JEAN SANTEUIL - MARCEL PROUST, NÃO IMPORTA O QUE VOCE VIVE MAS SIM COMO VOCE SENTE O QUE VIVE

Virginia Woolf desistiu de escrever após ler Proust. Ela ficou tão chocada e admirada com aquilo que lera que sentia sua escrita como coisa fútil. Claro que ela acabou por superar essa crise, mas comigo aconteceu ontem algo que um leitor sente. ------------ Lendo as 700 páginas de Jean Santeuil, romance de Proust escrito quando ele tinha 24 anos e só publicado décadas após sua morte, mergulho no modo como ele apreende a vida. Sua escrita, inimitável, profunda, sensível ao ponto do espirtual puro, faz com que todo outro autor pareça superficial e até mesmo apressado. O choque é inevitável. O universo de Proust parece infinito. -------------- Então vou à uma feira de livros e como sempre faço, antes de comprar um novo volume abro as paginas ao acaso e leio qualquer frase. para pegar o tom do autor. Fazer isso após ler o francês é injusto. Todo trecho que eu lia na dita feira parecia mal escrito, quase estúpido. ---------------- Jean Santeuil foi guardado por Proust como simples exercício literário, indigno de figurar ao lado de sua obra. Weeeelllll.....claro que não chega ao nível do Em Busca, mas é explendoroso. E aproveito para tentar, mais uma vez, explicar o modo de Proust escrever. --------------- Proust melhora nossa vida porque ele nos mostra, e ele advogava isso, que não importa sobre o que voce escreve, o que dá valor à uma obra ( e à uma vida ), é o modo como voce a olha, sente e descreve. Voce pode ter viajado por 30 nações e amado 200 mulheres, e por pressa, ou impaciência, ou miopia, nada obter de valioso daquilo que foi vivido. Por outro lado, um espírito afinado pode ver Deus ou o porque da vida numa simples rosa que brota em um jardim público. Ao lado da sua casa. Proust redige sentenças tão longas e tão elaboradas porque ele demonstra esse modo de viver a vida. Um escritor vulgar, ao descrever um almoço na casa de seus avôs, falará sobre aquilo que as pessoas falaram e fizeram. Um bom escritor descreverá sentimentos e intenções. Um ótimo autor tirará filosofia e poesia do almoço. Proust não. Ele descreverá o cérebro do narrador que vive aquilo que lá acontece. Então, se esse narrador pensa ser a prima linda, ele descreverá o porque dela ser linda, o que a beleza é, de onde vem o senso de beleza do narrador, o que a prima lhe recorda, onde essa recordação vive dentro dele e o que esse passado significa hoje. Nada é deixado ao acaso, se uma emoção ou sensação acontece, Proust a segue até o fundo da alma. Por isso ler Proust melhora a vida. Nós passamos a ver com mais profundidade e a apreciar com menos precipitação. Ele dá um valor à vida e assim dá valor à vida que voce vive. Ele te dá a dignidade de viver. Inteiro, vasto e completo. Na alma.