POR QUEM OS SINOS DOBRAM- ERNEST HEMINGUAY ( ELES DOBRAM POR TI )

   Primeiro esqueça a Espanha. Muita gente falava que este livro tinha "sabor espanhol". Não tem. O que tem é um enjoativo sabor de mel. Sim, já fui um fã de Heminguay. Posso até dizer que ele foi o primeiro escritor a que chamei de ídolo. Mas isso foi muito tempo atrás. O que restou é meu amor a um único livro seu, O SOL TAMBÉM SE LEVANTA, de longe o melhor, e a decepção com este, que é seu mais famoso livro e que acabo de reler. Se em 1992 eu havia me decepcionado com ele, agora, vinte anos mais tarde, a decepção foi idêntica. O amor entre o casal vivendo a revolução na Espanha dos anos 30 é piegas.
   O tempo foi cruel com Heminguay. Nos anos 50, ainda vivo, ele já era infinitamente menos considerado que Faulkner ou Fitzgerald. Quando ganhou o Nobel já parecia velho. E pensar que nos anos 20/30 ele era o exemplo para todo novo escritor. Porque?
   Heminguay parecia viver. Ele não era um arrastador de canetas. Ele namorava, bebia, viajava, lutava boxe, ia às guerras, desafiava a vida. E escrevia de um modo moderno, ou seja, simples, sem julgar seus personagens, sem adjetivos, direto. E que belos personagens pulavam de seus primeiros contos e de O SOL TAMBÉM SE LEVANTA! Eram reais, bem delineados, e falavam coisas aparentemente irrelevantes, mas cheias de sentidos ocultos. Ele era bom. Muito bom. E escrevia diálogos como ninguém. Mas então ele inflou. Começou a crescer demais e se apaixonou pelo Heminguay folclórico. Deixou de ser um escritor e virou um persoangem. Um tipo de dono do terreiro, de galo de briga, de papa das letras. Difamava colegas ( só tinha respeito por Tolstoi e Faulkner ), chamava-os de maricas, de enganadores, de invejosos. Juro que não é um mero chavão, mas a fama matou o escritor. E entre 1929/1960, nenhum autor era mais famoso que ele, mais famoso que Sartre, Camus e Bernard Shaw, mais do que Paulo Coelho ou Garcia Marquez são hoje. Então, súbito, os novos escritores dos anos 60 acabaram com ele. Heminguay deixou de ser modelo e virou espantalho. Seu machismo, sua arrogãncia, sua paixão pela caça e pelas touradas viraram defeitos. Ele se foi.
   Hoje, com distanciamento, dá para pensar em Heminguay como ele é, nem modelo e nem espantalho. Muito melhor ( em seus bons momentos ) que Steinbeck ou John dos Passos, léguas atrás de Fitzgerald e Faulkner. Provávelmente irei reler um dia a O SOL...., mas este POR QUEM OS SINOS DOBRAM deve ser evitado.