AQUELE TEMPO PASSOU... ( FRAGMENTOS DE MEMÓRIA. SANTOS NAS DÉCADAS DE 40 E 50 )- LYGIA LOLO SILVA DE CARVALHO

   Lygia tenta, como eu, capturar em palavras escritas, o tempo que foi. Como eu, há a alegria de se conseguir solidificar em letras aquilo que parecia morto. A frustração ameaça, mas o gosto é mais forte. Somos, eu e ela, proustianos conscientes. Sabemos de nossa nostalgia por aquilo que foi vivido e principalmente por aquilo que poderia ter sido vivido. O mundo era melhor antes? Sem nenhuma dúvida. O simples fato de vivermos menos nas ruas, o silêncio aterrador que vivo hoje antes das aulas na USP ( como pode tanta gente de 19 anos ficar calada e parada ? ), a histeria depressiva que toma as cidades e essa solidão compartilhada que define nosso tempo, provam que na época da janela aberta, porta destrancada e fofocas entre muros baixos, tudo era mais ""gostoso"" porque tudo era mais lento.
  Mas o tempo de Lygia não é o meu. O tempo dela se faz entre 1938/1950. São seus anos de primário e ginásio. E de colegial. Viva ainda hoje, em 2014 ela lança, em novembro, seu primeiro livro. Gostaria que houvesse um próximo. Me identifico com ela porque o tempo de minha escola ( 1969/ 1980 ) via morrer o que restara de seu tempo. Ainda havia lentidão, espaço livre e alegria nas ruas. As pessoas andavam para fazer amigos e saíam para conversar e dançar. A azaração nascia numa conversa e se completava numa dança. Ainda tive aulas de francês, de desenho, de música e de boas maneiras. Ainda nos orgulhávamos de ser civilizados. 
  Santos era a terceira cidade mais importante do Brasil. Por causa do porto, em seu auge. Santos era limpa, era civilizada. Tinha campo de golfe, clubes de filatelia. Cinemas enormes, teatros de ópera e jardins, muitos jardins. Em Santos ficava o mais luxuoso hotel depois do Copa do Rio. E acima de tudo, Santos tinha a mania de ser inglesa. Empresas inglesas, de bondes, de trens, de comunicação, deixaram e davam esse caráter à cidade. Andava-se a pé, tomava-se chá e se prezava a educação e a pontualidade. 
  Lygia, vejo pelas fotos, era bonita. E tinha um rosto alegre. Na foto de hoje vejo que ela ainda é uma bela senhora. E sorri. Lia-se muito naquele tempo. Lygia sabe que hoje se vende mais livros, mas se lê menos. Os livros eram mais lidos então. Eram emprestados, divididos, usados. Todos liam em tempos sem TV. Claro que Lygia é da classe média. Mas vejo nas fotos de sua escola que seus colegas parecem pobres, e muito bem vestidos.
  Ela estudou numa escola estadual. E causa surpresa o excelente nível dessas escolas. Era dificil ser admitido numa escola do estado. Os mais preguiçosos estudavam em escolas particulares. A autora consegue nos fazer viver dentro dessa risonha escola. E muito do que eles faziam eu ainda fiz, mais de trinta anos depois. Uma ingenuidade boa, doce, que fazia o tempo parecer amigo. 
  A linguagem usada por Lygia é deliciosamente demodèe. Vários termos em francês, em inglês e gírias dos anos 40. E latim, claro, todos tinham latim na escola. E grego. Havia aulas aos sábados. E as férias eram longas. Sol, passeios, livros, bailes a rigor, namoricos, mais sol, idas a Águas da Prata, à São Paulo, chá no Mappin, rua Direita, chapéus e perfumes, estolas e smokings. E filmes! Três vezes por semana se ia ao cinema. Lygia amava filmes, amava Gene Tierney, Tyrone Power, William Powell. Impressiona, e eu ainda vivi isso, o modo como se via a América. Todos queriam ser americanos. Se adorava a cozinha americana, as roupas, os carros, as festas. Os EUA eram o céu na Terra. Eles eram ricos, bonitos e educados. Os EUA eram perfeitos. Era o tempo do soft power, a América conseguia vender ao mundo uma ideia de liberdade e de retidão perfeitas. Isso seria destruído a partir dos anos 50, mas na década de 40 o mundo americano ainda parecia perfeito. Lygia viveu isso. Meu pai morreu achando isso. 
  Adorei a descrição de Lygia do que foi a segunda-guerra.  E do medo que havia de uma terceira guerra entre EUA e URSS, nuclear. Lygia é, claro, anti-comunista. Também sou. Mas ela é um pouquinho exagerada. Well...
  Ela recorda TODOS os professores. E, como era comum então, compara-os a atores de Hollywood. Filha única, sua vida idilica é usufruida nesse universo de sol e de fins de tarde. Professores duros, bons, suaves, misteriosos, amigos, distantes, quentes, bonitos, esnobes, próximos.
  Ela deixa para o final as palavras sobre seu pai. Admirava-o muito. E, como todo pai de então, ele era amoroso e distante, correto e contido, protetor e rigoroso. 
  Não deu tempo de minha geração tomar sucos em hotéis decorados com cristais e veludos, ou marcar um chá das cinco em casas de tapetes macios e serviço impecável. As classe mais favorecidas eram muito mais classudas e sabiam viver em finésse e cultura. Hoje se gasta o dinheiro do teatro ou do museu em mais um carro ou numa balada regada a pó. A diferença de classes se dava mais pelos modos e pela cultura do que pelo simples dinheiro. 
  É um bom livro? Não para todos. É um ótimo presente para aquela tia que foi rica e não é mais. Ou para a sessentona de bom gosto. E para proustianos como eu. E voce?
  Feliz Natal. E não se esqueça que um só momento de beleza é uma alegria para sempre.
  Obrigado Lygia.

TS SPIVET/ WOODY ALLEN/ NICOLE KIDMAN/ WARREN BEATTY/ MARVEL/ PIERCE BROSNAN/ CARY GRANT

   THE YOUNG AND PRODIGIOUS T.S.SPIVET ( UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA ) de Jeunet com Helena Bonham-Carter, Judy Davis, Kyle Catlett e Callum Keith Rennie.
Todos sabem o enredo: no meio da nada mora uma familia esquisitinha. O filho, aos 7 anos, cria um aparelho de moto-perpétuo. Ganha um prêmio do Smithsonian e viaja só para receber o prêmio. Well...os primeiros dez minutos são excelentes. E isso se deve a fotografia e ao ambiente. Depois o filme cai muito e fica até meio chato. A América que Jeunet mostra é um país francês. Ele não chega perto do que seja o ser americano. Assim como Wenders em Paris/Texas mostrou a América alemã, Jeunet esbugalha olhos franceses sobre o deserto. O filme ameaça emocionar, Descartes não deixa. O que seria um lindo filme bobo se fosse dirigido por um Tim Burton ou um Alexander Payne, se torna com Jeunet um filme travado. Tudo é quase aqui, quase bom, quase bonito, quase triste, quase engraçado. E quase ruim. Apesar de tudo eu gostei do filme. Porque? Porque ele é bonito. Porque eu gosto muito de Helena Bonham-Carter. Porque adoro filmes on the road. E porque em meio a toda aquela baboseirinha tristinha há uma nesga de verdadeiro afeto. Há amor pelos personagens, todos eles. O que trava é essa reticência de Jeunet, essa coisa de nunca deixar a coisa subir, aquecer, deixar o sentimento perder razão e aflorar. Não darei nota.
   NOVEMBER MAN de Roger Donaldson com Pierce Brosnan e Olga Kurylenko
Brosnan é um ex matador da CIA. Ele volta a ação em complicada trama de espionagem, traição e chantagem. O filme nunca ofende a inteligência e tem ação. Pierce tem fleugma, e incrivelmente consegue convencer. É o tipo de ator que gostamos de ver. Olga é belíssima! Mas estou cansado desses filmes cheios de batidas de carro, tiros e cenários cheios de russos frios e ruins e moças magrinhas e fatais. Nota 4.
   DIZEM QUE É PECADO de Joseph L. Mankiewicz com Cary Grant, Hume Cronyn e Jeanne Crain.
A poucas semanas vi 3 filmes de Mankiewicz e falei deles aqui. Todos excelentes. Pouca gente sabe que ele foi dos raros diretores a ganhar dois Oscars no mesmo ano, por roteiro e direção. Seu ponto fraco aparece todo aqui: a verborragia. Mankiewicz escreveu alguns dos melhores diálogos do cinema, mas às vezes passava do ponto. Este filme mostra Cary como um cirurgião de sucesso que desperta a inveja de um colega. O tema é ótimo, Cary se esforça e está ótimo, mas há diálogos muito longos, muito blá blá blá dispensável e uma cinematografia pobre. Parece TV. Nota 5.
   HEAVEN CAN WAIT ( O CÉU PODE ESPERAR ) de Warren Beatty com Warren Beatty, Julie Christie, Jack Warden, Dyan Cannon e Charles Grodin.
Um grande sucesso de 1978 que concorreu a vários Oscars e venceu apenas um. É a primeira direção de Warren Beatty e dá pra perceber isso. O filme tem sérios problemas de ritmo. Ele corre a de repente fica lento. A história é refilmagem de um lindo e muito melhor filme dos anos 40. Um homem morre por engano. É devolvido `a Terra em outro corpo e vemos então seu envolvimento com gente que não sabe que ele é outro. O tema daria uma comédia hilária, mas aqui o humor só funciona com Dyan Cannonm que está ótima. Julie está perdida, o filme não é para ela, e Warren, seu namorado então, desfila charme, mas não dá risos. O filme acaba sendo uma coisa estranha, uma comédia melancólica ou um drama leve. Assisti a ele na época, num cinema cheio na Paulista. O que senti então é o que voltei a sentir hoje, decepção. Nota 5.
   GRACE DE MÔNACO de Olivier Dahan com Nicole Kidman, Tim Roth e Frank Langella.
O filme me surpreendeu, ele é bastante bom. Isso porque nada tem de biográfico. Não se trata de vermos o casamento de Grace ou sua história. É a radiografia do momento crucial de uma nação, Monaco, de um planeta, a Terra e de uma mulher, ela. Grace sente falta do cinema, sente falta dos EUA e se sente negligenciada como mulher por seu marido, Rainier. Indecisa, ela tem de tomar uma decisão. Ou desiste e retorna ao cinema, ou se assume como princesa. O momento é terrível. A Argélia luta contra a França e De Gaulle quer se apossar do principado, a França precisa de dinheiro. Grace consegue, em golpe de estream sutileza, fazer com que De Gaulle não possa agir. Como? Veja o filme! Ele tem suspense, muito drama, realismo e atores excelentes. É uma das melhores atuações de Nicole. Aturdida, presa, com raiva, com medo, tudo misturado num pacote de beleza. Voces que são mais jovens saibam, Grace Kelly foi um mito. Maior que Angelina Jolie, Madonna... Lady Di chegou perto com uma diferença, Grace era muito mais bonita, inteligente e elegante. O filme é digno dela. Nota 7.
   MAGIA AO LUAR de Woody Allen com Colin Firth e Emma Stone.
Colin é um mágico na Europa de 1920. É levado por amigo à Riviera, onde ele deverá desmascarar uma vidente impostora. É mais um filme agradável de Woody Allen. Divertido, fácil de ver, gostoso. Mostra gente rica em lugares lindos, mostra bons atores em bons papéis. Demorou para Woody trabalhar com Colin Firth, meu ator favorito do cinema de agora. E Emma Stone é bonita e boa atriz. Mas Woody tem um grande problema: seu nome. Fosse o filme de um diretor novato, todos o elogiariam. Mas é de Woody...sabe como é, a gente espera um novo Hannah, Annie Hall, Manhattan....mas não! Woody é hoje um cara de bem com a vida, aproveitando para viajar, comer, beber e filmar. Ele filma apenas o que não lhe dá trabalho, apenas prazer. Seus filmes são como pequenos contos de um autor delicioso e de pouca ambição. São para usufruir. Nota 6.
   GUARDIÕES DA GALÁXIA de James Gunn com Chris Pratt e Zoe Saldana.
Muito, muito bom! Fazia tempo que não via uma aventura tão bem construída, tão cheia de humor, ação e prazer. Porque gostei tanto? Estava pronto para odiar! Mas os personagens são legais, as cenas nunca parecem bobas, e principalmente, não há medo de viajar, de se deixar levar pela fantasia. Uma delicia de filme. Espero pela continuação! Os Guardiões são muito legais! Nota 8.

O MUNDO DE HOJE? É DE PROUST E EU NÃO SABIA! ou SOMOS TODOS UNS MARCEIS.

   Aula de Teoria Literária ministrada por uma leve professora alemã. Uma das melhores coisas em voltar a estudar é quando voce pode desenvolver, em classe, em grupo, aquilo que voce absorveu sozinho ao longo da vida. Nesta manhã falamos de Benjamin, de Bergson, de Adorno e de Proust. Primeiro fato que nunca eu havia percebido: A valorização da memória é um fato moderno. Na poesia e na prosa de antes inexiste fascinação pela memória. O romance do século XVIII caminha sempre adiante. É no fim do século XIX e principalmente por todo o século XX, e cada vez mais, que se instaura a adoração do passado, a valorização da memória, da lembrança individual, daquilo que só voce viveu, viu e sentiu. Freud é apenas um sintoma desse novo sentimento. O mergulhar dentro de si e fora do mundo para achar sua memória.
  Antes não era assim. A memória era coletiva e pouco importava a memória de cada um. Mesmo obras confessionais, como as de Montaigne ou de Rousseau, falam do tempo avante, a lembrança sendo apenas um rápido apoio para o passo à frente. A memória se instalava na igreja, nas festas profanas ou religiosas, nos contos populares e no culto aos heróis. A memória compartilhada, de todos, a memória, mesmo que familiar, sempre inserida no conjunto de outras histórias. Teia de fatos que dizem respeito a todos.
  Hoje todos somos Proust. E se todos somos Proust, então a memória hiper-particular de Marcel se tornou a memória compartilhada por todos. Afinal, o francês sensível e nervoso influenciou mesmo aqueles que nunca o leram. Sim? Mais ou menos. Vamos ressaltar que Proust parte de si-mesmo e tem por alvo o mais si-mesmo possível. Se somos proustianos é porque vivemos a mesma ansia que atingiu Marcel e não porque temos as mesmas lembranças que ele. Proust intuiu aquilo que o mundo se tornaria, o mundo da rua negando e violando a matéria e nossa alma correndo para casa a fim de sobreviver. 
  Somos pessoas que dividem fotos de nossa infância com estranhos. Homens que produzem memórias sem parar. Olhamos e fotografamos incessantemente nosso rosto, observando as mudanças do tempo, analisando o que ele é. Nossa arte produz citações de citações, olha e reflete sem parar sobre tudo o que foi feito e parte dessa memória na tentativa de anular a memória. Colecionamos cacos de lixo na esperança de recordar algo. Damos valor a brinquedos sujos, livros rasgados, casas úmidas, mobilia riscada, esperando que esses objetos nos dêem uma narrativa, que eles nos contem uma história que fomos incapazes de viver.
  Procuramos em sites, lojas, museus, nossas madeleines. Um objeto que nos desperte. Que nos tire da surdez, da cegueira. Viajamos não para encontrar algo de completamente novo, mas viajamos para recordar alguma coisa que nunca vivemos. Ansiamos por histórias, por memórias, por tempo. Olhamos o Partenon como se ele fosse parte de nós. Não é. O Partenon, assim como New York ou Londres ou Tokyo ou Vienna nos recorda coisas que vimos de terceira mão. Não são memórias nossas, são madeleines que jamais nos cantarão um segredo. Paris irá nos lembrar a Paris de um filme, de um livro, de um sonho de outro. 
  Nossa memória nos obceca, mas ao mesmo tempo a tememos. Sentimos que nela perderemos algo. Perderemos a vida. Estranha condição pós-Proust. O francês aceitou o mergulho sem medo, nós nos paralisamos em medo. Memórias pela metade, lembranças fingidas, recordações compradas.
  A menina bonita usa um cabelo Chanel com saudades dos anos 20. Ela nasceu em 1995. O carro é anos 70. Quem o dirige nasceu em 1990. No rádio uma balada tipo 1966. Tudo lembra algo que não foi vivido, tudo faz esquecer, lembrando, a verdadeira lembrança, individual. Porque mesmo que se lembre e se reviva maio de 68, esse aparente coletivo não é coletivo, pois cada um ali vive um sonho particular em meio a uma massa sem rumo. A estranheza é tanta que já há no Brasil ou no Niger quem tenha saudades e memórias dos tempos celtas dos druidas e bruxos. 
  Nunca a infância foi tão adorada. As lembranças se espalham por desenhos, roupas, e pelas salas de terapia. Mas ao mesmo tempo, nunca se lembrou tão pouco da verdadeira infância. A vontade é de reviver e recordar como Proust, mas o que recebemos são apenas lembranças vagamente coletivas, redutoras, pobres. Queremos adentrar outra vez as portas do quarto de brincar e poder sentir, mesmo que por um segundo, a pureza dos dias e das palavras livres. Mas o que compramos é apenas um brinquedo enferrujado que balbucia uma frase gasta e sem valor. 
  O tempo só vale quando tem durée, valor, quando não pode ser medido. É isso o que queremos. É isso o que respira no ciclo da natureza, na semente e na colheita. É isso que respira nas festas. No nascimento e no enterro. Isso é dramatizado na missa, no canto ao redor da fogueira, no mito. É isso o que tentamos resgatar, é isso que Proust resgatou. Para si. Só para si. E para mais ninguém.
  O tempo, domado, contado, estudado, comprado, planejado, morto, é nossa obsessão. Olhamos para nosso passado na esperança de o salvar. Esquecemos o que Proust diz logo no começo de sua obra: Esse reencontro é acidental. Casual. Ele é pura sorte. Ir atrás dele é matar sua chance.
  Toda foto tirada com a intenção de servir como memória de um momento, está fadada a nada significar no futuro. O momento será capturado no acaso. Ou melhor, na Arte. Capturar o tempo sem o assassinar. Eis a tensão da arte moderna.
  Cèst Tout.

Roxy Music - Avalon



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O PLATONISMO EM ROCK, AVALON.

   Eu amava Pat Wonderful porque ela era linda. E se vestia, de uma forma discreta, melhor que qualquer menina que conheci. Até hoje. Jamais pensei em fazer amor com ela. Eu queria sair com ela. E isso nós fizemos. Meu desejo era poder desfilar pelas ruas ao seu lado. Fazer parte de seu mundo. 
 Wonderful tinha um doce perfume. Leve. E seus olhos negros pareciam abismos. Imagem óbvia...mas exata. Ela era uma bailarina. E caminhava pela vida como uma boneca de porcelana. O pescoço sempre ereto e as coxas finas e duras. O nariz empinado. Ela era pequena, e mesmo assim olhava o mundo de cima. Uma noite ela disse que eu era da mesma espécie que ela. Wonderful me fazia feliz. Ignorávamos toda a feiura do mundo. Conosco a vida era champagne, cristal e muita música. 
 Há um esnobismo sempre latente em mim. Nela isso era assumido. Da sacada de seu enorme apartamento, a paisagem era o clube Pinheiros, nós ficávamos madrugadas adivinhando futuros e alfinetando os mortais. Nossa carne era pó. O desejo era pelo etéreo. Assexuados, conseguíamos ter a ilusão de que o idilio duraria para sempre. Ela era Vênus e eu era Mercúrio. O Olimpo era a Terra.
 E sua voz, seu andar de bailarina, eles assombraram toda minha vida futura...
 Avalon é a trilha sonora desse mundo tão irreal que se fez mito. Ela existiu? Vejo fotos e sei que ela era exatamente como eu recordo. O cabelo castanho lustroso, curto, a boca aristocrática, a pele macia e rosada, um tipo de anoitecer de verão. 
 Em Avalon tudo é amor e nada é sexo. Aqui, 1982, Bryan cria o estilo que será dele forever. Milhares de guitarras fazendo uma tapeçaria de sons diminutos, percussão que ricocheteia em vielas de um oriente inexistente, e teclados oitentistas flutuando e harmonizando a elegância sublime de toda essa ourivesaria de sons preciosos. Há uma delicadeza de borboleta em todo som. Por isso a gente ouve e sente o odor de rosas.
 E há a voz. Inumana. Ela vem de um sonho e Bryan nunca mais irá acordar. Ele canta dormindo, profundamente adormecido. É a voz da vida de Tony Roxy e de Pat Wonderful. A voz que rodopia numa irrealidade esfumaçada de estações que ficam. Sem carne, pois a carne conhece a solidez e o tempo. E neste universo tudo é intocado e para sempre. 
 Ter criado este mundo atesta a verdade. Avalon, ilha onde vivem Arthur e Guinevere, é mais real que Londres ou que Bristol. Porque Avalon deu frutos e aquilo que dá filhos é real. Todo o Pop inglês classudo, feito entre 83/94, entrou no mundo de Avalon. Muito lixo foi aqui engendrado. E alguns minutos de pura beleza também.
 Talvez o meu pior viva neste canto. Não sei. 
 Avalon é feito sobremaneira de silêncio. O ruído está longe daqui, foi banido. Idealisticamente, tudo deve ser perfeição. 
 Pat era perfeita.
 Portanto, ela não podia ficar. 
 Platão.
 E o rock, o mais crú dos estilos, conhece com Roxy, o platonismo da pura ideia. 
 E fora daqui, só barulho.

David Bowie - Panic in Detroit (Live 1976)



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David Bowie....'Lady Grinning Soul'



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UMA ESTÉTICA GAY....ALLADIN SANE E HONKY CHATEAU, BOWIE AND ELTON.

   Tenho 50 anos e não tenho filho. Nunca fui casado e gosto de filmes musicais. Gay? Well...até hoje nunca tive uma experiência homossexual e acho que morrerei sem ter. Na verdade nunca senti atração por homem nenhum, embora não me impeça de saber quando um homem é bonito. Mulheres me deixam confuso e excitado. Homens não. Isso me faz pensar que é provável que não seja gay. Porque falo tamanha bobeira? Por causa de dois discos que reouvi após bom tempo. Dois discos obviamente gays, com tudo que essa palavra possa ter de exata ou de puro preconceito. Existe disco gay? Existe arte gay? Existe alma gay? Um disco que fale do amor de um homem por outro é gay, mas é arte gay? A arte pode ser gay falando de guerra ou de um carro. O rock pode ser gay em forma de heavy metal e ser muito hetero em forma de disco music. Como definir?
  Meu gosto estético está muito moldado numa certa moda que havia em 1972/1974. Eu tive 9/14 anos no auge do glitter. Se aqui a gente tinha a onipresença dos Secos e Molhados, fora daqui era a coisa de Bowie e Elton. Os anos 70 foram incrivelmente bicha louca.Começam com Lou Reed e terminam com Blondie e Abba. No meio teve Queen e Roxy Music. 
  Quando penso do que realmente adoro em livros, música, cinema, há uma boa quantidade de arte feita por gays. Mas penso, qual a pessoa razoávelmente culta que não terá amores por Proust, Bowie ou Andy Warhol? 
  Em 1973 dois discos foram lançados quase juntos. E trombaram de frente com Dark Side of The Moon e Houses of The Holy. ( Mas também com Innervisions, For Your Pleasure e Billion Dolllar Babies ). ALLADIN SANE ( a lad insane ), é o disco sem direção, caótico, que Bowie lançou no auge da loucura Ziggy. Já foi chamado de ""ö disco que os Stones não lançaram""". Besteira. O disco, estridente, tem no piano de Mike Garson seu trunfo. Nunca se escutou piano tão sofisticado em disco de rock. Garson era do jazz e seu toque parece de cristal. Ele embeleza tudo o que toca, dá profundidade. E faz de uma faixa como ALLADIN SANE uma obra-prima. Assim como LADY GRINNING SOUL, que fecha o disco, outra obra-prima que gruda na sua vida e dá sentido a seu gosto. O clip que vi na época, JEAN GENNIE, mudou toda a minha vida. Levei um banho, na infância, de glitter e nunca mais me limpei dessa purpurina. Meus olhos se abriram para a beleza rocker e espacial, delicada e desafiante de Bowie, Ronson e de Angie. A capa do disco é icônica até hoje. Há ainda PANIC IN DETROIT com sua guitarra suja e LETS SPEND THE NIGHT TOGETHER, versão superior aos Stones. Anarquia pura.
  HONKY CHATEAU provou de vez que a herança dos Beatles era de Elton e não de Paul ou de John. Pop com rock e o dom de agradar a todos. Todos mesmo! Elton é oposto a Rod Stewart, seu rival naquele tempo. Rod parece feliz mesmo quando se estraçalha em jóias como Every Picture. Já Elton parece triste mesmo quando canta rocks felizes. Há algo nos olhos de Elton que sempre anunciam desencanto. Sua máxima obra-prima da beleza etérea e encantadora se encontra aqui, ROCKET MAN é uma das cinco maiores canções dos últimos 50 anos. Ela tem tudo, tristeza, esperança, desencanto, um refrão grudento, mistério, silêncio e efeitos esquisitos. E a voz de Elton, que vai crescendo com a melodia. A perfeição de forma e conteúdo. O album abre com Honky Cat, rock saltitante. O piano de Elton sempre foi percussivo, ele batuca nas teclas. I THINK I AM GOING TO KILL MYSELF é outra maravilha. Tem um dos mais bonitos refrões da carreira de Elton. E há MONA LISAS AND MAD HATTERS, uma outra obra-prima, mistura mágica de dor e de inocência.
  Elton caiu como uma luva numa era de inocência pervertida e de sonhos conspurcados. Era um tempo em que a canção romântica vendia como pão quente. Meninos de 10 anos escutavam baladas doces dos Carpenters e baladas azedas de Nilsson. E baladas perfeitas de Elton John, que era o alvo de todos os outros cantores. HERCULES, nome do gato de Elton, é como um sonho. Onde achar uma canção melhor?
  O segredo de Elton, e de Bowie em outro mundo e intenção, sempre foi o dom da beleza. Seus imitadores enfeiam aquilo que com os dois sempre parece perfeito, grego, apolineo. Os imitadores de Bowie, por melhor que fossem/sejam, sempre parecem desalinhados, quase feios. Os de Elton são banais. São pret-a-porter, nunca Saville Row.
  Talvez seja essa a coisa gay dos dois? Um interesse na estética, seja a do exagero cafona de Elton, seja a futurista de David. Ou não?
  Que importa? Música não tem sexo e nisso os dois são meus pais.
  Eu amo Elton John. E amo David Bowie.
 

FUTEBOL BRASILEIRO, EUROPEU E A NFL. O ESPORTE ESCANCARA UMA NAÇÃO.

   São feios os estádios americanos. E modernos. E muito, muito grandes. O povo assiste do modo americano, consumindo. Bebem, comem, compram coisas. Durante o jogo. Ninguém pula, gritam muito. 
 São chamados de Arenas os campos europeus. Tentam ter uma estética, afinal, Europa é coisa fina. Mas costumam ser apenas empetecados. O povo assiste enrolado em écharpes e sentados com conforto. Os Hooligans mantém a tradição do velho esporte bretão. Aliás a FIFA é tão tradicionalista quanto a rainha Elizabeth. Nada muda nas regras, não se pode desvirtuar o esporte. Nasceu assim, morre assim. Coisa de sistema de classes.
 O Futebol Americano muda se precisar. Aliás lá tudo muda se for pra dar mais ibope. Tem um monte de juiz, um monte de tecnologia. A tradição que se dane. O que importa é o show.
 Os clubes de futebol têm donos na Europa. Mas são chamados de presidentes. Questão de semântica. E podem até falir, ou sumir aos poucos, mas não podem deixar de ser aquilo que são. Se nascem Hamburgo, morrem Hamburgo. E em Hamburgo. Mesmo que a cidade um dia os esqueça.
 Na América eles são franquias. Podem mudar de cidade e até de nome. O que importa é serem sempre competitivos. 
 A América quer que todos possam ser número um. E se enfraquecer, se reinventa. A Europa quer que todos sejam sempre o que sempre foram. Mesmo endereço, mesmas cores e mesma torcida.
 Um jogo de futebol americano tem, ao contrário do que dizia a Bandeirantes do Luciano do Valle, estrelas. O quaterback é 0 cérebro do time. Time bastante especializado. Um time de defensores, um time de atacantes e um time especial. O jogo tem pausas para se ir à geladeira, ao bar, para se comprar. E todos os atletas vieram de uma universidade. Não existe jogador analfabeto.
 Na Europa voce até pode ser analfabeto. Mas tem de saber usar gravata. Técnicos americanos usam moleton. Jogadores europeus usam terno. Técnicos se parecem com advogados. 
 O futebol americano tem violência organizada. E cada jogador sabe dezenas de jogadas ensaiadas e decoradas. O europeu finge ser educado, mas a violência existe. Ela é discreta. Como o doping. Eles gostam de pensar em talento individual. Mas a maioria é apenas um operário. Europeu. 
 O jogo dura 3 horas na América. E nunca termina OxO. O público paga pra ver gol. E o show oferece tudo o que pode.
 Na Europa se deve preservar a tal pureza do esporte. Ela ainda é o que era em 1865. Pode ter OxO e nada se fará contra isso. Sangue azul, entende?
 Cresci vendo futebol europeu. Sei o que significa o Liverpool, o Milan ou o Ajax. Sei de suas histórias, amo George Best, Pirlo e Crujff. 
  Sua tradição me encanta. Genes europeus em mim, saca?
 Mas ando vendo TODOS os jogos que a ESPN passa da NFL. Já sou um torcedor, sei todas as regras e sei o que significa um time como os Steelers, os Cowboys ou os Bears. E torço pelo Green Bay, por ser, claro, o time mais tradicional, e ser um pequeno ( a cidade tem apenas 200 mil habitantes ) que virou grande. ( Santos? ).
  Eu ia falar do futebol daqui. Brasil.
  A gente tenta, como em tudo, ser europeu. Mas nosso DNA está mais próximo da América, óbvio.
  Ficamos então num tipo de UEFA bagunçada ou NFL com medo de ousar.
  Nossa torcida vai ao estádio como índios pelados em pé de guerra. E nosso jogo é uma mistura de covardia com falta de inteligência. Nosso jogador cai ao chão e rola de dor. Um jogador da NFL sentiria vergonha em parecer tão frágil. Eles caem no chão, após uma hecatombe, e se erguem logo, para mostrar que nada sentiram. A gente chora. Eles mostram os dentes.
  Eita Brasil...
  O esporte mostra tudo aquilo que um país é.
  Comentarei brevemente a NBA comparada a Tour de France e a liga de Volley do Brasil.

JOHN LENNON MORREU

   Não vou mais uma vez falar do dia em que Lennon morreu. Fazem 34 anos hoje. 1980 foi um dos mais belos anos da história do século e é disso que lembro hoje. O que me dói é a saudade de quem me deu a notícia da morte do beatle. E hoje, em 2014, acho que John Lennon foi um chato pedante. Sim, um cara que faz A Day in The Life merece todas as homenagens. Mas sua carreira solo e bem banal e ter se unido à Yoko demonstra o quanto ele era louco. Como caipira de Liverpool, ficou deslumbrado com a """performática"""Yoko. Ela fisgou o bronco e o resto é fim de história. John passou a ser o pet de Ono. E os Beatles, aturdidos, nada entendiam. Um quinto membro no grupo. E que nem sabia tocar ou cantar. 
   Se Paul deve seu status aos moços com cabelo tigelinha de Liverpool, devo dizer que as novas gerações conhecem John apenas por sua época Beatle. Canções que minha turma conhece, Mother, Dream, Mind Games, estão enterradas. Jealous Guy, que é muito boa, está sumindo no tempo. E mesmo Imagine nada diz à molecada. Elas se renovariam com John vivo, sobre o palco, cantando numa banda com Nilsson e Ringo. E com Yoko ao lado, espantando as moscas e os fãs. Mas elas estão perdidas.
  John se considerava um gênio. E pagou o mico de botar em capas de LP até seus desenhos, horríveis e tolos. O defeito de John, dentre muitos, era se levar a sério demais. Ele e Yoko se viam como lideres radicais. Bullshit! Ele era apenas um rocker. Esqueceu isso. 
  Quando a fonte secou ele teve e decência de se recolher. E voltou em 1980 com um disco tão ruim como os piores de Ringo. Mas ele morreu e deve a Chapman seu status de mito. Como Marley. Como Brian Jones, a morte lhe fez bem. Aumentou um talento que era grande, mas que se fez mitico com a tragédia. 
  Para finalizar lembro que em 1980, numa entrevista para a Playboy, Lennon se elogiava e dizia que achava ridiculo Mick Jagger ainda rebolar no palco aos 34 anos. A resposta de Mick mostra tudo o que penso sobre Lennon. "" Quem pagaria para ver John Lennon rebolar?""
  John Lennon fez Tomorrow Never Knows. Mas era um chato. Um grande chato.
  

DE AMOR E DE AMAR

   Nunca e pudor em assumir um amor.
   Numa mesa de bar, ontem, eu conversava com alguns amigos e descobria que quase nenhum deles tem ou teve ídolos. Acho isso triste. Pior, pobre. Ter ídolos nos ensina a amar com paixão e assumir esses heróis nos tira, pra sempre, a vergonha de se apaixonar.
   Um cara se apaixona muitas vezes na vida. Umas paixões podem ser maiores, algumas duram mais, mas todas são de verdade. Não existe falsa paixão, assuma, mesmo o amor que voce sentiu por aquela menina burrinha e magrela em 1979 era real. E merece a nobre reverência da memória. 
  Estou misturando amor e paixão. Começo a perceber que ao separar uma da outra estamos diminuindo uma delas. As duas são alma e as duas são corpo. A diferença está apenas na cabeça. Nosso espírito voa, seja amor, seja paixão. São a mesma coisa. Pois amor sem sexo se chama amizade e a amizade eu chamo de amizade. Amor é paixão.
  Desde que me conheço eu caço. Vou atrás do amor e não consigo ser minimamente feliz sem ele. Pode ser com uma menina de 20 anos, uma mulher no auge dos 35. Pode ser platônico, tolo, ilusório, vaidoso, egocêntrico, generoso. Pode ser com poesia ou com raiva. O amor está sempre em minha mira. Eu o procuro. Necessito.
  E desde o momento em que nasci o assumi. Amava com ansiedade, com o coração aos pulos, com insônia, com febre e com alegria de explodir. Amava meus bichos, minhas trilhas, meus pais. Amava a escola, amava os Monkees, amava meu melhor amigo. Amava a loirinha com quem nunca falei, e a professora que imaginava nua. Aos 7 anos amava certos filmes de pirata, de guerra, de monstros. Amava meus brinquedos. Eu sentia o amor com a força que sinto hoje e o assumia, deixava ele crescer em mim, cultivava.
  Sim, isso me fez sofrer muito, chorar demais. Mas nada me define melhor que essa disposição para a paixão, para o grande coração. É o meu melhor e sem dúvida é meu pior. 
  O amor me toma de novo. E nunca importa muito por quem. Sério! Pois amor, quando vem, provocado por eu-mesmo e por quem me enfeitiça, envolve o mundo em seda. Amo aquela que me dá felicidade, e esse amor tinge de amabilidade e de cor tudo o que vejo e ouço.
  Amar é bom. E bom é o amor.

Mother Whale Eyeless



leia e escreva já!

Brian Eno - The True Wheel



leia e escreva já!

ARTHUR CONAN DOYLE- A TERRA DA BRUMA, SHERLOCK ENCONTRA O ESPIRITISMO

   Hmmmm....sei não. Acho que não gostei deste livro, bonito, de capa dura, recém lançado pela Zahar. O autor de Sherlock Holmes, na parte final de sua vida, arregaçou as mangas e mergulhou no mundo dos espíritos. Esta narrativa, uma peregrinação pelos centros espíritas da Londres de 1920, nada mais é que a propaganda de uma fé. Claro que permanece a maestria de Doyle em criar clima, ambiente, mistério. Mas onde está o personagem interessante? Ninguém aqui nos cativa, como fazem Holmes e Watson.
  Já frequentei centros, e apesar de meu interesse religioso, algo neles sempre me desagradou. No espiritismo existe a mania do século XIX de tudo racionalizar. O mundo dos espíritos me parece ordenado demais, claro demais, corriqueiro, muito positivo. Creio em mistérios, mas o que me incomoda é que o espiritismo nada tem de misterioso. Dessa forma, Doyle passa o livro todo procurando nos convencer da verdade de suas experiências. Eu não sei.
  Arthur Conan Doyle foi médico, esteve em duas guerras e passou a viver de escrever com o imenso sucesso de Sherlock. Após os 50 anos, ele que sempre fora muito curioso, resolveu investigar a ""febre"""espírita que tomava Londres então. Se convenceu da veracidade. Interessante observar a perseguição policial que era feita contra os mediuns, todos acusados de charlatanismo, e a certeza que Doyle tem de que no futuro todos serão espíritas. 
  Para ele, o mundo das almas não é aceito porque a certeza em sua presença colocaria o mundo de ponta cabeça. Toda a vida produtiva, todo o esquema de poder, o modo como avaliamos a história, tudo seria posto abaixo. E os poderosos não podem aceitar a ideia de que somos todos iguais, todos alma eterna, todos com o mesmo dom e o mesmo futuro. Um mundo plenamente espírita seria um mundo de absoluta paz. A vida aqui seria como uma escola, um aprendizado, destituído de ambição material e de medo.
  Eu não sei.

1977-1969-2014-SEMPRE...

   Não lembro da loja. Sei que foi em Pinheiros. Na Teodoro Sampaio. Em 1977 ela era uma rua mais decente, ainda tinha algumas lojas bem legais e não existiam camelôs. A esquina com a Pedroso de Morais era bonita, tinha a doceira Docinho. Todas as travessas eram silenciosas, residenciais, ainda não havia comércio na Mourato e na Lacerda. Só a Fradique tinha movimento. Fazia sol, era fim de verão. Saímos do bar do meu pai e compramos dois discos. Abbey Road foi escolhido por ter Come Together. E Let It Bleed por causa da crítica que Ezequiel Neves havia escrito. Voltamos para o bar e ficamos esperando a carona de nosso pai. No escritório que ele tinha a gente rabiscou na porta a data e o nome dos dois discos. Essa porta, com os anos, acabou cheia de escritos. Esse foi o primeiro. 
  Na sala, ao sol, só na manhã do dia seguinte, a gente os escutou no 3 em 1 da Sharp. 
  Lembro que achei o lado 1 dos Beatles muito bom e o lado 2 decepcionante. Com o tempo adorei. O disco dos Stones achei esquisito. Não gostei muito. Meu irmão, que coisa, gostou dele de primeira. Numa manhã, inesquecível, em que ouvi Let It Bleed de meu quarto, enquanto Edú o escutava na sala a todo volume, descobri que aquele era o disco. 
  Existem discos que me são tão vitais quanto meus pulmões. Siren do Roxy Music, Led Zeppelin - Houses of The Holy, o Transformer, Pin Ups de Bowie.  Nenhum mudou minha vida como Let It Bleed mudou. Durante o resto de 77, e agora lembro que errei a data, ele nao foi comprado no fim do verão, mas sim em agosto, eu o escutei sozinho em casa, toda tarde, em frenética excitação. Estudava datilografia às 4 horas e sempre descia a rua até a escola cantando Let It Bleed. 1977 definiu a eternidade da minha mente, foi o alicerce, foi o acordar da infância, foi ver o mundo. O disco da capa do bolo e da roda foi sua trilha.
  Hoje, 28 de novembro de 2014, ele completa exatos 45 anos de vida. Em agosto foram 37 anos comigo. O mesmo vinyl errado ( o selo do lado A está colado no lado B ). Sulcos que me trouxeram blues, sexo, euforia, beleza, raiva. A guitarra de Keith nunca soou tão cortante, o timbre suave e ao mesmo tempo forte, cheia de silêncios, de respiros. A bateria nunca foi tão jazzy, Charlie em plena forma. E Mick, ainda longe da mania dos falsetes, cantando como Mick, um preto. É meu disco favorito? Não sei. É aquele que mais me traz lembranças fortes. 
  Em dezembro desse mesmo ano fomos à praia. No Caravan vermelho de meu pai fomos cantando, eu e meu brother. Ele cantava Country Honky e eu Let It Bleed. A Serra passava voando pela janela, o fim da tarde parecia uma festa e a praia teria gosto de vida. 
  Como voce pode notar, Let It Bleed é mais que um disco. Não há como falar dele apenas como música. Ele, como um terreno fértil onde coisas crescem e respiram pelos anos passados, solo úmido, solo rico, brota e traz frutos e sementes que se espalham dentro e fora de mim. 
  Se a música é a lingua do cosmos, este disco alicerça uma mansão estelar.

EM 1977 O MUNDO VOAVA E IA ATÉ 2020.

   Em março de 1977. O ano de 1969 havia passado a oito anos, lógico. Assim como hoje, novembro de 2014, está distante oito anos de novembro de 2006. 
  Ou não?
  De março de 69 até março de 77 nós vimos: O fim dos Beatles e toda a carreira solo dos quatro. A invenção do Hard Rock e o auge e a decadência de Led Zeppelin, Deep Purple, Grand Funk, Bad Company, Black Sabbath, Alice Cooper etc. O auge e a velhice do prog rock. De Yes a Genesis. De Pink Floyd a King Crimson. Tudo isso não havia em 69. 
  O funk seria criado. Earth Wind and Fire, Funkadelic, Ohio Players, Kool and The Gang. E a disco já existia. Elton John já vivera seu império e já o perdia. Assim como Bee Gees, Abba, Peter Frampton, Marc Bolan e James Taylor. Stevie Wonder começava a ser passado.
  Lou Reed criara entre 71 e 75 sua obra. O Roxy Music já não existia. Tudo fora feito em 4 anos apenas, 72 a 75. David Bowie era Bowie, sua fase rock morrera. Estava em Berlin com LOW quase pronto. E Iggy tinha The Idiot já acabado. 
 Todo o rock alemão nascera em 69 e entrara em ocaso em 74. Assim como Kevin Ayers, que nascera em 70 e perdera a esperança em 75. 
 Rod Stewart e os Faces em quatro anos passaram de gênios a vendidos. Nesse tempo Eagles e Fleetwood Mac se venderam e se popularizaram. 
 Em 77 as novidades mais novas eram Clash, Talking Heads, Blondie, Patti Smith, Elvis Costello, The Jam, Specials, Bruce Springsteen, Ramones, Kraftwerk e os Sex Pistols. I Feel Love de Donna Summer e Giorgio Moroder era o futuro. ( Ele era no cinema Star Wars e Close Encounters. Rocky e Annie Hall ). 
  O escritor quente era Philip Roth. E Saul Bellow. Norman Mailer. Truman Capote. Updike. Gore Vidal. Na TV tinha Starsky e Hutch. As Panteras. Cyborg. Bill Cosby. Muppet Show. Casal 20. SWAT. Love Boat. Roots. 
  O homem fora a lua. O primeiro transplante de coração. Inventaram o PC pessoal. O Partido Verde é criado na Alemanha. 
  Mas esquece. Tou falando de música. Entre 69 e 77 apareceram e estouraram Tim Maia, Secos e Molhados, Raul Seixas, Rita Lee, Martinho da Vila, Novos Baianos, Fagner, Alceu Valença, Belchior, Fábio Jr, Made in Brazil, Banda Black Rio e as Frenéticas. 
  Kiss, Cat Stevens, Carpenters, Neil Young e The Band. JJ Cale e Queen. Todos fizeram seu melhor entre 70 e 77. E o Heavy Metal nascia ao lado do punk. Ao lado do techno. E o RAP se preparava no gueto. 
  Reggae se espalha em 72. Em 77 Bob Marley já fizera toda sua obra. 
  E então?
  Duas coisas:
  Primeiro eu vejo como a carreira no rock e no pop é efêmera. Com sorte são 4 bons anos. Se voce é excelente são 5. Gênios chegam a 10. Falo de relevância. Há quem dure 50 anos. Tendo apenas 8 de real valor. ( Sim, são so Stones. )
  Segundo que em contagem de tempo tipo seculo XXI, o período 69/77 equivale a uns 20 anos. Entre 2006 e 2014 lembro do auge e ocaso de um bando de cantoras e de algumas bandas que quase foram e não chegaram a ser. Mais, o que realmente mudou nesse últimos oito anos? Qual a novidade rock/pop? 
  Em março de 77 eu comprei Abbey Road e Let It Bleed juntos. E esses dois discos, que tinham apenas oito anos, pareciam ser então de 1810. Aliás em 2014 eles parecem ser mais novos que em 77. Em meio a Johnny Rotten e Paul Weller, Bowie e Eno; Paul e John, Mick e Keith, tinham voz de pré-história. 

SUPER INTERESSANTE, NOVEMBRO DE 2014.

O Universo inteiro numa cabeça de alfinete. Tudo o que haveria de um dia haver todo ali. Mais que isso, o futuro-tempo todo ali. E então, no tempo de um pensamento, em meio a escuridão absoluta, a explosão. E nesse micro micro micro segundo, nasce o universo, nasce o tempo, nasce tudo o que um dia seria. 
E FEZ-SE A LUZ.
Cinco ingredientes: quarks, fótons, e mais 3. Na infinita combinação desses tijolos, o tudo. Isso faz de todos nós, irmãos. Não apenas irmão do macaco. Irmão do gorila, da flor, da pedra, da mesa, da Lua, de Plutão...do cosmos inteiro e da zona negra também. Viemos do céu.
Há mais. 
No limite do Universo, do Universo que foi nosso pai e nossa mãe, há uma rachadura. A pergunta que mais incomoda: e além? Cientistas já aceitam a tese, além existem outros cosmos. Onde nossas leis da física não se aplicam. Um mundo bizarro. E além dele mais outros mundos...
Mais ainda.
Se o Tudo é infinito, se mundos fazem vizinhança com mundos, o infinito também existe para dentro. O pequeno mais pequeno. A fração de milimetro elevada a bilhão. E nesse micro mundo quântico, tudo se move para onze dimensões. Onze dimensões. E nossa mente só consegue entender três... Um universo invisível, apenas intuído. Cordas, micro cordas que vibram em onze sentidos. Cordas que estão e ao mesmo tempo não estão. Vibram e criam uma incerta e caótica harmonia. E tudo isso pode se desfazer e desaparecer....agora....ou ainda não...
NO CAMPO.
Ao sol e cercado de cabras que berram. O vento contou a eles. Pitágoras intuiu. O universo é uma corda. Dividindo essa corda fazemos uma harmonia. O universo vibra. O universo é música das esferas. A música é a lingua do tudo. O segredo reside nela.
NA CAVERNA.
Platão intuiu. Nossos sentidos sentem apenas a sombra. A verdade está nas ideias. Dentro de nós está o mundo. Somos aquilo que não vemos. 
NO BOSQUE.
Caímos do céu. Em sete dias tudo foi criado. Deus vive dentro e fora de nós. O Criador está em tudo o que há.  Somos filhos. 
HOJE.
Somos pó. E ao pó voltaremos. Aquilo que eu sou sempre foi. E será sempre. Pó das estrelas. Sou cosmos. 
XAMÃ. 
Eu posso ir para outros mundos. Mas deles não posso falar. Posso sentir, posso até desenhar, mas não falar. Posso cantar. Mas não falar. Em mim, bem dentro, há fagulhas que estiveram na nascença de tudo. E que estarão sempre. Eu sou o infinito. 
Infinitamente pequeno. Infinitamente infinito. Afundo em mim e descubro mundos. Vou para fora de mim e reencontro universos. 
As cordas vibram e todos os poetas sempre souberam.
As coisas caem e todas os deuses sempre existiram.
A vida TINHA de ser criada, e nós sempre soubemos.
Além não ao nada. Porque o nada também é. 

SOBRE SENTIMENTOS E A SOMBRA- JUNG

  Eu estava na Cultura e então um livrinho surge em meu caminho. Um sinal? Não posso o ignorar. Pois eu estava lá para comprar, talvez, uma biografia ou um livro de viagens. Andando por essas sessões eis que deslocado estava esse livreto. Alguém pegou em outro andar e o deixou jogado em meio aos best-sellers. SOBRE SENTIMENTO E A SOMBRA de Carl Gustav Jung. Apenas 75 páginas. Capa preta, novo, a transcrição de 3 conversas que Jung teve, informais, em sua casa na Suiça, já ao fim da vida. A última conversa, eu vejo, foi feita no dia 29 de maio, o dia em que nasci. Well....como não comprar esse bilhete jogado em meu caminho? Ainda mais quando leio na capa de trás: """Viver é perigoso, e caso não seja, a vida não valeu a pena"". Caramba! Isso é Jung ou é algum astro do rock? Compro.
  Isso é Jung, um ato intercalado no absurdo da vida. Sentido dentro do acaso. Deus nas entrelinhas. Logo leio, no dia seguinte, um belo domingo, "" Não recuse o que se depara com voce na estrada. Aceite."" Omessa!
  Jung ao fim da vida não fala mais como um médico, fala como um avô sábio. O centro do livro é a seguinte constatação: "" Não pode haver bem sem o mal. O bem sem o mal seria a morte, a não-vida. Viver é pecar. O pecado é necessário para que se encontre o bem. Sem o pecado e o perdão não se encontra Deus. Um homem sem pecado não é humano."" Mas Jung evita habilmente dizer se Deus existe. Ele existe como ideia, como ente histórico, como causador da nossa sociedade, como força central dentro de nós. Nesse sentido, Ele é tão real como o amor, o pecado, a história ou a arte. Existe em nossa mente, e a questão é, Há algo no Universo que não existe como verdade em nossa mente?
  Interessante a afirmação de Jung, a de que todo deprimido ou melancólico é alguém que pecou pouco. A solução, claro que nuca definitiva, para a tristeza é: pecar mais, pecar muito. E depois se redimir.
  Há também toda uma conversa maravilhosa sobre antropologia, em que ele conta dos primitivos da Austrália, que ao perder a libido se recuperam através de todo um ritual com talismãs e totens. A libido sendo transferida para um objeto e sendo recuperada no trato com esse depósito do desejo.
 A maior parte das conversas sendo sobre Cristo e cristianismo, os erros da igreja e a questão central em que se tenta entender o que seja Humano e o que seja Divino. Aí surge a questão da sombra e de como não lidar com ela.
  75 páginas com a voz de um mestre ao preço de 20 reais. Tá de graça!

CLINT EASTWOOD/ CLAIR/ PHILIP SEYMOUR HOFFMAN/ JENNIFER ANISTON/ SIN CITY 2/ VIVIEN LEIGH

   THE PAWN BROKER CHRONICLES ( BUSCA ALUCINANTE ) de Wayne Kramer com Matt Dillon, Brendan Fraser, Elijah Wood, Paul Walker e Vincent D`Onofrio
O começo deste filme, com dois caras conversando abobrinha, lembra pela milésima vez ao Pulp Fiction. E todo o filme vai nessa toada: humor negro, guitarras distorcidas, bastante violência. Com uma diferença, absoluta ausência de talento. Uma salada de um cara que se acha Elvis, um bando de mulheres nuas, uns caipiras toscos, carros feios, e muito sangue. Uma tentativa desesperada de ser cool que se torna apenas uma bobeira tola e vazia. Nada faz sentido e nada tem graça. Uma pena ver alguns bons atores neste lixo. Nota Zero.
   SEM DIREITO A RESGATE de Daniel Schechter com Jennifer Aniston, Tim Robbins e Will Forte.
Dificil não sentir pena de Jennifer. Uma boa atriz perdida nesta tolice atroz. Ela é uma mulher rica e infeliz que é sequestrada por um trio de idiotas. Não é uma comédia, tenta ser um drama. O roteiro é tão imbecil que chega a ser ofensivo. O cinema vai acabar. Nota Zero.
   LADY HAMILTON de Alexander Korda com Vivien Leigh e Laurence Olivier
E eis que encontramos um filme do tempo em que o cinema era coisa de adultos. Acompanhamos a saga de Hamilton, uma mulher inglesa que nos tempos de Napoleão foi da fortuna à miséria. O filme não é bom, é apenas interessante. Vivien está tão linda que consegue nos hipnotizar. Ela é o conceito do belo em forma de ser-humano. Olivier, esposo dela nesse tempo, apenas tem de lhe fazer bela companhia. Ele consegue. O jovem Olivier era um galã perfeito. Nota 5.
   CAVALCADE de Frank Lloyd com Diana Wynyard e Clive Brook
Melhor filme no Oscar de 33 está longe de ser um grande filme. Nem mesmo bom ele é. Tem três problemas que o aniquilam. É um tema muito inglês feito em Hollywood. Segundo, o roteiro tira todo o wit da peça de Noel Coward, um imenso sucesso nos teatros de então. E o mais grave, todos os atores interpretam o filme como se ele fosse mudo. Se voce quiser saber o que seja um tipo de performance antiga, velha, veja isto. O tema é a saga de duas familias inglesas, de 1899 até os anos 20. Guerras e mais guerras. Coward já sentia a proximidade de Hitler, o filme é inerte. Nota 3.
   JERSEY BOYS de Clint Eastwood 
O novo filme de Clint, passou aqui?, surpreendentemente conta a história de Frank Valli, um dos mais bregas cantores do auge do rock`n`roll. A gente sabe que Clint não gosta de rock, e assim ele passa pelo período do filme, 1952-1979, como se o rock jamais tivesse existido. Frank Valli era um cantor romântico na linha de Johnny Mathis. Estranho filme, por causa do meio italiano se parece com um filme de Scorsese. Sem brilho. Não é um filme ruim. Não é mesmo! O seu problema é o tema, pouco interessante. Nota 5.
   O ÚLTIMO CONCERTO de Yaron Zilberman com Christopher Walken, Philip Seymour Hoffman, Mark Ivanir, Catherine Keener.
Oh mais um filme de gente doente! Mais um filme frio, seco, distante, que tenta se passar por arte! Mais um filme jeca que acha que arte significa seriedade e sofrimento. Aff...Ok, todos os atores são excelentes e todos eles têm chance de brilhar. Mas...so what? Nota 4.
  SIN CITY 2 de Robert Rodriguez e Frank Miller com Joseph Gordon Levitt, Bruce Willis, Eva Green, Josh Brolin, Mickey Rourke, Jessica Alba.
Parece uma brincadeira de amigos de 11 anos que adoram sangue. E nem os belos seios de Eva Green valem o filme. Ele é um nada sobre coisa alguma. É tão fake que faz Liberace soar como Liszt. Nada entenderam do que seja filme noir. Nada sabem sobre o que seja ser sexy. Desconhecem a escrita de roteiro. Pior, não têm simancol. Nota Zero.
  O VINGADOR INVISÍVEL de René Clair com Walter Huston, Barry Fitzgerald, Roland Young e Louis Hayward
Uma festa! Baseado em Agatha Christie, o filme fala de onze convidados que hospedados numa casa isolada, vão sendo mortos um a um. Quem é o assassino? Clair foge da guerra e em Hollywood se torna um dos mais encantadores dos diretores. Seus filmes voam. São diversão em alto nível de clima e de performances. Para quem quiser lembrar do que seja cinema popular bem feito e inteligente. Nota 9.
 

O MUNDO DO FUTURO, A ALMA DO PC, GLYN JOHNS E OSCAR WILDE

   Foi Glyn Johns que gravou mais da metade dos discos que eu mais adoro. Era ele que ficava detrás da mesa de mixagem mexendo os botões e olhando aqueles ponteiros dançarem. Glyn estava lá nos melhores discos dos Stones. Do Who. Estava no Led Zeppelin. Beatles. E depois com London Calling do Clash. Com Plush dos STP. E neste século voce vê o nome do cara em discos que tentam resgatar a sonoridade 60`s.
  É muito dificil escrever sobre som. A qualidade do som, o que diferencia um som de outro som. Falar em graves, em eco, em delay, em ruído pode ser disfarce daquilo que não se consegue expressar. O som de Glyn era diferente, era redondo. 
  Recentemente comparei, com um jovem amigo, o som de Transformer em cd e em vinyl. É outro disco. E eu não sei exatamente onde esse som muda. No vinyl ele parece impar. O som da bateria chia, o bumbo está mais áspero, e o chimbau arranha. O baixo desaparece no cd. Ele no vinyl parece descontrolado. No cd está onde deve estar, subterrâneo. Mick Ronson em cd soa quase convencional. No vinyl ele raspa as cordas e zune. Como disse um amigo meu, músico profissional, no cd voce ganha e perde: fazer um disco é barato, mas o som fica todo chapado, o cd não permite agudos ou graves que extrapolem um certo padrão. Glyn sabia produzir trovões. Os dois primeiros acordes de Led Zeppelin I, Good Times Bad Times provam isso. Em vinyl.
   Paul Valéry disse que não se pode escrever a verdade. Ela sempre escapa. Letras só se prestam a falar do mundo das letras. E, triste isso, pensamos em forma de escrita e quase que sentimos apenas em frases escritas. Quase. Então como falar de música? Como descrever um som? George Steiner dizia que toda arte aspira a ser melodia. Mais que isso, ele dizia que arte verdadeira não nasce na ordem, na paz e na limpeza. Arte surge no kaos, na injustiça e na sujeira. Ele próprio diz que talvez não valha a pena, mas a democracia mata a filosofia. E a falta da filosofia, principalmente da metafísica, destrói a criação artística. O homem democrata sob a democracia pode sentir dor, tristeza e criar boas tentativas, mas não sente o absurdo, o desespero, e a iluminação da arte mais atemporal.
  Glyn Johns foi cantor e ninguém sabia mais disso. Na Londres de 1966, ainda com ruínas de Hitler, ruas de barro e casas sem banheiro, a arte tentou erguer a cara do Kaos e sorrir. Não sei se alguma coisa vai durar até 2200. Mas a coisa foi bela. No close do rosto de Glyn, estranhamente andrógino, a arte está prometendo acordar. Os moleques sujos e fedidos crescidos entre 1940-1960 queriam brincar e esquecer.
  Metafísica. Para Steiner, a filosofia só é verdadeira filosofia quando se embrenha na metafísica. Filosofar é pensar na morte e em Deus. No infinito e na existência. No tempo. Uma coisa irônica está acontecendo, e eu notei isso em minhas limitadas leituras de física, a ciência mais moderna está a seguir, sem querer perceber, os passos da mistica. Mundos paralelos são agora aceitos como possibilidade real. ( E me espanta alguém ainda usar a palavra real ). O tempo é tratado como ficção. E a arte, pobre faminta, está ficando atrás da ciência. Hoje a física parece mais criativa que a arte.
  Nosso corpo é apenas um tipo de tablet. Um receptor e divulgador de informações, memórias, insights que giram pelo espaço afora. O tablet se estraga, fica doente e é jogado fora. Isso não afeta o mundo da internet, que continua a rodar. Mesmo sem a máquina individual. Hoje essa ideia parece bastante comum. Em 1980 seria incompreensível. Como Wilde falava, o mundo segue a imaginação. 
  O desenvolvimento científico dará aval para a religião e a metafísica. No fim dos tempos a cauda da cobra vai tocar a cabeça do bicho. A ciência nos levará ao mais arcaico. Que será o futuro. O mundo é ironia. Borges é o futuro.
  Glyn Johns canta Lady Jane em 1966 na BBC. É 2014 e eu o vejo só porque um técnico criou a internet, o youtube e meu PC. O cantor fala de um mundo de 1800, de Byron e Shelley. E eu o revivifico. No futuro um homem verá isso outra vez. E a imagem será cada vez mais mítica. E Lady Jane ainda mais terá status de totem. A referência de uma cultura e de um modo de sentir. O passado cada vez mais futuro, o presente cada vez mais indiferente. 
  Se não destruirmos tudo, e essa possibilidade existirá sempre, será o mundo mais budista que se possa exigir. Plácido. Quieto. Individualista. Voltado para dentro de si-mesmo. E a procura do oculto. Sejamos otimistas.