BACH NO DOMINGO

Experimente ouvir o Terceiro Concerto de Brandenburgo imaginando cenas aleatórias de sua vida. Sem sentimento nenhum em especial, sem procurar pensar nada de relevante, reveja mentalmente sua mão segurando um lápis, um beijo aos 15 anos, seu carro em 2005, um jantar de dia dos pais, sua sala, uma montanha, uma dor, uma febre. Imagine essa cenas em coisas que possuem, ou são possuídas, um sentido. Pronto. A música de Bach casa à perfeição com essas cenas. Mas, muito cuidado agora, vá um pouco além e note uma pequena coisa encantadora: faz sentido. E então, estando dentro da música, voce percebe que há um ritmo nessas cenas, ou melhor, uma harmonia na aparente aleatoriedade da vida. O destino, o azar ou a sorte, a dor e o gozo, todos são harmônicos se vistos em conjunto. Pois sim, a música é a vida e sua linguagem é não verbal. --------------- Se isso não fez sentido para voce, se nada aqui te importa, então digo que sempre, desde sempre, ao ouvir os primeiros acordes do concerto terceiro, um sorriso nasce no meu rosto, e não é um riso, é um sorriso de satisfação. Esse sorriso diz, é isso. -------------- Bach, que viveu a vida pré romântica, em que um artista era um trabalhador e não um ego a procura de afirmação, fazia música como um dever e um talento dado por Deus. Toda sua música tinha uma função e o próprio Bach disse isso, ele compunha e tocava por glória de Deus. Sua arte não visava erguer sua alma acima da do homem comum, nem mesmo visava fama e fortuna, ele queria honrar a Deus. Claro que ele lutou por condições confortáveis de vida, teve muitos filhos e amava-os, mas o que ele mais queria era bons instrumentos e tempo para poder compor. Seu trabalho, imenso, produtivo, constante, ao glorificar a Divindade nos glorifica. ---------------- Ele não é romântico e é por isso que sua música não emociona a quem não consegue se abstrair e apenas escutar a música como música. Acostumados ao romantismo, queremos sentir a expressão de uma alma que se faz ouvir. Queremos a emoção do gênio gritando ao universo. Bach não é assim. Ele expressa ideias musicais, ele fala por som e não conta nada de modo verbal. Em suas missas e oratórios ele se comove por Jesus Cristo e não por um amor sofrido ou um desejo ideal. Voce não vê Bach em sua obra. A obra está além de Bach.