O NÁUFRAGO - THOMAS BERNHARD
Ontem li na net um post onde um homem escreve sobre livros chatos que são bons. Os leitores do post citam entre os livros chatos que leram com imensa dificuldade coisas como O VELHO E O MAR, RUMO AO FAROL e IRMÃOS KARAMAZOV. Devo ser um bom leitor porque gente que acha esses livros dificeis deve ter lido muito pouco. Dificil é ler Laurence Sterne, Moby Dick e Ulysses. --------------- Amigo leitor, Bernhard é dificil apesar de não longo. Ele procura escrever como nós pensamos e isso tem um motivo, seu profundo pessimismo. Seus personagens não dialogam de fato, eles pensam. Para Bernhard o homem não é um bicho que fala ou que cria, ele é um ser que pensa sem parar. Daí a solidão de labirinto, daí o texto que roda em círculo, se repete, reprisa informações como tivesse alzheimer, titubeia, se perde, volta ao ponto de partida, é nosso modo de pensar. ------------- Aqui temos basicamente três homens, o narrador, seu amigo que acabou de se matar e Glenn Gould, sim, o famoso mito do piano, aqui transformado em personagem de ficção. Todos nasceram muito ricos, todos se conheceram no Mozateum de Salzburgo, no curso de piano de Horowitz. Todos são excelentes no piano mas Glenn é um gênio. O narrador para de tocar, após fazer 4 concertos, ótimos, porque nunca quis tocar, ser pianista foi ato de rebeldia contra a família. O amigo para de tocar também, pois se sente aniquilado pelo talento de Glenn. E Gould se torna Gould. O narrador recorda tudo isso enquanto viaja pela Austria, país onde nasceu e odeia. Bernhard odeia muito, odeia natureza, que ele vê como inimiga do homem ( concordo ), odeia o socialismo que ele vê como a corrente política que vulgarizou e aniquilou a Europa ( concordo ), odeia a Austria, que ele considera a morte do talento, odeia o piano, uma máquina que escraviza. Mas há uma coisa que Bernhard ama e ama muito, o homem, e para voce notar isso tem que pescar certas frases que ele deixa escapar, frases como "todo homem é único mas não vive sua indivdualidade", ou : " é o homem a obra de arte da natureza". ------------------ Boas histórias é o que procuro em livros policiais ou em biografias mas em romances eu procuro a surpresa, o estilo, a originalidade e isso Thomas Bernhard tem, tem muito. É um imenso autor.