BRUCE LEE E O DESEJO DE AUTO-EXPRESSÃO

  Após ler tanta besteira nesta semana ( Calligaris perdendo a noção e dando destaque a uma "descoberta" cientifica idiota, pois desde criança eu sei que lombrigas fazem com que a gente faça asneiras, e uma Veja que dá de capa uma pesquisa que revela o óbvio ), topo com algo de instigante onde não esperava, na Fox Sports. Um especial chamado Bruce Lee Lives.
  Se antes vivemos o desejo de ser respeitado, o desejo de ser cidadão e o desejo de ser livre, desde a década de 70 vivemos o desejo de auto-expressão. Após a conquista da liberdade, ou melhor, após a superação da necessidade de se poder viver em paz, nasce o querer ser aquilo que se é.
  Em seu aspecto mais tolo esse desejo faz com que todos pensem ser especiais. A ilusão de que ser voce-mesmo é ser único. E na busca desse dom, vale tudo, desde dar tiros em alunos até se mutilar em programas de Tv. É como se a única coisa que pudesse dar valor a vida fosse isso: se descobrir e ter a "coragem" de ser aquilo que se é. A propaganda logo entendeu isso e hoje todo produto quer que voce seja voce.
  Bruce Lee foi um dos filósofos desse movimento. E isso eu não sabia.
  Baixo, franzino, chinês em país que não aceitava chinas, Bruce se entendeu como ser especial e usou uma disciplina férrea para ser aquilo que ele poderia ser. O melhor. Criou uma nova arte-marcial, toda baseada na auto-expressão, uma técnica em que voce cria sua própria técnica baseada em seus dons e no adversário do momento. Bruce Lee domina o que já existe antes de sua chegada e tira de dentro de si a novidade, se diferencia. É um "radical".
   Radical no sentido de se ir ao limite. Pegar uma disciplina e usá-la como expressão de si-mesmo. Tornar o esporte um tipo de arte consciente. E isso foi novo.
   Bruce Lee é um mito para skatistas, bikers, DJs e Rappers. Porque? É também um pioneiro que deu as coordenadas dos filmes de ação de hoje e um guru para diretores como Tarantino e Rodriguez ( além de infinidades de outros como McG, Rob Cohen e Zack Snyder ). Porque?
   O que marca seu estilo e sua mensagem ( ele deixou uma filosofia de vida ), é sua atitude de "foda-se" perante a vida. Lee não queria ser o melhor, ele queria ser ele-mesmo. É esse o espirito que move nosso tempo. Um skatista, um músico, um pintor, se ele tiver o ideal de ser "cool" está pouco se lixando com sua concorrência, com o que seja sucesso, com as regras. Sua única vontade é ser aquilo que ele é: único. É uma atitude adolescente. Só adolescentes têm essa ilusão de que dentro de cada um há a originalidade. Normalmente essa atitude leva a uma vontade arrogante de se chamar a atenção. Mas os que compreenderam o significado da mensagem, de que ser voce-mesmo não quer dizer ser diferente mas sim TENTAR ser original, PROCURAR sua verdade, esses conseguem atingir a liberdade, uma atitude relaxada de auto-suficiência, um verdadeiro espirito Foda-se. Tentar e procurar, e não necessariamente chegar.
   Fato que salta aos olhos: os idolos que sobrevivem desde então são aqueles que passam essa atitude Bruce Lee de ser. Olhamos o passado e não mais entendemos atores espetaculares como Olivier, Clarck Gable ou Jean Gabin. Eles não tinham esse compromisso de auto-expressão, eram "apenas" grandes atores.  Gostamos deles, admiramos seu talento, mas não pensamos em ser como eles. Somos muito mais próximos de gente como James Dean, Steve McQueen ou Brando, atores que procuravam ser uma usina de auto-expressão. Tudo desde então, seja em literatura, música, politica, segue essa estrada. O que permanece é o artista/homem comprometido com seu eu, o que passou a ideia de auto-expressão. A valorização do auto-centrado, do angustiado, do eterno mutante, a desvalorização do simplesmente competente, do satisfeito, do fiel ao meio.
  Bruce Lee, como Steve McQueen, cria o herói como homem que procura, mas não mais aquele que procura recompensa oficial ou honra perante a cidade, é o herói que procura ser livre e que tem a certeza de que ser livre é ser si-mesmo. Se essa recompensa é ilusória ou não, bem, isso não o preocupa. Sua vida é improviso constante, adaptação ao momento, criação sob pressão do meio.
  Se hoje, como em 1973, Lee e Steve são mitos para aqueles que importam, isso se deve ao fato de intuitivamente eles terem percebido que após a queda de tabús e de restrições o que viria era o desejo de auto-expressão. Seja criando uma nova luta, rabiscando paredes ou arriscando novas manobras sobre uma prancha. Eis nosso mundo. Eis a nossa impossível satisfação.

VOLTAIRE POR ROGER BASTIDE

   Voltaire nasceu filho de burguês bem colocado. Dinheiro e prazer, sua vida será marcada por esses valores. Mas um fato doloroso marcará sua entrada na maturidade, o fato de que na França de seu tempo, dinheiro comprava prazer, mas jamais comprava respeito. Doeu no imenso orgulho de Voltaire a percepção de que ele era apenas um escritor, um burguesinho, uma piada. Mas estou me adiantando. O belo texto de Roger Bastide começa analisando o porque de Arouet, nome verdadeiro do autor do Candide, assinar Voltaire. E não só isso, o porque de ele usar vários nomes e muitas vezes não reconhecer sua própria autoria.
  Uma questão de auto-preservação? A lei era autoritária, e textos ferinos podiam custar a prisão. Mas as máscaras de Voltaire dizem mais. Bastide diz que os pseudônimos servem na verdade para nomear os múltiplos seres que habitam em cada um de nós. Voltaire percebe que vivemos várias realidades, que em nós existem mundos díspares. Eis sua modernidade.
  Desde cedo ele amou a diversão e o teatro. Sua primeira filosofia é a do prazer. A vida existe para se divertir. E não vamos esquecer que em seu tempo ( século XVIII ), era o teatro que dava fama a um autor. Literatura séria era teatral, e os poetas vinham logo em seguida. Escrever prosa era considerada ocupação pouco nobre, futil. Voltaire ama o teatro e ama a fama. Tem ambição, quer ser o novo Corneille e o novo Racine, o rei do teatro francês. Por toda a vida ele escreverá peças, algumas de grande sucesso, outras não. Deve-se dizer, todas estão mortas em nosso tempo. O teatro de Voltaire é velho, chato, não mais se representa. Sua fama eterna virá de sua filosofia e de seus contos. E da ação que ele produziu. A vida de Voltaire fez dele um gigante.
  Fez dinheiro. Apesar de ser artista e filósofo, sabia capitalizar. Era cruel. Emprestava a juros altos, aplicava na bolsa e ganhava. Comprava terras. Era considerado frio, ambicioso, duro, implacável. Voltaire amava o dinheiro. Sonhava em ser embaixador, se fazer um nobre.
  Mas um de seus escritos ofende um conde que o esbofeteia na rua. A crise nasce aí. Nenhum amigo toma seu partido. E o conde nem admite um duelo, pois não iria se sujar em duelo contra um plebeu. Voltaire, que emprestava dinheiro aos nobres vê a realidade da França. Ele era um nada. Quando acontece em 1755 o terremoto de Lisboa, catástrofe que mudou a Europa, que deu impulso a crítica à religião ( que Deus é esse que mata uma cidade inocente? ), o amargor de Voltaire atinge seu apogeu. Mas que amargor é esse?
  Cartesiano ainda, ele ama a razão. E para ele, se Deus não pode ser racional, pois um ser racional não permitiria a injustiça, então Deus não pode existir. A razão não pode explicar Deus. Observe que Voltaire salva a razão destruindo Deus. Segundo Roger Bastide, Kierkegaard dará um passo adiante: nada é racional, incluindo Deus que é inexplicável como a vida. Para um cartesiano como Voltaire esse pensamento é impossível. O tempo de Voltaire é tempo em que a fé na razão é absoluta. Tudo é explicável, tudo tem um porque, uma causa e um fim. O surpreendente é que Voltaire nega Deus mas não se faz ateu. Ele crê num Deus que habita em todos nós. É um deísta.
   Mas o mundo é para ele absurdo. Esse absurdo vem do fato de que ele não consegue se livrar da razão. À luz da razão tudo parece absurdo. É preciso nada levar a sério. É preciso saber rir.
   E ao mesmo tempo é preciso saber tudo. Voltaire tem uma curiosidade sem fim. Pesquisa, vê, tenta entender. É poeta, contista, historiador, autor teatral, ator, cientista, filósofo, político e jornalista. Participa da Enciclopédia e faz-se inimigo de Rousseau.
  Rousseau acredita nos sentimentos. Voltaire zomba dos bons sentimentos. Rousseau fala da bondade natural do homem. Voltaire ama a civilização. Rousseau é sensível e Voltaire é intelectual. São inconciliáveis. Mas voltemos no tempo....
  Logo após o duelo que tanto o humilhou, Voltaire vai à Inglaterra. Detalhe: ninguém ia à Inglaterra então. A ilha era um país que não contava. Europa era França, Espanha, Roma, Viena e Prússia. Ninguém sabia nada sobre a Inglaterra e ninguém falava inglês. Pois será Voltaire quem lançará a moda inglesa, a mania que se apossará do continente. Na Inglaterra ele encontrará uma nação que tinha muito em comum com suas ideias. Uma crença na força do dinheiro, escritores como homens respeitados e a liberdade de se escrever o que se desejar. Sem medo. Os ingleses amavam seus escritores, os nobres aumentavam suas rendas, e a igreja não se metia na vida cotidiana dos cidadãos. Mas há também algo nos ingleses que desconcerta Voltaire. Ele observa que é um povo que está feliz de manhã, mas que no fim da tarde cai em terrível melancolia. Eis uma imensa diferença entre França e Inglaterra que se mantém séculos afora. A França é fria, racional, faladora, analítica, e de humor constante. Falta-lhe fantasia. Já a Inglaterra é sonhadora, melancólica, quieta, piegas e de humor desconcertante. Voltaire logo percebeu tudo isso. Shakespeare seria impossível na França ( apesar de logo se tornar um sucesso em Paris ), com suas fadas e ações irracionais. O que Voltaire não percebeu foi o humor inglês. Ele, como francês, tinha um humor ácido, destrutivo, cruel. O humor inglês é auto-irônico, carinhoso, tem pitadas de amor.
  Voltando a França ele logo lança sua obra de história, mais peças, contos, e com o tempo, e por ter tido a sorte de viver 82 anos, sua fama começa a se espalhar por todo o mundo. Já no fim da vida, Benjamin Franklyn vem da América e o visita. O filho de Franklyn lhe beija as mãos e diz que sua nação o ama. Voltaire percebe, espertamente, que a América consegue algo que ele sempre desejou. A união de Deus e da Liberdade. A divisa americana seria "God and Liberty".
  Há muito mais no texto de Bastide. A estada dele na Suiça, país que amava a liberdade mas que puritano, odiava o teatro. Suas relações com Frederico, rei da Prússia, monarca que desejava fazer de seu reino uma nova Atenas. E as mulheres, várias, variadas, usadas e descartadas.
  Voltaire viveu no auge da França. Tempo em que a razão era a rainha da vida. A ciência misturava-se com a filosofia e a arte com a politica. A vaidade imperava, a etiqueta. E Voltaire era muito vaidoso, esnobe, egoísta. Difamava sem remorsos quem o atacava, era agressivo, vingativo.
  Foi o primeiro escritor que chamei de ídolo. Teve enorme influência em minha adolescência. E desde então sempre peço a todo amigo que o leia. Se voce quer ser levado a sério, leia Voltaire. Depois a gente conversa. E nunca encontrei alguém que não gostasse de Candide, de Zadig ou de Micrômegas.
  Voltaire é pra sempre.

OS 17 DE HEMINGUAY

Um amigo me envia a lista dos livros que Heminguay preferia.
Fico feliz em saber que dos 17 títulos, 7 estão entre meus 17 favoritos e que 10 eu já li.
Os dezessete são:
ANNA KARENINA de Tolstoi. OS BUDDENBROOK de Thomas Mann. O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de Emilly Bronte. MADAME BOVARY de Flaubert. GUERRA E PAZ de Tolstoi.
CONTOS de Turgueniev. OS IRMÃOS KARAMAZOV de Dostoievski. HUCKLEBERRY FINN de Mark Twain. WINESBURG OHIO de Sherwood Anderson. RAINHA MARGOT de Alexandre Dumas. A PENSÃO TELLIER de Maupassant. AUTOBIOGRAFIA de Yeats. O VERMELHO E O NEGRO de Stendhal. A CARTUXA DE PARMA de Stendhal. DUBLINENESES de Joyce.
Há ainda um livro de W.H. Hudson, que desconheço e um livro de George Moore, que pelo que sei é autor jamais traduzido para o português.
Desses volumes, entre meus tops estão os dois de Stendhal e Anna de Tolstoi. O MORRO DOS VENTOS UIVANTES é meu livro mais querido e a coletãnea de James Joyce, DUBLINENSES,  é das melhores coisas que já li.
A lista mostra o quanto Heminguay era bom leitor. Ele tem gosto impecável.
Sinto a falta de Proust e de Cervantes. Mas assim como Henry James, eles estão distantes demais do universo de Heminguay.
Posso depois me arrepender, mas esta é minha lista:
Anna Karenina de Tolstoi.
No Caminho de Swann de Proust.
Dom Quixote de Cervantes.
Retrato de Uma Senhora de Henry James.
O Morro dos Ventos Uivantes de Emilly Bronte.
O Vermelho e o Negro de Stendhal.
A Cartuxa de Parma de Stendhal.
Dublinenses de James Joyce.
O Sol Também se Levanta de Heminguay.
Contraponto de Aldous Huxley.
As Viagens de Gulliver de Swift.
Candido de Voltaire.
Scoop! de Evelyn Waugh.
As Cidades e a Serra de Eça de Queirós.
Brás Cubas de Machado de Assis.
O Planeta do Sr. Sammler de Saul Bellow.
Passagem Para a India de E.M. Foster.
   Felizmente a liste de Heminguay não engloba poesia e teatro. Peças de Shakespeare e poemas de Yeats, Keats, Pessoa, Eliot e Wallace Stevens já acabariam com qualquer ranking.
   E fica a dúvida: Montaigne é filosofia, diário ou o que?

PAUL GAUGUIN, O HOMEM QUE NASCEU HOJE

   Paul Gauguin fracassou. Os dois objetivos principais de sua vida não foram alcançados. Ele queria ser "o maior pintor vivo", e queria aprender com os taitianos a ser "um primitivo". Não foi aclamado como o maior de seu tempo ( essa honra era de Monet e de Degas ), e jamais deixou de ser um europeu típico.
 Mas a vida de Gauguin valeu a pena. E muito! Paul é invejado até hoje, ele é o modelo dos descontentes. E muito mais que isso, ele antecipou um tipo de caráter que se mantém até hoje. Paul Gauguin poderia ter nascido em 1970 ou 1990.
 Não poderia ser em seu tempo o maior pintor vivo, porque ele negava aquilo que os artistas famosos de seu tempo mais prezavam: o futuro. O impressionismo amava a técnica, a velocidade e o mundo que viria nascer no futuro. Eram otimistas. Na verdade pensavam como os burgueses que odiavam. Gauguin odiava a ciência, a técnica perfeita, o futuro. Ele valorizava o arcaico, o primitivo, o simbolo. Era então chamado de infantil, bruto, parvo.
 Não conseguiu ser primitivo como queria. Era sempre um europeu observando um taitiano. Como europeu lhe era impossível entender e participar do "fazer nada" taitiano. Explico. Todos os quadros feitos no Tahiti de Paul Gauguin exibem nativos indolentes, descançados. Observe isso: eles, assim como nossos indios, conseguem ficar sem fazer absolutamente nada. Como animais ( e nisso não vai nenhuma critica minha ), eles se deitam e passam a tarde parados, sem nada fazer e "sem se sentir culpado por isso". Para nós, como para Paul, isso é impossível. Um domingo em que nada fazemos é um domingo perdido. Nosso descanço é ativo. Lemos, caminhamos, vemos TV, dançamos, visitamos amigos para fazer alguma coisa. Até nossas conversas devem ter uma ação, um fim. Gauguin pintava, escrevia, sentia culpa por não estar produzindo. Hoje, em 2012, até nossas crianças não sabem mais o que seja ficar deitado no chão olhando as nuvens e fazendo o nada. Deitados na praia estamos nos bronzeando, fortalecendo ossos ou preocupados com o câncer de pele. Estar lá, simplesmente lá, sem objetivo, sem culpa e sem deprê, isso nos é impossível ( mas eu fui assim até os 13 anos ). Um taitiano em SP hoje seria chamado de vagabundo, idiota ou mais provável, deprimido.
 Paul Gauguin tinha raízes peruanas. Nasceu na França mas passou sua primeira infância no Peru. De volta aos 7 anos, foi marinheiro e após se casar aos 22 anos, enriqueceu. Foi corretor da bolsa, teve filhos e pintava de fim de semana. Aos 35 anos, despedido, resolveu ser pintor. Largou a familia e caiu na vida.
 Em 1890 países exóticos eram moda. Gauguin sabia disso e sua arte é uma mistura. Ele tenta ser famoso, fazer aquilo que sabe poder lhe dar fama, e ao mesmo tempo é um original. Seu ego é gigantesco. Deseja ser reconhecido. Logo viaja ao norte da França, em busca do primitivo e depois faz sua primeira viagem ao Tahiti. Mas atente: ele vai a uma colônia francesa. Gauguin é radical em parte. Fosse realmente radical iria para um local de lingua desconhecida, mais incivilizado, onde fosse um ninguém. No Tahiti ele é o colono, inclusive sendo recebido pelo governador no porto.
 Mallarmé e os simbolistas logo se encantaram com Paul. Sua pintura sempre tem uma mensagem simbólica. Nunca é pintura pura, ela narra. Mas é uma narrativa cifrada. Quem não souber a ler não gostará de Gauguin. Os trabalhos de Paul são do tipo em que se deve amar a primeira vista. Se voce nada sentir, desista.
 Morte, liberdade e religião, tudo nele está impregnado desses três valores. Não há um só quadro de Paul Gauguin que não fale da morte, da religião e da liberdade. Ele era irascível, nervoso, intenso.
 Não falarei do fiasco que foi sua relação com Van Gogh. Na verdade os dois passavam o tempo a se provocar. Penso que o holandês adorava o dom de vida que o francês tinha e Paul admirava a fé inabalável que movia Vincent. Tudo terminou em violência.
 Gauguin após sua primeira estada no Tahiti volta a França pensando que seus quadros tropicais serão um sucesso. Fracassa. Ele é considerado muito pouco exótico. Seus quadros são "pouco decorativos". Mais raivoso que nunca, volta ao Tahiti, para sempre. Nessa segunda estadia, além de continuar a amar suas nativas adolescentes e a passar doenças venéreas a todas elas, Gauguin entra em atrito com as autoridades francesas na ilha. Finalmente percebe que o paraíso se transforma em inferno. Que seus nativos são um tipo de brinquedo dos colonizadores. Que a vida idilica dos taitianos está a desaparecer. Ele passa a lutar por eles. O governador tenta o deportar.
 Sua pintura se enriquece. O colorido domina. Gauguin não é um desenhista, ele é um colorista. E um escultor. Suas pinturas tem um talento escultório. Elas são sólidas, parecem grandes. O principal: em Gauguin não há um centro. Não existe hierarquia. Tudo na pintura é importante, tudo é um mesmo, nada é destaque. Não existe um centro, um foco. Seu simbolismo religioso se torna prodigioso. Cada quadro é uma narrativa mistica.
 Tivesse vivido mais dez anos Paul Gauguin conheceria a fama que almejou. Mas morreu aos 54 anos, após ser preso por alguns meses, de gangrena. Era 1903. Em 1913 ele era o pintor mais amado pelos modernistas.
 Mas não vamos fazer romance. Gauguin vendeu quadros, não foi um Van Gogh. Teve uma certa fama entre os poetas e os rebeldes de Paris. Degas comprava seus quadros. E acima de tudo, Paul Gauguin viveu a vida que escolheu. Nunca foi uma vitima. Amou suas taitianas ( hoje seria um pedófilo ), e tentou, sem sucesso, ser um deles. Está vivo para sempre em pinturas, esculturas, livros que escreveu e na lenda de sua vida. Foi um existencialista antes do tempo. Um hippie 60 anos antes. Um ansioso de 2012.
 Aos 15 anos eu vi meu primeiro Gauguin. Amor eterno e de primeira vista. Cada cor conversa comigo. Eu entendo o que ele queria. Sinto o que ele sentia.

Paul Gauguin



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TODA ARTE É SUJA E DOENTE

   Inspirado pelo belo artiguete de Vladimir Safatle.
   O artista, assim como o filósofo, viu demais. Algo que aos outros é vedado ver. Para eles a vida é grande demais, terrível demais, sedutora demais. Ao perceber a vida em toda sua plenitude, o artista se defronta com seu maior mistério: a morte. Essa vida grande demais é o que lhe dá o aspecto de doença e de neurose. Doença e neurose que É A MARCA DE TODO ARTISTA E DE TODO FILÓSOFO.
   A frase acima é de Deleuze e Guattari.
   A doença é parte da arte. Não é um ônus ou uma sublimação, simplesmente ela faz parte da visão. Mas se vivemos numa época em que a doença e a neurose são indesejadas, mais que isso, odiadas, consequentemente a arte e a filosofia serão vistas como incômodos. Se tornarão fracas.
   O artigo me impressiona por tocar ( e confirmar ) duas sensações que sempre me acompanham.
   Primeiro. Quando vejo um filme de Clair ou de Mizoguchi ( entre muitos outros ), o que mais me impressiona é a sujeira. Nada neles é limpo, polido, hospitalar. Essa poderia ser uma visão romântica minha, mas na vida que levo percebo que a inquietação e criatividade estão sempre ligadas a desarrumação, a uma certa sujeira. Amigos muito organizados, limpos, com unhas bem feitas e roupas recém passadas costumam ser cegos a complexidade inexplicável da vida. Têm explicações para tudo, compartimentam suas emoções, vêem as coisas em alcance curto. E morrem de medo de coisas como loucura, drogas, desorganização, sexo promíscuo e morte. Veja, não defendo o sexo sujo ou a droga. É que para esses hiper-controlados, quase todo sexo é sujo. Por outro lado, amigos que vivem em apartamentos imundos, roupas amarrotadas e descontrole de vida, costumam ter muito mais criatividade e coragem perante a grande vida.
   É claro que existe a pose. Fácil observar o desarrumado criativo de butique. O que falo é do cara que realmente cria algo. O amigo que está sempre às voltas com grandes ideias. O sujo Dolce e Gabanna não me interessa.
   Voce também pode falar de artistas meticulosos. Gente como Henry James, bem arrumados e de vida sexual hiper-controlada. Mas interiormente James era um kaos. Hoje seria um tomador de pilulas e um eterno analisando. Sua rotina era febril, seus pensamentos incontrolados, suas obssessões absorventes. Um doente.
   Vladimir fala que hoje a doença e a neurose são considerados "momentos vazios", que devem ser aniquilados o mais depressa possível. Como aliás ocorre com a morte, que deve ser esquecida sempre. O que perdemos é o falar com a doença.
   A doença, fisica ou não, é sempre uma crise. E a crise é o sinal de que voce se tornou PEQUENO DEMAIS PARA UMA VIDA QUE EXIGE DE VOCE A GRANDEZA. Todo doente sabe, que após a doença prolongada vem uma nova vida. Um renascimento. Voce se sente grande e pronto para algo mais exigente. A moderna fixação na saúde faz de nós um SEMPRE O MESMO. É como se ser uma crisálida fosse uma doença e nos esforçássemos para jamais tornar-se borboleta.
   Mas a vida é crise constante. É impossível não se estar doente de alguma coisa todo o tempo. Dispendemos toda a nossa energia nessa luta em vão. Nosso asco a doença, nosso horror a morte faz de nós seres que não conseguem mais dialogar com a doença e com a neurose. Fugimos das duas crises. Corremos para a não-criação.
   A vida sempre encontra respostas para as questões que ela mesma coloca. Basta saber ouvir essa resposta. A doença é a vida. Estar vivo é viver em crise e em risco. E a vida produz doença e sujeira. Negar tudo isso é negar a vida. É querer ser máquina, querer ser equação, querer ser morto.
   Triste sina: mortos não sentem dor e não ficam mais doentes.
   Jacques Lacan: Neuroses são questões. A doença é um tensionamento da vida. Deve-se buscar o que ela tem a dizer.
   Daí vem a postura do artista. Ele sabe que a questão colocada pela neurose é uma grande questão. E se esforça em encontrar sua resposta. Ele sabe que a tensão da doença é uma prova grande. E se esforça em vencê-la. Mas o que se faz hoje é exatamente o contrário. Um esforço para se esquecer da morte, se apagar a neurose e se livrar inconscientemente da doença. Ignoram-se as questões.
   Conheço os dois lados e posso dar meu testemunho. Sei o que é ter uma neurose de morte aos 16 anos e passar meses tentando entender a morte, e melhor que isso, criando histórias, teses, desenhos, ações que me fizessem entender o que se passava comigo. Eu pintava quadros, escrevia contos, sonhava sonhos absurdos, dançava a tensão. Vivia sem parar, vivia grande e com uma dor imensa. Rememorava tudo, nunca parava de fazer coisas. E buscava a vida. Tinha de achar uma resposta.
   Mas conheço também o alivio do comprimido, da solução sem dor, do imediato. Livrar-se da neurose, do sintoma com um gole de água. Deixar a vida GRANDE morrer. Eu sei o quanto a vida pode ser pequena, o quanto ela pode se tornar modesta.
   Conheço gente como eu, que fez o mesmo caminho. Todos morrem de saudade da vida GRANDE, sentem que a vida após "a cura" ficou pequena, futil, sem cor. Nos tornamos "como todo mundo", perdemos aquilo que fazia de nós únicos. Mais um anabolizado espiritual ou siliconado da vida.
   Não irei jamais voltar a ser o que fui quando "doente". O mágico da VIDA GRANDE é que voce não a escolhe, voce vive nela como sina. Ninguém opta por ser doente, neurótico ou sujo. A vida vive em voce e voce procura solucionar o enigma. Mas ninguém escolheria voltar a dor. Sabemos que viviamos de forma mais rica, que aprendíamos mais e que nos sentíamos especiais, mas não podemos programar esse retorno. Programar já seria uma traição.
   Me incomoda a quantidade de filmes com gente doente. Com hospitais. A quantidade de apartamentos limpinhos, de atores saudáveis, sem gordura nenhuma, sem uma ruga, um sinal, uma cicatriz. São filmes com gente doente "limpa". Eles não são filmes doentes, são filmes que nos ensinam a superar a morte. A vê-la como ficção. Banalizar.
   Meu quarto hoje tem cada coisa em seu lugar. E tem uma TV, som e PC.
   Sinto uma saudade imensa de quando pilhas de cadernos ficavam no chão, livros se espalhavam pelas poltronas, pincéis e latas de tinta num canto e meus dois cães dormindo em minha cama. Absolutamente solto. Naquele quarto se respirava vida. E um monte de pó e de ácaros.
    No recente filme de Woody Allen o personagem de Owen Wilson desiste de seu sonho quando recorda que em 1920 se morria de tuberculose. É exatamente o medo da morte que mata seu delirio feliz..... Pensem nisso.
    Nossa época tenta algo de grotesco: produzir arte sem sujeira, arte util, artistas saudáveis. Nosso tempo odeia a arte tanto como odeia a religião ( igreja é outra coisa ). Arte  e religião só podem ser aceitas se forem uteis e lógicas. O Util e o lógico matam as duas.
    Faça um teste. Se imagine num tempo de grande arte e  filosofia. Talvez o tempo de Kant, Beethoven, Goethe e Keats. Observe como todo esse sonho será desfeito quando voce pensar: Eles fediam, tinham pulgas e se morria de gripe. Eis o pequeno mundo maculando a Grande Vida. O medo aniquilando a coragem. O util encurtando a visão do transcendental.
    Não existe arte sem doença?
    Mais que isso, não há vida sem dor.

EUGÊNIO ONEGUIN- ALEXANDR PUSHKIN ( O MAIS AMADO AUTOR RUSSO )

   Muito mais que Tolstoi, Dostoievski ou Tchekov, russos amam Pushkin. Eugênio Oneguin está para a literatura de lá como o Quixote para a Espanha ou Brás Cubas para o Brasil. É um centro, retrato de alma nacional. Dario Moreira de Castro Alves, tradutor do livro, diz que na Russia, taxistas, professores ou policiais, todos sabem trechos de Eugênio Oneguin na ponta da lingua.
   Pushkin é pouco traduzido. Esta tradução, de 2010, é a primeira para o português de sua obra-prima. Foi saudada com os louvores devidos. Dario foi diplomata. Aposentado, dedica-se a seu grande amor: as letras. Tem trabalhos sobre Eça e Camilo. E esta tradução trabalhosa. Trata-se de um romance em versos. É um romance por descrever ações, por conter personagens que agem no tempo; e é um poema, por ser todo escrito em versos de oito linhas, rimados.
   Pushkin é dos mais românticos dentre os românticos. Seu bisavô foi um negro etíope. Dado de presente a um nobre russo, esse antepassado foi educado e feito militar. O pai de Pushkin é neto desse etíope.
   Há um dito russo que fala que o czar Pedro lançou à Russia o desafio de se fazer moderna. E a Russia respondeu com Pushkin, o primeiro russo moderno. Nascido em 1799, é o poeta um homem da Europa. Cheio de ideais do romantismo, cheio de ansia por viver, e tombado pelo tédio/spleen. Mas ao mesmo tempo é Pushkin um russo. Para vencer esse nada, esse vazio existencial, ele mergulha nas raízes russas, no povo, no folclore, na alma única de seu país. Mais que europeu, um russo sempre.
   Viveu apenas 38 anos, foi morto em duelo. Deixou vários romances puros, sem verso, e este Eugênio.
    Eugênio é um nobre que descobre que a vida lhe é estranha. Tomado pelo tédio, ele ama as mulheres sem se envolver e acaba por tomar a decisão de se recolher. Irá viver só, estudando e observando. Tatiana é uma adolescente simples, mas jamais simplória, que se apaixona por ele. Lhe escreve carta onde se declara e ele lhe responde pessoalmente com frieza. Eugênio lhe explica que com alguém como ele, tão amargo, ela só poderá ser infeliz. Que ele não nasceu para casar-se. O tempo irá passar e ele se verá apaixonado por ela. Mas Tatiana já se casou então, e irá o rejeitar. A vida de Eugênio se resolverá em duelo.
   Como personagem Eugênio Oneguin é apaixonante. Imerso em Byron e Scott, tudo o que ele percebe da vida é sua própria face. Ele pensa apenas em si-mesmo, dialoga com seu coração, preocupa-se com sua vida. Mas não é um egoísta. Na verdade ele abre mão de tudo. Nada retém de seu, nada deseja, e acaba por se derrotar. Pior que isso, o livro mostra que Eugênio é um homem indesejado na sociedade russa. Seus questionamentos perturbam.
   Maravilhosamente romântico, todo o texto exala sensibilidade, consciência temporal, e aquela raiva contida, tão particular aos românticos de todos os tempos. Eugênio ama tanto ao amor que é incapaz de amar uma mulher. É tão ligado à vida que se abstém de viver. Livre, se prende ao seu mundo criado. É belo. É Pushkin.

O JORNAL MORREU E INSISTE EM FALAR

   Mas esse é o fim da picada.
   Um artigo sobre Peter Greenaway de uma superficialidade digna de um tweet. Depois uma coluna sobre Tv que é subitamente cortada. Pondé escrevendo mais um artigo sobre a mesma coisa de sempre ( bruxas ) e também encerrado às pressas. O que se passa com a Ilustrada???
   Enquanto isso o Estadão continua desenvolvendo seus temas e dando espaço a escrita. Quem está no caminho certo? E o que é O Certo?
   É óbvio que a Folha está assustada. Ela não escreve mais nada que não seja Teen. A impressão é que tudo é escrito com o medo de ser chato. Se tornou ilegível. Nada há pra se ler. São opiniões simples, redundantes, um rascunho de fanzine.
   O Estadão está longe de ser ideal, mas pelo menos ele ainda não rasteja. O texto não é picotado e alguns temas são desenvolvidos com calma.
   Não trabalho no meio, sou apenas um leitor. Meu primeiro jornal foi A Folha da Tarde, num tempo em que ainda existiam os jornais da manhã e as edições da tarde. Depois passei pro Jornal da Tarde, que tinha a melhor critica de cinema e rock. E desde de 1984 migrei pra Folha de SP. Que desde então, em cada reforma gráfica, se torna cada vez mais irrelevante. Perde colunistas que "escrevem" e criam colunas que apenas "dão um toque".
   Se depender da Folha, jornal impresso se tornará jornal pra se dar uma olhada. Quase analfabeto. Bom pra se embrulhar a sujeira do cachorro. É o fim.

The Rolling Stones - Jumping Jack Flash



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O FALSO E O VERDADEIRO. O ÚLTIMO SUSPIRO DO ROMANTISMO REVOLUCIONÁRIO- OUVINDO O BANQUETE DOS MENDIGOS E TRAVESTINDO-SE NA VERDADE

   Foi um longo caminho de 1776 até 1968. E ninguém nunca vai saber se valeu a pena. Foi uma lenta, às vezes nem tão lenta, construção. A derrocada da igreja e o erguimento do Homem como dono de sua dor. A glamurização do jovem entediado como Ser Superior. E isso levou muito tempo.
   Doeu pra caramba. Porque o preço pago foi incalculável. Um monte de jovens se foderam. E todas as redes de segurança espiritual se rasgaram. Mas cabelos compridos, calças de veludo e copos de veneno se tornaram dominantes desde então. Uma estrada que parecia ser sem fim. As estações se chamavam simbolismo, anarquismo, socialismo, dadaismo, existencialismo, beatniks. E todos esses movimentos explodiram em meio a uma juventude com tempo livre, grana no bolso e tédio na cabeça. Em meio a maio, ´mês de verão.
   Ninguém entendeu melhor o que acontecia. Nem Kundera. Jagger e Richards entenderam na hora qual era o desejo que desde sempre enfeitiçava os romanticos revolucionários do planeta. Mas antes de dizer qual era eu vou falar qual não era.
   Para Dylan era a vontade de justiça e de liberdade. Para Lennon era o sonho de paz e amor. Bláaaaa.
   Então voce tem 14 anos e escuta este disco pela primeira vez e percebe que o desespero contido nele é quase suicida. Todas as faixas falam de se estar perdido, de vazio e solidão, de satã e de raiva, muita raiva. Perigosamente voce, embutido do romantico apelo de poetas sinceros, crê em tudo aquilo, crê nas frases ditas. Voce, jovem idealista, sente uma vontade grande de quebrar e se quebrar. Mas depois, bem mais tarde, voce percebe o que Jagger e Richards perceberam antes. O desejo sempre foi um só: sexo, sexo e sexo. Todo o tempo, livremente e sempre que se desejar. E quando o vazio pós-coito vier, uma garrafa de bebida e a paz de um corpo cansado.
   Em 1968 Godard fez um filme com os Stones. Jean-Luc acreditou no que era dito no Banquete. Levou ao pé da letra. Jagger enrolou Godard. Riu dele e o filme é um lixo. Mick nunca teve nada a dizer. Seu discurso estava simbolizado nos requebros de seus quadris. Nada precisava ser dito. Ele falava que maio de 68 era o último suspiro ingênuo de adolescentes entediados que queriam mais sexo e menos familia. Se em 1776 essa energia fez um país e criou uma forma de vida, em 1968 ela só poderia criar moda. E criou.
   O disco é sublime. É extremamente cortante e extremamente suave. As guitarras parecem navalhas, não há disco em que elas soem tão metálicas. Parecem de lata enferrujada. E ao mesmo tempo há arranjos como o piano em No Expectations que é belo como o sorriso e a flor.  É um Banquete que recapitula tudo: de Beethoven até Stravinski. De Byron à Rilke. Jagger nunca cantou tão bem. E ele enterra a década de 60 dois anos antes de seu fim. A revolução estava encerrada. O ganho: Todos poderíamos ser Mick Jagger. Eternos adolescentes entediados.
   Brian Jones não pode tocar. Ficava dormindo num canto do estúdio. Dizem que Clapton e Steve Marriott tocaram guitarras. Sei lá. É um disco travado. Pra se ouvir de dentes cerrados. Ele marca o arranco da banda. Serão 4 anos insuperáveis.
   Em meio ao Kaos de tijolos e policiais, muitos caras caíram na real. A última revolução era um acerto de contas entre voce e voce-mesmo. O mundo já era dos jovens e o sexo já não era tabú. O que restava era saber lidar com o spleen, o vazio da vida, o nada a dizer. O Eu.
   Mick Jagger, de forma maravilhosamente intuitiva, soube disso muito antes. O que restava era montar uma banda e tentar chamar a atenção.
   Este disco é um porrete.
  

Mary Poppins - Supercalifragilisticexpialidocious The English Way



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MARY POPPINS ( É POSSÍVEL SE FAZER UM FILME ASSIM HOJE? )

   Julie Andrews trabalhou no vaudeville inglês desde criança. Adulta, criou o personagem de Eliza Doolittle no MY FAIR LADY original. Brilhou depois na Broadway, nesse que foi o maior fenômeno de sua história. Mas quando Jack Warner resolveu filmar MY FAIR LADY resolveu dar o papel de Eliza para Audrey Hepburn. Julie Andrews reagiu como uma lady.
   Ao mesmo tempo, após passar vinte anos tentando convencer a autora P.L.Travers a ceder os direitos, Walt Disney, em pessoa, preparava Mary Poppins. Uma noite na Tv, viram Julie Andrews numa cena de CAMELOT, ao lado de Richard Burton. MARY POPPINS seria o primeiro filme de Julie Andrews. E em sua estréia lhe daria o Globo de Ouro e o Oscar. Vencendo...Audrey Hepburn em MY FAIR LADY...
   O filme conta a história de uma babá que na Londres de 1910 vai cuidar de um casal de crianças. Elas são filhas de um pai que só pensa no trabalho e de uma mãe "politizada". O que Mary Poppins fará com as crianças? Liberará TODA a sua fantasia. E nesse processo o filme pode ser visto de dois modos.
   Como obra-prima do cinema para crianças ( mas não infantil ), ele valoriza a inocência. Mas não é a inocência passiva, é sim a ativa fé na criatividade, no jogo e na fantasia. Ter sido  criança e ter visto este filme no cinema se revela uma experiência para o resto da vida. Mary mostra aquilo que toda criança tem em si-mesma. Ela joga com imagens, com palavras e com as emoções. Mas há no filme uma visão adulta também, e essa se revela muito rebelde.
   Feito em 1964, no inicio da contra-cultura, o filme antecipa em dois anos o que seria dominante na swinging London de 1966. Mary Poppins voa quando quer, tira objetos imensos de sua bolsa, viaja pelas tardes de sol. E se não houver sol, ela faz com que ele surja. Mais que isso, ela ensina a se imaginar a vida, a se criar a própria realidade. Mas é no personagem de Dick Van Dyke que mora a contra-cultura.
   Bert, esse personagem, é pintor, limpador de chaminés, músico e poeta. É um hippie de 1910. Tudo para ele pode ser divertido. E trabalho tem de ser visto como coisa criativa, ou não vale a pena. O filme, pasmem, feito para crianças, prega abertamente a inutilidade do trabalho, a morte que existe na rotina cotidiana. O pai, pobre coitado, só pensa na moral vitoriana, naquilo que é util e racional. Mary Poppins instaura o reino da irracionalidade e do maravilhoso inutil.
   Cena das mais hippies é aquela do velho Uncle Albert, um homem que ri sem conseguir parar e que ao rir sai voando pelo quarto. Quem pensou em maconha acertou.
   A trilha sonora é dos irmãos Sherman. Richard morreu semana passada. É uma trilha genial. As músicas têm todas o sabor do music hall inglês, são como cançõe de pub, para se cantar em grupo e dando piruetas. Tanto Julie como Dick fazem com que nos apaixonemos por elas. Voce vai dormir pensando no que viu e acorda cantarolando.
   Porque não se faz mais um mísero filme como este? Tão feliz, alegre, pra cima, que faz com que seu público se sinta inspirado, confiante, leve?
   Ele foi um fenômeno de bilheteria e penso que hoje seria um sucesso na Broadway mas jamais nas telas. Ele pede gosto de seu público. Bom gosto e ausência de cinismo. Além do que não temos uma Julie Andrews dando sopa por aí. E nem compositores como os Sherman. Muito menos Walt Disney. Musicais são os mais trabalhosos dos filmes. Eles precisam de dezenas de grandes talentos. Ou o fiasco se faz. Um musical precisa de atores que cantem e dancem e que possuam simpatia avassaladora. Precisam de frases curtas e leves. De um diretor que entenda de ritmo e de harmonia. De excelentes cenógrafos. De músicas que grudem e conquistem em um minuto. E de muita fantasia. Mas os musicais precisam acima de tudo de um público que se permita flutuar. Que se solte. Educado para a poesia dos musicais.
   MARY POPPINS tem cinco canções que são obras-primas. Cinco. Uma delas levou o Oscar de canção. Ela é cantada até hoje. Quem lembra da canção que venceu no ano passado?
   Candidatos a melhor filme em 1964:
   DOUTOR FANTÁSTICO de Kubrick; MY FAIR LADY de Cuckor; BECKETT de Peter Glenville; MARY POPPINS de Robert Stevenson e ZORBA O GREGO de Cacoyannis. Eu só não conhecia Mary Poppins. Já conheço. Os cinco mereciam vencer.  E só pra humilhar, os atores daquele ano foram Richard Burton, Peter O'Toole, Peter Sellers, Anthony Quinn e Rex Harrison. Tá bom?
   Uma cena como aquela do telhado em que dezenas de limpadores de chaminés dançam de tarde, ou um final como aquele das pipas vale por cada centavo gasto em sua produção. Que delicia de filme!!!!

DIVAGANDO, ANDANDO, COMPRANDO, LENDO

   Cheguei então aos 2.500 dvds. Todos devidamente divididos em gêneros. Está dificil comprar novos títulos. Vários que já tenho são relançados e as caixas que eu tanto gostava não são mais produzidas. Olho e olho as novidades e não há nada....
   Estou na livraria. Ouço um cara falar que finalmente terminou "EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO". E uma mulher, bonita, pergunta por "A NOITE DE SÃO LOURENÇO" dos irmãos Taviani. Um menino olha um livro sobre Billy Wilder e um barbudo leva tudo de Buster Keaton.
    Alguém escreveu que o cinema ( adulto ), é hoje um tipo de "teatro". Meia dúzia de adoradores que estão sempre discutindo e revendo os Beckett/ Pinter e Brecht de sempre. Uma espécie de igreja pagã. Acho que todos os fiéis estavam hoje na livraria. Uma menina comprou um filme silencioso de Griffith.
   Madonna dirigiu um filme e o roteirista diz que ela é louca por Jean-Luc Godard. Madonna não é baladeira, fica em casa vendo filmes. Já viu "tudo" e adora a nouvelle-vague. Tenho saudades de quando comprei meus dvds de nouvelle-vague. Redescobrir a NV é uma experiência deliciosa. Dá a sensação de que dá pra se fazer tudo em cinema. Voce se sente livre. Tem um monte de diretores de quarenta anos que endeusam BANDE A PART ou WEEK-END. É a sedução da liberdade.
   Vejo numa revista que Hilda Hist morava isolada com 90 cães. Ela leu um livro de Niko Kazantzakis que dizia que a solidão é primordial ao criador. Então ela largou amores e badalações e se isolou pra criar. E conseguiu. Eu conheço esse livro do Kazantzakis. É TESTAMENTO PARA EL GRECO, um livro que todo mundo devia ler. Nele, Niko está em crise. Deixa de ser cristão e vira budista. Mas descobre que Cristo, Buda, Maomé são todos o mesmo. Ele se isola, e tenta conciliar com esse isolamento seu interesse pelo mundo. Ele segue Lenine, ele se interessa pela história, conhece a guerra. O livro exibe esse conflito. Uma alma que deseja a solidão para encontrar a criação e o Criador. E um homem que deseja a vida ativa, o mundo, os seres. Preciso reler. Li esse livro em 1989. Nunca o reli.
   Walter Carvalho fala que toda a criatividade de um cara se faz entre o fim da infância e o inicio da adolescência. Entre os 11 e os 13 anos. É verdade. É a genuína verdade.
   Compro A NOVIÇA REBELDE. Nunca vi esse filme. É aquele que bateu o recorde de bilheteria de E O VENTO LEVOU, em 1965. Nunca tive vontade de ver. Mas ele está sendo reavaliado e estou curioso. Julie Andrews é adorável. E compro também o DIVÓRCIO À ITALIANA, que saiu finalmente em dvd e que aconselho a todo mundo. É uma obra-prima da comédia humanista italiana. E tem um dos três maiores desempenhos de Mastroianni. Ele faz um conquistador de cidade pequena, super vaidoso, machista, tolo. É uma coisa de impressionar. Marcello foi um rei dos reis. O bigode que ele usa já vale o filme.
   Lançaram as bios de Pedro Nava. São milhares de páginas com as lembranças de Pedro. Ele escreve à Proust. Lerei um dia.
   Tudo sempre passa por Marcel Proust. Nosso mundo é um círculo em que as coisas retornam e se desfazem. Para depois serem retomadas. E reinterpretadas. É como se tudo fosse sempre agora.
   Tem um Henry Fielding em capa dura e ilustrado que muito me interessa. Fielding de luxo no Brasil....É um país estranho pacas.
   Terminei de ler MINHA VIDA DE MENINA, de Helena Morley.
   Helena era filha de ingleses. Escreveu entre os 12 e os 13 anos um diário. O livro, extraordinário, é esse diário. É hoje um clássico, traduzido entre outros por Elizabeth Bishop para o inglês. Morley mostra o que era o interior de Minas em 1895. Muita igreja, muita fruta roubada no pé, pescarias e uma familia imensa.
   Os filhos eram criados por mãe, pai, tia, avó, primos, vizinhos, padres e professores. Hoje quem os cria? Na época do livro ficar só no quarto era uma coisa de gente louca. Comer sózinho era impensável. São conversas longas à noite, idas às festas, casamentos e enterros. E os negros.
   As pessoas pegavam negrinhos pra criar em casa. A escravidão não existia mais, mas os negros estavam sem posição, meio perdidos. Então a gente lê sobre montes de negros, alguns morando nas casas grandes, fazendo bicos, e tendo filhos que os brancos recolhem.
   É um mundo longe de nós. Tudo o que as meninas querem é comida. Doces e brincadeiras são toda a felicidade da vida. E a figura paterna, sempre distante. Livro bonito.
  

OS VISITANTES DA NOITE, FILME DE MARCEL CARNÉ. O AMOR É O QUE?

O Diabo se ressente. Ele odeia vozes de gente e o som dos sinos. Adora o silêncio, o estar só e o fogo.
Um casal chega a um castelo. Estamos em 1400. Esse casal se apresenta como dupla de cantores. E fazem parar o tempo. São dois enviados do Diabo.
Seduzem o dono do castelo. Seduzem a noiva de um barão. Seduzem o barão. Brincam com essa sedução. Tudo vai em seus conformes, mas o amor é um enigma. E é então que o filme cresce.
O diabo usa o amor para o mal. Mas o amor pode vencer o mal. Como entender isso? O amor é um bem ou um mal?
Foi pouco antes do tempo em que o filme se passa que o amor revolucionou a mente dos homens. O amor como o conhecemos, o amor das canções e da renúncia, é criado pelos menestréis e pelos franciscanos. Mas que amor é esse que fez de nós seres obcecados por ele? Ele nos é natural ou foi por nós criado?
Um dos enviados do Diabo se apaixona de verdade. Rompe seu pacto. E o próprio Demo em pessoa vem ao castelo intervir. O Diabo torturará seu enviado, atormentará a jovem donzela. Ele se irrita com esse amor, zomba dele, joga com ele.
Conseguirá vencer. Ou não? Em amor nunca se sabe o que é vitória ou o que seja uma derrota.
Marcel Carné fez aquele que é considerado o maior filme francês do século ( O Boulevard do Crime). Este foi feito três anos antes e tem como em Boulevard, roteiro de Jacques Prévert. O que? Voce não conhece Prévert? Bom...Prévert foi poeta, pintor, músico. Da turma de Picasso, é considerado um dos grandes da França. Ele sabe do que fala. As canções de amor são lindas. E medievais.
Voce pode definir uma posição perante a vida de acordo com suas escolhas em cinema. Scorsese ou Altman. Bergman ou Fellini. Kurosawa ou Ozu. Ford ou Hawks. De Sica ou Rosselini. Truffaut ou Godard. E Carné ou Jean Renoir. Prefiro Marcel Carné. Ele é sempre simbólico. Renoir era realista.
Bergman adorava Carné e bebeu muito neste filme. O Olho do Diabo é sua versão desta obra.
O filme é hiperbólico, teatral, artificial, e tem uma assinatura de esteta. É belo. Adulto.
O que seria esse tal de filme adulto de que tanto falo?
Simples. Ele só será entendido por quem amou de verdade. Por quem já foi um "diabo". Por quem tem algum passado. O filme infantil dispensa qualquer prévia experiência. E qualquer cultura também. O filme adulto pede que voce se erga e vá à ele. O infantil se dá barato.
Pleno de milhares de conexões ( não seria nosso mundo, de solitários silenciosos, um mundo do diabo? ), Os Visitantes da Noite é um grande filme.
E é um alivio voltar a meus velhos clássicos.