KRAFTWERK
Even the greatest stars...esse refrão era usado em um comercial de calçados em 1984. E todos nós ficávamos malucos com o sopro de modernidade que lá havia. Na era do synth pop, esse anúncio avisava que os alemães de Dusseldorf eram os reis.
Não me lembro a primeira vez que os ouvi. Deve ter sido ainda nos anos 70. E com certeza não gostei. Eu preferia Giorgio Moroder, muito mais fácil. O Kraftwerk parecia monótono. Mas mesmo assim eu já sabia, aos 14 anos de idade, que aquele som era radicalmente diferente de tudo o que havia para se ouvir. Mesmo uma banda moderna como o Velvet Underground ou o King Crimson usavam o esquema bateria, guitarra e teclado. Os timbres podiam variar, o volume, a duração das músicas, o nível de ruído, mas era rock. Sendo MC5 ou Pink Floyd, tudo era rock. Rock com folk, rock com Stravinski ou rock com jazz, mas sempre rock. O Kraftwerk não. Neles não havia sinal nenhum de blues. Nem de country. Nem de folk ou jazz. Não era rock. Não era Pop. Não era nada.
Florian Schneider dizia que o som da banda era "música pop da Europa". Rock alemão. Um tipo de som que nada tivesse de americano. E que fosse moderno. Uma alternativa ao velho rock de sempre. Fazendo isso o Kraftwerk conseguiu exatamente o que queria. Até hoje todos sabem que música eletrônica não é rock. Mas é jovem. É rebelde. É Pop. É mais o que?
Dentro desse mundo, o das rádios jovens, revistas Pop, shows em festivais, rock enfim, o Kraftwerk é a coisa mais revolucionária que houve e que há. Nada de guitarra. Nada de bateria. Nada de técnica exibicionista. Mais ainda: sem emoção. Sem suor. A radicalidade levada até o fim. A negação do rock dentro do rock.
Lembro do que senti quando ouvi Sex Pistols e Clash pela primeira vez. Me decepcionei. Aquilo que era vendido como novo era apenas rock. 1977. E nesse ano a novidade era a eletrônica. Somente ela. Mais chocante ainda que ouvir, era ver o Kraftwerk. Cabelos curtos. Ternos. E aqueles instrumentos que pareciam ser computadores. Cadê o sexo drogas e rocknroll?
Entre 1974-1988 eles foram a ponta da coisa. Mitos. Kling Klang studios. De Brian Eno e Bowie à Radiohead e Massive Attack, todos que usaram sons sintetizados, loops e o tal clima frio e glacial, são devedores de Florian e sua gang. Rap e disco, Prince e Beck, há em todos um gene alemão made in Dusseldorf.
Florian, o ciclista, morreu. Leia a biografia da banda, fácil de achar, livro bonito. É a melhor bio de música jovem que li. E olha que li muitas! Porque a banda alemã se conectava á história do século, à arte da época, aos planos de futuro, à tecnologia de agora. Florian morreu mas não a banda. Pois ele já dizia que o Kraftwerk independia deles, humanos. O grupo continuaria para sempre, uma fábrica, um aglomerado de robots, um show de som e imagem e não de gente e instrumentos.
Então ele não morreu. Ele nem mesmo pode morrer. O Kling Klang está lá.
Não me lembro a primeira vez que os ouvi. Deve ter sido ainda nos anos 70. E com certeza não gostei. Eu preferia Giorgio Moroder, muito mais fácil. O Kraftwerk parecia monótono. Mas mesmo assim eu já sabia, aos 14 anos de idade, que aquele som era radicalmente diferente de tudo o que havia para se ouvir. Mesmo uma banda moderna como o Velvet Underground ou o King Crimson usavam o esquema bateria, guitarra e teclado. Os timbres podiam variar, o volume, a duração das músicas, o nível de ruído, mas era rock. Sendo MC5 ou Pink Floyd, tudo era rock. Rock com folk, rock com Stravinski ou rock com jazz, mas sempre rock. O Kraftwerk não. Neles não havia sinal nenhum de blues. Nem de country. Nem de folk ou jazz. Não era rock. Não era Pop. Não era nada.
Florian Schneider dizia que o som da banda era "música pop da Europa". Rock alemão. Um tipo de som que nada tivesse de americano. E que fosse moderno. Uma alternativa ao velho rock de sempre. Fazendo isso o Kraftwerk conseguiu exatamente o que queria. Até hoje todos sabem que música eletrônica não é rock. Mas é jovem. É rebelde. É Pop. É mais o que?
Dentro desse mundo, o das rádios jovens, revistas Pop, shows em festivais, rock enfim, o Kraftwerk é a coisa mais revolucionária que houve e que há. Nada de guitarra. Nada de bateria. Nada de técnica exibicionista. Mais ainda: sem emoção. Sem suor. A radicalidade levada até o fim. A negação do rock dentro do rock.
Lembro do que senti quando ouvi Sex Pistols e Clash pela primeira vez. Me decepcionei. Aquilo que era vendido como novo era apenas rock. 1977. E nesse ano a novidade era a eletrônica. Somente ela. Mais chocante ainda que ouvir, era ver o Kraftwerk. Cabelos curtos. Ternos. E aqueles instrumentos que pareciam ser computadores. Cadê o sexo drogas e rocknroll?
Entre 1974-1988 eles foram a ponta da coisa. Mitos. Kling Klang studios. De Brian Eno e Bowie à Radiohead e Massive Attack, todos que usaram sons sintetizados, loops e o tal clima frio e glacial, são devedores de Florian e sua gang. Rap e disco, Prince e Beck, há em todos um gene alemão made in Dusseldorf.
Florian, o ciclista, morreu. Leia a biografia da banda, fácil de achar, livro bonito. É a melhor bio de música jovem que li. E olha que li muitas! Porque a banda alemã se conectava á história do século, à arte da época, aos planos de futuro, à tecnologia de agora. Florian morreu mas não a banda. Pois ele já dizia que o Kraftwerk independia deles, humanos. O grupo continuaria para sempre, uma fábrica, um aglomerado de robots, um show de som e imagem e não de gente e instrumentos.
Então ele não morreu. Ele nem mesmo pode morrer. O Kling Klang está lá.
O SONHO AMERICANO: AMERICAN GRAFFITTI
Continuo minha filtragem de dvds com Loucuras de Verão, American Graffitti, segundo filme de George Lucas, 1973, produzido por Coppola no auge de seu poder. Haskell Wexler fez a fotografia, sensacional, e o roteiro é de Gloria Katz e Willard Huyck, a gang de Star Wars. No elenco, o futuro diretor Ron Howard, Richard Dreyfuss, Cindy Willians e Candy Clark. Tem também um certo Harrison Ford, na época se sustentando como carpinteiro. Na trilha sonora, e é a melhor trilha desse tipo já feita, clássicos do rock e do soul gravados entre 1955-1962. O filme exibe uma noite na vida de um grupo de jovens. Nas ruas. Nos carros. Nas lanchonetes.
Sobre a trilha sonora: Foi a primeira vez em que uma trilha sonora foi toda feita com canções que já existiam. E que já eram conhecidas. The Graduate ( A Primeira Noite de um Homem ), tem uma trilha toda de canções de Simon e Garfunkel. Mas elas foram feitas para o filme. E são todas deles e só deles. Vanishing Point e Easy Rider têm vários rocks de vários artistas. Mas não eram músicas conhecidas antes do filme ser lançado. É aqui que nasce essa mania que hoje é um dos piores clichês do cinema: Melhorar uma cena com o apelo de uma canção que todo mundo gosta. Posso citar centenas de cenas, em outros filmes, que parecem ótimas, mas que na verdade são banais. Sua beleza repousa toda na canção de Elton John, ou de Al Green, Marvin Gaye, T.Rex, Abba, Gary Glitter etc etc etc. George Lucas não faz isso aqui. Ele usa as canções como fundo, nunca como centro da cena. Acostumados que somos ao apelo fácil dos filmes atuais, estranhamos o fato de ele não explorar mais apelativamente essas músicas. O filme é uma aula de rocknroll. Buddy Holly, os Falmingos e Booker T, and The MGs são os melhores? Não sei! Tenho o LP com a trilha e juro que depois de o escutar pela primeira vez, em 1983, minha visão de rock mudou pra sempre.
Sobre o roteiro: Nos primeiros vinte minutos voce vai pensar: É só isso? Mas então começa a acontecer algo de muito raro em cinema, voce é seduzido pela simplicidade. E observa que há alí muito mais do que parece. É o anti Godard. Ele fala muito sem enfatizar o fato de estar dizendo algo. As coisas estão no filme, sem palanque. Voce que as perceba.
Sobre a direção: Lucas obtém do elenco um pequeno milagre. Todos são profissionais, mas retém o que de melhor há no amador, a espontaneidade. Não há um só momento de amadorismo, mas ao mesmo tempo, tudo parece feito por principiantes. Dazed and Confused de Linklater é American Graffitti em 1976. E embora seja um ótimo filme, ele é e parece ser amador. Tem o lado ruim do amadorismo. Aqui não. É um filme puro.
Sobre sua fama: Este é o segundo filme de Lucas e seu primeiro sucesso. Nos EUA foi o terceiro maior hit de 1973. Perdeu apenas para O Exorcista e Golpe de Mestre ( que bom ano esse ! ). No Brasil nunca teve a fama que tem por lá. Talvez porque ele fale de um estilo de vida que para nós é alienígena. Não tivemos essa geração baby boom. Em 1962 éramos ainda um país agrário.
Não precisa então dizer que ele sobrevive lindamente. E que se voce nunca o viu, corra e veja. Nos primeiros vinte minutos voce pensará que é apenas mais um desses filmes sobre faculdades, na verdade ele foi o primeiro, mas depois voce vai perceber que os personagens são de carne, osso e alma, e que têm muito o que dizer, MESMO QUE NUNCA O FALEM.
Eu, como muita gente mais, sinto pena de Lucas ter dedicado o resto de sua vida à saga Star Wars. Nunca saberemos o que ele seria se Luke e Leia jamais tivessem nascido.
Sobre a trilha sonora: Foi a primeira vez em que uma trilha sonora foi toda feita com canções que já existiam. E que já eram conhecidas. The Graduate ( A Primeira Noite de um Homem ), tem uma trilha toda de canções de Simon e Garfunkel. Mas elas foram feitas para o filme. E são todas deles e só deles. Vanishing Point e Easy Rider têm vários rocks de vários artistas. Mas não eram músicas conhecidas antes do filme ser lançado. É aqui que nasce essa mania que hoje é um dos piores clichês do cinema: Melhorar uma cena com o apelo de uma canção que todo mundo gosta. Posso citar centenas de cenas, em outros filmes, que parecem ótimas, mas que na verdade são banais. Sua beleza repousa toda na canção de Elton John, ou de Al Green, Marvin Gaye, T.Rex, Abba, Gary Glitter etc etc etc. George Lucas não faz isso aqui. Ele usa as canções como fundo, nunca como centro da cena. Acostumados que somos ao apelo fácil dos filmes atuais, estranhamos o fato de ele não explorar mais apelativamente essas músicas. O filme é uma aula de rocknroll. Buddy Holly, os Falmingos e Booker T, and The MGs são os melhores? Não sei! Tenho o LP com a trilha e juro que depois de o escutar pela primeira vez, em 1983, minha visão de rock mudou pra sempre.
Sobre o roteiro: Nos primeiros vinte minutos voce vai pensar: É só isso? Mas então começa a acontecer algo de muito raro em cinema, voce é seduzido pela simplicidade. E observa que há alí muito mais do que parece. É o anti Godard. Ele fala muito sem enfatizar o fato de estar dizendo algo. As coisas estão no filme, sem palanque. Voce que as perceba.
Sobre a direção: Lucas obtém do elenco um pequeno milagre. Todos são profissionais, mas retém o que de melhor há no amador, a espontaneidade. Não há um só momento de amadorismo, mas ao mesmo tempo, tudo parece feito por principiantes. Dazed and Confused de Linklater é American Graffitti em 1976. E embora seja um ótimo filme, ele é e parece ser amador. Tem o lado ruim do amadorismo. Aqui não. É um filme puro.
Sobre sua fama: Este é o segundo filme de Lucas e seu primeiro sucesso. Nos EUA foi o terceiro maior hit de 1973. Perdeu apenas para O Exorcista e Golpe de Mestre ( que bom ano esse ! ). No Brasil nunca teve a fama que tem por lá. Talvez porque ele fale de um estilo de vida que para nós é alienígena. Não tivemos essa geração baby boom. Em 1962 éramos ainda um país agrário.
Não precisa então dizer que ele sobrevive lindamente. E que se voce nunca o viu, corra e veja. Nos primeiros vinte minutos voce pensará que é apenas mais um desses filmes sobre faculdades, na verdade ele foi o primeiro, mas depois voce vai perceber que os personagens são de carne, osso e alma, e que têm muito o que dizer, MESMO QUE NUNCA O FALEM.
Eu, como muita gente mais, sinto pena de Lucas ter dedicado o resto de sua vida à saga Star Wars. Nunca saberemos o que ele seria se Luke e Leia jamais tivessem nascido.
GODARD E SEU DESPREZO.
Como disse em algum outro post, ando me livrando de bagagem. Objetos e também modos de pensar. DVDs são alvos simples e bastante simbólicos. São mais de 500 que já viraram pó.
Então no começo de uma noite, resolvo dar uma chance para Godard e BB. Muitos críticos ainda tecem loas à este filme. Vamos ver...
Uma câmera aponta para seu rosto, o rosto de voce, espectador. Isso após Godard recitar os créditos do filme. Em seguida temos a bunda de Brigitte Bardot. Ela pergunta para Michel Piccoli se sua derriére é bonita. Fritz Lang anda pela rua, Jack Palance é um produtor americano. Cartazes ao fundo, Hatari! de Howard Hawks, filme que Godard adora. Numa sala de edição, fala-se de Homero. Até aí são 20 minutos de filme. O que achei?
Em 1963 havia surpresa em apontar a câmera para meus olhos. E era uma brincadeirinha de criança divertida o diretor recitar os nomes dos atores. Mas quando ele discursa sobre Homero a coisa fica chata demais. Vemos um intelectual se exibindo para um público, que por saber quem foi Homero, se acha mega especial. Godard é um adolescente. Masturbatoriamente, enamorado de seu ego, ele alegremente mostra que sabe muito, não nem aí pra nada, faz o que deseja. Seu público, ávido por se sentir adolescente e inteligente, usa seus filmes como diploma de superioridade mental. Hoje, em 2020, me dá nojo.
Já tentei fazer videos e peças de teatro. E sei o quanto é árduo o trabalho de se criar personagens críveis. Nada em um filme é mais brilhante, e mais imune ao tempo, à ferrugem do tempo, que uma personagem viva, com respiração, ficcional e ao mesmo tempo real. Godard " genialmente" abre mão disso. Ele não cria personagens, ele fala "a verdade". Oh God. Nem vou falar de como me compliquei e entendi então como é difícil a arte de se inventar uma trama. Um gancho que nos faça amar o enredo, nos emocionar. O enredo de Godard é sempre seu cérebro. Ele não cria, discursa. E quem discursa é ele, somente ele. Único assunto: Eu.
Se os filme de Kurosawa ou de Bergman sobrevivem melhor, isso se deve ao fato de que eles criaram personagens. Mesmo que esses personagens falem aquilo que o autor quer dizer, eles falam dentro de outras máscaras, e dentro de uma situação criada. Kurosawa usa reis, samurais e velhos pobres para falar; Bergman cria professores, crianças e adolescentes para exibir sua neurose. Acima de tudo eles narram uma história. Penso que Godard não sabe narrar. Então ele discursa.
Todo discurso fica velho. Porque depois que sua mensagem é absorvida, tudo que resta são palavras. Uma boa história nunca fica velha. Porque ela se renova ao ser vista pela primeira vez por uma outra pessoa. Nós amamos histórias desde quando ficávamos à fogueira, em círculo, esperando o lobo ir embora. Um discurso é útil em seu momento. Depois morre e vira pó. Penso que o excesso de biografias feitas hoje revela a incapacidade de se criar personagens.
O Desprezo já está no lixo.
Nem o corpo de BB o salva.
Então no começo de uma noite, resolvo dar uma chance para Godard e BB. Muitos críticos ainda tecem loas à este filme. Vamos ver...
Uma câmera aponta para seu rosto, o rosto de voce, espectador. Isso após Godard recitar os créditos do filme. Em seguida temos a bunda de Brigitte Bardot. Ela pergunta para Michel Piccoli se sua derriére é bonita. Fritz Lang anda pela rua, Jack Palance é um produtor americano. Cartazes ao fundo, Hatari! de Howard Hawks, filme que Godard adora. Numa sala de edição, fala-se de Homero. Até aí são 20 minutos de filme. O que achei?
Em 1963 havia surpresa em apontar a câmera para meus olhos. E era uma brincadeirinha de criança divertida o diretor recitar os nomes dos atores. Mas quando ele discursa sobre Homero a coisa fica chata demais. Vemos um intelectual se exibindo para um público, que por saber quem foi Homero, se acha mega especial. Godard é um adolescente. Masturbatoriamente, enamorado de seu ego, ele alegremente mostra que sabe muito, não nem aí pra nada, faz o que deseja. Seu público, ávido por se sentir adolescente e inteligente, usa seus filmes como diploma de superioridade mental. Hoje, em 2020, me dá nojo.
Já tentei fazer videos e peças de teatro. E sei o quanto é árduo o trabalho de se criar personagens críveis. Nada em um filme é mais brilhante, e mais imune ao tempo, à ferrugem do tempo, que uma personagem viva, com respiração, ficcional e ao mesmo tempo real. Godard " genialmente" abre mão disso. Ele não cria personagens, ele fala "a verdade". Oh God. Nem vou falar de como me compliquei e entendi então como é difícil a arte de se inventar uma trama. Um gancho que nos faça amar o enredo, nos emocionar. O enredo de Godard é sempre seu cérebro. Ele não cria, discursa. E quem discursa é ele, somente ele. Único assunto: Eu.
Se os filme de Kurosawa ou de Bergman sobrevivem melhor, isso se deve ao fato de que eles criaram personagens. Mesmo que esses personagens falem aquilo que o autor quer dizer, eles falam dentro de outras máscaras, e dentro de uma situação criada. Kurosawa usa reis, samurais e velhos pobres para falar; Bergman cria professores, crianças e adolescentes para exibir sua neurose. Acima de tudo eles narram uma história. Penso que Godard não sabe narrar. Então ele discursa.
Todo discurso fica velho. Porque depois que sua mensagem é absorvida, tudo que resta são palavras. Uma boa história nunca fica velha. Porque ela se renova ao ser vista pela primeira vez por uma outra pessoa. Nós amamos histórias desde quando ficávamos à fogueira, em círculo, esperando o lobo ir embora. Um discurso é útil em seu momento. Depois morre e vira pó. Penso que o excesso de biografias feitas hoje revela a incapacidade de se criar personagens.
O Desprezo já está no lixo.
Nem o corpo de BB o salva.
DRACULA DE BRAM STOKER, O FILME DE COPPOLLA. E AINDA HENRY MILLER.
Ando indicando filmes para uma menina de 22 anos. Ela me pediu uma lista de filmes dos anos 90, década de seu filme favorito, Pulp Fiction. Errei feio ao indicar Henry e June. Ela odiou profundamente. Eu não via o filme de Philip Kauffman a uns 15 anos e me surpreendi com sua tola pretensão. É pedante. É aquele tipo de filme que vende "os bons tempos da arte em 1936". Henry Miller morreu. Nos anos 80 todo mundo lia Miller. Fazia parte. Ler Miller, assim como Bukowski, Anais, Jack Kerouac, Ginsberg, era "de lei". Era tão óbvio entre os bacanas que virou clichê. Com muito sacrifício eu li Tropico de Câncer. Achei fake. Estou errado? Talvez. Paul Bowles é o Miller mais profundo. Lawrence Durrell também. As cenas de sexo em Henry e June são broxantes. Fred Ward não faz Henry Miller. Parece um Humphrey Bogart infantil. O filme tem Uma Thurman e Maria de Medeiros, duas Pulp Fictioners. Tarantino as escolheu aqui?
Dracula eu vi duas vezes. Em 1994 e depois em 1998. Nunca mais. Seria outro erro? Coloco o DVD. Cores vermelhas e guerra na Romenia. O conde perde sua noive e amaldiçoa a igreja. Já no século XIX, Keanu Reeves vai vender terras na Transilvânia. Gary Oldman o espera. Hoje todos aqueles efeitos de imagem são clichê. Na época eu fiquei abobado. Trem que passa sobre a tela enquanto se escreve uma carta. Três rostos que se fundem em um. Lobos que correm como sombra. A riqueza barroca das imagens era uma novidade. Era sedução pura.
Mas, e em 2020? O que senti? Visceralmente eu grudo os olhos na terra e sinto: Eis uma narração perfeita. O ritmo e as falas. Nos primeiros trinta minutos é uma aula de cinema. Londres e Drácula, vitorianismo e inferno, beleza e horror, tudo em equilíbrio. Acima de tudo, a beleza. O senso de imagem que vem de alguém que conhece o cinema mudo. Sim, em 2020 os primeiros trinta minutos são ainda melhores do que minha memória lembrava.
Então Gary Oldman passeia por Londres. É um papel muito difícil. Pois facilmente pode cair no ridículo. Ele tem de ser feio e sexy. Hiper romântico e jamais bobo. Teatral sem ser grotesco. E Gary consegue. Sua atuação é brilhante. Controlado. O tempo todo controlado. Winona era a estrela da época e ela não fede nem cheira. Podia ser muito melhor. Mas não compromete. Após seus primeiros 30 minutos, em Londres, o filme se torna menos sensacional. Continua interessante.
E vem Anthony Hopkins como Van Helsing. No auge da fama de "maior ator do mundo", Hopkins pega o filme e tenta transformar no "Anthony Hopkins show". O filme desaba. É como se ele estivesse no filme errado. Seu rosto e gestos exalam vaidade. Ele se exibe. Ele exagera. Ele destrói todas as cenas. Dracula passa a ser dois filmes: O maravilhoso filme de Gary Oldman, e a comédia barata de Hopkins. Queremos que Dracula vença.
O final é de um romantismo que resgata o romance. Dracula é um filme sobre o amor que vence o tempo. E ele se redime. É um grande filme que ainda me emociona. Muito.
Nele está a raiz de uma incontável procissão de produtos culturais. A geração da menina de 22 anos cresceu revendo este filme sem nunca o ter visto. Ela adorou.
Dracula eu vi duas vezes. Em 1994 e depois em 1998. Nunca mais. Seria outro erro? Coloco o DVD. Cores vermelhas e guerra na Romenia. O conde perde sua noive e amaldiçoa a igreja. Já no século XIX, Keanu Reeves vai vender terras na Transilvânia. Gary Oldman o espera. Hoje todos aqueles efeitos de imagem são clichê. Na época eu fiquei abobado. Trem que passa sobre a tela enquanto se escreve uma carta. Três rostos que se fundem em um. Lobos que correm como sombra. A riqueza barroca das imagens era uma novidade. Era sedução pura.
Mas, e em 2020? O que senti? Visceralmente eu grudo os olhos na terra e sinto: Eis uma narração perfeita. O ritmo e as falas. Nos primeiros trinta minutos é uma aula de cinema. Londres e Drácula, vitorianismo e inferno, beleza e horror, tudo em equilíbrio. Acima de tudo, a beleza. O senso de imagem que vem de alguém que conhece o cinema mudo. Sim, em 2020 os primeiros trinta minutos são ainda melhores do que minha memória lembrava.
Então Gary Oldman passeia por Londres. É um papel muito difícil. Pois facilmente pode cair no ridículo. Ele tem de ser feio e sexy. Hiper romântico e jamais bobo. Teatral sem ser grotesco. E Gary consegue. Sua atuação é brilhante. Controlado. O tempo todo controlado. Winona era a estrela da época e ela não fede nem cheira. Podia ser muito melhor. Mas não compromete. Após seus primeiros 30 minutos, em Londres, o filme se torna menos sensacional. Continua interessante.
E vem Anthony Hopkins como Van Helsing. No auge da fama de "maior ator do mundo", Hopkins pega o filme e tenta transformar no "Anthony Hopkins show". O filme desaba. É como se ele estivesse no filme errado. Seu rosto e gestos exalam vaidade. Ele se exibe. Ele exagera. Ele destrói todas as cenas. Dracula passa a ser dois filmes: O maravilhoso filme de Gary Oldman, e a comédia barata de Hopkins. Queremos que Dracula vença.
O final é de um romantismo que resgata o romance. Dracula é um filme sobre o amor que vence o tempo. E ele se redime. É um grande filme que ainda me emociona. Muito.
Nele está a raiz de uma incontável procissão de produtos culturais. A geração da menina de 22 anos cresceu revendo este filme sem nunca o ter visto. Ela adorou.
ASSUNTOS VARIADOS EM TEMPO DE PESTES
Se voce mantiver a sanidade em tempos como estes, parabéns. Ou talvez não. Sua sanidade será prova de que voce tem algum tipo de autismo. Tudo que posso falar é de mim mesmo, e não tem sido fácil ser eu mesmo. O instinto de manada ressurge forte em crises assim. A questão é: Como manter sua individualidade sem se tornar um egoísta irresponsável?
Escrevo para dois ou três amigos. Eles me conhecem. Sabem que meu eu inteiro reside neste blog. No facebook sou apenas a fatia que faz propaganda. No instagram exercito relações públicas.
Diálogo não há. Quem é, será mesmo contra toda evidência. Na verdade as pessoas pouco ligam pra verdade. O povo foi tomado pelo orgulho de estar certo. E esse certo será mantido. Mesmo que errado. Sempre soube que o Face faz o ego inflacionar. Voce se sente numa tribuna todo o tempo. Mas eu jamais pensei que seria tanto assim. Quanto ao instagram, ele é apenas um desfile de gente bacana. A questão lá não é estar certo. É se vender bem.
Mudando de assunto. Duro escrever sobre Henri Bergson. Ele meio que me estuprou mentalmente. Só hoje percebo que ele nega tudo que acredito. Bergson diz que o tempo é tudo que existe. É a própria realidade. Eu tendo a ver o tempo como uma invenção arbitrária. Na verdade ele é apenas um meio cômodo de medir a vida. Bergson crê na mudança eterna de tudo. Nada é o que foi. E nem será. Eu tendo a crer que nada muda. Que tudo é sempre aquilo que foi de fato. Voce é agora o que foi aos 10 anos. E será aos 90 o que é hoje. As aparências mudam e o mundo pode te fazer mudar hábitos. Mas voce permanece. No pensamento de Bergson me sinto hiper desconfortável. Minha intuição diz que não é assim. O universo está em expansão, a história anda, mas em sua base tudo é o que sempre foi. Nascemos e morremos. Queremos e perdemos. Comemos e sonhamos. Penso inclusive que meu pensamento é mais moderno. KKKKKKKKKK Que contradição minha né? Eu falando como se ser moderno fosse um mérito! Mas pensar que o tempo é apenas uma convenção está mais de acordo com 2020.
Reassisti dois filmes com Audrey Hepburn. Charada e Como Roubar Um Milhão de Dólares. O primeiro é um pequeno clássico. Ele é considerado um dos melhores filmes de Hitchcock não feito por Hitch. Foi um big sucesso de bilheteria. É de 1963. O que tenho a dizer? Que ainda fico impressionado com a elegância das pessoas nos anos imediatamente anteriores á explosão hippie. Que é um prazer ver Cary Grant em mais um dos seus sucessos ( ele é o único ator entre todos que jamais teve um fracasso de bilheteria ). Apesar que leio que Cary estava bastante desconfortável no papel. Ele não queria mais fazer par romântico com ninguém. Se sentia velho ( tinha na época 58 ). Mais um ano ele se aposentaria. O diretor do filme é Stanley Donen. Quem? Claro que voce não conhece, ele nunca foi um intelectual. Tinha "apenas" bom gosto. Fez filmes entre 1948- 1984. Viveu até este milênio e em 95 ganhou um Oscar especial. Foi linda a entrega, ele dançou pelo palco com a estátua. Dirigiu Cantando na Chuva. Sete Noivas Para Sete Irmãos. E mais uns 10 filmes que se vê hoje com imenso prazer. Charada é uma diversão que respeita sua idade. É adulto. É bobo e é fútil. E também esperto e chique. 1963 era um tempo em que adultos ainda iam ao cinema. E por isso se faziam filmes para eles. Creia, havia filmes no topo da bilheteria que não eram endereçados aos teenagers. Como Roubar Um Milhão foi feito 3 anos depois e tem Peter O'Toole como par de Audrey. O diretor é William Wyler. Quem? Wyler, o veterano que venceu 3 Oscars. Dá um google. Ele tem mais de 20 grandes grandes grandes filmes. Este não é um deles. Eu adoro porque adoro a dupla central. Mas faltou roteiro. E o sucesso de bilheteria foi bem mediano. De qualquer modo a gente fica lá, sentados vendo aqueles lugares lindos com aquelas pessoas glamorosas.
Mais um assunto? RocknRoll, disco de 1975 de John Lennon. É o único dele que ainda ouço. Covers de rocks dos anos 50. Phil Spector produziu mais da metade das faixas. Bom modo de voce conhecer Spector. Em 1975 ele já estava louco. Mas tá lá o estilo dele. Conto...em 1962 não tinha essa coisa de produtor como a gente conheceu mais tarde. Em 1972 por exemplo, a gente percebe quando um LP é produzido por Bob Ezrin. Ou por Jimmy Miller. O som é outro. A escolha dos instrumentos. A mixagem. Em 1962 Spector criou isso sozinho. Ele era a estrela dos discos que produzia. Sacou primeiro que a mesa de mixagem era talvez o instrumento mais importante de um disco. E começou a criar. Aumentar o baixo aqui. Enfiar cinco guitarras ali. Uma orquestra de sopros no refrão. Esconder esse piano. Maga egocêntrico, ele enchia tudo de som. É o homem que odeia o silêncio. No disco RocknRoll preste atenção em 3 faixas: You Can't Catch Me é uma massa de som que te engole. São cinco guitarras. Três bateras. Três teclados. E mais um monte de sopros e percussão. 25 instrumentos. Todos tocando como se fossem um só. É aquilo que ficou famoso como Wall of Sound. Uma parede que esmaga o cantor e marcha direto aos eu ouvido. Ouça também Bonny Moronie. Tem gente solando a música inteira. Mas tá lá no meio da confusão ordenada. Tem gente fazendo backing vocals. Mas sumiu. Ouça Peggy Sue. Vale muito à pena. E preste atenção. PS: Bom aparelho é obrigatório.
Escrevo para dois ou três amigos. Eles me conhecem. Sabem que meu eu inteiro reside neste blog. No facebook sou apenas a fatia que faz propaganda. No instagram exercito relações públicas.
Diálogo não há. Quem é, será mesmo contra toda evidência. Na verdade as pessoas pouco ligam pra verdade. O povo foi tomado pelo orgulho de estar certo. E esse certo será mantido. Mesmo que errado. Sempre soube que o Face faz o ego inflacionar. Voce se sente numa tribuna todo o tempo. Mas eu jamais pensei que seria tanto assim. Quanto ao instagram, ele é apenas um desfile de gente bacana. A questão lá não é estar certo. É se vender bem.
Mudando de assunto. Duro escrever sobre Henri Bergson. Ele meio que me estuprou mentalmente. Só hoje percebo que ele nega tudo que acredito. Bergson diz que o tempo é tudo que existe. É a própria realidade. Eu tendo a ver o tempo como uma invenção arbitrária. Na verdade ele é apenas um meio cômodo de medir a vida. Bergson crê na mudança eterna de tudo. Nada é o que foi. E nem será. Eu tendo a crer que nada muda. Que tudo é sempre aquilo que foi de fato. Voce é agora o que foi aos 10 anos. E será aos 90 o que é hoje. As aparências mudam e o mundo pode te fazer mudar hábitos. Mas voce permanece. No pensamento de Bergson me sinto hiper desconfortável. Minha intuição diz que não é assim. O universo está em expansão, a história anda, mas em sua base tudo é o que sempre foi. Nascemos e morremos. Queremos e perdemos. Comemos e sonhamos. Penso inclusive que meu pensamento é mais moderno. KKKKKKKKKK Que contradição minha né? Eu falando como se ser moderno fosse um mérito! Mas pensar que o tempo é apenas uma convenção está mais de acordo com 2020.
Reassisti dois filmes com Audrey Hepburn. Charada e Como Roubar Um Milhão de Dólares. O primeiro é um pequeno clássico. Ele é considerado um dos melhores filmes de Hitchcock não feito por Hitch. Foi um big sucesso de bilheteria. É de 1963. O que tenho a dizer? Que ainda fico impressionado com a elegância das pessoas nos anos imediatamente anteriores á explosão hippie. Que é um prazer ver Cary Grant em mais um dos seus sucessos ( ele é o único ator entre todos que jamais teve um fracasso de bilheteria ). Apesar que leio que Cary estava bastante desconfortável no papel. Ele não queria mais fazer par romântico com ninguém. Se sentia velho ( tinha na época 58 ). Mais um ano ele se aposentaria. O diretor do filme é Stanley Donen. Quem? Claro que voce não conhece, ele nunca foi um intelectual. Tinha "apenas" bom gosto. Fez filmes entre 1948- 1984. Viveu até este milênio e em 95 ganhou um Oscar especial. Foi linda a entrega, ele dançou pelo palco com a estátua. Dirigiu Cantando na Chuva. Sete Noivas Para Sete Irmãos. E mais uns 10 filmes que se vê hoje com imenso prazer. Charada é uma diversão que respeita sua idade. É adulto. É bobo e é fútil. E também esperto e chique. 1963 era um tempo em que adultos ainda iam ao cinema. E por isso se faziam filmes para eles. Creia, havia filmes no topo da bilheteria que não eram endereçados aos teenagers. Como Roubar Um Milhão foi feito 3 anos depois e tem Peter O'Toole como par de Audrey. O diretor é William Wyler. Quem? Wyler, o veterano que venceu 3 Oscars. Dá um google. Ele tem mais de 20 grandes grandes grandes filmes. Este não é um deles. Eu adoro porque adoro a dupla central. Mas faltou roteiro. E o sucesso de bilheteria foi bem mediano. De qualquer modo a gente fica lá, sentados vendo aqueles lugares lindos com aquelas pessoas glamorosas.
Mais um assunto? RocknRoll, disco de 1975 de John Lennon. É o único dele que ainda ouço. Covers de rocks dos anos 50. Phil Spector produziu mais da metade das faixas. Bom modo de voce conhecer Spector. Em 1975 ele já estava louco. Mas tá lá o estilo dele. Conto...em 1962 não tinha essa coisa de produtor como a gente conheceu mais tarde. Em 1972 por exemplo, a gente percebe quando um LP é produzido por Bob Ezrin. Ou por Jimmy Miller. O som é outro. A escolha dos instrumentos. A mixagem. Em 1962 Spector criou isso sozinho. Ele era a estrela dos discos que produzia. Sacou primeiro que a mesa de mixagem era talvez o instrumento mais importante de um disco. E começou a criar. Aumentar o baixo aqui. Enfiar cinco guitarras ali. Uma orquestra de sopros no refrão. Esconder esse piano. Maga egocêntrico, ele enchia tudo de som. É o homem que odeia o silêncio. No disco RocknRoll preste atenção em 3 faixas: You Can't Catch Me é uma massa de som que te engole. São cinco guitarras. Três bateras. Três teclados. E mais um monte de sopros e percussão. 25 instrumentos. Todos tocando como se fossem um só. É aquilo que ficou famoso como Wall of Sound. Uma parede que esmaga o cantor e marcha direto aos eu ouvido. Ouça também Bonny Moronie. Tem gente solando a música inteira. Mas tá lá no meio da confusão ordenada. Tem gente fazendo backing vocals. Mas sumiu. Ouça Peggy Sue. Vale muito à pena. E preste atenção. PS: Bom aparelho é obrigatório.
DEIXA ENTRAR, DEIXA PASSAR, APERFEIÇOE. Quando uma canção fala algo.
Não há como provar a vida, no que ela tem de melhor, sem a simplicidade. Para viver bem, é preciso aceitar, sem nenhum obstáculo, aquilo que ela é: Movimento incessante. Sendo movimento, ela é completamente imprevisível. Sendo imprevisível, ela requer criação constante. E para criar, para poder dançar o fluxo da realidade, é preciso simplificar.
Estou desenvolvendo a base do pensamento de Bergson. Voce pode ler mais detalhes no meu post abaixo. Mas antes desse post há um clip de uma canção de Paul MacCartney. Ela exemplifica esse fluxo e essa simplicidade de um modo magnífico.
Observe como a canção começa em silêncio. Toda canção começa em silêncio, mas só as melhores destacam isso. Nesse silêncio, que harmonizará toda a música, nascem os acordes de um lembrete: A campainha toca. Há alguém lá fora. Querendo entrar. Paul poderia ter usado 3 batidas na porta. Ou uma voz chamando. Mas ele sempre entendeu de silêncio. John era barulhento, ele não. Então são alguns toques de delicadeza. Onde o silêncio é mais importante que o som.
Então vem o piano.
Nunca se fez tanto com quase nada. E é isso a criação. O piano repete um acorde. Invariável. O mesmo, sempre o mesmo. Voce sente que lá está o tempo. Mas atenção! Sem saber racionalmente, por pura intuição, Paul exemplifica Bergson. O piano marca o tempo, aparenta ser o mesmo acorde, sempre o mesmo, que passa e se repete, que é circular, mas não! Sua sensibilidade sabe que não. QUE TODO TEMPO NUNCA SE REPETE. QUE NÃO HÁ CÍRCULO, QUE HÁ UM PASSAR INCESSANTE.
O acorde que parece se repetir nunca se repete. Porque voce que o escuta já o escutou uma primeira vez. A segunda. A terceira...Então a primeira vez já é passado, e portanto é irrecuperável.
Paul fala do encanto da rotina e da simplicidade. Na verdade em 90% de suas obras é disso que ele fala. Dentro do mundo do rock, e ao contrário do que muitos achavam, Paul MacCartney aos 23 anos já era um adulto. Em 1966 ele já sabia tudo. E sua meta era a simplicidade. Em estilo de vida. E em som. Enquanto todos falavam, como adolescentes frustrados, em projetos utópicos ou espaciais, Paul cantava uma cadela chamada Martha ou a felicidade da Mãe Natureza. Era como se ele estivesse em outro futuro. Ele intuía que toda aquela balbúrdia era apenas isso : Ausência de silêncio.
Como Tom Jobim fazia, Paul coloca o mínimo no que faz. O acorde que se repete é adornado com metais, uma bateria, um contra baixo, vocais de fundo. Mas jamais com exibicionismo. Esses instrumentos obedecem o piano. Eles estão acomodados dentro do acorde que se repete. Há uma tensão. Pois todo movimento é tenso. E ela parece jamais se resolver. Fica sem resposta, fica no silêncio. Ou não.
A leveza do todo e sua fluidez fica explícita no acorde final. São duas notas apenas, e ela respondem à tudo que houve antes. O Tio Jim de que fala a letra está na poltrona e todos os outros estão vagando pela casa. Ele os deixou entrar. Ele aceitou o tempo. Ele entendeu o acorde que é sempre o mesmo mas que nunca se repete.
Por intuição Paul diz tudo sobre Bergson.
Estou desenvolvendo a base do pensamento de Bergson. Voce pode ler mais detalhes no meu post abaixo. Mas antes desse post há um clip de uma canção de Paul MacCartney. Ela exemplifica esse fluxo e essa simplicidade de um modo magnífico.
Observe como a canção começa em silêncio. Toda canção começa em silêncio, mas só as melhores destacam isso. Nesse silêncio, que harmonizará toda a música, nascem os acordes de um lembrete: A campainha toca. Há alguém lá fora. Querendo entrar. Paul poderia ter usado 3 batidas na porta. Ou uma voz chamando. Mas ele sempre entendeu de silêncio. John era barulhento, ele não. Então são alguns toques de delicadeza. Onde o silêncio é mais importante que o som.
Então vem o piano.
Nunca se fez tanto com quase nada. E é isso a criação. O piano repete um acorde. Invariável. O mesmo, sempre o mesmo. Voce sente que lá está o tempo. Mas atenção! Sem saber racionalmente, por pura intuição, Paul exemplifica Bergson. O piano marca o tempo, aparenta ser o mesmo acorde, sempre o mesmo, que passa e se repete, que é circular, mas não! Sua sensibilidade sabe que não. QUE TODO TEMPO NUNCA SE REPETE. QUE NÃO HÁ CÍRCULO, QUE HÁ UM PASSAR INCESSANTE.
O acorde que parece se repetir nunca se repete. Porque voce que o escuta já o escutou uma primeira vez. A segunda. A terceira...Então a primeira vez já é passado, e portanto é irrecuperável.
Paul fala do encanto da rotina e da simplicidade. Na verdade em 90% de suas obras é disso que ele fala. Dentro do mundo do rock, e ao contrário do que muitos achavam, Paul MacCartney aos 23 anos já era um adulto. Em 1966 ele já sabia tudo. E sua meta era a simplicidade. Em estilo de vida. E em som. Enquanto todos falavam, como adolescentes frustrados, em projetos utópicos ou espaciais, Paul cantava uma cadela chamada Martha ou a felicidade da Mãe Natureza. Era como se ele estivesse em outro futuro. Ele intuía que toda aquela balbúrdia era apenas isso : Ausência de silêncio.
Como Tom Jobim fazia, Paul coloca o mínimo no que faz. O acorde que se repete é adornado com metais, uma bateria, um contra baixo, vocais de fundo. Mas jamais com exibicionismo. Esses instrumentos obedecem o piano. Eles estão acomodados dentro do acorde que se repete. Há uma tensão. Pois todo movimento é tenso. E ela parece jamais se resolver. Fica sem resposta, fica no silêncio. Ou não.
A leveza do todo e sua fluidez fica explícita no acorde final. São duas notas apenas, e ela respondem à tudo que houve antes. O Tio Jim de que fala a letra está na poltrona e todos os outros estão vagando pela casa. Ele os deixou entrar. Ele aceitou o tempo. Ele entendeu o acorde que é sempre o mesmo mas que nunca se repete.
Por intuição Paul diz tudo sobre Bergson.
A EVOLUÇÃO CRIADORA - HENRI BERGSON. A inteligência em tempos de crise.
Nossa inteligência se desenvolveu para prever, planejar e lidar com objetos. Essas não são apenas suas funções principais, são as únicas a que ela se presta. Ela sabe que se eu bater duas pedras surgirá fogo. Que o fogo assa a carne. Que sal deixa a comida melhor. Para ter carne é preciso caçar. Hoje, ter um emprego. Que o dinheiro ganho será gasto em contas. A inteligência planeja o que fazer com esse dinheiro. E é ela quem lida com tudo aquilo que o dinheiro pode comprar. Até aqui tudo está perfeito. E continuaria perfeito se soubéssemos como manter a inteligência em seu lugar, lidando com aquilo que à ela cabe.
Mas não é assim que acontece. Em um momento de nossa evolução, passamos a crer que a inteligência pode prever tudo, planejar tudo, lidar com tudo. É nesse momento que perdemos nossa intuição e negamos a imprevisibilidade da vida. O acidental passa a ser visto como anomalia, quando na verdade ele é regra. Esse é o ponto mais interessante do pensamento de Henri Bergson.
Vamos ver se consigo passar a ideia para voce de um modo bastante claro. Voce já deve ter lido algum livro de auto ajuda. Notou como nele o acaso não existe? Se voce fizer isto voce obterá aquilo. Sorria que o mundo sorrirá para voce. Deseje. Se voce quiser de verdade a coisa acontece. Até mesmo a fé foi enfiada nesse saco de causa e efeito. Tenha fé e voce obterá.
Eu falei em causa e efeito? Sim, pois a inteligência só funciona no esquema imutável da causa e efeito. Para algo acontecer algo aconteceu antes. Se isso acontece aquilo acontecerá. Hospícios estão lotados de gente que pensava assim. E entraram em parafuso ao notar que fizeram X e não obtiveram X, mas sim YWZ. São mentes matemáticas que quebraram no momento em que a conta não fechou.
Observe que a física começa sempre com o mesmo postulado: Em um dado momento. Numa dada distância. Neste segmento de reta. Ou seja, ela só trabalha em um recorte do real. Jamais no todo. O movimento tem de ser pensado como um início e um fim, e esse movimento não é um movimento, pois ele é analisado em um tempo recortado. Mas a realidade é um tempo que não cessa e um espaço sem fim. Então é lógico dizer que a física trabalha com pedaços mortos do tempo e micro fragmentos do mundo. Pois nossa inteligência é desenvolvida para entender apenas aquilo que tem começo e fim. Aquilo que pode ser medido e pesado. Aquilo que pode ser contado. Ela reduz a vida à um rebanho de cabras. O universo visto como um curral.
A biologia não é diferente. Ela estuda órgãos e células, jamais o organismo completo em funcionamento. Ela sabe como uma célula se divide, não porque ela se divide. Um aminoácido provoca tal reação, mas não o que faz ocorrer tal reação. É um estudo da causa e efeito em que se sabe das duas pontas do fato, começo e fim, mas nunca o durante. Antibiótico mata uma bactéria. Mas não como ela é morta. Muito menos de onde ela surgiu ou o porque de ter surgido.
Homens muito inteligentes tendem a querer saber o porque de tudo. Inclusive porque ela me ama, ou porque ela deixou de me amar. Não percebem o básico: a inteligência não existe para responder a nada. Ela existe para fazer coisas sólidas e para prever aquilo que foi provado várias e várias vezes.
Podemos ir adiante? Se a inteligência só sabe lidar com objetos e com aquilo que ela conhece por repetição, haverá no homem que se guia apenas por ela, a tendência a ver tudo como objeto e sentir a vida como repetição. O homem preso apenas à inteligência sufocará o imprevisto e a intuição. Pior ainda, será incapaz de perceber a imprevisibilidade radical da vida.
Sem a inteligência voce não estaria lendo isto. Mas apenas com ela voce não fará nada com aquilo que lê. Apenas repetirá tudo para sempre. A inteligência odeia tudo que é imprevisto. A crise atual é mais uma prova disso. Tentam saber o porque. É preciso uma causa e um efeito. É preciso ver tudo como um objeto a ser lidado. É preciso tirar algo de útil de tudo isso. É preciso prever o futuro do mundo após esta crise. A inteligência, pega de surpresa, reage do único modo que sabe reagir quando colocada em choque: Pavor. Em seguida ela começa a procurar acomodar tudo em causa e efeito. E aposta em futuros.
Para Bergson, o tempo é real, independente de nós. E se tudo que existe reside dentro do tempo e é por ele dominado, então tudo é movimento. Eis um fato que a inteligência é incapaz de lidar. A mudança. Para lidar com um objeto é necessário saber que ele não mudará. Que ele estará ali e permanecerá ali. E que suas características jamais se transformarão. Isso porque ela precisa prever uma ação. Planejar. E se ela aceitar que o tempo é real e que assim tudo está sujeito à ele, toda previsão se mostrará falha. A inteligência abstrai o tempo. O que é agora será amanhã. O progresso é o hoje transformado em um mesmo hoje, apenas melhorado, nunca transformado. Desconfie do aperfeiçoamento das coisas. É o mesmo com novo rótulo.
Mas então seríamos apenas escravos do tempo? Brinquedos incapazes de lidar com ele?
Não. Pois mudamos com ele. Estamos nele, ou mais que isso, somos ele também. Daí o pensamento radical de Bergson: Nunca somos o mesmo. Nosso caráter, nossa personalidade imutável é uma ficção criada pela nossa inteligência. Se ela só sabe e só pode lidar com objetos mortos, ao olhar para nós mesmos, ela matará nosso EU, transformando-o em objeto estático. Para ela, o que sou hoje serei sempre. E voce será para mim o mesmo. Eternamente. Só desse modo a inteligência tenta apreender a vida. E falha miseravelmente.
Nossa intuição vive dentro do tempo. E é nela que ele se revela. Ela que nos diz que tudo muda o tempo todo. Pois se o tempo é movimento, tudo se move com ele. E assim muda sem cessar.
Mas não é assim que acontece. Em um momento de nossa evolução, passamos a crer que a inteligência pode prever tudo, planejar tudo, lidar com tudo. É nesse momento que perdemos nossa intuição e negamos a imprevisibilidade da vida. O acidental passa a ser visto como anomalia, quando na verdade ele é regra. Esse é o ponto mais interessante do pensamento de Henri Bergson.
Vamos ver se consigo passar a ideia para voce de um modo bastante claro. Voce já deve ter lido algum livro de auto ajuda. Notou como nele o acaso não existe? Se voce fizer isto voce obterá aquilo. Sorria que o mundo sorrirá para voce. Deseje. Se voce quiser de verdade a coisa acontece. Até mesmo a fé foi enfiada nesse saco de causa e efeito. Tenha fé e voce obterá.
Eu falei em causa e efeito? Sim, pois a inteligência só funciona no esquema imutável da causa e efeito. Para algo acontecer algo aconteceu antes. Se isso acontece aquilo acontecerá. Hospícios estão lotados de gente que pensava assim. E entraram em parafuso ao notar que fizeram X e não obtiveram X, mas sim YWZ. São mentes matemáticas que quebraram no momento em que a conta não fechou.
Observe que a física começa sempre com o mesmo postulado: Em um dado momento. Numa dada distância. Neste segmento de reta. Ou seja, ela só trabalha em um recorte do real. Jamais no todo. O movimento tem de ser pensado como um início e um fim, e esse movimento não é um movimento, pois ele é analisado em um tempo recortado. Mas a realidade é um tempo que não cessa e um espaço sem fim. Então é lógico dizer que a física trabalha com pedaços mortos do tempo e micro fragmentos do mundo. Pois nossa inteligência é desenvolvida para entender apenas aquilo que tem começo e fim. Aquilo que pode ser medido e pesado. Aquilo que pode ser contado. Ela reduz a vida à um rebanho de cabras. O universo visto como um curral.
A biologia não é diferente. Ela estuda órgãos e células, jamais o organismo completo em funcionamento. Ela sabe como uma célula se divide, não porque ela se divide. Um aminoácido provoca tal reação, mas não o que faz ocorrer tal reação. É um estudo da causa e efeito em que se sabe das duas pontas do fato, começo e fim, mas nunca o durante. Antibiótico mata uma bactéria. Mas não como ela é morta. Muito menos de onde ela surgiu ou o porque de ter surgido.
Homens muito inteligentes tendem a querer saber o porque de tudo. Inclusive porque ela me ama, ou porque ela deixou de me amar. Não percebem o básico: a inteligência não existe para responder a nada. Ela existe para fazer coisas sólidas e para prever aquilo que foi provado várias e várias vezes.
Podemos ir adiante? Se a inteligência só sabe lidar com objetos e com aquilo que ela conhece por repetição, haverá no homem que se guia apenas por ela, a tendência a ver tudo como objeto e sentir a vida como repetição. O homem preso apenas à inteligência sufocará o imprevisto e a intuição. Pior ainda, será incapaz de perceber a imprevisibilidade radical da vida.
Sem a inteligência voce não estaria lendo isto. Mas apenas com ela voce não fará nada com aquilo que lê. Apenas repetirá tudo para sempre. A inteligência odeia tudo que é imprevisto. A crise atual é mais uma prova disso. Tentam saber o porque. É preciso uma causa e um efeito. É preciso ver tudo como um objeto a ser lidado. É preciso tirar algo de útil de tudo isso. É preciso prever o futuro do mundo após esta crise. A inteligência, pega de surpresa, reage do único modo que sabe reagir quando colocada em choque: Pavor. Em seguida ela começa a procurar acomodar tudo em causa e efeito. E aposta em futuros.
Para Bergson, o tempo é real, independente de nós. E se tudo que existe reside dentro do tempo e é por ele dominado, então tudo é movimento. Eis um fato que a inteligência é incapaz de lidar. A mudança. Para lidar com um objeto é necessário saber que ele não mudará. Que ele estará ali e permanecerá ali. E que suas características jamais se transformarão. Isso porque ela precisa prever uma ação. Planejar. E se ela aceitar que o tempo é real e que assim tudo está sujeito à ele, toda previsão se mostrará falha. A inteligência abstrai o tempo. O que é agora será amanhã. O progresso é o hoje transformado em um mesmo hoje, apenas melhorado, nunca transformado. Desconfie do aperfeiçoamento das coisas. É o mesmo com novo rótulo.
Mas então seríamos apenas escravos do tempo? Brinquedos incapazes de lidar com ele?
Não. Pois mudamos com ele. Estamos nele, ou mais que isso, somos ele também. Daí o pensamento radical de Bergson: Nunca somos o mesmo. Nosso caráter, nossa personalidade imutável é uma ficção criada pela nossa inteligência. Se ela só sabe e só pode lidar com objetos mortos, ao olhar para nós mesmos, ela matará nosso EU, transformando-o em objeto estático. Para ela, o que sou hoje serei sempre. E voce será para mim o mesmo. Eternamente. Só desse modo a inteligência tenta apreender a vida. E falha miseravelmente.
Nossa intuição vive dentro do tempo. E é nela que ele se revela. Ela que nos diz que tudo muda o tempo todo. Pois se o tempo é movimento, tudo se move com ele. E assim muda sem cessar.
PARA QUE SERVE UMA RAINHA?
O que diferencia um homem de um urso é sua capacidade de abstrair, e na abstração, simbolizar. Nosso mundo, humano, se coloca à parte da natureza porque enquanto ela é o que é, nosso mundo é uma criação simbólica. Do número às letras, da cruz à tatuagem que voce tem na pele, tudo o que construímos ou pensamos é símbolo de alguma ideia.
Quando alguém pergunta para que serve uma rainha, e hoje, 21 de abril, é aniversário de nascimento de Elizabeth II, essa pessoa está tentando sair do nível humano e ir ao animal. Sim, porque a rainha não é a pessoa mais forte. Nem a mais inteligente. Nem mesmo, creia, a mais rica. Ela é apenas e tão somente filha de um rei. E por isso, é um símbolo. Sendo símbolo ela nada precisa fazer ou dizer. Ela apenas deve estar.
Apenas é vicio de linguagem, pois estar simbolizando é algo tão rígido e tão cercado de expectativas que poucos executam esse papel com perfeição.
Elizabeth nasceu e viveu como símbolo e nunca como pessoa real. Ela é o Reino Unido, e sendo isso ela é tudo, menos humana. Como rainha, ela é cada navio pirata de 1700 e cada cockney de 2020. Mas é também o fish and chips e inclusive os punks que a ridicularizavam. Pois como rainha ela garante que os súditos tenham o direito britânico de a ridicularizar. Enquanto houver rainha, ou rei, o reino tem a garantia de manter seu caráter. E é por isso que a Espanha mantém seu rei, e é por isso que Portugal sempre parecerá um barco à deriva.
Um rei, ou no caso uma rainha, é o ponto de convergência. Sendo assim, mesmo nas piores crises, há a garantia do símbolo. Caem catedrais, caem soldados, cai a confiança, mas o rei permanece. Inclusive porque não é preciso nem mesmo um rei vivo, basta a ideia de que a instituição permanece.
Não se preocupe que jamais irei defender a monarquia no Brasil. Seria ir contra o que falo aqui. A monarquia é um símbolo e o Brasil quebrou a redoma que mantinha o símbolo vivo. Quando voce perde a fé ela não retorna. A volta da monarquia na Italia ou em Portugal seria uma farsa. No Brasil seria um tipo de carnaval.
Dom Pedro, óbvio, jamais deveria ter sido expulso do trono. Nossa república, como tudo que aqui acontece, foi um ato de revanche e de ódio. Senhores de escravos não perdoaram o imperador por ter libertado seus "bens". Entender como teria sido nossa história sem a república é impossível. Mas pode-se imaginar uma maior segurança institucional.
Então hoje é aniversário de Elizabeth. São 94 anos de vida. Quando subiu ao trono Hitchcock filmava Janela Indiscreta. Paul MacCartney tocava piano na casa do tio. TS Eliot se dizia anglicano e monarquista. Ela passou pelos hippies, venceu os Sex Pistols ( cadê eles? ), entregou dezenas de taças e sobreviveu à Diana. Jamais deixou de estar simbolizando o reino. Jamais cometeu um só deslize.
E se voce a acha inútil, bem, voce não entendeu nada my dear.
Quando alguém pergunta para que serve uma rainha, e hoje, 21 de abril, é aniversário de nascimento de Elizabeth II, essa pessoa está tentando sair do nível humano e ir ao animal. Sim, porque a rainha não é a pessoa mais forte. Nem a mais inteligente. Nem mesmo, creia, a mais rica. Ela é apenas e tão somente filha de um rei. E por isso, é um símbolo. Sendo símbolo ela nada precisa fazer ou dizer. Ela apenas deve estar.
Apenas é vicio de linguagem, pois estar simbolizando é algo tão rígido e tão cercado de expectativas que poucos executam esse papel com perfeição.
Elizabeth nasceu e viveu como símbolo e nunca como pessoa real. Ela é o Reino Unido, e sendo isso ela é tudo, menos humana. Como rainha, ela é cada navio pirata de 1700 e cada cockney de 2020. Mas é também o fish and chips e inclusive os punks que a ridicularizavam. Pois como rainha ela garante que os súditos tenham o direito britânico de a ridicularizar. Enquanto houver rainha, ou rei, o reino tem a garantia de manter seu caráter. E é por isso que a Espanha mantém seu rei, e é por isso que Portugal sempre parecerá um barco à deriva.
Um rei, ou no caso uma rainha, é o ponto de convergência. Sendo assim, mesmo nas piores crises, há a garantia do símbolo. Caem catedrais, caem soldados, cai a confiança, mas o rei permanece. Inclusive porque não é preciso nem mesmo um rei vivo, basta a ideia de que a instituição permanece.
Não se preocupe que jamais irei defender a monarquia no Brasil. Seria ir contra o que falo aqui. A monarquia é um símbolo e o Brasil quebrou a redoma que mantinha o símbolo vivo. Quando voce perde a fé ela não retorna. A volta da monarquia na Italia ou em Portugal seria uma farsa. No Brasil seria um tipo de carnaval.
Dom Pedro, óbvio, jamais deveria ter sido expulso do trono. Nossa república, como tudo que aqui acontece, foi um ato de revanche e de ódio. Senhores de escravos não perdoaram o imperador por ter libertado seus "bens". Entender como teria sido nossa história sem a república é impossível. Mas pode-se imaginar uma maior segurança institucional.
Então hoje é aniversário de Elizabeth. São 94 anos de vida. Quando subiu ao trono Hitchcock filmava Janela Indiscreta. Paul MacCartney tocava piano na casa do tio. TS Eliot se dizia anglicano e monarquista. Ela passou pelos hippies, venceu os Sex Pistols ( cadê eles? ), entregou dezenas de taças e sobreviveu à Diana. Jamais deixou de estar simbolizando o reino. Jamais cometeu um só deslize.
E se voce a acha inútil, bem, voce não entendeu nada my dear.
O ADOLESCENTE BIRRENTO
Ele distribui folhetos onde prega a necessidade de ser ateu. Vegetariano, esbraveja pelo pacifismo. Ostenta orgulhoso a expulsão de sua escola de elite. É feminista. Mas abandonou uma namorada grávida e foi tão infiel que levou outra ao suicídio. Adolescente mimado e moderninho? Esta é a bio de Percy Bysshe Shelley. Se Byron foi o molde do adolescente satânico, Shelley é o molde do presidente de centro acadêmico. Mas os dois são diferentes.
Shelley não foi famoso em vida. Seus livros venderam mal. E enquanto Byron morreu em luta, Shelley se afogou no naufrágio de seu iate na Itália. Aos 30 anos. Sua influência comportamental começa apenas no inicio do século XX, com uma série de biografias romanceadas a alimentarem sua idolatria. Shelley passa a ser o corajoso adolescente rebelde, ateu e preocupado com os pobres. Inocente e sexy.
E sua poesia nisso? Eliot o demoliu nos anos 30. Demonstrou que tudo que ele escreveu teve a marca da infantilidade. Shelley escrevia bem, mas possuía mente de criança. Via o mundo como brinquedo onde ele era o herói que tudo podia. Nos seus poemas de amor fica fácil perceber que Shelley ama por ver na amada a si mesmo. Ele só ama quem é igual a ele. Daí a recorrência da imagem das almas gêmeas.
Mas algo há de genial. Ozymandias é sublime. Pouca coisa há que transmita melhor a tragédia do tempo que passa e destrói tudo. Quando esquecia de si mesmo, Shelley crescia.
Byron e Shelley são e foram os dois poetas mais famosos da Inglaterra. E não é snobismo dizer que dos grandes são os menos bons. Muitas vezes são ruins. John Keats é sempre excelente. Wordsworth é quase sempre maravilhoso. E mesmo Coleridge atinge alturas que Byron e Shelley jamais atingiram. Keats foi apenas um estudante de medicina que morreu aos vinte a poucos anos de tuberculose. E Wordsworth tem uma bio aborrecida e sem tragédias. Byron e Shelley tiveram vidas interessantes, e tornadas ainda mais complexas por biógrafos empolgados, viraram mitos. Os grandes poetas de quem não lê poesia. Quando a partir da década de 1930, estudar literatura passou a ser ler o texto e esquecer quem o escreveu, os dois românticos foram desvalorizados. Keats e Wordsworth finalmente elevados a seu devido lugar.
Porque na página diante de seus olhos, que é o que importa, eles são gigantes.
Byron e Shelley voce lê pensando em quem eles foram.
Shelley não foi famoso em vida. Seus livros venderam mal. E enquanto Byron morreu em luta, Shelley se afogou no naufrágio de seu iate na Itália. Aos 30 anos. Sua influência comportamental começa apenas no inicio do século XX, com uma série de biografias romanceadas a alimentarem sua idolatria. Shelley passa a ser o corajoso adolescente rebelde, ateu e preocupado com os pobres. Inocente e sexy.
E sua poesia nisso? Eliot o demoliu nos anos 30. Demonstrou que tudo que ele escreveu teve a marca da infantilidade. Shelley escrevia bem, mas possuía mente de criança. Via o mundo como brinquedo onde ele era o herói que tudo podia. Nos seus poemas de amor fica fácil perceber que Shelley ama por ver na amada a si mesmo. Ele só ama quem é igual a ele. Daí a recorrência da imagem das almas gêmeas.
Mas algo há de genial. Ozymandias é sublime. Pouca coisa há que transmita melhor a tragédia do tempo que passa e destrói tudo. Quando esquecia de si mesmo, Shelley crescia.
Byron e Shelley são e foram os dois poetas mais famosos da Inglaterra. E não é snobismo dizer que dos grandes são os menos bons. Muitas vezes são ruins. John Keats é sempre excelente. Wordsworth é quase sempre maravilhoso. E mesmo Coleridge atinge alturas que Byron e Shelley jamais atingiram. Keats foi apenas um estudante de medicina que morreu aos vinte a poucos anos de tuberculose. E Wordsworth tem uma bio aborrecida e sem tragédias. Byron e Shelley tiveram vidas interessantes, e tornadas ainda mais complexas por biógrafos empolgados, viraram mitos. Os grandes poetas de quem não lê poesia. Quando a partir da década de 1930, estudar literatura passou a ser ler o texto e esquecer quem o escreveu, os dois românticos foram desvalorizados. Keats e Wordsworth finalmente elevados a seu devido lugar.
Porque na página diante de seus olhos, que é o que importa, eles são gigantes.
Byron e Shelley voce lê pensando em quem eles foram.
O MUNDO BYRON DE 2020
Andei relendo Byron ontem. Beppo é o livro que escolhi. Byron morreu aos 36 e Beppo é de sua fase melhor, a final. Aqui ele é humorista. Beppo divaga sobre vários assuntos, tudo em ritmo de sátira. Se no seu começo Byron era piegas, aqui ele é exuberante. É um poema fácil de ler, divertido, levíssimo.
Se voce quer saber o quanto Byron guiou moda e consciências no século XIX, imagine um cara que foi Mick Jagger e Jim Morrison em um só. Goethe chegou a dizer que Byron era o maior homem do século. Ele era famoso em Piracicaba e em Vienna. Em Boston e em Goa. Sem rádio, sem TV, sem nada, ele era figura mundial. No boca a boca. Os jovens queriam ser Byron. Mais que isso, se sentiam irmãos de alma dele.
No fim do século XIX já se percebia que a poesia dele era de segunda categoria. Keats, Shelley, Wordsworth eram muito melhores. Poe passou a ser um modelo mais seguido. Hoje parece que as grandes figuras daquele século foram Beethoven, Wagner, Goethe e Tolstoi. Mas não foi assim. Somente Napoleão era tão famoso quanto Byron.
Ao contrário do que os críticos gostam de dizer, ainda há muito byronismo nos jovens de hoje. Não todos. Talvez nos mais interessantes.
Vejamos...
Byron nasceu rico e nobre, e foi ele quem popularizou a figura do jovem que tem tudo mas sofre por ter uma maldição sobre ele. Bonito, ele tinha um pé defeituoso e bastou isso para o deixar marcado. Marcado por si mesmo, pois as mulheres e os meninos choviam em sua cama. Bissexual, ele se envolvia com mulheres mais velhas, jovens camponesas, adolescentes, meninos virginais. Mas sempre jogando com a imagem de que " ele era um azar na vida de quem o tocava". Byron era o Homem Fatal.
Foi ele quem popularizou o novo gótico, cerimônias e orgias em cemitérios. Foi ele quem bebia vinho dentro de um crânio. ( Vc acha taças de caveira em qualquer loja na Galeria do Rock. Byron iria rir disso ).
Inquieto, ele foi um grande viajante, percorrendo a Europa em busca de excitação. Sua morte foi a mais bela possível, morto na Grécia, lutando pela libertação dos gregos da opressão turca. O que mais falta para vermos nele o europeu moderninho de hoje? Byron se entupia de drogas e tinha o tédio blasé dos fãs de Thom Yorke. Apaixonado por sua meia irmã, ele ia contra a moral de sua classe social. E, glória das glórias, Frankenstein foi escrito na sua casa numa noite de orgia.
Lord Byron criou, com seu comportamento, um padrão tão imitado, que hoje a gente vê tudo que ele fez como cliché. Desde Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, até o último herói do cinema, aquele herói que sofre e ninguém aceita, todos são netos e bisnetos do poeta inglês. Roqueiros dos anos 60 descobriram que ser Byron dava ibope e se lançaram à obra. Roqueiros de 2020 mal sabem disso, mas continuam seguindo o modelo, agora bem desgastado. Antes de Oscar Wilde, foi Byron o primeiro artista a usar sua arte na vida e não na obra.
Se voce quer saber o quanto Byron guiou moda e consciências no século XIX, imagine um cara que foi Mick Jagger e Jim Morrison em um só. Goethe chegou a dizer que Byron era o maior homem do século. Ele era famoso em Piracicaba e em Vienna. Em Boston e em Goa. Sem rádio, sem TV, sem nada, ele era figura mundial. No boca a boca. Os jovens queriam ser Byron. Mais que isso, se sentiam irmãos de alma dele.
No fim do século XIX já se percebia que a poesia dele era de segunda categoria. Keats, Shelley, Wordsworth eram muito melhores. Poe passou a ser um modelo mais seguido. Hoje parece que as grandes figuras daquele século foram Beethoven, Wagner, Goethe e Tolstoi. Mas não foi assim. Somente Napoleão era tão famoso quanto Byron.
Ao contrário do que os críticos gostam de dizer, ainda há muito byronismo nos jovens de hoje. Não todos. Talvez nos mais interessantes.
Vejamos...
Byron nasceu rico e nobre, e foi ele quem popularizou a figura do jovem que tem tudo mas sofre por ter uma maldição sobre ele. Bonito, ele tinha um pé defeituoso e bastou isso para o deixar marcado. Marcado por si mesmo, pois as mulheres e os meninos choviam em sua cama. Bissexual, ele se envolvia com mulheres mais velhas, jovens camponesas, adolescentes, meninos virginais. Mas sempre jogando com a imagem de que " ele era um azar na vida de quem o tocava". Byron era o Homem Fatal.
Foi ele quem popularizou o novo gótico, cerimônias e orgias em cemitérios. Foi ele quem bebia vinho dentro de um crânio. ( Vc acha taças de caveira em qualquer loja na Galeria do Rock. Byron iria rir disso ).
Inquieto, ele foi um grande viajante, percorrendo a Europa em busca de excitação. Sua morte foi a mais bela possível, morto na Grécia, lutando pela libertação dos gregos da opressão turca. O que mais falta para vermos nele o europeu moderninho de hoje? Byron se entupia de drogas e tinha o tédio blasé dos fãs de Thom Yorke. Apaixonado por sua meia irmã, ele ia contra a moral de sua classe social. E, glória das glórias, Frankenstein foi escrito na sua casa numa noite de orgia.
Lord Byron criou, com seu comportamento, um padrão tão imitado, que hoje a gente vê tudo que ele fez como cliché. Desde Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes, até o último herói do cinema, aquele herói que sofre e ninguém aceita, todos são netos e bisnetos do poeta inglês. Roqueiros dos anos 60 descobriram que ser Byron dava ibope e se lançaram à obra. Roqueiros de 2020 mal sabem disso, mas continuam seguindo o modelo, agora bem desgastado. Antes de Oscar Wilde, foi Byron o primeiro artista a usar sua arte na vida e não na obra.
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