COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO ( DIALÉTICA ERÍSTICA ) - ARTHUR SCHOPENHAUER

Schopenhauer tentou terminar este livro, tentou mas não conseguiu. A obra fora planejada como um ataque à Hegel, porém Hegel morreu e Schopenhauer perdeu sua motivação. Reencontrado, inacabado, foi lançado mesmo incompleto. Esta edição, de 1997, tem valiosos cometários e explicações de Olavo de Carvalho. O que impressiona? A atualidade terrível do texto. Vivemos em um momento histórico que despreza a verdade e valoriza a opinião. O que Schopenhauer ensina aqui, o modo de derrotar um oponente em um debate, usando para isso qualquer meio ilícito, é exibido sem pudor em nossos jornais, nas falas de pessoas famosas e até no nosso Supremo. Que armas são essas? A mais nociva é a tática de dar rótulos. Crie um rótulo para seu adversário, um rótulo que seja unanimimente detestado, cole esse rótulo no oponente e vença. A partir desse rótulo, tudo o que ele falar não será escutado. Isolado e estgmatizado, o povo, que como massa sempre segue a opinião geral, fechará toda possibilidade de diálogo. ------------------- Mas há mais, são 38 armas que Schopenhauer nos dá. Falar muito e não dizer nada, usar palavras dificeis que nada significam, atacar um pormenor que desvia a atenção do assunto principal, olhar o adversário com arrogancia, atacar o pessoal e o privado, destacar uma palavra qualquer e a dissecar como se ela significasse muito, fingir saber de um segredo, gesticular muito para que todos os olhos se fixem em voce e esqueçam o assunto tratado, gritar com indignação etc etc etc... ----------------------- Mas o melhor do livro são os comentários de Olavo. Possuidor de uma erudição que beira o fantástico, citando e dando fontes, citações que vão de Aristóteles à Husserl, Olavo nos ensina como perceber a verdade. ------------------ Do verdadeiro curso de dialética dado neste livro, destaco dois detalhes que demonstram a delicia de o ler ( atenção, Olavo jamais escreve fácil, é preciso esforço ), 1- Na modernidade o grande erro é que deixou-se de procurar a perfeição da alma e se passou a buscar a perfeição do estado. Problema insolúvel pois jamais haverá uma comunidade perfeita sem almas perfeitas. Mais ainda, a perfeição não pode nascer em vidas que são imperfeitas. A procura do estado perfeito é uma farsa, um modo perverso de anular a busca da perfeição da alma, individual. A ideologia substituiu Deus. 2- Se confunde a razão com a utilidade. Filósofos modernos acreditam que a razão é a capacidade de pensar e fazer coisas uteis, quando na verdade a razão nada mais é que a capacidade de se pensar e se analisar a si mesmo. Então se cria a ideia de estado racional, iluminista, que seria um lugar onde todos seriam uteis e bem ajustados. Na verdade não pode haver um estado racional porque o ser humano é racional e emocional, psicológico e abstrato. A mentira do estado regido pela razão é mais uma mentira que visa a dominação da individualidade. ------------------------- Como adendo, devo dizer que Olavo faz um retrato devastador de Wittgenstein. Ele praticamente o chama de idiota. A famosa frase do austríaco, a que afirma que não se deve falar sobre religião, arte, é vista por Olavo, como um típico pensamento de criança, pois são crianças que falam: se eu não consigo falar então ninguém deveria falar. A obra de Wittgenstein é vista como uma explicação incompleta de teorias futeis. ------------------- Me convenceu? Por que não? Eu passei anos sendo convencido, por causa de um rótulo colado nele, que Olavo de Carvalho era um feroz velhote que babava. Observe, seus críticos nunca comentavam ou debatiam suas ideias , apenas o atacavam como pessoa, como direitista perigoso que não deveria ser lido. E eu, bobo, o evitava sem saber porque. Então, um dia, o escutei num podcast e levei um choque! Ele transpira bondade e tem uma cultura que é rara no Brasil. É um católico racional. Quanto a Wittgenstein...gosto do que ele se propôs a fazer, mas concordo que seus resultados são pífios. Wittgenstein foi aquilo que Husserl falou dele: um místico que se envolveu e foi enredado pela matemática e pela lógica. Acabou sendo um lógico maluco e um místico calado. Como diz Olavo, nenhum místico é mudo. De Jesus à Buda, de Maomé à Lutero, todos falaram e explicaram. É isso.