MILES DAVIS, A AUTOBIOGRAFIA

Vou escrever aqui no estilo deste livro. " Às vezes enche o saco a paranoia do Miles. Mas eu entendo. Tudo pra ele é racismo, os brancos nunca reconhecem o valor de um preto. Mas foda-se. Miles pelo menos não é como Mingus que nem sequer aceitava tocar com um branco. Miles respeitava Gil Evans, John McLauglin, Bill Evans e mais uma porrada de caras brancos filhos da puta. Mas que esse papo de racismo enche o saco isso enche. ------------------ Miles nasceu em 1926, e seu pai era rico. Dentista, tinha fazenda com gado premiado, casa grande, carros chiques. Miles nunca teve de se preocupar com dinheiro. Legal pra porra ver negros de 1926 que já eram ricos. Então ele foi pra Julliard estudar música, mas saiu com ano e meio porque os professores não sabiam nada a música de preto. Caiu na vida. Foi tocar com Charlie Parker e Dizzy Gillespie e o resto é lenda. ----------------------- Charlie era chato. Não era o preto bobo do filme do Clint, era um malandro que roubava grana dos amigos pra comprar droga. Mentia. Era furão. Irrepsonsável. Dizzy não. Dizzy era disciplinado. Profissional. Miles caiu na droga quando voltou de Paris. Lá ele foi tratado como rei e se apaixonou por Juliette Greco, a musa do existencialistas. Quando voltou teve o choque. De novo, nos EUA, ele era só um negrinho e a saudade de Greco apertava. Heroina virou paixão. ---------------- O livro descreve bem o que é um junkie. Se drogar, passar mal, se drogar pra não passar mal. Miles conseguia grana com o pai, tocando em clubes, pendurando roupas, instrumentos, tudo. Chegou a ser gigolô de duas putas. Foram 6 anos de heroína. A carreira decaiu. Em 1953 ninguém o levava à sério. Um decadente aos 27 anos. Então ele parou, sozinho. O livro mostra o quanto Miles é decidido. Se ele quer ele faz. Ele quis ser descolado, e foi o maior descolado do mundo. Ele quis ser junkie e foi. Quis ser famoso e foi. Sua vida, cheia de ambição, foi feita de música, acima de tudo a música, e muitas, muitas mulheres. Nunca foi fiel e nunca prometeu que seria. ------------- Sobre sua arte, ele nunca se acomodou. Queria estar sempre na onda, queria gente vendo seu trabalho, mas nunca concedeu nada. Seu foco era a bateria, o centro de seu som sempre foi o baterista. Por isso ele dá crédito imenso à Philly Joe Jones e depois à Tony Willians. Ficamos sabendo o quanto Sonny Rollins era viciado, como Coltrane era calado, que Monk era estranhíssimo, mas não maluco, que Mingus era um preto chato, Bud Powell um esquizo doce, e que Max Roach foi seu grande amigo. Miles aprendeu a frasear ouvindo a voz de Sinatra e ele dava valor a modulação, falar muito com pouco, menos notas e mais informação. ------------- Miles não tem vergonha de mostrar seu lado ruim, vaidoso, egoísta. Mas ele não foi um cara ruim. Era um homem com raiva, com amor e com toque de gênio. Um grande cara.