TimesTalks: Michael Caine: Five Favorite Films | The New York Times



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MAX PERKINS, UM EDITOR DE GÊNIOS - A. SCOTT BERG

   As primeiras 150 páginas deste livro são fascinantes. O autor conta a história das duas famílias que se uniram para formar Max Perkins. Depois se fala sobre seu casamento e o começo de sua carreira na Scribners. Mas, lá pela página 200, voce começa a se sentir muito, muito cansado. Por um motivo simples: a própria vida de Max caiu numa repetição cansativa. Ele jamais deixou de amar aquilo que fazia, mas ao mesmo tempo, destruiu sua saúde pela repetição mecânica de seu trabalho. Editar gente como Thomas Wolfe ou Scott Fitzgerald era desesperador.
  O trio principal da editora era Wolfe, Scott e Heminguay. 90% do livro fala deles, e eu queria que se falasse mais dos outros autores. Dentre os 3, a maior parte é dedicada a Thomas Wolfe, e Thomas é um porre!
  Eu li Thomas Wolfe anos atrás e pra mim ele era um completo maluco. Max Perkins teve de pegar manuscritos de mais de 1000 páginas, incoerentes, caóticos, e dar um jeito de transformar aquilo em algo legível. Sem Max, o livro não diz isso, mas nós notamos, Thomas Wolfe não existiria. Abusivo, ele privou da casa e da comida de Max, irritou seus amigos, destruiu seus nervos.
  Fitzgerald lhe deu outro tipo de trabalho. Scott foi um autor que se tornou rico e famoso aos 23 anos. E isso acabou com ele. Ele tinha um dom refinado e um texto belíssimo, mas não aceitava o fato de estar ficando "velho". Como acontece com todo rock star hoje, ele não queria que a beleza e a alegria de seus 23 anos morressem. Sua esposa Zelda, completamente doida, era um peso em sua vida, e fraco de saúde, Scott era um poço de medo. Se afundou na bebida. Max o ajudava lhe dando dinheiro, confiança, fé.
  Já Heminguay era o oposto dos dois citados acima. O texto já vinha quase pronto, era hiper ativo, confiante, e o único problema que ele dava a Max era de censura. Perkins tinha de refrear sua agressividade e cortar palavrões em seu texto. Foi o único que sobreviveu à Max Perkins. Wolfe morreu de tuberculose cerebral ainda jovem. Scott morreu no começo dos anos 40 de infarto. Max Perkins morreria em 1946, aos sessenta e poucos anos. Literalmente de cansaço.
   Nós não temos a tradição americana de editor. Aqui um editor lê o texto, julga e corrige erros de gramática. Lá, um editor dá ideias, rumos, corta capítulos inteiros, elimina personagens. Faz uma parceria com o autor. Ajuda, empurra, ampara. Este livro é uma enorme história de amor. Max, que teve 5 filhas, via em cada escritor um filho. Wolfe foi o filho rebelde, Scott o filho frágil e Heminguay o valentão. Max Perkins era um pai dedicado, protetor, paciente, um gigante.
  Leia este livro se voce gosta muito de livros.
  A. Scott Berg tem um texto claro e objetivo, consegue fazer com que amemos Perkins sem jogar confete nele. Apenas descrevendo seu trabalho duro e exigente.
  

Peter Bogdanovich on John Wayne in "Red River"



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Red River (1948) ORIGINAL TRAILER



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RED RIVER. UM DOS MAIORES FILMES DA HISTÓRIA.

   Diz a lenda que Howard Hawks não move a câmera. Que ele monta a cena e pede sempre que o cinegrafista grave sem se mover. Há também outra lenda que fala que Hawks nunca pensava em fazer dois filmes parecidos ( isso até 1959 ). A segunda é fato, mas a primeira é desmentida por Red River. Feito em 1947, ele tem dois movimentos de câmera que ainda hoje, época da steady cam, são raros: um giro de 360 graus, onde todo o set e todo o grupo de atores é mostrado; e uma travessia de rio, onde vemos a ação de dentro de uma carroça. São dois momentos "não hawksianos" em um filme, brilhante e majestoso, onde toda a filosofia é 100% Hawks. Thanks God.
  John Wayne abandona uma caravana para se estabelecer no Texas. Há um salto de 12 anos, e agora, dono de um rebanho imenso, ele tem de levar o gado até St. Louis, 1.600 km de distância. No caminho ele começa a ficar muito agressivo, e seu pupilo, Montgomery Clift, entra em atrito com ele. Mais não conto, embora vontade não falte.
  A maioria dos leigos acha que "o novo modo de atuar" nasceu com Brando ou Dean. Na verdade nasceu com Montgomery Clift, aqui. Observe como ele nunca atua como Wayne. Assim como Marlon faria, ele emite as falas enquanto enrola um cigarro, brinca com o chapéu, pega algo do chão. Sua voz está sempre um tom abaixo, ele se esforça para não parecer atuar. Caso voce não saiba, Monty ainda tem um fã clube imenso, era amado por Brando e Dean, e teve sua carreira destruída pelo álcool e seus conflitos sexuais. Trabalhou com todos os grandes: Hitchcock, Kazan, George Stevens, John Huston, Zinneman, William Wyler, George Cukor. Em sua época, apenas John Ford e Billy Wilder nunca o usaram. Uma carreira de apenas 15 anos. Em 1963 ele já estaria destruído.
  Estranhamos no começo sua presença. Monty era pequeno, delicado, suave demais para um western. Parece que Hawks errou na escolha. Mas aos poucos percebemos o acerto. Nenhum ator da época era mais anti John Wayne que Clift. Inclusive no modo de atuar. O filme pedia por essa oposição. Hawks acertou no alvo. Wayne é pura força, virilidade, expansão, raiva explosiva; Monty é educado, completamente educado. Observa o modo como ele atira. A arma em sua mão é quase como uma raquete de tênis ou melhor, um florete. A mesma arma na mão de Wayne é um canhão.
  Dizem que John Ford tinha inveja de Hawks. Por causa deste filme, o único western que não era de Ford que Ford queria ter feito. Mais ainda: Ford dizia que John Wayne aprendera a atuar com Hawks e não com ele. Há fontes que dizem que ao assistir Red River, Ford comentou: " O filha da puta sabr atuar! ".  Rastros de Ódio só existe porque Red River existiu antes.
  Muita gente diz, e eu mesmo já falei isso, que os filmes de Hawks passam a sensação de que apenas se conversa, de que não há ação física de fato. Por isso Tarantino sempre o cita como diretor apreciado. Mas em RED RIVER a verdade fica mais evidente: A ação acontece, há muito movimento sim, mas os personagens são tão bem desenvolvidos e os diálogos são tão bons, que temos a sensação de que a ação não é tão importante. O que mais lembramos são dos tipos, dos caracteres, dos homens lá envolvidos. O filme tem estouro de boiada, ataque de índios, duelos, surras, correrias, travessias. Mas o que fica é Wayne esbravejando, Walter Brennan comentando a ação, Monty sendo diplomático com a troupe, e todo o resto, cada um com sua alma muito bem definida.
  Há bom humor em todo o filme. Hawks amava viver e ele é incapaz de ser pessimista. O filme não passa nem perto de ser uma comédia, porém ele crê no homem, faz fé em amizades, entende que o bem sempre dá um jeito de retornar. O final do filme não poderia ser melhor. Sorrimos com ele.
  Termino falando do feminismo real de Hawks. Até em seus westerns Hawks enfia uma mulher na história. E elas são sempre fortes, independentes, bocudas, e resolvem as bobagens onde os homens se perdem. Nenhum diretor explicita melhor o poder de civilizar que a mulher tem.
  Outro fato é a diferença entre os westerns de Ford e Hawks. Ford parece ter estado lá. Hawks é urbano, um gentleman. Ford é portanto muito mais crente, duro, machista, poético, ele crê no que filma. Para Ford um western é a vida real. Hawks é o contrário. Ele é sempre irônico, leve, democrático, nunca poético, evita o aspecto de saga naquilo que filma. Para ele, um western é um espelho da vida.
  RED RIVER é um filme imenso.
 

ENSAIOS CÉTICOS - BERTRAND RUSSELL

   Leio este volume de vários ensaios de Russell. Editado em 1928, é um apanhado não especificamente da filosofia desse homem admirável, mas sim o modo como ele via a política, a história e a crença dos homens. Russell não é do meu time, digamos assim. Ele era inimigo de Chesterton, de Tolkien e de Lewis. Mas lê-lo faz bem a todos que amam a inteligência. Russell foi uma das figuras centrais da cultura inglesa no século XX. Em sua longa existência, 1872- 1968, ele sempre foi atuante, um homem de ação. Aos quase cem anos de idade, ainda frequentava passeatas em Londres em pró do pacifismo. Tornou-se famoso no fim do século XIX, como lógico e matemático, e depois, já no século seguinte, como socialista light e pacifista hard. Foi professor de Wittgeinstein em Cambridge ( é Russell quem diz que Witt era "um gênio ou um completo idiota" ). Seu modo de pensar é científico. Ou seja, tudo aquilo que não pode ser provado deve ser visto com absoluto ceticismo. Seja política, psicologia, história ou costumes, só é verdade o que pode ser 100% conferido. Russell nos convida a duvidar de tudo. Mas sem pessimismo, de modo positivo.
  Esse modo de pensar é de absoluta urgência neste 2020. Russell teria muito o que dizer contra a persistência de nossas superstições. Seja ela crer em um pedaço de pano na boca como garantia de saúde, seja crer num mapa astrológico como indicador de talentos. O ceticismo não deve poupar nada. O paninho não garante cientificamente nada, o mapa astral idem. Não há distinção. 60% ou 1% de possiblidade, tanto faz. Ciência é verdade absoluta, ou apenas hipótese. Para Russell é a crença o maior inimigo do homem. Cremos que nossos inimigos são ruins, para assim termos o prazer de nos sentirmos bons. Não há evidência alguma em que nosso lado é o certo, mas, desejosos de bondade, de absolvição, desejosos de crença, nos convencemos que eles são o mal, nós somos o bem. Conclusão? Ódio. Guerra. Dissolução. Apesar de socialista, Russell percebia na teoria de Marx um tipo de igreja do ódio. Ela prometia o céu futuro, e para isso unia seus fieis no ódio à classe média. Marxismo sem ódio é inconcebível. Bolcheviques, crentes em sua boa intenção, comungam no rancor mortal ao inimigo. Sem esse combustível a coisa se desfaz. O Capital é um manual de guerra. Frase de Russell.
  No capitalismo ele sentia a mesma fé cega. Mas, invés de voltado ao ódio ao inimigo, voltado ao individualismo competitivo. Eu creio que irei vencer. E quem concorre comigo irá perder. Nesses seus escritos, era 1928, vinte anos antes da guerra fria, Russell já previa o choque entre os gigantes. URSS e USA tendiam a dividir o mundo em dois. Um lado oprimido por um partido e uma burocracia infinita, o outro lado oprimido por meia dúzia de empresas e uma sede infindável por progresso. Ele previa que o único modo dos USA perderem seria se o nível financeiro médio de seu operário ficasse abaixo do soviético. Já a URSS cairia se o estado perdesse sua auto confiança e seu poder de esmagar vozes dissidentes.
  Falemos agora de filosofia pura. Na verdade, a melhor parte do volume.
  Russell, como eu já sabia, considera Bergson um mero "poeta" e nunca um filósofo. Diz ele que Bergson faz apenas propaganda, não tenta provar nada. Que na verdade tudo que o francês fala é aquilo que seu leitor quer crer que seja verdade. Como exemplo ele cita a memória.
  Bergson diz que a memória jamais morre. Que aquilo que vivemos permanece vivo em nossa vida. Para Bergson não é apenas uma questão de recordar, é muito mais que isso, o que vivemos, 100% do que vivemos, permanece tão vivo e forte como no momento em que foi vivido pela primeira vez. Russell discorda radicalmente. Para ele, lembrar uma viagem à China é apenas rever uma série de imagens embaçadas. Por mais que algumas dessas fotos nos emocionem, essa emoção é saudade, nostalgia. No tempo que decorreu entre o fato acontecido e a lembrança tudo mudou. Nossas memórias são objetos desgastados pela nossa vivência.
  Concordando ou não, é fascinante o modo como Russell enfrenta a tese. Sua abordagem é sempre a da ciência. E ele vive a repetir que, como inglês, vê tudo de um ponto de vista apaziguador. Sem paixão.
  Sobre as máquinas, tem Russell uma opinião límpida: sem o trabalho braçal ficamos à mercê de qualquer líder que canalize nossa energia frustrada. Uma pessoa que não se cansa fisicamente é uma pessoa com superávit de energia. Se não houver uma educação para o esporte ou para o uso dessa força, a represa arrebenta. A anarquia e a destruição são as válvulas de escape de jovens que não precisam mais se destruir no trabalho ( o que é ótimo ), mas não sabem o que fazer com o misto de ansiedade, energia não gasta e tempo livre ao seu dispor. Russell teria muito o que dizer sobre nosso mundo. Não é mais o da máquina. É o da virtualidade. Não vemos mais, como ele aponta em 1928, a vida como mecanismo. Vemos a vida como programa, sistema, rede.
  Ao final da obra Russell se arrisca a fazer algum futurismo. Acerta ao prever que no futuro as pessoas irão ler cada vez menos, receberão informação de canais os mais diversos e serão facilmente formadas pela propaganda. A ditadura de meia dúzia de veículos tende a cair por terra, mas por outro lado, slogans e frases de efeito terão poder como jamais visto.
  Russell defende bastante Freud, William James e Einstein. Diz que a psicanálise tem potencial para mudar todo o mundo ( ela mudou ), e que Einstein revolucionou nossa maneira de pensar. Quanto à James, ele criou o pragmatismo radical, aquele que fala que a verdade é o que funciona, credo de todo o mundo desenvolvido. O ser deseja crer e assim ele crê naquilo que dá certo. O que dá certo será então a verdade. Eis aí, em William James, toda a filosofia que construiu os EUA. Eu quero crer, escolho crer na democracia. A democracia é os EUA. Os EUA vencem todas as guerras. Os EUA vencem a Europa no comércio e na indústria. Logo, a democracia é a verdade. ( Observe como bastou uma única derrota, Vietnã em 1972, para essa crença começar a ruir ).
  Eu não penso como Russell, mas eu gosto de ler Russell.
  Eis um ato democrático, tão fora de moda hoje.
  Se eu fosse dar um nome à nossa cultura atual a chamaria de cultura do self, do espelho, do palanque. Narcisismo levado ao paradoxo. Somos autores, atores e público de nós mesmos. Fechamos nosso teatro àqueles que não são de nossa tribo. E ao mesmo tempo sofremos da nostalgia de algo que se perdeu e não tem nome. Russell chamaria de saudade da razão. E é essa a delícia de o ler. Relembrar o que significa razão.

O QUE VALE

   Postei um clip de John Lennon abaixo. E já aviso que este post é muito mais mal escrito que meu habitual. Lets go...
   John Lennon em seus melhores momentos é de uma simplicidade absoluta. Ao contrário de Paul, ele não é um melodista natural. E portanto, não tem a mania de Paul de harmonizar tudo, colocar uma coisinha a mais. Simples, porém...
   Um amigo me diz que a emoção em John era tão real que ele conseguia fazer algo de muito raro: passar emoção verdadeira em dois acordes. Isso acontece nos primeiros toques no piano em Jealous Guy. E acontece aqui. Os primeiros acordes de Watching the Wheels transmitem automaticamente a emoção que John sente. Acordes simples, emoção complexa. As teclas falam: O tempo passa. Nada é fácil. Mas vamos levando. Ele achou a paz.
  John Lennon envelheceria lindamente. O tipo de música que ele sabia fazer encaixaria perfeitamente em sua maturidade. Perdemos o cara que iria fazer as melhores canções sobre envelhecer.
  Quando a canção acaba me sinto aberto. E escrevo isto só pra dizer que o que vale é amar. Neste meu blog tenho falado de amor todo o tempo, caso voce não perceba.
  Filmes que amo, discos, escritores, lembranças de dias em minha vida plenos de amorosa memória. Todos esses amores são reais, mas nenhum se compara ao amor romântico, o amor por sua companheira. O amor por seu amor.
  Alguns artistas, poucos de fato, me fazem lembrar disso. Da centralidade do amor erótico. Yeats, Bryan Ferry, Keats...e John Lennon, um cara com o qual tenho uma relação de ódio-amor. ( Por sua vaidade e pretensão que tanto o estragou ).
  Já começo a racionalizar, o momento já passou.
  Este o modo de ser do amor. Ele passa. É impermanente. Mas deixa o rastro da memória. E a memória, queridos, é aquilo que nos constrói.

Watching The Wheels - John Lennon (official music video HD)



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GEORGE BERKELEY E DAVID HUME.

   Andei lendo esses dois filósofos britânicos, Berkeley irlandês e Hume da Escócia. São considerados pragmáticos, Berkeley teve seu apogeu por volta de 1710 e Hume 1740. Falo agora, do forma bem superficial sobre aquilo que li.
 Diz-se hoje, em 2020, que Berkeley tornou-se bastante atual. Ele sofreu um longo tempo de semi esquecimento, injusto. Essa sua renascença se deve ao centro de seu pensamento: tudo aquilo que conhecemos e sofremos na vida, são apenas e tão somente aquilo que pensamos. Ele não nega a realidade sólida das coisas, mas afirma que não temos como conhecer uma mesa ou uma árvore como ela é. O que conhecemos é aquilo que pensamos e sentimos que ela seja. Indo adiante, a mesa não existe enquanto não é observada, e se voce tem lido essa teoria em um ramo da física quântica, não, voce não está enganado.
 Para Berkeley, nosso olhar e nosso pensamento organizam a realidade, realidade que ao não ser pensada, é uma outra. Não há ordem na natureza ou no cosmos a priori, o que os organiza é nossa atenção. Olhando construímos o universo em nossos pensamentos. Um bom exemplo é seu bicho de estimação. Voce o olha como um amoroso membro de sua família. Para voce ele é o querido Buster, ou o amado Rex, mas nunca será conhecido como aquilo que ele é. Sua realidade cachorral não existe.
 Mas então somos apenas ignorantes? Nem é esse o caso. Pois sem nossa observação, esse cão nem mesmo existiria.
 Vem então a questão Divina. O pensamento de Berkeley é construído, na verdade, para provar a existência de Deus. O que ele diz: Deus se torna necessário, pois é Seu pensamento que faz com que a realidade FORA DE NOSSO PENSAMENTO possa existir. Tudo o que há seria uma ideia Divina.
 Perco o interesse por Berkeley nesse ponto. Essa conclusão me parece forçada. MAS... eis aí a Matrix, um mundo ilusório onde pensamos ver uma realidade, realidade que na verdade é uma construção de uma mente maior que a nossa. Berkeley intuiu em 1710 algo que nos é familiar, que é até mesmo uma moda, 300 anos depois.
 Falei intuiu? Não. Ele não intuiu. Falo agora do muito mais brilhante Hume, e então voce irá entender o que acontece hoje e sempre.
 Lanço de cara duas frases minhas: HUME VENCEU. HUME MANDA.
 O mundo de 2020 é filho do pensamento pragmático britânico. E tudo aquilo que vivemos hoje é previsto naturalmente se soubermos ler seus escritos.
 Hume é radicalmente ateu. Deus não só não existe como não é mais necessário. Então nada em seu pensamento leva à Deus ou a qualquer tipo de religião. A mente humana sabe aquilo que vê, nada mais que isso. A prova é que coisas abstratas como infinito, Deus ou eternidade, só podem ser imaginadas como algo que experimentamos na vida cotidiana. O infinito como o céu amplificado, Deus como um rei hiper poderoso e a eternidade como um correr de estações que jamais terminam. Por mais que tentemos ter ideias originais, criar coisas fora da experiência concreta, tudo o que podemos fazer é misturar objetos, conceitos e fatos JÁ VIVIDOS.
  Observe que em 2020 nossos mais loucos filme de sci fi não conseguem deixar de imaginar ETs como seres humanoides, sempre com membros e olhos, e o futuro mais distante é sempre uma mistura de fábricas com laboratórios. Somos incapazes de pensar a vida como algo radicalmente diferente de uma planta ou uma bactéria. Nossos ETs são seres que poderiam viver na Terra. Sempre.
  Hume manda porque ele sabe que tudo o que uma pessoa quer é viver em paz. Apenas isso. E impressiona a maneira como ele quase nunca erra. Em 1740, antes da criação dos USA, ele já dizia que nos tempos modernos, um país só seria rico se fosse livre e garantisse os direitos de seu povo. A Inglaterra era o modelo do futuro e jamais a Espanha ou a Holanda. O progresso estaria ligado à propriedade privada, à garantia de que a propriedade seria sua e só sua. Pois assim se cria o amor por aquilo que voce tem, e o desejo de se obter mais. Em nações como a Espanha TUDO é do rei ou da igreja, desse modo o povo se torna oprimido e perde o amor pelas coisas. David Hume fala muito de política e eu, que nunca gostei de ler sobre esse assunto, me delicio com seu texto.
  Filósofos geralmente escrevem mal. Lemos montes de frases sem sentido até topar com uma que justifique a obra. Hume não. Ele é um verdadeiro escritor. Seu texto é delicioso, fácil sem jamais ser simples. Conversa conosco, convence, nos ensina a pensar.
  Volto então ao que disse: Berkeley não teve intuição. Hume não pensou o futuro. O mundo anglo saxão é que os seguiu sempre. Mesmo quando não tinha consciência disso. Ao imaginar uma Matrix, um americano segue a linha de imaginação de Berkeley e ao lutar pelo direito de ser feliz, um jovem está repetindo Hume. O pragmatismo britânico deixou uma marca tão forte na mente de seu povo como os jesuítas deixaram aqui na América Latina e os idealistas na Alemanha. Quando Hume diz que a beleza é relativa ou que a tirania não se faz entre um povo que está em constante comunicação ( eis a internet...para Hume um povo que se comunica, que sabe ter partidários entre sua população, se organiza em resistências...a tirania se faz entre pessoas que vivem isoladas sem poder se comunicar ), quando diz essas coisas, Hume está dando as coordenadas do modo anglo de viver. Inclusive ao dizer que um povo armado não pode ser subjugado por um ditador e nem dominado pelo vizinho.
  David Hume tira o pó da nossa mente. Ele é luz. Tudo o que sabemos é tudo o que vivemos e conhecemos. E tudo o que podemos fazer é combinar e recombinar essas informações. Se voce pensou agora na mente da informática acertou. Para Hume, a falta de liberdade impede que essas informações sejam usadas. Interrompe o circuito. Substitui a experiência real pela superstição e pela crença irreal.
  Deixei de crer em Deus? Provável que não. Mas minha crença não me impede de admirar o pensamento claro de Hume. Em um mundo ideal, Hume seria matéria obrigatória em escolas ( obrigatória? ). Sua filosofia é aquela que te dá amor pela própria filosofia.

DOIS FILMES DE JOHN HUSTON. UM PERFEITO E OUTRO MUITO ERRADO. e ainda considerações sobre Truffaut e a política de autor.

   A turma de críticos franceses dos Cahiers, Truffaut, Godard, Rohmer, odiava John Huston. Nunca entendi porque. Ainda não entendo. Bem...eles também falava mal de todo filme inglês. Diziam que o cinema inglês era sempre quadrado. Sem "arte". Risível falar isso do cinema que no tempo dos Cahiers tinha Powell, Carol Reed e David Lean. Voltando à Huston...O Cahiers amava os filmes de John Ford e de Howard Hawks, então o motivo não era ideológico. Diziam que Hawks era um dos tais "autores completos", que em cada filme de Hawks se notava a mão de um "autor".
  Deus! Como eles eram bobos!!!! Hawks ria disso! Ele sabia que seu ideal de cinema era conseguir fazer filmes totalmente diferentes um do outro, e só na parte final de sua carreira, com os westerns tipo Rio Lobo, ele se entregou à um certo "autorismo", repetindo o mesmo filme diversas vezes. O Hawks de Scarface e Levada da Breca nada tem de autoral. É um grande fazedor de filmes.
  John Huston seria muito mais autor que Ford ou Hawks. Pois Huston além de dirigir, escrevia seus filmes, era um grande escritor. Hawks e Ford não faziam seus roteiros. Ford nem produtor era. Sim, John Ford, gênio que era, deixava sua marca em todo filme, mas ressalto isso para dizer como a teoria dos Cahiers era fraca. Se Ford ou Fritz Lang eram autores, então Huston também era.
  Nem vou entrar no mérito de que certos filmes, grandes filmes, têm como autor não seu diretor, mas sim o produtor. E O Vento Levou é um filme de David Selznick, só dele. Como produtor, ele escolheu todo o estilo visual e o roteiro do filme. Tudo na obra tem a mão dele. Nos anos 90, todos os filmes dos Weinstein eram filmes Weinstein. Pouco importava o diretor, eram filmes com a marca do estilo dos produtores. A série Bond 007 sempre foi de autoria de Broccoli e Saltzman e Jack Warner foi o verdadeiro autor de My Fair Lady. Um produtor de gênio aprova o roteiro, dá palpites na montagem, opta pela trilha sonora correta e chama os atores exatos para os papeis. Uma das tragédias do cinema atual é que os produtores são investidores, sabem nada de cinema e não amam a arte de fazer filmes. Querem ganhar dinheiro ou fazer uma marca forte. Só isso. Preferem passear em seu iate a ver um filme.
  The Asphalt Jungle é um filme perfeito. No Brasil se chama O SEGREDO DAS JOIAS. É cult hoje dizer que ele é o melhor filme de Huston. Não sei se é o melhor, mas é um Huston típico, autoral. Um grupo de bandidos de segunda classe fazem o grande roubo. Mas tudo dá errado. Eis o tema de Huston: o homem contra o destino. O indivíduo lutando contra o meio e sendo derrotado no final. Pra quem não sabe foi este o filme que lançou a moda de filmes de assalto. De RI FI FI de Jules Dassin, à OS ETERNOS DESCONHECIDOS de Monicelli, é aqui que a coisa começa.
  Huston usou grandes atores e não grandes estrelas. A produção é pequena. Sterling Hayden faz o pistoleiro do interior, bronco, e Sam Jaffe é o veterano que sabe tudo sobre planejar um assalto. Há ainda Louis Calhern no papel de sua vida, um advogado corrupto e Marilyn Monroe, em começo de carreira, como sua jovem amante. O filme não envelheceu um dia. O estilo é duro, viril, seco, a fotografia não tem nenhum glamour, as cenas fogem do sensacional, é quase neo realista. Não consigo lembrar de nada de ruim no filme. Durará para sempre.
  Já MOULIN ROUGE, filme sobre Toulouse-Lautrec, é quase uma bomba. Concordo com Pauline Kael: é quase inacreditável que o mesmo homem que fez The Asphalt Jungle, filme tão ágil e veloz, tenha feito esta maçaroca pesadona. Bem...no futuro Huston faria A Biblia, talvez o pior filme da história.
  Tenho a teoria de que Huston se atrapalhava quando conscientemente pensava estar fazendo arte. Ele se tornava pretensioso. Chato. Ok, The Dead, seu último filme, é arte consciente, mas foi um ponto fora da curva. Huston é maior quando lida com seu tempo e com assuntos urgentes, cotidianos, de jornal. A solenidade lhe cai muito mal. Apesar da fotografia de Oswald Morris, este filme é bobo, chato, deprimente. Huston quer celebrar Paris, a pintura e Lautrec, e tudo que nos dá é champagne azeda.
  Corra pra ver O SEGREDO DAS JOIAS e fuja de Lautrec.

UMA EPIFANIA, SURGE CLINT EASTWOOD

   TARÂNTULA é um desses filmes dos anos 50 feitos para teens assistirem em drive ins num programa duplo. Lançado em 1955, conta a história de uma aranha que se torna gigante por causa de testes nucleares feitos no deserto. Um monte de gente morre e tudo parece perdido. Mas então, o herói do filme chama a força aérea. Pede para jogarem napalm no bicho. Vemos então o jato vir. Um atorzinho, fazendo uma ponta no filme, diz duas falas. As duas basicamente dizem o seguinte: DEIXA COMIGO.
   Sim, voce logo reconhece aquela voz: é CLINT EASTWOOD aos 25 anos de idade, fazendo sua segunda aparição nas telas, antes de ir pra TV fazer a série Rawhide. É epifânico. Clint joga a bomba, mata o bicho e o filme acaba. Em dez segundos ele antecipa tudo o que faria dele famoso. Mais fantástico, em meio aos atores esquecidos passados do filme, temos a sensação de que aquele olhar e aquela voz de Clint é um tipo de SER DE HOJE TRANSPORTADO PARA 1955. Momento de ultra sofisticada ironia.
  Sim. Penso que talvez ele seja o maior herói-ator dos últimos 60 anos.

TRANSPARÊNCIAS - VLADIMIR NABOKOV

   Eis aqui o livro de 1972 de Nabokov. Curto. Conta a aventura, se é que se pode chamar disso, patética, muito patética, de um jovem revisor de livros. Na Suíça ele se apaixona por Armande, liberal e misteriosa. Nosso herói é sonâmbulo. Foi internado em hospícios. Entrevista um escritor velhusco e tarado. Comete um crime. Casa-se. Lembra do pai. E divaga...A melhor frase do livro se encontra em seu final. Não irei a repetir. Mas, brilhante, ela meio que elucida todo o sentido de romance tão confuso. E simples.
  Existem dois tipos de escritor. O que escreve com enorme luta, imensa dificuldade; e o que escreve fácil, produz muito, como quem respira. Nabokov, assim como Dickens, Balzac, Greene ou Updike, escreveu muito, sem parar jamais. E, óbvio, em meio a tanta coisa, encontramos textos geniais e outros que parecem automáticos. Este é um dos automáticos. Fácil perceber que ele escreve com pressa, quase se repete, cumpre uma obrigação ( com ele mesmo, seja bem frisado ). Nada há de ambicioso aqui. Mas entenda, nada de ambicioso para o homem que escreveu Pale Fire. Este romance está longe de ser vulgar, comum ou simples. Em 1972 Nabokov era o escritor mais festejado do mundo, e ele sentia a febre de ter de escrever sem parar. Revistas, jornais, produtores de filmes, todos queriam algo dele. Eu ainda peguei o fim dessa onda. Nabokov morreu em 1977, sendo criança, recordo dele vivo, escrevendo contos para a Playboy e sendo muito bem pago por isso. Não ache indigno! Todo autor dos anos 60 e 70 escrevia para a revista.
  130 páginas esquisitas.