SHANKAR FAMILY AND FRIENDS

   Outro mundo. Não pense que estou dando uma de diferentão! É outro mundo mesmo. Coloco o cd no carro e vou. A sensação é absolutamente outra. O mundo sensitivo evocado nada tem em comum com Mozart, Monk, Stones, Caetano, Jorge, Led, REM, Bach ou Coltrane. É oriente.
   A afinação é outra. Certos sons parecem desafinados, estridentes. O ritmo é outro. A dança é lateral. Experimente: sua cabeça, no ritmo da música, só muito forçadamente se moverá como no ocidente, ou seja, de trás para a frente. No oriente ela marca o ritmo da esquerda para a direita. E o pescoço se quebra, perde a firmeza. A dança é toda lateral, o movimento corporal flui como rio que passa e nunca como rio que avança. A música aqui não evolui, ela fica onde está.
  Entende? Há toda uma filosofia estranha ao ocidente aqui. Tudo em nós vai de um ponto à outro, adiante ou atrás, mas o ponto vai. As coisas sobem ou descem, mas andam. A música, portanto, tem abertura, desenvolvimento, refrão, repetição, coda. Toda nossa música foi feita desse modo. Ela é como um trem, um carro, uma caminhada, uma conversa, um filme, um poema, um livro, uma pintura. Ela narra. Ela anda.
  Não no oriente. Não espere movimento. O que ela diz no começo dirá todo o tempo. Ela não caminha. Não narra, Não pinta. Ela expõe. Ela fica onde está PORQUE JÁ ESTÁ PRONTA, JÁ NASCE ONDE DEVERIA ESTAR. Eis toda a diferença entre todas as filosofias e religiões de lá e de cá: Nós precisamos fazer para chegar, eles já estão. Eis porque estudantes indianos possuem tanta facilidade para entender a física quântica, eles entendem o ESTAR AQUI E LÁ AO MESMO TEMPO. A música do oriente exibe isso.
  Essa melodia me recorda os filmes maravilhosos de Satiajit Ray. As planícies do Ganges onde nada acontece desde sempre. E nada acontece aqui. Música não é acontecimento. Música é ponto no mundo. Para nós é uma reta, para Ravi é um ponto. 
  Sim, alguns sons de Eno, Glass, Satie, Coltrane, lutam para parecer oriente. Mas não conseguem. Eles lutam, e a luta, o estudo, a tentativa já destrói tudo. É inatural. 
  Pense num ponto. Imóvel. E dance dentro desse ponto. Lateral mente. 
  E é só isso. E tudo é só isso.




DA MELANCOLIA

   A vida de um artista, digamos Rembrandt, digamos Dante, podia ser cheia de dramas, de tragédias até. Dor, desespero, lágrimas. Mas por volta de 1850 começa a surgir um novo sentimento entre artistas. Ele não tem a força tempestuosa da tragédia, e nem a teatralidade do drama derramado. É pequeno, quase mudo, discreto e por ser assim, persistente. Melancolia é seu nome.
  Pelo que sabemos, artistas não eram melancólicos. Mulheres podiam ser. Idosos provavelmente. Pensar num Goethe melancólico é quase impossível. Mas a partir do meio do século XIX, desse século vagabundo que insiste em nunca terminar, melancolia passou a quase ser sinonimo de artista. Porque? 
  Nesta excelente aula, com textos de Adorno, Benjamin, Oehler e Bergson, alguns dos quais discordo, e ainda com testemunhos de Baudelaire e Proust, analisamos o que seria essa tal melancolia, se ela ainda existe, e o que a fez nascer. 
  Vários motivos são listados. Um dos mais sedutores é o que a relaciona com a falência da revolução. É em 1848 que a ideia de revolução vai a falência ( será revivida em 1917, por pouco tempo ). Como consequência, temos gerações de revolucionários obrigados a conviver com ""o fim do sonho"", a salvação apenas no individualismo, e a auto-censura em relação ao sonho. Se misturarmos tudo damos com o melancólico, um ser que descrê do sonho, teme as ideias compartilhadas e vive preso em si mesmo. 
  Será?
  Me convence mais a ideia do "" novo mundo"", tão clara em Baudelaire, o primeiro homem moderno e não `a toa, o primeiro melancólico. Baudelaire em 1850 faz algo que para nós é infelizmente banal, mas para ele era novidade: anda pelas avenidas de Paris. Anda não como um turista, um trabalhador ou um cidadão, anda como um flanêur. Jogando fora suas defesas, desfilando vafarosamente, sem pressa e sem objetivo, Baudelaire percebe o que nos outros e em nós passa anestesiadamente. A anti-humanidade da vida em cidade. Ele anda em meio a gente que não conhece. Vê pessoas que são estranhas e que lhe serão estranhas para sempre. Vive na beira da possibilidade: aquela mulher que passa poderia ser um grande amor, ela olha seus olhos, ele olha os olhos dela, mas se vão...Obrigados pela cidade, nunca mais irão se ver. Baudelaire percebe que tudo na cidade NÃO remete ao novo, ao encontro, mas sim ao velho e à despedida. Tudo o que vemos, mesmo e principalmente o recém inaugurado, vive na beira da destruição. É um adeus sem fim: adeus voce que passa, adeus rua que muda, adeus casa demolida, adeus amigo que some no fluxo da avenida, adeus, adeus, adeus....Nada permanece, nada consegue se tornar familiar. O homem no bonde é um estranho. PELA PRIMEIRA VEZ convivemos intimamente com pessoas que nos são completamente desconhecidas. Pior, pessoas que desprezamos. Viver me metrópoles é ser obrigado a exercitar o desprezo. Daí a melancolia, se o DESPREZO não for aprendido, a MELANCOLIA torna-se constante. Viver dizendo adeus e lutar contra esse adeus, eis o artista. Eis o melancólico.
  Para mim essa formulação é inquestionável por espelhar o meu sentimento perante a vida. E outra conclusão baudelairiana é a de que a melancolia se torna uma resistência invencível. O melancólico é aquele que desafia, que desanda a marcha, que vê o não-natural naquilo que parece certo. É preciso falar do choque.
  A cidade nos dá constantes choques. Ruídos, cores, riscos, medos, possibilidades, surpresas. Nossa mente não aceita choques facilmente. Choques são sempre ameaças. Algumas boas ameaças, mas sempre um choque. Na multidão, na super excitação, somos obrigados a viver como anestesiados. Ignorar os choques, mal percebe-los. O melancólico, que estranho, que parece o mais ausente dentre todos, é exatamente aquele que mais os sente. E que, falho em suas defesas, não consegue ignorar. Ele sente o ruído. Vê as ameaças. E como reação, defende o antídoto. 
  Sentirei falta dessas aulas...

The legend of Rin Tin Tin



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RIN TIN TIN, A VIDA E A LENDA-SUSAN ORLEAN, UM LIVRO TRISTE, AMARGO E BONITO.

   Mas que livro terrivelmente triste! Escolhido pelo New York Times um dos melhores livros de 2011, a própria autora confessa ter ficado deprimida nesses dez anos de pesquisa que levou para escrever este livro. 
   Alguém não sabe quem foi Rin Tin Tin? Penso que aqueles com menos de 40 anos não sabem, mas TODOS com mais de 40 sabem. Eu o conheci na TV, As Aventuras de Rin Tin Tin foi provavelmente a primeira série que assisti na telinha. Foi produzida nos EUA, pela ABC, entre 1954/1960. Aqui passou por toda a década de 60/70, e devo ter visto logo em 1966-1967. Meu pai adorava e me colocava para ver. Rin Tin Tin ou Zorro, uma das duas foi minha iniciação ao mundo da ficção. O sucesso televisivo foi imenso e foi mundial. TODO o mundo assistia a série de TV. Por mais de 30 anos ele rodou mundo afora. Mas vamos ao inicio...
   No começo do século XX houve um garoto solitário do interior da América. Lee Duncan, um solitário, amava bichos. Serviu na primeira guerra mundial, na França devastada. Primeiro fato triste do livro, o fato de que num mundo préTV, a Europa era tão estranha para um americano comum como a Lua. Comida, gente, paisagem, clima, tudo era assustador. E o inferno da guerra química, das trincheiras, das amputações, das mortes às centenas. Lee Duncan, um dia, invadiu uma fazenda destruída. Norte da França, lama, fogo, frio, cinzas, cadáveres. Ele vê uma construção que deveria ter sido um canil. Montes de cães mortos, e de repente um gemido. Uma fêmea de Pastor Alemão sobreviveu, com quatro filhotes. Lee Duncan, o caipira solitário, os salva. Milagrosamente todos sobrevivem na guerra. Ao final, em mais um golpe de sorte, Lee consegue trazer um deles para os EUA, num navio lotado. Volta ao sítio, pobre, e cria esse cachorrinho que lhe restou. Andam pelos bosques, sobem montanhas, ficam inseparáveis. O nome do cão é Rin Tin Tin. 
  Lee ensina truques ao cão e começam a fazer shows pelas estradas. Vão à Califórnia e acabam no cinema. Rin Tin Tin começa a fazer filmes de cinema, longas, é tempo do cinema mudo. São cinco, seis filmes por ano, e mais um milagre ocorre: Rin Tin Tin salva a Warner da falência! Ele se torna a estrela mais querida e mais conhecida do cinema americano. Seus filmes rodam o mundo, ele viaja, ganha dinheiro, se torna um mito. 
  Quem viu os filmes, eu nunca os vi, diz que ele era mesmo surpreendente. Rin Tin Tin conseguia ter expressões faciais, conseguia comover com seu olhar triste. Os filmes repetiam sempre o mesmo tema, o conflito entre o selvagem e o domesticado, conflito que ocorria dentro do cachorro-ator. Como os filmes eram mudos, Rin Tin Tin era como mais um ator, já que todos eram mudos. Sem precisar de dublagem ou legendas, os filmes, como os de Chaplin e Keaton, eram entendidos em todo o planeta. Mas...
  Com o cinema falado seus filmes foram perdendo público. Agora os atores falavam e um cão não podia falar. Os animais passaram a servir apenas para cenas secundárias, de humor, de pastelão. Lee Duncan, que via Rin Tin Tin como um tipo de nobre, não aceitou a vulgarização de seu astro e se afastou do meio. Voltou ao sitio. 
  Rin Tin Tin morre. Os filhos dele continuam seu legado. Alguns aparecem em exposições, em filmes mais dignos, e nos anos 50 ressurgem na TV. A série, sucesso imenso, inaugura em 1954 a era do merchandising. Roupas, botas, chapéus, revistas, discos, mochilas, brinquedos, tudo com a marca Rin Tin Tin. Lee Duncan nunca soube ganhar dinheiro, foi explorado e mal conseguia sobreviver. O cão ator, tataraneto do Rin Tin Tin dos tempos da guerra, tinha talento, não como o primeiro...
  Ficamos sabendo que foi o primeiro Rin Tin Tin que popularizou a raça dos Pastores Alemães, mais que isso, foi a partir dali que as pessoas começaram a educar seus cães, a permitir que eles vivessem dentro da casa e não mais jogados no quintal. Rin Tin Tin humanizou os cães, urbanizou os animais, revolucionou costumes. Antes da Disney, foi ele o bicho que fez com que as pessoas deixassem de olhar animais como bestas. Rin Tin Tin mudou o mundo. 
   Mas é tudo tão melancólico....Lee Duncan nunca deixou de sentir falta do primeiro Rin Tin Tin. Foi feliz apenas nas caminhadas com seu cão, no começo de tudo. E o produtor da série, homem de talento que depois faria as séries Rota 66 e Naked City, também morreu falido, querendo reviver o mito de Rin Tin Tin. 
   A autora percebe que a história de Rinty é a história do país. Da ingenuidade dos caipiras solitários, à ambição dos advogados e executivos. Do espaço sem fim à vida ordenada das cidades. Rin Tin Tin lembrava a uma América recém urbanizada ( foi em 1919, ano do primeiro filme, que pela primeira vez a população urbana passou a rural ), a vida que eles não mais podiam ter. Daí o amor-paixão que todos davam aquele cão. A partir dos anos 60, quando as raízes rurais já começavam a morrer, Rinty, assim como os westerns e os cavalos, começou a nada mais significar. Mas Susan, assim como todos que o viram em sua segunda incarnação, na TV, nunca esqueceu de Rin Tin Tin. Triste e belo livro.
  PS: Meu primeiro cão foi um imenso Pastor Alemão chamado Bucky. Apesar de meu amor por Boxers, nenhum cachorro que tive depois de Bucky tinha a metade de sua inteligência.

PEDRO COELHO- BEATRIX POTTER, FELIZ DE QUEM O CONHECER!

   Há um mistério em Beatrix Potter. Peter Rabbit acaba de sair pela Companhia das Letrinhas, Pedro Coelho na tradução. Adorei terem traduzido o livro e adorei a edição. Capa dura, formato grande e, claro, com as lindas ilustrações que Potter fez em 1905.
   Sou fascinado pela literatura infantil e aqui temos um de seus maiores clássicos. Neste dia de janeiro, 2015, mais de um século após sua primeira edição, ponho-me a ler. Com calma, lentamente, com delicadeza. O texto, de uma simplicidade absoluta, logo me captura. Em duas linhas já posso me ver no mundo de Pedro. Sua familia Coelho, a raposa, o texugo e o humano, vizinho que planta tudo aquilo que um coelho adora. Leio e sinto o frescor das hortaliças, o sol no rosto e vejo os coelhinhos saltitarem. Potter sabia fazer.
  Beatrix Potter nasceu no campo e foi uma mulher feliz. Corajosa, casou-se tarde, com seu editor. Seus livros foram logo um grande sucesso, mas ela nunca deixou o campo. Ia à Londres somente quando muito necessário. Há um belo filme em que René Zellweger faz, com graça, o belo papel de Beatrix Potter. Recomendo que o assistam. 
  Quando comecei a estudar literatura infantil percebi que certos livros clássicos estavam ausentes de nossas livrarias. Mary Poppins, O Vento nos Salgueiros e Peter Rabbit eram os grandes furos. Desde então todos foram editados aqui, e todos com cuidado. Feliz a criança que os ler! Feliz o adulto que os conhecer!
  Eu amo Beatrix Potter!

Talking Heads ~ "Artists Only" 09.15.79 Armadillo World, Austin, TX



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MORE SONGS ABOUT BUILDINGS AND FOOD-TALKING HEADS ( O SOM DO AUTISMO )

   Dizem que David Byrne é um autista. Ele é sim. Mas ele é também um gênio.
    Os Talking Heads não deixaram cria. Um monte de músico e de crítico gosta de dizer que sim, mas é que não. Hummmmmmmm.....e como é bom ouvir, é inspirador. 
  Quando eu sonhava em ter uma banda eu sempre pensava em dois modelos ( nenhum deles era o Roxy Music. Para fazer uma banda Roxy voce tem de ter um Bryan Ferry e eu nunca tive nada de Ferry apesar de minha paixão ). Um modelo, que deixava meus amigos surpresos, era Prince. O outro era os Talking Heads. Why? Porque eu queria um monte de gente no palco, porque eu queria usar todos os meus amigos. Porque eu queria poder misturar tudo, Todos os sons e todos os visuais.
  Esse modelo faliu. A maioria das bandas são pequenas. Pequenos meninos fazendo um som pequenino. E sem swing.
  O swing de David era um swing autista. Por isso combinava com Brian Eno que sempre teve um swing de gelo.
  eSTE disco é o SEgundO. 
  Ainda é pouco africano e mais esquizóide. Urbano. Neurótico. E sim, genial. De 1978. Ano de Heroes, de The Idiot. Ano de Parallel Lines. De Candy O. Ano de uma tonelada de discos. E da disco music, sim!!!
  Ouvir hoje? Why Not?
    MO    

Talking Heads 04 Found A Job Live



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THIS YEARS MODEL- ELVIS COSTELLO AND THE ATTRACTIONS

   O segundo disco do Elvis Costello saiu aqui no Brasil mas ninguém comprou. Em 1978 quem gostava de rock estava ocupado ouvindo Aerosmith e Kiss e tendo a certeza que o Rush era o futuro do rock. Well....de certo modo Aerosmith, Kiss e Rush foram o futuro do rock. BUT! Se a gente ouvir uma bandinha nova inglesa e ouvir Elvis Costello de 1978 em seguida vai perceber que o som é o mesmo. Talvez a única diferença é que a bandinha nova parece limpinha e os Attractions eram very dirty. Hoje o rock é feito por gente que nasceu mimada e cresceu entediada. Elvis cresceu na insegurança e nasceu com genes de raiva. Com a idade ele virou um tipo de Paul MacCartney azedo, mas nos seus primeiros anos ele era um principe. A idade nos rouba anger, raiva, indignação e acrescenta o medo e a preguiça. Fazer o que? Iggy ou Lou não são a regra.
  Em meio ao rock pretensioso e muito produzido dos anos 70, Elvis e sua turma criaram um tipo de rock meio retrô. Limaram os solos, as orquestras, os super shows, os meses de estúdio, e passaram a gravar rápido, cantar direto e tocar simples. Com urgência e com raiva. A fórmula em 2014 me irrita de tão manjada, mas é predominante no dito indie-rock. O interessante agora seria fazer discos com gigantismo. 
  Pump It Up é uma obra-prima, mas não é a única. As 12 faixas variam do bom ao genial e a banda é sempre perfeita. O teclado é tosco e ritmico, o baixo dá um show de swing e o batera, como disse Ezequiel Neves na época, era um maluquete. 
  Reouvi Elvis após uma entrevista de Bruce Springsteen, de 2013, em que ele conta que em 1978 escutava muito Elvis Costello. E que Darkness in The Edge of Town, o disco mais descaralhado de Bruce foi feito sob esse clima. Bem, em 1978 eu ouvia de novidade apenas Cars e Blondie. Ah, e Kraftwerk. Nada chegava aqui e o que chegava era atrasado. Não é desculpa, claro, nas importadoras havia Specials, Clash e até o Talking Heads.  A novidade parecia ser Queen.
  Ouvir este disco hoje nada te trará de novo. Parecerá apenas um bom disco de rock inglês tipico. O que voce deve ter em mente é que Elvis é o cara que ajudou a criar esse tipo de sonoridade. E entender que num meio saturado de Supertramp e de Pink Floyd, esse som era uma ofensa. 

Elvis Costello & The Attractions (Rockpalast 15/6/78) - Pump It Up



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CHARLIE E XIITAS

   Eu lia Wolinski na revista Status. Isso lá por 1978. No mundo feito pelo cristianismo ele despertava ira. Poderia até ser processado, mas nunca morto. Claro, um louco podia matar. Mas não por uma fé maluca numa religião desvirtuada. Mas o que Tony? Mundo feito pelo cristianismo? Sim. Na base da religião cristã se planta a dúvida. Jesus nunca se impõe, se deve duvidar e o aceitar. E assim é. Um Deus que se deixa matar é um Deus que exige a dúvida. Por isso nossa filosofia é toda baseada na pergunta, na dúvida, no erro possível. 
  Isso inexiste para esses xiitas. E por isso eles são incompreensíveis para nós. Neles inexiste a dúvida. Eles querem, podem e nunca questionam. Nós, seres questionadores, que duvidamos todo o tempo ( de nossa fé, de nossa razão, de nossa inteligência ), nada podemos contra eles. Pois a dúvida leva à paralisia, a certeza leva à ação. 
  O fanatismo cristão pode chegar à censura e a perseguição. Nunca ao assassinato glorioso. Pois mesmo na inquisição havia um processo ( falso, mas havia ), um perdão e um sofrimento. Júbilo jamais. E aberto, exposto como sempre esteve às heresias, dúvidas, críticas, o cristianismo foi se adaptando, se isolando, tentando seguir o homem em sua busca pela verdade.
  Nada disso existe no mundo xiita. Para eles a verdade foi alcançada. Para eles nada é duvidoso. O movimento inexiste pois tudo é como deve ser. E nesse mundo correto, NÓS somos o mal. Infiéis. Perversos. Sujos. Imorais. 
  Claro que não estou falando do islamismo. Estou falando dos xiitas. Mas no ventre do islamismo existe a ideia de guerra santa e de inimigo infiel. O espaço foi dado.
  Ando lendo Peanuts. O mundo judeu de Charles Schulz. Mundo repleto de anseios, medos, hesitações, e de auto-ironia. E vi hoje, na rede, um desenho de Charlie Brown, chorando, e com uma legenda: Je suis Charlie. Eu sou Charlie.
  O ocidente precisa ser salvo.

CARTAS EXTRAORDINÁRIAS, ORGANIZAÇÃO DE SHAUN USHER. UM MONUMENTO À HUMANIDADE

   É inestimável o valor deste livro. Parabéns à Companhia das Letra por mais este lançamento. Livro grande, poderia ter uma capa dura, mas isso o deixaria ainda mais caro. Tudo bem.
   Falei deste livro hoje, na USP, numa aula excelente sobre Bergson, Proust e Benjamin. Citei a forte impressão de tempo que ele me causa. Vou repetir o que disse à classe: - Lí duas biografias de Heminguay. Adorei. Mas nenhuma delas me deu uma sensação tão forte de PRESENÇA, de realidade viva, quanto uma carta contida neste livro, carta que Ernest mandou à Scott Fitzgerald comentando SUAVE É A NOITE, novo livro de Scott. A gente sente o bafo de Heminguay!
  E o livro todo é assim. Como se vozes brotassem das folhas. Cartas, cópias das cartas, as caligrafias, os erros, os riscos, os carimbos. Aqui há uma intimidade sublime, o particular, a pessoa em alma, nua. E o melhor, as cartas que mais me tocaram não são aquelas de famosas. São as cartas de anônimos, cartas que, devo dizer, eu que nunca choro com texto escrito, sou um chorão, melhor, fui um chorão, com música e filmes, mas jamais chorei lendo um livro. Pois aqui eu chorei quatro vezes, as quatro por ser tomado por beleza, por tomar contato com a maravilhosa beleza do ser humano, mais e além, com sua gigantesca dignidade. Nobreza.
  As quatro, que jamais ousaria transcrever são:
  Francis Carr-Gonn, um perfeito anônimo, escreve para o jornal The Times, na Londres de 1850, para pedir ajuda, caridade da população em pró do Homem Elefante. Francis trabalha no hospital onde ele vive, isolado, e roga por dinheiro para que o pobre homem possa ser tratado. A população prontamente enviará dinheiro ao jornal e temos uma segunda carta de agradecimento.
  Jourdon Anderson para seu antigo dono. Um ex-escravo, agora livre e trabalhando, recebe uma carta de seu antigo dono. Este pede que ele venha trabalhar com ele, como empregado pago e livre, para o ajudar a reconstruir a fazenda destruída pela guerra de secessão. Jourdon dá a resposta. De uma elegância e de uma inteligência desmoralizante para qualquer racista. É uma das mais belas coisas que já li.
  Dama Shigenari para Kimura Shigenari. Ela escreve ao marido que morreu. Confessa que irá cometer harakiri para poder o encontrar. A dor que ela descreve, em poucas palavras, é absoluta.
  Tio Lynn para Chuck e irmãos. Essa foi a que mais me fez chorar. E não porque fala de um cão, mas sim por exibir o tio que todos nós precisamos ter. Com extrema poesia e tato, o tio Lynn consola seus sobrinhos que tiveram o cachorro Ted tirado deles. Ted morreu. Tio Lynn inventa uma história e consegue transformar a dor em esperança. Detalhe: o menino Chuck, na época com oito anos, dono do Ted, seria no futuro Chuck Jones, criador do Road-Runner, diretor dos melhores cartuns do século.
  Mas há muito mais. A carta de Dostoievski, escrita para o irmão, a de Beethoven, onde ele confessa sua surdez. A nota de despedida de Virginia Woolf. A despedida de um kamikaze. Da Vinci pedindo um emprego. Uma hilária carta de Steve Martin para um fã. Uma genial de Groucho Marx para Woody Allen. Cartas de mães obrigadas a largar os filhos, uma carta aterrorizante de Jack o Estripador. Einstein, Reagan, a Rainha Elizabeth...Não uma só carta não interessante, e quase todas emocionam.
  É um livro muito obrigatório, quase sagrado, humano ao extremo. Uma viagem por entre espiritos, testemunhos, verdades. Palavras, palavras como coisas sagradas. Um privilégio poder ler.

Miles Davis Quintet 1954 ~ Oleo



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A LIÇÃO DE MILES DAVIS

   ...MAS EXISTE MILES. E ele nos diz, jamais olhe para trás. 
Engraçado o fato, JAZZ nunca me recorda nada. É o anti-saudosismo. Jazz corre adiante? Ou seria a celebração do momento? Acho que não. JAZZ é só música. Pura, sem querer dizer nada mais que som. Música abstrata. Mesmo JAZZ carregado de emoção, o que NÃO é o caso de Miles, é abstrato. Nada de história, ritmo. A pulsação da vida. Agora.
  Miles saiu da heroína sózinho. Se trancou num quarto numa cidade onde não conhecia ninguém. E ficou lá. Morrendo. Suando. Gemendo. E voltou. Voltou com históricas gravações de 1954. Voltou com outro som. Nú. 
  29 de junho de 1954. Miles entra no estúdio e sai com oito gravações. ( Para comparar, hoje Beyoncé entra com quatro produtores e cinco arranjadores e sai com uma canção após um mês ). Com Miles estão: 
  Sonny Rollins. Horace Silver. Percy Heath e Kenny Clark.
  Sonny mandou brasa com seu saxofone redondo. Horace detonou com o dedilhado cool e discreto. Percy era o cara! O ritmo das cordas de seu baixo de vento. E Kenny, o batera dos anos 40 que inventou o jeito novo de swingar: a batida extra, fora do tom, na caixa, marca registrada, desde Kenny, de TODO baterista de JAZZ.
  Os caras entraram no estúdio e tiraram seus paletós. Cigarros empestearam todo o lugar. Camels fedidos. Miles não fala nada e quando fala ele fala baixo. Os caras sabem, o cara é um duende. Ele está aqui mas nunca está aqui. Ele só fala na hora de contar: 1,2,3...e a voz é assustadora. Cavernosa.
  Oleo é um estouro. Airegin é uma revelação. Doxy é uma mina. Tudo cheira a calcinhas. E a Camels fedorentos. Cada faixa é gravada em três takes. 
  Os caras colocam os paletós e saem. Miles entra em seu carro, um Packard preto. Sonny vai a pé. Silver anda com ele. Kenny fica no estúdio e Percy foi tomar um café na esquina.
  Amanhece. 
  Os caras nunca morrem. Como falei, JAZZ é only music. E música baby, música não morre.












Summer of '42 (1971) - Ending Scene



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HOUVE UMA VEZ UM VERÃO ( SUMMER OF `42 )- ROBERT MULLIGAN, HERMAN RAUCHER E MICHEL LEGRAND

   ...naquele verão eu perdi aquele menino para sempre.""
   Essa é a frase que fecha o filme Houve Uma Vez Um Verão, imenso sucesso de bilheteria e de crítica em 1972. É incrível como certos filmes nos marcam para sempre. Este, que em minha mente tem um aspecto de sonho, é o segundo filme que mais me marcou. ( O primeiro é O Sonho de Uma Noite de Verão, de Max Rheinhardt, me marcou tanto que até o advento da versão em dvd achava que fora um sonho que eu sonhara na infância ).
  Assisti este Summer of `42 em 1976, numa TV em p/b na Globo, sábado de noite, 11 horas. Continuo achando que todo menino romântico, e qual não é? , deveria o assistir. Ele caiu sobre mim como uma antecipação daquilo que seria minha vida. As pegadas de meu futuro. Um milagre que só a arte pode fazer, traçar o que virá usando o passado de alguém como tema.
  Estamos em 1942, numa cidadezinha de veraneio, beira do mar. Jovens amigos passam lá o verão, sem nada para fazer. Aprontam, riem, brigam, correm e pensam todo o tempo em sexo. Uma mulher jovem e bonita chega para morar sozinha. Eles começam a fantasiar sobre ela. A observam. Um deles, o narrador, o mais quieto, se aproxima dela, desajeitado. E nesse processo se desinteressa por seus amigos bobos. Ela receberá uma carta dizendo que seu marido morreu na guerra. O menino dançará com ela, e o narrador, em 1972, adulto, nos diz que nesse momento ele o perdeu para sempre.
  O filme é apenas isso. De uma simplicidade franciscana. Porém, de uma beleza luxuosa. A fotografia, e este filme me ensinou a reparar na fotografia, cheia de filtros e de suavidade, é de Robert Surtees. A trilha sonora, uma das mais famosas da história, é de Michel Legrand. Durante anos eu chorava quando a escutava. Isso porque naquela noite, sem esperar por isso, eu chorei pela primeira vez com um filme, música ou qualquer outra coisa. Entenda, não chorava desde os 9 anos. E esses meus choros sempre foram por surras ou castigos. Com este filme pela primeira vez chorei por beleza. Não por alguma coisa que ocorrera comigo, mas por ver algo de profundamente belo. Lembro que de manhã tive de compartilhar isso e falei do filme para meu pai. Ele nada entendeu e disse que se chorei era melhor não ter visto. Talvez meu pai estivesse certo.
  Revisto hoje, Summer of `42 não tem nem metade da emoção que eu recordava. Mas eu também não sou mais nem metade do poeta que fui. O garoto que viu o filme em 1976 foi perdido para sempre por mim. Mas não importa. Se nesses anos todos ele perdeu sua aura, e tudo a perde, como adivinhou Benjamim, em minha memória ele será sempre uma carta cheia de perfume e de linhas bem escritas. Um lembrete, vivo, muito vivo, do lugar de onde vim e do lugar para onde estou indo.
  Lindo.

VIVER É COMER, UM DIÁRIO DE AMANTES DA GASTRONOMIA- JAMES E KAY SALTER

   Saiu agora este livro que tem cara de férias. Na capa, cor de pêssego, uma linda gravura. Uma taça de tinto, um prato com Roquefort, pão, uma faquinha com cabo de osso. Um livro antigo, sopa de cebola, pão tostado, queijo ralado e flores. Fabrice Moireau ilustrou o livro. Os desenhos são perfeitos. Realistas e etéreos. Pequenos.
   O livro é organizado como um diário. Cada página é um dia e em cada dia há um texto sobre alguma coisa relacionada a comida ou bebida. De Balzac à Nero, de Raleigh à Don Johnson. Por exemplo, pego ao acaso o dia 29 de maio. Nesse dia eles falam de Bulwer-Lytton, que cunhou uma bela frase sobre o paladar. Ou então, no dia 6 de junho, se fala sobre o linguado. O motivo de se falar do linguado em 6 de junho é explicado no próprio texto.
   Confesso que esperava muito mais do livro. Ele é bem feito, bonito, mas lhe falta o principal, leveza. O texto é pobre em espírito. Poesia ausente, humor nenhum. Voce lê com prazer por causa, e só por causa, do tema. O estilo, inexistente, quase destrói a delicia do tema.
   De qualquer modo foi um belo presente. Presente que objetivou o prazer. O verão. O tempo livre. Valeu.

MARIO PEIXOTO, O ÚLTIMO DOS ESTETAS

   Na madrugada de 2015, com calor, sem querer me deparo com a imagem de nuvens que se dispersam no céu. E uma voz que fala. Que a realidade não o interessa. Que ele nem mesmo acredita na realidade. Sim, ele pode ver essa tal realidade. Mas ela não o atinge. Não lhe importa.
  O documentário sobre Mario Peixoto é lindo de doer. Poesia em forma de video. Tem até mesmo Satie na trilha sonora. Ao som de Satie até ler um jornal se torna poesia. Porém a poesia maior está em Mario. Nas cenas em que ele fala. Em sua vida. Em seu filme. E percebo, vendo-o falar, que Mario Peixoto, que morreu nos anos 90, foi das últimas provas. Ele provava que era verdade, as pessoas foram um dia mais poéticas, mais calmas e delicadas, as pessoas foram um dia, maiores.
  E mesmo assim Mario nasceu na hora errada. E, claro, no lugar errado. Mario poderia ter sido um austríaco de 1800.
  Tudo nele tem modos de aristocrata decaído. Ou melhor, anjo. E poderia ser personagem de Nabokov. Afinal, ele foi um desconsolado estudante inglês, odiando o clima e fazendo amizade com dois japoneses. Em Londres ele assiste Metrópolis, e isso muda sua vida. Apesar do fato de que ele é muito mais Murnau que Lang. Volta ao Rio e vira cineasta. Seu filme, Limite, é considerado o maior dos filmes feitos aqui. 
  O documentário de Sergio tem cenas de Limite. E sabemos que 1929 foi o apogeu da linguagem do filme silencioso. E que o cinema sonoro veio atrasar a arte dos filmes. Toda a linguagem moderna do silencioso foi abandonada. Para se criar um novo modo, com som. A imagem se desvalorizou. Limite é imagem. Ensina a ver.
  Depois vem o resto. Mario fracassa em seu segundo filme. Pode-se dizer que ele errou por delicadeza. E foi viver num sitio a beira mar. E fez nesse sitio sua maior obra, viveu. Os empregados dizem que ele levava um mês para plantar um pé de qualquer coisa. Why? 
  Mario explica: Porque o tempo, ele não existe. Passado e futuro, eles são invenções. E sem tempo, além do tempo, Mario criou seu mundo.
  Sensibilidade refinada, ver Mario falar é ter contato com a sensibilidade que não mais existe. Ele é um Tilacino, um Dodo, um babilônio. 
  Ver este documentário é um privilégio.
  Usei a palavra fracasso? O que significa fracasso para quem viveu o que quis?

Onde a Terra Acaba (Sérgio Machado, 2001)



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A ARTE INVENTOU A REALIDADE

   Não existe a França. O que há entre a Espanha e a Suiça é um território. Com gente vivendo lá. O que voce conhece por França, seja a terra de Camus, de Coco ou de Luc Besson é criação da arte. Renoir, o pai, criou uma ideia de país de luz, de pic nics, de mulheres ruivas e sorridentes. Depois a França passou a tentar ser digna desse legado. Camus criou uma terra de suicidas humanistas, depois os jovens vestiram boinas e fumaram Gitanes para tentar viver essa criação. Paris é uma cidade. Tem ruas. Casas. É bonita. Mas a Paris que voce ama, seja a de Givenchy, de Baudelaire ou de Modigliani, essa existe? Sim, existe e é mais real que a cidade de ruas e carros. Paris é invenção de Melville e seus filmes, de Verlaine, de Montand, de Bresson. De St. Laurent e de Piaf. Utrillo.
  Essa a sacada de Oscar Wilde, a arte nunca tenta ser espelho do mundo, ela inventa o mundo.
  O modo como vemos os animais, hoje, é invenção de Walt Disney. Cachorros são personagens, não mais bichos. Nos casamos como nos filmes, ou não nos casamos como nos filmes também. Discutimos a relação baseados em discussões que artistas criaram. Fumávamos como Bogart e agora dirigimos como Vin Diesel. Jovens eram Brando, foram Dylan, foram Bowie e agora são mangás. O Rio de Janeiro foi o Rio de Machado, de Ary, de Jobim e agora é da onda do funk. Eles nunca espelharam a cidade, eles sentiam uma vibração e criavam arte. E o funk se não tem alguém que possa ser chamado de artista, é em seu conjunto uma manifestação artística. Assim como a América, criada por Whitman e Melville, e depois levada à frente por James, Twain, pelo country até chegar no Rap. Um americano jovem e urbano é o que hoje? Dr.Dre.
  Chaucer quando pegou a influência de Boccaccio e a levou para a Inglaterra estava inventando um país. Shakespeare criou a história inglesa. O quarteto romântico inventou o jovem inglês, os melhores. 
  Existe essa coisa chamada Irlandês? Onde? 
  Um italiano se sente italiano como? Unindo Armani e Mastroianni? Rossini e Sophia Loren? Verdi com Totó?
   Quantos amigos voce conhece que são o que são porque Woody Allen os criou? Assim como existe gente que sofreu a vida toda porque viu e não entendeu o que Bergman e Beckett eram. Conheço meninas que são Colette, Woolf, Jennifer Aniston ou Angelina. Madonna não refletiu um mundo, ela criou uma nova feminilidade.
  Por isso concordo com Wilde. Ele dizia que o Japão nunca existiu. Que o Japão era uma invenção de artistas do ocidente. Como a India. Vá a India esperando encontrar o mundo de Kipling ou de Forster. Vá a Grécia e procure um Zorba. Eles não existem. Mas existem. Porque eles são mais fortes que aquele grego que passa e se parece com um turco qualquer. Assim como Totó é mais real que aquele italiano que se parece com uma alemão mal humorado. 
  Se tirarmos do mundo toda a beleza da arte, todo o testemunho daquilo que o mundo pode e deve ser, se o despirmos de toda criação humana o que resta? Coisa morta, objetos frios e gente sem nada que as justifique. Um cinza sem fim.