Waters Of March - Cassandra Wilson



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BELLY OF THE SUN- CASSANDRA WILSON, O DISCO ELEGANTE

   Jazz? Pode ser. Sim, talvez seja, jazz. Ela tem voz para isso. O fraseado de Cassandra é limpo, claro como dia de verão. E a instrumentação a acompanha. A percussão parece "brasileira", é cheia de nuances, timbres, rica. A guitarra é sublime, cascateia. Há em todo o disco uma delicadeza que nunca se torna flacidez, se mantém viva, delicadeza de água.
  O repertório se apresenta com The Weight. Sim, ela transforma The Band em um tipo de pop-jazz à Joni Mitchell. Calmo. Tem também Tom Jobim. E esse tipo de som chique, classudo tem tudo a ver com o carioca mais afinado do mundo. Águas de Março, vira Waters of March e é linda. Na real é impossível transformar essa melodia em algo que não seja no mínimo cativante. É uma versão sublime. A música de Tom sempre tem esse dom, ela acalma, embala, abre vistas. 
  O clima muda com o hino blues You Gotta Move. Cassandra canta com sangue. É, talvez, o momento mais forte de todo o disco. Você canta junto sem notar que abriu a voz. Isso faz de uma canção um hino. Shelter From The Storm é Bob Dylan em seu melhor. No original é um rock-folk pensativo e raivoso, imagens se sucedem como raios. Aqui é pensativo. A instrumentação flutua. Noturno. Cooter Brown é uma canção fantástica. E mais nada se pode dizer dela.
  Hot Tamales fecha o disco em alto astral. E a vontade é ouvir tudo de novo.
  Bem...eu tenho uma amiga que é uma das pessoas mais elegantes do mundo. E foi ela quem me deu esse cd de presente. O que posso falar? Que este caipirão que vos escreve sente que Cassandra é a trilha de vida de meninas como essa minha amiga de mãos voadoras e mente orvalhada.
  Um lindo som.

O PODER DA ESCRITA

   Uma aula que consegue unir rigor a bom humor, informação e domínio daquilo que se diz. A professora Andréa Daher veio especialmente do Rio para cinco horas de prazer cerebral. É muito bom observar o modo como ela conduz a sala inteira para os lugares e conhecimentos desejados. Segredo do grande mestre, fazer com que os ouvintes sintam o desejo de saber que ela sentiu desde muito antes.
   O tema poderia ser árido, e é, mas a voz leve e clara e o rosto de atriz, expressivo, levam as horas a parecer minutos. O tema é o modo como os textos eram escritos e divulgados no século XVI, textos escritos sobre a Terra de Santa Cruz, vulgarmente chamada de Brasil, textos escritos por portugueses e por franceses, documentos de jesuítas e de capuchinhos, o modo como eles pensavam, o que sentiam, como a Europa nos percebia.
   A professora Daher, pesquisando na França, onde viveu décadas, mostra gravuras e textos de franceses que levaram tupinambás para Paris. Índios brasileiros, cruzando o oceano e aportando na Europa, conhecendo o rei Luis, aprendendo modos franceses, usando roupas complicadas, sendo exibidos em palácios. Tudo isso com o fim de provar que Tupinambás tinham uma alma e que por terem alma podiam ser civilizados. 
   Montaigne não concordava com isso, mas Rousseau, séculos depois, usará esses brasileiros para criar o tal do bom selvagem.  O Brasil não nasce aí. Não nasce com esses frades franceses, huguenotes, ou com os jesuítas. Daher fala que a história é feita por dinheiro e escrita, pelas letras. A Itália existia antes de Dante, mas é a Comédia Divina que a faz tomar consciência de si e começar a se historiar. É sempre uma escrita que inscreve o país ao mundo. Nos EUA foi a constituição, na Inglaterra foi Bacon e na Espanha o Quixote. E nós? 
   O Brasil começa se ver como um país apenas no século XVIII. O parto durou três séculos, três longos séculos em que este espaço era uma terra `a procura de quem a amasse. De quem a tomasse nas mãos como nação e não como passagem. Três séculos em que aqui era um caminho, um meio e jamais um fim. O fim era Lisboa, o fim era Paris.
   Em sua aula, que engloba o time do Flamengo, os paulistas, monstros em São Vicente e a beleza da imaginação, ela consegue nos passar seu amor as letras, a palavra dita, impressa, cantada, pensada, levada. O amor ao livro velho, ao texto esquecido, raro, perdido, incompleto. 
   A vida é imaginação. A vida é ficção. Texto, e todo texto é imaginação.
   PS: Já no pós aula ela lembra que nos anos 80, nessas listas mentirosas de livros mais lidos ( mentirosa porque não há como saber se eles foram realmente lidos ), no Rio o mais lido foi durante meses o Ulysses, de James Joyce. Livro segundo ela ilegível. Como isso então? Bem, ela lembra que nos anos 80, época de pose, era chique ir à praia com um livro debaixo do braço. Milan Kundera era Ok, Umberto Eco, legal, Joyce era o máximo!
   Risos? Sim, risos, mas isso demonstra o poder que um livro tem mesmo entre aqueles que não o abrem.
    Aplausos.

The President's Analyst opening titles



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Bullitt - Opening Credits



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AS MELHORES TRILHAS SONORAS DOS FILMES MAIS COOL

   1965/1975, o apogeu da música de cinema. Air, David Holmes, DJs, todos concordam. E foi mesmo. Dificil achar um filme desse período, por mais ruim que ele seja, que não tenha uma trilha sonora interessante. E que não exerça influência na música mais interessante feita hoje.
 Todos concordam que a arte da trilha sonora se perdeu. Alguns poucos filmes ainda têm boa trilha, mas elas não vendem, não se tornam um sucesso popular independente do filme. Para voce entender, a trilha de Bullit ou dos Dirty Dozen concorria com Beatles, pau a pau. Hoje trilha de sucesso é trilha cheia de músicas pop feitas anos antes e sem a intenção de virar filme. Ou trilha cantada de Frozen. Eu falo de música para filme não musical. E composta para o filme. Que se integra à obra.
 Para mim, o melhor tempo começa antes, em 1955, e vai até 1975. Começa com Duke Ellington, Henry Mancini, Alex North, Jerry Fielding, Bernard Herrman, Elmer Bernstein, e acaba exatamente com a trilha de Tubarão e Taxi Driver, em 1975. O documentário que assisti prefere um corte menor. A trilha mais funky, mais elétrica de Lalo Schifrin, Qincy Jones, John Barry, Ennio Morricone, Michel Legrand. A visão é americana, então eles deixam de lado Georges Delerue, Nino Rota, Carlo Rustichelli, e até mesmo Burt Bacharach, talvez por ser ultra pop. De qualquer modo é uma delicia o frisson que causa dois minutos apenas de Bullit, Thomas Crown, a trilogia do western com Clint, Dirty Harry, Shaft, Peter Gunn... E veja que eles nem falam do Chefão, de Chinatown, Operação França ou de Papillon. É uma multidão de músicas ainda cool, ainda influentes, ainda conhecidas, ainda instigantes. 
  Por iniciar em 65 não se fala das trilhas do James Bond, por John Barry, e nem da Pantera Cor de Rosa, por Mancini. Talvez as duas trilhas mais queridas da história do cinema. John Willians, o colecionador de Oscars, começa nessa época, suas primeiras trilhas, bem jazzisticas, são de 65/66.
     Posto o inicio de Bullit. Só pra voce sentir o que falo.
     Bom dia!

E NASCE A LUZ INTERIOR!

   Primeiro foi Platão. Dois mundos. O mundo onde vivemos e o mundo perfeito das ideias. Aprender, viver, é relembrar onde já estivemos um dia, o universo onde a inteligência manda e tudo é ideal. Aqui, sombras. Lá, a luz.
  No ano 470 de nossa era, o fim de Roma. O começo da Idade Média. Bárbaros invadem a Itália. Seitas hereges brotam. Surge Agostinho. Pagão, aos 30 anos ele se faz cristão. E tem, para salvar o cristianismo, uma ideia genial. Unir à fé cristã, a lógica grega. O ocidente nasce exatamente nesse momento. Este nosso mundo onde lutamos para unir crença e razão, dogma com liberdade, espírito e carne.
  Agostinho criou a interioridade. Foi o primeiro autor a falar em vida interior. Surpreso? Explico.
  Talvez voce já tenha lido Homero. Ou Ésquilo. Sófocles. Virgilio. E tenha sentido que em meio a toda aquela beleza, criação, filosofia, falta alguma coisa. Parece que há uma certa superficialidade estranha. Como superficialidade? Eles falam sobre coisas graves, sérias, reais! Sim, é vero, mas...não há vida interior. Tudo neles é para fora, é ação, ato. As coisas só existem se forem ditas, discutidas, feitas, o ser só existe no convívio com a comunidade. Na dialética, no diálogo, na conversa. Impossível nesse mundo a criação do romance. Tudo é para fora.
  Agostinho cria um raciocínio que salva a igreja e que nos cria, mesmo a voces, amigos ateus. O pensamento é tão arraigado em nós que lhe parecerá óbvio, mas creia-me, foi uma revolução!
  Ele disse: Se Deus criou o homem, e esse homem foi feito à Sua semelhança, então, lógico, cada homem tem em si algo de divino, possui em seu INTERIOR uma fagulha divina. 
  As consequências dessa afirmação foram tremendas! Vamos à algumas:
  Todo homem merece o respeito. Todo homem faz parte da criação divina. 
  Um homem pode ser destruído fisicamente, mas sua fagulha não. Voce pode prender um corpo, mas nunca uma alma.
  A sabedoria está dentro de cada um e não lá fora. Deus vive dentro do ser. 
  Aprender é encontrar um caminho para essa fagulha. 
  Agostinho dava assim toda a direção para onde fluiria a filosofia e a igreja dos próximos mil anos. Santo Tomás de Aquino faria alguns acréscimos, mas as fundações estavam dadas. A partir da renascença, com a ciência experimental, começaria a se procurar a verdade no mundo lá de fora, mas até hoje, em 2015, mil e quinhentos anos mais tarde, ainda pensamos em iluminação interior, seja via arte, fé ou descoberta científica. 
  Tudo isso me foi passado num curso de filosofia que tenho feito. Diz a professora que Agostinho remete direto à Descartes e Wittgeinstein. Como pode? Digo para ela que isso foi uma...revolução! Que estou pasmo! Ela responde, Sim, é uma revolução, ele inaugura a interioridade na história do pensamento. Cada um passa a ser responsável pela sua fé. Ele não podia prever, mas isso abriu caminho para a Reforma Protestante e para o agnosticismo. Se cada um deve olhar para dentro de si à procura de Deus, nasce a possibilidade de nada se encontrar ou de se encontrar um Deus novo. 
  Estava feita a cisão. Nascida dentro do próprio cristianismo. O homem como o reconhecemos começa a partir daí. De certo modo Agostinho foi o primeiro contemporâneo.

JOVEM.

   Ser jovem é uma convulsão. É estar perto da morte todo o tempo e mesmo assim ou por isso mesmo ser mais vivo que a vida. Mais que a vida porque se a vida é em sua maior parte envelhecimento e decadência, ser jovem é o escândalo da super vida!
  Nietzsche estava errado! Não foi o cristianismo que nos fez fracos, é a idade que nos esmaga e vence nossa verdadeira força. Nosso apogeu dura apenas dez anos... A vida plena dos ossos, que se quebram e se refazem sem que percebamos. A elasticidade da pele, protegendo mais que o corpo, embalando os sonhos. Porque jovens tudo é sonho, mesmo que pensemos na dor. A vida é então feita de saltos, assaltos, piruetas e trombetas que anunciam: Sou vivo!
  Convulsionado as dores se vão, convulsionado o amor chega, em convulsões ele morre. Tudo é grito e a dança do sangue que exige jorrar. Suor nos porões onde o sal escorre pelas paredes, risos nos quartos em que cada palavra é uma piada. O raio do sol bate na pele que acasala com ele. A onda do mar abraça a pele que envolve ela. Leve. A juventude é leve, a leve doçura do compromisso que é para sempre e sempre acaba. E volta. Porque um ano para um jovem cérebro é toda uma vida. 
  Eu me intoxicava em convulsões mortíferas que me fizeram viver. Nas cavalgadas da guitarra-potro-escoiceante. Nas mordeduras da bateria tesoura. Nos vulcânicos dotes do baixo fervido. As convulsões vivas da alma que está prestes a se jogar. Aceitar a vida. Começar a partir. 
  Ser jovem é a maior das felicidades.

Otto Wagner



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Gustav Klimt - Música Gustav Mahler



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A UTILIDADE DA BELEZA É A DE DESTRUIR O CONCEITO DE UTILIDADE

   E tudo começou com Beardsley. Com uma linha sinuosa, desenhada a nanquim, preto sobre o branco. Um diabinho e uma mulher nua. Era o começo do fim do século XIX, e como protesto ao automatismo da vida industrial, eles criaram a noção de que só teria valor aquilo que fosse feito manualmente. A revolução seria a revolução da beleza. Se o mundo se tornava cada vez mais feio, sujo, aglomerado, cabia ao homem, a todo homem, se individualizar. Fazer de seu ambiente, de sua vida, testemunho de sua beleza individual. ( Me parece que hoje, burramente, o protesto se dá pelo culto ao feio. Como se não fosse feio aquilo que produzimos naturalmente ).
  O que seria essa beleza? Para o art nouveau inglês, o belo seria noturno, negro, curvilíneo, pecaminoso e satânico. Whistler exemplifica bem esse estilo noturno. Mas Londres não foi solitária. Barcelona, Bruxelas, Paris, Berlin e principalmente Viena logo adotaram o estilo. Beleza para todos! Não vamos esquecer nunca que eles eram socialistas, sua ambição era coletiva e socializante. 
  Uma contradição! Um dos lemas era: Melhor fazer um cinzeiro em dez dias que dez cinzeiros em um dia! E realmente eles levavam até mais de dez dias para fazer um cinzeiro. E essa peça seria única, cheia de criatividade, beleza. E cara...O novo estilo, JUNGSTIL, começou a ser sinal de luxo, status, exclusividade. Mobilia, quadros, roupas, objetos, um simples saleiro, tudo era Jungstil. O jovem estilo. Nada acessível às massas que continuavam em sua pobreza feia do produto anônimo. Mas havia a arquitetura, e com ela a cidade poderia mudar, e com a mudança do ambiente o povo poderia adquirir o senso da beleza!  Maravilhosas fachadas em Viena, em Paris, estações de metrô, postes de luz, gares de trens, bancos, jardins, tudo art nouveau, novo lema: Arte de Hoje para o Tempo de Agora!
  A música do tempo: Debussy! Ravel ! Satie! Curvas, panos, tapetes, cortinas, luzes, ferro fundido, prata, ouro, vitrais, flores, veludo. Poetas do tempo: Rilke, Stefan George, Mallarmée, Valéry. Corpos nús, sexo, oriente, Grécia. Vapores...Luxo, sempre o luxo, a calma, a volúpia. Klimt, Mucha, Otto Wagner, Victor Horta.
  Em Trieste, em 1905, Rilke e Joyce se cruzaram na cidade. E não se reconheceram, claro. Mas veja, uma cidade, média, viu dois gênios respirarem seu ar ao mesmo tempo. Um, Rilke, cultuando a negra pantera que trazia em seu movimento a beleza do sexo e da morte; o outro, Joyce, odiando tudo aquilo e querendo mostrar ao mundo o cuspe, a merda e a vulgaridade da vida real. E quem sabe, achar a beleza maior nessa verdade. 
  Para o Art Nouveau, a beleza era um fim em si. Para Joyce, a verdade era a beleza. Sempre a verdade.
  Como todo movimento novo, ele logo ficou velho. Em dez anos, o esgotamento. E quando a primeira guerra veio, em 1914, culpou-se o Jungstil pela guerra. Falou-se que sua falta de moral, de fibra, sua preguiça seria o ambiente que levou o mundo ao Kaos! Jungstil passou a ser coisa decadente, suja, mortal...
  Por 50 anos, até 1964 mais ou menos, TUDO referente a Klimt, Beardsley, Whistler, foi considerado de segunda categoria. Foi o tempo da ditadura da linha reta. Da Bauhaus, de Mondrian, aqui no nosso Brasil do chato Niemeyer. Sem ornamentos, sem enfeites, sem copiar a natureza. Linhas puras, aço e vidro, regras e réguas. A beleza substituída pela FUNCIONALIDADE. O objeto, a construção, deve cumprir sua função. Tudo o que não tenha uma utilidade é dispensável. ( Oscar Wilde: A arte e a beleza só o são quando completamente inuteis ). 
  Os anos 60 recuperaram a Jungstil. De repente o inutil voltou a ser cultuado. O mundo viu um renascimento do ornamento, do enfeite, do negro, do dúbio, do floral, do véu, o satânico, o exagero. A curva retomou seu posto de rainha de estilo. A vida como arte, o eu como construção consciente de beleza. Se voce quer que eu vulgarize, a música pop de Incredible String Band, Soft Machine, Gong, música floral, cheia de arabescos, surpresas, tintas e noites, discos como o Satanic dos Stones, Sgt Peppers, Forever Changes do Love. Capas, olhos árabes, vitrais art déco, música indiana, marroquina, flamenco...A beleza, a busca da beleza como única fé, a religião do BELO.
  E hoje? E 2015?
  Uma luta neste vale-tudo do mercado que é o mundo. Um planeta que virou um bazar de vidro e pedra. De um lado a hiper-funcionalidade. Beleza sendo conceito relativo, ou pior, futil. Estranhamente esse conceito se tornou quase religioso, pois ele no fundo nega a matéria. Se voce nega a beleza do olhar e do tato, voce está negando o mundo sensual, o mundo da matéria. Voce vive no mundo da função, do pensamento e do fazer imaterial. É quase um universo cego. O Brasil ama esse mundo. Por tradição somos ligados a cegueira. Prédios todos iguais, ruas sem ornamentos, funcionalidade que em nosso trágico caso, nunca funciona. Estamos no pior dos dois mundos.
  E há a luta pela preservação da beleza. Que se transformou no culto ao prazer egoísta. Cultua-se o belo imaginando que a beleza vive no status. Na saúde. No chique. É uma tradição que inexiste no Brasil. Ou melhor, sobre- vive numa natureza que ensina a filosofia da beleza, do excesso, da curva exuberante. Mas nós odiamos essa beleza. Cuspimos nela. A sinuosidade de um riacho, canalizamos. Ele parece ser não funcional.
  Para mim, beleza cura tudo. Essa a sabedoria dos gregos, dos católicos, dos românticos, dos art nouveau, dos fauve. A beleza dá sentido ao que parecia absurdo. Ela nos consola, nos guia, nos justifica. A curva pode mais que a reta. O sinuoso absurdo seduz. 
  John Keats, em 1810 estava certo:
  a thing of beauty is a joy for ever.

JOYCE, RICHARD ELLMAN

   O pai de James Joyce, John Joyce. Que homem! Foi um grande cantor, voz de tenor que se tornou lenda. Herdeiro de várias propriedades, hipotecou tudo, ano a ano, e quando James fez 21 anos, a família estava na absoluta miséria. O pai, John, tinha tantos talentos que jogou fora todos. Sabia navegar, desenhar, inventar, contava histórias, criava ideias. Jogador de rugby, de boxe, nadador mestre. Amigo de todos, mudava de casa como quem penteia o cabelo. Beberrão. Um personagem de John Ford. Real.
  John teve onze filhos. James Joyce foi o primeiro. O pai adorava o filho. O filho amava o pai. Em seus livros existem montes de personagens baseados no pai. James tinha mais seis irmãs e quatro irmãos. O pai ignorava a todos, menos James. A mãe era caseira, chorosa, forte, e morreu aos 44 anos. 
  James Joyce foi educado em escolas jesuítas. Isso serviu para lhe dar agudeza. E também para o fazer romper com o catolicismo. Joyce era egocêntrico, vaidoso, frio e terrivelmente talentoso. Sempre foi o melhor aluno da classe e sempre ofendia os professores, amigos, mestres, outros escritores, com sua mania de falar a verdade, de se achar acima de todos, mais inteligente, mais talentoso, especial. James Joyce se tinha na conta de um gênio desde cedo. Ele foi sempre áspero com Yeats, com Lady Gregory, Synge, todos talentos reconhecidos e que o ajudaram em seus começos. Todos suportavam Joyce porque viam nele o gênio.
  James não gostava de Shakespeare. Seus favoritos eram Ibsen, Tolstoi, Flaubert e principalmente Dante. Seu estilo logo se modelou. Joyce escreveria sobre gente e situações banais, mas mostraria nessa banalidade o extraordinário. Transformaria o homem do século XX, o homem anônimo, no Ulysses urbano.  Realismo extremado pintado como mito grego, lenda etrusca, arte latina. James jamais esqueceu da grandeza de John Joyce. 
  Passou fome em Paris, sempre a procura de trabalho, sempre esnobe, sempre fora do padrão. Richard Ellman não tem medo de mostrar o quanto Joyce era antipático, distante e ferino. Sua voz, era um grande cantor também, bela, feria e encantava. Impressiona a confiança que ele sempre teve em si-mesmo, inabalável. 
   Estou na página 220, Joyce com 22 anos, prestes a descobrir o estilo dos Dublinenses, seu grande livro de contos. Emocionante. Ellman também escreveu biografias de Wilde, Yeats...seu estilo é minucioso, preciso, documentado. Para quem ama literatura, este imenso volume é um paradiso.
  PS: É minha segunda leitura. Dez anos depois.