batidos dia a dia, sem parar, e os atletas tinham corpos monstruosos. Eles não se falavam, não relaxavam, não pareciam humanos. Ben Johnson, Florence Griffith Joyner...
   Usain Bolt seria impossível em 1984 ou 1988. Ele é relaxado, sorridente e tem um físico normal. Seus músculos não estão prestes a explodir. ( Tenho de dizer: Neste exato momento toca Bowie no ginásio, Boys Keep Swinging... ).  Mas não é só Bolt. Phelps nada tem de anormal, "apenas" seus recordes. Ele parece um estudante americano de Ohio ou Arkansas. Mas em 1988 não era assim. Eles rangiam dentes, faziam poses de deuses, se cutucavam.
   Como li em algum lugar, o esporte ocupa o lugar da arte e da religião. Dois bilhões de almas se ligaram em todo o mundo para ver Bolt vencer. Não há Oscar ou lider religioso que consiga isso. Se nossos artistas se chamam Coetzee, Scorsese ou Dylan ( e eles são grandes ), Michael Jordan, Senna ou Valentino Rossi são mitos maiores. Brad Pitt desaparece ao lado de Bolt.
   É exatamente na década de 60 que esse processo começa. Nessa década o mundo ainda produz mitos da arte como Beatles ou Kubrick, mas é o fim desse ciclo. É também aí que nascem os primeiros mitos mundiais do esporte: Pelé e Cassius Clay. E com eles vêm Jim Clark, Rod Laver, Wilt Chamberlain e Beckembauer. Nos anos 70 o esporte se torna estilo de vida, toda a moda e toda a estética se torna esportiva. Mark Spitz, Crujff, Dr, J, Magic Johnson, Nadia Comaneci, Niki Lauda, John McEnroe, Shaun Tomson, Borg....se abrem as portas, welcome ao mundo esportivo.
   Tudo isso tem a ver com a morte da fé. A fé se transfere da alma para o corpo. Religião, que é fé no não-visivel, e arte, que é fé no símbolo, perdem seu trono. O mundo é agora o corporal, o músculo e a vitória sobre o real. Ruim isso? Não. Se voce tiver olhos para perceber irá ver a arte e a transcendência que podem viver em cada movimento "real".  Não é por acaso que o boxe se presta a tantos contos e filmes maravilhosos. O esporte pode ser uma metáfora completa não só sobre a carne, mas também sobre a estética e a alma.
   Nesse sentido, Bolt é um criador.
   Um último adendo.
   O que um grego pensaria sobre tudo isto? A tocha olímpica, os saltos, as lanças e a luta....Creio que ficaria extasiado. E surpreso por ver os bárbaros tão vencedores e os helenos tão perdedores.

ABRA OS OLHOS E DEIXE-OS GUIAR

   Coisa rara em SP, seus olhos têm a chance de se deleitar e quem sabe, aprenderem a ver. Fotos de Fellini no Sesc-Pinheiros. Basta a foto da equipe de frente para o mar. Ela já fala tudo sobre o mundo do mestre de Rimini. O homem perante o nada que em mundo felliniano é sempre belo. Mas há mais: Jasper Johns no Tomie Otake. Para os olhos entenderem o nascimento da vulgaridade como centro do mundo-idiota. Jasper percebeu: o futuro é dos imbecis. Eles crescem porque pais idiotas têm mais filhos. Temos ainda os impressionistas no CCBB. Monet e a beleza absoluta da cor e do quase invisível, Renoir é a alegria de se estar vivo. Mas tem mais. Até Cézanne foi convidado. Dá pra perder? Só se voce for uma besta.
   Mas tudo cessa diante de Caravaggio no Masp. Como sempre a quantidade de obras é minima e voce sai do caixote da Paulista com frustração. Mas basta um Caravaggio para mudar para sempre seu entendimento do que seja arte. Ela é muito mais do que o mercado tenta nos fazer comprar.
   Após tudo isso, aproveite a lista da Sight and Sound e alugue Aurora de FW Murnau. Não existe filme que tenha maior gama de informação poética. Puramente visual.
   Delicie-se.

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM ESPORTE ESTÉTICO

   Li em algum lugar que em mundo sem religião e vazio de sentido o esporte se torna uma última tentativa de redenção. A nobreza de se tentar ser o melhor dentro de regras e de competição justa. Um objetivo que na verdade nada significa, uma realização que assume sua transitoriedade e seu futuro esquecimento. O esporte só poderia se tornar tão importante em realidade vazia onde a transcendencia se torna impossível e o tédio impera. O que seria passatempo fútil toma o posto de centro da vida, poder econômico e ícone de realização. Não mais um nobre e não mais um mártir, o herói é o homem que salta mais alto ou corre mais depressa. Mas se o esporte é central somente em universo vazio de sentido, podemos entender que ocasionalmente ele pode exibir uma fagulha de arte ou de espiritualidade. E nesses momentos ele vem como nostalgia. É como se por um segundo pudessemos pressentir alguma coisa que foi um dia. Uma imagem que não se verbaliza, mas que nos toca.
   Ésportes coletivos são dos mais pobres em sentido. O que eles simbolizam é apenas uma guerra tribal, ou mais óbvio, brincadeiras de pátio escolar ( que é onde eles nasceram ). O sentido que recorda arte e espírito se encontra mais facilmente nos esportes individuais. Eles trazem a marca do herói solitário, da responsabilidade por seus erros, da força perante o mundo adverso. Podem às vezes ser cheios de lembranças de sentidos perdidos, de atos esquecidos, emoções eufóricas.
   Existe toda uma educação estética no hipismo. Ele nos convida, como acontece com o melhor cinema, a admitir a existência de um outro modo de olhar e de vivenciar o tempo. Nele tudo é atenção ao detalhe. O que vemos é o mais belo dos animais sendo guiado pelo mais inteligente, mas nunca numa relação de mestre e servo, e sim numa parceria onde cada um dá o melhor que pode oferecer. As longas pernas se fazem energia e voam ou se disciplinam enquanto os olhos escuros arregalam-se em atenção absoluta. O sol brilha sobre o pelo do animal que é a obra-prima da elegãncia natural. E vence aquele que mais educado for. Cada pegada deve ser exata, cada movimento a repetição de uma exatidão, cada reação nervosa uma conclusão. A harmonia chega a ser musical, musica em que o som é a respiração do cavalo e seu trote ritmado. Tudo nesse esporte é arte, e essa arte nos ensina a ver. Usufruir.
   As provas hípicas são feitas em Greenwich Park. Para não se danificar o gramado, construiu-se uma plataforma a quatro metros de altura, onde a areia foi colocada e a pista construída. O gramado existe, cultivado e sempre verde, desde 1495. Em Londres, a mais de cinco séculos, se cuida de um gramado. Jamais se construiu nada naquele espaço, jamais se modificou seu design. E é lá que correm e trotam os cavalos.
   Nada pode dizer mais sobre o que seja a Inglaterra.

SIGHT AND SOUND, NOVA LISTA DOS 50 MELHORES FILMES

   Um amigo me envia a nova lista da revista inglesa Sight and Sound, nela os 50 melhores filmes da história do cinema. Pela primeira vez Kane não é o primeiro ( é o segundo ). Tentativa de ser diferente? Não sei. Kane está longe de ser meu filme favorito, mas ainda é o mais influente. Porque? Porque em duas horas ele exibe TODOS os tipos de cinema, todos os estilos, tanto do passado, como daquilo que se faria desde então. É por esse motivo que Kane é o filme de quem conhece e compreende o cinema. Ele recapitula e antecipa o próprio cinema.
   Mas quem venceu desta vez? VERTIGO de Hitchcock. E já aviso, ele é um de meus mais amados filmes. Faz tempo que Vertigo vem crescendo em todas as listas. Ele se beneficia do dvd. As novas gerações se surpreendem ao vê-lo, o adoram. Ele toca nos temas que são mais relevantes em 2012: solidão, real e imaginário, compulsão sexual, fetichismo e sadismo. Tudo isso com a técnica perfeita do gênio inglês. Vertigo ser o number one não surpreende ninguém. Ele é magnífico.
   A lista, como já disse, é influenciada pela voga do dvd. Filmes que eram famosos como lenda, ao serem vistos em casa, confirmam ou não sua fama. Vendo a lista em seu todo, três diretores sobressaem como renascidos em revisão: Tarkovsky, Ozu e Dreyer. Três filmes de cada um deles se colocam entre os 50 e o russo tem muito destaque. Devo dizer que dos 50 só não assisti um, História do Cinema de Godard, aliás vivemos um tempo godardiano, sua obra é bem representada.
   A lista nada tem de Tarantino, Woody Allen, Joel Coen, Clint ou PT Anderson. Os diretores em atividade representados são Wong Kar Wai, Lynch, Bela Tarr, Scorsese e Kiarostami. Estão longe de serem meus favoritos.
   Mas é uma boa lista. Apesar de não dar o destaque a Bergman que eu daria ( temos Persona em 18 e só ), vemos Ozu em terceiro, Murnau em quinto e Rastros de Ódio de Ford num belo sétimo lugar. Fellini está em décimo e Os Sete Samurais de Kurosawa é o 17. É bacana ver Bresson e seu Balthazar entre os topo 20 e meu querido L'Atalante de Vigo em 12. 
   Listas nunca são como voce gostaria, mas esta não me causa revolta ou hilariedade. Sóbria, essa a palavra que a define.
   1 VERTIGO - HITCHCOCK
   2 KANE - WELLES
   3 TOKYO STORY - OZU
   4 A REGRA DO JOGO - RENOIR
   5 SUNRISE - MURNAU
   6 2001 - KUBRICK
   7 RASTROS DE ÓDIO - FORD
   8 CÂMERA - DZIGA VERTOV
   9 JOANA D'ARC - DREYER
   10 OITO E MEIO - FELLINI
   11 POTEMKIN - EISENSTEINE
   12 O ATALANTE - VIGO
   13 ACOSSADO - GODARD
   14 APOCALYPSE NOW - COPPOLLA
   15 LATE SPRING - OZU
   16 AU HAZARD DU BALTHAZAR - BRESSON
   17 OS SETE SAMURAIS - KUROSAWA
   18 PERSONA - BERGMAN
   19 O ESPELHO - TARKOVSKI
   20 CANTANDO NA CHUVA - DONEN
   21 L'AVVENTURA - ANTONIONI
   22 O DESPREZO - GODARD
   23 O PODEROSO CHEFÃO - COPPOLLA
   24 A PALAVRA - DREYER
   25 IN THE MOOD - WONG KAR WAI
   26 RASHOMON - KUROSAWA
   27 ANDREI RUBLOV - TARKOVSKI
   28 MULLHOLLNAD DRIVE - LYNCH
   29 STALKER - TARKOVSKI
   30 SHOAH - LANZMANN
   31 O CHEFÃO II - COPPOLLA
   32 TAXI DRIVER - SCORSESE
   33 LADRÕES DE BICICLETA - DE SICA
   34 A GENERAL - KEATON
   35 METROPOLIS - LANG
   36 PSYCHO - HITCHCOCK
   37 JEANNE DIELMAN - AKERMAN
   38 SANTANGO - BELA TARR
   39 OS INCOMPREENDIDOS - TRUFFAUT
   40 VIAGEM À ITÁLIA - ROSSELINI
   41 PATHER PANCHALI - SATYAJIT RAY
   42 SOME LIKE IT HOT - WILDER
   43 GERTRUD - DREYER
   44 PIERROT LE FOU - GODARD
   45 PLAY TIME - JACQUES TATI
   46 CLOSE UP - KIAROSTAMI
   47 A BATALHA DE ARGEL - PONTECORVO
   48 LUZES DA CIDADE - CHAPLIN
   49 CONTOS DA LUA VAGA - MIZOGUCHI
   50 HISTÓRIA DO CINEMA - GODARD
        Devemos lembrar que filmes recentes tendem a cair sempre de posição, assim que seu impacto vai se extinguindo. Dificilmente veremos Lynch em listas futuras. O tempo é sempre o melhor juiz de toda arte. Vencer a passagem do tempo é o grande mérito.
        Como vivemos em tempos pouco imaginativos, Bunuel fica de fora. Assim como a elegãncia de Visconti ou de Resnais. Não são bons anos para requinte ou para delicadeza.
        Destaquemos a definitiva consagração de Ozu e os vários criticos discípulos de Godard se fazendo notar. Toda escolha reflete o momento em que ela é feita. O modo de filmar godardiano é hoje muito valorizado. Esta lista confirma isso.

GORE VIDAL, O ÚLTIMO ARISTOCRATA

   Gore Vidal foi o último americano aristocrata. Ele tinha uma nostalgia crítica daquilo que a América um dia fora e daquilo que poderia  ter sido. A América que ele amava não era aquela dos cowboys e nem a dos soldados heróis da segunda guerra. Era o país idealizado pelos fundadores. Ao ler Gore Vidal, indicado por Paulo Francis, em 1988, toda a minha ideia sobre o que fosse a História mudou.
   Imagine. Um grupo de intelectuais é incumbido de pensar e idealizar um país recém fundado. Isso é a América em seu apogeu. Franklyn, Jefferson, Paine...todos iluministas bem formados, todos liberais modernos, recebem a missão de fazer um país. Pela primeira vez, e pela única até hoje, uma nação nasce por ato de inteligência e não pelo acaso da história. Os EUA surgem como proposta, como ato humano, como obra da mente. Contrário da Europa, feita ao acaso de escombros do imperio dos romanos, os EUA são construídos pela vontade. Planejados. A terra da liberdade e dos ideais. Mas Gore Vidal logo nos alerta. Essa nação é traída. Ela desvia sua direção e se faz nação do militarismo. Primeiro sinal: a guerra contra a Espanha em fins do século XIX. O país tinha entre seus compromissos o não envolvimento em questões internacionais. Mas os militares se fazem poderosos. Nasce o país que conhecemos, uma ideia iluminista maculada pela realidade.
   Vidal escrevia bem. Tinha um estilo leve, direto, e desfiava uma corrente de informações enciclopédicas. Sua familia era daquelas que podemos chamar de aristocracia americana. Os filhos de Harvard, da politica liberal tradicional, da região de Boston e Philadelphia. Exemplo de elegãncia, tinha um caso de amor com a Itália. Para Gore, a terra de Dante era a única nação onde um homem com educação e senso de beleza poderia viver. Era apaixonado pela luz romana, pelos mármores envelhecidos, pela comida e o vinho. Gore Vidal era resenha constante nos jornais dos anos 80/90. Me mostrou que era possível cultivar a mente e ser feliz. Não foi pouca coisa. Eu pensava que todo intelectual era como Sartre. Um tipo de ratinho feio. Vidal era solar.
   Claro que ele tinha defeitos. O pior era a vaidade. Se ele era chamado de "Montaigne americano" ( e ele adorava esse rótulo ), devemos lembrar que Montaigne era genuinamente modesto. Um Montaigne vaidoso nega o próprio Montaigne.
   Seus livros históricos são excelentes. JULIANO deve ser lido por todos. E ele ainda frequentava Hollywood ( num tempo em que intelectuais sérios ainda acreditavam em cinema ). Assim como Aldous Huxley e Faulkner, ele se arriscou em alguns roteiros, o mais famoso sendo Ben Hur. Foi Vidal quem ressaltou a pulsão gay do herói. É hilária a história de como ele conseguiu enganar Charlton Heston, que não percebeu as pistas sobre a homossexualidade do filme.
   Gore Vidal morre, e preciso dizer, mais uma vez, que em mundo de Miami onipresente, Vidal estava sem lugar. Mais que um autor, um questionador. Um chato charmoso. Um belo de um escritor.

OLIMPÍADAS JUDÔ, CONSIDERAÇÕES SOBRE A BELEZA

   Na atual transformação que ocorre no bairro do Itaim em SP, gigantescos prédios de vidro estão nascendo. É óbvio que ao planejá-los tudo foi pensado, menos o supérfluo conceito de beleza. Eles são grandes, intimidadores, exibicionistas, funcionais, clean, moderninhos, simples, e é engraçado, nada disso significa beleza.
   Andando pelas ruas do Morumbi vemos uma sequência de muros e grades. Por detrás desses muros, lajes onde cinco carros são guardados. Não há jardim e quando há é apenas um gramado com pedras. Segurança, praticidade, conforto e solidez, mais uma vez nada remete ao conceito do belo.
   Falar em beleza hoje é parecer idiota. Interessante o fato de que as musas são gostosas e os musos um tesão. Se voce falar que tal atriz é linda parecerá pouco, ou pior, a pessoa que escuta o conceito "linda" fica com cara de bobo e te pergunta:" Mas ela é gostosa? " O que é a gostosa? O mesmo que o edificio de vidro ou o muros da casa, intimidante, poderosa, funcional e simples. Gostosa são peitos e bunda, a beleza é muito mais complexa.
   Mas é preciso, hoje mais que tudo, salvar a beleza e não se abalar quando voce for chamado de idiota ou de ingênuo por isso. Dizer que um filme ou uma canção é bonita se torna coisa em extinção. Dizem que o filme é sensacional, perturbador ou uma obra de arte, mas será bonito? Palavras morrem e seus conceitos morrem com elas. A beleza está em perigo. Em mundo onde a pornografia do imediato, do comum e do funcional dita a lei, o complexo e abstrato da beleza se faz cada vez mais indesejado. Pois a beleza faz pensar, faz parar para usufruir, faz crescer. Tudo o que nos torna mais humanos. Homens admiram o que é belo, inutilmente belo. Por mais que eu ame os bichos, jamais eles serão pegos admirando a estética de uma flor ou o lindo olhar de um gato. A beleza é sempre uma reflexão, um trabalho que mira o segredo, o escondido. É o oposto radical da exposição pornográfica, o anti-belo por odiar o segredo, o pensamento e a imaginação.
   Tudo isso para falar do judô. E do Japão, país que tem em sua base cultural a exarcebação do culto ao belo. Mas, aprendo agora, que existe o judô japonês, tradiconal, e o judô europeu, moderno. O europeu busca o acúmulo de pontos. O judoca faz pequenos golpes para ir marcando pontos. Mas não pode ser assim no judô nipônico. Nele, o judoca passa a luta toda sem se focar na pontuação, o que ele procura é o golpe perfeito, o yppon. Não são dados pequenos golpes para acumular pontos, tudo gira em torno da preparação do movimento correto, o momento supremo, a execução do "mais apurado, simples, puro e refinado golpe".
   Nasce então a explicação de minha aversão ao MMA. Golpes que podem fazer sangue, que podem quebrar são proibidos. O que se busca no judô não é a destruição do oponente, é a execução de um golpe. Entre o MMA e o judô há o conflito entre o pornográfico e o belo. E, triste dizer, o pornográfico vence, apoiado que é na radicalização da exposição pornográfica: sangue, suor, gemidos e dor. E principalmente, nenhum segredo.
   Beleza é tudo aquilo que pode nos salvar. Uma vida que não busca o belo não vale a pena ser vivida.

ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS EM LONDRES, SORTE DO BRASIL, FOI UM LIXO.

   Em 1992 fiquei emocionado, muito emocionado com a cerimônia de abertura olímpica em Barcelona. Eles aproveitaram a chance e exibiram sua cultura. Foi uma festa que misturava deuses gregos, o Mediterrâneo, mitos e monstros. Tudo temperado com um visual digno da terra de Miró. Na Coréia em 1988 a coisa chegou a extremo refinamento com uma festa toda baseada no Ying e no Yang, na dualidade da vida.
   A China nos deixou estarrecidos com uma saga vinda desde a origem do reino dos Chin até o Confucionismo. O que quero dizer é que todas essas festas exibiram ao mundo a profunda riqueza de cada cultura. E agora Londres...e que vexame!
   Deram para Danny Boyle a direção da coisa e o que ele fez? Nada. Não tenho quase nada a dizer. Ele poderia falar de celtas, de Shakespeare, do romantismo, da marinha inglesa, de Arthur e Lancelot. Ele poderia viajar na origem dos esportes criados pelos ingleses. Poderia até usar Lewis Carroll e o nonsense inglês. Mas o que ele fez? Uma bobagem sobre a revolução industrial e uma tolíssima e longa cena em que foi exibida a "música inglesa". Well...Eu adoro rock, mas porque não um pop mais folclórico, mais inglês? Porque não a verdadeira música inglesa? Será que eles não têm música própria, só o rocknroll de Memphis, Tennessee?
   Se um marciano visse a cerimônia sem saber nada sobre a Terra pensaria que culturalmente a Inglaterra é apenas um tipo de jukebox. Um fiasco! Digno de Boyle.
   De qualquer modo foi legal lembrarem dos Kinks e do The Jam. Mas é símbolo de algo muito estranho ver a rainha diante dos Sex Pistols. O Queen foi de longe o mais aplaudido. Eu ouso dizer que é a banda mais amada na ilha.
    E passaram trechos de uns filmes ingleses. Passou Kes de Ken Loach e uma cena de um filme de Michael Powell. Bacana lembrarem desses filmes. Mas é isso a Inglaterra? Cinema e rock? Então não é mais um país, é um simples estado americano! Sem cultura própria, sem ter criado nada de original a não ser a revolução industrial....
    Fico puto porque eu admiro muito a Inglaterra. Eles nos salvaram do nazismo. Eles ousaram falar em constituição antes de todos pensarem nisso. Criaram o que entendemos por imprensa livre. Os esportes com regras e campeonatos. E literatura como nenhuma outra. Mr.Boyle tinha Robin Hood para brincar. Peter Pan. Os piratas. Churchill. Mas não, nada de nada.
    Bom pro Brasil. Daqui a 4 anos qualquer coisa será melhor que isso.

DEPARDIEU/ JAMES CAGNEY/ BATMAN/ EMMANUELLE BÉART/ RIDLEY SCOTT/ CAROL REED

   CORAÇÕES LOUCOS de Bertrand Blier com Gerard Depardieu, Patrick Dewaere, Miou-Miou e Isabelle Huppert
Um original. Dois amigos que vivem de roubos fazem tudo o que o desejo lhes manda fazer. E tudo sempre dá errado, claro. Mas eles não desistem. São burros, grossos, violentos, e pensam que toda mulher quer e deve ser usada. No inicio admiramos o filme e odiamos os personagens; depois começamos a sentir uma ternura indesejável por eles. O filme ruma ao sublime, sublime que nasce nas cenas da carona final. Eles quase se humanizam de tanto apanhar. Feito hoje seria transformado em filme solene e psiquiátrico, felizmente foi feito na hora certa ( 1974 ). Seus atores viraram estrelas, eram todos desconhecidos então. Um filme de extremos, voce vai adorar ou abominar e sua reação dirá muito sobre voce mesmo. Nota 9.
   GESTAPO de Carol Reed com Rex Harrison e Margaret Lockwood
Carol Reed é um dos grandes nomes da história do cinema inglês. Aqui, em plena segunda guerra, ele faz um filme em que um cientista tcheco é disputado por espiões ingleses e nazistas. O enredo é totalmente inverossimil, mas tem belas cenas em trem, suspense e clima. Adoro esses filmes noturnos, escuros, cheios de sombras e névoa. Mas a fraqueza do roteiro o compromete. Nota 6.
   JEAN DE FLORETTE de Claude Berri com Yves Montand, Gerard Depardieu e Daniel Auteill
Um imenso sucesso popular e de critica na França de 1987. Baseado no livro de Pagnol, passado na Provence, fala de dois viizinhos lavradores. Um, que vive na terra desde sempre, é falso, ignorante, manipulador, o outro, que acaba de chegar da cidade, tenta aplicar a ciência ao campo. É um homem alegre, honesto, otimista. Está feita a disputa, disputa pela água e pela sobrevivência na terra dura da Provence. Bem...Peter Mayle escreveu montes de livros sobre o lugar, para ele um tipo de paraíso cheio de franceses bons e engraçados. Pois este filme mostra a verdade, é um lugar dificil, áspero, de gente desconfiada e fofoqueira. Devo dizer que é um dos filmes que mais me enervou, fiquei completamente enojado com a maldade que ele exibe. Será genético, já que sei que meus antepassados viveram exatamente como eles? Poucos filmes exibem a maldade humana de modo tão cruel. Uma maldade pequena, mesquinha, burra, estúpida. O filme, que é simples até a medula, me foi insuportável. Sem Nota.
   A VINGANÇA DE MANON de Claude Berri com Daniel Auteill, Yves Montand e Emmanuelle Béart
Continuação de Jean de Florette filmada ao mesmo tempo que o filme acima. A filha de Jean cresceu, o bronco que é seu vizinho se apaixona por ela, ela se vinga. Preciso destacar a atuação de Auteill. Ele faz um tipo de homem-bicho, homem-pedra, limitado, sovina, rude e sem palavras, que cai de amores por Manon e sofre terrivelmente por isso. Uma atuação tão perfeita que chega a assombrar. Béart se fez estrela aqui e tem uma beleza natural, pura, esfuziante. Para muitos é a mais bela das atrizes atuais. E por fim, uma nota sobre o mito Montand. É um de seus últimos filmes e ele faz algo de muito raro. Pois passamos todos os dois filmes o detestando e ao final, quando ele sucumbe à dor, o perdoamos e desejamos que seu sofrimento pare. O rosto melancólico, crispado de culpa...lindo. Os dois filmes juntos são uma bela obra sobre um mundo seco e mesquinho. Longe da perfeição, mas bastante fortes.
   A CANÇÃO DA VITÓRIA de Michael Curtiz com James Cagney e Walter Huston
Bio sobre George M. Cohan, uma estrela dos palcos americanos entre 1890 e 1920. Os americanos adoram este filme, que é muito bem feito, mas fora da América ele tem dois problemas sérios. Primeiro o fato de que Cohan não é uma figura mundial, e segundo o hiper patriotismo do filme. Mesmo que voce não seja anti-americano, incomoda seu excesso de bandeiras e frase sobre a glória da América. Cagney está hiper atlético, dançando em seu modo irlandês, longe dos filmes de gangster. Nota 4.
   BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE de Nolan com Bale e etc
Caraca! Lançado em centenas de salas, isto não é um filme, é uma operação de marketing. Nolan faz de tudo para se dar bem. Em meio a crise na cidade de Gotham ele tenta agradar a todas as tribos, e desse modo não agrada ninguém. Acena para liberais e republicanos, defende a ordem e o kaos, nada defende, então a verdade é que acena para os recordes de bilheteria. Problema nenhum se o filme fosse um tipo de Star Wars assumido. Mas, como bom Jeca, pinta tudo com um leve verniz de "arte". Pra que esse verniz só ele sabe. Arte de Jeca, que nunca é criatividade, mas sim escuridão e "dor". Jecas acham arte uma coisa tão esquisita, tão "superior", que sempre tendem a pensar que ela seja tristeza e desencanto. Esquecem que arte é vitalidade, coisa que todos os Batmans, desde Tim Burton, nunca tiveram. Se eu o analisar apenas como uma aventura pop ( o que não quer ser ), a coisa fica pior. Aventura tem de ser divertida, leve, ágil e fazer com que os minutos passem voando. Isto é pesado, solene, complicado, chato, arrastado. Saudade de meus gibis. Nota 1.
   PROMETHEUS  de Ridley Scott
Aff.... confesso que dormi. Acho que já deu pra Scott. Seus filmes, hiper empetecados, me lembram sempre o pior do cinema publicitário. O roteiro, pseudo profundo, é risivel. Alguém leva essa gororoba a sério??? Kubrick um dia fez uma obra de arte abstrata chamada 2001, e até hoje pagamos o pato. ZERO!!!

O TEMPO DANÇA E AS GERAÇÕES VIRAM PÓ

   Demorou pra acontecer, mas começo a sentir uma diferença de geração entre meu modo de existire o modo de quem tem hoje dezoito anos. Não se assuste, mas apesar de ter tido dezoito a trinta anos atrás, eu sempre me adaptei facilmente a todas a gerações que fizeram dezoito desde então. Mas a geração que agora tem dezoito é a primeira a ter nascido e vivido sempre num mundo interligado. Eles não sabem o que é não poder fazer um download ou ligar pra mãe de qualquer lugar no planeta. Pela primeira vez em minha vida compreendo o que seja o tal abismo de gerações. Não os entendo. Consigo conversar com eles, consigo ser amigo até, mas no fundo fico sempre esperando que eles afinal me mostrem seus sonhos, seus planos para a vida, que me exibam seu entusiasmo. Não encontro. Acho que é só isso mesmo. Trabalhar e ficar firme na segurança individual. Não planejar nada a longo prazo. E acreditar em não acreditar: o mundo é isso mesmo e daí pra pior. É a mais niilista das gerações. A miserável geração dos anos 80 também era individualista e fechada, mas acreditavam numa coisa com toda a firmeza: no dinheiro e no progresso. Agora não se tem fé no dinheiro e muito menos no progresso, mas ao mesmo tempo não se acredita em nenhuma alternativa.
   Ter 18 anos e não ter planos, mesmo que sejam de destruição. Nada mais triste.
    Penso então em meu pai e naquilo que ele devia pensar de mim.
   Meu pai foi pai tarde, quando nasci ele tinha 36 anos. A geração dele foi a da guerra, da de Hitler. Era a última geração a tentar crer em familia, honra e coragem. O mundo de meu pai era baseado em regras e a liberdade não era um valor para ele. Liberdade era uma característica, não um objetivo. A razão da vida era cumprir uma meta, e essa meta nunca era individual. Meu pai acreditava em trabalhar para o bem da familia, e só isso já seria uma razão para viver. Ter filhos e os educar. Era tudo.
   Se a dele foi a última geração familiar, a minha foi a primeira, no Brasil, a crescer completamente hipnotizada pela TV. Na Tv, desde cedo, a gente recebia estimulos. Éramos muito mais nervosos, dispersos e ansiosos que meu pai. Não sabíamos o que desejar, o que fazer, o que ser. Queríamos que a vida fosse como a TV, editada. A liberdade era o maior valor. Fui adolescente entre 75 e 83, e nessa época era o "ser voce mesmo" o maior valor da Terra. Tudo girava em ser o que se é. Lembro que a propaganda batia nessa tecla: Seja voce mesmo. Para a geração de meu pai, isso era de uma futilidade absoluta. Vinha daí a barreira entre nós.
   Arrogantes, vaidosos, privilegiados, era assim que a geração dele nos via. Eles sentiam que haviam lutado para dar ao mundo uma geração flácida, medrosa e pouco viril. Pois é.... O que eles não podiam ver é que nossa familia eram os amigos, a honra se tornara liberdade e coragem podia ser auto-análise. Foi a minha uma geração que ainda se unia em grupos naturalmente. Até os 22, 23 anos, eu não sabia o que era ver TV sózinho ( tinha uma no quarto, mas só a assistia com meu irmão ), e ouvir música a sós... pra que? O legal era escutar e poder delirar em grupo!
   Agora há essa geração que sempre escutou música com fones, sempre conversou pela internet e que sempre manteve uma distãncia segura do silêncio e do ócio. Correm e fazem coisas todo o tempo, nunca param. E sempre estão separados. E os rostos, é o que mais sinto, sem muitas expressões, meio sonados, ausentes, frios, pouco empolgados.
   Não sei porque me deu vontade de postar esse video que adoro, logo aí abaixo.
   Na India, um bando de ciganos canta e dança. Olho e vejo saúde ali. Toda a saúde de corpos que falam e celebram. Quanto mais longe estivermos disso, pior estaremos.
   Richard Rorty disse que ao ter câncer foi a poesia, e não a religião ou a ciência, que o fez ter coragem. Quando meu pai morreu eu vi esse video.
  

POR QUEM OS SINOS DOBRAM- ERNEST HEMINGUAY ( ELES DOBRAM POR TI )

   Primeiro esqueça a Espanha. Muita gente falava que este livro tinha "sabor espanhol". Não tem. O que tem é um enjoativo sabor de mel. Sim, já fui um fã de Heminguay. Posso até dizer que ele foi o primeiro escritor a que chamei de ídolo. Mas isso foi muito tempo atrás. O que restou é meu amor a um único livro seu, O SOL TAMBÉM SE LEVANTA, de longe o melhor, e a decepção com este, que é seu mais famoso livro e que acabo de reler. Se em 1992 eu havia me decepcionado com ele, agora, vinte anos mais tarde, a decepção foi idêntica. O amor entre o casal vivendo a revolução na Espanha dos anos 30 é piegas.
   O tempo foi cruel com Heminguay. Nos anos 50, ainda vivo, ele já era infinitamente menos considerado que Faulkner ou Fitzgerald. Quando ganhou o Nobel já parecia velho. E pensar que nos anos 20/30 ele era o exemplo para todo novo escritor. Porque?
   Heminguay parecia viver. Ele não era um arrastador de canetas. Ele namorava, bebia, viajava, lutava boxe, ia às guerras, desafiava a vida. E escrevia de um modo moderno, ou seja, simples, sem julgar seus personagens, sem adjetivos, direto. E que belos personagens pulavam de seus primeiros contos e de O SOL TAMBÉM SE LEVANTA! Eram reais, bem delineados, e falavam coisas aparentemente irrelevantes, mas cheias de sentidos ocultos. Ele era bom. Muito bom. E escrevia diálogos como ninguém. Mas então ele inflou. Começou a crescer demais e se apaixonou pelo Heminguay folclórico. Deixou de ser um escritor e virou um persoangem. Um tipo de dono do terreiro, de galo de briga, de papa das letras. Difamava colegas ( só tinha respeito por Tolstoi e Faulkner ), chamava-os de maricas, de enganadores, de invejosos. Juro que não é um mero chavão, mas a fama matou o escritor. E entre 1929/1960, nenhum autor era mais famoso que ele, mais famoso que Sartre, Camus e Bernard Shaw, mais do que Paulo Coelho ou Garcia Marquez são hoje. Então, súbito, os novos escritores dos anos 60 acabaram com ele. Heminguay deixou de ser modelo e virou espantalho. Seu machismo, sua arrogãncia, sua paixão pela caça e pelas touradas viraram defeitos. Ele se foi.
   Hoje, com distanciamento, dá para pensar em Heminguay como ele é, nem modelo e nem espantalho. Muito melhor ( em seus bons momentos ) que Steinbeck ou John dos Passos, léguas atrás de Fitzgerald e Faulkner. Provávelmente irei reler um dia a O SOL...., mas este POR QUEM OS SINOS DOBRAM deve ser evitado.

RICHARD AVEDON VEIO ANTES MA CHER....

   Leia antes o texto abaixo postado sobre David Bailey e só então leia este.
   Já leu?
   Richard Avedon veio quinze anos antes. Ele nada tem a ver com o estilo swinging London-work class de Bailey. Aqui tudo é aristocrático. E se voce ama Annie Leibowitz, Avedon é seu mestre.
   Nada mais falarei. As fotos de Richard falam por si.
   Se Bailey teve sua homenagem em Blow Up ( que ele diz com divino humor ser "aquele filme sobre tênis" ), Richard Avedon foi feito por Fred Astaire em FUNNY FACE- Cinderela em Paris. Desafio alguém mais a ter tido a honra de ter sido interpretado por Astaire...Um rei fazendo um principe.

Richard Avedon: Darkness and Light (1/9)



leia e escreva já!